Parte I - O Triângulo

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

(Vinicius de Moraes)

"Porque não há nada perdido que não posso ser achado, se não for procurado."

(Sonetos de Shakespeare)

Como podia ser tudo tão branco? A neve que cobria absolutamente toda a paisagem da Inglaterra se unia ao céu no horizonte deixando tudo de uma cor só. Não havia naquele terreno ao fundo da casa dos Blacks uma só folha verde ou pedaço de terra marrom, vermelha ou roxa para destoar do todo. A única coisa que havia, discreta e solitária, era uma árvore esquelética na qual, abaixo, Draco Malfoy se encontrava.

Draco não era mais o mesmo, seria difícil ainda continuar imutável a todas as adversidades. Na verdade, há muito tempo não sabia quem era. Se fôssemos muito ao passado poderíamos ver o menino mimado, egoísta, preconceituoso e impessoal, mas Draco não era mais mimado, ele aprendera a se virar sozinho, e a impessoalidade não era total, afinal tivera compaixão por seu melhor amigo, e não era mais tão preconceituoso, vivera entre trouxas e se afeiçoaram a alguns, bem poucos por sinal. Mas ainda era egoísta e isso não havia mudado e iremos descobrir por quê...

Porém, ainda que sua personalidade estivesse desconexa, seu físico era uma mudança notável. Os cabelos loiros platinados haviam crescido e lhe caiam como uma cascata de fios, uma barba rasa e incômoda, que o fazia coçar a face de vez em vez, estava crescendo e contribuindo com sua palidez mórbida, se não a piorando.

A neve começou a cair, todos abriram seus guarda-chuvas negros, o loiro também o faria se ao menos tivesse um. Para se proteger do frio, ele apenas botou a mão nos bolsos do sobretudo e encolheu-se. Vendo esta cena, alguém se apiedou dele e lhe cedeu um lugar embaixo de um guarda-chuva, teria agradecido se pelo menos tivesse notado tal ato.

Havia muito tempo que as coisas ao seu redor lhe passavam despercebidas. Havia muito tempo que Draco se sentia espectador da sua própria vida.

Ele observava as pessoas do funeral. Do seu lado oposto estava Blaise, Grandemere Zabine, Ninfadora e sua tia Andrômeda, as últimas Blacks vivas, além dele. Ao seu lado direito, Grandemere Malfoy e como sempre algum jornalista e seu fotógrafo, Narcisa teria gostado disso. Mesmo dentro do caixão. Ao total, sete pessoas com o padre. Grand finale, não? Não. Draco duvidava que aquilo fosse certo, ninguém vinha a essa vida para acabar assim, despercebido. Mas em sua mente aquilo só podia ser o reflexo de sua mãe em vida: poucas pessoas a prestar condolências a Narcisa Black Malfoy, todas por obrigação e nenhuma por saudade. Talvez, sua tia Andrômeda fosse sentir a falta da irmã, mesmo sendo uma ingrata aquela irmã.

O padre perguntou se alguém gostaria de dizer alguma coisa. Andrômeda começou. Logo, a atenção do loiro foi direcionada para a lápide de sua mãe.

Narcisa Black

1962-2008

Nada de "amada esposa" ou "mãe dedicada", nenhuma declaração de saudade eterna. Seca, direta e vazia, outro reflexo da vida na morte. Seus olhos o levaram para além de Blaise, na tão igual lápide de Bellatrix. O que o fez concluir que, até depois da morte, a vida ainda está presente, mesmo que seja na lápide de mármore frio.

- Há alguém chegando. – disse a voz de sua avó carregada no sotaque francês. – Quem é, Draco? – perguntou, já que a vista lhe faltava ao longe. Depois, acabando por descobrir sozinha de quem se tratava, chegou à conclusão que teria sido melhor ter ficado quieta.

- Espere. – falou tarde. – Blaise, por favor! – ela pediu.

Quando Draco se retirou do enterro, todos se voltaram para ver o que estava ocorrendo e todos entenderam assim que viram quem estava ali. Ninguém ousou evitar, tudo que rondava os Malfoys era pesado e amaldiçoado e meter-se nisso era pedir para aquela maldição lhe envolver junto. Na verdade, ninguém não: Blaise foi atrás do amigo, mas quem seria melhor para isso que Blaise Zabine, com um filho morto e uma suposta mulher em coma?

Dizem que aquele que odeia se sente assim porque amou demais. Talvez, longinquamente, isso se aplique ao loiro que, como toda criança, desejou o amor do pai, mas depois percebeu que isso não existia em sua família. Sentiu um pouco de raiva pela frustração, teria passado indiferente se seu genitor não tivesse desgraçado a vida de todos a sua volta e não tivesse tornado a dele um inferno tão igual ou pior que ao que deveria ser este local em verdade. A loucura de Narcisa, a morte de seu avô, aquela marca perpétua em seu antebraço esquerdo, que nunca ia deixar de assustar todos quando aparecesse, aquela marca sempre estaria ali o lembrando do passado. Tudo isso, direta ou indiretamente tinha as digitais de Lucius Malfoy gravadas.

E era por isso que, a cada passo que ele dava e marcava a neve, naquela nevasca que se engrossava, seu ódio se tornava mais forte. Acabar com ele, era a única coisa que devia a sua não amada mãe e uma das que devia a si.

Ao chegar perto de Lucius, esse se preparou para dizer alguma coisa, entretanto nenhuma palavra foi mais rápida do que o lampejo de luz vermelha que saiu da varinha de Draco.

Lucius foi atingido bem no rosto, levou as mãos à face tentando estancar o sangue.

- Você não é bem-vindo aqui. – disse para Lucius. – Como? Como você tem coragem de aparecer?

Lucius, respirando com dificuldade, tapava a boca com a mão, tentando estancar o sangue.

- Draco se acalme, eu não vim brigar. – ele falou entre os dedos.

- Veio pra que, então? Para prestar suas condolências? Para demonstrar o quanto vai sentir saudade da mulher que você enlouqueceu? - pensando nisso, Draco se virou de costas para ele, queria voltar ao funeral, mas outra onda de ódio o invadiu, mais venenosa que a primeira e ele conjurou mais um feitiço no pai. – E quem é essa vagabunda que está com você? - ele perguntou, mas não conseguiu ver-lhe a face, pois o guarda-chuva a cobria, então a pegou pelo braço.

Draco segurou a mulher fortemente, queria ver o rosto de quem se prestava a tanto e sinceramente não pouparia esforços de que ela se sentisse mais humilhada do que o pai deveria estar se sentindo, caído na neve tentando se levantar. Antes ele tivesse a deixado ir embora.

Quando a segurou com brutalidade e esta, não esperando tal ação estando assustada com tudo que tinha visto, a mulher deixou o guarda-chuva voar-lhe das mãos. Antes não tivesse voado.

"Adela?"

Ele tentou negar mentalmente, uma, duas até três vezes, tentou negar que era Adela ali na sua frente. Aquele cabelo negro chegou até a lhe confundir e o levar a acreditar de fato de que não era ela, mas que estupidez tremenda seria aquela: acreditar que realmente não era.

"Adela?"

Ele perguntou novamente depois ter quase certeza. As faces coraram de supetão ao constatar a verossimilhança, as batidas do órgão cardíaco se aceleraram a tamanha surpresa, ele tentou, em vão, ligar pontos em comum a falta de lógica que era ela estar ali. Então, o ponto comum lhe chegou aos ouvidos.

- Essa é a futura Senhora Malfoy. – ouviu a respostas das suas indagações.

"Sra. Malfoy? Sra. Malfoy?" repetiu insistentemente e quando concebeu o poder de tal idéia a largou com repulsa como se tivesse tocado em algo profano ou que contivesse alguma doença virulenta.

No tempo todo que Adela ficou retida nas mãos de Draco, ela podia escutar os pensamentos que lhe passaram pela face. O franzir do cenho dele tentando entender se era mesmo ela, depois o arregalar dos olhos com a constatação e finalmente por último a repulsa ao lembrar de quem ela era realmente.

Nossa futura senhora Malfoy tremia, e também como Draco tentava encontrar pontos em comum para a ilogicidade. "Herman? Stuart? Como? Malfoy?". Aonde tudo isso se encaixava? "E o que é isso na mão de Herman? Que luz vermelha é essa que sai dessa espécie de... varinha de condão?"

Eles não deixaram de se olhar e nem de indagarem silenciosamente um ao outro a presença ali. Aquelas perguntas silenciosas preenchiam o vazio entre eles, pois tudo aquilo que não é dito, que não é perguntado, como no caso, ou que é reprimido, pesa de tal forma que para aqueles que são vazios é a única coisa que os preenche.

- Vá embora. – ele começou sem tirar os olhos dela. – E leve essa vagabunda com você. – virou-se para Lucius. – Nenhum dos dois é bem vindo aqui.

- Draco. – parou o ofegante Blaise ao seu lado. – Por favor, não cause confusões no enterro da sua mãe. - Draco sequer viu Blaise chegar, continuava tentando entender o que Adela fazia ali. – É melhor você voltar para lá.

- Só volto quando tiver certeza que ele foi embora.

Blaise não disse nada, não era simples pedir para Draco reconsiderar a questão, na verdade todos concordavam que Lucius não deveria estar ali.

- Olá, Zabine. – disse Lucius

- Olá, Lucius. – disse Zabine.

- Não obedecerei a suas ordens. – respondeu o patriarca Malfoy. - Afinal, você não manda.

- Por favor, faça o que ele pediu. – disse Adela tomando coragem devido à insuportável situação. Ela não agüentava mais a presença dele e não agüentava mais aquele olhar de morte que ele estava lhe lançando

Todos se voltaram para ela. Draco a notou de novo, não parecia ser a mesma pessoa, e ele chegaria à conclusão de que realmente não era.

- Utilize-se do seu bom senso. – ela voltou a falar.

Novamente o sentimento de espanto de Draco, Blaise e Lucius.

Esse por sua vez ponderou a questão e acabou por ceder.

- Vamos embora, então. – ele disse indo na frente.

Adela se voltou para pegar o guarda-chuva, ela tinha certeza que ia pagar muito caro por aquele atrevimento.

Blaise se adiantou e pegou para ela.

- Me desculpe o comportamento de meu amigo ou qualquer constrangimento que tenha passado, ele não está em seu juízo perfeito. – disse entregando-lhe o guarda-chuva.

- Você não precisa se desculpar, a culpa não é sua. – ela respondeu, agradecendo com um leve inclinar de cabeça a gentileza dele e virando para o caminho de volta sem olhar para Draco.

- Ela estava certa. – disse Draco. – Você não devia se desculpar. – terminou voltando para o enterro de sua mãe.

Blaise deduziu que Draco estava falando aquilo pura e simplesmente por seu orgulho, nunca deduziria o certo: que Draco já conhecia aquela mulher.


Adela fez o caminho de volta, e dessa vez não reparou em nenhum ornamento rebuscado da mansão ou qualquer sofá do século XIX, na verdade tudo não passava de um punhado de quinquilharias agora, tudo não passava de móveis velhos e empoeirados. Afinal, o que importaria para ela aquelas coisas, quando se têm tantas outras na cabeça?

"Como não percebi antes? Era tão óbvio a semelhança entre os dois, era exatamente por isso que eu tinha a sensação de já ter visto Herman antes, como eu sou idiota! E que história é essa de Draco Malfoy?"

Esses mesmos pensamentos só deixaram sua cabeça quando viu a cara que Stuart, ou melhor, Lucius fazia para ela.

"Estúpida!" Ela pensou. "Estúpida, estúpida, estúpida!"

Lucius entrou na limusine e depois Adela. Ele não disse nada naquele momento, mas a nova morena estava aguardando a hora em que ele iria explodir, era só Jullien ligar o motor que ele começaria. "Estúpida, para que você tinha que abrir a boca?"

- Quem você está pensando que é para me dar ordens? – ele começou, sem olhá-la, falava com ela, porém, olhando para neve que caia fora do carro.

Adela fechou os olhos, toda vez que algo do tipo acontecia ela tentava pensar em qualquer outra coisa, uma coisa que a fizesse ignorar a fala daquele homem, que a distraísse o suficiente para não responder absolutamente nada diferente do usual: "Você está certo querido".

- Acho que estou lhe acostumando mal, sua vagabunda. – ele continuou sem olhá-la. – Você teve sorte de estarmos em um local público, não sei o que teria feito para lhe calar a boca se a situação fosse diferente.

"Eu sei o que você teria feito." Ela pensou.

- A próxima vez que me desautorizar assim, que eu creio que nunca mais irá acontecer, mas se acontecer não espere que eu lhe chame a atenção novamente. VOCÊ ESTÁ ENTENDENDO? – ele se virou para fitá-la se alterando devido a tal silêncio.

Pegou-lhe o braço e apertou com toda a força que podia.

- Está entendendo? EU LHE DOU TUDO! DINHEIRO, ROUPAS, VOCÊ NEM PAREÇE TER SAÍDO DE ONDE LHE TIREI E O QUE EU GANHO EM TROCA? UMA VAGABUNDA ATREVIDA? VOCÊ SABE QUE EU SEMPRE QUERO QUE VOCÊ FIQUE CALADA, SUA OPNIÃO NÃO É IMPORTANTE, VOCÊ É UM ORNAMENTO! – terminou com as faces já coradas.

"Não irão perguntar. A atração maior sou eu e o dono da festa, você é apenas uma questão de ornamento." A lembrança invadiu sua mente.

"Pai e filho... tão... tão iguais. Como não percebi antes?" Ela pensou.

- Você entendeu não foi? – ele perguntou a soltando.

- Sim, querido. – ela respondeu dando um sorriso singelo.

"Eu sempre serei um ornamento." Completou em pensamento.


Draco voltou para o enterro de sua mãe, não viu muita coisa, a última pá de neve misturada com terra era jogada em cima do caixão. Todos começaram a se mover em direção da mansão, todos precisavam de alguma coisa quente, depois de tanto tempo naquele deserto de gelo. Draco que anteriormente não estava reparando em nada, também não chegou a reparar neste movimento de pessoas. Todos respeitaram a estadia dele perto ao túmulo.

"Ele precisa se despedir da mãe." Pensaram.

Porém, não fora por isso que ele ficara ali. Ainda estava tentando montar um quebra-cabeça...

"Adoro quebra-cabeças, era minha diversão favorita na infância..." Ele lembrou o que havia dito. "Gostava dos quebra-cabeças com solução." Respondeu-se.

Olhou para onde, há segundos atrás, ela se encontrava. "Como?" Não cansava de se perguntar. Aquele era um quebra-cabeça ilógico, sem forma definida para encaixar as peças. "Está congelando aqui." Ele percebeu depois de um tempo e resolveu entrar.

As pessoas que participaram da despedida se encontravam todas ali. Draco se sentou no sofá e permaneceu introspectivo.

Como seria a sensação de estar a sete palmos do chão? Draco se perguntava e chegava à conclusão que seria melhor do aquilo que estava sentindo.

"Sra. Malfoy." Ele não acreditava. "Como?" Era tão absurdo, era tão repugnante essa idéia. Não havia no mundo um casal que se merecesse tanto. A prostituta e o imbecil. Ele os odiava.

Grandemérre sentou ao seu lado, distraindo-o.

- Não deixe o seu ódio o cegar, meu neto. – ela pegou sua mão e entrelaçou na sua.

Se Draco não estivesse tão atordoado, teria respondido a sua avó qualquer coisa do gênero: "Você sabe para quem esta pedindo isso?" ou "Como não odiar aquele homem?". Entretanto, a tamanha confusão que sua mente se encontrava deu espaço para Grandmérre Malfoy se expressar.

- Já há muito ódio nesta família. – ela terminou lhe dando um beijo na face e lhe arrumando as sobrancelhas desgrenhadas.

"Como você pode não o odiar?" Ele se perguntou.

- Duas mortes em menos de seis meses. – ele ouviu o padre falar, mesmo que baixo com sua Tia Andrômeda. – Isso não pode ser bom. – ele continuou.

Com o que menos Draco se importava era com as mortes, vive-se e morre-se todos os dias e não é porque se morre que se vira um santo. A não ser a pobre criança que nem teve tempo de dar o primeiro choro. Entretanto, nada, nem as mortes o abalaram daquela forma. Saber que a prostituta que ele convivera por uma semana estava com seu pai! Era incabível, ele não conseguia acreditar! Só uma palavra vinha a sua mente: "Desprezível."

Era desprezível Lucius Malfoy se juntar a uma prostituta e ainda mais sendo trouxa! Era desprezível esta mulher ser a futura senhora Malfoy, sim futura, porque seus pais não tinham se separado legalmente. Ele não via lógica nos atos de seu pai, afinal, ser Malfoy, bruxo e defensor do puro-sangue não são obstáculos suficientes para não se juntar a ela?

"Não foram pra você. Afinal, desejaste-a também." Sua voz respondeu as indagações que ele se fazia.

"Mas..." – uma idéia se formou em sua mente, a única aceitável. "Talvez, ele não saiba quem ela é, talvez ela o tenha enganado." Era a única idéia lógica que ele conseguira deduzir, Lucius não sabia quem era ela, mas isso nem o próprio Draco tinha idéia.


Se fosse outro dia, Adela ficaria tão irritada com as observações de Stuart que permaneceria calada, tentando reprimir a raiva que sentia. Entretanto, naquele exato dia, o silêncio dela não vinha dele, ou de suas observações. Sua boca calava, era certo, mas sua cabeça lhe falava muitas coisas.

"Aonde há lógica nisso? Por que Herman? Por que eu me reencontro com o único homem..." Ela não teve coragem de terminar tal pensamento. Permitir tal coisa era voltar a uma sucessão de erros que ela já tinha cometido no passado e que aprendera a não os cometer mais, ou pelo menos deveria ter aprendido.

"O que vai acontecer a partir daqui?" Ela pensou temerosa. Teria que algum momento voltar a vê-lo. "Como reagir?" Teria que em algum momento falar com ele. "O que dizer?"

Ela já podia imaginar as ironias dele, as frases com ambigüidades feitas para ela, que apenas ela entenderia e que só a ela humilharia. Ele, com certeza, não deixara de ser cruel, não deixara de ser preconceituoso e esfregaria, ao máximo, o que pudesse para a deixar mal. Só naquele enterro, ele já havia usado a palavra vagabunda, e não era só porque ela estava com seu pai, mas sim pra lembrá-la de quem ela era.

