Doía um pouco.

E fazia cócegas, também, então Olívia riu. Não que ela precisasse de um motivo específico para rir naqueles dias - sua vida havia mudado por completo. Ela não era mais a mesma, jamais seria a mulher solitária que fora por décadas. Não, ela pensou, observando a pequena boca rosada sugando com força seu seio. Os olhos fechados, o nariz tão parecido com o dela, a mãozinha segurando seu dedo. Ela o tinha, agora, finalmente: amor incondicional. Era tão melhor do que qualquer coisa que havia imaginado que ela quase chorava, às vezes. A boca rosada soltou seu seio e parecia sorrir, satisfeita. Olivia beijou Edward muito suavemente na testa, e se deitou a seu lado na cama, sentindo o cheirinho suave e alisando os poucos fios de cabelo, escuros e lisos, vendo os olhos ainda fechados, sentindo a respiração se tornar cada vez mais calma enquanto ele adormecia.

Aquilo era felicidade.

Cada um dos anos e meses de solidão e sofrimento havia valido a pena, porque resultaram naquela coisinha adorável e perfeita que tinha nos braços.

Ela suspirou.

E por que o interfone tinha de estar tocando naquele instante? O pequeno Ed também pareceu não gostar muito da interrupção, porque deixou escapar um sonzinho de contrariedade em seu sono. Ela suspirou outra vez, agora, levemente aborrecida, ficou de pé, fechou o roupão e atendeu. O aborrecimento se tornou um desespero leve. A voz do outro lado fez seu estômago dar voltas desconfortáveis.

"...posso?", Elliot perguntou.

Ele queria subir. Ela não tinha muito certeza se o queria ali - por vários motivos. E Olivia se odiou um pouco porque o familiar e a (ainda persistente) necessidade e algo mais a fizeram dizer 'sim'. E se odiou um pouco mais por pegar a primeira roupa melhor que viu no guarda-roupa e vesti-la, apressada.

"Então?", ela perguntou, um pouco demais na defensiva quando abriu a porta.

Ele ainda a fazia perder o fôlego. E a pior parte foi que ele não reagiu à ofensiva-defensiva dela, apesar de parecer um pouco tenso, mas também, calmo e carinhoso. Tudo o que ela havia sonhado dele muito tempo atrás. Antes de Ed, ela se obrigou a pensar, porque agora seu amor pertencia apenas ao filho. Sério. Ela não conseguia pensar em homens, naqueles dias. Mas Elliot... bom, devia ser apenas hábito. Ela não podia levar aquela loucura adiante. Tinham sido onze anos de resistência, e seria assim até o fim.

"Como vão as coisas?"

"Bem", ela suspirou, contrariada.

"Meio cansativas, aposto."

"Um pouco", ela sorriu, "mas estou longe de me importar."

Ele sorriu de volta e fitou-a longamente com os olhos azuis de que ela jamais tinha esquecido. Aquela sensação irritante no estômago voltou, com ainda mais força.

"Entra", Olivia disse, outra vez um pouco ríspida demais, para esconder seu desconforto. O quanto antes aquela encenação terminasse, melhor, então ela o levou até o quarto, torcendo para que a criança continuasse dormindo.

Infelizmente, assim que ouviu a voz dela, o bebê acordou. Elliot sentou-se na beira da cama, curvou-se sobre Edward e cumprimentou-o, esticando o dedo e falando muito baixo, e ele parecia tão feliz... ela mordeu o lábio com força para evitar qualquer reação mais intensa. Ela havia mais ou menos blefado quando conversou com Elliot no hospital. Não eram apenas os hormônios das mulheres grávidas que enlouqueciam completamente.

"Ele se parece muito com você", Elliot sussurrou, quando finalmente saiu do quarto, então parou e se encostou na parede, olhando para ela.

"É", ela sussurrou de volta.

"Ele tem olhos azuis", ele comentou em tom casual.

Ela já estava preparada para aquele tipo de pergunta.

