Talvez você me deixe cuidar de você
Proteger o que encontrei em você
E nunca deixar morrer de fome
Então, dessa forma, você me deixa ficar
(Daredevil – Fiona Apple)
a face que mudou tudo
Sofia não saberia descrever aquele momento depois. Foi muito singular. Havia todo aquele sol pela janela, e o murmurinho dos alunos fazendo deveres. E ele lá, logo na mesa ao lado da entrada da luz. Isso parecia quase ridículo, uma cena tola de um filme de romance, ela pensou. Não que tivesse visto muitos filmes, mas das vezes que Lily a arrastara para o lado trouxa de Londres, isso acontecera. Mas lá estava Sirius, que ela conhecia desde os onze anos, de um jeito totalmente diferente. Ainda que igual. O cabelo preto um pouco mais longo do que no ano anterior. E os olhos cinzentos um tanto mais sérios. Ela havia sabido por Remus que ele fugira de casa para morar com os Potter. Devia ser isso.
Sirius levantou os olhos do pergaminho e olhou direto para ela. E sorriu. E Sofia sentiu um leve embrulhar no estômago, e sorriu de volta para ele. O mesmo rosto. O mesmo sorriso despreocupado e convidativo de sempre, quase chamando-a para se sentar perto dele, mas sem fazê-lo. Sofia ficou tão concentrada em todos os detalhes que pareciam se sobressair agora que esqueceu de terminar de ler o capítulo de Hogwarts, Uma História para o relatório. A mesma face. Testa ampla, nariz pontudo, lábios finos, algumas espinhas aqui e ali. Como Sirius podia ter o mesmo rosto de sempre e ela senti-lo tão... diferente?
Ela tinha mapeado aquele rosto com a ponta dos dedos, um ano antes. Mas havia terminado, certo? Não adiantava tentar perceber pequenas alterações no rosto dele que nem deviam existir de verdade. Não podia ter uma recaída.
um pequeno facilitador
As mãos de Sofia suavam agarrando o cabo da vassoura. James foi até ela, o sorriso fácil de sempre.
— Olha, como capitão do time eu não posso falar esse tipo de coisa... — ele sussurrou. — Mas eu obviamente estou torcendo por você, Sofs — ele deu uma piscadela e ela lhe sorriu. Então, olhando para todos os outros que iam tentar a vaga de artilheiro no time da Grifinória, James adquiriu outro tom de voz. — Vamos, Dumont! — exclamou para ela. — Você primeiro. No campo! — e impulsionou a vassoura. Sofia sorriu com o desafio.
Estivera nervosa quando estava no chão, mas ao subir viu que Lily e Dorcas agitavam os braços, torcendo por ela. Isso renovou seu ânimo. E ela jogava Quadribol desde sempre, certo? O campo era seu lugar. É com você agora, disse para si mesma. E voou para acompanhar James.
Não deixou a goles cair uma vez sequer. E, para seu grande truque final... respirou fundo. Uma das manobras mais perigosas do Quadribol. Parou com a vassoura a noventa graus, muito perto da área. David Baker, o goleiro, a olhou espantado. Sofia arremessou a goles para o alto, e no segundo que ela parou no ponto mais alto da trajetória, desmontou da vassoura e a usou como um bastão. Baker nem mesmo se mexeu quando a goles atravessou o gol zunindo.
Lily e Dorcas gritavam. Sofia já estava de volta na vassoura, o coração mais acelerado do que nunca e um sorriso no rosto. Os membros do time urravam. James se aproximou dela, os olhos impossivelmente arregalados.
— Dumont! Uma Pancada de Finbourgh! Perfeita! Impressionante! Acho que estou tendo um ataque de êxtase aqui — o Potter estava extremamente impressionado. Sofia sorriu, confiante.
— Andei praticando — falou, diminuindo muito os tombos que levara treinando aquela manobra. Alguns hematomas ainda doíam. Mas valera a pena. Ainda faltavam quatro grifinórios para tentar a vaga de artilheiro, mas Sofia já tinha certeza de que seria dela.
— Por alguma razão, ainda vou ter que testar os outros... — James balançou a cabeça. — Devia ter deixado você para o final, se sabia que seria tão boa assim. Mas é bom que assustou todo mundo — ele riu.
Sofia ainda sorria quando voltou ao chão, todo o time da Grifinória indo saudá-la. Inclusive Sirius.
— Uau, Dumont — ele falou, puxando-a pelo braço para longe do alvoroço. Sofia estava extasiada demais para se sentir tensa com aquele contato. — Vai ser muito bom ter você no time, sabia? Aliás, você deveria ter entrado antes. Por que escondeu... tudo isso?
Sofia passou a mão pelos cabelos um pouco suados.
— Não sei — deu de ombros. — Acho que pensei que vocês se viravam sem mim, mas se nós perdemos a Taça pra Corvinal no ano passado, bem... — ela debochou de leve e Sirius riu.
— Vou ignorar sua ofensa, porque aquela derrota não foi nada menos que humilhante. Mas com uma artilheira como você e ainda mais tendo o James... — Sirius assobiou. — É bom deixarmos um lugar separado para a Taça desse ano.
