III – Uma legítima Cullen

Providenciamos para que houvesse uma quantidade suficiente de sangue em casa no momento de seu despertar, para que ela não estivesse insanamente sedenta em sua primeira caçada. Eu faria todo o possível para facilitar as coisas para ela.

Carlisle chegou trazendo o recipiente, um copo grande, de cor opaca. "Como se sente, Bella?" Perguntou meu pai, encarando-a atentamente. "Esquisita" ela respondeu, olhando vorazmente para o objeto nas mãos dele. Ela está perfeita, Edward. Foi realmente rápido. A morfina e a injeção direta no coração foram idéias brilhantes, filho. Fui até meu pai e retirei o sangue de suas mãos, afim de eu mesmo entregá-lo a ela. Eu ensinei-lhe outros prazeres. Ensinaria esse também. "Beba, Bella". Ela obedeceu imediatamente. Bebeu rapidamente, com vontade, apesar de franzir um pouco o nariz para o cheiro. O sangue animal não cheirava tão bem quanto o humano, claro. Nem mesmo o do leão da montanha, meu preferido, que eu trouxera para ela.

Não levou meio segundo depois que Bella terminou de beber para que Alice invadisse o quarto, como um tornado, Jasper em seu encalço. "Bella!" Ela berrou e jogou-se nos braços da minha esposa. "Alice, como você é linda" Bella murmurou, desnorteada. Sua visão estava mil vezes mais aguçada. A imagem do rosto perfeito de boneca de Alice, em sua totalidade, era nova para ela. Em seguida ela olhou para Jasper, com uma expressão de pesar. Com seu novo vislumbre da realidade ela podia ver nitidamente as marcas da antiga vida de meu cunhado em seu corpo. Perguntei-me, por um momento, como ela estava me vendo. Bem, pela intensidade do beijo e da pressão do seu corpo contra o meu, a nova visão não deveria ter sido de todo ruim.

Emmett, Rosalie e Esme vieram em seguida. Esme estava, claro, maravilhada. Sua família feliz estava finalmente completa. Emmett foi até Bella e a esmagou em um legítimo abraço de urso. "Vou sentir falta da sua cara de pimentão". Ela abriu um sorriso estonteante para ele, divertida. Rosalie não se aproximou. Apenas sorriu a distancia, seus pensamentos incoerentes e confusos. A mudança de Bella fora mais serena do que a de qualquer um de nós. Isso a desconcertava.

"Bom, agora que todo mundo já espremeu a Bella o suficiente, vamos ao que interessa. Vamos livrá-la dessas roupas horrorosas". Bella olhou para mim, como que pedindo socorro. Eu dei de ombros. Alice esperara ansiosamente por isso por muito tempo. Aliás, por um momento tive um vislumbre de sua mente...Uma lembrança. Ela já vira essa cena toda antes. Assim que nós voltamos da Itália. Sorriu para mim, seu rosto de fada ainda mais brilhante, travesso. "O que há de errado com minha roupa?" Minha esposa indagou, mal humorada. "Fora o fato de que é uma roupa comum para o dia mais especial de sua existência, ainda te deixa estranha. Você quer algo que valorize sua pele e seus atributos, Bella. Não que te faça parecer um cadáver ambulante". Bella cedeu, relutante e acompanhou minha irmã em direção a seu imenso closet. Será que havia alguém que conseguisse negar algo a Alice? Ir contra ela? Talvez Jasper, se seu desejo fosse um risco para si mesma.

Eu esperei, ansioso, que Alice terminasse de brincar de barbie com sua nova irmã e devolvesse minha esposa. Enquanto isso ouvi, divertido, seu murmúrio de espanto quando Alice a obrigou a olhar-se no espelho. "Caramba" Ela disse e eu tive certeza que seus olhos estavam arregalados. A diferença de Bella vampira e Bella de antes era muito pouca. A grande mudança, de fato, é que agora ela via a si mesma claramente, sem as limitações da visão humana, como eu sempre a vira. A perfeição suave e desconcertante de seus traços, o corpo de curvas delicadas e proporcionais. Será que agora ela finalmente acreditaria quando eu dissesse que era linda? Possivelmente não. Bella era, ainda, absurda. Possivelmente sempre seria.