"Meu irmão tem olhos azuis. Meu... pai também tinha. Genética, sabe?"

"Uhm."

Silêncio. Os olhos azuis de Elliot ainda a hipnotizando.

"Liv", ele disse, ainda mais baixo.

"Sabe, El, tenho tanta coisa pra fazer agora, você nem faz idéia."

Ele parecia esperar por alguma coisa do tipo porque concordou imediatamente em ir, mas não sem antes perguntar:

"Posso voltar?"

"Pra quê?", ela gemeu.

Ah, deus, ele precisava mesmo voltar? Ela não queria que ele criasse muitos laços com Ed, nem que ele tivesse oportunidades demais de perguntar e deduzir sobre... certas coisas que ela preferia que ele jamais soubesse. Em parte para o bem dele mesmo.

"Você sabe... tenho experiência nisso. Posso te dar algumas dicas."

A visão súbita de Elliot e ela trocando conversas de mães quase a fez rir, mas ela acabou dizendo que não tinha muita certeza.

"Tudo bem", ele disse, e hesitou um pouco antes de sair, como em dúvida se a abraçava ou dizia mais alguma coisa, mas acabou simplesmente indo.

*

Duas semanas mais tarde o clima no apartamento era exatamente o contrário de calma e paz: era o caos absoluto.

Ed estava irritado com alguma coisa e não parava de chorar. O telefone, também, não parava de tocar; todas as gavetas e armários pareciam completamente revirados e com seu conteúdo espalhado pelos lugares mais improváveis, e Olivia estava tentando fazer um chá havia pelo menos duas horas. Para coroar tudo, a campainha do apartamento soou. Ela abriu a porta e o entregador de comida chinesa não havia trazido apenas seu almoço, mas uma carona no elevador: Elliot.

O caos absoluto se transformou em inferno.

Ela pegou a comida com uma das mãos enquanto usava o outro braço para segurar a criança; colocou o almoço em cima da mesa de centro e com a mesma mão pegou o dinheiro no bolso do roupão e o deu ao entregador; e enquanto estava ocupada com o pequeno malabarismo Elliot entrou e se instalou no braço do sofá - o único espaço livre onde alguém podia se sentar naquela sala.

"Deixa que eu cuido dele", ele pediu, estendendo os braços para o bebê.

Ela estava tão desesperada que pensou apenas meia vez se devia ou não, e ainda assim acabou entregando a criança a ele. Elliot parecia ansioso antes de pegar a criança, e satisfeito, depois. Ela sentiu um aperto inexplicável no peito, mas talvez fosse apenas reflexo do buraco em seu estômago. Na cozinha, Olivia tirou do fogo uma chaleira queimada, excelente para ser jogada no lixo, e colocou no fogo a panela para massas, onde finalmente conseguiu esquentar a água para o chá. Então, subitamente a poluição sonora no apartamento cessou. Ed havia se acalmado, e os únicos sons eram da água que fervia e a voz de Elliot, conversando baixinho com a criança. Outra vez aquela coisa no peito, e Olivia achou melhor almoçar logo - embora estivesse quase na hora da refeição ser chamada de jantar.

Ela empurrou um monte de coisas para o chão e se sentou no sofá, comendo e observando Elliot e Edward. De repente se deu conta de que os dois nomes eram vagamente semelhantes, e pensou se aquilo queria dizer alguma coisa, inconscientemente, e se alguém mais além dela havia notado a semelhança. Mais uma semelhança, ela devia dizer. Bom, que se danasse aquilo naquele exato segundo, ela pensou, enfiando uma porção grande de yakissoba na boca. Depois ela se preocuparia com o que significava. Enquanto bebia o chá ela observou o rostinho do filho, um pouco amassado porque estava encostado no peito dele, os olhinhos azuis se fechando, a mãozinha segurando firme o dedo dele. Então, analisou o rosto dele, também de olhos fechados, simplesmente curtindo o momento.