"Isso porque é fácil conviver só com o pai dele, imagine se eu tiver de conviver com os dois."

Seria insuportável. Adela tinha certeza de que piraria com tal situação.

As ironias do filho e as loucuras do pai. Agora ela entendia o porquê de Herman ser daquele jeito, ninguém poderia ser normal tendo um pai daquele.

O carro parou na frente do edifício em que moravam no centro de Londres. Julien veio lhes abrir a porta, apenas Adela saiu.

"Você não tem idéia de como isso me deixa feliz." Ela pensou vendo o carro virar a esquina.

Ao chegar ao apartamento, foi direto para o quarto, jogando-se na cama que dividia com Stuart.

"Tudo vai voltar ao inferno que era antes." Ela tinha certeza disso. "Será o dobro de provocações, o dobro de humilhações." Adela podia enxergar isso no futuro. "Mas eu não vou permitir que ele faça o que fez da vez anterior, dessa vez ele não está me pagando."

"Draco Malfoy. Então é esse o seu nome."


Já era noite quando Draco chegou ao apartamento de Blaise, este havia saído do enterro mais cedo devido às obrigações profissionais. O apartamento estava escuro e Draco não se deu ao luxo de acender uma luz sequer, a escuridão lhe convinha naquele dia, qualquer lugar em que não pudesse ser visto e pudesse ficar sozinho era bom para ele.

O loiro se sentou desleixadamente, meio que deitado, no sofá de frente para a sacada. A neve não parara de cair naquele dia. Passou a mão pelo cabelo e a deixou parada ali, naquela posição. Logo, voltou aos pensamentos que não o deixou em paz o dia inteiro.

"Por que ela voltou? Como é possível uma coisa dessas acontecer? Que vida irônica é essa que faz com que isso aconteça?" Era esse tipo de coisa que o fazia desconfiar da existência de um Deus. Porque apenas uma força maior faria isso ser algo possível.

Ele voltaria a vê-la? Desconfiava que sim, duvidada muito que seu pai voltara apenas para o enterro, ele já devia estar a tempo na Inglaterra só que muito bem escondido.

E quando voltasse a vê-la, o que deveria fazer? Deveria contar ao pai quem ela era? Só para ver a cara de humilhação dele? Draco não sabia.

Um barulho lhe distraiu.

- Então, como foi a reunião? – perguntou Draco quando Blaise chegou.

- A mesma coisa de sempre. – disse Blaise jogando sua pasta no chão e indo ao bar preparar qualquer coisa para beber. – Dia longo. – Blaise voltou a falar estendendo um copo para Draco, brindando e se jogando, como o outro, no sofá. – O que você pensa em fazer? – perguntou.

- Pegar a minha parte da herança e ir embora da Inglaterra. – disse Draco.

Blaise ficou calado alguns instantes, ponderando o que deveria dizer.

- Por que ir embora? Afinal, as coisas que te fizeram ir não estão mais tão graves assim. – disse Blaise.

Draco pensou no que Blaise havia dito. Sua mãe estava morta, sua suposta mulher não seria mais dele se caso acordasse, não havia mais filho, reatara laços com Blaise, mas seu pai continuaria ali, seu pai e ela.

- Ele deve ter voltado para ficar. – deduziu Draco.

- Voltou sim, mas não vai conseguir nada, pelo menos não sozinho. – disse Blaise.

- O que seu pai lhe disse que eu não sei? – perguntou Draco a Blaise percebendo que algo lhe envolvia no comentário anterior.

- Meu pai não precisou dizer absolutamente nada, é fácil deduzir, seu pai foi julgado e condenado pelas leis bruxas, conseguiu se salvar de Azkaban graças a informações valiosíssimas que tinha, mas como você mesmo sabe perdeu toda a fortuna e bens, tudo confiscado pelo governo e então sumiu e voltou, pelo jeito, rico e com uma garota que tem idade pra ser filha dele. Mas que bela garota, não? Você reparou? Não deve ter reparado, estava com raiva. Que mulher linda... – comentou Blaise.

Draco se sentiu desconfortável com o comentário.

- Não reparei. – respondeu seco. – Lucius voltou então para resgatar o que era dele. – concluiu Draco tentando mudar de assunto.

- Bingo! E quem você acha que ele vai usar para conseguir tudo isso de volta? – perguntou Blaise dando o último gole.

- A mim. – respondeu Draco. – Depois que eu estiver com a herança de minha mãe, conseguirei tudo de volta, mas para mim, não para ele.

- É assim que se fala. – disse Blaise. – Mas aonde ele arranjou aquela garota?

- Do que importa? – disse Draco perdendo um pouco a paciência com tal insistência. – Deve ser uma alpinista social qualquer.

- Não, aquela mulher não é uma qualquer, a gente percebe no jeito, na postura, no próprio olhar, parece vir de alguma família muito rica de qualquer lugar que seja, acho que é francesa e você?

"Você não diria isso se soubesse quem é ela."

- Não sei. Talvez alemã. – respondeu Draco com certa ironia que Blaise não pode perceber.

- É pode ser, mas o sotaque não me pareceu nem um, nem outro. – estranhou Blaise. – O sotaque é inglês mesmo.

"Vocês dois vindos da Inglaterra tem um sotaque tão carregado ao falar o alemão ... Opa, opa, opa esperem estou cometendo um engano, você é alemã não é Adela?...

- Sou. .

.Mas passou algum tempo na Inglaterra não?

- Minha avó era inglesa, morei um tempo com ela.

- Um tempo considerável já que você e Frederich falam iguais. "

- Não reparei nisso. – respondeu o loiro.

- Engraçado, se ela é inglesa e bruxa, como não a conhecemos? – perguntou Blaise curioso.

- Talvez ela não seja bruxa. – disse Draco sério.

Blaise riu achando o comentário muito irônico

- Seu pai? Com uma trouxa? – riu Blaise novamente. – Seria o mesmo que você casado com uma irmã do Potter.

- Seria estranho, não? – perguntou Draco.

- Seria estranho? Seria impossível! – Blaise exclamou sem sombra de dúvidas. – Mas de certa forma ela não me é estranha, tive uma sensação de já ter visto aquele rosto antes. Você não? - Blaise indagou.

"Talvez em algum site de encontros." Pensou Draco.

- Não, nunca vi essa mulher. - disse Draco mentindo descaradamente.

- Talvez... - Blaise parecia estar lembrando alguma coisa.

Draco franziu o cenho não entendendo aonde Blaise queria chegar. "Como assim ela não lhe é estranha?"

-... Bom, deixa eu ir dormir, amanhã cedo tenho que resolver seus negócios. - completou mudando de assunto.

- O testamento? – perguntou Draco curioso.

- Não ainda, apenas visitas burocráticas para saber quando o bendito testamento será aberto.

- E demora?

- Depende muito. – finalizou Blaise se levantando. – Boa noite.

- Boa noite. – respondeu.

"Não, aquela mulher não é uma qualquer, a gente percebe no jeito, na postura, no próprio olhar, parece vir de alguma família muito rica de qualquer lugar que seja." Draco relembrou a frase de Blaise.

"Se enganou a mim, a meu pai, por que não Blaise, não é verdade?" Concluiu em seus pensamentos.


"- Corra...

Ela obedecia a esse comando. 'Corra!'... A menina só fazia o que sua mente mandava: corria. Mas do que ela corria? E por que ela corria? Não sabia, estava só obedecendo a seus instintos.

Parou ofegante e se apoiou em um tronco. Uma mão vinda de trás puxou seu braço. Ela ia gritar, mas a floresta se dissolveu, transformando-se em uma grande sala com várias pessoas.

- Malfoy... Quer dizer Má fé. É por isso que essa família é amaldiçoada. – dizia uma menina para a outra e as duas sem faces."

Três toques na porta foram o suficiente para acordá-la.

Completamente perdida e ainda concentrada no sonho, Adela demorou a voltar à realidade. Quando percebeu que estava em seu quarto e que alguém batia na porta, deu permissão para entrar.

- O jantar está servido, o senhor exige sua presença. – disse Miss Julia.

- Já desço. – ela respondeu se levantando.

Desceu para a sala de jantar, Stuart, como sempre, sentado na cabeceira da grande mesa e ela, como sempre, ao seu lado direito.

- Descansou bem, querida? – perguntou quando ela se sentou.

- Sim. – ela respondeu. Já acostumada com aquele jeito insano dele de fingir ou apagar da memória qualquer violência passada.

- Quem bom, porque tenho que lhe falar algumas coisas. – ele parou de comer e voltou-se para ela.

Adela ficou aflita. O que teria ele para lhe dizer?

- Bem, metade delas você já deve ter deduzido. Eu não me chamo Stuart, meu nome é Lucius Saint Claire Malfoy...

- Má fé... – sibilou Adela e de repente o sonho todo veio a sua memória. Aquela floresta? Não era a primeira vez que ela tinha aquele sonho, sempre alguém a mandando correr, mas ela tinha outro sonho em que conversava com um homem que lhe era tão familiar.

- O que disse? – perguntou Lucius a tirando de seus pensamentos.

- Nada, querido, continue. – ela tentou desconversar.

- Como nada? Eu ouvi. Você disse Má fé. Como sabe que é essa a tradução do meu nome? – ele perguntou desconfiado.

- Por acaso não vivi tempo suficiente na França para saber o significado das coisas? – ela respondeu rápido.

Lucius a encarou, tentando perceber qualquer sinal de desconcerto. Adela respondeu sem demonstrar nada do que ele esperava.

- Ok. – ele acabou convencido. – Aquele que me agrediu é meu filho, Draco Malfoy, e estávamos no enterro da mãe dele, minha, agora, ex-mulher porque até sua morte ainda éramos legalmente casados.

"Então, realmente, são pai e filho." Adela ainda tinha uma esperança deles serem parentes distantes o suficiente para não ter que suporta-los juntos.

Lucius se voltou para ela, como se procura-se as palavras para contar outra coisa.

- E o que era aquela luz vermelha? Que saia daquele pedaço de madeira que parece uma varinha de condão? - ela perguntou, poupando Lucius.

- Bom, era exatamente aonde eu ia chegar. - ele parou um instante, procurando novamente as palavras certas. - Minha cara, eu, meu filho, todos os que você irá conhecer a partir de agora e até Miss Julia, somos diferentes. - ele contou da forma mais cuidadosa que já tivera visto alguém contar isso.

- Diferente como? - ela perguntou.

- Bom, você viu, conseguimos fazer magia utilizando varinhas. - ele disse e encarou Adela.

A morena por outro lado pôs se a rir.

- Você quer me dizer então que é mágico? Ora, não precisa de varinha pra isso. São truques.

- Querida, o que você viu no enterro lhe pareceu alguma espécie de truque? - ele perguntou.

Adela parou pra pensar, e refez a cena em sua mente. Herman havia apontado a "varinha" para Lucius e dela tinha saído uma luz vermelha que por fim, acabou com o nariz do patriarca. Que por sinal estava perfeito neste exato momento e que já no carro sangrava pouco para o que tinha sangrado quando aconteceu."É, não parece truque."

- E você consegue fazer aquilo, então? - ela perguntou.

- Um pouco mais. E afinal, não somos mágicos, somos bruxos. - ele disse.

Adela segurou o riso, aquela história lhe parecia cada vez mais insensata e quase ridícula, se ela não tivesse visto, não acreditaria.

- Bruxos? Caldeirão? Vassoura? Abóbora? - ela perguntou querendo rir.

- Exatamente isso. - ele respondeu.

Adela ficou calada tentando absorver todas aquelas informações.

- Tem outra coisa, querida. - ele começou.

"Meu Deus, o que pode vir mais?"

- Você notou que sou de uma família muito distinta, e bom, nós desse tipo de família não nos relacionamos com vocês que não possuem magia. Então, você terá que fingir que é uma bruxa. - ele disse.

- Mas como eu vou fazer isso? - ela perguntou.

- Eu contratarei alguém de confiança para isso. Até lá... - ele parou um momento e disse: - Accio varinha!

Então, uma gaveta do guarda-louça que enfeitava a sala de jantar se abriu sozinha e uma varinha flutuou pela sala de jantar.

Adela arregalou os olhos.

- Até lá, você sempre deve andar com essa varinha e fingir que é sua. - ele disse.


"- Por que fazes isso se não há mais necessidade? – ele perguntou com um olhar de suplica e por mais chateado que estivesse não ousava levantar a voz.

- Há coisas que eu não posso explicar... ainda. – respondeu distraindo o olhar para qualquer outro ponto descontínuo que não fosse os olhos dele.

- Entendes o que está fazendo? – ele perguntou querendo poder convencê-la a voltar atrás.

- Não há entendimento, há a necessidade, acho melhor colocar nesses termos. – ela respondeu.

- O que foi isso? – ele virou para trás seguindo um barulho.

- Não sei. O que será? – ela o seguiu.

- Corra, corra! - ele ordenou. – Sabes onde nos esperar, não sabe?

- Sei. Mas...

-Me espere aparecer por lá, e se não aparecer é provável que nem mais aqui esteja. – deu-lhe um beijo na testa. – Corra..."

"- Malfoy... Quer dizer Má fé. É por isso que essa família é amaldiçoada. – dizia uma menina para a outra e as duas sem faces."

Adela acordou, já era dia. Stua... Lucius já não estava mais ali, como sempre. O sonho, ela tentava lembrar, sentou na cama e pousou o rosto nas mãos.

"Esses sonhos... 'Malfoy... Quer dizer Má fé. É por isso que essa família é amaldiçoada.' Como eu sei de uma coisa dessas? Quem é que me manda correr?Eu sei que eu o conheço, mas de onde? Por que eu nunca vejo o rosto das pessoas?" Pensava enquanto ia ao banheiro.

"Acho que é melhor eu começar a fazer algo, deve ter algum sentido, estas coisas têm que ter algum sentido." Pensou descendo para o café-da-manhã.

"Sentido? Tudo faz muito sentido mesmo, Stuar... Lucius, Lucius ser pai de Herman, que é na verdade Draco. Isso tudo faz muito sentido mesmo. Os dois serem bruxos." Pensou enquanto se sentava e pegava o jornal.

Logo que pegou o jornal franziu o cenho.

- Por Deus! As pessoas das fotos estão acenando pra mim! - ela disse jogando longe o jornal.

- Senhora Marie, isso é normal. - disse Miss Julia chegando com o café.

- As fotos estão vivas? - ela perguntou.

- Não, são feitiços, máquinas enfeitiçadas e tudo isso que dão esse efeito.

Adela concordou com a cabeça. Voltou a pegar o jornal, logo embaixo havia uma matéria que lhe chamou a atenção:

A volta dos Malfoy

Faleceu na noite de domingo a digníssima Senhora Narcisa Black Malfoy. O enterro ocorreu na segunda-feira de manhã às 09:00 horas. Estavam presentes sua irmã e sua sobrinha, Andrômeda e Ninfadora, sua sogra, Marie Sophie Malfoy, Blaise Zabine e sua avó Matrina Zabine. E, para a surpresa de todos, seu filho Draco Malfoy, exatamente! Depois de um sumiço inexplicável, deixando sua mulher grávida sozinha, Draco Malfoy volta ao mundo bruxo. Ele não quis dar depoimento aos jornalistas.

Além desta volta, temos mais uma surpreendente, Lucius Malfoy ex-comensal da morte, depois de um sumiço de 5 anos apareceu também no enterro de sua mulher,acompanhado de um moça, o que não agradou nem um pouco o filho do casal, que conjurou feitiços violentos contra o pai. Após uma breve discussão, o patriarca resolveu se retirar junto a moça que identificamos como Marie Loren Denevoe.

É, parece que os Malfoys voltaram e voltaram exatamente como antigamente. Estará o mundo bruxo em perigo com a volta do ex-comensal? As autoridades já tomaram alguma providencia a respeito? Acho que não.

Cristine Walter.

"Depois de um sumiço inexplicável, deixando sua mulher grávida sozinha, Draco Malfoy volta ao mundo bruxo."

"Lucius Malfoy ex-comensal da morte."

"Ele abandonou realmente a esposa, é isso foi dito por aquela mulher ao telefone, a mulher o chamou de filho, era a mãe dele! Ohh Meu Deus."

- Por que o filho de Lucius abandonou a esposa? - perguntou Adela.

- Ninguém sabe senhora. - ela respondeu.

- O que é um ex-comensal da morte?

- Me desculpe senhora, mas essas perguntas a senhora deve fazer ao senhor Malfoy e não a mim. Com licença. - terminou se retirando.

Haviam muitos segredos ali. Adela tinha certeza disso. Assim como ela tinha uma imensidão deles guardados, eles tinham outros tão maiores e nebulosos. Draco havia se casado, havia abandonado a mulher grávida. Por quê? Lucius era um ex-comensal da morte. O que seria isso? Com certeza não era algo bom.


"... É parece que os Malfoys voltaram e voltaram exatamente como antigamente. Estará o mundo bruxo em perigo com a volta do ex-comensal? As autoridades já tomaram alguma providencia a respeito? Acho que não."

- Que palhaçada. – foi o que Draco disse depois de terminar de ler a matéria. - Deviam queimar a redação do profeta do diário. - concluiu tomando um gole de seu café.

"... identificamos como Marie Loren Denevoe..."

"Então, você é Marie agora. Marie não foi como a outra mulher lhe chamou ao telefone?" Draco lembrou-se.

"Marie, Marie onde você está?... Você precisa vir pra cá rápido, Jean Pierre está querendo lhe ver urgente."

Era exatamente esse nome por qual a mulher havia a chamado.

"Quantos nomes você tem afinal?"

Uma coruja bateu e entrou pela janela, Draco pegou o aviso, era de Blaise pedindo que ele fosse ao Beco Diagonal em seu escritório.


Draco foi até a lareira e com o pó de flu na mão, falou claramente: Beco diagonal. Instantaneamente se encontrava na seção de lareiras do centro comercial bruxo de Londres. Fazia muito tempo desde a última vez que pisara ali.

Na verdade, a sua última noite em Londres, desde que tinha ido embora para Alemanha, ele tinha passado por ali. Não gostava de se lembrar daquela noite, não havia nada de bom nela, mas enfim, ele já esquecera como era ter algo bom para recordar.

