Primitivo
Capítulo 1 – O Trasgo Dançante
"Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"
Bukowski.
Bom, eu não era exatamente a imagem perfeita do sucesso em Hogwarts. Claro, me dava em melhor lá do que na escola trouxa, mas, ainda assim, tentava a todo custo não chamar muita atenção.
Meus cabelos continuavam mais vermelhos do que eu podia suportar, e meus olhos brilhavam naquele verde–vivo irritante. Cresci muitos centímetros durante a puberdade, tornando-me uma das garotas mais altas do meu ano. Para completar, como uma cereja colocada no topo do sorvete, havia acabado de receber uma coruja informando que eu havia sido nomeada monitora-chefe.
Isso arruinava definitivamente meus planos de passar despercebida. Nunca o consegui de fato, é verdade, pois minha tal beleza exótica atraía olhares de todos os lados por onde andava, mas – eu fiquei feliz em constatar – depois de um tempo, as pessoas se cansam de ver somente beleza, e passam a procurar pessoas verdadeiramente interessantes, o que não era meu caso.
Não havia mudado muito. É claro, minha vida havia mudado, mas eu continuava a mesma garota de cabelos vermelhos com menos auto-estima que um trasgo montanhês, conforme meus pais insistiam em repetir toda vez que me viam cabisbaixa. Continuava achando que não era nada além de um rosto bonito, apesar de ter me dado muito bem em algumas matérias, como Defesa Contra as Artes das Trevas e, principalmente, Poções, e continuava tentando a todo custo me afastar das pessoas antes que elas percebessem o quão sem graça eu realmente sou.
Seis anos haviam se passado desde o dia em que eu recebi a carta que mudou a minha vida. No entanto, me encontrava no mesmo lugar de seis anos atrás, com a mesma cara emburrada, e com a minha irmã gritando as mesmas coisas sem sentido que sempre gritava quando eu estava em casa, nas férias de verão.
Eu bufei, revirei os olhos, e me levantei da cama de um salto, abrindo a porta e colocando somente a cabeça pra fora. Olhei para minha irmã, parada ao pé da escada, berrando que eu era uma aberração que deveria ser colocada no zoológico, e, reunindo minhas forças, gritei o mais alto que pude:
- CALE A BOCA, PETÚNIA, ANTES QUE EU TE TRANSFORME NUM ESPANADOR DE PÓ!
E bati a porta do quarto com força, o chão tremendo por causa do impacto.
- VOCÊ OUVIU ISSO, MAMÃE? ELA ESTÁ ME AMEAÇANDO! COMO OUSA, SUA ANORMAL? – Petúnia se virou para mamãe.
Eu ainda podia ouvir Petúnia, mesmo com a porta do quarto fechada, e meu rosto ganhava uma coloração avermelhada, exatamente da cor de meus cabelos. Sabia como era minha aparência quando ficava nervosa e meus olhos verdes deviam estar escuros e estreitos enquanto eu estrangulava um ursinho de pelúcia com a mão direita.
Era sempre assim, desde que eu havia descoberto que era uma bruxa. A nossa relação nunca foi a mais amigável, mas nós mantínhamos um mínimo de decência. No entanto, depois que Petúnia me viu chegar em casa trazendo uma varinha, um caldeirão e uma coruja – Petúnia odiava animais – tudo havia se transformado numa imensa bola de neve.
A mínima coisinha era suficiente para deixar Petúnia de cabelos em pé. A qualquer menção de Hogwarts, ou qualquer coisa relacionada a magia, Petúnia se levantava e saía do aposento em que estivesse. Dizia que nossos pais não deviam ter orgulho de algo assim, mas só dizia quando eles estavam longe de vista. Como tinham muito orgulho de mim, Petúnia se lamentava somente com seu namorado, Válter Dursley, que concordava com ela em todos os sentidos e sempre que ia à nossa casa, me lançava olhares de desprezo, que eu fingia não notar.