Ao pensar nisso, uma onda de felicidade me inundou. Bella ainda era Bella. E era completamente minha, agora. Para sempre. Jasper, que estava parado perto da porta, esperando por seu pequeno milagre pessoal, sorriu. Certamente atingido em cheio pelas minhas emoções descontroladas. Creio que, contudo, essa foi uma mudança agradável para ele. Como empata, devem ter sido dias realmente tensos e cansativos. Vocês merecem, cara. E realmente, não era seguro para ela ser humana. Nunca vi alguém com tanta tendência a... Acidentes. Eu sorri de volta para meu cunhado. Agora que tudo estava bem, era difícil guardar qualquer mágoa dele por causa do desastre que foi a comemoração dos 18 anos de Bella. Eu teria que ser realmente um monstro para culpá-lo, sabendo de seus pensamentos cheios de remorso e auto-repulsa.

Emmett e Carlisle vieram juntar-se a nós logo em seguida. "Reunião do clube da Luluzinha" disse meu irmão, em explicação a minha sobrancelha erguida e atirou-se pesadamente em meu sofá. "Alice acha essencial explicar algumas coisas a Bella antes de deixar vocês dois, bem, a sós" murmurou meu pai, meio constrangido. "Elas querem garantir que a mobília sobreviva" acrescentou Emmett, com uma gargalhada estrondosa. "Não sei se Bella está preparada para isso. Ela deve estar sedenta". Está enganado. Ela está ansiosa, mas surpreendentemente controlada para uma recém-nascida. Encarei Jasper, boquiaberto. "Como assim, Jasper?". "Bom, com toda a experiência que eu tenho, cheguei a conclusão de que o frenesi dos recém-nascidos é causado mais que tudo pela surpresa horrorosa de saber o que se tornaram. É tudo assustador e diferente. Você sente aquela dor pavorosa e depois acorda com uma sede infernal de sangue. E então, é só o que importa. A sede. Por que você não conhece mais nada. Mas Bella está no nosso mundo há muito tempo. Ela sabe o que esperar. Então é mais sereno. Eu não estou dizendo que poderemos largá-la no meio de um monte de humanos e cruzar os braços. Mas acho que ela não será necessariamente uma das máquinas assassinas que estamos acostumados. Acho que ela vai superar". Foi o discurso mais longo que vi Jasper fazer em anos. Antes de poder externar minha surpresa, contudo, Alice entrou, saltitante de ansiedade e agarrou meu braço, me puxando porta a fora. Tentei ler seus pensamentos, mas eles eram inúteis. Ela estava traduzindo o hino eslovaco. "O que você está fazendo, Alice?". "Estou te levando para conhecer minha nova irmã, Isabella Cullen e depois vou levá-los até o sótão para desfrutarem de nosso pequeno presente".Presente? Seria por isso que os pensamentos de minha mãe e de Rosalie também andavam escrupulosamente vagos?

