CAPÍTULO 4

A Fogueira

-Clarissa, vamos!

A voz de Joyce e a abertura da porta a pegaram de surpresa. Clarissa encolheu-se, amassou a foto e a guardou dentro do bolso, enquanto enxugava as lágrimas rapidamente, dizendo:

-Já estou indo... Já estou indo.

Ela esqueceu-se do batom, que rolou sobre a cama e caiu no chão. Joyce, com a testa franzida, percebeu que havia alguma coisa errada. Abaixando-se e apanhando o batom, fixou o olhar na amiga, que tentava ocultar o rosto.

-Aconteceu alguma coisa?

-Não, nada... – Clarissa falou, forçando uma risada. – Está tudo bem, eu...

-Clarissa! – Joyce a segurou pelos ombros e a forçou a virar-se. A expressão de Clarissa não mentia; seus olhos claros estavam inchados e úmidos, sua boca revelava um sorriso claramente falso... – Você estava chorando, minha amiga!

-Não...

-Estava, estava sim... Mas o que aconteceu?

-Nada, nada... – Clarissa tentava se desvencilhar da amiga, que ainda a segurava pelos ombros.

-Vamos, diga-me... Sou a líder do grupo, preciso saber quando existe algo de errado com uma Encalhada...

-Então, pode ficar sossegada! Não há nada errado comigo.

-Se não tem, por que você...

-Porque eu estou emocionada com o grande passo que daremos hoje. Muito, muito emocionada. Finalmente alcançamos o nosso objetivo! Ou você não consegue ver o quanto essa noite é importante?

-Claro que sim – Joyce sorriu. – Será um passo decisivo. A conclusão de nossos planos, de todas as nossas reuniões...

-Então! É normal se emocionar, não é?

-Talvez sim... Talvez você, a Mione... Todas vocês, mas é que... Você sabe, o meu caso é um pouco diferente do caso de vocês. Eu o conheci hoje mesmo, e não é muito por amor que estou fazendo isso. Não é por amor que o selecionei, nem por amor que vou jogar o nome dele na fogueira. É pelo desejo, desejo carnal, de pele, de mulher... Mas, claro, que pode evoluir para uma paixão.

-Assim, o desejo não leva a emoção da mesma forma que o amor...

-Exato. É por isso que acho que sou a única que não tem razão alguma para se emocionar essa noite. A não ser, é claro, emoção por todo o esforço ter finalmente valido a pena, depois de tantos micos, roupas jogadas num cabide em um jogo de baralho, ataques diretos aos meninos e pernas abertas sem calcinha...

Um sorriso genuíno brotou dos lábios de Clarissa.

-Isso! Sorria! – exclamou Joyce. – Hummm... Um sorriso enigmático esse... Acho que nunca vi um igual antes... Nem quero imaginar o que você está pensando... Deve ser algo bem quente com o garoto que você ama!

-Mais ou menos... – respondeu Clarissa. – É algo quente sim, tão quente que chegará a ferir...

-Nossa – Joyce fingiu um calafrio. – Agora, vamos, que as garotas só estão nos esperando para sair...

-Sim, vamos... Só um momentinho... – Clarissa apanhou uma capa, a sua capa especial, carregada com alguns vidros de poções e alguns produtos de beleza. Ela pegou na mão da amiga e, juntas, elas saíram do dormitório. Antes de chegarem ao salão comunal, Clarissa comentou, com o mesmo sorriso. – Sabe, Joyce, é melhor você nem saber o que eu estou pensando... É monstruoso e fatal.

-Ah, a palavra fatal sugere tantas coisas quentes... – Joyce se abanou.

-Será que eu ouvi alguém falando "quente"? – perguntou Lanísia.

-Sim, claro que ouviu – disse Joyce. – Essa será uma noite quente, as conseqüências serão quentes... Tudo será quente...

-Não temos tempo a perder – apressou Alone. – Daqui a pouco termina o jantar e ainda estamos aqui... Hermione, pegou os papéis?

-Sim, vários. Mais do que o necessário.

-Ótimo – falou Joyce. – Meninas, coloquem suas capas. Hermione, a sua varinha será essencial para criar a neblina, já está com ela?

-Sim.

-Perfeito... Então, chegou a hora, meninas!

Joyce olhou para os rostos de Hermione, Alone, Serena, Clarissa e Lanísia. Respirando fundo, e com uma forte emoção dentro do peito, Joyce falou:

-Chegou o momento, garotas. A partir dessa noite, uma revolução acontece em nossas vidas. Vamos aprisionar os corações daqueles que amamos. Enlaçá-los com o poder do fogo. Vamos armar a nossa Fogueira das Paixões!

