O teto não ajuda!

"E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão...?"

Legião Urbana - Eduardo e Mônica


Mais dois cavaleiros e zerava. Só precisava de mais duas horas e pronto! Salvava a princesinha indefesa e ganhava, se bem que ela era o que menos importava, legal mesmo era sair matando todo mundo. Mas nem só de games vive o homem, e, com muito pesar, convenceu-se de cumprir sua parte no trato. Iria até a obra, ou melhor, retornaria até a obra para fazer os forros de gesso que ninguém mais queria fazer.

Iria de fato, só pra constar. Estava pagando pra ver se o arquiteto apareceria. Teria o gostinho de jogar isso na cara dele.

Reuniu toda a coragem que tinha para levantar, algumas latinhas povoavam a mesinha de centro, também conhecida como mesinha do PS2, salgadinhos em cima do sofá, e se dirigiu ao quarto. Vestiu a pior calça jeans que tinha, já estava bem velha e meio apertada, uma camiseta de malha e um boné. Lembrou-se, na hora de trancar a porta, de pegar a luvas e o celular. Noite adentro partiu para a diversão.

..::&::..

O prédio ficava muito lúgubre assim tão vazio, mas compensaria o esforço, Milo havia lançado dúvidas sobre sua capacidade. Não deixaria barato.

A construção era um edifício planejado para apartamentos de alto padrão exclusivo por andar. A necessidade de um acabamento perfeito fazia valer a pequena fortuna que eles valiam.

Encontrou-o no primeiro pavimento. Concentrado, examinava a sala atentamente.

O hall de entrada era bem espaçoso, e certamente bem iluminado durante o dia, sabia disso por que o projetara para esse fim, ainda assim era satisfatório ver um projeto se tornar realidade. Embora as pilhas de acartonado ao canto, pacotes de cimento e todo um exército de pás, colheres e baldes poluíssem um pouco essa visão. A elegância da composição das paredes, porém, ainda era evidente, apreciava linhas nobres e seus prédios seguiam seus apreços. Inadvertidamente chuntou uma régua de pedreiro no chão, o barulho, apesar de não ser tão alto, provocou uma reação instantânea no moço concentrado. O susto que ele tomou quase fez Camus rir, mas não seria educado.

- Wow! Que isso? Anunciar a presença num prédio vazio à noite é uma questão de segurança sabia? – disse num tom alterado de quem é pego desprevenido, e então retornou ao seu eu de sempre – Então você veio?

- Haveria algum motivo para não vir? – Camus certamente poderia citar vários, mas não o diria, obviamente.

- Eu diria que existem milhares de motivos e lugares para não estar aqui. – o rapaz compartilhava de sua opinião, evidente, mas ouví-lo dizer tão natural foi sensivelmente irritante.

- Temos uma responsabilidade, esse é motivo suficiente. – realmente era apenas isso que o impedia de voltar correndo pra casa.

- Só espero acabar rápido! Animado então? - disse meio sorrindo, meio sarcástico.

Camus respondeu com uma leve inclinação de cabeça. Milo sorria bem demais, achava.

- Quer trocar de roupa?

- Por quê? – respondeu rapidamente sobressaltado pela pergunta fora de contexto em sua opinião. O que tinha a roupa com o trabalho?

- Ué, pra não sujá-la! A gente sempre pega uma roupa mais velhinha pra trabalhar assim, você não imagina o pó que levanta quando a gente começa. – insistiu Milo meio incrédulo pelo arquiteto querer se enfiar na sujeira vestido com camisa de seda, calça de alta costura e calçados sofisticados (daquela marca que ele sempre namorava, mas nunca tivera coragem/dinheiro pra comprar). Não queria escutar depois reclamações sobre não ter avisado.

- Não, esses são velhos. – respondeu meio encabulado pelo fato do loiro se preocupar com aquelas peças de roupa gastas e fora de moda.

O engenheiro começou a perceber uma sutil diferença entre si e o arquiteto. Olhou pro próprio tênis, massacrado pelas peladas fora de hora, puindo na ponta e começando a furar nos calcanhares. Aquilo sim era velho, não o Vernon de couro marrom que Camus usava. Ele definitivamente era de outro nível, um olhar maligno passou pelos olhos de Milo, já que a noite não seria divertida poderia, pelo menos, ser engraçada.