Andou um quarteirão, até chegar a um edifício de três andares, todo de vidro na parte da frente, onde, uma varinha enfeitiçada escrevia: Escritório Zabine, em letras prateadas, contrastando com o vidro negro das janelas.

Entrou, foi até a atendente do balcão.

- Sr. Malfoy, o Sr. Blaise Zabine lhe aguarda. – disse a mulher, antes de Draco dizer qualquer coisa. – É só subir as escadas e virar à direita.

Draco assentiu. Subiu as escadas e percebeu o quanto aquele escritório estava diferente, muita coisa havia mudado desde que ele se fora. "Por que ir embora? Afinal, as coisas que te fizeram ir não estão mais tão graves assim." Ele se lembrou do comentário de Blaise da noite anterior. Por que ir embora? Talvez aquele não fosse mais o seu lugar.

- Me desculpe, eu entrei na sala errada. – ele disse quando abriu a porta e deu com uma mulher que ali se encontrava.

- Você não está na sala errada, Malfoy. – ela respondeu. – Blaise teve que ir rápido falar com o pai e já volta. – ela respondeu sem tirar os olhos do papel que lia.

Draco estranhou ela o conhecer porque definitivamente ele não lembrava quem era ela. Ele entrou na sala, sentou-se e ficou a olhando tentando lembrar, não era totalmente estranha, havia algo no rosto que lhe lembrava alguém.

- Lia Parkinson. – ela disse se virando para ele e estendendo a mão.

"A irmã da Pansy."

- É claro. – ele disse a cumprimentando.

Ela fixou os olhos na marca negra.

- Então, como vai sua irmã? – perguntou Draco.

- Noiva. – ela respondeu.

Draco não chegou a mudar sua expressão, por mais surpreendente que fosse Pansy estar noiva.

- Quer dizer que vai casar mesmo? E quando será a cerimônia? – ele perguntou.

- Daqui a três meses. – ela disse.

Blaise abriu a porta.

- Você chegou! Que bom. – disse Blaise sentando na cadeira. – Acho que já foram apresentados. – ele disse olhando os dois.

- Sim. – respondeu Draco. – Mas o que foi? O que tem pra me dizer, Blaise?

- O testamento será aberto ainda hoje, às 16:00. – disse Blaise.

- Uma notícia boa depois de tanto tempo. – disse Draco aliviado, realmente precisava daquela notícia.

- E Lia. – disse Blaise se virando para ela. - Depois do almoço eu quero que vá à casa de sua irmã e pegue os papéis que eu pedi pra ela assinar. – ele disse pra a loira.

- Ok. – ela disse. – Só isso, Sr. Zabine? – ela perguntou.

- Só. Pode ir almoçar. – ele a dispensou.

A loira virou-se em direção a porta.

- Então, o que achou? – perguntou Blaise deixando clara sua segunda intenção na voz.

- Eu sabia que isso tinha dedo seu. – Draco falou. – Eu nem cheguei a reconhecê-la, o que aconteceu com ela? Era tão feia quando era criança.

- Crianças crescem. – ele comentou.

- E como. – Draco concluiu dando um sorriso irônico.


Lá estavam Draco, Blaise, Lucius, David, Andrômeda e Ninfadora todos esperando o testamento.

A sala era retangular e estreita, assim como a grande mesa de madeira em que todos se sentavam. No canto da sala havia outra pequena mesa quadrada vazia, que deveria ser ocupada pelo escrevente. Era nisso que Draco se concentrava para não pensar em outras coisas. E para não olhar para a face cretina de Lucius.

Às 16:00 em ponto, quando os relógios do ministério soaram, uma mulher baixinha, dos cabelos grisalhos entrou na sala juntamente com um homem magro e franzino.

Todos se levantaram.

- Podem se sentar. - disse a juíza, sentando-se e retirando os óculos do bolso de sua veste. – Bom, vamos começar a leitura do testamento de Narcisa Black Malfoy.

Ao fundo se ouvia o barulho da pena enfeitiçada do escrivão anotando todas as palavras. A mulher pegou o pergaminho, retirou o laço que o fechava. Abriu-o e começou:

"Eu, Narcisa Black, em plenos poderes de minhas faculdades psicológicas e tendo como testemunha minha irmã Andrômeda, venho deixar claro neste papel as minhas últimas vontades.

Primeiramente, a parte da mansão Black que me é destinada eu deixo para a minha irmã Andrômeda...

E em segundo lugar, a fortuna Black e Malfoy a qual eu possuo deve ficar com meu filho Draco Black Malfoy...

Draco riu. "Rico de novo." Pensou. Não hesitou em nenhum momento em lançar a Lucius um sorriso iluminado de vitória. Aquilo era mais que dinheiro, era a sua carta de alforria depois de tanto tempo confinado.

Lucius o encarou também, mas não parecia nem um pouco triste.

...apenas se este tiver um filho, caso contrário o deserdo de qualquer posse do meu dinheiro."

Terminou a Juíza.

Draco se desconcertou, a um segundo estava rico novamente e agora não tinha mais nada? Como assim? Balançou a cabeça, tentou achar um foco, franziu o cenho e se virou para seu pai.

- Todos cientes dos conteúdos do testamento? – a Juíza perguntou.

- Meritíssima. – David Zabine a chamou.

- Sim?

- Eu e meu cliente temos aqui a certidão de casamento do Sr. Malfoy e da Sra. Black. – ele entregou a ela. – Como vossa excelência pode notar, foram casados com comunhão de bens, o que garantirá ao meu cliente que ele fique com este dinheiro.

Draco olhou para Blaise com uma expressão nenhum pouco humorada. Blaise tentou lhe demonstrar que não havia como esse dinheiro ser dado a Lucius.

- Protesto, Meritíssima! - disse Blaise.

- Protesto aceito. - Blaise levantou e começou a falar:

- Todos sabem que segundo a lei bruxa do ostracismo e retenção de bens, o Sr. Lucius Saint Claire Malfoy depois de ter cometido atos ilícitos durante a guerra, ficou terminantemente proibido de ter qualquer restituição de seus bens de volta ou qualquer fonte de renda no mundo bruxo. Creio, Vossa Excelência, que restituir-lhe sua parte do dinheiro é ir de encontro essas leis. E é válido ressaltar que meu cliente teve sim um filho que, infelizmente, não sobreviveu.

- Protesto! - disse David.

- Protesto aceito. - disse a Juíza.

- Meu cliente foi condenado ao ostracismo por cinco anos, mas esse prazo acabou então essas leis não são mais válidas e tenho também como provar que o Sr. Draco Malfoy não era o pai do filho que a Sra. Malfoy esperava.

- Protesto! - disse Blaise.

A Juíza o mandou prosseguir.

- As leis de ostracismo podem ter deixado de serem válidas, mas as de retenção do dinheiro foram perpétuas e além do mais é uma calúnia contra meu cliente você, caro colega, dizer que o filho não é dele, eu quero provas! Caso contrário, abrirei um processo de calúnia e difamação contra você e seu cliente.

- E eu quero provas também, Senhores Zabine. - disse a Juíza. - Esta sessão esta acabada. Vou marcar outra para daqui a três meses, e assim ficará decidido com quem esta herança ficará. - A juíza bateu o martelo.

Draco sentiu o olhar de Lucius em si. Virou-se para o pai.

- Você pensou que seria fácil, não é? - perguntou Draco.

- O que posso dizer é que você, David...- disse Lucius para o amigo. - ...treinou muito bem seu filho. - disse indo embora.

Draco o observou. Depois de ter o perdido de vista se virou para Blaise.

- Vamos embora daqui. - disse Draco.

- Concordo. - respondeu Blaise.


- Boa tarde, Srta. Denevoe. - disse-lhe o professor de magia quando chegou à sala em que ela estava o aguardando.

Ele era um homem alto, de um rosto comprido e magro, tinha longos cabelos negros que chegavam à cintura amarrados com um rabo de cavalo baixo e usava óculo com lentes quadradas.

- Me chamo Gaspar. - ele terminou beijando-lhe a mão.

- Sem sobrenome? - ela perguntou.

- Sem sobrenome. - ele respondeu.

- Iremos começar com feitiços básicos, vou lhe ensinar como pronunciar e girar a varinha corretamente, e veremos se terá resultados, devido sua condição.

Adela sabia o que ele queria dizer com aquilo. "Sua condição". Lucius havia lhe falado mais tarde que diria que ela era um "aborto", seres nascido mágicos, mas sem magia, foi o que ele dissera, e que como uma tentativa de a ajudar, ele pagaria aquelas aulas para tentar reverter o caso, ela não entendia muito bem daquilo, trouxas, bruxos, abortos, não era assim que a sociedade em que ela vivera se diferenciava, pensava como se fossem ricos e pobres e os demais preconceitos dos primeiros aos segundos.

Gaspar se levantou e foi até o quadro. Ela permaneceu sentada em uma cadeira muito parecida com de estudante de colégio.

- O que você quer que eu lhe ensine? - ele perguntou.

Ela não sabia o que responder. Mas sabia que tinha que responder alguma coisa. O que teria vontade de fazer se tivesse magia?

- Gostaria de aprender a trazer coisas para mim. - lembrou-se do feitiço usado por Lucius para lhe trazer aquela varinha.

- Ok. - ele disse voltando para perto dela. - Preste atenção, você está vendo aquele giz? Então vou trazê-lo para mim. - ele parou girou a varinha e pronunciou. - Accio giz. - E assim aconteceu o giz flutuou até eles.

- Agora é você. - ele falou.


Draco e Blaise foram até o beco tomar um café.

- É inacreditável que minha mãe não tenha mudado o testamento! – disse Draco revoltado. - Afinal, ela estava grávida!

- Na verdade, estar grávida não quer dizer ter o filho, veja bem o que aconteceu.

- Narcisa era uma retardada mesmo.

- Você sabia disso, afinal você se casou só pra não perder a herança da sua mãe.

- No final, não adiantou muita coisa, acabei desistindo dessa herança. Seria melhor mandar todos os Black e Malfoy para o inferno. E agora que preciso dela de volta, olha o que acontece. Inacreditável.

- Calma, Draco, nem tudo está perdido, a juíza adiou a decisão. A herança vai ser sua. Vou dar qualquer jeito para que ela acabe na sua mão, na de seu pai é que ela não vai ficar.

- Três meses, Blaise! Três meses! Meu dinheiro vai acabar um dia, eu preciso de algo pra trabalhar. - disse ao amigo.

- Já lhe disse que você pode trabalhar no escritório. - disse o amigo.

- Como? De secretário? Eu não sei nada de leis. O que eu sei é de construção, navegação e bolsa de valores, tem algo pra mim assim?

- Eu venho falando com amigos...

- Quem vai me dar um emprego nesse mundo, Blaise? Não seja ingênuo, ninguém me perdôo por ter lutado do outro lado da guerra e nunca ninguém vai confiar em mim, mesmo tendo mudado de lado. Ainda tem gente que acha que eu matei o Potter. - disse Draco. - Agora você entende porque eu tenho que ir embora! Não há lugar aqui pra mim, toda a comunidade bruxa me suporta porque pensa que eu tenho dinheiro, caso contrário eles vão me tratar como acham que eu mereço.

Blaise ficou calado. Tudo o que Draco dizia fazia sentido, era verdade naquele mundo, sem dinheiro ninguém suportaria um Malfoy. E ainda mais depois das notícias do final da guerra. Todos achavam que havia tido um traidor pra aquele ataque surpresa de Voldemort, não havia como alguém ter descoberto as tropas da Ordem, a não ser que houvesse um traidor e Draco quem foi acusado e, por falta de provas, absolvido. Mas a mídia, aproveitando-se, colocou-o como o verdadeiro assassino de Harry Potter.

- Mas você também não pode trabalhar no mundo trouxa, afinal, você é um foragido. E pode ser pego a qualquer momento.

- Bingo! - disse Draco. - O que indica que eu estou totalmente atado.

Blaise se calou, era realmente complicado.


Deitado na cama do quarto de hóspedes de Blaise, Draco, que pouco dormia, dormiria muito menos naquela noite. Sinceramente, ele não pregaria os olhos. Não haveria maneira disso acontecer, havia um oceano em tormentas na sua mente.

Ele se lembrou daquela fase sem esperanças, daqueles dias nublados que passara na Alemanha, logo depois do sumiço da vagabunda que voltava a aparecer, logo depois da morte de Belshoff... Era incrível como tudo estava dando errado.

O que faria? Essa pergunta novamente lhe perturbava. Queria ir embora da Inglaterra como da primeira vez, sem dizer nada a ninguém, sem nenhuma explicação. Mas ir embora para onde? Algum outro lugar, pra conhecer uma nova prostituta, trabalhar como um trouxa em qualquer multinacional e depois ver tudo acabado? Não, isso não estava mais nos seus planos, ele havia tentando uma vez, e Draco não era homem de tentar duas vezes.

Nunca se conformaria com a atitude da mãe, aquele homem havia acabado com a vida dela, e ela tinha feito um testamento deixando em aberto a possibilidade de ele ficar com o dinheiro. Realmente, sua mãe era uma retardada.

O loiro ainda tinha o dinheiro de seu último emprego, mas voltaria para aquilo? Ele, um bruxo, voltaria a vender armas clandestinamente? Até quando ficaria vivo naquela profissão? Não, ele já tinha tentado uma vez.

"Por que ir embora? Afinal, as coisas que te fizeram ir não estão mais tão graves assim."

"Por que ficar?" Draco pensou.

"Maldita seja Narcisa". Pensou novamente.


"Querida Marie,

Que felicidade a minha quando abri sua carta, sinceramente achei por um instante que nunca mais nos falaríamos então sua carta me renovou as esperanças e aumentou minhas saudades.

Respondendo a suas perguntas, eu estou bem e com o dinheiro que você me mandou montei um salão de beleza, você deve imaginar como estou feliz por ter finalmente saído daquela vida desgraçada. Tudo esta indo o melhor possível, a Grécia é linda e os gregos também. Arranjei até um namorado, não acredito que possa lhe contar quem eu fui, será que devo? São tão confusas essas coisas.

E você? Como consegue viver com este homem? Fuja novamente, venha para Grécia, ele não a encontrara dessa vez eu garanto, faça isso antes que você enlouqueça vivendo com esse psicopata.

Da sua amiga, Renné"

"Querida Renné,

Fico tão feliz que você esteja tendo a oportunidade de uma vida normal, porque a minha é completamente o contrário disso. Você nem imagina a loucura que anda sendo e lhe garanto que Stuart é a última das coisas que está me fazendo pirar.

Para começar, Stuart não é Stuart, é um tal de Lucius Saint Claire Malfoy, pai de Herman que não é Herman, é na verdade Draco Malfoy. Você imagina a minha confusão? Descobri isso no enterro da ex-mulher de Stuart, agora Lucius, deparei-me com os dois e então entendi porque achava que conhecia Herman, agora Draco.

Outra coisa, é que ando tendo uns sonhos estranhos, você não imagina como, algo com alguém mandando eu correr no meio de uma floresta ou então duas meninas me falando a seguinte frase: - Malfoy... Quer dizer Má fé é por isso que essa família é amaldiçoada. E esse sonho é constante, na verdade são quase todos os dias que ele se repete, não consigo entender como sei que Malfoy quer dizer Má fé, na verdade entender consigo, afinal está na minha cara o por quê. Mas não consigo saber como sei de uma coisa dessas.

E tem mais uma coisa..."

Adela escondeu rapidamente a carta que escrevia para sua amiga embaixo de um livro, quando ouviu os passos de Lucius no corredor.


Draco acordou com um barulho insistente na janela de vidro. Olhou para ela com os olhos semi-abertos. E viu uma coruja.

"O que Blaise quer?" Pensou se levantando e indo até a janela.

"Para Draco Malfoy,

Gostaria que viesse ao meu apartamento às 19:00. O assunto é do seu interesse.

Lucius Malfoy"

Draco não deixou de ficar surpreso, que diabos Lucius tinha na cabeça para pensar que ele iria se encontrar com ele? Nada que vinha daquele homem podia ser de seu interesse. Voltou para cama sem se dar o trabalho de responder tal carta, quando outra coruja invadiu seu quarto e deixou uma segunda carta cair em seu rosto.

"Para Draco Malfoy,

Caso você relute em vir, adianto-lhe o assunto é sobre a herança de sua mãe e os antigos negócios da família. Quero negociar com você.

Lucius Malfoy"

Talvez nem tudo o que viesse de Lucius fosse tão desinteressante. Mas antes de tomar qualquer decisão iria falar com Blaise.


Ela sabia que aquele dia chegaria...

E teve uma premonição quando ouviu os passos de Lucius subindo a escada. Os passos dele no assoalho de madeira pareciam aos seus ouvidos alegres demais.

Ele entrou no quarto, sorrindo demais e disse:

- Teremos um jantar hoje, vá com Miss Julia preparar tudo.

- Jantar? Para quem? – ela perguntou receosa.

Não foi preciso Lucius dizer todas as palavras, para que Adela entendesse, ou melhor, pressentisse a presença que vinha contida na frase:

- Alguns contatos...

"Alguns contatos..."

Ela sabia que aquele dia viria...

Aquele dia em que teria que dividir com ele o mesmo espaço e a certeza que por maior que espaçoso fosse ainda seria minúsculo demais para ela. Em sua mente, antes de dormir e logo após acordar, ela se pegou pensando em como agiria, deveria haver ironias e ela ensaiava mentalmente todas as respostas. Em sua imaginação sempre saia vitoriosa daquele duelo mental, entretanto, como seria na realidade? Na realidade, todas as respostas, cenários e certezas se esvaziavam como se nunca tivessem sido pensados.

Lucius saiu do quarto ainda deixando a sensação de estar ali. Nossa heroína levantou-se da cadeira da penteadeira, na qual há minutos escrevia uma carta e caminhou lentamente para a sacada do quarto.

Que vista tentadora era a da rua de piche com aquelas faixas amarelas e brancas. E a vista mais tentadora era aquela que se formava na mente da morena.

"Como seria se espatifar nesta rua? Qual seria a sensação pular?"

Adela subiu na parte de concreto que sustentava a base de ferro. Ela sabia que voaria por alguns segundos e sentiria a maior liberdade de que havia experimentado, gritaria e isso lhe afastaria o medo e daria atenção a tudo que ela reprimia dentro de si e ao chegar ao chão a neve, que caia, cairia sobre seu corpo, sobre seu sangue derramado no asfalto e então ela olharia para o céu, porque faria questão de cair de costas, e pensaria:

"Meu amor, você já viu um céu tão azul? Ou uma liberdade tão tentadora?" Algo que ela havia lido há muito tempo.