E assim, sorridentes, as meninas saíram do salão comunal, em fila.

Como o esperado, todos estavam no Salão Principal, de modo que não havia ninguém nos corredores. Enfileiradas, elas desceram a escadaria de mármore, atentas, com rapidez. Subitamente, tão subitamente que pegou todas de surpresa, Alone, que seguia na frente, estancou. As garotas trombaram umas nas outras. Elas iam começar a protestar quando Alone fez um movimento com a mão pedindo silêncio, movimento feito sem olhar para elas, sem olhar para trás.

O olhar dela estava fixo em algo que estava em frente. Mais precisamente no Saguão de Entrada.

Intrigadas, as meninas esticaram os pescoços para verem do que se tratava, do que havia causado aquela expressão de choque no rosto de Alone. E se surpreenderam ao ver que eram Harry Potter e Colin Creevey, a sós, conversando animadamente.


Sozinho no Salão Principal, Rony mexia e remexia a colher no prato de cereal. Sabia o que precisava fazer, o que tinha que fazer. Uma onda de medo envolvia todo o seu ser, mas ele estava disposto a enfrentar o temor. De qualquer forma ia se declarar a Hermione naquela noite.

Alguém pigarreou ao seu lado. Rony virou-se. Era Juca Slooper, o novato, que sorriu timidamente para ele, enquanto ajeitava os óculos.

-Você é o Juca Slooper, não é? – perguntou Rony, sorrindo.

-Sim – respondeu Juca. – E você é Rony Weasley. O goleiro. É muito famoso aqui na escola.

-Obrigado – agradeceu Rony, sem entusiasmo; em uma noite normal aquilo teria sido um baita elogio, mas nessa noite não teve importância.

-Desculpe me intrometer, mas... Acho que você está com problemas.

Rony hesitou antes de confirmar.

-Sim, Juca, você está certo. Estou sim com um problema... Na verdade não é bem um problema... É... Digamos... Expectativa.

-Algo no campo amoroso?

-Sim – Rony olhou-o admirado; o garoto era certeiro em suas impressões. – Como descobriu? Já esteve muitas vezes envolvido em problemas amorosos?

-Ah, não... – Juca balançou a cabeça. – As garotas não gostam de mim...

-Como assim?

-Porque eu não sou atraente... Não estou no padrão de beleza que elas buscam, não sou popular, não jogo quadribol e, principalmente, dizem que sou inteligente. Ou seja... – ele levantou os olhos para Rony. – Para elas eu sou um nada.

Ele baixou a cabeça; Rony viu as bochechas do garoto se tingirem de vermelho, um claro sinal de vergonha e constrangimento. Aquela imagem evocou na mente dele a imagem de Hermione, na outra noite, na biblioteca. Igualmente inteligente, igualmente frustrada no campo amoroso.

-Juca... Não pense assim. Às vezes existe alguma delas que goste de você e você nem saiba...

-Não... Não tem. Ninguém quer o CDF, o nerd... Ninguém. Sabe, eu penso que tenho muita coisa boa dentro de mim, que poderia fazer uma garota feliz. Mas, não adianta. Não tem como mostrar o conteúdo se elas já julgam e me dispensam pela embalagem...

-Não pense assim, cara. Uma hora vai aparecer uma que gostará de você de verdade, uma que vai derrubar todas essas idéias malucas da sua cabeça. Você vai ver, ela ainda vai aparecer.

-Tomara...

-Droga, o Harry está demorando... Juca, me desculpe, mas preciso ir. Está na hora de fazer algo muito importante.

Rony limpou a boca com o guardanapo, vestiu a capa e, sorrindo, concluiu:

-Vou me declarar ao amor da minha vida.

Ele saiu correndo, em direção ao mesmíssimo Saguão de Entrada onde as garotas se encontravam... Entre elas, Hermione. E Clarissa.


-Qual o problema, Alone? – cochichou Serena, sem compreender.

Alone continuava olhando para os dois garotos. Um calafrio percorreu seu corpo, e ela se encolheu, ajeitando a capa.

-Nada... – murmurou, intrigada. – Eu... Simplesmente não sei...

-Ah deve ser emoção por saber que muito em breve o Potter será seu – sugeriu Lanísia. – Agora, anda, por favor, antes que o saguão fique entupido...

-Também acho – concordou Clarissa – além do mais, não temos tempo a perder e... – ela se interrompeu.

Naquele segundo, o seu coração ficou gelado. Um medo imenso sufocou a sua garganta. Seus olhos se arregalaram. Todo o sangue se esvaiu do seu rosto.

Através das portas do Salão Principal, surgia Rony Weasley.

Sorrindo.

Olhando...

Para Hermione.

Para se declarar.