Subitamente ela se sentiu enciumada.

Não, não queria aquela proximidade entre os dois. Era errada.

"Acho que ele pode ir pro berço, El", ela disse, deixando a xícara no chão e se preparando para ficar de pé.

"Eu levo", ele disse, e disse a ela que continuasse sentada.

Ele levou Edward até ela, para que a criança recebesse um beijo da mãe, e Olivia ainda ouviu Elliot falando com o bebê por mais algum tempo. Então, ele estava de volta, sentado outra vez no braço do sofá e dizendo casualmente:

"Ele parece ótimo, grande e saudável, pra um bebê prematuro."

Ela mordeu o lábio, "pois é" - ainda não havia encontrado uma boa desculpa para aquele comentário.

"Na verdade, falei com uma enfermeira, no hospital, e ela me disse que Ed nasceu só uns poucos dias antes do previsto."

Ela tomou o restinho do chá bem devagar.

"Então ele deve ter sido... você sabe..."

"Elliot."

"... exatamente... naquela noite", ele disse, muito baixo, e respirando rápido e hipnotizando-a com o olhar, como quem queria arrancar uma resposta.

Aquela noite.

Aquela noite jamais teria acontecido em circunstâncias normais e ela se sentia tão, mas tão traidora porque gostava sinceramente de Kathy e sabia o quanto a responsabilidade era importante para Elliot - mas ela precisava. Pelo menos saber como era. Ser egoísta só por um momento. Uma única vez, era tudo o que Olivia pedira. Mais seria simplesmente errado e inadimissível.

"Posso ter dormido com outro cara na noite seguinte. E outro, na outra. Comemorar minha vida nova, sei lá."

Ele murchou um pouco, mas não desistiu:

"É de um deles?"

Por que o maldito tinha de ser tão obstinado?

"Faz alguma diferença, Elliot?"

"Mas é claro que faz!", ele exclamou num sussurro. "Se for meu, quero saber, ajudar..."

"Mas você já tem tantos, El. Será que um a mais não iria te sobrecarregar?"

"Não", ele sacudiu a cabeça teimosamente. "Se for meu..."

Ela o interrompeu:

"Talvez eu não saiba quem é o pai."

"Certo", ele disse, um pouco frustrado. "Mas os olhos..."

"Genética."

"DNA."

"Não se atreva!", foi a vez dela exclamar sussurrando.

"Se você não tem nada a esconder..."

"Isso é simplesmente ridículo. Por favor, saia, agora."

"Liv, você não tem o direito de esconder..."

"Eu não sei quem é o pai, ok?", ela disse, ficando de pé e se dirigindo à porta, que abriu com um pouco de raiva. "Também não quero saber. Só quero um filho, e nenhum pai."

"Mas você..."

"Elliot, por favor. Vá embora."

Ele obedeceu.

O caos absoluto deixou de dominar apenas a sala. Invadiu seu espaço pessoal, sua alma, sua lógica.

*

Talvez ela devesse pedir transferência para outra cidade.

Melhor ainda: talvez fosse melhor deixar os Computer Crimes, porque seria bem mais fácil para Elliot rastreá-la se ela ainda permanecesse ligada à polícia. Talvez ela devesse ir para uma cidadezinha tranquila do interior, onde não faltaria qualidade de vida para Edward e onde um emprego de meio-período seria suficiente para criá-lo bem. Porque agora sua licença-maternidade tinha chegado ao fim e Olivia achava simplesmente torturante demais não ter o filho a seu lado todos os segundos do dia.

Embora um namorado tivesse deixado de ser sua prioridade há muito tempo, e embora ela soubesse que jamais seria como a maioria das mulheres devido aos anos que tinha passado lidando com crimes sórdidos, ele ainda mexia com ela. Fosse instinto, hábito, sabia-se lá o quê. E deus, como ela odiava aquilo. Era tão mais seguro quando eram apenas detetives, tão responsáveis a ponto de jamais sacrificarem seu trabalho por uma bobagem romântica. Ela estava acostumada a amá-lo apenas platonicamente mas Elliot não era conhecido exatamente por ser racional e ela temia que ele fizesse qualquer bobagem, agora. Mas não, ela não queria nem devia nem iria pensar nele. Era perfeitamente dispensável, agora. Elliot ou qualquer outro.

