A resposta

"Sem essa de que: '- Estou sozinho.'
Somos muito mais que isso
Somos pingüim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão!
Quero viver a minha vida em paz."

Legião Urbana - vamos fazer um filme


Sete e quinze.

Olhou novamente para o relógio: sete e quinze realmente!

Não era possível que apenas quinze minutos tivessem passado desde o instante que chegou ao escritório. Analisou novamente as plantas sobre sua mesa, havia erros gráficos em uma, o endereço da obra errado em outra, fora a mais urgente delas que estava com a escala errada. O dia ameaçava ser muito longo.

Ocasiões existiram em que por muito menos sentiram sua ira, mas hoje seu humor estava esplêndido! Sorte dos estagiários. Sua mente estava calma, ao mesmo tempo em que ansiosa, afinal seria um grande dia. Um grande e especial dia!

Olhou estafado para os projetos, o brilho de uma idéia passou-lhe pelos olhos e, animado, jogou as plantas para o lado e abriu sua caixa de emails.

"Puxa,

Nunca antes tive tanta indecisão para dar uma resposta,

Sair do meu confortável anonimato não é tão simples quanto pode parecer, mas gostei da idéia de te conhecer, apesar de certa forma saber como você é, seus gostos e seu jeito, pelo menos!

É engraçado, mas a internet pode nos distanciar das pessoas de verdade.

Em nome realidade eu digo que aceito seu convite!

Apenas não se estranhe comigo, verá que sou uma pessoa esquisita!

Beijos e fica combinado!"

Sem que pudesse impedir releu seus emails mais uma vez. Ficara felicíssimo com a afirmação da autora e sua resposta sincera.

E era uma boa resposta, Camus sentiu empatia pela Quinze, não era apenas ele que se sentia estranho em meio à multidão de normais do universo. Um "peixe-babel"(1) fazia falta às vezes, nem sempre compreendia e constantemente não era compreendido.

"Esquisita? Não menos do que eu, pode ter certeza! E compreendo o que sente em relação a anonimato, as pessoas que convivem comigo jamais imaginariam as coisas pelas quais me interessam! E com certeza me julgariam por isso." Pensou Camus.

"Oi,

Você diz que a internet pode distanciar pessoas e não discordo, porém a realidade não une ninguém.

Vivemos num tempo de superficialidades, tudo o que vêem em nós são apenas as cascas de seres pseudo-perfeitos.

Temos que ser os melhores alunos, os melhores funcionários, ter o melhor celular e um notebook Vaio.

Você não pode ousar se expressar e é definido pelo que parece ser.

Pode ser infantil, mas eu realmente encontro um refugio da realidade nessas fantasias, e antes que desapareça submerso pelas obrigações, gostaria de ter uma companhia nesses sonhos loucos."

Esperarei por você!"

Observando agora com calma, parecia uma resposta meio dura e desesperada, não se deu conta de que era exatamente este o seu estado de espírito quando escreveu o email. Agora era tarde, já havia enviado e recebido confirmação de leitura. Talvez tivesse causado uma má impressão, talvez ela nem fosse! Má impressão? Por que se preocupava tanto com impressões? Havia sido criado para ser perfeito, talvez fosse esse o problema.

&

Dezesseis e cinqüenta e nove.

Desejou tanto que essa hora chegasse que agora queria que ela não chegasse. O engenheiro da obra que visitara na semana anterior, aquele de cabelos loiros ondulados e braços fortes e, bem não importa o resto, viera para uma reunião e o fato é que ele o faria atrasar. E não havia nada que pudesse fazer! A construção do edifício inteligente que ele coordenava fatalmente extrapolaria o orçamento e o cronograma.

- Eu disse que revestir todo o teto com gesso em forma de curva francesa, que não estava no projeto original, não ficaria barato! E o empreiteiro que começou a fazer o acabamento desistiu! Além do mais tudo vai atrasar, e eu nunca atrasei qualquer obra minha!

- Deve ser por que tinha feito apenas duas, senhor Milo.

- E o que é que vai fazer? Discutir minha experiência profissional, ou resolver o problema? De todos os meus contatos nenhum deles quer continuar, você vai ter que conhecer alguém!

