CAPÍTULO 3
O fogo da ilusão
Joyce entrou correndo na sala comunal, com o livro escondido debaixo das vestes. A sala comunal estava deserta e silenciosa; o único som que se ouvia era o do fogo crepitando na lareira. Sorrindo, a garota correu até o dormitório feminino.
Uma a uma, Joyce começou a acordar as garotas e pediu que descessem até a sala comunal, para uma reunião de emergência. Não demorou muito e todas as Encalhadas já se encontravam na sala, de camisolas, cabelos arrepiados e bocejando sem parar – com exceção, claro, da entusiasmada Joyce, que não conseguia nem ficar parada.
-Será que pode nos dizer qual o motivo da reunião a essa hora da noite? – perguntou Serena, irritada.
-Garotas... Desculpem... Mas não pude me conter! Não podia esperar! A notícia que tenho para passar a vocês é excelente!
-Qual? – indagou Lanísia.
-Eu encontrei! Encontrei a prisão perpétua do amor!
-Não precisávamos de uma prisão, precisávamos de um ritual – disse Serena.
Joyce revirou os olhos.
-É só uma outra maneira de chamar o ritual – explicou.
-Ah! Você também fica complicando as coisas!
-Ok, você encontrou, mas... E aí? – perguntou Alone. – Qual é o ritual?
-É genial, meninas! – ela bateu na capa do livro. – Segundo o texto do livro, esse ritual não possui maneira de ser revertido... Ou seja... Efeito para toda a vida...
-Minha nossa... – murmurou Hermione, assustada.
-E qual é o nome desse ritual tão fantástico? – perguntou Lanísia.
-Venham comigo – chamou Joyce, se encaminhando até o tapete em frente à lareira. Ela abriu o livro de uma só vez, na página exata, facilmente encontrada pela ponta chamuscada. – Eu lhes apresento... A Fogueira das Paixões...
O brilho do fogo que ardia na lareira iluminou a página. As garotas arregalaram os olhos, fitando as figuras que decoravam as páginas... As mulheres ao redor da fogueira... Os papéis sendo jogados no fogo... A fumaça cheia de corações... A imensa labareda...
-Perfeito... – murmurou Lanísia.
-Apavorante – disse Hermione.
-E eis aqui todas as instruções para se armar uma fogueira como essa – disse Joyce, apontando para o texto próximo as figuras.
Ela começou a ler, enquanto o olhar de Hermione estava fixo no fogo que ardia dentro da lareira...
A Fogueira das Paixões.
Um ritual capaz de prender um coração para sempre. Apesar de ser pouco conhecida, A Fogueira das Paixões é fácil de ser realizada, exigindo apenas três ou mais pessoas.
Para realizá-la é simples: uma fogueira normal é armada. Em seguida, as pessoas participantes erguem tochas ao redor dela e cantam os seguintes versos:
"Amor, amor! Fogo devastador me entregue o meu amor!".
Enquanto cantam e circulam a fogueira, as pessoas começam a jogar as tochas que têm em mãos, aumentando a potência do fogo. Encerra-se o arremesso das tochas com a palavra: CORAÇÃO! Neste momento, se a chama desenvolver o formato de um coração, é porque o ritual está dando certo. Em seguida, são escritos os nomes dos correspondentes em pedaços de papel, que são arremessados na fogueira. Assim que as chamas lamberem cada pedaço de papel, uma fumaça pontilhada de pequenos corações irá subir (outro fator que comprova se o ritual está tendo efeito ou não).
Após o arremesso de todos os papéis, as pessoas participantes devem dar-se as mãos e, com as mãos unidas, circular a fogueira, cantando o encerramento:
"Amor, amor! Obrigado a fogueira por me entregar o meu amor!".
Imediatamente soltam-se as mãos e as pessoas viram-se de costas; a fogueira dará um estalo final, confirmando o final e a realização completa do ritual.
A fumaça mágica da fogueira segue as pessoas cujos nomes estão escritos nos papéis. Assim que o poder da fogueira as atinge, elas começam a sentir uma imensa paixão por quem arremessou seu nome no fogo – uma paixão avassaladora, imensa, inexplicável. Uma devoção sem limites.
As labaredas da Fogueira das Paixões são infalíveis.
-É o ritual perfeito! – exclamou Lanísia, sorrindo.
-Tenho que confessar... É muito bom mesmo – disse Hermione. – Mas, mesmo assim, perigoso.
Alone revirou os olhos.
-Ah, não, de novo, Mione? Achei que já tivesse se convencido de que é a única forma!
-Sim... e não – ela suspirou. – Garotas, me desculpem, mas... É que dá muito... medo, entendem? Muito medo mesmo... Porque, se algo der errado... Não tem volta, sabem...
