Primitivo
Capítulo 2 – Desentendimentos no trem
"Se fosse nos dado o poder mágico de ler a mente uns dos outros, o primeiro efeito seria sem dúvida o fim de todas as amizades."
Bertrand Russel.
Estávamos atrasados. De novo.
Isso já estava ficando ridículo! Todo ano era a mesma coisa! Mamãe e papai, na noite anterior à partida, me mandavam arrumar o malão para que não nos atrasássemos no dia seguinte. Quando me cansava de ouvi-los reclamar, ia até o meu quarto, jogava tudo de qualquer jeito no malão e prometia acordar bem cedo no dia seguinte para deixar tudo em ordem.
Mas nunca acordava. Bem cedo no dia seguinte, quero dizer.
Posso dizer, com toda certeza, que isso foi um dos motivos que mais gerou briga entre meus pais e mim. Tinha de fazer alguma coisa para mudar essa situação. Então, no sexto ano, decidi parar de lutar contra o destino e, em vez disso, abraçá-lo. Percebi que era muito mais fácil me esquecer do malão e de todas as coisas esparramadas pelo meu quarto, que precisava arrumar, do que do que sofrer por antecipação, pensando dolorosamente nelas e em como seria horrível ter de arrumá-las sem magia.
Então, na manhã da partida – não bastando o fato de eu nunca acordar na hora certa, quem dirá mais cedo – tínhamos todos que correr pra lá e pra cá feito malucos, pegando livros, penas e tinteiros que eu espalhava por todos os cantos da casa (gosto de sempre variar o local de minhas lições de casa. Acho que me deixa mais... criativa) e jogá-los dentro do malão, que a cada ano parecia ficar menor, já que sempre era mais difícil fechá-lo.
Papai dizia que eu levo muitas coisas. Eu digo que são todas necessárias.
Petúnia, como sempre, fazia um bico do tamanho do mundo. Nós duas odiávamos ter que ficar uma perto da outra, mas nossos pais insistiam que ela tinha que ir me dar tchau quando estivesse partindo pra Hogwarts. Não sei por que. Ela nunca atravessava a plataforma mesmo (pelo menos, não depois do meu terceiro ano, quando ela completou dezessete anos e começou a namorar Válter Dursley) e, quando chegávamos mais ou menos perto da plataforma, ela ia se distanciando de nós, como se nos abominasse e não quisesse ser vista com gente da minha laia. Murmurava um 'adeus' fraquinho, eu acenava só para não magoar papai e mamãe, e era isso. Uma total perda de tempo. Minhas viagens até King's Cross seriam muito mais divertidas se Petúnia ficasse em casa, ou saísse com o idiota do namorado dela.
Quando já estava tudo pronto, corríamos até o carro e as únicas multas de trânsito que papai já recebeu por excesso de velocidade foram nesse dia. Acho que até deve ter uma maneira de alunos que chegaram atrasados e perderam o Expresso irem para Hogwarts, mas papai e mamãe são trouxas e eu nunca me preocupei em saber sobre isso (apesar de que devia, seriamente), então sempre íamos o mais rápido possível até a estação.
Quando chegávamos entre as plataformas nove e dez, e nos encostávamos levemente na parede, atravessando a barreira até a Plataforma 9 ½, o Expresso de Hogwarts já chiava pela terceira e última vez, então tínhamos que nos despedir rapidamente, e eu corria até o trem.
Preciso dizer aqui que papai sempre chorava quando nos despedíamos. Não era um escândalo, com lágrimas rolando por sua face enquanto ele grita "Oh, Lily". Seus olhos apenas ficavam úmidos e ele comprimia a boca de uma maneira esquisita, dizendo que sentiria saudades. Alguém poderia até achar fofo, mas depois de sete anos, começa a ficar um pouco cansativo.
Nada havia de diferente esse ano.