E pôr tudo a perder...


Clarissa não tinha tempo para pensar... Mas precisava agir... E assim, sem tempo para planejar, fez a primeira coisa que lhe surgiu na cabeça...

-Uau... Não posso acreditar! – exclamou, exagerada, para um ponto qualquer do Saguão.

-O que? – perguntaram as garotas, confusas.

Em desespero, olhando para Rony com o canto do olho, Clarissa disparou no restante dos degraus, e, ignorando as garotas que a chamavam, chegou ao Saguão e entrou apressada no corredor que levava as masmorras.

As meninas a seguiram, sem compreender. Na pressa, Hermione não viu Rony, que parou subitamente de caminhar ao ver as jovens correndo. Alone passou bem perto de Harry e Colin; sorriu para Harry quando passou, e deu uma piscadela para o amigo. Em seguida, ela e as outras meninas entraram no mesmo corredor em que Clarissa havia entrado.

Desnorteado, Rony observou-as sumir pela passagem. Coçando a cabeça, Rony se aproximou de Harry e Colin.

-O que será que aconteceu? – perguntou.

-Não faço a menor idéia – respondeu Harry. – Mas... Você estava atrás da Mione para... Resolver aquele assunto?

-Sim... Era isso...

-Então não perca tempo, Rony! – disse Harry, exaltado. – Aproveite que está com essa coragem e corra atrás da Hermione!

-Mas...

-Sem "mas"! Entre nesse corredor e a alcance! Não perca mais tempo!

-Certo... Você tem razão – balançando a cabeça, Rony respirou fundo e, correndo, entrou no corredor das masmorras, com o coração disparado de emoção.

Ele sabia que Harry estava certo... Aquela era a hora... E, ele não sabia muito bem porque, mas algo dentro dele lhe dizia que, realmente, aquele era o momento ideal.

Precisava alcançar Hermione...


-Clarissa! Clarissa!

As garotas procuravam a amiga, que havia desaparecido de vista; não se ouviam mais os seus passos apressados, nem seus gritos histéricos.

-Droga! – bufou Serena. – Isso vai acabar atrapalhando tudo! Daqui a pouco não teremos mais tempo de amarmos a Fogueira essa noite...

-Não diga uma coisa dessas – retorquiu Joyce. – A Fogueira foi marcada para hoje, e vai ser armada hoje...

-Sem uma Encalhada? – indagou Alone

-Não! – falou Joyce. – Uma Encalhada nunca deixa a outra na mão! Mas daqui a pouco a Clarissa aparece... Só não sei o porque daquele desespero todo...

-Talvez ela tenha visto o "rapaz misterioso" que ela tanto ama – sugeriu Hermione.

Clarissa ouvia tudo isso. Havia se escondido em um dos corredores; as garotas já haviam passado por ela. Ela precisava se esconder ali por algum tempo; se Rony as seguisse, ela tinha que estar preparada para interrompê-lo antes que ele chegasse em Hermione.

Passos.

Alguém corria no corredor; Clarissa sentiu o coração disparar. Era ele. Precisava impedi-lo. E, mais uma vez, pensar em alguma coisa rapidamente, antes que fosse tarde demais...

-O que eu posso fazer... o que eu posso fazer... – murmurava baixinho para si mesma, enquanto batia os pés, impaciente. Até que parou o movimento contínuo, quando uma idéia luminosa lhe surgiu. Ela tocou um dos bolsos de sua capa especial e sorriu. – A Poção da Inconsciência...

Rápida, Clarissa tirou um lenço do bolso, apanhou um frasco de dentro da capa e o abriu... Abriu a tampa... Os passos de Rony estavam bem próximos... Ela virou o frasco sobre o lenço... O líquido caiu no lenço, manchando-o de verde... Rony estava bem perto... Estava chegando...

Ele chegou ao corredor. Não havia mais tempo. Aflita, Clarissa correu para trás de uma pilastra. Aguardou... E, no momento em que Rony passou em frente à pilastra, Clarissa o puxou, o agarrou pelas costas e grudou o lenço no nariz dele.

Ela segurou o lenço com força, enquanto Rony se debatia e forçava a cabeça para trás. Antes que ele pudesse ver quem fazia aquilo, a Poção da Inconsciência fez efeito e Rony desmaiou, perdendo os sentidos.

Clarissa, ofegante, guardou o lenço no bolso da veste, juntamente com o frasco da poção. Em seguida, segurou o corpo de Rony pelas axilas e o arrastou para um canto escuro do corredor. Com lágrimas nos olhos, ela se agachou ao lado do amado, colocando a mão no rosto dele e o acariciando de leve.

