CAPÍTULO 7

Fraquezas e prazeres carnais

Frieda franziu a testa, observando o filho; aquilo não podia estar acontecendo. Seu Lewis querido; o filho adorado, "Lelê" nos momentos de diversão e carinho; o filho obediente, de quem ela se orgulhava muito, por sempre andar conforme as suas regras e as suas ordens, estava agora a desafiando, segurando-lhe o braço com força. E os olhos dele – Frieda engoliu em seco – oh, os olhos dele, que geralmente a fitavam com cautela, estavam vidrados, envoltos em fúria... Sim... Acredite, Frieda, as coisas mudam...

"Lelê" está furioso com você.

-Lewis... – ela ofegou, assustada. – Lewis, solte o meu braço...

-Não – ele havia baixado a voz, mas esta ainda estava carregada de fúria. – Não, enquanto você não pedir desculpas a ela.

-Lewis... – ela deu uma risadinha nervosa. – Isso só pode ser brincadeira... Isso é um absurdo! Eu sou a sua mãe, Lewis, e estou mandando, ordenando que solte o meu braço de uma vez por todas!!

Ela lançou um olhar constrangido ao redor; para seu desespero, Frieda constatou que o Salão Principal estava silencioso e que todas as atenções estavam voltadas para o que se desenrolava entre mãe-filho-e-nora – e Frieda odiava ser o centro das atenções, principalmente em situações como essa. Ela era grandiosa, sempre controlada, sempre dona da verdade; estar envolvida em escândalos era o fim para ela. Claro, caíra do salto ao voar em cima de Serena e desferir-lhe um tapa, mas, afinal, era um ser humano; os seres humanos erram e perdem o controle em situações ruins... e aquela não era somente ruim, era terrível.

Crispando os lábios e procurando manter o controle, Frieda olhou novamente para o filho:

-Lewis, por favor. Eu estou mandando, se você não me soltar, vai se arrepender e...

-Eu vou soltar, mas antes, quero que peça desculpas a Serena. A Serena, a minha namorada.

Ela ofegou; aquilo era um absurdo... Eles não podiam se amar. Aquilo era proibido... Era um absurdo o que os dois estavam fazendo...

Frieda fechou os olhos; não havia escapatória. Por mais absurdo que parecesse, ia pedir desculpas, obedecendo a uma ordem do seu próprio filho. Entre continuar passando vergonha no meio de todo o castelo e pedir desculpas à garota que tanto odiava, ficava com a segunda opção.

Ela contraiu as mãos e, baixinho, forçando a voz, disse, olhando para Serena, que a observava, ainda caída no chão:

-Desculpe.

Serena ficou boquiaberta; não pôde evitar. Aquela era uma cena que não esperava nunca visualizar; Frieda Lambert lhe pedindo desculpas, obedecendo a Lewis que, de repente, se tornara o grande apaixonado que lutava contra todos, inclusive sua mãe... O grande apaixonado com o qual ela sempre sonhou.

O tapa em seu rosto ainda ardia quando Lewis soltou o braço da mãe. Frieda massageou o braço; aparentemente, Lewis apertara um bocado. A expressão de fúria saiu do rosto dele e ele olhou com carinho para Serena, que retribuiu o sorriso.

Frieda, no entanto, não baixou o rabinho e saiu calada, como ela esperava que ia acontecer; pelo contrário, a professora avançou novamente para ela, igualmente furiosa, mas sem levantar a mão...

-Eu conheço muito bem o meu filho para saber que ele nunca agiria assim – disse ela, num tom de voz baixo, de modo que só Serena pudesse ouvir. – O que você fez para que ele me desafiasse e assumisse um namoro com você?

Serena apenas a olhava com os olhos assustados...

-Diga! Diga! Qual foi o encanto que você utilizou, sua serpente maldita? Serpentes encantam os idiotas, os tolos, os fracos, e os enfeitiça e, de repente, dá o bote. Foi o que você fez, sua ordinária! Você encantou o meu filho, alterou todos os sentimentos dele, e agora o tem na palma da mão... Anda, me diga, sua nojenta, diga, qual foi a forma que você utilizou para encantá-lo? Hein? – ela perdeu novamente o controle, vendo o rosto da jovem bem a sua frente, e a balançou pelos ombros. – DIGA QUAL O MALDITO ENCANTO QUE VOCÊ LANÇOU NELE, QUAL FOI O SEU FEITIÇO, SUA SERPENTE MALIGNA??

-PARE! – Lewis gritou, a afastando de Serena, que começava a chorar.

Mas antes que ele pudesse segurar o braço da mãe novamente, Minerva McGonagall se interpôs, rapidamente, o afastando de Frieda e pondo um ponto final à confusão:

-JÁ CHEGA! – disse a diretora, com voz firme. – Parem com isso, por favor! – ela olhou para cada um deles, chocada. – Não posso acreditar que estou presenciando uma cena dessas aqui em Hogwarts! – ofegante, ela olhou para Serena, que começava a se levantar, apoiando-se na mesa. – Serena, querida, vá lavar o rosto. Se precisar de qualquer coisa, estou às ordens. E, Frieda... – os olhos da diretora se estreitaram ao fitar a professora. – Retire-se, por favor.

Frieda tomou fôlego e, sem dizer qualquer palavra, encaminhou-se para a saída.

-E eu espero que isso não se repita, e as questões familiares sejam resolvidas de outra forma futuramente – falou Minerva, bem alto para que a professora também a escutasse e, em seguida, retornou para a Mesa Principal.

Lewis abraçou Serena, o que pôs fim ao momento de conflito e a observação dos alunos que estavam no Salão, que, vendo que o circo não ia mais pegar fogo, voltaram a almoçar.

-Espero que esteja bem, meu amor – disse Lewis, saindo do Salão abraçado a Serena.

-Está tudo bem sim – respondeu a garota. – Obrigada por me defender.

-Fiz o que era o certo. Sabe, não consigo mesmo compreender como deixava a minha mãe comandar a minha vida da maneira que convinha a ela. É um absurdo. Sabe, meu amor, ela precisa aprender a lidar com a vida. Precisa entender que nem todas as coisas são da maneira que ela quer; e, principalmente, que ela não pode controlar o mundo.