- Srta. Marie. O que pensa que está fazendo? - disse Miss Julia na porta da sacada com uma expressão preocupada.

Adela desceu da elevação de concreto.

- Admirando a vista, Miss Julia. - ela respondeu.

Miss Julia lhe deu um sorriso frouxo, nunca acreditaria naquilo, ela sabia exatamente o que sua senhora pensava em fazer. Mas isso não era da conta dos criados.

- Pois bem, admire Londres outra hora, ela é sempre assim, cinzenta, então não perderá nada por hoje, já que amanhã estará igual. - disse Miss Julia tentando convencê-la o mais rápido possível a sair de perto da sacada.

- Aonde vamos? - perguntou Adela.

- Vamos comprar seu vestido, hoje é uma noite importante para o Sr. Malfoy.


- Siga-me. - disse Miss Julia.

Adela obedeceu a mulher, quando a parede de tijolos se abriu e diante dela um outro mundo também lhe foi aberto.

- Por Deus! Isso é uma loucura. - disse Adela. - Como há tudo isso atrás de uma parede de um boteco imundo?

- É o nosso mundo, muito diferente do seu. - disse Miss Julia.

Adela nunca tinha visto tanta gente estranha em sua vida, e olha que sempre havia trabalhado com a periferia da sociedade, de bordel em bordel, entre cabarés e casas de show, nunca havia visto uma multidão de chapéus cônicos, de côco, ou então com flores secas e vestes largas, parecendo batas, geralmente negras, e sacolas seguindo sozinhas seus donos, lojas de corujas, ratos.

- Isso é fantástico. - dizia encantada.

De repente um homem voando saiu de uma loja e caiu na sua frente com o rosto todo chamuscado.

Do outro lado da rua outro homem gritava:

- Nunca mais volte aqui seu salafrário! Ladrão! - disse. - Se voltar eu juro por Merlin que lhe lanço um feitiço que lhe rachara a face!

Adela lhe estendeu a mão.

- Parece que você aborreceu esse homem. - disse ela.

Ele aceitou e levantou-se.

- Ora, ora, eu ladrão, esse velho me pagava uma mixaria para trabalhar o dia inteiro. - respondeu arrumando as vestes, e colocando o chapéu na cabeça.

Ela riu.

- Desculpe a indelicadeza, sou Olívio Wood. - falou tirando o chapéu e se curvando.

- Muito prazer, sou Marie Denevoe. - respondeu.

Ele pareceu assustado.

- A futura senhora Malfoy que todos falam? - ele perguntou.

- Exatamente.

- Sra. Marie! - disse Miss Julia. - O que está fazendo aí parada? Ora! E conversando com um maltrapilho destes. - ela parou um instante e mexeu na bolsa tirando uma moeda. - Tome um galeão para o jantar. - ofereceu ao homem.

- Muita gentileza. - ele aceitou.

- Vamos. - disse Miss Julia puxando Adela pelo braço.

Andaram um pouco até Miss Julia começar o seu sermão:

- Bom, creio que o Sr. Malfoy lhe explicou poucas coisas. - ela suspirou um momento. - Primeiro, nosso mundo esteve em guerra e está se reerguendo agora, então a maioria da população é miserável e está louca pra ganhar dinheiro, podendo fazer tudo para tal, se é que me entende. Então senhora não ouse dar atenção a mendigos e nem fale seu nome, todos sabem quem são os ricos.

- Mas ele não era mendigo. - disse Adela.

- Era o que então? Um príncipe? - perguntou Miss Julia.

- Disse-me que era Olívio Wood. - respondeu.

- Olívio Wood? Tem certeza que ouviu certo? - perguntou Miss Julia entrando em uma loja.

- Claro que sim! - respondeu. - Por quê?

- Antes da guerra senhora, ele era o jogador de quadribol mais famoso do mundo.

Adela arregalou os olhos. "Quadribol? O que seria aquilo?"


- O Sr. Zabine, por favor? - perguntou Draco a outra secretária diferente daquela que estava na última vez.

A senhora idosa e com óculos de um grau forte, olhou com esforço e lhe disse que o Sr. Zabine não estava, mas que não demorava a voltar.

Draco resolveu então dar uma volta pelo Beco Diagonal. Entre lojas e pessoas, teve uma surpresa.

- Ora, ora se não é a Parkinson mais nova. - ele disse encontrando Lia. - Sabe aonde anda seu chefe? - ele perguntou.

Ela se virou da vitrine para ele. Não demonstrou sinal de espanto ou felicidade em vê-lo.

- Falou-me que iria a St. Mungus estava com dores fortes nas costas. - ela respondeu.

Draco sabia que aquilo era mentira, ele ia a St. Mungus, mas não por causa de suas dores físicas.

- E você? De folga? - ele perguntou.

- Não, já acabou meu expediente, estou olhando as vitrines apenas. - ela respondeu. - E você?

- Apenas matando o tempo para me encontrar com seu chefe. - ele disse.

- Bom, tenho que ir. Foi um prazer, Sr. Malfoy. - ela disse se despedindo.

Ele balançou a cabeça em sinal de despedida.

Olhou a vitrine que ela olhava, havia um belo colar de ouro. Entrou e chamou o balconista.

- Aquele colar, por favor. - disse.

O homem buscou-o.

- Para a Srta. Lia Parkinson. - Draco disse comprando-o.

- Então, o que você acha disso? – perguntou a Blaise quando esse lia o bilhete que seu pai o mandara.

- Ele mandou um convite para mim e para meu pai para jantarmos hoje no apartamento dele. E o que eu acho, bom, vou lhe repetir o que já falei: ele quer tudo que foi dele de volta e precisa de você para conseguir isso. – disse Blaise. – E pelo jeito, vai negociar alto para conseguir.

- Devo ir lá? – perguntou ao amigo.

- Você não deve, você tem que ir lá, Draco, escutar o que ele tem pra dizer e, dependo do que, concordar. – aconselhou.

- Não gosto nada dessa situação. – disse Draco.

- Eu imagino. – disse Blaise.

Mas, na verdade, ele não imaginava realmente.


- Eu desisto! Não há um vestido em todo esse beco que me agrade! – disse se jogando na cadeira ao lado de Miss Julia.

- Senhora, essa é a quinta loja que entramos. Por favor, escolha algo rápido. - implorou.

- Não sei, nada parece bonito, esses vestidos são estranhos eu não consigo me sentir bem com eles.

- Então, escolha a coisa mais trouxa que conseguir. - disse Miss Julia baixinho.

- Ok. Prometo que vou olhar com mais atenção. - disse se levantando e indo procurar um vestido.

Já havia olhado aquela loja inteira, havia vários cabideiros com vestidos e as mais diversas estantes com acessórios, mas nada parecia agradá-la, nada parecia bonito o suficiente para causar o impacto que queria.

Adela havia imaginado um vestido que a fizesse tão esplendorosa que Herman não conseguisse parar de olhá-la ou sequer balbuciar uma frase inteira sem se sentir tonto ou perdido, queria um vestido que todos os homens e mulheres olhassem e não conseguissem tirar os olhos dele e dela.

Subiu as escadas, remexeu em alguns cabideiros para encontrar o tão precioso vestido.

- Você não me pega! - gritou o menino que passou correndo e se escondendo atrás de Adela.

- Julien! Julien! - gritava uma menina atrás dele. – Julien! Devolve a minha boneca!

- Olha o que eu faço com a sua boneca boba! - ele disse batendo com o brinquedo no chão.

- Vocês dois aí, Julien e Molly! Venham agora pra dentro! - disse uma mulher morena de cabelos brancos.

Julien se agarou na perna de Adela.

- Julien Weasley! Largue da moça agora! - disse o puxando pelo braço.

- Me desculpe, senhorita. Mas essas crianças são umas pestes. - disse a mulher.

- Não se preocupe. - respondeu Adela. - São seus? - perguntou.

- Não são meus não. Cuido deles enquanto as mães costuram.

- Julien, essa moça parece aquela das fotos, não é? - disse Molly ao primo que estava no colo da mulher.

- Que fotos, Molly bobona? - disse Julien.

- Devem ser a dos jornais. Todos sabem quem é a senhora.

Adela sorriu estranhamente.

- Não Lucy, fotos do álbum da vovó. Lembra, Julien? Quando vovó mostrava as fotos pra nós? Você lembra, Julien? - disse a pequena garota loira ao seu primo.

Adela se virou para a garotinha loira.

- Não, Molly bobona, você está doida que nem a vovó Molly.

- Não estou não! Ela é a moça das fotos!

- Não é não!

- É sim! - disse Molly começando a chorar.

- Já pra dentro os dois! - ordenou Lucy. - Me desculpe. Se procura um vestido de verdade não encontrará nessa loja. - disse arrastando os dois.

Adela continuou ali, parada.

"Fotos do álbum da vovó."

"Não, Molly bobona, você está doida que nem a vovó Molly."

Desceu as escadas com essas frases na cabeça. Teria aquela menina falado algo sobre o seu passado? Estaria ela falando sério?

- Então? - perguntou Miss Julia.

- A quem pertence essa loja? - perguntou Adela.

- Que eu saiba a Fleur Delacour. - respondeu.

- E quem costura? - perguntou novamente.

- Não sei. Devem ser costureiras contratadas. Ou então é negócio de família.

- Que família? Delacour? - ela perguntou.

- Por que essas perguntas senhora? - disse Miss Julia.

- Me responda, Julia! - disse Adela irritada. - Apenas responda!

- A senhora Delacour foi casada com um dos Weasley antes dele morrer na guerra. - respondeu.

- Obrigada! Vamos a outra loja, aqui eu não vou encontrar um vestido.

"Weasley... Molly Weasley." Ela riu.

"Aonde está com a cabeça Adela?"


Ele também sabia que aquele dia viria...

Aquele dia em que teria que fingir não conhecer a prostituta com qual dividira a cama por uma semana incompleta. Aquele exato dia, desde o enterro de sua mãe não lhe saiu da cabeça, mas também não chegou à luz da razão. Draco preferiu pensar de forma discreta em como seria. Estava ocupado demais cultuando o ódio e a repulsa que tinha dela e também preocupado com assuntos monetários. Mas, escondido entre as barreiras invisíveis criadas por seu cérebro, sempre houve um pensamento sobre aquele dia, um pensamento que nunca passou do momento em que ele a olharia novamente, nunca passou daquilo, ele nunca havia deixado e isso o preocupava porque...

"Ela estará..."

Na verdade, apenas uma coisa ele tinha certeza, que seria divertido brincar com ela, fazer piadas que apenas ela entenderia e que só ela tentaria esconder.

Acabou de dar o nó na gravata e aparatou no que seria o apartamento de seu pai.

Existem coisas que acontecem em nossa estadia terrena que demoraram não mais que 10 minutos para nos ocorrer e uma vida inteira a nos perseguir. Essa era exatamente a situação de Draco e Adela.

Nenhum dos dois sabia exatamente o que os esperava quando a campainha tocou pelos dedos dela e a porta se abriu pelos dele, já há certo tempo.

Quanto tempo durou? Menos que cinco segundos, cinco segundos fatídicos, cinco segundos incompletos, como a semana deles. Apenas cinco.

Lá estava Draco Malfoy, do outro lado da porta. Olhou um bom tempo para maçaneta dourada... Estava pensando... Seria sensato apertar a campainha? Ele podia sentir que aquele simples ato podia mudar muita coisa. Apertar aquela campainha significava voltar a várias partes do seu passado, problemas com o pai, problemas com os negócios e problemas com a mulher de seu pai. Tocar a campainha era problema na certa. Ficou pensando... Poderia virar as costas e simplesmente embarcar em uma nova aventura para qualquer país distante e começar de novo, ou tocar a campainha. Tocou.

O som, onda mecânica se propagou através das paredes, dos móveis e chegou aos ouvidos de todos que se encontravam do lado oposto da porta.

Para Miss Julia, o som significou obrigação. Para os diversos outros empregados como: cozinheiros, graçons etc, apenas que um convidado havia chegado. Para uma mulher trancada em seu quarto, o som, a fez borrar a maquiagem.

Houve passos, Draco os ouviu, não seriam dela, eram pesados demais. Ao invés disso, outra mulher, de feições severas, coque impecável, que lembrava McGonagall, apareceu.

- Boa noite, Sr. Malfoy, seja bem-vindo. - ela disse em um tom servil. A primeira impressão que o loiro teve é que ela sempre estava com o cenho franzido, reprovando alguma coisa, essa impressão jamais mudaria.

Draco entrou no que seria uma ante-sala, um quadrado pequeno com papel de parede de pétalas rosas que possuía uma porta a sua direita, indicando um armário.

- Eu sou Miss Julia, queira me dar seu casaco. - ela pediu estendendo as mãos.

Draco obedeceu. E pensou se receberiam tão bem assim no inferno.

Ela guardou rapidamente no armário.

- Queira me acompanhar. - ela pediu.

Draco agora se encontrava em uma grande sala, o piso de tábua corrida impecavelmente lustroso se estendia por todos os pontos que sua visão alcançava, havia também dois sofás grandes e negros um de frente para o outro, separados por uma mesa de centro, completando um retângulo havia duas poltronas da mesma forma, a parede era toda de vidro, lhe estendendo a visão cinzenta de Londres naquela noite de inverno.

- Deseja algo para beber? - perguntou.

- Um uísque. - ele respondeu o mesmo de sempre.

- Em um minuto.

Era ele...

Foi o que Adela pensou quando ouviu a campainha. E foi o que pensou pela segunda vez quando pode espiar do corredor a figura loira sentada no sofá.

O que faria? Desceria até lá? Fingiria não o conhecer? Poderia esperar mais um tempo e apenas descer quando outro convidado chegasse, assim evitaria o transtorno de ficar a sós com ele. Era o mais sensato a se fazer, mas não foi o que Adela fez.

Ela apareceu no alto da escada. E o primeiro pensamento do loiro foi: "Não pode ser a mesma mulher."

Draco se lembrava muito bem da Adela loira com um vestido branco cintilante na festa de Jacob, lembrava da semelhança com Narcisa e de ter a comparado com um diamante.

Draco se lembrava muito bem de tudo isso. Mas, agora as lembranças não faziam sentido já que ela aquela mulher no alto da escada não se parecia com aquela das lembranças.

Os cabelos loiros lisos, agora eram de um negro intenso e cacheados nas pontas, essas mesmas madeixas transformadas estavam soltas e uma franja pendia para o lado direito. O vestido combinava com o cabelo, mas era do mesmo estilo do da festa de Jacob. Era igual, porém oposto.

Draco constataria esta frase ambígua das mais diversas formas.

Lá estava ele, sentando no sofá a encarando, com as mãos segurando o queixo, sempre analisando, sempre a observando. Estava nervosa, por que afinal ele tinha que ser filho de Lucius?
Por que afinal, eles tinham se reencontrado?

Era óbvio o porquê, mas nenhum dos dois queria pensar naquilo. Se algo inacabado está, voltará para que inacabado não seja mais. Não interessa quando, nem como, voltará, por mais improvável que seja.

Ela desceu as escadas sempre com o olhar fixo nele. Ele acompanhou a descida com o olhar fixo nela. Um garçom trouxe a bebida que Draco havia pedido. O que o fez desviar por um segundo a atenção, Adela aproveitando esta deixa, acabou por virar em direção a cozinha fingindo ter algo a tratar com os funcionários e ignorando o fato de que deveria, como anfitriã, dar atenções ao convidado.

Miss Julia apareceu vindo no caminho oposto, queria dar as últimas informações a sua senhora, então qualquer esperança de o ignorar foi perdida.

- Engraçado, eu tenho a impressão que conheço a senhorita. - ele disse.

Então Miss Julia que não conseguira dar seu recado devido àquela intromissão, olhou para ele desconfiada e depois voltou o olhar para sua senhora, tentando entender o que aquilo poderia significar.

- Claro que conhece, estive no enterro de sua falecida mãe. - ela respondeu serena, sentindo o peso do olhar de Miss Julia.

- Mas é claro que sim. Mas estou dizendo que tenho a impressão de conhecê-la antes do enterro de minha mãe, você por acaso não tem a impressão de me conhecer? - ele perguntou irônico.

Um tremor passou pelo corpo de Adela e ficou mais nervosa ainda que Miss Julia ainda se encontrasse ali.

- Bom, não me recordo do senhor, se o conhecesse recordaria certamente, mas deixe me apresentar quem sabe o senhor então não se relembra de onde deve me conhecer. - ela deu passos em sua direção e estendeu a mão. - Marie Loren Denevoe.

Draco pegou sua mão e lhe deu um beijo.

- Não. - ele balançou a cabeça. - Parece que a conheço com outro nome, talvez. - ele disse a deixando mais embaraçada.

- Mas para que eu mudaria de nome? Só se eu fosse espiã, certo? Ou quem sabe estivesse fugindo do meu passado, não é assim que as pessoas se arranjam quando fogem? Mudando de identidade? O que eu não acho uma atitude valente. - ela disse isso, uma resposta cheia de ambigüidades feitas para ele.

- Você está certa, fugir realmente não é um ato corajoso. - lembrou-a do fato de ela também ter fugido.

Ela olhou para trás, Miss Julia não se encontrava mais ali. Até onde teria ouvido?

- Principalmente dos compromissos matrimoniais. - ela respondeu a ele.

A campainha tocou. Um homem atravessou a sala.

"Principalmente dos compromissos matrimoniais." "Que diabos ela quer dizer com isso?" Pensou Draco enquanto a encarava. Era claro, ela sabia que ele era casado.

Ela foi até o convidado que acabara de chegar, Draco a observou caminhar triunfante até Evandro Nott.

- Draco Malfoy? - perguntou Nott não acreditando.

"Beleza, só a banda podre da bruxaria." Pensou.

Draco lhe retribuiu um sorriso sem muita alegria.

- Quanto tempo. - disse sentando ao seu lado.

- Vocês desejam alguma coisa? - perguntou Adela.

- Sua futura madrasta é encantadora, não é? Assustei-me até quando a vi, afinal é tão nova. - comentou Nott.

As faces de Adela se enrubesceram.

- Muitos dizem que experiência não vem da idade. - Draco respondeu irônico olhando para ela.

