As unhas de Tifa cravaram-se profundamente no couro usado enquanto Vincent caía em sua direção, seus gritos frenéticos de alguma maneira o trouxeram de volta para a realidade, aterrissando nas orelhas surdas.

Olhando o topo da cabeça do atirador a ultrapassar, ela engoliu a umidade de sua língua. O homem mascarado a observava com os olhos frios sem piscar.

-A vida dele foi desperdiçada por algo tão lixo como você – bufou, erguendo a pequena arma mais uma vez para a testa de Tifa.

Tremendo, o olhar da artista marcial baixou de volta para Vincent, as mexas negras derramando-se para obscurecer sua face. O empurrando para mantê-lo em pé, Tifa grunhiu quando o metal gelado roçou em sua barriga nua. Não se permitindo ofegar, a guerreira piscou assombrada quando a cabeça do atirador se ergueu lentamente com uma cor rubra em chamas, e raiva. Focalizando nela, seus olhos piscaram pesadamente quando a trava de segurança estalou outra vez.

-Encontre Yuffie, - ele rugiu antes de se voltar para o intruso com uma perna erguida até que a ponta de sua bota se enfiasse ao lado do homem.

A pura força da manobra de Vincent mandou o rapaz mascarado cair direto sobre os escombros, as lascas de madeira cortando suas roupas e a carne desprotegida por debaixo. O homem uivou em agonia enquanto lutava para ficar de pé, grossos pedaços de madeira alojados profundamente dentro de suas coxas e braços.

Olhando uma última vez para Vincent, que já se aproximava do homem cheio de lamúria e fúria, ela também girou no lugar para retornar à cavar por Yuffie. Sua garganta apertou-se com a fumaça negra enquanto removia os destroços, empurrando os escombros e obtendo cortes ao longo do caminho por causa do metal quebrado e madeira combinada. Fitando o ar nebuloso, ela tossiu asperamente.

-Yuffie? Onde você está? – Cobrindo a boca, Tifa parou próxima do refrigerador, o deslizando para baixo, o qual era sólido como o chão. Atrás de si, uma arma soou e instintivamente hesitou. Quem atirou dessa vez?

-Tifa!

Olhando adiante, uma pilha de tábuas se moveu e a pequena estrutura de Yuffie apareceu enquanto os pedaços caíam no chão. Correndo apressada até a amiga, Tifa abraçou a ninja intensamente, as lágrimas limpando pequenas porções de seu rosto. –Você está bem! – ofegou, espremendo-a mais uma vez antes de se afastar.

-Desculpa, mas não podem se livrar de mim facilmente, - Yuffie sorriu nervosa, pulando quando a madeira desabou do teto para cair ao lado delas.

-Você pode andar? – Tifa perguntou, observando o talho que atravessava a bochecha direita da ninja com o cenho franzido.

-Tirando alguns cortes e machucados, eu tô bem. Mas vamos dar o fora daqui antes que todo o prédio entre em colapso, - Yuffie soluçou, tossindo depois com um punho cobrindo a boca.

-Vamos, - Tifa concordou antes de apertar a mão da amiga e puxá-la cuidadosamente através dos escombros. Focando a saída delas entre duas tábuas caídas, ela ignorou todo ao redor. O som do fogo faminto consumindo tudo na sua passagem tornou-se meramente um zumbido suave e até mesmo a tosse rouca de Yuffie se tornou nada mais que um sussurro.

Fazendo uma careta, Tifa empurrou com o ombro uma das tábuas para longe da passagem, sentindo o fogo lamber a pele exposta de seus braços.

Tombando sobre a passagem da cozinha uma vez mais, a artista marcial empurrou a jovem ninja por ela antes que deslizar a si mesma para fora, ofegando por ar puro na horrível bagunça. Enquanto rastejava por baixo de duas vigas de aço, sua voz escorregou para fora dos lábios em um grito. As chamas começaram a tragar sua carne quando tentava sair com dificuldade por detrás do bar, mordendo seu lábio para manter-se calma.

-Tifa, vamos! – Yuffie gritou. No entanto, Tifa não pôde localizar a ninja. O medo se formou no fundo de seu estômago quando correu mais adiante, procurando por qualquer coisa que pudesse servir como uma saída. A fumaça borrou sua visão, e seus pulmões apertaram-se em cada trabalho de respiração enquanto as mãos cortadas tateavam pela fumaça em esperança de agarrar alguma orientação.

"Eu vou morrer aqui," Tifa pensou temerosamente enquanto procurava por seus amigos. Tropeçando pelas ruínas do Seventh Heaven, piscou quando Vincent pareceu sair de lugar nenhum. O tempo se tornou lento com ele correndo até ela, seus olhos vermelhos focados e determinados enquanto as chamas estendiam-se ao redor dele.

Sua boca pareceu estar se movendo, mas Tifa, ainda, não havia escutado nada mesmo com ele alcançando o seu lado.

Focando nos lábios pálidos à cima do colarinho da capa, ela piscou enquanto os sons se apressavam de volta para sua cabeça.

