Eu lutei com você por tanto tempo
Eu deveria ter deixado você entrar
Oh, como nos arrependemos do que fazemos!
(Be my escape –RelientK)
Ebriedade.
Essa era uma palavra que estava sempre presente no meu vocabulário, de uma forma ou de outra. Talvez, se eu não gostasse tanto de beber, isso nunca tivesse acontecido. E é nesse momento que você para e se pergunta: você queria ter impedido tudo isso? Sinceramente, eu não sei. No final das contas, eu já estava tão profundamente marcada – na mente, no corpo, na alma – que nada ter acontecido parecia impossível.
Mas, vamos voltar ao começo, não é? Ebriedade. Uma festa da família Vongola. Eu sempre achava que essas festas eram coisas muito engraçadas. Todos aqueles mafiosos, espadachins, atiradores, tesoureiros, enfim, todos os que participavam da família sempre em momentos de tensão, juntos, se divertindo.
Ou melhor, quase todos. E, por um monte de coincidências do destino – incluindo que naquele dia, eu resolvi que não beberia vinho, e apenas uísque – essa história começou.
Edredom.
Puxei o cobertor macio mais para cima, até cobrir meus olhos da incômoda luz do sol que penetrava por uma fresta das cortinas. Minha cabeça doía como nunca. Maldito uísque. Uísque era a única bebida que realmente conseguia me derrubar. Que me fazia esquecer meus atos do dia anterior, que me deixava com dor de cabeça e mal-humorada o dia inteiro. Então, por que eu tinha resolvido tomar uísque naquela fatídica noite? Talvez porque eu esperava voltar pra casa sozinha.
Foi então que eu percebi que aquele edredom preto não era meu. Que aquela cama não era a minha, e que eu nunca deixava frestas nas cortinas depois de uma noite de festa. Meu coração começou a acelerar loucamente, quando eu resolvi tentar sair de fininho. Com sorte, o cara do meu lado não se lembraria também de mim. Mas talvez eu devesse dar só uma espiadinha, ver quem tinha sido o sortudo da vez.
Virei meu rosto lentamente, e ele não estava mais na cama. Estava sentado no sofá, as pernas esticadas, e me encarava com um olhar brilhante de... alguma coisa. Eu não sabia definir esse olhar, e eu estava me sentindo gelada por dentro, com um medo estranho. Puxei o edredom mais para perto.
Oh, céus. O que eu tinha feito?
Efeito.
— Hum — falei, me sentindo meio incomodada. Droga, droga, droga. — Bom dia.
Ele apenas estreitou os olhos. Sempre soube que ele não era muito simpático. Ele nunca aparecia nas festas, então por que foi particularmente para aquela? Eu forcei a mente, só para tentar lembrar como tinha acabado naquela situação. E que situação. Minha melhor amiga teria rido da minha cara, se ela não tivesse tanto medo dele quanto todo mundo. Eu entendia o medo que as pessoas tinham dele, é claro. Sóbria e só de calcinha na cama dele, aquele medo me consumia mais do que tudo. Mas tentei colocar um sorriso no rosto.
Quem você quer enganar, Giulietta? Você dormiu com o líder da Varia.
— Então... hã... Xanxus... acho que já vou indo — me levanto rapidamente, buscando minhas roupas no chão. Me visto de costas para ele, mas sinto o olhar me perfurando. Uau. Se eu me lembrasse de alguma coisa da noite de ontem, com certeza seria bem melhor. Esse sujeito tem cara de quem é bom de cama.
Fui em direção à porta, mas ele agarrou meu braço. Meu corpo inteiro estremeceu com aquele aperto de ferro, e precisei de todo meu autocontrole para olhá-lo como se olhasse qualquer um, e não um cara famoso pelas pessoas que tinha matado. E por quase ter matado o Décimo.
— Desmarque tudo o que você tem para hoje à noite, Giulietta.
Ele me soltou. Franzi a testa. Ele realmente achava que podia sair mandando desse jeito em mim? Até pensei em começar uma discussão, mas ninguém sai brigando com o líder da Varia como se não fosse nada. Simplesmente assenti. E saí de lá, colocando na cabeça que nunca mais iria vê-lo de novo.
Efêmero.