-É o preço que você precisa pagar por invadir meu coração. Eu não posso deixar você e ela juntos... Não posso...

Trêmula e ainda chorando, Clarissa fechou os olhos; morrendo de vergonha pelo que ia fazer, e temendo profundamente que alguém a pegasse em flagrante em um gesto tão obsceno, ela aproximou o rosto do rosto de Rony e o beijou nos lábios. Após alguns segundos, ela se afastou. Secando as lágrimas e ajeitando a capa, Clarissa preparou-se para aparecer para as garotas, mas, antes que saísse, olhando para o corpo inerte de Rony, falou, no seu tom doentio, cruel...

-Está na hora da sua Hermione lançar o nome de Draco Malfoy na Fogueira. Depois disso, aí sim, você pode se declarar para ela. Porque, meu amor, depois disso, ele não vai lhe deixar em paz.

Rindo, satisfeita, Clarissa começou a gritar pelas garotas...


As Encalhadas procuravam a amiga quando ouviram os gritos:

-Meninas! Meninas!

-Escutem! – exclamou Joyce, aliviada. – É ela! Finalmente!

-Vamos, os gritos vem desse lado – apontou Hermione.

As garotas seguiram o chamado de Clarissa. Encontraram-na ao dobrarem um dos corredores. Ela sorriu para as amigas, que a olhavam com expressões de revolta.

-Gente... Mas pra que tanta raiva? – perguntou Clarissa, sorrindo.

-Ainda pergunta? – disse Joyce. – Você sai correndo do nada, não nos explica, atrasa os nossos planos e ainda acha que não temos motivo suficiente para ficarmos com raiva?

-Calma, relaxem...

-Será que pode nos dizer o motivo daquela correria? – indagou Lanísia.

-Ah, é que eu vi o rapaz que eu amo entrando no corredor... Aí corri atrás dele. Vocês sabem, a Fogueira será ótima, perfeita, mas seria muito bom conquistá-lo antes dela. Não sei, soaria diferente. Seria uma conquista minha mesmo, sabem...

-Certo, não vamos começar novas discussões a respeito da Fogueira – interrompeu Joyce. – O que está decidido está decidido e ponto final.

-Com certeza – apoiou Serena. – Vamos logo!

-Uma segurando no braço da outra – disse Hermione. Quando Joyce a olhou franzindo a testa, ela explicou. – Para evitar novas fugas.

Assim, de braços dados, as Encalhadas saíram dos corredores. Ao chegarem ao Saguão de Entrada suspiraram de alívio, ao verem que o local estava deserto, exceto por Neville Longbottom, que conversava com Dino Thomas. Com sorrisos nos rostos, as Encalhadas cruzaram as portas de entrada do castelo.

Com satisfação, elas sentiram o ar noturno as envolver. A noite estava perfeita; o céu estava um pouco claro, graças à lua cheia que enfeitava a imensidão azul. Não havia muitas nuvens no céu, de modo que as estrelas brilhavam, minúsculas espectadoras da Fogueira que em breve seria armada. Sem perderem tempo, as garotas atravessaram os jardins, indo na direção da Floresta Proibida.

-Aff, até o nome do local em que vamos armar essa Fogueira tem a palavra "proibida" no meio... – comentou Serena.

-É, parece que é só para lembrar o quanto estamos fugindo das regras – disse Hermione, um tanto decepcionada com si própria.

-Quem diria, não é mesmo, Hermione, que você um dia estaria brincando com a magia? – perguntou Alone.

-Nem me fale... Mas, se vocês querem saber, isso não está me incomodando. Não sei explicar... É como se a vontade que eu tenho em conquistar o Rony jogasse a razão pra longe. Não sei, meninas, se vou me arrepender depois, mas, no momento, estou decidida a participar mesmo.

-Razão... Não existe razão quando o amor está no meio... – comentou Joyce.

-Principalmente quando existe desejo – palpitou Lanísia. – A razão desaparece, cometem-se loucuras e só depois se vêem as conseqüências.

-Não sei não, acho que o amor é o mais perigoso – disse Alone. – Amor é um sentimento grandioso, enquanto o desejo não. Não se livra tão facilmente de uma paixão como se livra do desejo. O amor é maior que o desejo. Apesar de ser lindo, é o sentimento mais perigoso do mundo.

-O desejo faz com que você comenta erros momentâneos, por impulso. O amor, não. Por amor você destrói, por amor você enlouquece, por amor você mata – disse Joyce.

-É um sentimento mais perigoso do que o ódio – falou Alone.

-Nossa! – exclamou Mione, espantada.

-Mas é claro que é! – insistiu Alone. – O ódio eu controlo, o amor não. Só se o ódio estiver entrelaçado com o amor, assim como o desejo. Porque adicionados com o amor, os dois sentimentos ganham uma intensidade monstruosa.