Eu não estava exatamente preparado para a cena que aguardava por mim no quarto de Alice e Jasper. Bella estava simplesmente adorável. A imagem dos meus sonhos, de quando eu desejava que ela abandonasse seus moletons imensos e desengonçados e vestisse algo que ressaltasse sua aparência doce. De alguma forma minha irmã a convencera a vestir uma blusa azul, da cor que eu mais apreciava, e que ficava ainda mais encantadora em sua pele perolada e uma saia de um tecido esvoaçante. Seus cabelos escuros e cumpridos caíam suavemente ao redor do seu rosto lindo e ela usava um colar com o brasão da nossa família, igual aos que minhas irmãs tinham, presentes de Esme, eu sabia. Mais uma vez, eu fiquei estarrecido. Bella ultrapassava, diante dos meus olhos, a definição de perfeição. "Quer fazer o favor de falar alguma coisa?" Alice me encarava irritada, as mãos na cintura, batendo o pé. Certamente com a mesma ansiedade de uma artista ao mostrar sua obra-prima a um entendedor. Percebi que todos esperavam minha reação (todos mesmo, por que meu pai e meus irmãos tinham se juntado a nossa pequena platéia), especialmente Bella, que parecia envergonhada. Corada, eu disse a mim mesmo, se ainda fosse possível. Com o coração aos saltos, como o meu certamente estaria, se pudesse. "Encantadora" eu balbuciei, me aproximando da minha esposa e tocando seus lábios macios com a ponta dos dedos. Ela sorriu e murmurou, entre divertida e irritada "Alice me atacou". "Fez um trabalho excelente, Alice". Minha pequena irmã sorriu, deliciada com meu comentário apreciativo. "Claro que sim. Como uma Cullen, Bella terá que seguir as regras da família. Estar bem-vestida faz parte do jeito Cullen de ser". Bella revirou os olhos. "Certo Alice, vamos mostrar nossa surpresa para os dois, antes que você comece a ensinar o modo Cullen de ser a Bella" interviu Rosalie, com um sorriso surpreendentemente doce. Ela estava mesmo se esforçando para ser gentil com minha mulher e eu fiquei grato a ela por isso. "Ok. Aonde nós vamos?" Perguntou Bella, quando Alice a pegou pela mão. Não pude deixar de perceber o toque de nervosismo em seu tom. Medo de presentes, como sempre. "Eu vou tapar seus olhos e você será uma vampira incrivelmente boazinha e não irá espiar, ok?" Disse Alice, ficando nas pontas dos pés e tapando os olhos de Bella com suas pequenas mãos. "Emmett, dê um jeito em Edward". E lá veio meu irmão urso, bloqueando completamente minha visão com suas mãos enormes. Eu nem pensei em relutar. Era justamente o que ele esperava que eu fizesse, para ter motivo para me convocar para uma queda de braços mais tarde. "Trapaceiro" ele murmurou, ao adivinhar que eu ouvira sua intenção e eu ri.

Quando chegamos finalmente a nosso destino, o sótão, e nossos carcereiros nos permitiram enxergar novamente, Bella e eu estacamos, surpresos. No lugar das coisas velhas e peças de carro de costume haviam uma cama imensa e vários vasos de rosas e jasmins espalhados pelo cômodo, bem como velas e incensos. Meu cd player estava ali e a canção de ninar que compus para Bella soava docemente de fundo.

"Esse é nosso presente de casamento para vocês. Um pouco de privacidade. E uma lua de mel mais... intensa. Jasper e eu vamos visitar Peter e Charlotte e Rosalie e Emmett vão conosco. Carlisle e Esme vão fazer uma pequena viagem pela Europa".

"Alice. Que lindo. Obrigada. A todos vocês. Por me aceitarem. Por serem a minha família. Depois de tudo pelo que os fiz passar". Agora, com certeza, ela estaria chorando. Quis dizer para ela deixar de ser tola, que todos eles a amavam, e que ela não os fizera passar por nada, mas não o fiz. Senti que ela precisava daquele momento e era o momento dela. Eu não iria interferir. "Ora Bella, não diga isso. Você sempre foi como uma filha" disse Esme, abraçando-a. Pronto, agora estariam as duas chorando. "Tudo é muito mais divertido com você por aqui, irmãzinha. Até o chato do Edward", disse Emmett, piscando o olho para ela, que sorriu. "Você salvou nosso filho, Bella. Em mais de um sentido. Jamais vamos esquecer isso". Carlisle lembrou-lhe. "Ora, claro que não é como se eu não soubesse desde o primeiro dia que Edward pôs os olhos em você que seria minha irmã, Bella, mas devo dizer que sou realmente grata pela escolha dele. Eu te amo, mesmo com sua noção de moda inexistente" cantarolou Alice, que estava, de fato, quase tão feliz quanto eu. Jasper estava sorridente e com um brilho intenso nos olhos. Imagino que para ele sentir a alegria de sua companheira devia ser ainda mais doce que o sabor do sangue humano. "Vamos deixá-los a sós, agora". Anunciou Rose. "A casa é de vocês por uma semana.m Por favor, não destruam tudo".

Eu deveria ter imaginado que, em uma família onde todos eram insanamente loucos por sexo, o melhor presente imaginado por eles seria liberdade e privacidade para tal pratica. Quando finalmente ficamos a sós voltei-me para Bella, que me encarava com um sorriso travesso. "O que você quer fazer agora?" Ela perguntou, com uma inocência simulada. Eu sorri maliciosamente em resposta e avancei mais um passo em sua direção.

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