-Não tem como dar errado – disse Joyce.
-Eu... Não sei... Olhem, esse ritual parece ser maravilhoso, não é? Mas, vejam, ninguém o conhece! Querem saber o que eu acho? Que essa Fogueira das Paixões perdeu a fama por ter estragado a vida de várias pessoas! Por ter arruinado a vida das pessoas!
As outras Encalhadas a fitaram, quietas.
-Mesmo assim, Hermione – falou Serena, quebrando o silêncio – eu acho que precisamos tentar. Só para dar o empurrãozinho que os garotos precisam para se entregarem a paixão... No nosso caso, Lewis e Rony, é só o que eles precisam. Desse empurrãozinho...
-É, eu sei... Mas...
-Por favor, Hermione – pediu Joyce. – Somos um grupo. Começamos juntas nisso, e é assim que temos que terminar. Juntas e felizes, com os nossos objetivos finalmente alcançados!
-Você vai participar da Fogueira conosco, não vai? – perguntou Lanísia, segurando a mão de Hermione.
Mione coçou a cabeça... Fitando o fogo ela pensava... Via Rony finalmente em seus braços... Dando-lhe beijos, afagos e carinhos... Vendo-a finalmente como mulher... Sem se importar para o que os outros poderiam achar... Totalmente entregue ao amor...
Fechou os olhos e respirou fundo. Só podia-se viver uma vez. Uma escolha errada poderia atrapalhar sua vida para sempre; porém, uma escolha certa podia modificar tudo para melhor. E se ela não participasse da Fogueira e Rony nunca se declarasse? Seus sonhos e devaneios nunca se tornariam realidade. Ela estragaria a própria vida.
Ela não podia imaginar passar a vida inteira sem nem tocar em Rony.
-Está bem – respondeu, com a respiração acelerada. – Eu participo da Fogueira das Paixões.
-Isso! – exclamou Alone, batendo palmas.
-Amanhã... Amanhã à noite! Armaremos a nossa Fogueira! – disse Lanísia.
-Garotas, juntem-se as mãos! – disse Joyce, estendendo a mão. Uma a uma, as garotas foram colocando as mãos, umas sobre as outras. E, num grito de guerra dito aos murmúrios, elas exclamaram:
-Encalhadas, Encalhadas, tão lindas e apaixonadas!
Elas soltaram as mãos ao fim do grito de guerra. Todas comemoravam, menos Hermione, que, ainda olhando para a chama, pensava no que o amor era capaz de fazer... Capaz de fazê-la quebrar as regras... De deixá-la sem ação... E, principalmente... De controlá-la...
Na manhã seguinte, Clarissa levantou cedo. Na verdade, nem conseguira dormir; uma terrível insônia a perturbou durante toda a noite, uma insônia causada justamente pela idéia das garotas.
Ela nunca ia jogar o nome de Rony Weasley na tal Fogueira das Paixões. Se a situação já era horrível com apenas ela o amando, imagine se ele também começasse a amá-la?
-Eu poderia perder o controle – disse ela a si mesma. – Me entregar a paixão, tendo o Rony tão entregue... E isso não pode acontecer! E, também, se não me entregasse, ia ocorrer uma tragédia, porque ele ia me amar e não seria correspondido... Não seria correspondido porque eu não ia querer corresponder, claro... E, mesmo assim, lá estaria ele, me amando, e não sendo correspondido, me amando, e não sendo correspondido... Ele ia enlouquecer, poderia até me matar, ou matar alguém que começasse a namorar comigo, porque a magia dessa Fogueira é infalível... Ele não ia suportar ver-me com outra pessoa! Não, isso não pode acontecer...
Ela parou de andar de um lado para o outro e deixou-se cair numa poltrona. Respirou fundo.
-Mas a Hermione também não pode jogar o nome dele na Fogueira. Ah, não pode... Não, não... Se ela joga, Rony fica perdidamente apaixonado, ela se entrega à paixão e os dois ficam, como diriam as velhas histórias, "felizes para sempre". Não, isso eu não vou admitir... Rony não pode ser meu, mas também não será de mais ninguém.
Ela apoiou os cotovelos nos joelhos e colocou uma das mãos no queixo, enquanto pensava...
-Eu preciso encontrar uma forma de impedir que essa catástrofe aconteça! De alguma forma, Hermione não pode jogar o nome de Rony na Fogueira!
-Pensando sobre a Fogueira, Clarissa?
Ela assustou-se. Com o coração disparado e subitamente alerta, Clarissa virou-se. Pela escada abaixo vinha Alone, com seus cabelos negros esvoaçando, belíssimos.