-Ódio e amor... – murmurou Clarissa, seus olhos claros fitando a lua. – Uma mistura interessante...

-Você está louca? – perguntou Joyce. – Nem quero imaginar o que isso pode criar...

Clarissa pensou: você está certa. Nunca queira saber. Ninguém podia imaginar o quanto ela sofria por amar e odiar ao mesmo tempo. Era uma mistura complexa que a fazia murmurar: "eu te amo", e em seguida pensar "eu te odeio"; e que a fazia desejar a morte dele, única solução para destruir essa mistura de ódio e paixão.

-Algum problema, Clarissa? – perguntou Hermione, tomando a mão dela. – Seus olhos estão úmidos...

Ela olhou para Mione, com tristeza; como ela lamentava ter que fazer tudo aquilo... Mas, se ela desabafasse com Hermione, ela ia compreender que era necessário. Não havia outra forma... Precisava ser assim... Com os olhos molhados e a voz fraca, Clarissa sorriu para a amiga.

-Nenhum problema... Estou emocionada, só isso...

-A Clarissa anda se emocionando demais essa noite – comentou Joyce.

-Vejam! – falou Clarissa, procurando mudar de assunto. Ela apontou para o amontoado de árvores a poucos metros de distância. – Já estamos chegando.

Elas se aproximaram da Floresta. As árvores se balançavam devido ao vento; o ruído familiar dos grilos tomava conta do ambiente. Ainda de mãos dadas, as garotas não pararam de caminhar e entraram na Floresta.

Elas suspiraram, ansiosas. Faltava pouco, muito pouco... Afastando galhos, desviando-se de troncos e pulando pequenos obstáculos, elas avançaram, a procura de uma clareira.

-Ai, será que vamos encontrar um lugar ideal? – perguntou Serena, esfregando as mãos.

-Temos que encontrar – disse Hermione, afastando um galho incômodo que estava bem em sua direção. Ela gargalhou. – Ah! Já encontramos!

Descendo um pedaço de morro se abria uma clareira. Espaçosa. Sem obstáculos. O lugar ideal.

-Yes! – comemorou Serena.

-É aqui! – disse Joyce, descendo o morro e parando na clareira. Ela vislumbrou o local, admirada. – É aqui, nesse lugar, que vai ocorrer o evento mais importante de nossas vidas!

-Não vamos perder tempo – falou Clarissa. – Vamos dar início a Fogueira das Paixões!

-Isso! – concordou Joyce. – Mas, primeiro... Hermione, a neblina.

Mione balançou a cabeça. Puxou a varinha do bolso das vestes e, com prazer, com um imenso sorriso, bradou o encantamento. No mesmo instante, uma neblina intensa envolveu os limites da clareira, refugiando-as num casulo branco e invisível para quem estivesse de fora. Admiradas, as Encalhadas se entreolharam. Era muita emoção. Os corações pulavam.

-É agora – disse Joyce. Ela apanhou um rascunho com todos os procedimentos necessários para a realização da Fogueira. – O primeiro passo... As tochas. Podemos procurar pedaços de madeira, ou...

-Eu posso conjurar – falou Mione, num "momento eu me acho" nada discreto.

E, com movimentos de varinha, Hermione conjurou seis pedaços de madeira. As jovens se aproximaram do amontoado e apanharam uma para cada uma.

-Mione, faça um novo amontoado de madeira no centro da clareira – disse Joyce.

Hermione fez o que a líder do grupo pediu. Em seguida, Joyce apontou a varinha para a madeira. As labaredas de fogo surgiram instantaneamente, potentes, brilhantes, calorosas.

-Perfeito – falou Joyce, guardando a varinha. – Meninas, coloquem fogo na ponta dos pedaços de madeira que vocês têm em mãos.

Elas fizeram conforme Joyce pediu; em segundos, Serena, Hermione, Clarissa, Alone, Lanísia e Joyce seguravam suas tochas.

-Agora, vamos começar o ritual – falou Joyce. – Cada uma de vocês leu sobre como proceder, correto? – elas confirmaram. – Ótimo, então... – Joyce ergueu sua tocha no ar. – Vamos!

Concentradas, as garotas ergueram suas tochas bem alto e, uma atrás da outra, começaram a rodear a fogueira, que ardia no centro da clareira. Juntas, elas iniciaram o cântico...

-Amor, amor! Fogo devastador me entregue o meu amor!

Sem parar de cantar essa mesma frase, elas iniciaram o arremesso das tochas, em ordem; Joyce foi a primeira a jogar; as chamas lamberam a tocha, e a madeira estalou. Em seguida, Hermione, de olhos arregalados, jogou a tocha. Logo em seguida, foi a vez de Lanísia, depois Alone, Serena e, por último, Clarissa, todas elas sempre cantando...

