-Então, nós temos descrições desses bastardos, ou nós só vamos chamá-los de 'caras maus'? – Cid bufou, olhos azuis erguendo-se para Tifa em expectativa. A artista marcial perambulava atrás do balcão do bar, esfregando furiosamente contra a madeira com o que deveria ser considerado um trapo. Seus profundos olhos cor de mogno estavam focados no atirador, posicionado de maneira desafiante em frente à janela.

Nem mesmo ele havia notado que ela o fitava. Cid olhou entre Vincent e Tifa e aspirou até que a ponta do cigarro ficasse vermelho-flamejante.

-Tifa, você acha que eles vão voltar? – o piloto continuou, um redemoinho de fumaça ondulando-se de suas narinas quando exalava. Apoiando os pés sobre a mesa, inclinou-se para trás nas almofadas da cadeira e examinou Tifa impaciente.

-Quem sabe, - ela respondeu suavemente, seus olhos ainda atentos na forma imóvel de Vincent.

-Quando Cloud vem pra casa?

-Quem sabe.

A testa de Cid sulcou e seus dentes trabalharam furiosamente no cigarro entre eles.

-Você acha que Vincent vai dormir com você? - uma risadinha veio da cozinha e o piloto trocou um pequeno sorriso com a ninja. A forma esbelta de Yuffie apoiou-se contra a armação da porta, dirigindo-se para a cozinha, seus braços se dobrando enquanto sorria satisfeita para a parte de trás da cabeça de Tifa.

-Quem sabe.

Um rugido veio da frente da janela onde Vincent estava observando.

Talvez suas perguntas estivessem apanhando o atirador apesar de tudo... Os olhos rubros moveram-se quando Vincent se voltou com uma sobrancelha erguida; focou em Tifa que saltou do seu dia de sonhos.

-Tifa, - a voz monótona pareceu vibrar toda sua alma. –Você esteve limpando a mesma mancha durante cinco minutos.

Suas bochechas coraram, enquanto seu olhar vacilava e descia para o trapo, engasgando em um aperto.

Deixando o trapo cair, ela se distanciou um pouco.

-Desculpe, - disse suavemente. Vincent grunhiu em resposta e retornou seu olhar para fora da janela.

-Hey Vince, você não acha que tá levando isso um pouco à sério demais? – Cid franziu o cenho. -Quero dizer, não é como se eles fossem entrar diretamente pela porta. O bar tá fechado de qualquer jeito.

-Eu prefiro manter as coisas em ordem. Além do mais, assassinos não são pegos facilmente. Em especial, aqueles que eu pouco conheço.

-E o que isso quer dizer? – Yuffie gargalhou. -Você se torna conhecido dos caras maus Vinny? - a mesma mão que tinha golpeado seu rosto, alcançou os fios pretos para afastá-los dos olhos.

Cruzando os tornozelos, enquanto apoiava todo seu peso na passagem da porta, ela sorriu para as costas de Vincent.

-Eu me acostumei com as estratégias deles. Sou capaz de prever o próximo movimento que pretendem fazer.

-Eu estou tão contente de estar com você, Vinny. Não iria querer ser um cara mau, - Yuffie disse alegremente antes de dar um passo largo e empurrar Tifa para o lado.

-Me ajude a assar essa droga de bolo antes que eu exploda toda sua cozinha. Eu poderia jogar seu forno porta à fora, você sabe.

Tifa riu e vagarosamente, tomou a dianteira de Yuffie em direção a cozinha, deixando os homens meditando silenciosamente. Como sempre, Cid nunca fora um pensador quieto.

-Você vai tomar conta dela Vince?

-Eu não concordei com isso mais cedo? – ele ressoou, virando-se lentamente nos calcanhares e se retirando para onde Cid estava sentado. O atirador gemeu quando se sentou em uma cadeira, e sua armadura dourada tiniu sobre a mesa que os separava.

-Sim, mas eu tô preocupado com ela, só isso.

-Eu também.

-Não pense em nenhuma idéia engraçadinha enquanto vocês dois estiverem sozinhos. Eu poderia voltar e atirar em você bem no meio dos olhos com sua própria arma se eu encontrasse você fazendo merda, - Cid sacudiu um dedo para ele enquanto atrapalhava-se em seu bolso com a outra mão.

Depois de achar o pacote de cigarros, ele brincou com o plástico da caixa por um momento.