-Tifa, venha comigo, - ele rosnou, olhando para longe e examinando o que ela havia pensado poder ser uma possível saída. –Yuffie está a salvo lá fora, - adicionou, como um pós-pensamento. Sua mão enluvada se esticou e encontrou o pulso dela de novo enquanto ele começava a se mover.

Assustada e cansada, Tifa tropeçou pelo caminho atrás dele; muito confusa. Ela não estava indo na direção certa?

Vincent virou o olhar para Tifa, franzindo o cenho para o seu estado e ele havia entendido que não poderia fazer nada antes deles irem lá para fora. Olhando adiante, sua testa sulcou para a próxima janela, a vidraça ainda estava surpreendentemente intacta. Isso não pretendia ser seu plano de fuga, mas devia servir. Diminuindo a velocidade, ele libertou Tifa do aperto e ao invés disso, envolveu seu braço em torno da cintura dela, seus dedos segurando a capa para mantê-la ao redor da artista marcial.

-Segure-se, - ele disse humildemente antes de lançar a si mesmo para frente, levando Tifa com ele. Abaixando repentinamente a cabeça, seu ombro chocou-se com o vidro grosso, estilhaços voando ao redor deles enquanto a gravidade mandava seus corpos caírem sobre a calçada do outro lado. Apertando o braço na cintura de Tifa, ele a puxou contra si mesmo, enquanto suas costas encontravam a calçada dura em uma saudação feroz. Grunhindo com o impacto, ambos derraparam até parar na borda dela. Sirenes gemeram com a chegada do time de bombeiros, homens apressando-se em apagar as chamas mesmo com Vincent sabendo que não haveria mais nada do Seventh Heaven.

Levantando o olhar para o prédio dominado, foi então que o telhado finalmente esmigalhou-se, se chocando com os dois andares em um amontoado de madeira e metal.

Soluços embaixo de seu queixo o assustaram de sua reverência e o aperto dele suavizou-se na artista marcial. Endireitando-se, ele também empurrou Tifa para uma posição sentada ao seu lado, os olhos treinados examinando o estrago feito. A pele dela estava manchada com bolhas queimadas enquanto cortes filtravam sangue fresco ao longo dos braços e pernas. Tudo iria precisar de atenção médica, e Vincent somente conhecia um possível lugar que poderia mantê-la a salvo e sobre cuidados.

-Tifa, - disse suavemente, abaixando a cabeça para ver o rosto curvado dela. –Nós temos que ir embora daqui antes que os problemas apareçam. Eu sei de um lugar onde podemos ficar para passar a noite. Yuffie está a salvo e parece, entretanto, que ela foi procurar por Cid na esperança de que ele possa levar você e a mim para Kalm. Você estará segura lá.

-Ah Vince, - Tifa lamentou-se enquanto seu corpo sacudia com soluços. –Tudo está perdido.

-E tudo pode ser encontrado de novo. Seu bar estará restaurado em breve, mas aqui não é seguro. Os... Homens sabem do Seventh Heaven e agora que ele está destruído, eles vão procurá-la mais intensamente.

Os olhos de Vincent ergueram-se para o homem com vestes anti- fogo que se aproximava.

E voltando a fitar Tifa, ele se levantou puxando a capa debaixo dela.

-Venha, nós temos que ir. – Se esticou para achar a mão dela, e a pôs de pé levando-a rapidamente para longe do rapaz que gritava.

-Denzel e Marlene... E as crianças? – Tifa resmungou, andando lentamente enquanto Vincent a conduzia para uma curva, em um beco privado. Latas de lixo esparramadas pelos lados e jornais velhos rodopiavam em pequenos tornados de vento enquanto eles se moviam ao longo da pequena faixa.

-Eu ligarei para um amigo e eles irão tomar conta das crianças. Elas não estarão seguras conosco. – Vincent replicou, olhando de volta para Tifa expectante.

Ela diminuiu o ritmo consideravelmente, podendo vê-la mancar. Embora os cortes não fossem perceptíveis, seu tornozelo roxo dizia o contrário. O peito de Vincent subiu com um suspiro e ele parou para esperá-la até que o alcançasse. Uma vez estando lado a lado com ela, que continuava a resmungar incoerentemente, o atirador se abaixou e a arrancou do chão. Um ofego assustado escorregou para fora dos lábios dela enquanto suas mãos subiam instintivamente para agarrar a capa dele. –Desculpe, - ela deu um sussurro fraco.

-Você está experimentando um trauma, não se desculpe, - Vincent grunhiu e retomou sua caminhada rápida mais uma vez.

-Onde nós estamos indo? – ela perguntou, olhando para ele curiosa.

-Para minha casa.

-Você vive em Edge? – A surpresa na sua observação fez com que ele risse.

-Sim.

-Há quanto tempo?

-Há um tempo, - Vincent deu de ombros. Como uma rua movimentada se aproximava no fim do beco, de repente ele se virou para outra estrada abandonada.

-Onde?

-Você irá ver...