A mudança de Lewis era fantástica; olhando para o namorado, Serena mais uma vez se espantou com o poder assombroso da Fogueira.

-Por que está me olhando assim, minha querida? – perguntou Lewis.

-Por nada... Só estou admirando você.

-Haverá muito tempo para isso, meu amor. Pois nada irá nos separar. Nunca.

Ele beijou-a.

Admirar... Sim, Serena teria muito tempo para admirá-lo. Mas talvez as coisas não ocorreriam da maneira como ela desejava.


Rony aproveitava o fim do intervalo do almoço com a namorada. Ambos estavam sentados num degrau da escadaria de mármore, abraçados.

-Já decidiu qual o vestido que vai usar no baile? – Rony perguntou, enquanto acariciava os cabelos de Hermione.

-Ainda não. Estou em dúvida entre um vestido negro e outro azul... Estou achando que o negro será melhor, fica mais elegante... Não acha?

-Bom, você sabe que pra mim, independente do que você vista, você sempre fica esplendorosa. Mas, concordo, você num vestido negro, surgindo a noite, hummmm... Será um sonho!

-Então já está decidido: vestido negro no sábado!

Os dois pararam de conversar ao ver que Harry se aproximava, parecendo um tanto constrangido por interromper o casal.

-Eu não queria atrapalhar, mas... Rony, preciso muito conversar com você, ah... A respeito daquele trabalho que o Flitwick passou...

-Trabalho? – Rony franziu a testa.

-Sim, Rony. Trabalho – a maneira como Harry deu ênfase àquela palavra despertou Rony; o amigo tinha algo para contar, mas não queria contar na frente de Hermione. Aquilo era um tanto anormal, mas não era de se estranhar muito; Hermione agora perambulava com um grupinho de garotas, e era perfeitamente natural que Harry quisesse lhe ocultar alguns assuntos; mesmo sem querer, Mione poderia contar alguma coisa entre as garotas – e se existia algo que era capaz de deixar Harry constrangido era ver seu nome no meio de um grupinho de garotas.

-Claro, o trabalho... Como pude esquecer... Mione, vou conversar com o Harry a respeito desse trabalho, e daqui a pouco a gente se vê... Tudo bem?

-Claro! Sem problema! – Mione o beijou e ficou observando-o afastar-se com Harry.

Não ficou sozinha por muito tempo; Clarissa e Alone, que estavam em um canto do Saguão conversando, sentaram-se no degrau ao seu lado, ansiosas.

-Por que o Harry estava com aquela cara? – indagou Alone.

-Ele disse que quer conversar sobre um trabalho – falou Hermione. – Mas, obviamente, o assunto não é esse, e todas nós sabemos muito bem o que anda perturbando o pobre do Harry...

-A morena fatal Alone Bernard! – exclamou Clarissa, como se a estivesse apresentando num espetáculo.

-Exatamente – concordou Mione.

-Eu não consigo te entender muito bem, Alone – disse Clarissa. – Você luta tanto para ter o Harry em suas mãos, agora tem, e fica fazendo todo esse "charminho"!

-Ah e você acha que eu ia ir correndo atrás dele? Que ele ia conseguir me conquistar facilmente? De maneira nenhuma! O jogo virou, querida Clarissa, e agora o jogo está a meu favor. Veja bem, o antes e o depois. Antes: Alone corre atrás de Harry; Harry esnoba Alone; Alone se desespera; Harry continua esnobando Alone. Agora, o depois: Harry corre atrás de Alone; Alone esnoba Harry; Harry é quem se desespera; Alone continua esnobando Harry.

-Um jogo... – murmurou Hermione. – Então, é uma espécie de "jogo da vingança"?

-Digamos que sim – Alone concordou, remexendo uma mecha de seu cabelo. – Harry me ignorou demais; paguei os piores micos e fiz todas as artimanhas para conquistá-lo. Agora que o jogo virou, e quem me quer é ele, chegou a minha vez de esnobá-lo; de fazê-lo passar vexame; de enlouquecê-lo... Quero tirar o sono dele, fazê-lo perder-se em devaneios e sonhos comigo, quero que ele inale o meu perfume e já entonteça. Nunca cairia nos braços dele, muito menos agora, que a Fogueira mal começou a surtir efeito... Não, vamos deixar o tempo passar. Quero vê-lo guerreando implacavelmente contra o que está sentindo; quero vê-lo esfregando os olhos, colocando a mão no peito, ofegando e dizendo: oh, o que está acontecendo comigo? Quero que ele pense em mim em todos os momentos, que veja o meu rosto por todos os lados e, mesmo quando feche os olhos, me veja ali, na frente dele. Vou ignorá-lo até que Harry Potter esteja praticamente vidrado em mim. Até que eu possa estalar os dedos e chamá-lo como um cachorrinho obediente: Vem, Harry, vem!

Mione e Clarissa suspiraram no mesmo momento, ambas olhando para o prazer maligno que pairava no olhar de Alone.

-Alone... Você às vezes me assusta – comentou Mione.

-Larga de ser boba! Sabe que sou um anjinho. Só ficarei maldosa com o meu Harry... Vou torturá-lo, fazê-lo suar, tremer e contorcer-se de tanto prazer acumulado. E o primeiro passo da grande tortura começa no sábado.

-Baile, suponho? – perguntou Clarissa.

-Sim. Ele que se prepare. O Harry não perde por esperar o que eu vou fazer com ele...

-E por que no dia do Baile?

-Ah, Mione, porque no Baile todos estarão distraídos... E acredito que o Lorenzos seja espaçoso o suficiente para se aprontar poucas e boas. Além do mais, tem aquele tal de Cantinho de Amor e Pegação, cantinho, aliás, que estou doida para conhecer.

-É, esse Cantinho realmente promete... Não acha, Clarissa?

Clarissa não respondeu... Sua mente, sempre tão rápida e vigilante, captou um fragmento da frase de Alone.