-É... Sim – respondeu Clarissa, sua pele alva tingindo-se de vermelho. – Nem dormi direito com tanta... ansiedade...
-Eu também estou muito ansiosa! – disse Alone, sorrindo. – Finalmente terei o Harry comendo aqui, na palma da minha mão! Ah, só de imaginar que agora ele vai me amar...
-É, muito bom – disse Clarissa, forçando um sorriso.
-E você? Muito ansiosa para jogar o nome do seu "amor secreto" na Fogueira?
-Sim, claro! Tenho que estar, não é?
-Com certeza... Esse ritual é perfeito. Parece que foi feito sob medida para as Encalhadas.
Elas ouviram passos rápidos descendo as escadas. Por ali surgiu Colin Creevey, sorridente, e com a costumeira máquina fotográfica pendurada no pescoço.
-Bom dia, meninas!
Elas o cumprimentaram. Ele cumprimentou Alone com um beijo no rosto; Alone e Colin eram grandes amigos. A amizade dos dois nascera no ano anterior, quando precisaram se unir num trabalho árduo de Herbologia. Desde então, só aumentara, fazendo com que ambos conhecessem muitos segredos um do outro. Obviamente, nas reuniões das Encalhadas Colin não ia, mas sabia tudo sobre o grupo e sobre a paixão de Alone.
-Nossa, você parece bem animada – disse Colin a amiga.
-Sim... Muito! – exclamou Alone, eufórica.
-Algum motivo em especial?
-Mais ou menos... – ela fez mistério.
A expressão de Colin se modificou, tomando um ar preocupado. Em seguida, ele perguntou:
-Por acaso é... algo relacionado... ao... ao Potter?
Alone olhou para Clarissa, que balançou a cabeça, pedindo com este sinal que ela não falasse nada sobre a Fogueira; em seguida, ela virou-se para Colin e respondeu:
-É sim... Mas não é nada muito importante...
Subitamente, para fugir do assunto, Alone pegou a máquina de Colin e começou a mexer no bolso de couro ao lado da máquina, o espaço em que ele guardava as fotos mais recentes.
-Deixe-me ver o que você...
-Alone, não!
-...anda fotografando... Por que não? – ela o olhou, admirada. – São somente fotos, e... Epa! – ela não pôde se conter. – Não acredito! Fotos do Harry! – ela sorriu. – Do Harry!
-Sim, e...
-Estão lindas, Colin! E... São várias... Diversos ângulos, poses... Olhe, veja, Clarissa... Como o cabelo dele está bonito nessa... – Clarissa espiou. – Não está?
-Alone, eu... – Colin estava completamente desnorteado. – Eu posso explicar...
-Claro que pode, Colin! Você tirou todas essas fotos dele para dar de presente a mim, não foi?
Ela olhou admirada para o amigo. Colin suspirou, fitou as duas garotas, depois passou o dedo por uma das fotos. Em seguida, disse lentamente, com um riso forçado:
-Sim.
-Oh, obrigado, querido! – Alone o encheu de beijos nas bochechas. – Você é o melhor, mané. Perfeito! Nem sei como agradecer...
-Não precisa, Alone. Não precisa.
Ele baixou a cabeça. Neste instante, por mais eufórica que Alone estivesse, ela conseguiu perceber a mudança de ânimo do amigo. Colocando as fotos de lado no sofá, ela perguntou:
-Ah, o que foi?
-Nada... É que... Eu ia dar essas fotos de presente pra você... Mas ia fazer um embrulho bem bonito... Entregar numa ocasião especial...
-Quer ocasião mais especial do que essa?
Colin a fitou.
-Como assim? Essa é uma ocasião especial?
-Claro que sim, amigo! Colin, acho que finalmente estou conseguindo conquistar o Harry!
-O que?
-Sim! Não precisa ficar tão espantado! Sei que ele parecia não querer nada, dizia que tinha outra pessoa... Mas, eu não sei... Algo me diz que falta pouco para conquistá-lo!
-Nossa... Que bom...
-Não precisa ficar com essa cara, tão pasmo assim, Colin – disse Clarissa. – Alone merecia depois de tanta luta.
-Você está feliz pela sua amiga estar perto de conquistar o grande amor da vida dela, não está?
-Sim... Claro, só estou surpreso, só isso... Espero que consiga...
Ele a abraçou com força. Em seguida, pegou a máquina fotográfica e, dizendo que estava com fome, saiu do salão comunal.
-Nossa, ninguém acredita mesmo que eu possa conquistar o Harry... Você viu a cara de surpresa que o Colin fez?
-E ele tem razão, não é, Alone? Afinal, você não vai muito bem conquistar o Harry.