Agora eram apenas ela e o bebê. Não havia nada que ela desejasse além daquilo. Então Olivia pensou um pouco mais e descobriu que não era só o casamento dele. Ela não queria ninguém mais invadindo o que tinha com seu filho. Um pequeno mundo seguro, confortável, eterno. Uma terceira parte poderia muito bem desfazer aquele equilíbrio.

Mas Elliot parecia insistir em querer participar de alguma forma, também.

Ela suspirou irritada quando o viu parado em frente ao prédio

"Não quero brigar", foi a primeira coisa que ele disse, erguendo as mãos como quem se entregava, quando ela estava perto o suficiente para ouvir.

"Estou com pressa, ele precisa se alimentar."

"Tudo bem. Não vou tomar seu tempo", ele disse. "É só que...", sua voz se tornou baixa e triste, "apenas imagine que, por algum motivo, Liv, você tenha tido um filho. E que tiraram esse filho de você, e você nunca soube."

Não era bem assim, ela pensou. Elliot tinha pencas deles, e ela, apenas um. Claro que uma criança a menos dentre várias faria falta, e seria triste, mas o caso dela era diferente. Todo o seu mundo era apenas aquela única criança. Se a tirassem, ela não teria quem a consolasse. Não teria mais nada. Mas alguma coisa que ele disse, e a forma como o disse, a tocaram, então ela apenas suspirou outra vez, e não o impediu de ajudá-la com o portão nem de subir com ela no elevador, ainda que o espaço estivesse bastante reduzido por causa do carrinho de bebê. Sem que alguma coisa precisasse ser dita ela pegou Edward no colo, quando a porta do elevador se abriu, e Elliot levou o carrinho até o apartamento. Ela se perguntou se não estaria sendo egoísta uma segunda vez, mas não, ele tinha sua família e uma segunda só complicaria a vida dele, em todos os sentidos, ela acabou por decidir, entrando na penumbra do quarto - queria privacidade para amamentar a criança.

Ela se esqueceu de tudo o mais quando o bebê esticou os braços para ela, buscando seu calor, seu corpo. Suspirou, fechando os olhos. Agora, ela praticamente não sentia dor alguma quando ele sugava seu seio, mas mesmo que sentisse, ela faria aquilo pelo resto da vida. Olivia começou a andar muito devagar pelo quarto, embalando o filho e conversando com ele - completamente esquecida de que não estava sozinha em casa, até erguer os olhos de repente e descobrir que Elliot a observava pela porta aberta. De forma tão, mas tão intensa e... apaixonada que era errada demais. Olivia deu as costas a ele. Sentiu uma angústia estranha mas concentrou-se no filho em seus braços, no cheiro da criança, seu peso, seu rosto que ficava mais definido a cada dia. Acalmou-se. Ele era mesmo seu pequeno talismã da felicidade. Deus. Aquilo era tão bom; como ela tinha conseguido esperar tanto tempo? Foi com alguma relutância que Olivia o colocou no berço muito tempo depois. A casa estava silenciosa e ela torcia para que Elliot já tivesse ido embora, mas não. Ele estava sentado ali, olhando bem na direção do quarto, ainda com aquele olhar insuportável.

"Acho que foi uma das coisas mais bonitas que eu já vi."

Ela desviou o olhar e deixou escapar um ruído de impaciência.

"O que você ainda está fazendo aqui?"

"Acho que a gente devia conversar."

"Não sei se ainda temos o que dizer um ao outro."