-Amor, amor! Fogo devastador me entregue o meu amor!

Todas já haviam arremessado suas tochas; o cântico foi interrompido e, num coro, elas gritaram, ao sinal de Joyce:

-CORAÇÃO!

Ansiosas, elas observaram a fogueira; era o momento de ver se tudo aquilo estava surtindo efeito. Não deu outra; as chamas se movimentaram e, de maneira extraordinária, tomaram a forma de um imenso coração de fogo.

-Está dando certo! – falou Joyce, animada. – Agora, os papéis! Está na hora de jogarmos os nomes dos garotos!

Elas tiraram os papéis que traziam nos bolsos. Pegando as respectivas penas, cada uma delas escreveu no papel o nome do pretendente.

Serena, tentando conter a emoção, escreveu: Lewis Lambert.

Alone, apressada, escreveu de uma só vez: Harry Potter.

Joyce sentiu uma comichão no meio das pernas quando deslizou a pena pelo papel e escreveu: Juca Slooper.

Lanísia não conteve um sorriso ao escrever: Augusto Welch.

Hermione fechou os olhos, tomou fôlego e escreveu: Rony Weasley.

Clarissa, cautelosa, após verificar que nenhuma delas estava olhando, colocou no papel: Draco Malfoy.

-Prontas? – perguntou Joyce.

-Esperem! – gritou Clarissa, com os olhos arregalados. – Não sei, pode ser apenas impressão, mas... Acho que ouvi alguma coisa...

-Alguma coisa? – perguntou Serena, apavorada. – Alguém se aproximando?

-Pode ser, não sei... – disse Clarissa, confusa.

-De que lado veio? – indagou Mione.

-Acredito que veio dali – ela apontou um canto afastado. Como esperava, todas as garotas se encaminharam para o limite da neblina mágica apontado por ela.

Assim que todas deram as costas, Clarissa, com as mãos postas às costas, trocou o papel com o nome de Rony pelo papel que trazia o nome de Draco, guardando o de Rony dentro do bolso.

-Aonde? – indagou Joyce, virando-se para ela.

-Ah, aí mesmo – confirmou Clarissa.

Quando a líder do grupo se juntou as outras novamente, na busca do "ruído", Clarissa tirou um papel limpo do bolso, o dobrou e o colocou no mesmo lugar onde antes estivera o seu papel com o nome de Draco. Em seguida, colocou as mãos à frente novamente, cruzando os braços e fingindo curiosidade diante da busca das amigas.

-Encontraram?

-Não, nada – falou Alone. – Acho que foi impressão sua.

-Então vamos voltar a Fogueira, meninas, o mais rápido possível – incentivou Clarissa. – Estamos levando muito tempo com isso, precisamos terminar o quanto antes!

-Tem razão, Clarissa – disse Joyce. – Peguem logo os papéis dobrados e vamos ao ritual, meninas!

Cada uma seguiu para o lugar onde haviam deixado os papéis. Clarissa pegou o seu em branco, enquanto fitava Hermione; ela suspirou, aliviada, quando viu que a garota pegou o papel dobrado sem abri-lo, correndo em seguida para a Fogueira.

-Vamos lá, agora, vamos jogar os papéis no fogo! – exclamou Joyce, arremessando o seu papel.

No mesmo instante em que o papel caiu no meio do fogo, uma fumaça cheia de pequeninos corações brilhantes, multicoloridos, começou a subir e a enfeitar o ar. Assim que os corações coloridos diminuíram, Serena arremessou o nome de Lewis na Fogueira, provocando uma nova fumaça de corações. Lanísia fez o mesmo, assim como Alone. Chegou a vez de Hermione.

Suspirando, fitando o belo espetáculo das chamas, que ardiam, potentes, Hermione jogou o papel no fogo.

Clarissa acompanhou o movimento do papel; aquele era um momento muito importante. O papel caiu, certeiro, dentro da Fogueira. As chamas estalaram fortemente, e, em seguida, a fumaça mágica subiu; os corações coloridos brilhavam com força total...

Clarissa sorriu, fascinada, sem tirar os olhos dos corações, que subiam no ar com a fumaça...

Hermione Granger havia jogado o nome de Draco Malfoy nas labaredas indomáveis da Fogueira das Paixões.


Rony Weasley despertou. Esfregando os olhos, e sentindo uma forte dor de cabeça, Rony levantou-se, apoiando-se na parede do corredor.