-Sua incapacidade para visar poderia provar ser sua fraqueza nessa questão em particular.

-Bundão esperto, - Cid resmungou.

Vincent piscou para o piloto austero.

-Bundão estúpido, - sussurrou tranqüilamente; as pontas de seus dedos em garra derivando contra o sol na madeira manchada.

O cigarro desfazia-se entre os dentes de Cid, o deixando cair quando sua mandíbula entreabriu.

O sorriso escondido de Vincent desapareceu tão rápido como tinha aparecido, e ele piscou inocentemente. O piloto, entretanto, tentou continuar a falar, mas sua voz aparentemente tinha ido. Sacudindo sua cabeça aturdida, ele saltou da cadeira e perambulou erroneamente em direção à porta.

-Eu vou- Eu vou falar com vocês mais tarde. E- Eu tenho algumas... Coisas que preciso fazer.

Uma explosão de ar quente do verão percorreu o bar frio quando a porta abriu, e Cid piscou para a inesperada exposição à luz do sol. Olhando de volta, permaneceu encarando Vincent sem piscar.

-Eu não acredito que você acabou de fazer uma piada. –Com isso, caminhou vigorosamente para fora e bateu a porta asperamente atrás de si.

Ninguém ouviu Vincent rir enquanto tirava formas ímpares com seus dedos dourados da mesa.

Cid está certo... Eu preciso relaxar sobre isso. E não deveria iniciar Tifa com meus caminhos únicos.

Ele meditou. Vozes suaves saíram da cozinha, enquanto as duas mulheres falavam entre si e Vincent logo mergulhou na conversa delas. Curiosamente, circulou o balcão e se encontrou caminhando delicadamente para a cozinha.

Deslizou silencioso até a entrada para observar.

A segunda explosão da cozinha, veio sem aviso quando Yuffie apertou um botão verde piscante, sobre uma grande e clara batedeira. Uma golfada de farinha embaixo da tigela larga cobriu todos que estavam dentro do raio de explosão.

Infelizmente, quando Vincent voltou a abrir seus olhos, ele também estava coberto de pó branco. Olhando para baixo, sobre si mesmo, piscou para a cor cinza que se tornou seu uniforme de couro.

-Opa, - Yuffie sussurrou admirada, sua atenção ainda focada no dedo contra o botão causador da confusão.

Tifa tossiu enquanto a farinha começava a se estabelecer.

-E eu pensei que já tínhamos acabado com as confusões por hoje, - resmungou, virando-se ao redor e congelando na metade do passo. Lá estava Vincent, coberto da cabeça aos dedos de pó branco, com olhos desconcertados. Sem olhar para trás, Tifa silenciosamente deu um tapa em Yuffie onde pensou que fosse seu ombro.

-O que? – a ninja perguntou antes de o silêncio engolir ambas.

Enquanto os olhos rubros de Vincent erguiam-se para encontrar os de Tifa, Yuffie teve um ataque de riso. Mesmo segurando a risada, Tifa pôde sentir a humilhação radiando em volta do atirador.

Vincent era um cavalheiro, e não estava acostumado a acidentes e erros como esse. Ele preferiria não ser o motivo de riso, especialmente quando era de Yuffie.

Mesmo assim, ele estava cômico, Tifa recusando-se a rir. Seus olhos haviam ficado em contraste com o branco que o cobria e a emoção fluiu dentro de suas profundezas. Rapidamente, elas evitaram ser a coisa mais próxima dele, que finalizou como a batedeira.

-Com licença, - disse suavemente, desaparecendo rápido na curva. Ainda rindo histericamente, Yuffie não prestou atenção na fuga, mas certamente, Tifa prestou. Afundando seu próprio constrangimento, saiu com pressa da cozinha atrás dele, seguindo as manchas de farinha ao longo do piso de madeira até o andar de cima.

Não foi difícil achá-lo, já que ele não havia tentando se esconder. Vincent estava em pé, rígido no canto mais distante do corredor, suas costas apoiadas contra a parede e os braços cruzados pesadamente em seu peito. Com passos hesitantes, Tifa aproximou-se dele, pensando em como não era tão silenciosa quanto ele.

Orbes vermelhos se ergueram e lampejaram para observá-la enquanto se aproximava, sua forma imóvel e o olhar quase teatral a fazendo vacilar.

-Hey, Vince, - ela sorriu para ele.

