Capítulo II: Renascida

Faltavam cerca 00:15min. Comecei a ficar realmente nervoso. Se pudesse, possivelmente estaria suando frio e com o coração querendo escapar pela boca. E se ela simplesmente me odiasse depois de toda a dor que eu causara? Se decidisse que agora que era suficientemente forte para manter-se segura não precisava mais de mim? E se agora que éramos iguais o fascínio simplesmente desaparecesse?

Bella me amava. Eu jamais duvidei disso. Mas Bella me amava como humana. com suas emoções e percepções frágeis de humana. Portanto, assim que ela despertasse para sua nova vida, poderia simplesmente não sentir mais o mesmo. Ou perceber que não era algo tão abrasador quanto ela julgava, com seus delicados sentidos.

E eu teria que deixá-la livre, não? Para seguir o caminho que quisesse. Não que eu imaginasse que suas preferências alimentares seriam diferentes das nossas. Eu tinha certeza absoluta que ela jamais mataria uma pessoa se pudesse evitar. E ela evitaria, eu estava certo disso. Bella era boa demais para ser um monstro. Pura demais. A dor da mera idéia de vê-la partir era dilacerante. Por um momento fui grato. Eu estava sofrendo também, mesmo que apenas por minha eterna insegurança e pela surpresa constante de seu sim, o medo inesgotável que ela percebesse subitamente o ser desprezível que eu sou, do monstro. Ela não estava sozinha na dor que a consumia. Eu também estava, a meu modo, queimando.

00:05min.

Ela moveu os dedos das mãos lentamente, os olhos ainda fechados, sua pulsação em um ritmo frenético. Quis me aproximar mais e tocá-la, mas eu não faria isso. Seria escolha dela, sempre a escolha dela. Uma batida mais pungente, súbita, dolorosa. E então acabou. Estava terminado. A mulher que eu amava, que era a minha própria existência estava morta diante dos meus olhos.

E renascida.

Levou alguns segundos para ela abrisse os olhos. Muito calma, hesitante, Bella sentou-se na cama, em um movimento que para qualquer mortal pareceria rápido demais. Mas eu sabia que ela estava sendo cuidadosa, ainda semiconsciente da força e agilidade recém adquiridas. Puxou o ar devagar, testando os odores ao redor. Suspirou. O que ela estava pensando???? Nada. Eu realmente tivera a tola esperança de que, depois da mudança, eu pudesse ouvir seus pensamentos peculiares. Ela encarou as próprias mãos, curiosa e então ergueu os olhos para mim, com uma expressão estranha. Medo? Bella estava com medo de mim?!

E então aconteceu algo realmente surpreendente. Eu percebi uma coisa que me fez ver o idiota, imbecil e melodramático que eu fora por quase um século. Encarei os olhos carmesins de Bella, lindos e puros, bons, apesar da cor estranha e vi a alma que eu amava. Ela estava lá. Não era a cor chocolate que me deslumbrava antes, aquele castanho quente e profundo, mas a expressão, a intensidade era a mesma. Bella era a mesma. Apenas seu corpo era um pouco diferente. A perfeição vampírica não tivera muito trabalho com ela. Por que eu nunca percebera isso em mim mesmo, ou em meus irmãos, ou em Esme e Carlisle, que eram, até então, as melhores criaturas que eu poderia imaginar? A resposta era simples. Eu não os conhecera tão profundamente e de formas tão intensas e marcantes quanto eu conhecia minha esposa. Eu provei o sangue de Bella. O corpo de Bella. E a vida de Bella. Ou seja, ela era tão minha que eu a conhecia mais e melhor do que a mim mesmo.

Ela sorriu e eu tive certeza absoluta de que, se fosse possível, ela teria corado. Incrível. Eu não precisava das reações humanas dela para saber como teria reagido, por que eu a conhecia demais. "Estou tão ruim assim?" Ela perguntou, tímida e imediatamente franziu as sobrancelhas delicadas. Sua voz estava ainda mais doce e musical. Ela continuou me encarando, insegura e eu percebi que estava de olhos arregalados para ela, sem respirar e sem me mover. Uma perfeita estátua atônita e, mais uma vez, deslumbrado por ela. "Você está vocês mesma" eu disse, brilhantemente. Ela riu e o som correu por mim como ouro líquido. Bella, minha Bella. De volta. Ela mesma. Minha. Para sempre. "Era essa a idéia, não?" murmurou baixinho, pensativa e então o riso saiu completamente de seus olhos e ela ficou muito séria. "Decepcionado Edward?". Absurda. Ainda mais absurda que antes, se possível. Será que ela não percebia que eu estava completamente embasbacado, maravilhado e nas nuvens por ela não ter mudado quase nada?!

Aproximei-me dela, devagar, dando chance para que se afastasse se quisesse. Ela não o fez. Sentei ao seu lado e tomei suas mãos entre as minhas. Beijei seu pulso, aspirando o aroma delicioso, frésia e jasmim. "Eu te amo" ela me disse, com um sorriso suave. "E então? Será que você pode me amar quando eu sou um monstro também?" Fez uma careta depois de dizer a palavra monstro. "Não seja absurda, Isabella", murmurei e puxei-a para seu primeiro beijo como uma legítima Cullen.

Foi um beijo...Diferente. Eu não precisava mais me conter. Não havia o risco de machucá-la. Então pude beijá-la como sempre quis de fato, saboreando seus lábios macios, passando a língua por eles, aprofundando a intensidade do beijo até senti-la arquear as costas em minha direção, pressionando o corpo contra o meu. Eu a queria. Naquele momento. Mas havia outra coisa que deveria ser feita primeiro algo que devia estar causando dor e desconforto a ela. Afastei meu rosto do seu, relutante. Os olhos dela estavam brilhando, os lábios intumescidos da agressividade nova, da fome entre nós. Olhou-me meio surpresa, meio irritada. "Que foi?". "Você não está com sede, Bella?", perguntei suavemente. "Oh, isso". Ela refletiu por um momento. "Sim, estou sim". "Carlisle, o sangue".Falei. Ele ouviria.