Corri para o trem, joguei meu malão de qualquer jeito lá dentro (mas com muita dificuldade. Ele parece não só ficar menor a cada ano, mas também mais pesado), mas como sempre, não consegui ir até a janela me despedir de papai e mamãe como os outros alunos, porque novamente estou super atrapalhada, tropeçando em coisas e pessoas e desviando dos olhares assassinos que recebo por fazer tanta bagunça. Mas não é de propósito. Certas pessoas são naturalmente desastradas e... hum... talvez seja por isso que nunca me dei bem no balé.
Recupero minha dignidade – que a essa hora já está espalhada por todo o trem, tentando desesperadamente fugir de mim e achar alguém que a mereça – e caminho até o final do trem, procurando Trillian e Audrey. Gostamos bastante de nos sentar no último vagão, porque sempre fica mais vazio e podemos conversar mais a vontade. Pena que desde o quinto ano, quando fui nomeada monitora, não consigo mais passar o tempo que gostaria na cabine falando abobrinhas com Trillian, Audrey e Tyler, que sempre aparece mais tarde, já todo descabelado e desarrumado, porque estava se agarrando com alguma garota numa cabine vazia qualquer.
Encontro-as, sentamo-nos e começamos a conversar sobre qualquer coisa. Depois de algum tempo (nunca sabemos ao certo, ele sempre varia, dependendo do humor da garota em questão), Tyler aparece e começa a nos encher a paciência, já que isso é o que ele faz de melhor, mas sempre nos faz rir, o que é uma coisa boa, eu acho. Quero dizer, é pelo menos uma melhora, já que antes ele simplesmente me deixava extremamente irritada e magoada e provocava ódio em Trillian e Audrey, por todas as sacanagens que fazia comigo.
Porém, não vamos nos prender no passado. Aposto que até um homem como o diretor Dumbledore já fez suas besteirinhas aqui e ali, e, convenhamos, se até ele já errou, quem somos nós para não fazê-lo?
De vez em quando aparece algum amigo de Trillian, Audrey ou Tyler que eu não conheço e fica pela cabine, conversando e me deixando sem graça. Geralmente, é nessa hora a minha deixa para ir ao compartimento dos monitores e começar a ronda pelos corredores e vagões.
Quando volto à cabine, encontro meus três melhores amigos com a cara fechada, resmungando que eu sou uma idiota, que eu nunca chegaria a lugar nenhum assim, e "como você vai fazer alguma coisa da sua vida se não consegue nem encarar pessoas desconhecidas, Lily?"
Eu me viro, obrigada.
De qualquer jeito, esse é meu último ano em Hogwarts e eu estou ficando meio... desesperada. Quero dizer, foi há sete anos que eu recebi a carta que mudou a minha vida, e aquele foi, sem dúvida, o melhor momento dela, mas eu ainda não estou preparada para abandonar Hogwarts. Aquele castelo imenso, com suas torres e torrinhas, e toda a magia que há ali. Ainda nem descobri todos os segredos do castelo!
Tudo bem que eu não sou muito de ficar zanzando por aí quando há coisas a se fazer, mas, poxa, eu vejo, por exemplo, Black, Potter, Lupin e Pettigrew comentarem sobre as novas passagens do castelo (eles têm uma certa mania irritante de sempre se sentarem perto de mim, e aí Potter fica puxando papo e me enchendo a paciência, tentando se exibir, e eu sempre acabo escutando o que eles aprontam) e eu nunca sei de nada disso!
Trillian e Audrey dizem que eu preciso me divertir mais, que se eu não cumprir alguma tarefa da monitoria alguém irá fazê-lo, mas eu acho muito injusto deixar minhas responsabilidades sobre o ombro de outras pessoas, então respondo que, quando eu terminar de fazer o que tenho de fazer, nós podemos zanzar por aí e descobrir o castelo. Mas, sabe como é, eu tenho realmente muitas coisas pra fazer, então nunca dá tempo. Aí elas começam a reclamar, dizendo que eu nunca me divirto, que minha cara vai ser cheia de rugas quando eu chegar aos vinte anos, que meu cérebro vai atrofiar se eu não fizer nada para mim, em vez de para os outros. É tudo mentira, claro. Eu me divirto bastante, a meu ver. Durante essas férias, por exemplo, eu saí todos os finais de semana!