-Ah, não estraga o meu humor, Clarissa, por favor! Deixe-me saborear o momento...
Novos passos nas escadas. Eram as outras Encalhadas. Joyce, Hermione, Serena e Lanísia desceram juntas, todas tão animadas quanto Alone.
-Mal vejo a hora de chegar a noite – falou Serena. – Eu amo tanto o Lewis. E saber que, finalmente, vou namorá-lo. E que ele vai me amar com a mesma força do meu amor, que ele sentirá um amor indomável, feroz! Ah... Que maravilha!
-Feroz... Hummm... – disse Lanísia, lambendo os próprios lábios. – Isso faz com que eu pense o que o Augusto fará comigo depois dessa Fogueira...
As meninas riram.
-E você, Hermione? – perguntou Clarissa, interessada. – Muito ansiosa para jogar o nome daquele... Desculpe... do Rony na Fogueira?
-É... Devo confessar que agora a idéia me atrai totalmente. Tive ótimos sonhos essa noite, e saber que aquelas imagens dos meus sonhos se tornarão realidade num piscar de olhos... É realmente fantástico!
-O único problema aqui sou eu, não é? – disse Joyce. – Ainda não sei qual o nome que jogarei na Fogueira...
-Por que não escolhe um dos garotos com quem você já fez um dos seus "testes"? – perguntou Serena.
-Isso – concordou Mione. – Você tem várias opções. Deixe-me ver... Miguel Córner... Rogério Davies... Dino Thomas... Neville Longbottom... de fato, até o Nick-Quase-Sem-Cabeça...
-Ok, ok, não precisa lembrar tudo, Hermione – disse Joyce, corando. – Acontece que eu procuro um diferencial. Algo que não encontrei em nenhum deles...
-Posso saber o que é? – perguntou Serena, curiosa.
-Não, deixem pra lá. Mas, não se preocupem: até a noite tenho certeza que encontro o rapaz ideal.
-Melhor irmos tomar café... – disse Lanísia, consultando o relógio.
-Pra que a pressa? É tão cedo...
-Não, não, Alone, não se esqueça de que a nossa primeira aula é de Defesa contra as Artes das Trevas! Ah, quero ser a primeira a entrar na sala, ver o meu querido professor na última aula em que teremos como professor e aluna, e não como homem e mulher.
-Então, vamos – disse Hermione.
As garotas saíram da sala comunal. Enquanto se encaminhavam para o Salão Principal, Hermione viu que Serena estava um tanto calada – o que não era normal – e pensativa. Mione aproximou-se da amiga, colocando a mão no ombro dela.
-Alguma coisa está preocupando você?
-Sim... Claro... A minha maldita futura sogra, como sempre...
-É, eu às vezes até tento entender a hesitação do Lewis em namorar, sabe, Serena... Agora, quando você jogar o nome dele na Fogueira, ele não terá mais medo e se entregará à paixão. Obviamente aceitará namorar você. E, aí sim, pode se preparar porque a Frieda vai perturbar muito.
-Sim, será uma barra. E é nisso que eu estava pensando... Mas, sabe de uma coisa, Mione?
-O que?
-O que me deixa irritada é que, por mais que eu saiba que terei que enfrentar aquele monstro que a Frieda é, eu estou disposta a jogar o nome de Lewis na Fogueira, de namorá-lo, de seguir em frente! E ele não... Eu acho que quando você ama de verdade, você precisa enfrentar tudo e todos para ficar com aquela pessoa. Não importam opiniões contrárias, conselhos alheios, nada, nada... Você tem que passar por cima de tudo isso e seguir em frente, porque a única coisa que importa é ficar com aquela pessoa para sempre. Para mim esse é o amor de verdade. Amor pra mim é quando duas pessoas enfrentam todas as barreiras que a vida lhes impõe, e no final de todas as barreiras elas estão lá, unidas, firmes e fortes, tendo como alicerce para destruir todos os obstáculos o mesmo sentimento, compartilhado por ambos.
Mione concordou com a cabeça.
-Então você acha que Lewis não a ama de verdade?
-Não. Eu acho que sim. Ou melhor, tenho certeza que sim. Ele me passa isso, esse sentimento... E o Lewis é uma pessoa muito transparente, uma pessoa muito sincera. Ele não conseguiria dizer "eu te amo" sem sentir isso de verdade. Tudo o que ele acha ele fala. Por isso, acredito mesmo que ele não quer um compromisso por causa da mãe dele. O que me irrita é a fraqueza dele perante o amor; ele foge daquilo que eu falei, que quando se ama lutamos contra tudo e contra todos para sermos felizes com a outra pessoa. Porque ele não luta contra todos; ele não tem coragem de enfrentar a própria mãe. E é por isso que eu preciso da Fogueira...
