"Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la". – Clarice Linspector

"E eu os Declaro, Marido e... Harry"

- By Lithos of Lion –

Parte 4

Aproximação

Por que é que a segunda-feira chega tão rápido? E o domingo voa como um hipogrifo? – ARG – Pensar nesses bichos do nada! O que é que está fazendo tanto barulho?

Tateou à procura da varinha e tendo-a em mãos lançou um feitiço silenciador. Ah! Como o silêncio era maravilhoso!

Draco girou na enorme cama e se afundou ainda mais no edredom macio. Nem por um instante se dando conta que precisava ir trabalhar.

oOo

O sol entrava tímido pela janela, Harry ainda pairava entre o dormir e o acordar; encolhia-se entre as cobertas sempre que fazia forças para levantar.

Ouviu passos. Não pode evitar o sorriso, escondido pelas cobertas. No batente da porta logo surgiu, uma após a outra, três cabeças sustentando rostos sapecas que tentavam abafar o riso; até que o mais velho decidiu sair de posição e comandar o ataque.

- AO ATAQUE! – James gritou e foi seguido pelos irmãos mais novos, que também entoavam o grito de guerra.

Os três pularam ao mesmo tempo na cama de casal, fazendo cócegas e puxando as cobertas do pai, que ria divertido e tentava escapar.

- Eu me rendo! Eu me rendo! – Harry disse, por fim, ainda gargalhando.

Os meninos pararam e procuraram um canto para deitar ao lado do pai, Lily agarrou-se ao pescoço de Harry como para dizer que tinha lugar de honra, ele a pegou no colo enquanto se sentava, afagou os cabelos de Albus e se virou para James sorrindo:

- Pode pegar os óculos para o seu velho pai? – James riu e pegou os óculos no criado-mudo, passando-o para Harry.

- Então? Meus anjinhos já estão prontos para a escola? – perguntou Harry sério.

Veio um "não" angustiado de James, Albus se colocou em pé – estava vestido com o uniforme do irmão, que era maior do que ele – como se dissesse "estou pronto" e Lily não escondia o sorriso, a boca suja de chocolate que devia ter pego escondido.

Harry apressou-se, então, a arrumar os filhos enquanto com acenos de varinha adiantava os preparativos do café. Quando os três estavam prontos e já à mesa ele correu para trocar de roupa também, pegando a primeira que viu na frente – uma camisa cinza e um jeans mais novo. Enquanto passava a escova de qualquer jeito pelos cabelos, ria com a lembrança da dificuldade que encontrava para prender os cabelos da filha.

Voltou ainda mais apressado para a cozinha, servindo para cada um, leite e torradas; as crianças olharam para as torradas, depois se entreolharam e observaram o pai que comia entre caretas, lançando um ou outro olhar para o jornal que tinha em mãos. Riram.

- Que foi? – Harry perguntou desviando o olhar do jornal.

- Nada! – disseram juntos e se apressaram a comer as torradas queimadas; também eles fazendo caretas.

Logo, Harry já andava apressado, segurando Albus e Lily pelas mãos; James que segurava a mão do irmão por ordem do pai, resmungava contrariado...

Assim que os deixou na escola, Harry procurou um lugar menos movimentado e aparatou para o ministério.

oOo

Dormir era tão bom... Tanto que se não tivesse de trabalhar ficaria a manhã toda na cama... Trabalhar, por que isso ressoava com tanta urgência em sua mente?

Draco arregalou os olhos instantaneamente e saltou da cama, enrolando os pés no edredom no processo e desabando no chão com um estrondo. Seu mau humor indo às alturas.

Olhou para o relógio na parede que, estranhamente, não fazia seu tic-tac habitual e nem se dera ao trabalho de acordá-lo; faltavam dez minutos para o horário de entrar no serviço.

Foi para o banheiro amaldiçoando todos os relógios do mundo, ia chegar atrasado. Droga!

Tomou um banho rápido, ajeitou os cabelos e terminou de abotoar a camisa social preta, arrumou também os botões do pulso. A calça era social e da mesma cor da camisa, completou o visual com um pouco de perfume, coisa mínima. Atrasado? Sim! Mas, isso não justificava descuidar da aparência, um Malfoy deveria ser elegante, sempre!

Para café da manhã optou por uma fruta fresca, uma fatia de pão integral e um pedaço de queijo. Quando se deu por satisfeito, já estava meia-hora atrasado. Assim, ainda com uma calma absurda para quem estava atrasado... Aparatou.

oOo

Harry chegou ao ministério um pouco antes do horário normal, dirigiu-se para o quartel general dos aurores no nível dois. Chegou animado e cumprimentou a todos, os que já estavam e os que chegavam.

A sala do quartel-general era ampla e possuía umas quarenta mesas, dispostas em fileiras, mas mais afastadas uma das outras do que mesas de escola. Encostados nas paredes se erguiam grandes armários, todos repletos de pergaminhos que eram dispostos ora por temática, ora em ordem alfabética. Harry escolheu dois e se dirigiu a sua mesa, pronto para examiná-los. As pessoas na sala conversavam animadas, até que quarenta minutos depois...

- Está atrasado, Malfoy. – ouviu uma voz dizer irônica; não houve resposta.

Harry ergueu os olhos do pergaminho, Malfoy estava visivelmente irritado e se dirigia com três pergaminhos para a sua mesa, que ficava do lado oposto à de Harry.

- Ah! Bom dia, Malfoy! – Harry disse alto e rapidamente.