"Sempre os mesmos hábitos", ele comentou um pouco irônico. Ela ergueu uma sobrancelha. Ele tomou fôlego, e começou: "Acho que você concorda comigo, mais do que ninguém: uma criança precisa de um pai. De uma figura paterna, pelo menos."

Ela mordeu o lábio. Ele estava certo.

"Mas El, o que é que você vai fazer?", ela o olhou meio reprovadora. "Se oferecer pra ocupar esse lugar? Mesmo já tendo uma família? Eu não posso aceitar."

Ele hesitou antes de dizer:

"Mais ou menos."

Ela olhou pra ele, esperando.

Ele tomou fôlego outra vez e disse, bem baixinho, para o tapete da sala:

"Eu e Kathy... acabou, também."

"Elliot!", Olivia exclamou, arregalando os olhos e tapando a boca com uma das mãos, então, sacudindo a cabeça: "Eu sabia, eu sabia, foi por minha causa."

"Não", ele se apressou a dizer. "Eu já disse a você: acabou muito tempo atrás. Acabaria mesmo que eu não te conhecesse.

Ela não acreditava naquilo. E estava sinceramente triste, e decepcionada, como se fosse o casamento de um parente muito próximo e querido que houvesse chegado ao fim. Ela havia assistido a praticamente todas as fases dele, e esperava, mesmo, que ele e Kathy se acertassem no futuro. Sabia o quanto aquilo era importante para ele.

"E não tem mesmo volta?"

Ele respondeu que não.

"Sinto tanto."

Ele assentiu com a cabeça.

"Não sei o que é pior, fracassar ou mentir um pro outro, depois, simplesmente não suportar ver aquela pessoa que você costumava amar tanto e tentar fingir que ainda está tudo bem, quando existe tanto ressentimento, tanta desconfiança."

"Mas se eu e você não tivéssemos..."

"Não teve a ver com você", ele reafirmou, teimosamente.

"Sei", ela respondeu, séria, ainda sem acreditar.

Ela não tinha disposição nenhuma para continuar discutindo o assunto anterior - até porque se sentiria uma traidora, destruindo o casamento dele e então simplesmente o aceitando em casa.

"Quer conversar?", ela perguntou, sentando-se mais próxima a ele.

"Não há muito o que dizer sobre isso, Liv... e já aconteceu a tempo suficiente pra sensação de fracasso ter se tornado uma companhia."

Outra vez aquela angústia estranha. Era tão errado aquilo.

"Se tiver algo que eu possa fazer por você..."

Ele piscou, e disse:

"Você sabe, como eu ainda tenho aqueles horários loucos, a Kathy acabou ficando com a guarda das crianças, então...", suplicante e cara-de-pau

Olivia revirou os olhos.

"Estou falando sério. E não consigo e nem quero discutir o outro assunto com você depois de saber disso, El."

"O que eu preciso fazer pra você acreditar em mim, Liv?", ele perguntou com tristeza.

Ela suspirou, e blefou:

"Não é isso. É que não é algo que se possa decidir em um instante, El."

"Então prometa que vai pensar."

Ela prometeu.

*

Ela podia se privar do amor de um homem. Estava acostumada. Ela também podia não querer uma terceira parte se intrometendo em sua pefeita existência de duas pessoas. É. Era um pouco de possessividade, sim. Ela havia esperado tanto e não pedia o amor de mais ninguém. Que mal havia naquilo? Olivia suspirou. Ela sabia bem demais, havia sentido em sua própria existência e até hoje a ausência da terceira parte a marcava. Ela observou o filho, a pequena boca que parecia sorrir e os barulhinhos que ela emitia, exatamente da mesma forma que fazia com ela, quando conversava com ele. Seria possível que a criança soubesse ou sentisse de alguma forma? Seria justo privar Ed daquilo?