Depois de alguns anos de brigas que faziam estremecer as bases da casa, havíamos decidido nos ignorar por completo. Eu agia como se fosse filha única, e o mesmo fazia Petúnia. Estávamos muito satisfeitas com o acordo, mas papai e mamãe não gostavam nem um pouco dele. Tentavam a todo custo nos juntar, impedindo-nos de sair uma sem a outra, e nos obrigando a nos sentarmos perto, para que "colocássemos a conversa em dia".
Um pedaço de mim morria toda vez que era obrigada a dividir o mesmo aposento com Petúnia. Ela me lançava olhares de nojo e ficava extremamente rígida, talvez com medo de, sem querer, encostar-se em mim e pegar alguma doença contagiosa. Eu também não facilitava as coisas. Sempre que podia, murmurava palavras sem sentido perto dela, que soltava um grito abafado e saía correndo, achando que eu estava lhe jogando um feitiço; às vezes, quando estava realmente disposta, andava pela casa com a varinha na mão, uma expressão de loucura no rosto, e ficava seguindo-a por onde ela fosse, só para assustá-la. Os castigos eram piores quando eu resolvia fazer isso, mas sempre achei que valiam extremamente a pena.
No geral, ir para a casa durante as férias de verão era agridoce. Rever papai e mamãe era sempre muito bom – eu sentia muita saudade deles – mas Petúnia sempre arranjava um jeito de tornar tudo um pedacinho de inferno na Inglaterra.
Em Hogwarts, a coisa era completamente diferente. Eu não tinha muitos amigos; minha timidez dava um jeito de sempre me manter afastada dos demais, mas me divertia muito com os que tinha. Conheci Trillian Montgomery, uma puro-sangue de cabelos negros e pele morena, ainda no Expresso de Hogwarts, quando, ao tentar me desviar de uma azaração, tropecei no seu malão e caí sobre a garota. Gelei, achando que ela me transformaria num sapo, mas ela apenas riu e me ajudou a levantar.
"Potter, você vai ter que fazer melhor do que isso!", gritou para o garoto que havia lançado a azaração, que, por coincidência, era o mesmo garoto que havia falado comigo em King's Cross e me ajudado a atravessar a plataforma. "Não ligue pra ele, ele é um bundão", Trillian me disse, ainda com um grande sorriso no rosto. Eu tentei sorrir de volta, mas estava demasiado nervosa para tanto. Ficamos nos olhando em silêncio por um tempo, até Trillian me pegar pelo braço e começarmos a caminhar à procura de uma cabine vazia.
"Acho que essa daqui está boa, não?", perguntou, ao entrarmos em uma cabine no fundo do trem. Eu somente concordei com a cabeça. "Você está bem? A azaração te acertou?"
"Não, está tudo bem", eu conseguiu me forçar a falar, depois de perceber o olhar preocupado de Trillian. "Só estou um pouco nervosa."
"Ah, mas acho que isso todos estão. Meu nome é Trillian Montgomery."
A garota me estendeu a mão, e eu a apertei.
"Lily Evans."
"Muito prazer, Lily."
E assim havia começado. Pode parecer um pouco bobo, mas, quando se tem onze anos e se está em um lugar completamente novo, qualquer desculpa é suficiente para uma amizade começar. Não havíamos nos desgrudado desde então.
No segundo ano, depois de um acidente numa aula de Transfiguração, na qual, sem querer, transformei a boca de uma menina no bico de uma ave, me tornei amiga de Audrey Anderson. A Profa. McGonagall me obrigou a levar a menina, que chorava desesperadamente, à enfermaria, e, durante o caminho, tivemos de nos esconder para evitar que um grupo de alunos do sexto ano visse o bico de Audrey. Depois, eu fiquei com pena de deixá-la sozinha na enfermaria enquanto sua boca voltava ao normal – ela parecia bem frágil, com aqueles cabelos louros caídos em seu rosto numa tentativa frustrada de esconder o bico, e aqueles olhos castanhos imensos me encarando, me fazendo sentir culpada – e decidi lhe fazer companhia, também com a intenção de distraí-la, já que Madame Pomfrey disse que quanto mais se pensa sobre o problema, mais ele demora a ir embora.