O burburinho de conversa na sala cessou e todos passaram a olhar de Harry para Draco, estavam espantados, como se tivessem ouvido a coisa mais absurda e incomum do mundo. Só que nada os preparara para o que veio em seguida.

Um Malfoy, já em sua mesa, com a pena em mãos, respondera quase naturalmente.

- Bom dia, Potter! – sua voz, ainda que baixa e arrastada, soou clara em meio ao silêncio completo em que estava a sala.

Potter sorriu e pegou sua pena e pôs-se a escrever. Os outros aurores ainda aturdidos precisaram de uma chamada do próprio Harry para voltarem a suas atividades, alguns saíram para missões específicas e o restante continuou com os comentários sobre a cena que haviam presenciado.

A cena foi repetida várias vezes no decorrer daquela semana, tanto que os aurores acabaram por se acostumar àquela estranha mudança, não que isso significasse menos comentários, que eram agora mais camuflados.

Tanto Harry quanto Draco achavam à reação dos colegas engraçada, embora os olhares acusadores que lançavam a Malfoy o deixassem irritado. Outra coisa também se seguiu à pratica de se dizerem "Bom dia", "Boa tarde", uma que nenhum deles admitiria, mas era fato: os dois passaram a estudar a rotina um do outro.

Harry, por exemplo, percebera que Malfoy sempre chegava atrasado, não como no primeiro dia, ele tinha era os seus dez à quinze minutos de atraso de praxe. Jamais se atrasava para o almoço e sempre saia para executar alguma missão no período da tarde, sempre sozinho. Draco, por sua vez, percebera que Harry era o primeiro a chegar (pelo que comentavam) e o último a sair; não tinha nenhum respeito pelo horário de almoço e pelo que podia notar o outro comia algum tipo esquisito de pão enquanto dava uma pausa no serviço. Potter também não tinha horário fixo para sair em investigação, deixava os pergaminhos espalhados na mesa e aprontava certa confusão na hora de guardá-los.

Talvez fosse a angústia de ver a falta de horário que Potter tinha para se alimentar que fizera Draco tomar a atitude mais estranha da semana...

Já era horário de almoço e apenas alguns aurores estavam na sala, Draco acabara de organizar os pergaminhos que analisara no armário próximo a sua mesa. Potter escrevia algo enquanto comia um pedaço de pão queimado.

Draco cruzou a sala em direção à mesa de Harry, os que estavam na sala pararam para ver a cena, o que o irritou profundamente.

Harry levantou os olhos do pergaminho, surpreso ao ver Draco parado à sua frente.

- Algum problema, Malfoy? – perguntou, deixando de lado o que estava fazendo.

- Eu que pergunto, Potter. Horário de almoço quer ir almoçar? – Draco cruzou os braços ao fazer a pergunta.

A cara de Harry chegou a ser cômica, mas ele se lembrou do plano e de que, de alguma forma, aquilo era esperado.

- Ah! Claro! Só espere eu... é... Guardar esses pergaminhos. – disse se levantando.

- Depois você guarda. – Draco quase soltou algo como "Isso está sempre uma bagunça". – Já passamos cinco minutos do horário.

Harry quis rir quando passou à frente de Draco e se retiraram da sala, mas se fizesse isso denunciaria que estivera observando a obsessão dele com a hora do almoço.

Também não perceberam as caras e bocas que os companheiros de quartel faziam, alguém soltou em tom incrédulo:

- Alguém pode me explicar o que acabou de acontecer?

Não houve resposta.

oOo

Os dois caminharam juntos em silêncio até a saída oficial do ministério, as pessoas por quem passavam os olhavam de uma maneira estranha e alguns chegavam a cochichar uns com os outros quando achavam que eles não estavam mais vendo. Harry já se acostumara com reações esquisitas, mas Malfoy parecia bastante irritado com tantos olhares e conversas em tom baixo.

Saíram para a rua, estava um tempo fechado, negras nuvens se juntavam no céu, o que indicava que um temporal estava próximo. As pessoas na rua andavam apressadas, trouxas que provavelmente retornavam do almoço ou saiam para ele; mal chegavam a reparar nos dois homens que também andavam apressados, embora uma ou outra mulher olhasse para eles com visível desejo.

Harry decidiu quebrar o silêncio, depois que eles já tinham andado uns dois quarteirões:

- Pode me dizer aonde vamos almoçar? – perguntou tentando soar casual, mas tinha um misto de cólera em sua voz.

- Ora, Potter, que tal um lugar em que você possa pagar? – Malfoy sorriu de modo sarcástico e Harry fez menção de dar uma má resposta, mas foi interrompido. – Já estamos chegando. – disse apontando um estabelecimento mais à frente. – É um restaurante bruxo, apesar de um ou outro trouxa já ter entrado ali por acidente.

O restaurante estava bem escondido entre duas lojas de portas fechadas, provavelmente há muito abandonadas. Ao entrarem, Harry se deparou com um lugar simples e aconchegante. Mesas de madeira polida com quatro cadeiras estavam dispostas de maneira a dar mais harmonia ao ambiente. Malfoy escolheu uma mesa em um lugar mais escondido e que tinha uma ampla vista da rua pela janela. Harry também se sentou, reparando que Malfoy não parecia disposto a conversar, tal era o semblante sério e contemplativo que ele mostrava, encarando a rua como se esperasse por algo; o rompimento súbito da cena quase o fez saltar para trás.