- Exatamente. - ela respondeu sendo educada. - E também não sou tão nova assim. Vou mandar servir as bebidas. - ela foi até a cozinha.

"Muitos dizem que experiência não vem da idade." A frase foi com ela. "Odioso." Pensou.

- Então, Malfoy, estamos com uma empresa nova, na verdade acho que vocês devem estar interessados em reabrir os portos bruxos, não? - perguntou Nott.

Draco pegou mais um uísque que o garçom servia.

- O que você acha, Nott? - respondeu de uma maneira que não dizia muita coisa, queria apenas que Nott deduzisse que sim, que eles queriam voltar ao ramo dos portos e que ele tinha dinheiro pra isso.

- Então, se vocês vão voltar a esse ramo podem contar com meu apoio, é uma área que ainda não foi bem reconstruída depois da guerra. Com o capital alto e contatos voltaremos a ser os donos dos mares.

- Mas estou pensando em algo maior dessa vez. - disse Draco querendo levantar de quanto dinheiro Nott estava falando.

- Como assim? - perguntou.

- Acho que investir em galpões e venda e compra de mercadoria é ótimo, é o que fazíamos no passado, mas construção de naves bruxas de transportes é a minha nova meta. -disse Draco.

Nott bebeu um gole e ficou balançando a cabeça como se ponderasse o assunto.

A campainha tocou novamente.

- Isso é uma excelente idéia, Malfoy. - disse Nott. - Investimento alto e lucro alto.

- Então, falando sobre o que? - perguntou Blaise que acabara de chegar.

- Negócios. - disse Draco.

- Como vai, Nott? - perguntou Blaise apertando sua mão.

- Ótimo e você, Zabine? - perguntou.

- Bem. E que negócios são estes? - perguntou Blaise.

- Construção de naves bruxas. - disse Draco.

Blaise arregalou os olhos.

- Muitos galeões. - disse o moreno.

A campainha voltou a tocar. Logo Lia Parkinson, Pansy Parkinson e Judith Parkinson se juntaram aos homens.

Blaise encarou Draco logo que Lia sentou ao seu outro lado do sofá. Draco deu um sorriso discreto enquanto levava o copo à boca. Reparando a bela jóia que ela tinha no pescoço.

- Então, Pansy, quando é o casamento? - perguntou Nott.

- Estamos ajeitando os últimos detalhes, não é mamãe? - ela se virou para a Senhora loira que conversava com Blaise.

A mulher balançou a cabeça afirmativamente, na verdade não havia nem sequer escutado a pergunta, estava mais interessada em saber como andava seu processo milionário de divórcio.

Adela que tinha ido à cozinha ver o andamento do jantar voltou para a sala um pouco corada.

- Me desculpem a ausência. - ela falou. - As senhoras. - se dirigiu as três loiras que se encontravam na sala. - Desejam alguma coisa?

- Eu não lhe conheço? - perguntou Pansy à Adela.

Blaise que ainda conversava com Judith e lhe garantia que o processo estaria encerrado e ela mais milionária em menos de um mês, ouviu o comentário de Pansy. Ia indagar que também tivera essa sensação, quando Judith lhe perguntou se ele realmente tinha certeza daquilo. Perdendo então a linha de raciocínio e voltando-se para Judith.

Porém, Draco, Nott e Lia viraram para a futura Sra. Malfoy.

- Desculpe a falta de educação. - parou Pansy. - Pansy All Parkinson. - estendeu a mão.

- Sou Marie Loren Denevoe. - disse Adela.

Pansy arregalou os olhos e sua mãe, que agora prestava atenção na conversa, também.

- Quer dizer que você é a noiva de Lucius? - perguntou com uma face assustada.

- Sim, sou eu. - respondeu Adela um pouco envergonhada.

- Lia. - Pansy se virou para irmã. - Você não a acha familiar? - perguntou.

Lia que estava conversando com Draco voltou a atenção para a irmã.

- Sinceramente, só lembro dela na capa do Profeta. - respondeu.

- Deve ser por isso que eu lhe acho familiar. - terminou Pansy, pouco convencida da verdade.

O último convidado, David Zabine, chegou e logo Judith foi conversar com ele.

E Blaise voltando a roda que anteriormente discutia a impressão de Marie já ser conhecida, não encontrou mais lugar para dizer que também tinha essa impressão.

Todos se encontravam conversando animadamente. Mas para Adela duas pessoas em particular pareciam mais divertidamente interessadas em suas conversas, eram Draco e Lia Parkinson.

Enquanto Adela conversava com Pansy Parkinson, na verdade fingia que conversava, dando apenas respostas curtas e mecânicas, do tipo: "Que bom!", "Não acredito!" seus olhos atravessavam o corpo da loira e observavam atentamente outra conversa, uma que não fora convidada a participar.

Draco conversava animadamente com a irmã de Pansy e lhe oferecia sorrisos verdadeiros e muita atenção, totalmente o contrário da conversa dela. O que a morena sentia? De tanto controlar tudo e principalmente naquela noite, não sabia dizer ao certo, mas a mão dela pousada no sofá sustentando seu corpo e enforcando uma almofada, aquela mão concentrava tudo dela sobre a visão que tinha, sobre seus sentimentos e sobre aquela noite.

- Minha irmã não sabe o que está fazendo. - falou Pansy mudando totalmente do assunto insosso sobre bolos e convites.

Adela depois de vários minutos de frases repetidas e insossas, voltou- se para Pansy com interesse e lhe fez uma pergunta:

- Por quê?

- Ora, Draco Malfoy é problema na certa. Principalmente porque nenhuma mulher resiste a ele. - ela respondeu.

- Você...? - Adela franziu o cenho e perguntou para ter certeza que tinha entendido direito.

- Fui noiva dele. - ela falou dando um gole na taça de hidromel. - Larguei tudo, quando me apaixonei, os jornais e revistas bruxos me apontaram como a mulher mais estúpida do mundo bruxo, a mãe dele só faltou me matar, expulsou-me da roda de amizades, expulsou-me da sociedade bruxa, minha mãe ficou meses sem falar comigo, até descobrir que meu futuro marido tinha uma considerável fortuna.

- Mas ela podia fazer isso? Quer dizer e as outras pessoas?

- Quando se trata da vontade de um Malfoy, ninguém pode contra, querida. - ela disse terminando a taça de hidromel.- Narcisa podia até não ser uma legitima, mas depois de todos os anos de convivência pegou o jeito.

Aquela frase nunca mais saiu das lembranças de Adela.

- Mas eu soube que ele era casado. Não amava a esposa? - perguntou de uma maneira inocente fingida, reparando que a única que poderia lhe dar explicações sobre aquele fato era aquela mulher.

Pansy riu e bateu a mão em sua própria coxa, demonstrando a incredulidade da pergunta.

- Amá-la? O casamento foi arranjado, na verdade eu que iria ser a esposa infeliz, mas tive sorte, depois de dois meses do rompimento do meu noivado ele se casou, e ainda é casado, tenho avisado Lia constantemente sobre esse assunto, mas ela não quer me dar ouvidos, principalmente depois que ele lhe deu este colar que ela está usando.

Adela sentiu um choque, uma raiva crescente, ele havia comprado um colar para aquela mulher? Não ousou olhar, não podia perder aquela fonte de informação que era Pansy.

- Mas se não amava a esposa, por que se casou? Por que aceitou um casamento arranjado? - ela perguntou.

- Querida, Narcisa era a mulher mais louca que eu conheci. Sabe como é, casamento infeliz, a perda de uma filha ainda bebê antes de Draco, a loucura por ter um filha e decepção quando nasceu Draco e ela soube que não poderia mais ter filhos, tudo isso entrou na cabeça dela e depois da guerra obrigou Draco se casar e ter um filho, uma filha precisamente era o que ela queria se não o deserdava. Draco sem escolha, com o mundo destruído, o pai condenado e com os bens confiscados pelo governo, dependia exclusivamente da herança da mãe, acabou fazendo isso. - ela terminou pegando outro copo de hidromel.

- Mas o que o fez desistir? - Adela perguntou querendo saber mais.

Pansy que era chegada a fofocas não percebeu aquele interesse na vida do herdeiro Malfoy.

Pansy chegou perto dela e abaixou consideravelmente o tom de voz.

- Blaise Zabine. - ela disse sussurrante. - Blaise se apaixonou por ela e era pai do filho que morreu. Draco os pegou na cama.

Adela arregalou os olhos, então era isso, então ela tinha desistido dele por nada, ele não amava a esposa, o filho não era dele, tudo na vida dele era mais mentira do que aquilo que eles estavam vivendo no hotel na Alemanha, então era isso, ela havia desistido dele por nada.

- Mas se ele não amava a esposa, por que foi embora? - ela perguntou.

Pansy respondeu não aumentando o tom de voz.

- Não foi por causa dela em si, mas pela traição de Blaise, que era o único em que ele confiava e bom foi humilhante para ele e Draco não estava mais agüentando a pressão de Narcisa por um neto depois de 4 anos de casados.

Adela estupefata pela quantidade de informações só conseguia balançar a cabeça de maneira leve e afirmativa.

"Por nada."

Draco do outro lado da sala, perto da janela e já em pé, não chegava a fingir sua conversa, apenas se podia dizer que ele não se concentrava total atenção naquele papo. Passava a vista pela sala, de vez em quando, não se permitindo vidrar o olhar em ninguém, por mais que sua mente já estivesse fazendo isso.

"Não pode ser a mesma mulher." Pensou novamente.

Então, Lucius, aquela presença repugnante, apareceu na sala. Draco o pode sentir antes de ele aparecer. Adela, elegantemente, levantou-se do sofá e foi até seu noivo, ele enlaçou o braço pela cintura dela e lhe pousou um beijo nos lábios.

Draco apertou o copo, teria quebrado se não fosse de cristal.

- Me desculpem o atraso. - disse Lucius a Blaise, Draco, Nott, David. - Creio que todos conhecem minha noiva, a Srta. Marie. - ele disse apresentando.

Todos inclinaram a cabeça em demonstração de conhecimento.

- Que me perdoe o comentário, mas uma bela moça. - disse David Zabine.

Adela sorriu agradecendo o elogio.

E todos concordaram menos Draco que se tornou impassível.

- Aonde encontraste essa mulher? - perguntou o advogado.

- Andando pelas ruas é que não deve ter sido. - comentou Draco descontraído.

Todos riram. Menos Adela que entendia que o que o loiro quis dizer foi exatamente o contrário.

- O jantar está servido. - avisou Miss Julia.

Seguindo a mulher, todos os convidados se encaminharam para a sala de jantar. A sala era clássica, mesa comprida de madeira nobre e escura, atrás da cadeira de cabeceira uma janela, da qual Draco podia ver a neve caindo, e um belo lustre de vidro que refletia luz a todos os lados.

Lucius se encaminhou para a cabeceira. Adela sentou-se ao seu lado direito.

- Sente-se ao meu lado esquerdo, Draco. - falou Lucius.

- Parece que sempre ficarei com o lado errado. - brincou o que se arrependeu depois, pois tinha certeza que aquilo fora uma tentativa frustrada de chamar atenção. Ela nem sequer havia lhe dado um olhar.

Enquanto os serviçais serviam o prato de entrada, Lucius tomou a palavra:

- Bom, queridos amigos, chamei todos vocês aqui para que os antigos laços voltem a se unir e assim levar o mundo bruxo pós guerra a um nível maior que aquele que ele foi um dia. Com todos juntos construiremos o novo mundo bruxo, ou a parte dele que ainda não foi reconstruída. E também para dizer-lhes que Marie e eu iremos nos casar daqui a três meses.

Todos aplaudiram.

Draco a olhou, ela tinha o rosto virado para seu pai. E um sorriso radiante.

- Proponho um brinde! - disse o loiro se levantando de sua cadeira num impulso com uma taça de hidromel nas mãos. Um impulso de chamar a atenção.

Os convidados voltaram sua atenção para Draco. Ninguém desconfiava das mentiras que seriam ditas naquela noite, apenas Blaise não viu aquilo com bons olhos.

- Que Lucius Malfoy seja finalmente feliz em um casamento. - Depois se virou para ela. Estivera esperando encará-la desde o confronto anterior.

Ela o olhava com um sorriso magnífico nos lábios.

-... Que minha futura madrasta seja "abençoada" por ganhar o sobrenome Malfoy. - dessa vez todos notaram o teor irônico da citação. - Que sejam felizes, prósperos e principalmente honestos um com o outro. - terminou tomando sua taça de hidromel e ainda a olhando.

Todos brindaram ao casal, mas sem certeza de que era isso que tinha de ser feito.

- Como vocês se conheceram, Lucius? - perguntou Judith.

"- E vocês? Conte-me agora a sua história." Draco lembrou de Belshoff.

Mas ao contrário daquela noite, não houve hesitações. Adela tomou a palavra:

- Meu pai tem negócios com Lucius e foi em um jantar dado por meu pai que nos conhecemos. Lembra, querido? - ela disse pegando a mão dele e perguntando de uma forma romanesca. Fazendo toda mentira ser real.

- Ela me enfeitiçou. - ele respondeu envolvendo a mão dela.

- Mas meu caro Lucius. - perguntou o patriarca Zabine. – Conte-nos como conseguiu fisgar essa bela moça?

- Ora, David! Que pergunta! - Draco se intrometeu. - Não é óbvio o motivo pelo qual essa moça se apaixonou por meu pai?

Adela não o olhou quando ele sugeriu a idéia implícita, ela se sentiu gelar de medo das próximas palavras ditas por ele, houve um silêncio pesado na mesa, mais um momento tenso, lá estava aquele menino mimado brincando com ela.

-...Ele é um Malfoy e todos sabem que quando se trata da....

-...Vontade de um Malfoy ninguém pode contra.... - continuou Pansy.

- Isso mesmo. - completou Lucius.

- Mas me diga, Srta. Denevoe. - disse Draco, acabando com o alívio que ela estava sentindo por ele não ter feito nada de vergonhoso. - O que a Srta. fazia antes de conhecer meu pai? Por favor, não nos diga que era algo ilícito.

Todos riram da insinuação, já que boa parte da mesa tinha participado de atos ilícitos junto com Lucius.

Adela se limitou a mexer os lábios em um pseudo-sorriso. Sentia-se muito nervosa e aquele nervosismo estava começando a dominá-la.

- Estava me formando em literatura. - ela respondeu.

- Literatura? Que belo oficio. - disse Judith. - E deixou para se casar?

- Não abandonei completamente, um dia quem sabe voltarei. - ela respondeu.

- Me desculpe. - começou Lia. - Mas não entendo uma mulher no nosso século abandonar a carreira para se casar. - observou.

- Há coisas mais importantes do que uma carreira, querida. - Adela respondeu sem muita simpatia.

- Como o que? - perguntou Draco.

Novamente os serviçais entraram para servir o prato principal.

- O Sr. já se apaixonou? - ela perguntou o encarando pela segunda vez naquela noite.

Draco que ansiara por ver novamente os olhos dela, ficou satisfeito.

- Ora, não vejo isso como desculpa. - ele respondeu.

- Concordo. - falou Lia.

- Eu não perguntei isso. - Adela falou delicadamente. - Eu perguntei se você Sr. Malfoy e se a Srta. Parkinson. - ela disse lhe virando a face. - Já se apaixonaram?

O loiro não podia deixar de se impressionar com a calma e facilidade com a qual ela conseguia mentir.

- Não. - Lia respondeu.

- Não. - respondeu Draco.

- Então, quando isso acontecer, vocês me entenderão. Fora isso é impossível explicar a quem é cético demais. - ela sorriu e voltou a Lucius. - Quando vi seu pai, caro Sr. Malfoy, eu tremi, você já sentiu isso antes? - ela o enfrentou mais uma vez. - Eu senti como se já o conhecesse antes, eu já devia ter visto uma primeira vez este homem. Então, quando ele falou, eu pensei: havia tido um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Porque ele nunca havia sido preenchido como foi quando eu o olhei.

- Nossa. - disse Judith. - Parece que você não tem só uma bela mulher, mas uma grande poetisa dentro de casa, Lucius.

Lucius estava bobo, nunca imaginara que Adela pronunciasse esse tipo de palavras na frente de seus amigos, e aqueles olhos azuis dela lhe encarando de forma tão intensa, pareciam querer que ele lhe entregasse a alma, o que ele faria sem pestanejar.

Draco por outro lado contraiu o maxilar e chegou a entortar o grafo que segurava.

- A Srta. Denevoe está certa. - disse Pansy. - Apenas aqueles que se apaixonam sabem certas coisas.

Houve um minuto de silêncio, enquanto os convidados comiam, Adela, mais calma e por cima da disputa silenciosa, acalmou-se e voltou sua atenção para seu prato.

- Oh! Quase esqueci de dizer. Vocês acreditam que aquela, perdoem-me a palavra, vagabunda da Granger quer que todos aqueles que cometeram crimes de guerra e tiveram suas penas reduzidas por informações voltem para Azkabam? - disse Judith.

- Eu sei disso. - disse David. - Ela nunca vai conseguir.

- Só porque aquela vagabunda colocou um filho do Potter no mundo quer ser a dona da lei. - riu Nott.

- É, eu conheço várias desse tipo. - disse Draco querendo voltar ao controle da situação. - Algumas nem precisam de filhos pra conseguir o que querem. Apenas um bom casamento.

- Ah milhares desse tipo mesmo. - disse Lia.

- Sabe o que me irrita, é esse tipo de mulher fingida, que não vale nada, querendo dar uma de santinha. - disse Draco. – Sabe, esse tipo merecia ser desmascarada na frente de todos pra aprender a nunca brincar com quem não se deve.

- Com licença. - disse Adela se retirando com a desculpa de usar o banheiro, mas não estava mais suportando o olhar de Draco para ela, e muito menos aquelas insinuações, a qualquer momento ele diria algo mais diretamente e ela precisava sair antes disso, antes que seu nervosismo acabasse consigo. Levantou-se.

Draco esperou a mulher desaparecer da vista de todos, para forjar um acidente com vinho em sua roupa e ser obrigado a se levantar e ir ao banheiro.

Duas pessoas dos presentes acharam aquilo levemente suspeito, uma conhecia Draco o suficiente bem para ter certeza que ele derrubara propositalmente a taça de vinho em sua roupa e a outra levando em consideração o que havia ouvido no começo da festa começou a desconfiar de algo, mas do que ambos poderiam desconfiar?