— Sofia! — gritou Dorcas, correndo para alcançá-la. Antes mesmo de piscar, Sofia sentiu o abraço da loira. Retribuiu. — Fazia muito tempo que meu coração não acelerava assim numa partida de Quadribol!
— Obrigada pela parte que me toca — resmungou Sirius. Dorcas e Sofia apenas riram.
a primeira fagulha
Foi um instante depois do treino.
Sofia tinha acabado de sair do vestiário, e avistou Sirius parado na entrada. Arqueou as sobrancelhas. Ele sorriu ao avistá-la.
— Dumont, devo dizer que você se superou hoje — ele disse, começando a andar para acompanhá-la, com as mãos nos bolsos. — James tem sorte de já ser o capitão, porque se não fosse por isso...
— Que exagero — Sofia balançou a cabeça. — James sabe lidar com as pessoas do time. Provavelmente eu só gritaria com todo mundo.
— Que nada — ele parou, pensativo. Sofia parou também. Ainda estava escurecendo, estavam próximos da entrada do castelo. Alguns alunos iam pelos corredores, direto para o Grande Salão. — Olha ali — ele indicou com a cabeça, e Sofia o viu. Regulus Black. Ele quase parecia com Sirius, os cabelos mais curtos, bem mais magro e franzino. Estava ao lado de uma aluna da Lufa-lufa. — Dá pra acreditar? — Sirius balançou a cabeça negativamente.
— O que? Que seu irmão tem amigos? Eu, hein. Esperava mais de você... — ela sorria quase provocativa. Sirius virou-se, parecendo ofendidíssimo.
— Esse tipo de pessoa não merece amigos! Ainda mais uma amiga da Lufa-lufa. Ou de qualquer casa. Enfim, foi por gente como ele que eu fui embora.
Sofia balançou a cabeça: — Todo mundo merece uma chance.
— Até eu?
Ela se virou para ele, a expressão surpresa. Sirius dava um sorriso divertido, os olhos cinzentos brilhando. Ela ficou sem fala por uns instantes e balançou a cabeça.
— Sirius... nós já...
— Eu sei — ele soltou um muxoxo. Sofia fez menção de continuar a andar, mas ele continuava parado. — Eu só acho que poderia ser diferente.
Ela o olhou, alarmada. Era tentador demais. Sentiu o mesmo embrulho no estômago de sempre. Mas, pela sua sanidade, apenas balançou a cabeça, voltando a caminhar sem olhar para trás.
quando fingir se tornou a única solução
Ela casualmente passou a frequentar o Salão Comunal em horários diferentes. Lily quase estranhou como ela sempre ia muito cedo ou muito tarde para as refeições. O único lugar que ela tinha que ser pontual - além das aulas, claro, mas não fazia diferença: bastava sentar longe - era o campo em dia de treino de Quadribol.
Sofia descobriu que ignorar era mais difícil do que pensava. Principalmente quando tinha que fazer um esforço consciente para não perceber o olhar de Sirius perfurando suas costas, ou as vezes em que ele passava perto dela com a vassoura. Era mais difícil ainda fingir que estava achando melhor ele parecer ter aceitado a distância entre eles.
a fleuma termina
Foi o primeiro jogo deles, e eles arrasaram com a Sonserina. A apanhadora, Blake Bezarius havia feito uma belíssima captura de pomo - mas o jogo já estava ganho graças aos artilheiros. Sofia nunca havia marcado tantos pontos como naquele dia. Quando desceu, suada e cansada, James correu para abraçá-la.
Ela estava tão feliz que ao sair do abraço de James, virou-se para abraçar a pessoa mais próxima. E por meio segundo, não se importou em ser Sirius. Mas quando sentiu os braços dele rodearem-na, seu coração pareceu afundar um pouco no peito. Ela pensou em se afastar, afinal, aquilo era melhor para os dois, certo? O fim das brigas e tudo o mais. Mas ele parecia tão diferente naquele dia, sob a luz do sol, ela lembrou.
Então, ela escorregou na postura que resolvera ter. E num ato quase impensado, levantou sua cabeça para a de Sirius, beijando-o de leve. Afastou-se, sem ter muita certeza de como aquilo seria recebido. Sirius a olhava intrigado.
— Até eu? — ele perguntou. Ela respirou fundo.
— Até você — e tornou a beijá-lo.
uma pequena visão de futuro
— Não vamos fazer isso de novo, certo? — ele falou, entrelaçando os dedos com os dela. Sofia assentiu.
— Eu achei você... diferente. De antes. Talvez seja isso.
— Eu devo estar mesmo. E você também.
Ele a puxou para mais perto, beijando o cabelo dela.
— Dessa vez... para sempre, então? — ela disse, olhando de soslaio pra ele. Sirius assentiu, e Sofia não podia imaginar um final melhor para o sexto ano.
N/A: ESSA ERA A GRANDE SURPRESA! Eu troquei de fandom. E vou fazer isso até o fim. Porque não ia aguentar 23 fics com KHR HAHAHAHA Então, Sirius/Sofia. Que eu achei que facilitaria as coisas, mas ainda assim, foi tenso de escrever e não estou totalmente satisfeita. Mas foi super de coração, como sempre.