- Insuportável! Simplesmente odioso o modo como às pessoas estão cochichando às nossas costas. – ele olhava com tamanha fúria para Harry que ele esperou por mais respostas ácidas. – Será que eles sabem com quem estão fazendo isso? Ora essa! - Malfoy viu o sorriso no rosto de Potter e pensou em socá-lo.

- Estou acostumado. – Harry riu divertido. – É sempre assim quando eu faço algo diferente ou alguma tragédia envolvendo o meu nome sai nos jornais, raros são os momentos em que estou livre disso. – Malfoy o olhou com uma careta estranha.

- Deveria mandá-los pastar? – perguntou Malfoy com desdém, Harry riu mais ainda.

- Não adianta, melhor ignorar. E, então, vamos pedir?

- Ah! Claro... – Malfoy acenou para uma moça atrás de um balcão. – Santo Potter, ele ignora tudo e usa isso para sua elevação espiritual...

Harry olhou espantando para Malfoy.

- Ei! Não uso isso para nenhum tipo de elevação, só se for o da raiva trancafiada.

Draco deu um meio sorriso irônico, a moça se aproximara. E ela olhava para Draco de tal maneira subserviente que deu a Harry uma vontade louca de gargalhar, a vontade passou quando ele notou que isso acontecia por que o sonserino estava flertando com ela.

- Michelle, o mesmo de sempre para mim! – disse sorrindo de uma forma um tanto quanto maliciosa. – Você sabe bem o que eu gosto.

- E o Sr.? – ela estancou quando viu quem estava sentado em frente à Malfoy, reparando em sua cicatriz. – HARRY POTTER! – pareceu muito sem graça com o grito e tentou se recompor e corrigir. – Er... Digo, o que irá querer Sr. Potter?

- Poderia me trazer o cardápio?

- Ah! Claro, claro! Já volto! – e saiu apressada em direção ao balcão.

Malfoy estampava uma cara de absoluta descrença e Harry respondeu como quem não quer nada.

- Eu não te falei? Ah! E ela conferiu a cicatriz, tudo tão óbvio que cansa! – disse enquanto apoiava os braços na mesa. Malfoy permaneceu em silêncio.

Passado alguns minutos a atendente voltara com o cardápio e Harry escolheu rapidamente o que queria. Ainda rira dizendo que a demora havia sido por conta de seu aviso a todas as pessoas que trabalhavam ali de que eles tinham uma visita importante e Malfoy reparou com irritação quando um ou outro cozinheiro apareceu para conferir e, em seu interior mais uma vez a afirmação de que tudo ia ser muito difícil brotou, sentiu-se um grande idiota por ter se deixado levar.

O silêncio constante incomodava Harry... Mesmo que não pudesse esperar outra coisa de Draco Malfoy. Se bem que pensava que haveria uma pequena trégua e não só uma representação constante.

Os pratos chegaram... Draco observou que Harry pedira uma tradicional "comida de ralé" – arroz, feijão, bife e muita, mas muita batata frita – o que Potter queria, morrer aos 45 anos de colesterol alto? Não restaria muito tempo de vida se ele continuasse assim, se bem que ele não sabia se era aquilo ou pão queimado que era o pior. Harry já pensava totalmente diferente, algo como "Malfoy é metido até na hora de comer", enquanto observava um prato feito de – pouco arroz (registre-se muito pouco mesmo), salada em demasia e um bife bem grelhado que, pela cor e cheiro deveria ser peixe; o que ele queria, morrer de inanição? Aquela quantidade de comida não podia sustentar um homem adulto.

Os dois falaram ao mesmo tempo:

- Que comida é essa?

- Ora... – começaram a responder juntos, mas Malfoy se adiantou. – Potter, isso se chama comida saudável e você deveria começar a se tornar partidário dela ou vai morrer antes de chegar aos cinqüenta.

- Bem, acho que eu só morreria se passasse a comer essa quantidade mínima que está no seu prato... Se eu vou morrer por comer mal, você vai morrer de inanição. A não ser que folhas seja a comida ideal para doninhas. – sim, Harry dissera aquilo para provocar, nem tinha idéia se doninhas comiam folhas... Só que a cara que o Malfoy fazia era impagável.

- Vai à merda, Potter! – ele respondeu irritado, como é que ainda se deixava sentir raiva por apelidos ridículos de escola? Talvez por que foi transfigurado naquele bicho? É, talvez... – Pelo menos eu não vou morrer com o colesterol nas alturas, entupindo todas as veias do coração até fazer com que ele deixe de bombear e acabe por explodir causando um infarto. – sim, Draco estava exagerando bastante... Tanto que Harry parou com o garfo a caminho da boca.

- Cala a boca, Malfoy! Me deixe comer em paz, faz dias que eu não tenho um almoço decente. – ah! Isso Draco já tinha percebido, talvez fosse por isso que Potter era tão magrelo, não comia...

- Claro, coma a sua bomba calórica e gordurosa, vai fazer bem... – disse, enquanto Harry revirava os olhos.

Aquela conversa era tão idiota que chegava a ser cômica, aliás quem imaginaria dois ex inimigos de escola, almoçando juntos e se utilizando disso para criar mais uma das tradicionais briguinhas dos bons tempos de Hogwarts? Será que eles eram realmente adultos? Harry riu com gosto e Draco arqueou uma sobrancelha...

Almoçar com Potter, que coisa mais... Anormal.