"No Baile todos estarão distraídos... E acredito que o Lorenzo´s seja espaçoso o suficiente para se aprontar poucas e boas".

Espaço... Pessoas distraídas... Álibi.

Como ela não pensara nisso antes?

O Lorenzo´s era o palco ideal. Sábado o dia perfeito. O aniversário da diretora, o momento.

Encontrara o que precisava.

Diversas possibilidades surgiram em sua mente. Ela via um lugar lotado, com pessoas dançando, comendo e se embebedando, todas demasiado concentradas em suas próprias vidas para perceber qualquer coisa. E, em algum canto daquele bar – afinal,era espaçoso – um assassinato ocorria. Sangue voava, a lâmina brilhava, o corpo caía. Um último grito, o grito final, vindo das profundezas da alma, mas, oh, ninguém ouve, ninguém escuta, afinal, as pessoas estão distraídas. O assassino vai embora, mas ninguém percebe... Todos estão distraídos.

E, subitamente, tudo se apaga e Clarissa se vê novamente sentada na escadaria de mármore, tendo Hermione e Alone olhando para o seu rosto, parecendo assustadas.

-Clarissa? Tudo bem? – indagou Hermione.

-Claro! Sim, tudo, tudo bem... Tudo ótimo... – ela precisava ocultar a alegria que estava sentindo.

-Você parecia pensativa...

-Pois é, Mione, estava pensando em algumas coisas mesmo... Sabe como é, o Baile... Todas nós temos os nossos planos, não é?

-Uau! Então você também possui alguns planos escondidos debaixo da manga?

-Sim. Planos extraordinários. Planos capazes de não somente mudar a minha vida, mas a de outras pessoas também.

Mione e Alone refletiram naquela frase, sem conseguirem compreender. Como algo relacionado a outro garoto poderia mudar a vida de várias pessoas?

-Ai esses mistérios... – murmurou Alone. – Tiram o meu sono, mané...

-É, o meu também – disse Clarissa, enquanto seus olhos azuis, estreitados numa expressão sinistra, acompanhavam Draco Malfoy, caminhando despreocupado pelo Saguão.

Draco Malfoy, o seu fantoche favorito.


Juca Slooper era muito preocupado com os estudos, de modo que era capaz de abrir mão de qualquer coisa para estudar. Naquele dia, abrira mão do almoço. Colocando algumas frutas dentro da mochila, Juca encaminhou-se para um dos corredores, sentou-se no chão e tirou alguns livros. Abrindo um deles, ele apanhou uma maçã e começou a devorá-la, sem nem ao menos olhar para a fruta – a intenção era essa, fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Juca devorou a maçã, concentrado no estudo, e pegou uma banana. Ia começar a descascá-la quando ouviu passos se aproximando.

Ele empalideceu; subitamente, toda a sua atenção foi retirada do livro que lia. Os seus olhos se arregalaram, enquanto ele olhava para a porta as suas costas e se recordava das palavras da dona daquela sala, Frieda Lambert...

"Acho uma coisa absurda alunos comendo nos corredores. Se existe um espaço para fazer tal coisa – que todos, até os mais tolos, devem saber que se chama Salão Principal – por que sair pelos corredores carregando alimentos? Saibam que a diretora pode não proibir, mas eu, Frieda Lambert, professora de Defesa contra as Artes das Trevas, não tolero esse tipo de coisa dentro da minha sala de aula e nas imediações de minha sala. Se forem flagrados por mim, acreditem, vai acontecer a mesma coisa que aconteceu com o coleguinha de vocês, o Dino Thomas; serão obrigados a vomitar tudo o que comeram. E eu faço questão de acompanhar de perto para ver se tudo foi mesmo eliminado".

Juca engoliu em seco; odiava fugir das regras; detestava vomitar; e, acima de tudo, morria de medo de Frieda. Como a professora parecia já estar muito perto, Juca não teve tempo para esconder a banana dentro da mochila, de modo que a escondeu dentro da calça, de qualquer jeito, e, esticando as pernas, fingiu que lia o livro despreocupadamente.

Os saltos altos ribombaram nos corredores. Juca não tirou os olhos do livro até que os passos estavam bem próximos. Ele ergueu o olhar lentamente, e seu coração deu um giro completo quando viu que, não, não se tratava da infernal Frieda, e sim da adorável Garota-Ímã.

A Garota-Ímã; o ímã que atraía determinadas partes de seu corpo, como ocorrera naquela manhã.

A Garota-Ímã aproximou-se dele, sorrindo. De repente, ela parou, arregalando os olhos, e fixando o olhar exatamente no meio das pernas de Juca.

Joyce estava quase indo a loucura...

Oh-oh-oh, o que era aquilo?

Juca estava com as pernas abertas, estiradas no chão, e, bem no centro, um volume gigantesco se insinuava, firme, um tanto encurvado. Uma comichão tomou o meio das pernas de Joyce, enquanto ela sorria, em êxtase.

-Que beleza, hein? – comentou ela, com cara de espanto.

Juca, inocente demais, não conseguiu compreender...

-O que?

-Não, nada – Joyce apressou-se a dizer; estava indo rápida demais. Procurou concentrar o olhar em Juca, tentando esquecer (como não olhar para algo tão gigantesco? Ai, que tortura!) o que a calça devia esconder.

Juca franziu a testa; a Garota-Ímã estava estranha... Meio agitada... Remexendo-se sem parar... E parecia estar fazendo um esforço muito grande para olhar em seu rosto.

-Acho que ainda não nos apresentamos – disse Joyce, fingindo uma timidez que, Hogwarts inteira sabia – principalmente a ala masculina – que não era verdadeira. – Sou Joyce Meadowes.

-Juca Slooper – ele estendeu a mão.

-É, eu sei... – Joyce sorriu sem graça e se abaixou para cumprimentá-lo. Os seus olhos...

(droga de olhos atrevidos!)

...desviaram mais uma vez para a rigidez dentro da calça, que (oh, não, vou ter um piripaque), não diminuía de modo algum. É, parecia que ela estava mesmo com todo o poder.