Só porque nunca bebi demais, nunca azarei ninguém por diversão, nunca matei aula, ou coisas do tipo, elas acham que eu não me divirto. Pois eu me divirto, sim!
Para provar isso, este ano farei algo que nunca tentei antes.
Farei do meu último ano em Hogwarts o meu melhor ano em Hogwarts.
Não serei mais aquela menina tímida que mal abria a boca. Afinal, agora eu sou monitora-chefe e terei que abrir a boca mesmo que não quiser. Havia pensado muito sobre isso durante as férias, desde que recebi a carta me informando da novidade. Queria morrer toda vez que me lembrava que agora eu comandaria os outros monitores, de todas as casas; que organizaria as rondas; que seria a mim a quem recorreriam para tirar dúvidas. Durante meu tempo de monitora, nunca tirei dúvidas com os monitores-chefes. Nunca tive muitas dúvidas, é verdade, já que o trabalho de monitor não era tão difícil, somente ficar de olho nos alunos e cumprir as rondas que os monitores-chefes programavam.
Irei agora – e eu estava decidida – libertar meu verdadeiro eu. Irei livrar-me de minhas inseguranças e mergulhar num poço de auto-estima. Ninguém me reconhecerá como a velha Lily Evans de antes, que andava de cabeça baixa nos corredores e não pronunciava uma palavra em público ou com pessoas que não conhecia.
Preciso fazer ronda, mas Trillian e Audrey me chamaram para fofocar? Ei, você aí, monitor do quinto ano, faça essas rondas pra mim e anote tudo.
Tenho que entregar relatórios gerais ao Diretor e revisar os relatórios das casas dos outros monitores, mas Tyler precisa de ajuda para contrabandear cerveja amanteigada de Hogsmeade? Se virem sozinhos, seus monitores preguiçosos, revisem seus próprios relatórios! Aproveitem e façam o relatório geral pra entregar ao Dumbledore! Sem erros gramaticais!
Profa. McGonnagal passou um trabalho que vale um quarto da nota para entregar, mas eu estou afim de descansar na beira do lago? Se der tempo eu faço!
Vai ter festa na Grifinória por causa do Quadribol até de madrugada? Tô dentro!
Desconhecidos vêm falar comigo? E aí, cara? Qual é a boa?
Potter vem me encher o saco, me chamando pra sair novamente? Foda-se você, Potter!
Farei isso, com toda certeza.
Hogwarts, prepare-se! Lily Evans está chegando.
Ah, meu Merlin, eu nunca disse foda-se antes.
"Eu acabei de ter a idéia do plano, não posso colocá-lo em prática assim, sem nem ao menos uma revisão dos fatos", Lily pensava, enquanto suas amigas conversavam animadamente com um grupo de estudantes que havia acabado de entrar na sua cabine, e que a ruiva não conhecia muito bem. Permanecia calada, com a cabeça baixa e os cabelos compridos cobrindo parcialmente seu rosto vermelho de vergonha. Odiava estranhos.
- ... não é, Lily? – Audrey lhe perguntou, rindo. Lily levantou a cabeça, não muito certa do que dizer. Sempre bloqueava seus ouvidos em situações como essa, quando várias pessoas conversavam e ela não as conhecia, apesar de estar no meio delas.
Olhou para a amiga, que ainda sorria animada, depois para a Trillian, que gargalhava e então para o grupo de pessoas na cabine, todas familiares – já os havia visto em Hogwarts – mas com quem Lily não possuía contato.
"Odeio ter amigas populares", pensou, olhando debilmente para Audrey, que, percebendo o embaraço da amiga, rapidamente mudou de assunto.
Lily rapidamente puxou um livro do malão e começou a lê-lo, tentando a todo custo ignorar as vozes na cabine. Encostando a cabeça na janela, Lily olhava as páginas sem prestar atenção. Decorrido algum tempo, ouviu suas amigas se despedindo, e logo a cabine estava ocupada somente por ela, Trillian e Audrey.
- Lily, realmente...