Estavam tão distraídos implicando um com outro que não perceberam a entrada de uma pessoa que também estivera com eles em Hogwarts... Hermione chegara ao restaurante meio apressada, ainda tinha muito serviço a fazer em sua sessão no ministério. A princípio ela não reparou nas pessoas que estavam no restaurante, mas um resmungo com voz arrastada e uma risada que ela conhecia muito bem a fez estacar no lugar; voltou o olhar para a mesa escondida a um canto, Harry e Malfoy sentados juntos... Almoçando juntos... O que é que estava acontecendo?

Não, aquilo não estava normal, tinha alguma coisa... Viu que eles se levantavam para ir embora e correu para o banheiro. A figura dos dois homens juntos girando em sua retina, o que é que Harry estava aprontando? Ah! Ela não ia deixar quieto, ia descobrir... Ou não se chamava Hermione G. Wesley.

oOo

Harry e Draco seguiram para o ministério ainda discutindo por qualquer coisa que surgisse como assunto, o que deixava Harry estranhamente contente, estaria ele sentindo tanta falta assim de brigar por qualquer coisa besta com Malfoy? Draco também se sentia muito à vontade para fazer todos os comentários ácidos segurados por anos, o meio sorriso sarcástico mantido no rosto. Já na sala dos aurores eles ainda trocaram mais umas farpas afiadas, mas as risadas de Harry denunciavam que ele estava achando os insultos mais engraçado do que impertinentes.

Malfoy se dirigiu à sua mesa, mas nem chegou a se sentar, o chefe de seu grupo se aproximara meio carrancudo, lhe entregando um pergaminho sem o encarar por muito tempo.

- Tem de ser realizada hoje à tarde, já estamos atrasados com ela. – disse batendo com a varinha no pergaminho. – Todas as instruções estão ai, bom trabalho. – e se afastou.

Harry, mesmo querendo evitar olhar para os dois que conversavam do lado oposto de sua sala, não pode deixar de reparar no semblante sério de Malfoy ao abrir o pergaminho e o analisar; viu que ele anotava algumas coisas em um pedaço menor, o qual guardou no bolso da calça e saiu em seguida... Sozinho.

Não precisava de mais para ele ficar extremamente curioso, andou displicentemente até o armário onde vira Malfoy guardar o relatório, pegou-o e voltou para a sua mesa, analisando o seu conteúdo. Empalideceu. Como é que Alfred – o chefe do outro grupo de aurores – tinha mandado um auror sozinho para uma missão daquelas. Sentiu uma onda nauseante de raiva.

A missão consistia em ir até uma casa que provavelmente estava sendo utilizada como ponto de encontro entre ex-comensais da morte e pelo que constava havia algum refém, magia negra estava envolvendo o local e já começara a afetar os trouxas da vizinhança. Simplesmente não era algo que alguém pudesse fazer sozinho, ele nunca mandava os aurores de seu grupo sozinhos em missões.

- Alfred? – ele se dirigiu até a mesa do outro.

- Sim, Harry? – disse com um sorriso.

- Bem, posso perguntar por que mandou um auror sozinho para essa missão? – lhe estendeu o pergaminho.

- Ah! A missão que passei para o Malfoy. Harry! Harry! Quer melhor para uma missão com ex-comensais, do que mandar um ex-comensal? Ele deve conhecer bem a magia que aquele tipinho de gente usa, afinal... Você sabe, não é? Os Malfoys amam Arte das Trevas. – Alfred dizia tudo àquilo com uma ironia que deixou Harry incomodado, era como se dissesse "Ora, é só um Malfoy não é? Se tivermos um a menos será melhor para o mundo".

Não, ele nunca tinha observado a mente de Voldemort para saber o que Malfoy sentia a respeito de Artes das Trevas, quando teve que realmente usá-las...

- Eu acho que vou atrás, Alfred. Não é algo que seja seguro fazer sozinho... Mesmo com todo o orgulho do Malfoy... – ele começou a se retirar e o outro o segurou.

- Está se intrometendo no meu setor Potter, isso eu não vou aceitar muito fácil, seja qual for a fama que você tem. Peço que respeite o meu espaço de serviço, afinal, foi você que fez um esforço incrível para que o Malfoy não caísse no seu grupo de aurores, então, fique no seu canto.

Harry fechou a cara, apesar do sermão arrogante de seu colega de trabalho, ele tinha razão, tinham dois grupos de aurores ali e ele deveria respeitar as decisões do outro, mesmo que isso o deixasse muito incomodado, talvez um relatório para o próximo mês fosse suficiente para Alfred repensar na maneira de chefiar os colegas... Embora parecesse que àquilo era pura implicância para com Malfoy.

Restava a Harry conter o impulso e esperar...

oOo

Draco saiu preocupado do ministério, não era muito estimulante saber para onde deveria ir naquela tarde – uma casa possivelmente ocupada por ex-comensais – devia ter muita magia negra por lá, não qualquer uma, como era o caso das missões mais simples que resolvia para o quartel general. Estamos falando de comensais, não? Desanimador.

O tempo também não ajudava, o céu estava mais negro do que estivera há poucas horas antes e a tempestade que ele anunciava poderia desabar a qualquer minuto. Pensando nisso ele aparatou concentrado no endereço.

A casa era simples, uma residência trouxa em bairro popular, apesar disso o local estava vazio e a casa se erguia de forma sombria se comparada às demais. Draco acenou alguns feitiços para verificar o que havia na casa e aparentemente só havia feitiços de proteção. Desfez a maioria e chegou até a porta, nenhuma armadilha estava visível.