-Serena, você já pensou que talvez ele não queira um compromisso sério não porque não tenha coragem de enfrentar a própria mãe, mas pensando em você? No seu próprio bem?
-Como assim?
-Bom, você viu ontem do que ela é capaz. Ia fazer você ajoelhar sobre cacos de vidro, apenas pelo prazer de vê-la sofrer. Isso seria muito pior se você estivesse com Lewis, porque o ódio dela vai quadruplicar quando isso acontecer. Então, Lewis talvez não queira nada com você para o seu próprio bem.
-Pode ser... Mas eu ajoelharia até sobre milhões de cacos de vidro por amor a ele, Hermione.
-Eu sei, mas, é como você sempre disse: Lewis é mais racional. Ele é muito pé no chão. Sentimental, sim, mas muito mais racional. Sabendo que algo pode acontecer com você, e justamente por amá-la, ele tem medo de seguir em frente.
-Mas... Isso não importa mais, não é? – perguntou Serena, secando uma lágrima. – Afinal, depois de hoje à noite o meu Lewis vai me pedir em namoro, e finalmente ficaremos juntos de verdade.
-Sim... Vamos andar mais depressa para alcançar as garotas!
Assim que terminaram o café da manhã, as garotas se levantaram da mesa e começaram a sair do Salão Principal. Elas viram Harry e Rony parados em um canto; Alone comentou com Mione:
-Veja lá, os dois...
Hermione corou.
-Nossa, nem sei como chegar e conversar com eles depois... Depois de ontem...
-É, nem eu... Acho que vou deixar para depois da Fogueira mesmo.
-Sim... Concordo – disse Hermione, desviando o olhar.
As meninas continuaram a caminhar, mas algo no modo como os rapazes conversavam inquietou Clarissa. Ela deixou as meninas seguirem e, disfarçando, aproximou-se do local onde Harry e Rony conversavam. Ocultando-se atrás de uma pilastra, ela escutou, atenta:
-Então é isso, Harry... Eu amo a Mione...
-Não posso dizer que é inacreditável porque já me passou pela cabeça que podia existir algo entre vocês dois...
-Acredito que ela também sinta o mesmo por mim. Foi o que ela deu a entender numa conversa que tivemos... Parece que ela espera que eu haja, sabe?
-Então, por que não toma uma atitude?
-Não é tão fácil, Harry... Lidar com as garotas é meio assustador, sabe disso. Dá um frio na barriga, um medo de decepcionar... Falar alguma coisa errada, agir de modo errado...
-Mas se você não enfrentar tudo isso, você não conseguirá nada.
-É, eu sei...
-Precisa tomar uma atitude, Rony. Converse com ela! Abra seu coração! Você não a ama?
-Amo... Amo mais que tudo...
Clarissa sentiu um punhal invisível cortando seu coração e sufocando a garganta.
-Então! Se a ama tanto, enfrente tudo isso!
-Sim... Vou enfrentar – ele suspirou. – Vai ser difícil, mas vou enfrentar. Pela Mione, pelo amor que sinto por ela, vou enfrentar todo esse medo... Vou falar com ela hoje. Hoje a noite, depois do jantar. E espero que dê tudo certo.
-Claro que vai dar! Ela te ama, você a ama, o que poderia dar errado?
Clarissa ainda não sabia como. Mas algo ia dar errado sim...
Lewis tomava café com Frieda, nos aposentos dela. Dividindo a mesma mesa em silêncio absoluto, mãe e filho comiam como dois desconhecidos. Subitamente, Frieda comentou, com sua voz seca e fria:
-Não gostei nem um pouco do que você fez ontem, Lewis Lambert.
Lewis levantou os olhos do prato de cereal, lentamente.
-Do que você está falando?
Frieda deu um soco na mesa; Lewis sobressaltou-se.
-SABE MUITO BEM DO QUE ESTOU FALANDO! Foi proteger aquela vagabundinha chamando a diretora! Acha que eu não sei que foi você quem a chamou?
Ele engoliu em seco, assustado.
-Sim... Fui eu... Acontece que... Eu não entendo o ódio que você sente dela! Essa cisma, essa... Essa birra... Tão sem nexo, tão sem sentido! Se ao menos desse uma chance a ela, se...
-NEM PENSE NISSO!
-Mas, mamãe... Serena acha que existe algum motivo para esse ódio... Existe, mamãe? Por que você a odeia tanto? Por que não quer que nós fiquemos juntos?
-PORQUE NÃO, LEWIS! PORQUE NÃO!
-Mas...