Esse meu pensamento não durou muito. Quando estava dobrando o corredor que daria no meu quarto, vi aquele inconfundível vulto parado na porta. Meu coração acelerou imediatamente. Não porque eu estivesse apaixonada ou algo do tipo. Afinal de contas, o que eu já tinha compartilhado com o Xanxus? Aparentemente, uma noite de sexo. A gente já tinha se visto de vez em quando, mas só. Sempre o achei muito gostoso, mas nunca iria me meter com aquele cara.
Foi o que eu pensei o caminho todo, até a porta. Ele me encarava.
— Vamos?
— Acho que não, Xanxus — tentei dizer, o mais calmamente possível. — Acho que fica pra próxima.
Ele parecia me fuzilar com o olhar. Sempre diziam que o Xanxus não aceitava uma negativa, que sempre obrigava as pessoas a fazerem o que ele queria. Mas ninguém pode obrigar uma garota a fazer algo que não quer. Mordi o lábio.
Ele não parecia querer me obrigar a nada, então deu meia-volta e saiu. Suspirei, aliviada, abrindo a porta do quarto e pensando que tinha me livrado dele. Bem. Eu achei que tinha me livrado dele, mas meu subconsciente pensava diferente. Rapidamente, me arrependi da decisão.
Fechei a porta do quarto.
— Ei! Espera.
Eflúvio.
Esse cara é diferente.
Eu notei isso pelo cheiro. Quero dizer. Muitos caras têm um cheiro agradável. Mas o Xanxus, particularmente, me dá vontade de ficar com o nariz no pescoço dele o dia inteiro. Ele cheira muito bem. E eu tinha um pouco de medo dele, mas agora só quero ficar mais perto... Aliás, por que eu tinha medo dele, mesmo? Ah, sim. Por causa dos boatos. Meros boatos. Mas eu sou Giulietta D'Angelo, afinal de contas, e nenhum cara deveria me assustar.
— Por que você estava tão bêbada noite passada? — ele interrompe o silêncio entre nós. Levanto a cabeça do meu prato de comida, franzindo a testa. Eu não tinha achado o silêncio constrangedor. Eu poderia simplesmente ter ficado lá, jantando e sentindo o cheiro dele vindo lentamente na minha direção, por conta do vento. Mas Xanxus aparentemente preferiu falar algo um tanto quanto... indelicado. Dei de ombros.
— Bebi uísque. É a bebida que me deixa mais...
— Inconsciente?
— Consciente o suficiente para dormir com você, não é? — falei, arqueando as sobrancelhas.
— Consciente o suficiente para começar a tirar as roupas no meio da festa, até que eu tive a iniciativa de carregá-la para o meu quarto.
Okay. Eu não vi isso vindo. Engasguei.
— Bem... — coloquei a mão na garganta. — Eu... muito obrigada, então. Você não precisava cuidar de mim.
— Você é alguém de quem vale a pena cuidar — ele falou com simplicidade, e a minha vontade de cheirá-lo dobrou. Qual era a desse cara?
Égide.
— Eu tenho medo dele — Raven falou. Raven não era muito de admitir medos para qualquer um, mas nos conhecíamos desde pequenas, e não tínhamos nenhum segredo. — Mas me pareceu uma coisa bem legal, ele te impedir de fazer um strip-tease em público, né, idiota? — revirou os olhos. — Eu deveria ter ido pra essa festa. Por que você foi beber uísque, hein?
— Porque eu estava estressada com o trabalho — respondi, jogando um travesseiro em Raven. — Podemos focar no problema, por favor?
— Que é...?
— Que é eu ter achado que nós tínhamos feito sexo louco e selvagem e embriagado. Mas, no final das contas, ele simplesmente resolveu que iria me ajudar. Sem a gente nunca ter conversado direito antes. Ele me viu passando por uma situação crítica e tomou uma iniciativa que a maioria das pessoas que estavam naquela festa, que são meus comumente amigos, nem pensou em tomar. E eu sei que estavam todos bêbados, e eu comecei mais no cantinho e não no centro de tudo, mas algumas pessoas viram... E só ele me ajudou. Xanxus, o psicopata-mor.
Raven deu um sorriso pelo que eu tinha dito, mas logo abraçou o travesseiro que antes tinha sido usado como arma contra ela. Franziu o cenho para mim.
— Giulietta...
— Sim?
— Me explica de novo o que aconteceu depois que ele revelou a verdade pra você?