Draco chegou à sala e ainda pode ouvir os últimos estalidos do salto dela no degrau da escada, subiu em um pulo e chegou a frente do quarto dela quando a porta estava se fechando, mas antes que isso ocorresse, Draco interceptou com o pé.

Adela andava com a mão apoiada na testa, uma dor de cabeça começava, talvez um enxaqueca, foi andando até o criado mudo do quarto procurando qualquer analgésico e não chegou a reparar que a porta não bateu como deveria ter batido.

Abriu a gaveta e então, finalmente, percebeu que a porta havia batido tarde demais.

Virou-se para averiguar o que deveria ter acontecido, então viu: ele estava ali, na sua frente, na frente da porta.

Draco começou a bater palmas.

- Tenho que confessar. - ele começou. - Você realmente é uma profissional, enganar meu pai não é coisa de amadoras. - ele terminou.

- Do que você está falando? - ele respondeu. - Na verdade o que você está fazendo aqui? No meu quarto?

- Ora, ora, seu quarto agora não é mais sua área de trabalho? É algo privado e feito para descansar? - ele respondeu irônico.

- Na verdade ele continua sendo o local de trabalho. - ela disse. - Seu pai aprecia. – lançou-lhe junto às palavras um olhar acompanhado de um sorriso malicioso.

Ele não gostou de ouvir aquilo, na verdade ele não estava preparado pra uma resposta daquelas. Uma coisa era ele saber inconscientemente que seu pai a tinha de um jeito que ele nunca tivera, outra coisa era ouvir da boca dela uma afirmação daquela. Ouvindo e vendo, porque junto com a fala dela vieram também a sua mente a inevitável imagem dela e de seu pai juntos, da pior forma que podia haver para se imaginar.

- No mínimo, afinal, você é paga para isso. – ele começou. – E o que mais você teria para oferecer? – ele terminou triunfante.

Foi impactante, como seria diferente? Aquelas palavras dele atingiam um ponto ainda muito delicado, muito vivo, era o passado voltando naquelas palavras. O impacto lhe causou certo desconcerto, em que Draco jurou ver a face impenetrável dela assumir, por um instante, uma expressão conturbada. Mas apenas por um instante.

- É ai que você se engana, com o seu pai não preciso ser paga. Com ele, faço por prazer. – terminou respondendo a altura, porém sem acreditar que conseguia falar tal absurdo.

- Você? Sentindo prazer? Pensei que depois de tanto tempo de "trabalho", certas partes tenham perdido a sensibilidade.

- Muito pelo contrário, depois de tanto tempo de trabalho, como você falou, nos tornamos mais exigentes.

Draco se pôs a pensar numa resposta, mas não teve tempo porque Adela voltou a falar:

- E é engraçado você falar sobre isso. – ela falava olhando para as mãos, como estivesse admirando a cor de seu esmalte. E repassando a Draco um ar de deboche. – Pois toda essa experiência com seu pai, só me fez chegar à conclusão de que ter capacidade de proporcionar prazer não é uma questão de sangue.

- O que você quer dizer com isso? – Draco perguntou, por mais que soubesse o que ela queria dizer, mas não acreditando que ela havia dito.

- Ora, Draco. – Ela falou enfatizando o nome dele e voltando a encará-lo com um sorriso perverso nos lábios. – Não se faça de desentendido. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer. Ou você quer realmente que eu lhe explique o quanto seu pai é melhor que você?

Draco não pensou em nada, apenas reagiu a última frase dela. Deu dois passos na direção daquela mulher, puxando-a violentamente pelo braço e com a outra mão acertou-lhe o rosto.

Com a intensidade de tal ato, Adela caiu sobre sua cama, que estava ao lado direito dos dois. Ao cair, automaticamente se virou para ele, encarando-o assustada. Adela percebeu as faces vermelhas e os punhos fechados tentando controlar algo muito maior. Nunca havia visto tanto ódio em apenas um olhar e isso pela primeira vez, desde que cruzara com ele na Alemanha, causou-lhe medo.

"Ela conseguiu. Ela conseguiu me tirar completamente o controle." Ele pensou. Olhou-a mais uma vez e saiu do quarto.


Havia uma pessoa na sala de jantar que não estava achando nada comum a demora de Draco no banheiro, essa pessoa o conhecia tempo suficiente para chegar à conclusão de que o banheiro era o último lugar que Draco poderia estar.

Na verdade, Blaise não desconfiava de que Draco estivesse no quarto de sua futura madrasta, ele apenas suspeitava que Draco estivesse no escritório de Lucius procurando alguma coisa que pudesse servir para ele próprio e, sendo seu amigo e advogado, foi atrás dele.

O moreno lembrava de que Draco tinha ido à direção da sala e junto com a dedução do escritório de Lucius ser no andar superior, sua desconfiança virou certeza. Blaise então começou a subir as escadas, não tinha completado seus degraus, quando Draco apareceu vindo do lado oposto.

- O que aconteceu? Perdeu o caminho do banheiro? – perguntou Blaise descontraído, mas logo depois notando que algo não estava bem com o amigo.

Draco o encarou e continuou a andar como se Blaise nem sequer tivesse aparecido. O moreno o seguiu com o olhar.

- Não estou bem. – disse Draco no meio da escada. – Diga para Lucius que depois converso com ele.

Então, Draco partiu para a porta do apartamento.

Blaise ficou completamente perdido. "O que está acontecendo?" Pensou. "Passando mal?". Aquilo não o convencera nem um pouco. Olhou para o corredor. "Mesmo que fosse verdade, aqui no andar superior só devem existir banheiros dentro dos quartos."

"Então, por que Draco estava aqui?" Ele se perguntou.

Então uma forma apareceu no final do corredor. Blaise tentou esconder sua surpresa ao constatar que forma era aquela.

- Sr. Zabine? – ela perguntou com aquela voz serena e educada. – Procura alguma coisa aqui?

- O banheiro? – foi à única coisa que passou pela sua cabeça.

- Não há banheiros aqui, só lá embaixo. – ela respondeu sorridente.


"Você quer realmente que eu lhe explique o quanto seu pai é melhor que você?" Deveria ser a milésima vez que Draco repetia aquela frase, e toda a cena após a ela.

"Aquela vagabunda conseguiu, conseguiu me tirar totalmente do sério." Draco não se lembrava onde estava só tinha a noção do quanto havia bebido, pois não deixou que o barman tirasse os copos de sua vista, e pela suas contas havia uns 15 copos

Alguém aparatou ao seu lado.

- Como você consegue sempre me achar? - ele perguntou irritado a Blaise.

- Coisas de quem te conhece desde que nasceu. - respondeu o moreno. – Por que tanta bebida? Há algo errado, não é?

- O que está certo, Blaise? Eu não tenho dinheiro, não tenho casa, não tenho emprego, não tenho nada mais que fazia parte da minha vida.

Blaise impediu que o Barman colocasse outro gole de vodca para Draco e pagou as bebidas.

- Aquela sua vida de antes era bem pior que essa, na verdade aquela sua vida de antes não era nem sequer sua vida, você vivia em função do que sua mãe mandava tudo por causa da herança dela. Você até se casou por causa da herança. Mas não é disso que eu estou falando, você conhece a mulher de seu pai, não é? Você a conheceu na Alemanha, não foi? - ele perguntou encarando Draco.

Draco odiava Blaise naqueles momentos, sempre fora assim, Blaise era capaz de fazer piadas de tudo, da maior desgraça, da maior tragédia, ele vivia constantemente fazendo isso e poucas vezes falava sério, mas quando decidia conversar sério, ele encarava Draco daquela maneira e sabia de tudo antes mesmo de perguntar. Nessas horas, Draco odiava Blaise.

- Isso não vem ao caso. Eu preciso ir embora... - disse se levantando cambaleante.

Blaise o segurou pelo braço. Tirou quatro galeões do bolso e aparataram juntos no apartamento.

Draco caminhou até o sofá e se jogou.

- Lucius quer que você vá amanhã conversar com ele, no escritório trouxa que ele tem, aqui ta o endereço. - disse deixando na mesinha de canto.

"Isso não vai acabar bem." Pensou Blaise indo se deitar.


Estava escuro e não havia um sequer espectro andante no apartamento. Lucius dormia profundamente e, irritado com a desfeita de Draco, nem sequer cogitou serviços matrimoniais com ela. O que Adela agradeceu mentalmente.

A morena levantou da cama e caminhou silenciosamente até a porta, tomando o rumo do final do corredor, subindo três degraus e indo a área da piscina.

Sentou em uma cadeira de praia. Passou a mão no lado do rosto que ainda sentia os dedos de Draco... Ela sentia ódio, um ódio profundo. Quem era ela pra bater nela? Quem era ele, afinal?

"Maldito sejam todos vocês Malfoys." Ela pensou.

Mas ao mesmo tempo sua mente a levou para as palavras de Pansy, e a sensação de que todos os sentimentos bons que a haviam feito desistir de uma noite com aquele homem que inundava seus pensamentos, não valiam de nada. Ela não havia se deitado com ele por pensar que ele dedicava amor a esposa e podiam estar passando por uma fase, o que era comum naquele ramo em que ela trabalhava. Ela também não havia se deitado com ele por causa do filho que era dele, ou que assim lhe foi dito. Então, de supetão, descobre que nada daquilo era verdade, não havia um pedaço no paraíso para ela por uma boa ação. Na verdade, ela não tinha se deitado com ele para se proteger, o resto foi apenas desculpas inventadas e honradas para se enganar dos sentimentos que carregava por ele.

Mas aquele tapa nunca seria esquecido.

Draco não acordou da melhor maneira do dia anterior. Cair do sofá é uma péssima maneira de se acordar.

Levantou-se e foi até a cozinha, havia um bilhete de Blaise lhe lembrando do compromisso com Lucius naquela tarde, na verdade, Draco olhou no relógio, dali a três horas.

Pegou a cafeteira e encheu sua xícara de café. Voltou para a sala, a neve espessa caia sobre Londres, acinzentando-a mais ainda.

Uma coruja desconhecida apareceu, Draco levantou-se e abriu a porta da sacada.

"Para Draco Malfoy,

Sr. Malfoy, sua tia Andrômeda deseja falar com o senhor o mais rápido possível, venha assim que puder a nossa casa.

P.S: É urgente, venha hoje se puder.

Remmus Lupin"

O loiro franziu o cenho em sinal de confusão e estranheza. O que Andrômeda poderia querer com ele?

Quando bateu na porta, sua tia logo abriu.

Lembrou da última vez que a vira, antes da guerra em uma reunião da ordem que tivera sido na sua antiga casa, cabelos castanhos, rosto fino e os mesmos olhos Black, os mesmos olhos de Narcisa.

- Entre, Malfoy. - ela disse dando passagem.

A casa de Tonks e Lupin era surpreendente, nunca na vida Draco imaginara que um lobisomem e uma traidora-do-sangue pudessem viver tão bem.

- Sente-se. - ela lhe mostrou o sofá.

Com dificuldade, ela fez o mesmo se sentando na poltrona a frente. E ficou um tempo a observá-lo.

- Você não tem nada dela. - disse com a voz dura.

Draco imaginou o que ela poderia estar querendo dizer.

- Muitos dizem que eu me parecia com ela. - respondeu.

- Não. Você é todo o seu pai. - ela o encarou com o olhar Narcisa.

- Se a senhora me chamou para me insultar, então peço licença para ir embora. - ele disse precipitando-se para sair.

- O testamento é falso. - ela disse.

Draco parou no meio do caminho do levantar e voltou para a cadeira.

- Como? - ele perguntou muito interessado, quase não acreditando, aquela velha devia estar delirando.

- Eu estava com sua mãe quando ela redigiu aquele testamento, e posso lhe garantir que ela não escreveu nada daquilo. - ela disse com certeza na voz.

- Mas ela pode ter mudado de idéia e escrito um novo. - disse Draco, dando uma opção óbvia.

- Impossível. Ela me mandou uma carta horas antes de morrer, dizendo que o testamento de verdade está escondido.

- Quero ver isso. - falou o loiro, cético demais naquelas palavras da tia.

Sua Tia lhe mostrou um pedaço de papel que havia em cima da mesinha de sempre que os separava.

Draco a pegou rápido, não podia ser verdade, era bom demais pra ser.

"Andrômeda,

Lucius querendo me visitar é atormentador, vive me mandando bilhetes e rondando a mansão, tenho medo. Eu sei o que ele quer, mas o testamento está escondido e lhe garanto que não sobre este teto.

N.B"

- Lucius estava visitando-a? - perguntou Draco surpreso.

- Seu pai chegou a Londres uns 2 meses antes da morte de sua mãe. Ou você pensou que ele chegou no dia da morte, ou uma semana antes, como você? Sinceramente, se ele tentava a visitar tenho minhas desconfianças...

- Você acha que ele pode ter a matado? - Draco perguntou mais surpreso ainda. - Mas ela vinha definhando há tempos, foi o que me disse Blaise.

- Sim, é verdade, mas com certeza ele rondar a vida de Narcisa novamente contribuiu para a piora dela, seu pai é um louco! Mas sim, o testamento é falso e você tem que achar verdadeiro antes que a fortuna Black e nossos bens terminem na mão dele.

- Mas aonde Narcisa pode ter escondido isso? Na mansão Black? - ele perguntou.

- Ora, veja o que ela escreveu. "...lhe garanto que não sobre este teto..."

- A mansão Black... - Draco completou.

- Exato. Seu pai está revirando aquela mansão de cabeça para baixo atrás do verdadeiro testamento, mas nada vai encontrar lá, desconfio com certa certeza que ela escondeu num lugar mais improvável. - terminou encarando Draco.

Draco a olhou por um instante.

- Na mansão Malfoy? - perguntou franzindo o cenho.

- Creio que sim.

Draco ficou um tempo a raciocinar tudo o que sua tia estava lhe dizendo. Seu pai ter voltado muito antes que ele, seu pai ter tentando conversar com sua mãe, ele estar revirando a mansão Black, ele querer conversar com ele.

- Então, Lucius forjou esse testamento, por isso a demora em sair! Maldito tabelião vendido.

- Ora, seu pai é amigo do Sr. Young desde o tempo de Hogwarts é claro que deve ter feito algum acordo com ele. Você precisa achar o verdadeiro testamento.

- Acharei, pode deixar comigo. - respondeu Draco.


Draco chegou a porta da sala que deveria ser o escritório de Lucius, Stuart Elsing foi o que ele leu na porta.

"Parece que não fui só eu que andei mudando de identidade por aqui."

Ele bateu na porta, uma voz feminina lhe pediu para entrar. Uma sala pequena de espera, com cadeiras e mesinha cheia de revistas trouxas em cima.

"Tudo está muito errado."

- O senhor deve ser o filho do Sr. Elsing. - disse a moça que era recepcionista.

- Sim, sou eu. - ele respondeu.

- O senhor pode fazer o favor de esperar um minuto, houve um imprevisto.

Draco assentiu e sentou-se. "O testamento é falso." Ele quase não acreditava naquelas palavras de sua tia. Era bom demais pra ser verdade, afinal lhe havia acontecido tantas coisas ruins.

- O senhor pode entrar. - a moça disse lhe tirando de seus pensamentos.

Draco abriu a porta e entendeu o imprevisto.

Lá estava Adela de costas olhando pelo vidro para Londres, havia papéis pelo chão, e depois encarando a face de seu pai, notou-lhe as faces rubras de mais e o cabelo, que ainda era comprido, levemente desembaraçado.

Draco sentou e fechou os olhos em sinal de irritação. "Vagabunda, perfídia."

- Pronto, estou aqui. Em que lhe posso ser útil, meu querido pai. - ele disse com grande sarcasmo na voz.

- Me poupe seus sarcasmos. - ele disse. - Não temos necessidades deles aqui. - Lucius disse lançando o mesmo olhar congelante de quando Draco era um garoto.

Draco lhe respondeu com um sorriso sardônico.

- Querida, você pode nos dar licença? - Lucius pediu.

Adela que mais parecia uma estátua desde que Draco entrara ali, virou-se pela primeira vez para Lucius.

- É claro, querido. - disse indo até ele e lhe dando um beijo.

Draco olhou para seus sapatos, eles eram mais interessantes que aquela cena.

Lucius esperou ela sair e continuou:

- Vou ser bem direto. Você sabe que depois da guerra eu fui condenado ao exílio de cinco anos e que tudo o que era meu foi confiscado pelo governo e que eu estou totalmente proibido de ter qualquer coisa no mundo bruxo.

Draco assentiu, e já imaginava aonde ele queria chegar.

- E agora que a herança de sua mãe encontra-se estagnada...

-...Você quer que eu reaviva todos os seus patrimônios no mundo bruxo. - Draco completou.

- Eu sabia que você entenderia. - disse Lucius.

- E deve saber também que eu não estou disposto a ajudar, negociar ou sequer participar de qualquer coisa que me relacione a você. - falou o loiro.

- Eu, se fosse você, pensaria melhor, afinal, você tem pouco dinheiro, não tem emprego e vamos ser realistas quem dará um emprego a um Malfoy no mundo bruxo?

- Existe o mundo trouxa. - respondeu Draco.

- No qual a Interpol está atrás de você por desvio de dinheiro. É, existe o mundo trouxa, mas não para você.

"É óbvio que ele saberia, deve saber até quanto eu tenho no banco."

- O que você quer realmente? - perguntou Draco se vendo sem saída.

- Quero as empresas Malfoy de volta e a mansão também. - ele falou.

"A mansão também." Draco não pode deixar de gostar daquilo.

- Mas não será fácil nem pra mim, afinal, lutei ao seu lado por tempo suficiente para ser marcado. - respondeu o loiro.

- Sim, mas você mudou de lado ou talvez sempre tenha pertencido ao outro. É o sangue Black da sua mãe.

Draco riu.

-...Mas isso não vem ao caso, a vantagem é que você só não teve direito a minha fortuna, mas pode readquirir o resto para mim.

Draco riu novamente.

- O que te leva a pensar que eu faria isso pra você, e segundo o que te leva a pensar que eu faria isso de graça? - ele perguntou.

- Nada. Eu lhe pagarei bem e você fará o que eu pedir.

- Esse é o seu nome para escravidão? - perguntou.

- Você quem decide. O que seria uma soma de 50 milhões de galeões para alguém que nem você?