-VOCÊS NÃO PODEM FICAR JUNTOS! NÃO PODEM FICAR JUNTOS!
Ela derrubou o prato da mesa. E, após o estrondo do vidro se despedaçando, Frieda Lambert pegou o casaco e saiu do quarto. Lewis ficou olhando para os cacos de vidro, pensando...
Será que Serena estaria certa? Haveria mesmo algum motivo para que Frieda não os quisesse juntos? Algum motivo... terrível?
E, se existisse, o que seria? O que?
Lanísia e Alone sentaram-se lado a lado, bem em frente à mesa do Professor Augusto. Assim que todos os alunos se instalaram em seus lugares, ele entrou, ajeitando o cabelo liso e parando em frente à turma. Seus olhos passaram pela turma, e se fixaram três vezes em Lanísia – justamente porque ele queria evitar olhar para ela. Assim que o silêncio se estabeleceu, Augusto pigarreou e começou a falar:
-Antes de iniciarmos a aula, tenho uma novidade para informar a vocês. Um novo aluno começa, a partir de hoje, a integrar a turma de vocês. Alunos, queiram dar as boas vindas a Juca Slooper.
Com um movimento de varinha, ele abriu a porta. A porta abriu lentamente. Joyce, sentada no fundo, cruzou os dedos; um novo aluno... Se fosse interessante, poderia ser o nome que ela jogaria na Fogueira... Será que a sorte havia sorrido para ela no momento ideal?
E, finalmente, Juca surgiu. O sorriso esperançoso de Joyce murchou instantaneamente...
Juca era um garoto magro, bem magro. Não era a forma física o grande problema. O problema era o rosto. As bochechas eram um tanto exageradas, os cabelos penteados num modo antiquado, óculos de lentes grossas e, principalmente, um ar de bobo.
Cabisbaixo, Juca parou ao lado do professor e acenou para os novos colegas.
-Conto com vocês para receberem o Juca da melhor forma possível. Espero que se dêem bem... Ah... – Augusto apontou para uma carteira vazia. – Sr. Slooper, pode ir se sentar.
Juca deu um sorriso tímido e, ainda cabisbaixo, seguiu para o seu lugar. Assim que o rapaz se acomodou, Augusto deu início a aula.
-Bom, agora começamos a nossa aula de hoje, que será, como todas as minhas aulas, uma mistura interessante de prática e teoria...
A mão de Lanísia se ergueu no ar. Augusto viu – era impossível não ver, ela estava bem na frente dele – mas procurou ignorar.
-Continuaremos tratando do assunto da última aula... Como se defender das pragas lançadas pelos inimigos...
Lanísia ergueu a outra mão, enquanto batia as pernas, entusiasmada. Augusto passou os olhos rapidamente por ela, mas, ainda assim, ignorou...
-Trouxe aqui artefatos muito interessantes que protegem contra as pragas. Alguns são até conhecidos dos trouxas. A parte prática ficará com o experimento desses artefatos. Eu lançarei uma praga para cada um de vocês, e vocês terão que se defender, utilizando os objetos... – não havia mais como ignorar... Revirando os olhos, e sem ocultar o aborrecimento, ele perguntou: – Qual é o problema, Lanísia?
-Nenhum... – ela balançou os ombros, com seu jeito de "moleca". – Eu... Só queria que você contasse a novidade para todos eles...
O coração de Augusto disparou, e um ar gelado envolveu sua garganta.
-Que... Que novidade?
Lanísia, sem se importar com a perplexidade do professor, riu, divertida.
-Ainda pergunta? Ah, professor, francamente... Está mais do que na hora de todos saberem que o senhor está amando!
Os alunos se entreolharam, confusos; Alone e Joyce olharam uma para a outra, em pânico... O que Lanísia estava fazendo?
-Amando? Eu?
-Sim! Não esconda! – ela ria. – Vamos, fale para eles quem o senhor ama, quem o senhor deseja!
Augusto ficou vermelho; atordoado, falou, firme:
-Lanísia, por favor, fique quieta...
-Por que? Só porque estou querendo falar a verdade?
-Fique quieta, eu já disse! – Augusto empurrou a própria mesa para o lado; a mesa caiu com estrépito. Agarrou o braço da garota com força e começou a puxá-la em direção a porta.
-Largue-me... Ficou louco?
-Não, nunca estive tão são... – ele olhou para a turma. – Volto em alguns minutos. Essa garota merece uma detenção...
Sem soltar o braço dela, Augusto começou a caminhar com passos decididos pelo corredor. Lanísia protestava, irritada:
-Pra que fazer tudo isso?
-Eu é que te pergunto, garota.