— Eu engasguei e quase morri sufocada. Tirando isso, eu fiquei... um pouco envergonhada. Não sei por que, Raven. Você me conhece. Eu não fico envergonhada por essas coisas, normalmente. Mas tem algo no jeito dele que...
— Ah, não! — Raven bateu com a mão na testa. — Não, Giulietta, logo o Xanxus? Entre todos da Vongola?
Ah, maldita Raven. Eu sempre tentei esconder meus sentimentos, mas não conseguia fugir dela. Só que eu não estava querendo ser julgada, exatamente. Eu já estava me julgando demais.
— Cala a boca, Raven. Imagine só, eu mal falei com o cara — ri. — Você sabe como eu detesto me apaixonar.
Mas Raven apenas bufou.
— Fale o quanto quiser, mas não adianta mais. Eu te conheço.
Batidas na porta. Raven me olhou levemente assustada. Nós já sabíamos quem era, e por saber disso, meu coração se acelerou em antecipação. Droga. Fui até a porta, tentando parecer leve, mas eu me senti um tanto pesada pela epifania de que era Xanxus. Não na porta, quero dizer. Na minha mente.
— Oi — sussurrei por nada, saindo do quarto e fechando a porta atrás de mim.
— Gostaria de almoçar com você — ele falou, bruto como sempre. Revirei de leve os olhos. Será que eu me acostumaria com algo assim?
— Eu... — devia negar. Para o meu próprio bem. Mas com aquele olhar sobre mim, era impossível. — Amanhã?
E a surpresa de ele ter sorrido me deixou em choque por alguns segundos.
Eixo.
— Obrigada — murmurei, meio emburrada. Por que esse mau-humor, Giulietta? Você não é a Raven. Deve ser efeito dele.
Não pense isso, Giulietta. Controle-se. Forcei um sorriso, olhando para a água do copo que ele havia me servido. Até pelo reflexo eu conseguia sentir a mentira.
— Você não precisa se comportar assim. Eu não sou seu inimigo. Longe disso — ele me olhava com a intensidade feroz de sempre. Jesus, como será que ele fazia isso? Treinando na frente do espelho? Ninguém tem o olhar assim apenas por ter.
— Estou... normal — continuei mentido da maneira mais terrível possível. Xanxus sofreu uma pequena alteração no rosto, um esgar de desgosto.
Então aconteceu.
Você sabe o momento que muda tudo? Foi aquele momento. Xanxus levantou-se da mesa em que almoçávamos, deixando dinheiro sobre ela, e me pegou pelo braço, puxando-me pra fora. Mas não... brutalmente. Delicado. De um jeito inimaginável. Estávamos do lado de fora quando ele parou na minha frente, pondo as mãos nos meus ombros.
— Se quiser ir embora, agora é a hora — falou. Olhei pra ele quase assustada. Nem tinha me ocorrido ir embora. Talvez minha chateação fosse por isso. Eu simplesmente não queria ir. Balancei a cabeça, negativamente.
— Olha, Xanxus. Sua reputação é famosa, sabe? — dei um sorriso pra disfarçar a tensão. — Como líder da Varia e tudo... hã, e teve tudo o que rolou com o Décimo também... — a menção do líder da Família, ele apertou de leve meus ombros, respirando fundo. Opa.
— Sei o que você está pensando. E eu sou tudo isso. E fiz tudo isso. E não me arrependo. Mas existe... mais.
Foi aí.
Plim.
Existe mais.
É claro que existia mais – existe mais em todos nós, afinal de contas. E desde o dia do Resgate da Bêbada Stripper eu soube que havia mais. Foi com uma profunda consciência disso que me aproximei e o beijei.
N/A: STEFANY, eu sinto muito. Primeiramente, todos os capítulos estão terrivelmente ruins, mas esse foi especialmente o pior deles. Eu sou toda travada com teus caras de Reborn. VEI, eles são impossíveis. O Xanxus basicamente arrancou meus couros, comigo tentando escrevê-lo. E ainda ficou OOC. Porque deixar o Xanxus IC é basicamente deixá-lo um homem incrivelmente abusivo e mau? Desculpe. Mas vamos lá. SURPRESA. Etc. Daqui pra frente vai ficar mais fácil (insira uma risada de gente sabida)
(obs: eflúvio é um odor sutil. égide é defesa, proteção.)
(obs: ainda bem que só tu lê isso, mulher. que vergonha.)