Audrey resmungou e, quando Lily a olhou, encontrou a amiga com uma expressão desacreditada, como se não conseguisse se convencer que Lily havia feito isso novamente.
- O quê? – a ruiva tentou parecer inocente.
- Precisava enfiar a cara no livro desse jeito? Você os conhece, por Merlin, e não tem coragem de trocar uma palavra com eles! Depois reclama que não tem amigos...
- Eu nunca reclamei que não tinha amigos! Acho você e Trillian suficientes!
- Ah, que bom saber que eu sou apenas o bonitão sem nenhum conteúdo.
Tyler havia acabado de entrar na cabine. Com os cabelos louros caindo sobre os olhos intensamente azuis, Lily se deixaria derreter por ele, se não o conhecesse. O garoto sentou ao seu lado e a comprimiu contra a janela da cabine; seus ombros pareciam ter crescido ainda mais no verão.
- Cale a boca! - Trillian falou, porém com um sorriso. Tyler riu abertamente, mostrando os dentes brancos e alinhados.
- Como foram de verão? Tenho certeza que deve ter sido horrível sem mim, mas vejo que sobreviveram – então se virou para Audrey – mesmo que com uma aparência abatida devido à minha ausência – ele tirou uma mecha do cabelo loiro da amiga de seus olhos e colocou-a atrás da orelha. Audrey o espantou como se ele fosse uma mosca irritantemente grande. O garoto riu mais ainda.
- Acredite ou não, nós sobrevivemos muito bem sem você. - Trillian disse, cruzando os braços.
- Lily com certeza sobreviveu muito bem – Tyler respondeu, mas dessa vez sua voz tinha um leve quê de amargura. Lily corou furiosamente; Trillian e Audrey olharam-na curiosas: a ruiva não havia lhes contado sobre o pequeno incidente com Potter.
- Cale a boca, Tyler – rosnou para o amigo.
- Não, senhora! Pode ir desembuchando, Tyler. Porque Lily sobreviveu tão bem assim?
Lily quase podia ver a amiga franzina crescendo diante de seus olhos. Audrey sempre parecia inchar quando algo a intrigava. Ao contar-lhe que estava namorando pela primeira vez, há três anos, Lily viu a amiga chegar a quase sete metros. Quando disse que era com Tyler Lisbon – BUM! – onze metros.
- Bom, Lily parecia estar se divertindo um bocado quando fomos ao Trasgo Dançante, há três semanas – Tyler fazia questão de manter um tom displicente na voz, para que, quando finalmente revelasse o que acontecera, o impacto fosse maior. Os olhos de Trillian se estreitaram, Audrey estava com quase quatro metros agora.
- O que aconteceu no Trasgo Dançante? Só porque eu não pude ir! – Audrey reclamou, inclinando seu corpo na direção de Tyler, os ouvidos sedentos para saber a história.
Tyler a olhou, um sorriso malicioso nos lábios. Lily quase podia estrangulá-lo, se não tivesse voltado todas as suas forças em abrir um buraco no chão e por ele desaparecer, antes que ele terminasse a história.
- Fiquem sabendo que essa é só a minha versão dos fatos. Lily aqui poderia contá-los muito melhor, embora ache que ela não o fará. Talvez... – e um lampejo de maldade passou por seus olhos azuis – James Potter também possa fazê-lo melhor.
Instantaneamente, Trillian e Audrey se viraram para ela, as duas com expressões confusas em seus rostos. Porém, enquanto Trillian permanecia com as costas apoiadas no banco e os braços displicentemente cruzados, Audrey parecia uma fera prestes a atacar.
- O que aconteceu com James?
Trillian a olhava curiosa, agora cutucando uma das unhas, seus olhos negros neutros. Lily sabia que os dois eram amigos e estranhava que Potter não houvesse contado o ocorrido a ela. Também, Lily pensou em seguida, se tivesse contado, a amiga já teria lhe perguntado sobre isso há muito tempo.
- Não aconteceu nada...
- Lily e ele estavam bem a vontade um com o outro, se é que vocês sabem o que eu quero dizer.
