O ataque dos peixes!
Acho que você não percebeu,
que meu sorriso era sincero...
L. U.
Ascendeu as luzes.
A janela que ocupava toda a extensão da parede frontal na cobertura do prédio em que morava, mostrava uma cidade adormecida e faiscante de luzinhas que pareciam pular pela distancia. A visão de tantas pessoas ocupadas com suas próprias vidas em uma madrugada de quinta-feira aumentou ainda mais a sensação de solidão que sempre sentia ao encarar sua casa vazia.
Estava cansado. Cansado de ser sempre sozinho.
Mas já eram quatro da manhã. Quatro nada! Quase cinco. Deveria se apressar se quisesse dormir ao menos um pouco, antes de voltar novamente ao trabalho. No entanto, sabia que por mais carneiros que contasse não conseguiria dormir.
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Abriu a porta da quitinete, não ascendeu luz alguma, teve tempo apenas de tirar os tênis, a calça, a camisa e cair na cama, bem discrepante do resto da decoração com sua gigantesca estrutura de colchão com lençóis extravagantemente vermelhos.
Antes de encostar a cabeça no travesseiro já estava dormindo profundamente.
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- Ei! Olhem só! Algum milagre aconteceu aqui durante a noite! Quem fez esses forros? - disse o senhor invisível se direcionando para um outro esqucível personagem com o cartão de ponto na mão, um novo dia de trabalho no canteiro de obras do "Le Grand Diamant", orgulho do arquiteto Camus, desafio do engenheiro Milo.
- Oh! É mesmo, e, puxa! Quem fez merece meu respeito! Tá perfeito, olha aí! - pararam o percurso para admirarem melhor o teto do pilotis.
- É... olha as juntas! Mas, ops. – se interrompeu para dar passagem ao engenheiro - Dia doutor! - disse imitando a posição de sentido.
- Hã? Ah! B'Dia! – cansaço deslizando pelas palavras, andava encurvado quase arrastando os pés.
Milo seguiu seu caminho groguemente, depois de fechar a porta do escritório, nossos amigos anônimos continuaram.
- Heeeh! A noite desse aí foi boa hein?
- Hunf! Esse povo fica só nas gandaia! Deviam trabalhar igual nóis pra saber o que é cansar!
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- Bom dia patrãozinho!
- Nah! Cala a boca Saori! Sua voz me irrita e me dá dor de cabeça.
Não deveria ter dito isso, foi como entregar seu coração numa tigela de prata ao inimigo. Por algo que só os céus saberiam o motivo a praga disparou a falar!
- Acordamos mal humorados hoje não? E, por deus, que olheiras são essas? E esse cabelo? Patrãozinho, parece que você foi atropelado por um caminhão! Tem certeza de que está bem?
- Claro que não Saori! Você, por acaso, me ouviu dizer que estou bem? Eu tô péssimo! Mas fazer o que né? Trabalhar em dois turnos não é moleza não!
- Como assim?
Lembrou-se a tempo de não render muito assunto, ela era peixe(1) do Saga que tinha conseguido colocá-la aqui, pra menina ir aprendendo e tal. No entanto ao invés de uma estagiária acabou arrumando dois problemas: uma coisa burrinha no seu escritório que era ao mesmo tempo um formidável dedo duro!
- Como assim o quê? Chega de papo e vamos ao trabalho! Já fez o levantamento de mármore do apartamento 900? - perguntou enquanto organizava os papéis em sua mesa, mais para causar impressão que por ser útil, já que antes do almoço o pobre pedaço de mogno estaria submerso de celulose outra vez.
- Ué! - seu ar de confusão não deixava dúvidas de que não fazia a menor idéia do que Milo falava - Era pra hoje? - fingiu se concentrar, apesar de ainda estar lixando as unhas.
"É! O dia começou bem!" Pensou um desanimado Milo, enquanto passava as mãos no rosto numa tentativa frustrada de acordar.
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- Não me incomode a menos que seja realmente - pausa para ênfase no realmente – necessário. Está claro? – dedo em riste anunciava a postura agressiva.
- Perfeitamente senhor Camus! Quer que eu providencie um café?
- Forte e com muito açúcar! – Respondeu secamente. Humm! De vez em quando Hyoga tinha umas inspirações de inteligência. A idéia do café foi ótima, mas tinha que ser docinho, não gostava de nada amargo. E seria bom pra ajudar a despertar, como suspeitava não conseguiu dormir nada. Mas tinha boa resistência contra essas coisas, estava acostumado.