-Por que você não me disse? – ela insistiu, o fitando furiosa.

Atrás do colarinho da capa, Vincent conteve um sorriso satisfeito.

-Eu prefiro meus... momentos silenciosos. Além do mais, Yuffie teria aprendido sobre minhas caminhadas e teria vindo me incomodar de novo.

-Você tá certo nisso, - Tifa suspirou.

Rondando outra curva, o atirador inalou alto quando se aproximou da própria casa. Depois da derrota de Kadaj e sua gangue, Vincent tinha começado a respeitar a necessidade de contato humano e por pura estupidez ou genialidade, comprou uma casa bastante grande ao longo dos subúrbios de Edge.

Porque a casa, no seu interior, era fresca, os arredores quietos, pois estavam vazios e Vincent estava contente com o isolamento. Na verdade, a casa era um pouco mais do que ele queria e muitos dos quartos não eram utilizados. Mas isso o lembrava da mansão; a qual foi uma das maiores razões do atirador silencioso fazer tal compra.

A casa histórica iluminou-se adiante, toda dominada pela luz e mais uma vez debaixo do volume de tijolos, Vincent ficou em paz. Ele preferia as sombras a o brilho da luz, por elas esconderem mais do que exporem.

Pulando os dois degraus da varanda da frente, o atirador baixou Tifa cuidadosamente para procurar pelas chaves nos bolsos. Enquanto revistava, seus olhos vagaram para a artista marcial que o fitava em choque.

-O quê? – ele bufou, piscando quando seus dedos chocaram-se com algo liso e duro.

Puxando a chave para fora, ele escorregou-as para a fechadura e virou seu pulso.

-Você ganhou uma casa, - ela sussurrou, os olhos viajando pela madeira esculpida e os tijolos bem posicionados. Seus dedos esticaram-se e correram ao longo da murada antes de retornarem ao seu lado.

-Sim, ganhei, - concordou. Com um suave empurrão, a porta girou e ele esperou impacientemente que ela entrasse. Quando ela fez uma apressada tentativa para entrar na residência, Vincent sinalizou o braço para a porta. –Por favor, eu preferiria que você entrasse para ver a parte de dentro.

Ela sorriu para ele e delicadamente andou pelo limiar, um ofego apressado saindo da sua garganta no processo. Vincent, no entanto, não prestou atenção no que a havia atordoado e rapidamente fechou a porta atrás de si. Andando à passos largos para a grandiosa escadaria à sua direita, o atirador ficou ao pé dela esperando que Tifa o seguisse.

-Vince, esse lugar é lindo! – ela continuou, mancando para a outra parede examinando a grande lareira de mármore. Cadeiras de couro adornavam o chão de madeira o circundando no mesmo momento em que das janelas vazava a luz do sol por toda a sala. Vincent sorriu satisfeito enquanto Tifa vagava pelo cômodo extraordinário antes de perambular para a sala de jantar, o que, também, não foi difícil. Nem mesmo uma parede separava as duas salas.

Ela voltou-se para olhá-lo, diversão cintilando em seus olhos. –Como você fez pra pagar por tudo isso?

-Eu acredito que tenho um emprego, - Vincent bufou.

-Isso é incrível, e eu nem vi tudo ainda. – Sua face se suavizou e fios de lágrimas desceram pelo rosto.

Percebendo que o passado a estava alcançando, Vincent assentiu para as escadas. -Eu irei lhe mostrar seu quarto se quiser. Talvez você queira se refrescar e a ajudarei com essas feridas.

Tifa assentiu para ele e cuidadosamente mancou para cima dos degraus. O atirador a assistiu ir antes de puxar seu telefone, uma vez que ela estava fora de visão. Outro pequeno adorno que ele havia comprado – um celular; embora ele mal usasse essa coisa estúpida. Cloud era o único que tinha seu número. Se Yuffie recebesse isso, sua vida mudaria drasticamente.

Discando um número familiar, Vincent o segurou na orelha e começou a andar. Enquanto o chamado continuava, ele olhou para baixo pela primeira vez, onde a bala feriu seu bíceps esquerdo. Trocando o telefone para sua garra, ele cutucou o buraco; agradecido pelo sangramento ter cessado e a dor ter se tornado uma simples sensação entorpecida. Com a ajuda de suas entidades, a ferida iria se curar a tempo. Vincent não tinha tempo para estar preocupado com o seu próprio bem-estar.

A vida de Tifa estava na estaca, e isso era o que importava mais. Retornando para sua ligação, o atirador franziu o cenho para o constante chamado até que –

-Tseng falando.

Vincent sorriu satisfeito. -Tseng, acredito que você ainda está em débito comigo.

-Vincent Valentine. Já faz um tempo não é? Você finalmente me liga para que, talvez, eu possa limpar meu débito? Nos resgatar de Kadaj não é questão para se rir. Eu fiquei surpreso quando você não aceitou minha oferta para prestar serviços em primeiro lugar. Então, por que você ligou?

Vincent riu sombriamente. –Eu preciso de você como babá.

-O que você acabou de dizer?