- Com menos de 100 milhões, nada feito. - Draco falou.

- Tudo bem, Draco. Serão 100 milhões, como você quer.

"100 milhões de galeões. Isso é muito dinheiro, mas com a herança de Narcisa ia ser o homem mais rico da Inglaterra de novo. É, eu preciso reconsiderar a proposta."

- O que eu não entendo é por que eu? Afinal, você poderia escolher qualquer um para lhe representar e sairia mais barato com absoluta certeza.

Lucius o encarou como se não acreditasse na pergunta.

- Me surpreende que você não saiba algo tão evidente. - ele respondeu.

Draco parou um minuto para pensar, não era por ser seu filho.

- Você é um Malfoy, e ninguém melhor do que um pra saber como a cabeça de um outro funciona. Por isso não tente me enganar, eu estarei vigiando você e prevendo seus movimentos.

- Sou Black também. - Draco respondeu pra assustar.

- E esse é o seu lado fraco. - respondeu Lucius.

Draco odiou aquelas palavras.

- Pode ser o fraco, mas com certeza o Malfoy é o traidor. - ele respondeu com um leve sorriso. - Quero 50 milhões agora se não, nada feito.

- Ok. - respondeu Lucius.

- E tem outra coisa. - continuou Draco. - Eu quero morar na mansão, a partir do momento que ela for minha.

Lucius franziu o cenho.

- Ela será sua por pouco tempo, vais colocar no meu nome trouxa depois. - ele disse estranhando aquilo.

- Não interessa. Quero morar nela. - disse Draco.

- Você quer morar comigo e com Marie? - ele perguntou desconfiado.

- Quero.

- Há algo errado nisso, mas tudo bem eu descubro o que é, enquanto não descubro será bom ter você debaixo dos meus olhos.

Draco levantou.

- Não precisa ter medo papai, afinal, sou seu filho. - disse ironicamente.

- E isso faz com que eu deva ter medo sim. - ele respondeu.


- Vamos Marie, se concentre no feitiço. - dizia Gaspar ao ouvido dela.

"Atio, não Accio." Ela não pode evitar a lembrança das aulas de tiro na Polônia.

- Accio giz. - ela disse. Mas nada aconteceu.

Desistiu cansada na cadeira.

- É impossível, eu não consigo, serei sempre um aborto! - ela disse.

Gaspar a olhou sério.

- Você não está tentando realmente. Vamos. - pegou sua mão e a levantou. - Tente novamente.

Mais uma vez tentou e nada conseguiu.

- Desisto! Por hoje não agüento mais, ainda tenho um aniverssário para ir.

Gaspar riu.

- Ok, Srta. Marie. Está dispensada.


Quando chegou em casa, havia uma carta de Renné para ela que Miss Julia lhe entregou.

Adela correu para seu quarto e abriu curiosa.

"Querida Marie,

Fiquei muito confusa com sua carta anterior, pelo que entendi o louco do Stuart é Lucius Malfoy, isso? Pai do seu cliente Hermann que na verdade é Draco Malfoy? Como pode ser possível algo assim? Me tortura a sua aflição e eu estar longe sem poder ajudá-la. Como estás conseguindo lidar com isso? E seus sentimentos por este ex-cliente?Voltaram a aparecer? Deus a ajude que não, só pode terminar em tragédia algo assim.

Volto a insistir que venha para Grécia, Hillo e eu iríamos lhe dar toda a segurança, temo por você imensamente. Por favor, pense em minha proposta.

Tenho algo novo para lhe contar, estou grávida! Acreditas? De dois meses! Espero que seja um menino para ser forte que nem o pai. Não contei sobre meu passado a ele, acho que poderia perder toda essa felicidade e já fui demasiadamente triste nessa vida, sei que não é certo, ou talvez seja. Não quero pensar nisso.

Em todo caso, sinto saudades, quando puder venha visitar-me.

Beijos."

"Querida Renné,

Espero que seu menino ou menina venha a esse mundo com todas as bênçãos dos deuses desta terra em que moras.

Já lhe disse que é impossível fugir dele, já fiz isso uma vez e sabemos o que sofremos ambas, estou avisada que se tentar mais uma vez, ele matará você e me deixará viva para contar a história, prefiro mil vezes não arriscar.

A aflição é terrível, me corroí, tenho que fingir o tempo todo, não só um orgasmo como era antes, tenho medo de morrer o tempo todo com algo mal interpretado por ele.

Sobre meus sentimentos estão cada vez mais confusos, eu não sei explicar o efeito que aquele homem tem sobre mim, só sei que de saber que ele vem ou está perto como na sala ao lado, ou de ver alguém parecido com ele pelas ruas, já me sinto trêmula. Tenho me perguntado incessantemente o porquê de tudo isso. E tenho constante medo de meu corpo perto dele, às vezes acho que não irei suportar e então suporto, mas não suporto mais suportar entende?

Por outro lado, tenho-lhe ódio. Me agrediu fisicamente da última vez que nos vimos e também mentalmente por mais que ele tenha saído mais ofendido que eu.

Espero em breve visita-la, não sei se Lucius tem planos de ir à Grécia, desejo toda a felicidade do mundo a Hillo e a você e a esta criança. Quanto a verdade, não se penalize, ninguém tem o direito de julgá-la por querer se dar uma nova chance.

Beijos."


Quando Draco saiu da sala de seu pai, ele pensou nela, pensou...

Ela não o havia olhado nem sequer por um instante, não tinha demonstrado nenhuma raiva ou irritação do que acontecera da última vez.

Saindo do escritório para o corredor, Draco tentou segui-la, olhou por cima para ver alguma cabeleira negra, tentou seguir as marcar de pés no carpete, mas era tudo muito estúpido...

Durante a semana, ele viveu uma terrível confusão, tinha recebido os 50 milhões galeões de seu pai, e mais 20 mil para todas as despesas nos artifícios legais e estruturais de reabrir os portos. Foi decididamente uma correria, reconstruir estaleiros, contratar funcionários, tudo ficou em sua responsabilidade, e entre tantas coisas para pensar, às vezes ela aparecia surpreendendo...

Houve um dia, uma sexta-feira nebulosa, em que o mais aconselhado, devido à nevasca intensa sobre Londres, era não sair de casa e ele pouco tinha o que fazer já estando tudo encaminhado. Acabou obedecendo ao conselho. Em casa, ela aparecia mais. Já fazia uma semana e meia que não à via, o que ela fazia? Ele se perguntava. Mas nada conseguia lhe retirar aquela sensação continua de inquietação, sempre, sempre se lembrava do tapa. Por que fizera aquilo? Aonde tinha chegado? Constantemente aquela lembrança lhe invadia e o fazia se sentir estranho...

Nesta mesma sexta, chegou ao apartamento de Blaise um convite de aniverssário de Pansy. Estaria ela lá? Mesmo sem seu pai que estava viajando? Ele acreditava que sim. Então, domingo. Domingo ele voltaria a vê-la. E aquela sensação de inquietação voltou-lhe. E de tão incomoda, acabou por desmarcar um jantar com Lia para aquela noite, não, ele não queria sair com ela, ele queria ver outra.


Ela olhava fixamente aquele outro eu invertido no espelho e seus um milhão de detalhes imperceptíveis imperfeitos.

Não. Ninguém por mais observador e meticuloso ou apaixonado repararia em um fiapo de linha azul saltante ou então um ponto de mancha branca que facilmente sairia com água.

Mas não era isso que Adela presumia. Qualquer defeito mínimo era algo altamente destruidor de sua imaginada aparência perfeita.

"Aparência perfeita."

Seu reflexo mostrava um rosto pálido e magro demais, olheiras, sardas, nariz estranho, olhos ora esbulhados, ora pequenos demais. Corpo ora gordo, ora magro.

E Adela nem ousava comentar os cabelos.

Entretanto era óbvio que as imperfeições que Adela via facialmente e corporalmente eram na verdade truques mentais a busca daquela perfeição.

A morena sentou-se na cama bufando.

Que insensatez era aquela de querer estar perfeita.

Por que daquilo? Ou melhor, para quem aquilo?

Nome e sobrenome: "Draco Malfoy".

Era até de certa forma absurdo o ódio que ela carregava dentro de si. Mas como evitar, se ele era inteiramente odioso?

Draco Malfoy era um excelente jogador, só não era melhor que ela porque Adela havia aprendido a se fechar, mas por quanto tempo? Eram odiosos sim aqueles trocadilhos ofensivos, o tapa que ainda se fazia sentir em algum ponto do seu rosto. E havia a risada, aquela risada sarcástica que Adela entrava em pânico quando ele a soltava, aquela risada que ria dela.

Todos esses motivos eram as colunas sustentadoras de seu ódio.

Olhou novamente para o armário e foi provar o vigésimo vestido da noite.

Escolheu um vestido negro, assim como a primeira noite, assim como seus fios revoltos, assim como ela imaginava ser a cor de seu espírito e não só aquele dia. Não chegou a ficar convencida do triunfo a sua busca da perfeição, mas depois de raciocinar seu ódio, a perfeição acabara por ficar em segundo plano.

Olhou-se bem refletida, respirou fundo e tentou postar aquela feição impenetrável, entretanto daquela vez chegou a duvidar que aquilo aconteceria.

Draco estava de pé, com um copo de whisky na mão como era de se esperar, mas havia algo ali, era aquela... inquietação. Estranha, que começara devagar, com pequenos pensamentos intrusos dela em seus outros pensamentos que nada dela tinham, e assim passou-se o dia, e ao entardecer, quando se viu arrumado ao espelho, lembrou-se do que queria ter esquecido.

Havia dado um tapa nela. Ele ainda conseguia sentir os dedos formigantes ou então reproduzir essa sensação de formigamento, ainda conseguia se lembrar da respiração forte, da sensação de poder, de finalmente ter a colocado em seu devido lugar. O seu lugar humilhante que ele sempre fazia questão de lembrá-la.

Mas algo maior, um pensamento escondido pelos muros de seu subconsciente tomava forma. Por que ele precisava tanto a lembrar daquilo? Por que a humilhação dela lhe fazia se sentir bem? Deveria estar louco para se indagar tais coisas.

Tentou se concentrar nos papéis, nos carregamentos, na paisagem branca e cinzenta de Londres e até no meio das pernas de Lia Parkinson. Entretanto, lá estava ela no meio daquilo tudo.

Se Draco ainda se lembrava das sensações de humilhá-la, o que nunca esquecera fora a expressão de seu rosto. Fora a primeira vez que ele conseguira enxergar, realmente, qualquer sentimento naquela mulher. E foi certamente aterrorizante.

E a mistura de tudo isso, mais a certeza de encontrá-la naquela noite, foram de apoderando dele, crescendo e quase o dominando. Aquele era um dia em que o mar de incertezas que os rondavam começava a incomodar fisicamente.

E afinal, ela não estava atrasada?

Quando ela surgiu negra na porta da sala de Pansy, não houve uma pessoa que não tivesse voltado os olhos para ela, Draco podia escutar os pensamentos, mas não precisou da oclumência para adivinhar os pensamentos invejosos das mulheres e profanos dos homens, entre esses, o único diferente era o dele, entre invejosos e profanos, o dele era o odioso.

E quando deu seu primeiro passo em direção aos convidados mais próximos, algo como o vento maroto, deve ter trazido o cheiro dela para ele. Aquele cheiro da dança do hotel, que parecia com mãos que o agarravam, o loiro fraquejou e agradeceu por haver uma coluna amiga para segurá-lo quando cambaleou levemente para trás.

Ele nunca tivera noção do efeito dela sobre ele.

E nem sobre os outros.

- Mas que bela madrasta, Draco. – observou Nott. – Eu já tinha observado o quanto ela era bonita no jantar que seu pai nos deu, mas bonita como algo angelical. Porém, hoje não vejo nada de angelical nela, muito pelo contrário. – terminou e não ousou esconder o olhar de predador para a "madrasta".

- Esta mulher é sua madrasta? – perguntou Lucas Hogde, antigo conhecido de todos aqueles que precisaram do comércio clandestino durante a guerra. – Angelical, Nott? Com esse par de pernas? E essa boca vermelha convidativa? – riu com o pensamento seguinte.

"E essa boca vermelha convidativa?" Ele gravou.

Meio encostado na coluna, ele observou cada passo dela naquela sala, e como ela passava de rodas em rodas encantando todos os homens – ele estava vendo o que estava acontecendo com ele próprio – toda vez que ela saia de uma roda algum olhar cobiçoso lhe era lançado.

Deveria ser aquele vestido negro tomara que caia e até o meio das coxas. Certamente seria ele, deixava-a amostra demais, pele demais para homens do inverno, que não vêem nada a não ser peles de animais mortos nas mulheres. Eram pernas torneadas demais, colo muito amostra, braços nus e...

"Essa boca vermelha convidativa." Ele usou as palavras já ditas.

Draco se recompôs, ereto e superior, bebeu em uma golada o whisky quente e devolveu o copo a um serviçal que passava.

Quando ela se aproximou de sua roda para cumprimentá-los, ao invés daquele sempre esperado rosto inescrutável, lá estava ela caminhando em sua direção com um olhar sério. Sim, sério para ele. Ela queria lhe dizer alguma coisa, se não estava dizendo. Como ele era ruim de interpretação quando se tratava dela...

Adela caminhava para ele com um olhar sério, até pesado, ele podia sentir o peso daquele olhar sobre si, ela estava demonstrando algo, sobre alguma coisa passada.

- Olá, Sr. Nott. – ela o sorriu. E Nott lhe pegou a mão e a beijou.

- Como vai a senhorita em tal noite? – perguntou.

- Com a companhia que tenho hoje, como poderia estar? – ela perguntou com uma falsa animação.

Mas Draco podia sentir o peso na voz, ela estava forçando.

- Se você soubesse o passado de quase todas as pessoas aqui, estaria muito mal, eu suponho. – disse Draco querendo que ela o olhasse.

E assim aconteceu.

Blaise de longe, como sempre observando, teve a resposta de suas perguntas feitas a um Draco bêbado há mais ou menos duas semanas atrás. Era bem notável a qualquer um que prestasse um pouco mais de atenção que havia algo entre aqueles dois. Para ele que conhecia o loiro desde criança, era óbvio.

- Evandro e Lucas. - chamou Blaise com várias intenções.

Assim, aproveitando a oportunidade de escapar de uma situação delicada devido ao comentário do loiro, eles saíram daquela roda o mais rápido possível.

Agora estavam sozinhos. Draco com o olhar dela e Adela com as palavras dele.

"Agora ela vai sorrir e me dar uma resposta." Ele pensou.

Mas ela não sorriu, continuou a olhá-lo com aquele olhar significativo, que quase falava e que Draco não conseguia entender.

- De que importa o passado, quando ele foi esquecido? – ela perguntou.

Perguntou com a voz calma, uma voz que ele não conhecia, quase melodiosa. Não sorria, não havia ironia, havia apenas uma pergunta feita a ele.

Pela primeira vez na vida, Draco se sentiu um menino. Abaixou os olhos sem saber o que responder e ela se foi para o lado de Pansy.

Logo, Lia saiu de seu quarto, e ele foi o primeiro com quem falou. Lia não teria nenhuma atenção naquela noite, o pior era que nem a falsa atenção ele estava conseguindo dar.

"De que importa o passado, quando ele foi esquecido?" Havia algo ali, alguma pista sobre o olhar, mas como ele era ruim de interpretação!

Adela sentiu o olhar de Draco quando chegou, o olhar dele era diferente dos demais. Quando ela entrou na sala podia sentir o de todos, mas o dele era predominante sobre seu corpo, porque talvez fosse o único olhar que procurava ir além.

Como tremia, era sempre assim quando o via ou sabia de sua presença na sala ao lado. Seu corpo esquentava e tremia.

Falou com todos os conhecidos e desconhecidos, riu timidamente e sem vontade de alguns comentários, agradeceu elogios a sua roupa, cabelo, alguém chegou a comentar que ela estava perfeita. Ela só fez agradecer sutilmente. Naquele dia, ela não tinha vontade de fingir, tudo estava quente demais – o seu corpo, pensamento, espírito, até a sala em que se encontrava – para fingir alguma coisa e isso a preocupava.

Virou-se sabendo qual seria a próxima roda a cumprimentar, tentou antes de virar reprimir, estocar, dissimular, mas não conseguiu. Ao invés de um olhar indiferente ou então alegre com a festa de Pansy, ela apenas demonstrou o que estava sentindo. E o que era aquilo?

Como saber? Como resumir em uma palavra toda a complexidade de sentimentos? O que sempre ela se convencera de não ser nada tinha tomado forma, sem saber o que era, tentou por eliminação dar um nome. Não, não era ódio o que sentia por ele, nem raiva do tapa que ardia em seu rosto, talvez decepção, mas por que estava decepcionada se sabia que aquilo podia acontecer e sempre teve certeza que aconteceria? Então, descobriu que mesmo que se tenha certeza e que se prepare para uma situação, quando esta acontece nem sempre se esta, realmente, preparada. Sim, havia uma pontada de decepção, mas talvez também houvesse um cansaço de tudo que acontecia e de sempre repetir a si que não era nada. Hoje, ela se permitia ser alguma coisa.

E foi essa decepção, acompanhada de cansaço, que exprimiu para ele no olhar, na voz e nos sorrisos tímidos e forçados.

Quando ele falou, foi como se o peso triplicasse. E quando eles ficaram sozinhos ela tentou lhe dizer, da forma dela, algo sobre si. Estava lhe dizendo coisas que ele sempre perguntara.

E esperou que aquele passo dado tivesse uma resposta do outro lado, esperou em vão e a única resposta que teve foi um baixar de olhos covarde.

Covardia, cobiça, vergonha... Era isso que Draco pensava sobre seus sentimentos.

- O que você tem? – perguntou Lia.

- Lia, hoje não estou pra conversa, espero que você me entenda. – disse se levantando e indo para uma grande sacada arredondada que havia na mansão das Parkinson.

Lia pensou em ir atrás dele e insistir até saber o que lhe perturbava.

- Os parabéns! – falou a mãe chamando os convidados.

Então, a obrigação de irmã falou mais alto que o desejo de consolar.

Qual foi a sua surpresa em vê-la já ocupando o seu lugar de refúgio.

- Está frio aqui. – ele falou sem achar nada melhor pra dizer.

- Eu agüento, na Alemanha o frio é bem pior que esse. – ela respondeu sem virar.