-E aí, Juca? – ela mudou logo de assunto, afastando-se um pouco dele. Seu rosto estava escarlate, queimando de excitação. – Está gostando de Hogwarts?

-Sim – ele respondeu, os olhos brilhando por trás das lentes grossas. – Adorando.

-Que bom... Sente saudades da outra escola?

-Só um pouco. Até que lá era divertido... Sabe, lá eu pude compartilhar a minha arte, o meu maior dom, com muita gente – ele deu um tapa estalado na coxa. Os olhos de Joyce se arregalaram e, no entanto...

...Juca queria apenas indicar o livro que estava apoiado nela.

-O... s-seu ma-maior dom? – ela gaguejou, pondo os olhos rapidamente no volume gigantesco.

-Sim – Juca confirmou, animado. – Eu sou superdotado, sabe...

-Sei, uh, se sei – exclamou ela.

-...então, aí sempre que alguém precisava de uma forcinha ou do meu talento para melhorar, eu dava umas aulinhas particulares.

-A-aulinhas?

-Sim! Geralmente era para uma só, mas já aconteceu de eu dar aula para mais de uma pessoa ao mesmo tempo...

-Mais de uma... pessoa? Grupal, é isso?

-Chamávamos de "trabalho em grupo"... Não "grupal", isso é meio forte. Então, aí ficávamos eu e mais três, e eu dava as minhas aulas. Claro, tinha gente que não acompanhava, e aí precisava de aulas extras...

-Aulas extras?

-...E também aquelas que acabavam não agüentando.

-Não... agüentando? – ela olhou desejosa para o volume, que continuava lá, firme e forte. A língua deslizou pelos seus lábios, foi incontrolável...

-Pois é! Não voltavam mais lá... Mas, claro, isso era coisa de quem tinha algumas coisas mais fechadas, quem tinha mais aberta e não achava nada de mal em ser ensinada por um rapaz de pouca idade sempre acabava voltando.

-As coisas fechadas?

-Sim, ó – Juca bateu o dedo na cabeça, tentando indicar que estava falando de mentes fechadas e mentes abertas, mas Joyce já estava tão excitada que nem reparou... Estava pensando em outras coisas fechadas e abertas... – Mas era bacana. Vou te contar um segredinho... – Juca baixou a voz um pouco, enquanto a Joyce-pálida se aproximava para ouvi-lo. – Até algumas professoras provaram do meu dom.

-Que?

-Sim, já cheguei a dar aulas para algumas professoras.

-E elas... Elas gostaram?

-Uh! E como! Chegaram até a pedir bis.

Joyce secou o suor da testa e começou a se afastar. Não conseguia tirar os olhos do que a calça escondia. Ainda mais agora, que sabia que aquilo tudo era uma lenda entre as garotas da outra escola.

E que, após a Fogueira, era tudo, tudo, TUDO seu.

Mas não queria apressar as coisas... Queria ir com calma...

-Juca, foi muito bom, muito bom mesmo conversar com você, mas já to indo...

-Ok! Quando quiser conversar mais, se quiser saber mais sobre as minhas aulinhas e o meu talento, é só chamar.

Joyce engoliu em seco. Aquele garoto era menos tímido e muito mais abusado do que ela imaginava.

Ela começou a se afastar...

Juca ficou olhando-a. A Garota-Ímã finalmente ganhava um nome e sobrenome; Joyce Meadowes – embora ele achasse que ia manter aquele apelido como um apelido secreto. Como ela era linda... Provocava reações nele que nenhuma garota era capaz de provocar... Queria tornar-se amigo dela, confidente, e depois amante.

A queria mais do que tudo... E, ao vê-la caminhando graciosamente, Juca lembrou-se do Baile do Lorenzo´s.

-JOYCE!

Ela estancou; em seguida, virou-se lentamente... Será que ele ia fazer o que ela imaginava? Chamá-la para o baile?

-Você... Quer ir ao baile comigo?

Naquele momento ele pareceu tão tímido, tão inocente, que o rapaz meigo e quieto que ela visualizara anteriormente pareceu retornar, cobrindo o Juca depravado e promiscuo das "aulinhas particulares" ministradas "a ferro".

-Claro! – ela respondeu imediatamente. – Adoraria!

-Ótimo – ele sorriu. – Até mais.

Joyce acenou e afastou-se. Juca ficou olhando-a até ela desaparecer. Em seguida, lembrou-se da banana e, com um sorriso, guardou-a na mochila, enquanto pensava que, inacreditavelmente, uma garota finalmente o via como um homem, que uma garota o queria.

Juca encostou a cabeça na parede, pensativo, imaginando que, talvez, no Lorenzo´s, finalmente ocorresse o seu primeiro beijo.


-Está bem, chegamos à biblioteca – disse Rony, mal humorado, cruzando os braços e parando no meio de uma das estantes, encarando Harry com uma expressão impaciente. – Agora pode me dizer por que me atrapalhou justamente em um momento em que estava com a Mione?

-Desculpe, Rony, desculpe... – Harry parecia aturdido. – Mas eu precisava desabafar com você... Estou muito confuso...

-Posso saber por que? – ele ainda se mostrava impaciente e pouco disposto.

-Minha mente... Meu coração... Parece que tudo aqui dentro mudou com um estalo, de uma hora para a outra. Tudo o que eu sentia se apagou e foi, de alguma forma, substituído. E eu não consigo entender como!

-Não dá para ser mais claro?

-A Alone, Rony! A Alone! Poucos dias atrás ela me fechou naquela sala, me encurralou. Armou aquele ridículo Jogo do Cabide. E, mesmo assim, sempre fugi dela; nunca senti algo por ela. E, agora, ela simplesmente não sai da minha cabeça!

Rony finalmente pareceu interessado.

-Nossa, que estranho...

-Não é? Ela fica se insinuando, brincando com a minha loucura, com a minha atração, fica mexendo com a danada da alcinha! Faz que vai mostrar e não mostra... E o pior: diverte-se com isso!

Rony apenas balançou a cabeça.