Entrou.

Se vista do lado de fora já emanava um ar sombrio, por dentro era ainda pior, havia muita sujeira e as paredes tinham sido pintadas de negro. Todas as janelas estavam fechadas e lacradas com madeiras – de maneira mágica. Não parecia haver feitiços por dentro, o que era o mais estranho de tudo.

- Homenum Revelio. – sussurrou, a mágica lhe indicou que havia alguém no andar de cima.

Caminhou lentamente para a escada e começou a subir, passo a passo, os degraus rangiam com o movimento. Entrou no primeiro cômodo, um quarto amplo, revirado e com camas desfeitas – a varinha estava em punho, em posição para ataque – não havia nada. Dirigiu-se para o próximo, ali, jogada amarrada sobre a cama, se encontrava uma garota, estava amarrada e uma mordaça impedia que fala-se, os olhos dela encontraram os seus em pânico visível, à vista da varinha ela pareceu desesperar-se ainda mais.

Trouxa. Tinham aprisionado uma trouxa, nem com vários anos passados o foco mudava?

- Tudo bem! Está tudo bem, vou te tirar daqui, não precisa ter medo. – aquilo era uma situação lamentável.

Aproximou-se da garota e ao realizar esse gesto abaixou a varinha como para mostrar que não lhe faria mal, ela pareceu entender. Retirou a mordaça e a desamarrou, ela começou a chorar. Pode reparar que ela estava muito machucada, com sinais visíveis de maldições e azarações.

- Eu vou te tirar daqui está bem? – disse enquanto a pegava no colo, a garota rompeu em soluços, mesmo que em vão, tentasse contê-los. – Você acha que consegue ficar em pé? – ela acenou levemente com a cabeça e ele a colocou no chão. – Sei que está assustada, mas preciso colocar alguns feitiços em você, para a sua segurança, ok? – ela fez cara de quem não havia entendido. – Qual seu nome?

- Amanda. – ela respondeu com a voz falha.

- Amanda, vou fazer uma coisa que você não vai entender, mas não é para te fazer mal e sim para que eu possa te tirar daqui em segurança. – Draco falava baixo. – Ok? – ela assentiu com a cabeça. – Quando tudo estiver pronto, você sobe em minhas costas, para me deixar com os braços livres, você acha que consegue se segurar bem? – ela confirmou novamente. – Então, vamos...

Draco lançou um feitiço da desilusão em Amanda, que tremia ao ver a varinha apontada para si, também realizou alguns para a proteção, a garota subiu em suas costas e ele começou a descer as escadas, foi quando ouviu o som de vários estampidos. Azarações eram lançadas do andar de baixo. Como ele tinha pensado... A menina era a isca, estava em uma emboscada. Quantos haveria lá embaixo?

- Protego. – lançou o feitiço escudo e desceu, as mãos da menina se agarravam forte ao seu pescoço, quase o enforcando.

Outros clarões foram jogados em sua direção, foi quando ele pode visualizar quem estava lhe atacando. Três comensais, mascarados e rindo com certa petulância. Draco se perguntava por que é que eles continuavam com aquilo mesmo após tanto tempo...

- Ora! Ora! Se não é o menino Malfoy... Nossa a derrocada de Lucius atingiu níveis extremos, não acha, amigos? – o comensal à sua esquerda riu debochado. – Seu tão querido filho, um auror? – mais risadas, Draco lançou uma azaração contra o comensal que falava, mais ele se protegeu.

- Bem, Draco nunca foi um grande comensal não é? Só um menino covarde. – outro comensal à sua esquerda se pronunciou.

As palavras que eles lhe lançavam o atingiam de alguma forma, faziam com que ele se lembrasse dos dias trancafiados na mansão Malfoy, tendo que conviver com cenas bárbaras, a carnificina que se mostrava cada vez mais sem objetivo... Ele havia sentido na própria pele o que era a ação de comensais. E agora ele estava cercado, teria que agir rápido se quisesse sair dali em segurança, junto com a garota. Apontou a varinha para o comensal à sua direita:

- Estupefaça. – ele estava desprevenido e foi jogado longe, alguém que estivera escondido saiu das sombras, lançando contra Draco algo que ele não conhecia, não deu tempo de levantar um escudo.

A maldição atingiu seu braço esquerdo, rasgando a manga da camisa social que usava, revelando no processo a marca negra, quase completamente desbotada, mas ainda lá. O feitiço estava procurando justamente por ela, a marca em seu braço arrebentou em dor, ficando vermelho sangue no mesmo instante, Draco abafou o grito. Outro comensal surgiu de uma das portas, Draco apontou a varinha para ele.

- Petrificus Totalis. – o mascarado caiu com um estrondo no chão, Draco se desviou de outra azaração e revidou imediatamente com um feitiço do corpo preso. Alguma coisa o atingiu em seguida, fazendo um corte no antebraço e outro mais leve no rosto. Se não saísse dali logo, estaria enrascado.

Conseguiu alcançar a porta, outros dois ex-comensais atrás de si, se livrando dos feitiços que ele lançava no processo. Já na rua notou que a tempestade que se anunciara o dia todo decidira aparecer, o céu se desmanchava em água, chuva forte ajudada por uma forte ventania. O peso da água o atingiu como um misto de alívio e desespero, a menina o agarrava a ponto de sufocá-lo. Tinha de aparatar o mais rápido possível, mas se concentrar parecia extremamente difícil.