E Elliot? Ah, ele parecia tão feliz com a criança, mais do que ela jamais a vira com as crianças com as quais lidavam nos crimes. Feliz como ficava com seus próprios filhos. Solitário, agora, e um ótimo pai. Por mais que o casamento dele - e quando pensava nisso ela ainda se sentia culpada e traidora - tivesse fracassado, não poderia haver homem melhor para criar Ed. Quer dizer, se ela quisesse mesmo um homem, Olivia pensou, tentando se controlar. Se ela não considerasse tanto a ex-mulher dele.

Seria justo com Elliot?

Ela olhou de novo para os dois. Os dois homens de sua vida, se divertindo um com o outro.

Em algum outro canto da cidade, Kathy sofrendo.

De algum canto de sua própria memória, as longas horas angustiantes em que passava sonhando com o pai, inventando nomes, identidades, profissões.

A possibilidade de fazer diferente do que sua mãe havia feito ali, ao alcançe de sua mão.

"É seu", ela cuspiu, sem rodeios, e se trancou no quarto.

Antes de sair da sala, porém, ela ainda conseguiu ver a expressão de Elliot se iluminando como nunca enquanto ele dizia que sabia, que tinha certeza, que sentia que aquele filho era seu. Olivia chorou. De alívio, tristeza, porque se sentia errada desejando que Elliot ficasse e a terceira parte completasse o mundo dela e de Edward. Sem que ela se sentisse tão culpada. As coisas nunca foram muito fáceis para ela, mas ela raramente se lamentava - mas agora, queria tanto que tudo fosse tão mais simples, pelo bebê. Ela enxugou as lágrimas, mesmo que não se sentisse nada melhor, e voltou para a sala. Elliot, agora, andava de lá pra cá com a criança adormecida nos braços, e estava tão, mas tão insuportavelmente preocupado e carinhoso quando perguntou se ela estava bem.

"Estou", ela respondeu, secando com as costas das mãos uma última lágrima teimosa.

"Qual o problema, Liv?", ele sussurrou.

Ela sacudiu a cabeça, estendeu os braços para pegar a criança e o acomodou no colo, fechando os olhos e apenas sentindo a presença do filho. Curando-se, com ela. Finalmente se sentindo mais forte. Colocou-o no berço e fechou a porta do quarto. Elliot a esperava logo atrás.

"Você devia ter me ligado quando soube, Liv."

"E ajudar ainda mais com o fim do seu casamento?", ela fungou. "De jeito nenhum."

"Não posso acreditar que você passou por tudo isso sozinha... por aquele... Mark..."

Ela deu uma risada estranha.

"Nunca fui de me acovardar."

"Eu sei, mas...", ele disse, e hesitou mais uma vez, parecendo indeciso entre fazer ou não uma coisa. Acabou fazendo: abraçou-a. Longamente. Ela queria fugir dos braços dele porque era perigoso se acostumar, mas estava se sentindo tão... confusa e perdida e precisando de algo sólido e conhecido a que se agarrar então Olivia se entregou, deitou a cabeça no peito dele e chorou mais um pouco, enquanto ele acariciava seu cabelo. Aquele era outro cheiro do qual ela gostava muito, Olivia pensou, e então, se afastou apressada de Elliot, porque ele começava a beijar seu rosto.

"Não."

"Mas..."

"Tudo bem você me ajudar a criar mas... isso..."

"Por que não? Aquela noite..."

"Aquela noite foi um momento de fraqueza."

Ela não queria, definitivamente, que Elliot ficasse com ela só por causa do bebê, e repetisse a história dele com Kathy.

"Mas você quis, por muito tempo."

Ela deu de ombros.

"Entendo se você não quiser mais", ele disse.

Ela mordeu o lábio. Não era que não quisesse, e agora, ela já havia aceitado, meio a contragosto, a terceira pessoa em seu pequeno mundo com Edward, mas... mas...

"Posso ser um filho-da-mãe, às vezes..."

E aquele estava longe de ser o motivo real mas era bom o suficiente para que ela blefasse, porque ele parecia culpado e nada confiante, então Olivia agarrou a chance e disse:

"Às vezes você é mesmo."