Um vulto o segurando e o fazendo respirar um líquido num pedaço de pano. Era só o que ele conseguia se lembrar. Talvez uma brincadeira sem graça... Quem saberia dizer?

Quanto tempo teria ficado ali, dormindo? Será que a noite já havia passado, já era dia e... Ah, não... Será que a grande noite havia terminado? A noite em que finalmente ia se declarar a Hermione?

-Não... Não pode ser...

Ele começou a correr, aflito. Finalmente conseguiu sair da escuridão daqueles corredores e, ao parar no Saguão de Entrada constatou, aliviado, que ainda era noite. Havia poucas pessoas paradas no Saguão; Rony se encaminhou para uma delas, Neville Longbottom, e perguntou por Hermione.

-Eu a vi saindo do castelo com outras meninas – falou Longbottom em tom de cumplicidade. – Talvez foram passear por aí...

-E não voltaram?

-Ainda não.

-Obrigado, Neville – ele deu um tapinha no ombro do colega e correu para fora do castelo.

Rony parou no meio dos jardins. Olhava para todos os lados. Onde Hermione e as outras meninas teriam ido? Tudo bem que após a derrota de Voldemort durante o verão, as coisas não andavam mais tão perigosas, mas não era loucura sair caminhando a esmo pela escuridão dos jardins?

Ele olhou para a Floresta Proibida. Assim que seus olhos encontraram a Floresta, ele obteve a resposta.

Que neblina era aquela pairando em algum ponto da Floresta? Aquela arte só o fazia se lembrar de um nome: Hermione.

Sorrindo, com a sensação de que finalmente ia dar tudo certo, Rony começou a correr em direção a Floresta Proibida.


-Clarissa! Pare de admirar o fogo! Jogue o seu papel!

O grito de Joyce a tirou de seu devaneio triunfal. Clarissa pegou o papel em branco do bolso, tendo o cuidado de desdobrá-lo antes de jogar no fogo, para se certificar de que era ele mesmo. Após ter a certeza de que era aquele, Clarissa, ainda sorrindo, arremessou o papel na Fogueira.

Não houve fumaça pontilhada de corações, mas, antes que alguma das garotas pudesse dizer alguma coisa, Clarissa falou:

-O encerramento!

Elas deram-se as mãos, e começaram a rodear a Fogueira. As chamas estavam altas, brilhantes. Elas começaram a cantar o cântico final:

-Amor, amor! Obrigado a Fogueira por entregar o meu amor!

Assim que terminaram, as mãos se soltaram e elas deram as costas para o fogo. E, como o esperado, a fogueira deu um estalo forte; o estalo final.

Estava feito. O ritual terminara. A Fogueira das Paixões fora realizada com sucesso.

-Conseguimos! – Joyce estava boquiaberta. – CONSEGUIMOS!

Elas começaram a se abraçar, animadas. Todas sorriam, cheias de entusiasmo. Após tantas reuniões, finalmente um plano havia dado certo.

-Nós somos o máximo! – falou Joyce. – E, como é que se diz mesmo, hein, meninas?

Em coro, elas gritaram:

-ENCALHADAS, ENCALHADAS, TÃO LINDAS E APAIXONADAS!

Elas gargalharam, satisfeitas.

-Agora acho melhor voltarmos para o castelo – disse Lanísia. – Antes que percebam que não estamos por lá.

-Apoiada – falou Serena.

-Então, vamos – comandou Joyce. – Ah, e se preparem, para amanhã vermos os excelentes resultados!

-Não vejo a hora – disse Lanísia. – Meu professor vai virar um tigrão... Feroz... Dominador... Ui... – ela riu.

-Vamos, meninas – chamou Serena, já subindo o pequeno morro.

Elas começaram a sair da clareira. Mione ia saindo também, quando se lembrou da neblina.

-Preciso dissipá-la – explicou as garotas. – Senão fica assim durante alguns dias, e, cá entre nós, não será considerado como algo normal uma neblina sem fim, justamente cobrindo apenas a clareira.

-Certo – falou Joyce. – Mione, apague a Fogueira também, acho melhor. Nós esperamos aqui em cima.

Mione sorriu e voltou-se para a clareira, onde a Fogueira ainda queimava. Com um movimento de varinha, ela dissipou a neblina mágica.

Quando ela se virou para apagar o fogo, tomou um susto.

Seu coração saltou.

Uma sensação muito boa e intensa a fez respirar mais rapidamente.

Um friozinho na barriga que contrastava com o calor do ambiente.

Do outro lado da Fogueira, por entre as chamas, ela o via. Ele. Rony.

Mione ficou ali, estática, o olhando. Rony fez o mesmo; cravou os olhos nela, como que hipnotizado. A Fogueira ardia entre os dois, os separando; as labaredas altivas, amarelas, brilhantes. E entre o fogo, os dois se olhavam, sem tirarem os olhos um do outro.