Ele não conseguira apanhar nenhum dos comensais... Somente retirar a garota de lá. Uma palavra cruel insistia em se formar em sua mente, mesmo ele dizendo que era impossível sozinho, ainda que isso acabasse com seu orgulho. Tentou afastar os pensamentos, a água da chuva o cegando, concentrou-se e em seguida se viu parado na porta do hospital St. Mungus. Observou a rua deserta, aparentemente não os tinham seguido.

Pediu a garota que descesse de suas costas, ela tremia, extremamente assustada; Draco mal pensara no fato dela nunca ter aparatado antes. Retirou o feitiço da desilusão e a encaminhou para a entrada do hospital.

- Aqui. – disse ele em tom tranqüilizador. – É um hospital utilizado por bruxos, vão lhe explicar o que aconteceu e cuidar de você até que eu possa voltar, ok? – alguns curandeiros se aproximaram, Draco levou as mãos instintivamente sobre a marca negra, tentando grudar a camisa rasgada sobre ela.

Amanda agarrou-se ao seu pescoço, pedindo baixinho para que ele não a deixasse sozinha. Uma cena estranhamente constrangedora para quem já havia levantado conceitos horríveis sobre trouxas e que ainda acreditava em alguns... Não chegou a abraçá-la de volta, mas prometeu que voltaria no dia seguinte. Virou-se para o curandeiro.

- Ela foi utilizada como isca por ex-comensais da morte. – o outro o olhou cético. - Amanhã retornarei aqui para poder interrogá-la sobre o que aconteceu, podem cuidar dela, certo?

- Tudo bem, Sr. Malfoy.

Ele lançou um meio sorriso à garota e saiu novamente para a rua. A chuva ainda continuava torrencial e ele andou sem rumo por ela. O passado lhe caindo como um enorme peso sobre os ombros, revivendo cenas horripilantes, enquanto a marca no seu braço atingia um nível de ardência absurdo.

Não queria voltar para o ministério, mas teria que dar no mínimo alguma justificativa para o seu chefe ridículo, que mal sabia avaliar uma missão. E tentando desviar a atenção da dor – Aparatou.

oOo

Ok. Harry tinha que admitir, estava preocupado. Já era noite e nem sinal do Malfoy. Alfred parecia nem notar esse peculiar atraso... E, por mais que tentasse não demonstrar estava absolutamente raivoso com o desleixo do outro. Não que isso tivesse haver com o fato de Malfoy estar correndo algum tipo de perigo. Ele não se preocupava de fato... Preocupava? Mas, ele não acabara de admitir que sim?

Seus pensamentos foram interrompidos por uma porta sendo aberta com um estrondo, virou-se para ver quem era e viu Malfoy entrar. Estava encharcado até os ossos e se possível, parecia mais pálido do que o habitual. Os cabelos loiros escorriam água por seu rosto e Harry pode ver que havia cortes tanto no rosto, pescoço e alguns no antebraço. A camisa azul-marinho que ele usava também estava rasgada e ele segurava com força o braço esquerdo. Mas, o mais estranho de tudo naquela imagem era o semblante sério e impenetrável que Malfoy sustentava.

- Ora, Malfoy, demorou mais do que o habitual. – Harry ouviu a voz de Alfred. – Conseguiu averiguar tudo? – ele mal perguntara o motivo do estado do sonserino, mas Harry viu que um sorriso irônico brotava no rosto do outro.

Um pergaminho foi atirado sobre a mesa de Alfred.

- Emboscada. – Malfoy disse serenamente. – Uma trouxa foi utilizada como isca, mas já está segura no St. Mungus, sendo tratada dos ferimentos que sofreu. Você vai encontrar maiores detalhes ai. – disse já se virando para ir embora.

- Não capturou ninguém? - Alfred riu. – Não dá para confiar coisas sérias a um Malfoy, não é mesmo?

Agora Harry tinha certeza de que o comportamento de Alfred era de pura implicância, tanta que ele nem se preocupava com os reais motivos para não ter havido captura nenhuma. Observou também o olhar de desdém misturado com raiva que Malfoy lançou para ele.

- Já disse que os detalhes estão ai, estou indo embora. – disse já se retirando da sala, Alfred ainda tentou chamá-lo aos gritos, mas foi veementemente ignorado.

Assim como também não voltou um único olhar para onde Harry estava.

oOo

Draco aparatou assim que saiu do ministério, estava exausto, tanto pelo esforço realizado quanto pelos pensamentos que insistiam em voltar a sua mente. Parecia que o seu passado decidira voltar com força total para atormentá-lo.

Ao chegar ao apartamento, mal trocou de roupa, só arrancou a camisa rasgada e se atirou ainda molhado sobre a cama. Estava tão cansado... Delírios giravam em sua mente, com maldições, azarações, sua família sendo torturada e ele mesmo sofrendo nas mãos de Lord Voldemort. Por que aquilo não desaparecia?

Tão cansado...

oOo

Harry chegou em casa inquieto, mal conseguiu dar a atenção suficiente para os deveres escolares dos filhos. Alguma coisa o incomodava. A imagem de Malfoy segurando o braço onde estava a marca negra o intrigava, havia mais do que indiferença no olhar do outro quando ele deixara o ministério; era uma expressão de quem tenta condensar todos os pensamentos no fundo da mente. Estranhamente, Harry se lembrava de que aquela era a expressão que tentava manter quando sua cicatriz ardia.