"Ai ai! Hoje ele tá com uma cara pior que a de ontem! Vou precisar amansá-lo muito bem antes de informar sobre a auditoria com Minos." Era os pensamentos do secretário enquanto coçava a cabeça, tentando se lembrar de todos os gostos do chefe.
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Noite de quinta-feira.
Os trabalhos continuaram na próxima noite, com a diferença que dessa vez Camus usava luvas. Milo levou os mesmo bolinhos, mas o ruivo, prevenido dessa vez, levou sanduíches leves de salmão e duas caixinhas de suco natural e juntos fizeram um pick-nick em pleno concreto às três da madrugada quando haviam terminado todo o trecho que faltava. Um trabalho bem feito, pensava Milo, qualquer um poderia inspecionar que não encontrariam erro algum. Sorriu contente, gostou de sua dupla. Porém, uma coisa era clara: Camus era um ótimo arquiteto, e deveria continuar assim. Pelos deuses! Quem comia aquela porcaria de atum quando estava com fome?
- Ah, er... obrigado pelo pão com atum! – lembrou-se de ser educado ainda assim, afinal o cara tinha tido o cuidado de comprar o lanche em duplicata. Tudo bem que ele havia divido o lanche de ontem, mas na verdade tinha levado só pra si, dividiu por obrigação ao ver que o arquiteto não tinha levado nada.
Camus o fitava escandalizado. Atum? Sua expressão estava tão transtornada que Milo percebeu que algo estava errado, só não atinava o quê.
- Ahm... eu disse alguma coisa? Eu só estou agradecendo! – já meio impaciente pelo silencio estupefato do outro, era desagradável ficar debaixo daquele olhar severo como se você tivesse feito alguma coisa vergonhosa.
- Não é atum Milo! É Salmon, com tomate seco e molho agridoce. Você não notou a diferença? – o arquiteto perguntou enquanto apontava meio enfático para o filé roseamente aveludado de seu próprio sanduíche inacabado.
- E que diferença faz? É tudo peixe! – disse dando de ombros, entrementes o seu já estava devorado há tempos, mesmo com as reclamações internas sobre o gosto.
- Eu não acredito que disse isso. – Camus estava incrédulo! Como alguém poderia ter tão pouco apreço pelo paladar? Céus! Atum e Salmon, salmon!, serem a mesma coisa só por participarem do mesmo reino animal?! Inadmissível!
- Comida serve pra encher a barriga! Essas frescurinhas de atum, salmão, sardinha não funcionam comigo. – Que coisa! Aquela conversa toda o irritou. O ruivinho parecia tão esnobe quando o corrigiu sobre o atum que sentiu toda a antipatia do primeiro encontro voltar com força total - E se não percebeu, eu estava te agradecendo, quer dizer, sendo educado com você! Você poderia retribuir da mesma forma pra variar!
Como assim? Primeiro ponto aqui: Camus se sentiu desarmadamente agredido. De onde saíra toda essa reação a um simples comentário? Segundo, e pior: estava sendo claramente acusado de grosseria! O que um bronco como Milo entendia do assunto para admoestá-lo daquela maneira? Nunca, repito nunca!, o arquiteto havia sofrido tamanha injustiça! Ele um mestre da elegância e boas maneiras! Decidiu que Milo, bolinhos e salmon já estavam em quantidade mais que suficiente para uma noite, descartou seu resto de sanduíche e abruptamente se levantou.
- Aprecio suas boas maneiras – disse friamente com um escárnio parcialmente encoberto – passar bem.
E sem mais, saiu.
Milo sentiu o rosto queimar de raiva, mas não entendeu nada da atitude do ruivo! Foi embora! Assim, à toa! Estabanadamente juntou suas coisas na mochila para também voltar pra casa, e apenas sorriu malevolamente quando ouviu o barulho de alguém tropeçando na mesma régua de pedreiro da noite anterior. "Éh! Empinar tanto o nariz atrapalha a visão!", pensou quase feliz.
Digam o que disserem,
o mal do século é solidão,
cada um de nós imerso em sua própria arrogancia,
esperando por um pouco de atenção...
(1) Diz-se daquele que entra para uma organização sem participar dos processos usuais de seleção (o famoso Q.I. : Quem Indicou; é uma evolução a essa forma de falar).
Olá!
Tenham paciência! É minha primeira fic! XD
Comentários, correções ou contatos por review ou email - gotagelada (arroba) hotmail . com - e serão muito bem vindos!
Beijos a todos e em especial a Lhu-Chan!!!! Sim! Animei a escrever por sua causa! Sempre ficava deixando pra depois e lá se foi um ano desde a última atualização... Mas agora é pra valer! Nunca deixar uma fic inacabada! Esse é meu jeito ninja de ser!
XD