-Recusou um convite para o Baile! Eu cheguei a convidá-la e ela não aceitou! E isso me deixou mal, Rony, me deixou triste, muito chateado... Algo que, tenho certeza, não ocorreria há dois dias atrás.

-É... Muito estranho...

-Estranho demais! O pior é que ela invadiu a minha mente dessa maneira devastadora e praticamente apagou quem eu realmente amava!

-Nem entre nesse assunto porque você nunca me fala o nome dessa pessoa misteriosa...

-Rony, se você soubesse quem é... Se você soubesse ia ver como é estranho sentir isso agora, o que estou sentindo pela Alone. São duas pessoas completamente diferentes. Não tem lógica. Não tem nexo.

-Poderia ver como é estranho se você me falasse o bendito nome dessa pessoa!

-Não, Rony. Acho melhor não. Pensava em contar algum dia, mas, agora, não tem porque entrar nesse assunto. Estou muito confuso, mas, aparentemente, Alone varreu essa pessoa do meu coração e a substituiu. Essa pessoa e todos os sentimentos que ela envolvia.

Rony respirou fundo.

-Sabe, Harry, às vezes o que você sente pela Alone estava incubado aí dentro, escondido, e, só agora, você percebeu isso. Por mais diferente que ela seja dessa outra pessoa...

-É... Pode ser...

-Por isso, Harry, relaxe e siga o que está aí dentro. O que o seu sentimento diz para você fazer. Se ele não cansa de repetir: Alone! Alone! Alone! Ah, então não adianta duelar com ele. Se existe algo que descobri nos meus poucos anos de vida é que não se pode lutar com o nosso velho amigo chamado "coração". Esse cara é um danado que às vezes nos prega peças e causa uma grande confusão... – Rony interrompeu-se, e olhou para o lado. Harry acompanhou a direção de seu olhar, no momento em que o amigo falava. – Oi, Colin!

Houve o ruído de livros despencando no chão, quando Colin sobressaltou-se, as faces tingindo-se de vermelho.

-Ah, oi... – ele cumprimentou, enquanto pegava os livros.

-Está aí há muito tempo? – perguntou Rony.

-Não, não muito... – ele juntou os livros novamente; seus olhos cravaram-se no rosto de Harry, enquanto enchia-se de lágrimas. – Eu já estou indo... Até logo!

Colin saiu correndo. Rony franziu a testa e olhou para Harry.

-Ele estava muito estranho... Não acha?

-Sim – Harry respondeu, de cabeça baixa, triste. – Mas, afinal... Todos nós estamos...


-As coisas não serão como eles pensam, Augusto! – bradava Frieda em sua sala, acompanhada do único professor que tinha paciência suficiente para aturá-la em momentos de nervosismo. Ela caminhava de um lado para outro da sala, remexendo em seu anel verde-esmeralda.

-Controle-se, Frieda – pediu o professor, a observando. – Não adianta se irritar dessa maneira, eles estão juntos e ficarão juntos, independente da sua opinião, e você sabe disso.

-Eu sei! EU SEI! Mas não posso admitir! Não posso! – ela apertava as mãos, irada. – Ah o que mais me irrita é o olhar sonhador e satisfeito daquela serpente... Menina maldita! Acha que finalmente conseguiu realizar o seu maior sonho, que está em um conto de fadas, finalmente nos braços do príncipe, que eles viverão, como diria a velha frase naquelas histórias infantis estapafúrdias, "felizes para sempre"... Louca! LOUCA!

-Frieda, eu acho a Serena uma grande garota. Bonita, inteligente, simpática. Não sei porque você não gosta dela, e...

-Não gosto, não. Eu odeio – a voz dela soou fria; e terrivelmente sincera.

-E por que tanto ódio, Frieda? Eu não consigo entender!

-Nem pode... Nem deve entender... – ela encaminhou-se para a sua mesa, sentando-se em sua poltrona e descansando a cabeça nos braços cruzados; agora não parecia mais furiosa, e sim angustiada. Ficou quieta, naquela mesma posição, enquanto seus olhos brilhavam, iluminados pela chama da pequenina vela que ardia em cima da mesa. – Ninguém pode saber... O maior erro, Augusto. O maior erro...

-Do que você está falando, Frieda?

-Erros... Erros que precisam ser esquecidos... Fraquezas que merecem virar pó... – ela tirou os olhos da chama e voltou-os para o professor. – Por mais absurdo que possa parecer perante a você, Augusto, eu já errei. Tenho coisas vergonhosas escondidas no passado... Coisas nebulosas.

-Frieda, isso é absolutamente normal. Todos nós erramos!

-Não. Isso não é normal. Eu não erro. Nunca erro – ela parecia apavorada; Augusto observava perplexo. – Foi algo fora do comum, porque eu sou o auge da perfeição, imune a erros e a tropeços – ela suspirou. – Mas houve alguns erros, Augusto. É vergonhoso, mas houve.

-Não é nada vergonhoso. Somos seres humanos. Todos temos nossos erros,

(Lanísia)

nossos pecados

(Lanísia)

e nossas fraquezas

(Você já teve alguma aluna mais gostosa do que eu?).

Ele engoliu em seco, disfarçando, como se a professora de alguma forma pudesse ler aqueles pensamentos promíscuos... Por que lembrar daquela atrevida naquele momento? Será que Lanísia não o deixaria mais em paz nem mesmo longe dele?

Augusto percebeu que estava começando a suar, de modo que puxou o seu lenço habitual e começou a secar o suor da testa.

-Poupe-me desse discurso brega, Augusto – falou Frieda. – Me exclua desse "todos" que você utilizou, eu e todas as pessoas grandiosas desse planeta. Não posso aceitar de maneira alguma que já sucumbi a uma fraqueza... Não, é inadmissível.

Ele fitou-a, atento.

-Mas você sucumbiu... Não é mesmo, Frieda?

Frieda arregalou os olhos para ele.

-É disso que você foge, não é? De algum fantasma do seu passado. Algum erro que você cometeu, que fugiu do "jeito Frieda de ser", que fere seu orgulho e seu caráter – ele inclinou-se, interessado. – Que erro é esse, Frieda? Qual foi essa fraqueza?