Então, ao voltarmos ao Salão Principal – já era hora do almoço – e nos sentarmos, juntamente com Trillian, na mesa da Grifinória (nós três pertencíamos à mesma casa), havíamos nos tornado amigas.
A minha terceira amiga em Hogwarts era, na verdade, um amigo. Mais precisamente, um ex-namorado. Tyler Lisbon era um corvinal alto, com cabelos louros e olhos azuis, o peito forte devido ao Quadribol e... um babaca. Agora que havíamos terminado, e o máximo de babaquice que ele fazia era com outras garotas, eu não o achava de todo ruim. Ele era, quando se parava para reparar, um tanto divertido. Era um ótimo guia para o universo masculino (não que eu andasse muito por lá – relacionamentos com o sexo oposto não eram o meu forte), mesmo sem saber, e sempre conseguia levantar minha moral quando eu me sentia pra baixo.
Namoramos durante o quarto ano inteiro, ano que eu agora denominava como "Ano Trevas", e que havia me deixado de cabelos em pé. Era um garoto que, assim como eu, chamava muita atenção por sua beleza, mas – e é aí que estava o problema – diferentemente de mim, Tyler gostava da excessiva atenção e puxa-saquismo que recebia. Eu mal pude piscar durante esse ano, já que, quando o fazia, ao abrir os olhos, deparava-me com alguma garota pulando nos braços do meu namorado. Ele, claro, se fazia de inocente, mas eu sabia que aquela cara de anjo só servia para esconder o verdadeiro canalha que ele era. Terminamos no final do ano letivo, eu com a certeza de que nunca mais sequer ouviria sua voz (ele fora um pouco contra o fim do relacionamento), mas, para minha total surpresa, no ano seguinte, encontrei um rapaz completamente diferente do que conhecia.
Quando estávamos juntos, Tyler mal podia ouvir falar de Trillian e Audrey. Achava que minhas "amigas solteiras" me levariam pro mau caminho. No entanto, quando nos encontramos no saguão do castelo, no primeiro dia do ano letivo, ele as recebeu com um abraço quase tão caloroso quanto os que dava em mim. E então ele passou a se sentar na mesa da Grifinória, coisa que nenhuma das garotas, de nenhum ano, nunca reclamou, ou nos arrastava para a mesa da Corvinal, coisa que nenhuma das garotas, de nenhum ano, nunca aprovou.
Agora, eu estava entrando no sétimo ano da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Sentia que fora há tanto tempo o dia em que havia recebido aquela carta, aquela carta, que mudou minha visão sobre todas as coisas; mas, ao mesmo tempo, sentia que sete anos não era tempo suficiente para aproveitar Hogwarts e tudo que vinha agregado a ela!
Levantei-me vagarosamente da cama e fui em direção ao banheiro. Eram quase dez horas e tinha combinado de me encontrar com Trillian às onze. Era sexta feira à noite e a notícia que corria o mundo jovem bruxo era de uma nova discoteca em Londres, O Trasgo Dançante, obviamente invisível para trouxas, a qual qualquer um que fosse alguém deveria estar freqüentando. Liguei o chuveiro, despi-me e, afastando os pensamentos nostálgicos de Hogwarts de minha cabeça, entrei no chuveiro.
Era quase meia noite, e Lily estava sentada no bar d'O Trasgo Dançante, bebendo uma cerveja amanteigada e conversando com sua amiga Trillian. Audrey não pudera ir – algum problema com sua lareira a impediu de usá-la para chegar até lá – e Tyler iria com uma menina que elas ainda não conheciam.
- Você tem que parar de ser tão tímida – Trillian falava alto para a amiga, devido ao barulho da música.
- Eu não sou tão tímida assim! Só não sou... você!
- Não sei muito bem o que você quis dizer com essa afirmação, mas, para o bem de todos, vou fingir que não a escutei – Trillian fingiu estar emburrada.
- Desculpe, mas você tem que entender que não é todo mundo que se sente confortável sendo o centro das atenções.
- Eu sei que não! Mas também não pode ficar se escondendo a vida inteira, né?
- Eu não me escondo! – Lily tomou um gole de sua cerveja para disfarçar.