"Alemanha..."

- Belshoff morreu. – ele disse sem nada mais para dizer pela segunda vez.

Ela fechou os olhos.

- Uma pena, gostaria de tê-lo visto mais uma vez. – respondeu.

Eles estavam conversando, apenas isso.

- Uma bela festa, não? – perguntou novamente. Por que ela estava deixando tudo mais difícil?

- Pansy merece essa bela festa, a não ser que haja algo no passado dela que diga o contrário.

- O passado foi esquecido. – ele respondeu com as palavras dela.

"O que eu estou falando? Por Merlin! É claro que eu não esqueci o passado! É claro que eu ainda sei quem ela é, ou o que ela foi. O que eu estou falando?"

- Não minta, Malfoy. – ela disse. – Você é do tipo que nunca esquece o passado, tudo que sente tem ligação com ele.

- Como assim? – ele não entendeu.

- Esse seu ódio que te move: ódio por seu pai, por metade das pessoas naquela sala, por mim talvez, tudo em relação ao passado.

- Não se considere tão importante assim para fazer parte dos meus sentimentos. – ele respondeu querendo novamente impor-se sobre ela.

Ela abaixou a cabeça, não era aquilo que procurava, não naquela noite. Ela não estava querendo se por num pedestal ou em uma importância qualquer, ela estava falando a verdade.

Draco se sentiu idiota depois de ter falado.

O silêncio se instalou, ela novamente não tinha respondido. Aquilo o deixava mais tenso.

- Está frio aqui. – ele tentou recomeçar.

- É, está frio mesmo. – ela respondeu.

Draco, que se encontrava do lado dela, virou a cabeça para olhá-la. Ela tremia.

E ele não sabia o que fazer, queria ter bebido o suficiente para ter coragem de esquentá-la, mas não tinha. Todavia, precisava beber pra ter coragem de fazer o que queria? Quando ele havia se tornado tão covarde? Ou tão dominado por seu orgulho? Ou tão preso num passado?

O que estava acontecendo com ele?

"Lembre-se de quem ela é! Lembre-se!" Mas todas as lembranças pareciam vagas perto daquilo.

Então, ele andou para o parapeito da sacada de concreto e o segurou firmemente, tentando fazer o frio passar para ele. Que ato covarde e desesperado.

Adela ficou observando ele agarrar firmemente o parapeito gelado pela neve, em algum instante pensou que ele pularia, o que certamente passou pela cabeça dele, mas não aconteceu, ele apenas ficou ali.

Como era difícil, ele não conseguia, não adiantava, ela até que poderia ajudar, mas não estava querendo facilitar nada pra ele. E o que ela queria que ele conseguisse? Que besteira era tudo aquilo. Postou-se a ir embora, quando Draco se virou, sentou-se no parapeito, cruzou os braços e olhou para o lado, evitando-a.

"Vá embora daqui!" Ela se ordenava. "Ele tem uma esposa em coma, ele é filho do seu futuro marido, ele tem um caso com a Lia, você sabe, ele é totalmente errado."

"O que você quer falar?" Pensava ele. "Vá embora antes que eu fale."

- O que você acha do mundo bruxo? – ele perguntou com medo que seus pensamentos fossem escutados.

Adela suspirou decepcionada. Por que eles nunca falavam do que realmente importava? Do que realmente incomodava?

- Não sei. Tanto faz. É mais um mundo que não é meu. – ela respondeu sem paciência.

- Então, o mundo "passado" não era seu? – ele perguntou.

- Não sei a que mundo pertenço. – ela disse.

Ele não entendia o que ela falava. E, geralmente, ele não ficava sem entender as coisas. Quebra-cabeças, ela era o melhor que ele já havia encontrado e aparentemente sem solução.

- Você quer pertencer a algum? – ele perguntou.

- Não sei. Se eu não sei a qual eu pertenço qualquer um seria bom, não é? – ela perguntou.

Ele a olhou. Não conseguiu responder. Não porque não quisesse, mas porque ela estava sendo demais profunda e ele nunca tinha tido uma conversa assim. A vida toda, em exceção a raras conversas sérias com Blaise, Draco procurou superficializar. Superficializar sentimentos, negócios, ele sempre tentou ser rápido e prático e nunca lhe disseram como proceder com coisas diferentes daquelas, na verdade nunca lhe disseram que havia coisas diferentes daquelas. Pessoas que não se vendiam e mulheres que não se contentavam com o pouco que ele queria dar.

Ela ainda tremia.

Adela ficou esperando uma resposta. "Como ele é ridículo! Que raiva! Por que todo esse papo fático? Vamos, coragem! Faça algo! Eu estou aqui esperando por algo!" Esperou alguns minutos, ele tinha voltado novamente o olhar pra o lado. Aquilo a tirou do sério.

Decidida, deu alguns passos à frente, preparou-se e lhe deu um tapa, assim como ele havia feito.

- Eu estou com frio. – ela disse e fixou o olhar no dele, dizendo: "Vamos, seja homem!".

Dessa vez, Draco entendeu o que ela queria dizer.

Pegou-lhe a mão que havia batido, Adela pensou que ele fosse revidar ou algo do tipo, mas não. Ele pegou a mão e posou na sua face, pegou a outra mão dela e posou do outro lado de sua face. E voltou a olhá-la.

Pronto! Agora a decisão era dela.

Adela que esperara com frio por aquele momento, o momento em que "algo" poderia acontecer, em que a covardia dele fosse extinta, conseguiu. Mas e agora? Ela teria coragem de dar aquele passo? Assim, entre pensamentos proibidos a uma hora como aquela, ela se lembrou das promessas feitas nas noites antes de dormir: nunca mais voltaria a tocá-lo, beijá-lo ou coisa parecida, seria um muro, seria uma pedra de gelo intransponível e foi exatamente a isso que se apegou. Andou para trás alguns passos, as mãos perderam o contato com a face dele e se virou em direção ao salão, com passos pesados ecoando.

Draco franziu o cenho, não tinha chegado ali para nada. Ela não podia jogar com ele daquele jeito! Tentou pegá-la, mas apenas o vulto ficou em suas mãos. Então, já encorajado e se sentindo um menino que faz o dever e não ganha o prêmio prometido, foi atrás dela.

Ela tinha passos de vantagem a frente, mas ele tinha pernas mais longas, quando Adela ia chegando à porta abobada, ele a puxou pelo braço. Ela, ao invés de erguer a cabeça e lhe oferecer os lábios, continuou com a cabeça abaixada. Draco a encostou na parede e tentou em vão fazer com que ela lhe olhasse. Ela batia nele, o unhava, o empurrava para longe, mas não ia conseguir por muito tempo evitar, em um dos empurrões, ele voltou com uma força maior, pegou-lhe os braços e segurou contra a parede.

- Olhe para mim. – ele ordenou.

Ela continuou a se debater. "Esposa, filho, amante, Lucius..." Ela tentava pensar em todas as coisas que faziam daquilo algo impossível, algo que nunca daria certo e que ela tinha certeza que só a faria sofrer.

- Olhe para mim! – ele ordenou novamente.

- Eu não quero. – ela disse de uma forma que lhe pareceu mais um pedido do que uma afirmação. E com certeza era um pedido, algo como: "Não vamos começar com isso, já sabemos aonde vai dar".

- Não minta, Adela. – ele falou, usando as palavras ditas por ela anteriormente. Draco não pensava no amanhã, ele pensava no agora e agora ele queria beijá-la a qualquer custo.

Então, não teve como, para ela, não olhá-lo. Aquele não era seu nome, mas era a primeira vez que ele o falava para ela.

Ela parou de se debater.

Ele soltou as mãos do pulso dela, deixando-a livre para correr. Teve medo que ela assim fizesse, mas não fez. Tocou a mão esquerda em seu rosto, dedilhou seus lábios vermelhos convidativos, e a beijou.

A parede atrás do corpo de Adela que, com absoluta certeza, deveria estar gelada, não estava mais.

O beijo... O beijo em si não durou muito tempo, Adela logo desistiu daquela insanidade total. O que tomou conta da morena foi um instinto de sobrevivência, uma inteligência racional inapropriada ao momento, porque aquilo não era só um beijo era o mais sedutor convite para perdição. Ela se tornaria escrava do desejo por ele. E ele, ocupado homem de negócios, sem contar os outros enormes problemas que os rodeavam, não estaria sempre presente, nem sempre disposto, ele ditaria as regras e ela já se via na interminável espera das amantes apaixonadas. Na sua cabeça, ela sabia que tudo aquilo podia começar apenas com um beijo, aquela perda do controle de seus sentimentos, e para ela não ter o controle sobre si era deixar de existir.

Foi em meio a esses pensamentos temerosos e de autoproteção que ela desistiu do beijo.

Draco tinha um instinto totalmente diferente naquela hora, o dele masculino, era apenas: continuar com aquilo até o final, soborear-se, deliciar-se e aproveitar-se de toda ela. Pra que todo aquele jogo? Era simples: ele queria, ela queria, então...

Ele achava inacreditável o que um contato físico podia fazer com as idéias, há alguns minutos ele tinha travado uma batalha sangrenta entre o querer e o fazer. Depois dessa fase era mais fácil aceitar o desejo existente, bem mais fácil.

Foi em meio a pensamentos de levá-la para o apartamento de Blaise, que ela se afastou.

No inicio, ele pensou que ela queria apenas ar, e não querendo dar este tempo, voltou a avançar para a boca dela, mas Adela virou o rosto e posou a mão no peito dele o empurrando.

Draco se enfureceu, tentou mais uma vez, ela continuou a mostrar resistência e o empurrou novamente, logo em seguida, aproveitando-se daquele espaço de distancia, foi embora.

O loiro acompanhou com o olhar ela desaparecer para dentro do salão. Escorando-se na parede colocou a testa sobre o antebraço.

"O que eu est... AHHH!"

Ele estava cansado de se perguntar as mesmas coisas, as mesmas frases clichês dos romances que havia lido. Cansou de se perguntar assim como os mocinhos ou vilões em "Por que estou fazendo isso?" ou "O que está acontecendo comigo?" ou, como ele iria pensar, "O que eu estava fazendo? Onde estou com a cabeça?" Tudo aquilo lhe parecia exaustivo e muito perigoso.

Ele havia lido em algum lugar que duvidar de Deus era crer nele, assim como uma mulher só duvidava de seus sentimentos por um homem quando já o possuía enraizado. Aquilo com certeza não era válido apenas para o sexo feminino, esse era o problema que lhe preocupava, quanto mais ele fazia aquelas perguntas poucos originais, mais ele lembrava daquele trecho e mais preocupado ficava. Se duvidar era ter, então ele não estava em uma boa situação.

Respirou fundo, essa era uma hora em que parar de pensar era a melhor coisa que ele poderia fazer. Voltou-se para o parapeito de mármore da sacada e olhou para a cidade, para o céu, para qualquer coisa que pudesse lhe desviar a atenção.

"Um cigarro ia bem uma hora dessas." Ele pensou, pena que não tinha um.

Falhando com a sua tentativa de se distrair, ele voltou ao que sua mente tanto se interessava, porém de uma maneira com menos de devo ou não devo, ele voltou seus pensamentos para o ato em si.

Estava tudo ali, na sua pele. Em sua pele, ele ainda sentia a respiração dela, em sua boca o sabor, em suas mãos outra pele, a dela, e em todo o corpo parecia impregnar-se seu perfume. Ele respirou fundo.

"O que está ac..." Lá vinham novamente aqueles pensamentos clichês.

Ele não queria pensar assim, por que podia ele, com tudo aquilo, com todos os problemas depois daquele beijo, apenas se sentir bem?

"Podia." Ele pensou.

Draco não reparou, mas enquanto Adela se afastava, gritando mentalmente para ele lhe prender ali sobre correntes, ela cambaleava no salto alto. Era assim: a perna bamba, as mãos trêmulas e na boca o gosto dele, o gosto da perdição.

Era assim nos poemas, nos livros, nos contos e cânticos. Era tudo exatamente assim. E ali estavam os motivos para ela se preocupar, amantes corajosas para ela eram estúpidas. A vida dá seus sinais sobre o futuro, você que decide enxergá-los ou não e Adela, que sempre fora prudente e nunca fora dada a sentimentos por clientes ou ex-clientes, enxergava o não-futuro de tudo aquilo.

Mas por que ela precisava tanto de garantias? Afinal, podia ter um caso com ele, dinheiro não faltava, de certa forma era livre, porque em sua cabeça nunca seria realmente casada com Lucius. Mas aqueles argumentos para justificar um embarque naquela aventura não lhe pareciam bons o suficiente. E não eram.

"Lucius te mataria certamente."

Quando chegou no salão da festa Pansy a chamou:

- Marie, querida, venha aqui tirar uma foto.

Ela, sorrindo, foi até a anfitriã.

Logo, teve uma surpresa inesperada: Lucius, que resolvera voltar mais cedo da viajem, aparecendo na festa.

- Querida, você está bem? – ele perguntou a notando gelada.

- Acho que não, estou me sentindo meio fraca. – ela respondeu.

Ele a abraçou e lhe deu um beijo.

Era de se esperar, caro leitor, que o destino, como sempre criança brejeira, fizesse o nosso Draco aparecer neste momento no salão. Bom, foi exatamente o que aconteceu.

Entre pensamentos de bem estar, e outros ainda reprimidos, Draco chegou à sala exatamente quando Lucius beijava a boca que ele acabar de beijar.

Pai e filho, a mesma mulher. Ele odiava o pai com todas as forças e ver aquilo o fazia odiar mais, porque odiava mais o pai, ela e ele.

- Draco. – chamou Lia que estava do outro lado do salão.

Draco olhou e calculou os caminhos prováveis de se encontrar com ela, descobrindo que o único possível era passando por detrás de Adela.

De um outro ponto do mesmo salão, Blaise percebia tudo o que estava acontecendo: primeiro, os dois ficaram sozinhos, logo depois Marie havia ido ao corredor e pelo tempo que demorou deveria ter ido à sacada, cinco minutos depois, Draco iria fazer o mesmo trajeto, e agora tinham voltado e lá estava Lucius. Realmente, era muita confusão.

Entretanto, deixando de lado as idas e vindas dos dois, era engraçado ver a cena que Blaise via: Draco passando por trás de Marie, e parando para olhar de canto de olho. Draco – Marie – Lucius. Era essa a seqüência.

- Blaise. – chamou Judith como sempre. Mas naquele exato momento ela não o estava chamando para outras mudanças no divórcio milionário.

Draco parou sim, mas não por sua vontade.

- Draco! Então, fiquei sabendo que amanhã os húngaros irão ao estaleiro. – disse Lucius.

Draco se virou para ele sem olhar para Adela, que parecia estar bastante aconchegada nos braços daquele verme.

- Sim. E como foi sua viagem ao Chipre? – ele perguntou.

- Pouco satisfatória. Depois conversaremos sobre aqueles investidores, se é que podemos chamá-los assim.

- Draco! – disse Lia chegando até ele. – Vamos, venha comer alguma coisa.

Adela teve uma enorme vontade de revirar os olhos.

- Olá, Lucius. – ela cumprimentou.

- Olá, Lia. – ele respondeu.

- Vamos? – ela perguntou para ele o segurando pelo braço.

Entretanto, outro braço, do lado oposto, prendeu-o. Draco se virou para ver quem era. Era Blaise.

- O que foi, Blaise? – Draco perguntou preocupado com a expressão do rosto do amigo, parecia não ter mais sangue correndo em suas veias, pelo menos aquelas que alimentavam a face.

Blaise lhe estendeu uma carta que acabara de chegar. Draco a pegou e leu. Retribuiu ao amigo um sorriso nervoso.

- O que foi, Draco? – perguntou Lia que observava tudo e fez a pergunta que todos queriam ouvir.

- Virgínia acordou. – respondeu a Lia.

Houve um silêncio entre os cinco integrantes que ouviram a notícia. Mas o mesmo fato de silenciar era para os cinco por razões diferentes. Lia, ao ouvir que a atual esposa de Draco havia acordado, logo pressentiu o término daquela relação que, na mente dela, tinha um futuro belo e glamoroso. Lucius aterrorizou-se, com aquela mulher acordando muitas coisas no processo da herança de Narcisa poderiam se complicar, coisas com as quais ele não estava esperando. Adela nem sequer moveu a cabeça do peito de Lucius, mas ouviu claramente a frase dita. Era ela, a mulher dele, que acordava, a mesma mulher que um ano antes a havia feito desistir dele e ir embora. Blaise tinha um misto de felicidade e medo dentro de si que o estavam roubando as cores da face. Virgínia havia acordado, sua linda Virgínia, mas o que aconteceria com eles depois de tanto sono? Ela ainda se lembraria das promessas?

Draco, o suposto marido e suposto pai, não pensava em nada.

- Vou pra St. Mungus. – disse Blaise.

Draco o parou.

- Eu vou com você. – respondeu.

A festa de Pansy, que estava animada, de repente, com o espalhar da notícia, ficou extremamente sussurrante. Os convidados, em sua maioria da elite bruxa, conheciam bem Virgínia e aqueles que a conheciam tinham visto as inúmeras especulações da imprensa desde o casamento, até o abandono, todos tinham suas opiniões que, durante o sono dela, também dormiram, mas que agora voltavam, do mesmo modo, a acordar.


N/A: Uruul galera! Bom, depois de mais de um ano, pelo o que eu vejo o último foi postado em janeiro de 2008, estamos postando aqui, minha beta e eu, o capítulo 6. Gente, nem eu tinha me tocado do tempo, eu realmente demorei muito pra postar. Capítulo complicado de escrever e mais universidade, estágio é uma confusão, mas eu não desisti, e sim! Essa fic vai ter um fim! Espero que vocês também não tenham desistido de nós.

Outra coisa é o trecho em que Draco pensa "Ele havia lido em algum lugar que duvidar de Deus era crer nele, assim como uma mulher só duvidava de seus sentimentos por um homem quando já o possuía enraizado.", se alguém teve curiosidade está no livro "A mulher de 30 anos" de Honoré de Balzac.

Então é isso pessoal, espero que a espera tenha sido proveitosa, e promessa que o outro capítulo está em boa parte feito e que não vai demorar um ano!!!!!!! Muito obrigada por todas as Reviews e, por favor, mandem maissssssssss e maissssssssssss.

Bjusss!!