-A pior de todas, Augusto. A fraqueza da carne. Os prazeres carnais.

-Com quem, Frieda? Alguém que não era seu marido?

-Exato – os olhos frios estavam cheios de lágrimas. – Exatamente isso... Mas você não pôde entender! Quando a carne chama,

(Agora chegou a minha vez de se deliciar com chocolate)

não tem como escapar...

(Pode se deliciar...).

Augusto esfregou as têmporas, nervoso; as lembranças de sua própria fraqueza vinham de imediato.

-Não, eu consigo entendê-la perfeitamente, Frieda. Realmente, quando a

(Lanísia)

carne chama, não tem como escapar.

Ele estremeceu. O que estava acontecendo com ele? Por que o nome daquela maldita garota não lhe saía da cabeça? Pensou o quanto era absurdo tudo aquilo. Em sua mente, Lanísia era sempre sinônimo de fraqueza, pecado, erros, desejos e prazeres carnais. Ela sempre estava relacionada a isso.

Sexo, delírio, loucura.

Enquanto isso, Frieda silenciou por alguns segundos e, ao retornar do pequeno transe, enxugou as lágrimas e retornou a sua face severa de sempre.

-Não quero revirar os baús das lembranças, Augusto, não quero...

-Não vê que enquanto não duelar com o fantasma do seu passado não conseguirá se libertar?

-Conseguirei, de alguma forma conseguirei. O passado, Augusto... – ela apanhou um pedaço de pergaminho e o colou sobre a chama da vela. – Precisa virar pó.

Ela lançou o pergaminho queimado no chão e saiu da sala, batendo a porta com força ao passar, como se, dessa forma, também fechasse o compartimento das lembranças malditas de sua mente.

Lembranças que teimavam em não virar pó.

Suspirando, Augusto saiu da sala de Frieda, encostando a porta. Cabisbaixo, com Lanísia impregnada em sua mente, caminhou a passos lentos até a sua sala. Não havia mais aulas a serem ministradas por ele, de modo que ele seguiu até a própria sala, trancando-se lá dentro.

Precisava se libertar da imagem de Lanísia de alguma forma, e qual seria a melhor forma se não fosse a utilização de sua maior arte?

Abrindo um armário de madeira, Augusto apanhou uma tela limpa e um conjunto de tintas e pincéis. Os ajeitando com acenos de varinha, Augusto movimentou um banquinho para perto de si, e, sentando-se no banquinho, começou a trabalhar.

O pincel deslizava na aquarela, selecionando as cores, e, em seguida, os olhos atentos do pintor se concentravam na tela, onde cada pincelada adicionava mais um detalhe, ganhando forma e mais forma. Sempre que pintava nas horas vagas, Augusto deixava a emoção guiá-lo, o sentimento comandar os seus movimentos.

E, naquele momento, ele já sabia muito bem qual seria a forma que seus movimentos iam criar.

Sabia qual era a modelo; era a sua belíssima aluna. A sua perdição.

Lanísia.


A reunião noturna das Encalhadas ocorreu em um canto da sala comunal da Grifinória, em um horário em que o local estava vazio o bastante para que elas se enveredassem em suas conversas depravadas.

-Então o Juca é realmente superpotente? – perguntou Lanísia.

-Sim. Pode acreditar – confirmou Joyce. – Era grandão assim ó – ela afastou as duas mãos, deixando no tamanho aproximado do que havia visto.

Os olhos de Serena se arregalaram diante do tamanho.

-Minha nossa!

-É, é o que eu falo – disse Joyce. – Potência máxima!

-Acha que agüenta o tranco? – perguntou Alone.

-Ainda não sei... Mas estou doida para experimentar – falou Joyce com um sorriso assanhado.

-E ele a convidou para o baile? – indagou Hermione.

-Sim. Eu estava indo embora e ele me chamou para fazer o convite. Claro que aceitei de imediato.

-Eu ainda não aceitei o convite do Harry – falou Alone. – Quero provocá-lo um pouquinho mais antes de fazer isso.

-Eu já tenho o meu par garantido – disse Mione, contente.

-Eu também – Serena piscou os olhos repetidamente, sonhadora.

-Eu não – disse Clarissa, baixinho.

Todas as Encalhadas voltaram-se para ela.

-Como assim? – indagou Joyce. – A Fogueira não surtiu efeito com o rapaz misterioso que você tanto ama?

-Não sei – ela levantou-se, inquieta, apoiando-se na lareira e fitando o chão. – Não sei o que fiz de errado... Mas até agora... Nada.

-Isso é estranho – comentou Joyce, franzindo a testa. – Deu certo com todas nós.

-Pois é, mas... Comigo... Nada ainda – os olhos azuis de Clarissa irradiavam tanta sinceridade que nenhuma das garotas foi capaz de duvidar... E por que seriam, afinal? Clarissa era uma delas, uma Encalhada; era uma amiga; não havia segredos entre elas... pelo menos era o que elas acreditavam.

-No meu caso parece estar surtindo efeito, mas o destino sempre é o meu maior inimigo – comentou Lanísia, suspirando. – Justo na hora H ocorre algo para me atrapalhar com o meu professor...

-Ele não vai convidá-la para o baile – disse Alone. – Nunca faria isso. Ele é professor, você é aluna, ainda não vi romance mais proibido do que o de vocês. Infelizmente, sinto muito, amiga, mas, acho melhor esquecer.

-Não tenho esperanças de que ele vá me convidar para o baile, claro, nunca alimentei tal ilusão. Sei que é impossível, que tudo o que ocorrer entre nós daqui para frente tem que ser mantido no mais absoluto sigilo... Mas... Tenho outros planos para o dia do baile.

Ela deu uma risadinha; todas já conheciam aquela risada.

-Lanísia... O que você está aprontando? – perguntou Hermione.

-Aguardem – o sorriso não saía do rosto dela. – Digamos que eu e o professor vamos "inverter os papéis". Ah vou aprontar uma que vai ter que dar certo. Não é possível que o destino me atrapalhe dessa vez.