Colocou os filhos na cama mais cedo, mesmo sobre os protestos de James e esperou que todos estivessem em sono profundo, lançando os feitiços certos para ser avisado se algo ocorresse. Ele precisava saber o que realmente tinha acontecido, uma necessidade absurda, já que ele não tinha nada haver com o que Malfoy fazia ou deixava de fazer, correto? Mesmo que parte do plano fosse se aproximarem... Mas, era tudo uma representação não era? Não estiveram representando a semana inteira? Por que agora Harry sentia que deveria levar essa atuação à sério e saber o que tinha acontecido com o outro?

Não tentou mais colocar impedimentos e se dirigiu para o apartamento de Draco. Ao chegar tocou a campainha inúmeras vezes e já estava tentado a usar o aloromorra ou bombarda caso Malfoy não abrisse a merda da porta. Quando ia mirar o feitiço na maçaneta ele ouviu passos incertos e meio cambaleantes, logo a porta estava destrancada.

À sua frente, Harry se deparou com um Malfoy ainda de cabelos molhados, enrolado em um edredom enorme e aparentemente trêmulo; o rosto dele também estava diferente, substituindo a constante palidez um traço de vermelho ocupava o pescoço e maças do rosto, seus olhos pareciam meio desfocados também. Embora ele tenha reconhecido Harry no mesmo instante.

- Potter! – a voz arrastada saiu mais baixa do que o habitual, mas não menos arrogante. – Suma da minha casa, agora! – Draco não chegou a trancar novamente a porta, só a bateu e tornou a se arrastar para o quarto.

Maldito Potter! Não o deixava nem ao menos ficar em paz jogado na sua cama, ele o odiava... Santo Potter! O que ele... Cenas desconexas da época de Hogwarts começaram a cruzar a mente de Draco. Passando da Floresta Proibida a jogos de Quadribol. O que estava acontecendo afinal... Desabou na cama novamente.

Harry ainda encarava a porta fechada, mas não havia raiva nesse ato, só surpresa. Como imaginara, seu impulso estava correto, algo não estava bem com Malfoy e deveria ter sido alguma coisa durante a missão daquela tarde.

Observou que a porta não estava trancada e entrou, procurando pelo quarto dele, no caminho abriu a porta que dava para um quarto menor e que tinha uma decoração completamente diferente da casa – com móveis em branco e cortinas e colcha azul, havia alguns brinquedos colocados em prateleiras; deveria ser o quarto do filho... O próximo não estava com a porta fechada e era o de Draco, percebeu que ele estava atirado sobre a cama, ainda enrolado no grosso edredom negro, como se sua vida pudesse ser protegida por ele e dizia algumas palavras sem sentido.

Harry se aproximou cauteloso, mas o outro não pareceu notar sua presença, o que fez com que Harry aproveitasse para conferir sua temperatura, encostando rapidamente uma das mãos no rosto do sonserino. Febre e bem alta. Qual poderia ser a causa? Somente da chuva forte não era, pois Malfoy parecia estar preso em algum tipo de delírio. Percebeu, então, que ele ainda segurava com força o braço esquerdo e Harry o puxou para perto, encarando a marca negra em vermelho sangue. Malfoy sussurrou mais palavras desconexas e arregalou os olhos, parecendo finalmente notar o que estava acontecendo. Empurrou Harry para longe, sentando-se na cama rapidamente.

- O que pensa que está fazendo, Potter! Pensei que tivesse dito para você sumir da minha casa. Saia daqui! – disse raivoso, as palavras alternando entre sons baixos e altos.

- Malfoy, seu braço, o que houve com seu braço? – Harry fingiu não ouvir o que o outro dizia.

- Não é da sua conta, suma daqui! – Draco continuava na defensiva, o braço parecia dormente depois de ter ardido durante muito tempo.

- Se isso foi um feitiço temos que barrá-lo, você conhece os processos, por que está se arriscando assim? – a risada de Draco foi tão fria que surpreendeu Harry.

- Isso Potter, já que quer tanto saber... – ele ria. – É um tipo de feitiço lançado para que os comensais entendam algo sobre lealdade, sabe? Algo que Você-sabe-quem ensinou muito bem aos seguidores, para que eles pudessem castigar aqueles que saíssem da linha. Legal não é? Não sabia que ainda podiam usá-lo...

Mais cenas do passado cruzaram a mente de Draco e ele respirou pesado. Por que raios Potter ainda não tinha ido embora?

- Você está ardendo em febre, é melhor tomar um banho, seja o que for que isso está causando além de ardência, não é se largando de qualquer jeito que você vai poder impedi-lo.

Draco o encarou como se nunca tivesse visto algo tão bizarro na vida, levantou-se da cama com um arranco e foi até algumas gavetas no guarda-roupa, pegou uma calça de pijama cinza e foi para o banheiro que havia em seu quarto. E mesmo sem querer, Harry acabou por ver que no peito do outro, cortando de um lado a outro, estava uma fina cicatriz; fora Harry que a causara, há muito tempo atrás... E isto o deixou de certa forma incomodado, decidiu sair do quarto e procurar a cozinha.