Ele abriu um pequeno armário de vassouras. Irritado, Augusto empurrou Lanísia para dentro; com a força, Lanísia bateu as costas na parede e soltou um grito de protesto.
-Seu maluco... Eu devia denunciá-lo a diretora...
-Cala a boca! – Augusto fechou a porta do armário com o pé. – Sua doente... Sua doida! Louca! Louca, ouviu bem? LOUCA!
Ele estava furioso e, para sua surpresa, Lanísia começou a rir.
-Do que está rindo?
-De você... Quer me colocar em detenção e veja o lugar em que me trouxe... Tão pequeno, escuro, apertado... Ideal para tudo o que não presta e que nós precisamos fazer...
Ela ria; Augusto balançou a cabeça.
-Você é doida...
-Não adianta me ofender. Sabe que não falo nenhuma mentira. Você me ama e me quer com a mesma intensidade.
-Você nunca me ouviu dizendo isso!
-Você não diz, mas ele – ela colocou a mão no meio das pernas dele e apertou – sim.
-Solta – ele tirou a mão dela com violência.
-Ele me adora... Não adianta mentir, professor, um homem não consegue esconder a excitação...
-O que você pode saber sobre isso? Uma garota, uma menina...
-Sei tudo! Tudo sobre o desejo físico, tudo sobre o amor! Não vejo nada de errado, se quer saber. Porque não só quero você como fêmea, mas também como mulher, é amor e vontade misturados...
-Lanísia... – ele suspirou. – Isso é um absurdo. Sou seu professor, você é minha aluna. Se você diz o que queria dizer na aula, eu estaria perdido...
-Eu sei... Sei que é isso que você teme. Esse amor proibido... Mas... – ela riu com vontade. – Isso não é por muito tempo.
-O que?
-Você vai se entregar de corpo e alma para mim – ela gargalhou.
Atônito, Augusto segurou o braço dela.
-O que você pretende fazer, sua doente?
-Nada... – ela fez ar de inocente. – Nada demais...
-Escute aqui, garota... – ele segurou o rosto dela com a mão, com força. – Não pense em me atrair para você usando magia, porque...
-Quem falou em magia? Você que está dizendo...
-Olha aqui! Estou falando sério! Com magia e amor não se brinca, ouviu bem? Não se brinca!
Lanísia ficou quieta; ele continuava segurando o rosto dela com a mão. Após alguns segundos, Augusto se acalmou e, respirando fundo, a soltou.
-Vamos... Vamos voltar para a sala...
-Não vou ficar em detenção?
-Não... Mas se vier com uma brincadeira ridícula daquelas outra vez, pode ter certeza que terá o pior castigo já visto nesta escola.
Batendo a cabeça na parede e ainda respirando acelerado, Augusto abriu o armário de vassouras. Lanísia saiu logo atrás. Em silêncio, eles voltaram à sala. Augusto não percebeu que o sorriso travesso de Lanísia continuava no rosto dela, cheio de triunfo e alegria.
Uma onda de calor a envolveu... Faltava pouco para a Fogueira começar...
-Você é uma louca mesmo... – comentou Joyce com Lanísia, assim que a aula terminou e as duas caminhavam pelo corredor.
-Foi apenas uma brincadeirinha... Claro que não falaria nada ali, na frente dos outros.
-Sei... Ah não... – Joyce consultava a mochila. – Esqueci meu livro lá na sala. Vou até lá buscar... Um segundo, já venho!
Joyce correu até a sala. Ia caminhando até lá quando ouviu duas vozes femininas conversando numa das salas do corredor... Eram cochichos... Curiosa, Joyce aproximou-se, disfarçando... Para sua surpresa, eram as vozes das professoras Sprout e McGonagall, num papo muito informal...
-...esse novo aluno, o Slooper... Ah, Sprout, você nem vai acreditar no que ouvi...
-O que, Minerva?
-Claro que não podemos sair por aí comentando, mas... Ele é superdotado.
Os olhos de Joyce se iluminaram e ela sorriu...
-Um superdotado... – disse ela, pasma, para si mesma.
Finalmente, havia encontrado o garoto ideal... O que tanto procurava... Aquele com o diferencial...
Juca passou pelo corredor e acenou, tímido. Discretamente, Joyce olhou para o meio de suas pernas. Erguendo as sobrancelhas, ela disse, baixinho, assim que o rapaz se afastou.
-Quem diria, hein... Ah, um superdotado... Sendo superdotado não importa mais nada! Não me importa o rosto... Hoje a noite, o superdotado será meu!
Ela correu para a sala para apanhar seu livro. Não ficou a tempo de escutar a Professora McGonagall concluir seus cochichos:
-Superdotado... Parece que o Q.I. dele é elevadíssimo. Muito inteligente. Muito talentoso.