- Tá ok, então. O que eu estou tentando dizer é que o adianta você ter esse cabelão, esse corpão, esse rosto de deusa, se você não aproveita?
Lily corou ao comentário da amiga, e não respondeu.
- Tem que se divertir agora que é jovem, linda, livre e desimpedida! Depois fica velha e acabou tudo! – Lily riu.
- Também não é assim, Trillian. Ficar velho não é morrer!
- Depende do ponto de vista! Agora, levanta da cadeira e leva esse traseiro fabuloso pra dançar e ser paquerado pelos caras – Trillian se levantou, puxando o braço de Lily para a pista de dança – Vamos!
Lily se levantou, ainda um pouco tímida, e foi com Trillian para a pista de dança. Apesar de sempre ter se achado uma péssima bailarina, esse tipo de música mais dançante lhe empolgava. Não era uma boa dançarina, é claro, estava longe disso, mas Lily dançava com o coração, e isso convencia a todos.
A música pulsava em sua mente, enchia seus ouvidos e fazia com que seu cérebro mandasse todo o seu corpo se mexer. Levantou um dos braços e balançou os quadris no ritmo da música. Fechou os olhos, deixando-se levar, balançava os cabelos ruivos e compridos e hipnotizava alguns homens ao redor, que a olhavam estáticos, imaginando como uma pessoa podia ser tão bonita assim.
O salto alto no pé lhe incomodava um pouco, mas estava acostumada; às roupas apertadas, também. Lily sentia como se estivesse flutuando, como se não houvesse mais ninguém à sua volta, apenas ela e a música tocando. Seu corpo acompanhava a batida e ela foi andando pra trás, sem perceber, apenas seguindo o ritmo da música. Pisou em algo com seu salto altíssimo e finíssimo, e ouviu um "ai" de alguém atrás de si. Desligou-se da música e, ao se virar, deparou-se com olhos castanhos cobertos por lentes de um óculos redondo muito conhecido.
Por um segundo, ficou sem saber o que fazer, olhando para o garoto e ele a olhando de volta, os dois mudos, parados no meio de toda a movimentação das outras pessoas.
- Desculpe – murmurou, sem saber se ele a havia ouvido, deu as costas e saiu andando. O garoto continuou parado por um tempo, pensando que não se lembrava de Lily ser tão bonita assim. Sorriu, olhando para onde ela tinha ido e se virou, continuando a dançar com a bela morena à sua frente.
- Acabei de encontrar com o nosso eterno afeto – Lily se sentou ao lado de Trillian em um dos bancos do bar.
- Nosso eterno afeto? – a amiga lhe encarou, sem saber a quem ela estava se referindo.
- Potter – disse, virando-se em direção ao bar e pedindo outra cerveja amanteigada. O barman sorriu, piscando para Lily de um jeito malicioso. Ela fingiu que não viu.
- Potter – a amiga repetiu, lhe lançando um olhar malicioso e uma risadinha. Lily a olhou não achando a menor graça.
- Vai ficar repetindo tudo que eu digo? – retrucou, grossa.
- Falou com ele? – Trillian ignorou as patadas da amiga; já estava acostumada.
- Não. Eu esbarrei nele enquanto andava. Só pedi desculpas e saí – Lily pegou sua cerveja amanteigada, agradecendo o barman, que tentou puxar papo, mas foi gentilmente cortado pela ruiva. Trillian a olhou estarrecida.
- Como assim? Você acha o Potter um gato!
- Como assim "como assim"? Você queria que eu fizesse o quê? Agarrasse o garoto? – Lily tomou um gole de sua bebida.
- Claro que não, porque eu sei que você nunca faria isso, mas pelo menos puxasse papo, né? Ele garoto estuda com você!
- Estuda com você também! Porque você não vai lá falar com ele?
- Me mostre onde ele está que eu vou – disse, sorrindo e olhando ao redor.
Lily bufou, emburrada.
- É sério! Não só o James é lindo, mas também é super gente boa, Lily. Você devia dar uma chance a ele, não sei o que tem entre vocês que vocês não se batem.
- Exatamente.