Lentamente, Rony começou a caminhar ao encontro da amada. Hermione acompanhava o movimento dele, sempre o divisando entre as chamas, enquanto seu íntimo se enchia cada vez mais daquele friozinho gostoso, daquela sensação surreal.

Rony aproximou-se lentamente. Assim que chegou bem perto de Hermione, ele a tomou pela mão e deu um beijo rápido na mão dela. Mione suspirou, sempre o olhando no rosto.

Ao lado deles, a Fogueira ardia, mandando para eles o calor das chamas.

Rony ia começar a falar, mas Mione o calou, levando um dedo a frente dos lábios dele. Não precisava de palavras; ela já entendera tudo; aquele olhar, o modo como ele a beijara na mão, já traduzira tudo o que ele queria dizer.

E ela tinha a consciência de que aquilo era o certo; aquele era o efeito da Fogueira das Paixões.

Eles juntaram as mãos. Mione olhou rapidamente para o fogo que ardia, e deu um sorrisinho, agradecida; o fogo havia realizado o maior de seus sonhos.

Assim que voltou o olhar para Rony, ela viu o quão próximo o rosto dele estava do rosto dela. Hermione o viu aproximar-se mais e mais; ela fechou os olhos, assim como ele, se entregando aquele momento, aquele sonho vívido, que ficaria marcado na vida dos dois para sempre.

Os lábios se encontraram e eles se entregaram a um beijo apaixonado. A temperatura dos corpos se elevou, deixando-os tão quentes quanto as chamas que ardiam ao lado deles.

Mione registrava cada sensação; o quanto os lábios de Rony eram macios; como a língua dele deslizava suavemente em sua boca; como as mãos dele apertavam as dela com firmeza. Era tudo fora de série, fantástico.

Do alto do morro, as Encalhadas observavam, satisfeitas, o que consideram a primeira comprovação do efeito da Fogueira das Paixões. Exceto, claro, Clarissa, que sabia muito bem que aquilo era apenas uma coincidência; e que, furiosa, não gostava nada daquela coincidência...


Todos eles voltaram juntos para o castelo, Rony e Hermione um pouco mais atrás, abraçados, rindo e conversando, como um feliz casal de namorados.

Joyce olhou para trás e comentou com as garotas.

-Essa Fogueira é mesmo infalível!

-Ah, é tão bom ver que está dando certo – falou Lanísia.

-E olhem como eles estão felizes – disse Serena, com uma pontada de inveja. – Ah, não vejo a hora de ficar assim com o meu Lewis...

-Calma! – falou Clarissa. – Chegará a hora de todas nós colhemos os frutos do nosso ritual!

-E que frutos... – comentou Lanísia, se abanando com a mão num modo dramático.

-Harry Potter, "o menino que sobreviveu", será que sobreviverá ao "ataque de Alone" ? – perguntou Alone, fazendo com que todas dessem boas gargalhadas.

-Veremos amanhã, nas melhores camas desse castelo – disse Lanísia.

Mais atrás, Rony e Hermione conversavam, alheios a conversa depravada das garotas.

-Imagine a cara das pessoas ao nos verem juntos! – falou Rony, rindo.

-Ficarão muito espantados... – disse Mione. – Já posso ver os olhos arregalados, as expressões de surpresa!

Rony fez uma encenação, arregalando os olhos e fazendo voz de menina espantada.

-Nããããããão! Vocês? Mas vocês não eram amigos?

Mione riu e o abraçou, ficando coladinha com ele.

Eles não podiam imaginar que eram observados.

Do alto do castelo, através de uma grande janela, uma figura os observava.

Um rapaz de cabelos loiros e de feições nada amigáveis.

Ele fechou os punhos, furioso, enquanto via Hermione caminhando com o ralé do Rony Weasley.

Ele não sabia muito bem porque, mas isso o deixava furioso...

Draco Malfoy estava confuso, só sabia de uma coisa: aquilo não era certo. Naquele momento, tinha vontade de acabar com Rony Weasley e, surpreendentemente, ter Hermione para si.


NA: Nossa, muito obrigado mesmo pelos reviews. Peço desculpas por não estar postando muito rápido, mas é que o trabalho rouba o meu tempo, e quando estou em casa também gosto de dar atenção a família, e também têm os amigos. Enfim, escrever é uma atividade prazerosa pra mim, e sempre encontro um jeito de conciliar com as outras coisas, mas, mesmo assim, acabo demorando um pouco para concluir os capítulos.

Espero que tenham gostado e, no próximo capítulo, os resultados da Fogueira das Paixões.