- Ok, te deixarei a par de como estamos aqui. A empresa que contratamos começou e parou pela metade, como você já sabe, e então já temos todos os cabos colocados. Falta montar as placas e rebocar os meandros com argamassa. Aí é só pintar, o que podemos designar que seja feito durante o dia. Se formos bem espertos acabaremos o prédio em duas noites.

- Duas?

- É...

Camus serrou os lábios. Duas noites? Pensava poder resolver tudo aquela noite! Fora ingênuo quando resolveu aceitar no calor da pressão, agora se arrependia.

Iniciaram os trabalhos, primeiro levar as placas até o quarto do canto, afixá-las ao teto e passar argamassa depois.

Sem mais nada falar, acercou-se da pilha de placas e catou uma pra levar ao quarto. Normal como fizera em casa. Por que sim, o teto de sua sala ele mesmo que havia feito, uma obra de arte por sinal.

Milo observou e meneou levemente a cabeça. O ruivo nem mesmo colocou luvas! Antes da vigésima placa sua mão seria um vale de calos. E no prédio todo tinha fácil mais de mil.

Mas não precisou esperar nem pela décima.

As placas eram compridas, portanto pegá-las de mau jeito poderia resultar em acidentes. Camus apenas pode sentir que a segunda placa escorregava de sua mão. Uma dor aguda atingiu seu cérebro e impressou uma mão na outra com um pequeno suspiro. Milo ouviu o estrondo da placa caindo e correu de volta ao hall.

- Machucou? – perguntou tentando ser solidário, mas no fundo achando graça da falta de jeito do arquiteto. Era malvado às vezes, sabia disso.

- Não se preocupe. – odiando o olhar superior que o loiro lhe dirigia. A dor era bem menor que a humilhação.

- Deixe-me ver. – disse já tomando a mão do outro. Sangrava, a mão direita esfolada em uma listra retinha. Pode então notar que a mão de Camus nunca formaria calos, desmancharia antes disso. Era por demais fina, os dedos longilíneos e as unhas delicadas. Uma mão bonita, perfeita para um pianista. Exatamente o tipo de mão que não precisava no momento.

Milo parecia-lhe seguro, sabia exatamente o que fazer, e é claro que deveria saber afinal recebia pra isso, mas o problema é que Camus sentiu-se infantil. E detestava sentir-se assim. O engenheiro meio que com pena, o que exasperou o ruivo ainda mais, o pediu que deixasse as placas com ele e começasse apreparar a argamassa. Ferveu por dentro com aquele olhar condolente.

- O traço que precisamos é 1:2:7. – completou Milo se referindo à argamassa.

1:2:7.

Um pra dois pra sete?

Forçava a memória para tentar resolver este enigma. Claro que sabia que eram as proporções da argamassa, mas quem vinha primeiro? Agua: cimento: areia? Era isso? Resolveria facilmente perguntado pra Milo, mas não lhe daria mais esse gostinho de superioridade! Quando fez seu próprio forro comprou a argamassa pronta, não ia se lembrar de proporções agora. Estudou isso na faculdade, obviamente, mas tinha concluído a matéria há quanto tempo? Uns cinco anos?

Concentrou-se mais uma vez. Professor Esdras, era quem dava a matéria, um professor baixinho e detalhista. As aulas eram sexta à tarde, as paredes do laboratório possuíam uma pátina de verde água, sentava-se na ala direita, tinham prateleiras e livros perto, fizera doseamento certa vez, calcular fator de água, quantidade de cimento, cal e areia, calcular o volume de corpos de prova... Era isso! Cimento, cal e areia!

Feliz consigo mesmo, adiantou-se para preparar a mistura.

Encontrou os materiais facilmente, estavam jogados pelo chão, mas reparou desolado que não havia como medi-los! No laboratório usavam uma balança, mas não havia nenhuma por lá...

Teria que perguntar!

"Droga!"

Não, não, espera! Precisaria apenas converter a quantidade em volume e medir num balde com marcações, muito simples.

- Ei Camus! Já acabei aqui, precisa de ajuda com a argamassa?

- Não, já está pronta. – a massa estava branquinha e cremosa, quase um chantilly.

- Muito bom hein?! Achei que você não saberia fazer, mas fez melhor do que eu! – tinha que admitir que realmente estava muito melhor que as dele – E as coisas estão tão limpinhas que nem parece que você usou.

- ...

- E não usou? Por quê? Como conseguiu então?

- Ah, - quase achando que estava errado – fiz por volume.