-Então você tem vários planos para o dia do baile? – indagou Joyce.

-Sim.

-Eu também – Clarissa deixou escapar num murmúrio, mas, para sua infelicidade, as garotas escutaram e a olharam.

Algo na maneira de falar da garota sugeria outra coisa, bem diferente do tom de Lanísia. Soara muito estranho... Não soara misteriosamente divertida, mas sim misteriosamente sinistra.

Hermione olhou-a fixamente, recordando-se do olhar... Do que ela dissera a ela naquele mesmo dia... Do que fizera as suas mãos tremerem...

Diga, Hermione, você consegue vencer a morte?

E, mais uma vez, aquele instante sinistro foi quebrado rapidamente pela voz doce de Clarissa.

-Eu disse que também tenho planos... Mas não com aquele garoto. Sabem, meninas, até acho que se a Fogueira deu errado para mim não foi tão ruim.

-O que está querendo dizer com isso? – perguntou Mione.

-Acho que não o amava muito... E só estou percebendo isso agora. O sentimento acabou, entendem? Se tivesse jogado o nome dele na Fogueira, estaria perdida.

-E qual é o nome dele, Clarissa? – Hermione levantou-se e foi se aproximando lentamente da amiga, sem deixar de encará-la. – Diga-nos, agora que já não sente mais nada, qual o nome dele?

As pernas de Clarissa tremerem diante do olhar severo de Hermione... Era acusador. Como se ela soubesse... Como se ela fosse capaz de ler pensamentos... Clarissa concentrou-se para evitar que respondesse mesmo em pensamentos, mas não conseguiu...

"É Rony. Rony Weasley. Nunca amei tanto na minha vida. Ele é tudo para mim. Mas não possui o principal: dinheiro. Porém, se não pode ser meu, não pode ser de mais ninguém".

Mione continuava se aproximando... Clarissa lutando contra os pensamentos... Mas era inevitável...

"Não vai ser seu também, Hermione. Vou mandá-lo para a sepultura, onde ele não poderá ser de mais ninguém. Nem meu. Nem seu. Nem de nenhuma outra".

Mione continuava sondando o seu rosto...

"Não adianta tentar decifrar meus pensamentos; meu olhar oculta tudo. E, pode esperar, Hermione, porque não vai demorar para isso acontecer... No dia do baile. No Lorenzo´s. O nosso querido Rony vai ser mandado direto para o além".

Elas continuaram se encarando. E, por alguns segundos, não eram as amigas que sempre foram; eram duas inimigas, envolvidas por um ódio misterioso... E só uma delas sabia qual era o motivo...

Quando aqueles segundos se passaram, Mione balançou a cabeça, confusa. Constrangida, sorriu para Clarissa.

-Tudo bem... Desculpe... Se você não quer falar, tem todo o direito de manter silêncio.

-Obrigada por compreender, Hermione – Clarissa disse, sorrindo. Tocou o ombro da amiga. – Acredite, ainda lhe contarei. Algum dia, contarei a você. Mas ainda não. Ainda não é o momento...

-Tudo bem, mas com quem você vai ao baile, Clarissa? – perguntou Joyce.

-Não fui convidada ainda por nenhum garoto, mas, assim que for convidada, aceitarei.

-Seja ele quem for?

-Assim também não... Você sabe que o rapaz tem que ter uma certa classe.

-Eu vou ficar aqui no castelo fazendo coisas melhores com o meu professor – disse Lanísia. – Ai, não agüento mais ver aquele homem na minha frente. Dá vontade de pular e atacar!

-Nossa, que coisa! – disse Serena. – Que fogo! Eu estou tranqüila em relação ao Lewis...

-Sexo é assim mesmo, cada um tem a sua maneira de pensar sobre o assunto – disse Joyce. – Algumas pessoas pensam mais nisso, outras menos; algumas acham que é algo banal, apenas um prazer carnal que é aliviado, outras já vêem um significado mais profundo.

-Não acho que seja algo banal – comentou Lanísia. – Acredito que deve ser aproveitado de todas as formas, mas não com qualquer pessoa. Não vejo como algo muito especial, mas quero que ocorra algo perfeito com o professor. Embora perfeito não queira dizer "romântico"... Aff, não quero romantismo de forma alguma! Quero que ele me pegue de jeito, me segure firme, me domine como um leão feroz e me devore com voracidade!

Todas riram.

-Você é virgem, Lanísia? – indagou Joyce.

-Sim. Guardada especialmente para o meu professor.

-Podia usar isso para seduzi-lo. Os homens adoram tirar a inocência de uma garota.

-É, pode ser... E você, Joyce? É virgem?

Todas as garotas começaram a rir com a pergunta; Serena gargalhou tanto que chegou a chorar. Joyce as observou, boquiaberta.

-Qual é a piada?

-Você virgem! – disse Serena, ainda gargalhando.

-Tudo bem, não sou e vocês sabem que não – Joyce ficou vermelha. – Mas também não perdi faz muito tempo, ouviram?

-Foi com quantos anos? – perguntou Hermione.

-Foi com 16.

-Ah, ta, só se foi com 16 homens, né?

O comentário de Alone provocou um novo acesso de gargalhadas; dessa vez, Joyce corou e ficou furiosa com as amigas.

-Parem com essas piadinhas! Parem! – ela exclamou. – Foi com 16 anos, sim!

-E depois não parou mais, porque você fez um verdadeiro "arrastão" aqui no colégio – disse Mione. – A lista é grande.

-A Hermione é virgem também – disse Lanísia. Mione olhou-a perplexa, com um olhar do tipo: como você sabe disso?. – O desconhecimento sobre a anatomia masculina que você demonstrou após o Jogo do Cabide revelou isso... E você, Alone?

-Também sou, e não tenho problema algum com isso. Sem pressa, sabe? Sei que uma hora vai acontecer, e não quero apressar as coisas com qualquer um.

-Está carregada de razão – comentou Clarissa, pensativa. – Não se deve apressar as coisas preocupada com o que os outros vão pensar.