- Exatamente o quê? – Trillian parou com a garrafa na metade do caminho até a boca.
- Não tem nada entre a gente. A gente simplesmente não se bate. Além do mais – Lily continuou depois de um tempo – ele estava dançando com uma morena bonitona.
- Quem se importa com uma morena bonitona? Você é uma ruiva bonitona, meu amor! – Lily sorriu para a amiga.
- Trillian...
- Nem vem, Lily Evans. Você sabe que eu estou certa!
- Eu sei que você é louca! Venha, vamos dançar.
Puxou a amiga pelo braço e caminharam até a pista de dança, voltando a dançar.
Lily estava se sentindo um pouco desconfortável. Trillian dançava agarrada com um garoto, que ela reconhecia ser um setimanista da Sonserina, bem na sua frente; e ela não sabia o que fazer, se ficava ali vendo a amiga se agarrar com o sonserino (coisa que ela sabia que ouviria a amiga reclamar em arrependimento de ter feito), ou se saía, deixando-a nas mãos de um sonserino que ela mal conhecia. Continuou dançando, virando-se devagarzinho para ir embora – Trillian sabia se cuidar sozinha – quando sentiu uma mão tocando sua cintura. Virou-se num pulo, assustada, e se deparou com os mesmos olhos castanhos de antes.
- Lily.
A voz era extremamente simpática, e Lily tinha vontade de estourar os próprios miolos sempre que a ouvia.
- Potter.
Ela se afastou delicadamente – ele estava perigosamente perto – e lhe lançou o olhar mais cruel que tinha, aquele que normalmente só direcionava à sua irmã, Petúnia.
Sentiu que ele deu uma leve vacilada – seu olhar assassino era poderoso – mas não se afastou. E então, Lily começou a se sentir sem graça com aquele par de olhos lhe encarando tão profundamente. Verdade seja dita, ele era bonito, era charmoso e sabia como conquistar uma garota, e, embora Lily nunca tivesse sido uma delas, ela não sabia o que aconteceria com ele ali tão perto.
Não precisou esperar muito para descobrir. O vômito de palavras começara:
- Olha, me desculpe pelo pisão no seu pé. Eu sei que deve ter doído, porque o meu salto é bem fino, mas eu não tive a intenção e bem... só queria que você soubesse que eu sinto muito. E desculpe também não ter falado com você direito naquela hora, mas você estava acompanhado e eu não queria atrapalhar, sabe? Então achei melhor ir embora. Na verdade, pensei que encontraria você novamente, em Hogwarts, e aí poderia pedir desculpas adequadamente, mas você veio falar comigo, então isso não será necessário, não é mesmo?
Parou, um pouco ofegante, e ficou esperando alguma reação do garoto. Ele apenas sorriu.
Onde estava com a cabeça? Falar assim que nem uma maluca? Ela mal conhecia o garoto! Tudo o que sabia sobre ele era que ele havia causado sua amizade com Trillian, ao lançar aquela azaração ainda no primeiro dia de aula do seu primeiro ano, no Expresso de Hogwarts; que achava que uma maneira divertida de passar o tempo era convidá-la pra sair sempre que a via, pois sabia que Lily não era a mais bem relacionada das pessoas; e que ele e mais três amigos, comumente chamados de Os Marotos, eram o terror de Hogwarts.
Tudo aquilo era culpa de Trillian. Trillian e suas palavras de que "James não só é bonito, mas também é super gente boa, você deveria dar uma chance a ele, Lily".
Certo. Uma chance. Já havia sofrido azarações demais sem lhe dar nenhuma chance. Continuou o olhando, esperando que ele dissesse alguma coisa – qualquer coisa -, pois qualquer coisa seria melhor do que ele fez a seguir.
Ele sorriu.
Mas não foi um simples sorriso. Foi aquele sorriso; aquele seu melhor sorriso, ao qual ele sabia que ninguém conseguia resistir; e um buraco se abriu sob os pés de Lily.
- Parece que a Trillian está se divertindo bastante, hein?
Ele apontou com a cabeça para Trillian que, a essa hora, estava aos beijos com o sonserino. Lily corou furiosamente, abaixando a cabeça. Potter pareceu achar graça.