Joyce havia colocado o grande talento no lugar errado...
A noite finalmente chegou. As garotas, reunidas num círculo na sala comunal, combinavam os últimos detalhes, em voz baixa.
-Na hora do jantar, quando todos estiverem comendo, nós saímos – dizia Joyce. – Chegamos até um ponto da Floresta Proibida. Hermione cria uma neblina para nos proteger e a Fogueira é armada.
-Tão simples e tão perfeito – comentou Serena.
-Mesmo assim precisamos de cuidado – alertou Hermione. – Muito cuidado. Esse será o nosso maior segredo. Se alguém descobrir... Estamos perdidas.
-Ninguém vai descobrir – disse Serena. – Você parece o Lewis. Tão pessimista.
-E você, Joyce, vai jogar mesmo o nome do novato no fogo? – perguntou Alone.
-Sim, claro! Depois que eu descobri a potência que ele tem... – ela fingiu um calafrio.
-Garotas, eu estou com um pouco de dor de cabeça... – disse Clarissa, levantando-se e esfregando as têmporas. – Será que posso ficar um tempo sozinha antes de irmos?
-Claro, só vamos daqui a meia hora, mais ou menos – falou Joyce. – Chamamos você, não se preocupe, Encalhada.
-Obrigada... – ela sorriu e subiu.
Chegando no dormitório vazio, Clarissa abandonou a encenação. Decidida, sentou-se na cama e apanhou uma foto de Rony Weasley que guardava escondida sob o colchão. Olhando a foto, e com lágrimas se formando nos olhos, Clarissa disse:
-O que posso fazer? O que? Como evitar o inevitável?
Uma lágrima atingiu o rosto de Rony, que sorria na foto, mexendo a cabeça.
-Se eu troco o nome no papel dela, outro rapaz se apaixona... Mas, mesmo assim, Rony vai até ela hoje a noite. Ele vai se declarar e, de uma forma ou de outra, eles vão terminar juntos...
Apanhando um batom, Clarissa desenhou um coração ao redor da foto. O Rony da foto olhou, curioso...
-Você não pode ser meu, mas também não vai ser de mais ninguém... Como matar você? Como? Como manipular Draco Malfoy para eliminá-lo de uma vez por todas?
E a idéia veio... Vinda das profundezas malignas de seu ser... Nos poços de lava do seu cérebro... No canto de sua alma mais perverso...
As palavras que ela mesma havia dito mais cedo... Sobre o que ocorreria se ela jogasse o nome de Rony no fogo e não o correspondesse...
"...se não me entregasse, ia ocorrer uma tragédia, porque ele ia me amar e não seria correspondido...".
-Draco Malfoy... Se ela jogar o nome de Draco, ele não será correspondido...
"E, mesmo assim, lá estaria ele, me amando, e não sendo correspondido, me amando, e não sendo correspondido... Ele ia enlouquecer, poderia até me matar, ou matar alguém que começasse a namorar comigo, porque a magia dessa Fogueira é infalível... Ele não ia suportar ver-me com outra pessoa!".
-A magia dessa Fogueira é infalível... – repetiu Clarissa... e o choro deu lugar ao riso. – Ah, Clarissa, você é incrível...
Com o batom, ela começou a riscar o rosto de Rony, manchando a fotografia... Seu olhar vidrado fitava a foto, enquanto ela riscava e riscava, sua expressão doentia, enquanto ela murmurava:
-Ela joga o nome de Draco... Draco se apaixona... Draco é ignorado... E, vendo-a com você, Rony querido, ele perde o controle... Sim, ele perde, meu querido... – sua voz era a voz de uma criança; ela falava como uma desequilibrada. –E aí, ele mata você... Sim... Mata você... – ela riu, enquanto continuava riscando a fotografia. – Mata você, queridinho... Mata você...
Neste mesmo instante, na sala comunal, as garotas vibravam de ansiedade:
-Daqui a cinco minutos, saímos – disse Joyce as outras. – Daqui a cinco minutos mudamos nossas vidas. Daqui a cinco minutos, a Fogueira das Paixões será realizada...
Elas não podiam imaginar que dali a cinco minutos não só a vida de Hermione começaria a virar um pesadelo, mas sim a de todas. A vida delas mudaria, mas não para melhor...
Mudaria para pior...
Aquela seria uma fogueira da ilusão.
E as faíscas daquele fogo seriam terríveis...
NA: Agradeço mais uma vez os comentários e estou muito feliz por vocês estarem curtindo. Em breve, o capítulo 4, com a tão esperada Fogueira... Aguardem! e reviews, por favor hehehe