- Uau... – Milo parecia impressionado, afinal detestava fazer essas contas, uma incoerência já que adorava integrais – se quiser o posto de mestre de obras eu posso abrir uma vaga!

Camus sorriu pelo gracejo, talvez não estivesse indo tão mal assim.

..::&::..

Prosseguiram os trabalhos de quarto em sala, copa e jantar. Antes da meia noite o primeiro apartamento estava pronto. Milo havia posto cada peça em seu lugar exato milimetricamente demarcado. O que facilitava o trabalho de Camus, que deslizava a argamassa com prazer, admirava um serviço bem feito, por isso se esforçava para executá-lo igualmente bem feito. Quase sincronizados, os trabalhos ganharam ritmo e pouco depois já estavam terminando o terceiro andar, quando um pequeno acidente provoca certa comoção.

- Camus! – um grito meio desesperado assustou o arquiteto, correu pra ver o que acontecia com o engenheiro.

Milo usava uma escada meio velha, dessas que se abre, para alcançar o teto, quando numa tentativa de acertar para a direita o fez perder o equilíbrio, deixando a escada em falso e o loiro mais ainda com o risco de cair e a placa que segurava desabar sobre si.

- O que houve?

- Preciso que me ajude! Segura essa escada aqui pra mim.

- Devia jogá-la fora, parece artigo de museu!

- Jogarei assim que os acionistas levantarem mais dinheiro para o orçamento – disse num sorrisinho sufocado. Nem mesmo nas piores situações o loirinho segurava a língua na boca. E, céus, que boca!

Camus se aproximou e segurou pelo lado oposto ao de Milo.

- Não, segura aqui na frente ou vamos os dois se ferrar!

Obedeceu, torcendo o nariz para o linguajar de Milo, mas logo se arrependeu. Sua posição era totalmente desconfortável! Ficava de frente a Milo, com a cabeça perto do... bem... Se já era umabatalha estar tão próximo de uma boca tão bela, imagina ter sua própria boca de cara com o... Céus que tortura!

Abaixou a cabeça meio de lado, suas bochechas queimavam inconvenientemente. O engenheiro continuava seu trabalho alheio aos conflitos interiores do arquiteto. Este se sentiu ainda pior. E se o outro percebesse seu... problema? Que constrangimento! Não merecia tanto castigo, já não bastava as piadinhas de designers, arquitetos e engenheiros? Será que ninguém percebia que incomodava às vezes?

Seu descontrole o deixava irritado, estava rígido e quente, tudo o que queria era que Milo terminasse logo!

- Pronto! – "até que enfim!" – ufa! essa foi por pouco cara, valeu aí!

- Ah, ok...

Milo soltou uma risadinha, Camus não entendeu o por quê dela.

- Que tal uma pausa para o lanche? – sugeriu o loiro.

Lanche? Nem tinha pensado nisso! Mas agora que lembrava estava mesmo com fome.

- Gosta de bolinhos?

- Se souber do que se trata posso até me aventurar a comer.

- Muito justo. São bolinhos de chuva que minha mãe me ensinou a fazer tempos atrás. Ficam gostosos mesmo que não estejam exatamente frescos. Servido?

- Posso experimentar. – Milo sorriu já abrindo a mochila e tirando uma vasilha de plástico de lá. Várias bolinhas brancas parecendo pompons de neve surgiram debaixo da tampa vermelha. Camus admirou o fato de alguém tão estabanado pudesse fazer algo delicado. Restava saber se estava bom.

Mordeu um dos bolinhos sujando as mãos de açúcar no processo. Milo o imitou.

Detestava admitir, mas estava bom, deliciosamente bom, indecentemente bom.

Voltou-se para o moço, desejando elogiá-lo e agradecer, mas quedou-se estupefato. Milo lambia os dedos com uma volúpia que o fez desejar ardentemente oferecer-lhe outra coisa para lamber.

Autocontrole, respiração, moderação... Ah céus! Não estava sendo fácil essa noite.

Milo estranhava o arquiteto observar tão atentamente o teto. Será que tinha algum defeito lá?

..::Continua::..


Olá!

Tenham mais um pouquinho de paciência! É minha primeira fic!!!

E, bom, acho que preciso de uma beta... Vi tantos erros queprecisei repostaro capítulo 2!

Mas muito obrigada pelo apoio! Vocês são demais!!!

XD

Como sempre, comentários, correções ou contatos por review ou email - gotagelada (arroba) hotmail . com - e serão muito bem vindos!