-Um tanto interessante, não é? Yuffie não pode cozinhar nada louvável. Você sabe, não precisa desaparecer desse jeito. Não é como se você tivesse matado alguém que era inocente.

-Eu já fiz isso Tifa.

A artista marcial piscou algumas vezes, mas continuou pressionando, determinada à trazê-lo de volta para a luz.

-Você pode tomar um banho, tem um banheiro logo nessa porta ao seu lado, - ela assentiu na direção da porta de seu próprio quarto próximo dele. O atirador nem mesmo seguiu seu olhar. Suspirando, estendeu uma mão para coçar a cabeça.

-Vai me contar o que ta te preocupando Vince?

-Eu acreditei que isso fosse uma explosão feita pelos seus perseguidores, - ele disse suavemente, ainda bravo o suficiente para não manter contato visual com ela.

-Tá tudo bem, todo mundo comete erros agora e de novo, - ela ficou diretamente na sua frente; freando seus dedos depois de estenderem-se e limparem a farinha do rosto dele.

-Eu estou lidando com uma vida, não posso cometer um erro, especialmente quando essa vida é sua, - sussurrou. Rapidamente, sua mão estendeu-se à frente.

-Estou falando demais, minhas desculpas.

Tifa parou. Erguendo a mão, envolveu o rosto dele para segurá-lo na sua frente, sentindo seu sangue borbulhar por baixo da pele.

-Vincent, bote pra fora já. Fale, droga! Pare com esse mau- humor e se divirta por uma vez. Eu odeio isso! – Suspirando com frustração, inclinou-se para frente e pressionou sua testa contra o ombro dele.

-Eu odeio isso, - repetiu com firmeza.

Inesperadamente, todo o prédio vibrou de repente com outra explosão que forçou as orelhas da artista marcial lamentarem depois.

Vincent se virou ao mesmo tempo em que o som balançou as paredes ao redor deles, forçando Tifa para o canto enquanto pedaços de escombros caíam nas costas dele, acumulando-se no chão.

Um calor queimou seus sentidos enquanto a mente confusa de Tifa lutava para compreender tudo que havia ocorrido. Muita fumaça dançou pelo corredor e Vincent se manteve perto dela, seus olhos furiosos lançando-se para trás, examinando a extensão do estrago.

-Yuffie! - Tifa gritou, lutando para passar da estrutura forte e inclinada de Vincent. A garra ergueu-se para apertar o pulso dela, retraindo-se devagar devido a repentina pressão.

-Venha comigo, - ele rosnou antes de puxá-la em direção as escadas, somente para encontrá-las arrancadas. Derrapando até parar, Tifa quase caiu dos quatro metros que existiam sem a escada se não fosse pelo insensível aperto que Vincent mantinha em seu pulso. Olhando para trás, na direção dele, ela afastou-se; arrancando o pulso à força.

-Eu tenho que achar Yuffie! - retrucou antes de pular sobre a pilha de tábuas lascadas que uma vez fora uma grandiosa escadaria. Sentindo uma dor subir pela perna, ela estremeceu, mas continuou pela neblina de calor, procurando freneticamente pela amiga. Os gritos de Vincent desvaneciam-se atrás de sua cabeça enquanto arrastava-se para a cozinha, piscando com os olhos cheios d'água. O fogo se embaralhou nos seus pés quando ela oscilou adiante, até que alcançou a caverna que era a entrada da cozinha.

Seu estômago gelou e com as mãos em forma de garra, afastou a madeira quebrada e o metal.

-Yuffie, agüenta aí! - gritou, tossindo logo depois para a quantidade enorme de fumaça. Uma mão veio sobre seu ombro, mas ela nem mesmo cedeu. A mão firmou-se em um aperto e a girou, forçando-a a ficar face a face com um homem mascarado, um plástico branco escondendo seus traços dela.

-Tifa Lockheart, seu tempo acabou.

Uma pequena pistola ficou diretamente entre seus olhos, a escuridão do cano era assombrosa. A trava de segurança estalou e Tifa esperou pelo fim. Mas ao invés disso, um flash rubro a envolveu e o som do tiro ecoou pelo prédio em chamas; ela não sentiu dor e nem a morte. Na verdade, sentiu um enorme peso cair sobre si e a cor rubra se intensificar. Agarrando a frente da roupa de Vincent para mantê-lo equilibrado, olhou para ele completamente horrorizada.

Vincent Valentine tinha levado o tiro.