O cômodo era grande e sua decoração também girava entre o branco e o negro, tudo de muito bom gosto, Harry não poderia deixar de reparar, embora achasse que tanta quantidade de preto dava um aspecto sombrio. Tirou algumas coisas de dentro dos bolsos da capa que usava, havia poções para anular feitiços adversos e um pacote de sopa instantânea, uma maravilha trouxa para quem não tinha muito talento para cozinhar. Preparou duas tigelas médias que achou em um dos armários e levou para a ampla sala de jantar, junto com o frasco com a poção.

Draco apareceu, usava uma camisa branca de algodão junto com as calças cinzas, os cabelos molhados estavam displicentemente penteados para trás, fora do rosto e já não havia muita vermelhidão o que indicava que a febre estava cedendo. E ele também já parecia não se incomodar tanto por deixar a marca negra à vista.

- Ainda está ai? – Draco se dirigiu com a toalha em mãos para a área de serviço. – Santo Potter, o protetor dos aurores. – disse sarcástico.

Harry revirou os olhos, se perguntando pela milésima vez por que estava fazendo tudo aquilo. Era só aproximação, certo?

Certo.

- Fiz uma sopa. – disse apontando para as tigelas. – Vão ajudar a melhorar, ainda mais com a chuva que você pegou. E também trouxe essa poção, é boa para anular determinados feitiços.

Draco olhou incrédulo. Será que Potter achava que ele era uma criança? Talvez... Para que tudo aquilo?

- Está tentando me envenenar, Potter? Sabe, envenenado eu não vou poder te ajudar no seu plano bizarro. – disse lançando-lhe um meio sorriso.

- Eu não iria te envenenar e é justamente o contrário, preciso manter você vivo para que o plano bizarro de certo, não é? Só estou fazendo a minha parte. – Draco lhe lançou sua melhor careta.

Sentou-se à mesa e começou a comer, mas parou depois da terceira colherada, Harry também o acompanhava.

- Que coisa horrível é essa? – Draco o olhou de maneira estranha. – Isso não é instantâneo é?

- Ãhn... É? – disse Harry arrumando os óculos no rosto.

Draco pegou a tigela, se levantou e foi para a cozinha. Em seguida jogou todo o conteúdo da tigela pia a baixo. Harry que o seguira o olhou de forma raivosa.

- O que é que você está fazendo?

- Sim, você estava querendo me envenenar. Ficou louco, Potter? Fazer com que eu coma comida trouxa! E instantânea ainda por cima, não acredito!

- É você que está louco! Isso nunca fez mal para ninguém lá em casa! – respondeu Harry indignado.

- Talvez por que o estômago de vocês já foi neutralizado depois de tanta coisa ruim ser ingerida?

- Ah! Cala a boca, Malfoy! Tanta frescura chega a me dar raiva. Quer saber, estou indo embora. – Harry disse saindo da cozinha e se dirigindo para a porta, se virou antes de sair. – Não esqueça a poção, é para melhorar qualquer coisa que esteja fazendo mal, a não ser que o gosto ruim te impeça de tomar. – riu.

- Vai à merda, Potter! – o outro gritou da cozinha. – E suma logo da minha casa! – Draco ouviu a porta bater.

O que fora tudo aquilo? Aquele plano de aproximação estava indo longe demais, quem queria um Potter bancando a babá, que ridículo, totalmente ridículo. Draco foi para a sala de jantar, a expressão ainda indignada, mas apesar disso tomou a poção que o outro deixara, quem sabe aquilo pudesse barrar aquela avalanche de lembranças?

Foi até a imensa janela que dava para uma varanda, na sala de visitas e de lá, viu Potter atravessar a rua e aparatar. Sentiu-se estranho com a cena e de repente o silêncio em seu apartamento pareceu pesado demais, quase tão denso que ele poderia tocá-lo.

Alguma coisa parecia ter saído do lugar... E o sentimento que resultava disso era ao mesmo tempo acolhedor e aterrador, como se o mundo que ele construíra naqueles cinco anos vivendo sozinho começassem a desmoronar.

E a percepção de sua solidão pareceu o engolfar, tal como o silêncio que reinava no apartamento de paredes brancas e móveis negros.

O que estava acontecendo?

Alguma coisa se quebrava... E anunciava uma iminente transformação.

Continua...

"...Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la".

N.AEste capítulo ficou imenso, muito maior do que o que eu havia planejado de início, algumas cenas simplesmente surgiram como uma necessidade real, como Draco lutando contra os ex-comensais. Também acho que coloquei alguns nomes de feitiço errado, se estiver, por favor, me avisem para que eu corrija.

O trecho que utilizo de Clarice Linspector foi retirado do conto "A Fuga", que é muito bom, por sinal!

Sobre os dois: Eles já colocaram o plano em ação, mas parece que perderam um pouco o controle sobre ele, afinal, estão apenas representando uma aproximação ou está se tornando real?

Hermione também apareceu rapidamente neste capítulo e parecesse ter percebido que alguma coisa não está certa, veremos o que ela fará.

Agradecimentos à mississippi, Miyu Amamyia, Marjarie, Ninaa-chan, Ana Granger Potter, Sy.P, Nyx Malfoy e Milady Tomoyo; por estarem acompanhando e gostando de ver Harry e Draco nesta fanfic, estou muito feliz pelos comentários que me dão ânimo renovado na hora de escrever os próximos capítulos.

Também quero saber com vocês que estão acompanhando o que acharam das cenas desse capítulo em que houve mais ação.

Próximo Cápitulo: Amigos?

Abraços,

Lithos de Lion

P.S: Quase me esqueço, sim, mississippi o menino da foto que Draco segura no fim do parte 3 é o Scorpius.