Tyler a interrompeu e, ao olhá-lo, Lily reconheceu, sem sombra de dúvidas, o brilho nos seus olhos que sempre indicavam ciúmes. Era típico de Tyler.
- Como assim? – Audrey estava sentada na ponta do banco, o tronco inclinado em direção a Lily; ao passar os olhos por Trillian, a ruiva percebeu, perplexa, um quase sorriso se formando nos lábios da amiga.
- Não é nada disso que esse trasgo está falando. Potter veio me perturbar novamente quando estávamos lá e esse aqui – ela apontou para o garoto sentado ao seu lado – resolveu que seria uma boa hora pra arranjar confusão. Então tive de tirar Potter de lá e foi simplesmente isso, ninguém ficou a vontade com ninguém.
Audrey ainda a olhava ameaçadoramente e Trillian mantinha uma expressão relaxada, como se sempre soubesse que aquilo estivesse pra acontecer. Lily se irritou.
- Por que é que vocês estão com essas caras?
Trillian deu uma risadinha e Lily sentiu vontade de esganá-la.
- Por que você não nos contou isso antes?
- Não tinha nada pra contar, Audrey! Era simplesmente Potter sendo o mesmo ser irritantemente abominável de sempre! Se eu contasse a vocês todas as vezes que ele me enche a paciência, não faria nada na minha vida além disso!
- Ainda assim! - continuou Audrey - Isso foi diferente, Lily. Potter pode lhe importunar em Hogwarts quando não acha nada melhor para fazer – Trillian bufou e olhou a amiga indignada – mas fazer isso quando estão em uma festa, cheia de garotas lindas, provavelmente mais velhas para ele dar em cima – Tyler soltou um sorrisinho convencido e murmurou "com certeza" – me parece um pouco...
A voz da amiga morreu.
- O quê? – Lily rebateu rudemente, fazendo os três amigos a olharem.
- Não sei, faz parecer que ele passou da fase de brincadeiras e talvez esteja genuinamente interessado em você.
Dessa vez, foi a vez de Lily de rir.
- Façam-me o favor! Potter parece dedicar sua inteira existência a me encher o saco, teria que ser um feitiço muito poderoso para fazê-lo mudar sua perspectiva. Além do mais, ele não estava nem um pouco diferente. Levou cada palavra que falei no mau sentido e não desperdiçou nenhuma oportunidade de me aborrecer. As coisas que ele disse...
- Lily, você tem que admitir que isso está passando um pouco dos limites da brincadeira. No sexto ano, mal houve um dia em que Potter não fizesse... comentários, por falta de palavra melhor, sobre você, ou a convidasse pra sair.
- Isso é porque não há nada mais naquela cabeça dele além de quadribol e azarações! Ele tem que achar uma maneira divertida de passar o seu tempo, não?
Trillian soltou um resmungo, mas Lily não entendeu o que era.
- Não sei, não, Lily.
Lily encarou a amiga, incrédula. Agüentava Trillian e sua amizade com Potter, já que os dois se conheciam desde o nascimento, por serem ambas as famílias muito tradicionais no mundo bruxo e terem freqüentando, por esse motivo, os mesmos lugares. Mas Audrey sempre fora seu refúgio quando se tratava de James Potter. Ela também não gostava muito dele, apesar de Lily achar que era por pura lealdade a ela. Já viu a amiga conversando com ele e com os outros Marotos algumas vezes, e sempre pareceu se divertir, apesar de relutante. Então, era a ela que Lily desabafava sobre como Potter a aborrecia, como ele conseguia tornar mesmo os dias mais felizes em pura irritação; e a amiga sempre a apoiava, concordando com tudo que dissesse e ainda ajudando a xingá-lo. Trillian nunca estava por perto quando faziam isso, é claro, se retirando assim que começavam a reclamar, mas, assim como ela não dizia nada enquanto as duas acabavam com Potter, Lily também se mantinha calada sobre a amizade dos dois.