O moço loiro estava bem irritado. Dava-se ao luxo de enfrentar o chefe e cobrá-lo como se fosse o contrário. Estivesse Camus um pouquinho mais mal humorado nunca reconheceria que o rapaz estava certo, mas estava cansado e ansioso. Precisava sair dali rápido, dar um fim naquela reunião. O edifício era um investimento muito alto, já havia compradores e uma quebra no contrato de entrega era um prejuízo de milhões. Forçou os neurônios, tentava uma solução.

- Quando se formou Milo?

- Hã? O que disse?

"O que isso tem a ver?" Era o que Milo pensava, será que ele iria discutir seu pouco tempo de estrada novamente?

- Há quanto tempo?

- Três anos.

- Então suponho que você também teve matérias práticas sobre revestimento, não é mesmo?

"É agora que verei o quão bom ele pode ser", pensou Camus.

- Sim, mas e daí?

- Compre o gesso, pegue alguns homens e faça você mesmo, não importa o quanto vai gastar, eu cubro o rombo orçamentário, mas não posso permitir que a obra atrase, trabalhe à noite se for preciso. Além de quebrarmos o contrato a empresa perderia credibilidade.

- Eu sei tudo que a empresa perderia e o que eu perderia também!

Apesar de não ser acionista, era seu nome que estava inscrito no conselho de engenharia da região e na prefeitura como responsável pela obra. Era um ninho de vespas!

- Obviamente que acrescento seu percentual nos lucros.

- Camus, eu sei fazer e não me nego a fazê-lo, mas seria impossível treinar alguns homens completamente leigos pra ajudar em dois dias! E eu preciso de pelo menos um que saiba o serviço de verdade!

Não era daquela espécie que achava trabalho braçal, como seria o caso, algo indigno, mas era realista e iria se comprometer apenas com o possível.

Camus o fitou por um momento, pareceu satisfeito, e respondeu:

- Eu o ajudo.

Imagine o ETE mais verde que puder, numa roupa cor de rosa cantando "I will survive" em cima da mesa.

Imaginou?

Pois então, nem mesmo essa cena seria tão surpreendente para Milo como aquela resposta!

Ajudá-lo?

O que o arquiteto entendia de gesso? Duvidava até que ele soubesse o que era uma pá! Sua cara de incredulidade deveria estar grande demais, por que Camus continuou:

- Não duvide, eu posso fazer isso.

- Não consigo! Eu realmente duvido que você faça algo assim!

Ah! Esse engenheirosinho estava sendo mais desaforado do que permitia seu perfeito dia que se tornava desastroso. Pois faria questão de mostrar a ele quem era Camus! Afinal viera do berço da arquitetura moderna! E claro, já fizera forros antes, uma vez...

- Poderemos começar amanhã, se desejar. – disse sem vontade de discutir futilidades - Garanta que os matériais sejam corretamente adquiridos durante o dia, e rapidamente recuperaremos o atraso.

A imagem do arquiteto com seu terno perfeitamente ajustado, camisa bem passada e gravata bem laçada, tentado levantar placas de gesso sem sujar as calças ou arranhar as mãos perfeitas e delicadas quase fez Milo rir! Camus não precisava de tanto para tentar motivá-lo, por que era apenas pra isso que o mocinho ruivo sugerira disparate tão grande! Mas iria aceitar, queria ver onde tudo aquilo ia dar. Entregaria sua cara a tapas pra ver se Camus aparecia por lá na noite seguinte.

- Fechado Camus! - disse com uma pitada de sarcasmo - amanhã à noite nos veremos então?

- Amanhã à noite.

Milo deu apenas um leve aceno de cabeça e saiu apressado.

Camus apenas aguardou que ele atravessasse o hall do elevador e voôu escada abaixo. Já estava consideravelmente atrasado!


(1) Peixe-babel é tipo um tradutor simultâneo de todos os idiomas do universo, segundo o livro "O guia do mochileiro das galáxias". XD

Olá!

Tenham paciência! É minha primeira fic! XD

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Beijos!