"Eu precisava de um tempo, Liv. Pra pensar no que fazer, e tudo o mais. Eu não podia ligar, ainda."

Ela sacudiu a cabeça e disse que entendia, e que nem era aquilo.

"Mas coisas que você disse, não disse, não fez... em muitos anos."

"Era complicado."

"Eu sei."

"Agora, não acho que podemos dizer o mesmo."

"Eu não sei."

*

"Você acha que ele vai ser um policial quando crescer?"

Olivia riu, observando a mão de bebê agarrando com força o carrinho de polícia. A outra mão segurava firme a blusa dela, e a mão direita de Elliot segurava a criança. A mão esquerda dele estava apoiada no ombro dela, e Olivia não fazia nada a respeito.

"Ele tem os genes", ela disse. "Mas ele pode ficar tão de saco cheio por causa dos pais que vai querer fazer alguma coisa completamente diferente."

*

Da segunda vez, ela não se sentiu tão reticente em amamentar Edward na frente do pai. Elliot ainda a observava daquela forma irritantemente apaixonada, era fato, mas como ele se manteve à distância ela sempre podia dar as costas a ele e tentar ignorar suas próprias resoluções em ser forte e resistir, ficando cada vez mais fracas. Em parte porque ela descobrira que Kathy não sofria mais, em parte porque Elliot prometera a ela que, mesmo que as coisas entre os dois não dessem certo, ainda assim ele estaria lá por Edward (como não estar?).

Na terceira vez ele se sentou no sofá ao lado dela. E começou passando um braço por suas costas, e acariando distraidamente o ombro nu. O toque da mão dele, por mais leve que fosse, a arrepiava, mas ela ainda se concentrava mais na criança. Provavelmente seria assim para sempre. Elliot, então, sentou-se ainda mais perto, de forma que ela podia sentir a respiração dele em seu pescoço, ouvir a voz bem próxima a seu ouvido quando ele comentou o quanto o menino era esfomeado. Ela ergueu o rosto para responder, e Elliot estava tão próximo, olhando-a nos olhos e então, para os lábios dela, a ponto de beijá-la...

"Não", ela sussurrou, embora ainda não soubesse porque continuava a agir daquela forma.

Hábito, talvez.

*

"Diz então que você não quer."

Ela mordeu o lábio e olhou para ele por um longo tempo antes de dizer:

"Não é isso."

"Não vou aceitar, então."

Ela gemeu. Ele ergueu a mão, acariciou o rosto dela com as pontas dos dedos, experimentando. Ela não fugiu.

"Sinto sua falta, Liv", ele suspirou. "Todos os dias, todos os minutos..."

Silêncio.

"Karma", ela disse, por fim, segurando o queixo dele.

"O quê?"

"Me beija."

Ele obedeceu. Esse beijo foi muito, mas muito mais suave do que os primeiros que trocaram. Os sentimentos eram outros, assim como a relação entre ambos, e embora Olivia ainda tivesse algum receio em se entregar por completo à hipótese de viver uma história de amor tradicional, com final feliz, ela havia resolvido dar uma chance ao destino. Então ela disse:

"Talvez os caras errados sejam mesmo o meu tipo. O meu karma. E não há nada que eu possa fazer a respeito", e o beijou.

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awn.

final feliz de vez em quando é bom, né? quaaase me senti escrevendo uma comédia romântica na cena do caos doméstico, hehe, e isso é tão anti-natural, pra mim :P ah. devo dizer que olivia com um filho é um dos meus receios pra acabar com a chance de E/O acontecer (mais um). deixaram a pobre mulher num ponto que tudo o que ela quer é um pouco de amor - e não existe amor mais fiel do que um filho tem a uma mãe. acho que ela se satisfaria apenas com isso e nem ia se lembrar mais do elliot =/ (a não ser, claro, que a criança seja dele).

já já trago o angst de volta, prometo.

e, com um pouco de sorte, um elliot mais pavio-curto, to fazendo ele bonzinho demais, tsc.

=)