No entanto, ver Audrey defendendo o mesmo rapaz que tantas vezes haviam xingado, que tantas vezes a havia deixado triste, irritada e magoada... Lily simplesmente não podia agüentar!
- Bom, é bom saber que todos acham Potter tão bonzinho, e tão bem intencionado. Ei, quem sabe ele não esteja realmente falando sério quando transforma minha vida num inferno?
- Não seja dramática...
- Não estou sendo dramática – Lily interrompeu Audrey – Gritando nos corredores o que ele chama de elogios, interrompendo aulas com gracinhas sobre mim, recitando poemas em Hogsmeade sobre a semelhança entre meus cabelos e o fogo de sua paixão por mim! Talvez todos achem muito engraçado, mas como eu me sinto com isso tudo? Se já não fosse o suficiente toda a atenção que eu chamo por causa da... – minha beleza, Lily ia dizer, mas não conseguiu. Sabia que seus amigos entenderiam a que ela se referia - e pelo meu péssimo desempenho em algumas aulas, ele ainda arma um circo no qual eu sou atração principal, mesmo sem saber!
Seus amigos ficaram em silêncio, no qual só se podia ouvir o som da respiração ofegante de Lily. Eles sabiam que o que James fazia não era para humilhá-la de maneira nenhuma, mas, por causa da personalidade extremamente tímida e introvertida de Lily, era nisso o que se transformava cada gesto de James que chamasse o mínimo de atenção para ela. Porém, nenhum deles se atreveria a dizer isso a ela.
- Não acho que você deveria dar muita bola para o que o Potter diz ou faz, Lily. Talvez você tenha razão, e ele não tenha achado ninguém para aborrecer, no Trasgo Dançante, então, quando lhe viu, foi direto fazê-lo, quem sabe apenas para não perder o costume.
O tom de voz de Audrey era quase como se se desculpasse. Trillian permanecia impassível, e Lily não conseguia distinguir a expressão em seu rosto.
- Então eu agradeceria muito se vocês parassem com insinuações de que há algo mais... nisso. Eu sei que Potter é minha sina em Hogwarts, e esse será meu último ano na escola e, quem sabe, com alguma sorte, eu nunca mais tenha que vê-lo novamente, então estará tudo certo.
A ruiva balançou a cabeça e seus longos cabelos vermelhos chacoalharam. Olhou pela janela a paisagem que passava como um borrão por eles, devido à velocidade do trem. Maldita hora em que Tyler abriu a boca. Desviando o olhar da paisagem, olhou para cada um dos amigos. Tyler parecia mal saber o que estava acontecendo, enquanto cutucava um fio solto nas suas vestes; Audrey permanecia com um olhar intrigado em sua face; era, porém, a reação de Trillian que lhe chamou a atenção. A amiga não parecia confusa, ou intrigada. Parecia, pelo contrário, aborrecida com as palavras de Lily e Audrey. Balançava a cabeça negativamente, batendo um dos pés repetidamente no chão, bufando ruidosamente, e lançando olhares de censura às duas amigas, como se elas tivessem lhe ofendido. Depois do que pareceram horas de silêncio, alguém finalmente falou:
- Você vê James de uma maneira tão estreita quanto Petúnia lhe vê, Lily. Ele não é simplesmente um saco de azarações e piadas que joga na primeira pessoa que aparece quando não acha nada melhor para fazer – Trillian imitou Audrey – Talvez você devesse baixar esse muro que construiu à sua volta e começar a perceber que há mais nas pessoas do que os olhos conseguem ver, e que James talvez seja uma delas. Afinal, se não fosse assim, o que você seria além da garota trouxa com uma beleza extraordinária?
Sem mais nenhuma palavra, Trillian se levantou e deixou a cabine, murmurando algo como "vou ao banheiro". Junto de Audrey e Tyler – que parecia ter recobrado a consciência no que estava acontecendo depois das palavras de Trillian –, Lily ficou olhando o espaço que a amiga deixara vazio, pensando no que ela acabara de dizer. Sentiu uma pontada no peito quando suas palavras lhe atingiram. "O que você seria além da garota trouxa com uma beleza extraordinária?"