- Por que a gente não vai num lugar mais calmo conversar? – ele perguntou, ainda com aquele sorriso no rosto, e Lily estava prestes a dizer "Claro, vamos já", mesmo com os gritos de seu instinto lhe dizendo "NÃO FAÇA ISSO!", quando alguém a salvou.
Lily poderia dizer que fora seu cavalheiro na armadura brilhante, mas ele deixara de sê-lo já há algum tempo, desde o quarto ano.
- Lily, finalmente te achei!
A garota sentiu um par de braços musculosos lhe envolvendo a cintura e, no momento seguinte, tudo que viu foram aqueles cabelos loiros que ela tanto conhecia. E, apesar de não ser muito fã dessa mania de abraçar que Tyler tinha, ficou muito agradecida do amigo ter lhe salvado de James Potter.
- Tyler! – Lily disse, tentando respirar com os braços do amigo lhe esmagando.
- Potter – Tyler disse de uma maneira extremamente formal, e estendeu uma mão para o grifinório, que a apertou relutantemente.
- Lisbon.
Lily sabia que os dois também não se davam bem. Desde o terceiro ano, por causa de um mal-entendido envolvendo as duas casas sobre, é claro, não podia ser outra coisa, Quadribol.
- Eu estou interrompendo alguma coisa?
Tyler perguntou de uma maneira como se dissesse que era bom não estar interrompendo nada, ou alguém ia se dar mal.
- Não.
- Sim.
Lily e Potter responderam ao mesmo tempo, se olharam e Lily passou seu olhar a Tyler, enquanto Potter continuou com seu nela.
- Acho melhor vocês se resolverem – a voz de Tyler indicava confusão, Lily a conhecia muito bem.
- Só estávamos conversando.
Lily respondeu rudemente. Odiava quando Tyler inventava de lhe tratar possessivamente, como se ainda estivessem namorando.
- E eu estou atrapalhando a conversa? – ele perguntou, cruzando os braços, olhando para Lily bravo.
- Na verdade, está.
Nem Lily acreditou quando essas palavras saíram de sua boca. Potter sorriu, finalmente dizendo algo.
- É, Lisbon, acho melhor você se resolver e dar o fora daqui.
Lily prendeu sua respiração. Os dois se olhavam ameaçadoramente. Sabia que não devia ter feito aquilo – os dois se odiavam e qualquer coisa seria desculpa para uma briga, mesmo algo como Lily Evans.
Ela olhava de um para o outro; os dois quase da mesma altura, sendo James um pouco mais alto e Tyler um pouco mais forte. Os dois se encarando, a tensão crescendo, Lily já podia imaginar narizes sangrando e dentes quebrados, quando ela se resolveu e fez a segunda coisa na noite que nem ela acreditava que tinha feito.
Segurou a mão de Potter e o puxou para longe de Tyler, dizendo que seria ótimo conversar em um lugar mais calmo. Ele tentou se soltar, para poder voltar e brigar com Tyler, mas Lily não permitiu.
- Mas que coisa! – falou, empurrando Potter para uma cadeira no bar. Ele mantinha um sorriso malicioso no rosto.
- Não que eu esteja reclamando, Lily, de maneira nenhuma, mas pra falar a verdade, não era exatamente esse o lugar mais calmo que eu queria que a gente fosse, e não era exatamente conversar o que eu queria que a gente fizesse.
Lily fechou os olhos e se concentrou o máximo que podia. A raiva que sentia ao ouvir aquelas palavras do Potter era tanta, que ela sabia que dessa vez daria certo. Respirou fundo e, com um sorriso cínico no rosto, abriu os olhos, lançando a Potter o seu melhor olhar assassino.
O sorriso no rosto do garoto se desfez. Sua boca se abriu levemente, em susto, e ele se levantou.
- A gente se vê por aí.
E se foi, sustentando um sorriso meio sem graça. Lily se sentou na cadeira que ele antes ocupava e enfiou o rosto nas mãos, desejando nunca ter se levantado da cama e ido àquele lugar.