-Nossa, Clarissa, você disse isso como se tivesse "conhecimento de causa" – disse Mione.

-É... De certa forma, tenho.

-Então você já perdeu a virgindade? – perguntou Alone.

-Sim... Mas... Não quero falar sobre isso – ela ergueu os olhos azuis para as amigas, e elas constataram, com enorme surpresa, que a amiga estava chorando.

-Oh, o que aconteceu, Encalhada? – Joyce foi até ela e a ajudou a sentar-se no tapete.

-Simplesmente foi algo roubado de mim. E causa muita tristeza porque não tem como voltar atrás... Sabem, meninas, é um passo decisivo. Errar nesse passo causa uma amargura eterna.

-Nossa, Clarissa, chega a me arrepiar – comentou Alone. – Foi tão grave assim?

-Sim, demais... Mas, desculpem-me, novamente não quero falar sobre o assunto...

Joyce segurou-a na mão, enquanto Hermione a observava, atentamente... Clarissa a estava intrigando demais... Quantos mistérios havia dentro daquela garota!

-Serena, e você? – perguntou Mione, tentando tirar o assunto Clarissa de sua mente.

-Guardada para o meu Lewis – respondeu Serena, com orgulho.

-Estão vendo? – disse Joyce. – Foi o que eu disse: cada uma de nós possui uma visão sobre esse assunto. Lanísia, Hermione e Serena encaram o sexo como algo mais valoroso; ambas querem guardar-se pra um rapaz em especial, só para aquele rapaz, no caso o professor Augusto, Rony e Lewis. Já Alone também acha que é algo especial, mas o único interesse que possui é de que não seja "com qualquer um"; não salientou um rapaz em especial como as outras. Ou seja, ela entrega ao destino e a vida o nome do primeiro rapaz que irá tocá-la. Sabe que o momento vai chegar, e, quando sentir que chegou, não importa muito se seja o Harry ou algum outro. E, mesmo nos casos em que já houve a perda da virgindade, como o meu e o de Clarissa, as controvérsias persistem. Eu não me importava muito com isso, nunca encarei como um tabu, as coisas foram rolando naturalmente, e não pensei: oh, esse momento vai mudar a minha vida! Tampouco me arrependi. Já a Clarissa se arrependeu, e parece ter cedido por influências de outras pessoas... Estou certa?

-Sim – ela confirmou, após uma breve hesitação.

-Aposto que alguma amiga sua ficou pressionando-a para que perdesse logo, que você estava sendo ridícula "guardando-se" para alguém em especial, que isso era coisa do passado...

-Sim, foi isso... – respondeu Clarissa, franzindo a testa como se as lembranças causassem dor. – Minhas amigas me apressaram. O garoto, um amigo rico da nossa família, Ted Bacon, vivia me lançando cantadas. Eu sempre resistindo, sempre resistindo, porque sempre acreditei no amor, que o sexo não era algo puramente físico, mas que transcendia o ato físico e envolvia também o espiritual. Sempre achei que sexo era sinônimo de amor, que ambos precisavam estar ligados para que houvesse harmonia, para que tudo ocorresse bem. Só de imaginar ser tocada por alguém que não amasse... Já ficava com náuseas, sabem? Pode parecer ridículo, parecia ridículo na época, elas até riam de mim, mas eu era assim.

-Mas você acabou seguindo as idéias das suas amigas?

-Sim. E foi o maior erro da minha vida. Sabem, não agüentava mais as piadinhas! Elas viviam zoando com a minha cara, me chamando de Virgenzinha. Aquilo me magoava, magoava muito. E Ted continuava me cantando... Até que, chegou uma noite, uma noite clássica para uma tragédia, a noite carregada de trovões e chuvarada, uma noite em que Ted estava dormindo em nossa mansão e, eu, fraca, imbecil, após chorar por três horas seguidas, levantei-me de minha cama, abri a porta do quarto e, secando as lágrimas, bati na porta do quarto que Ted sempre ocupava quando nos visitava. Ele abriu a porta, surpreso, e eu praticamente me joguei nos braços dele.

Ela parou por um momento, soluçando.

-Não preciso nem dizer que foi horrível; o pior momento da minha vida. Era como se eu fosse uma espécie de brinquedo. Deixei-o me guiar, deixei que ele me tocasse e fizesse tudo o que queria, mas eu praticamente não me mexia. Apenas chorava, chorava, chorava. A escuridão era a minha cúmplice; o delírio de Ted, que o cegava, preso no próprio prazer, era meu aliado. E, assim que ele concluiu, que finalmente terminou o que sempre procurara em mim, eu levantei-me lentamente e saí do quarto, a mancha de sangue e da perda da minha inocência impregnando a minha camisola. Voltei ao meu quarto, arranquei aquela camisola horrenda e, nua, deitei-me em minha cama, aos prantos. Não consegui dormir direito naquela noite. E, no outro dia, contei toda orgulhosa para as duas que não era mais virgem, não, que era como elas, uma mulher, e que não podiam mais rir da minha cara. Claro, apimentei a noite, inclui detalhes, cheguei a ponto de mostrar o vestido e, o mais engraçado, era que, naquele instante, sentia orgulho daquilo. Diante delas houve orgulho. Achei que o orgulho ia persistir, mas ele me abandonou assim que elas foram embora, deixando-me apenas acompanhada da Vergonha, a grande inimiga que assola o nosso sentimento e faz com que lágrimas e lágrimas molhem o nosso rosto. Sozinha, isolada no quarto, fechada entre quatro paredes, a Vergonha foi quem me possuiu. E até hoje ela não vai mais embora. Hoje ela está casada com o Arrependimento.

Houve silêncio.

-E, sabem o que é pior? – Clarissa fungou. – O casamento da Vergonha com o Arrependimento é para sempre; eles nunca vão se divorciar. Porque a aliança que os uniu foi trazida com a perda da minha virgindade. Aquela mancha de sangue simbolizou a união eterna dos dois. A perda de minha inocência.

Clarissa chorava...

-Algo que nunca será recuperado... Algo que nunca será como eu sonhei... E só por causa dos outros. Eu destruí um sonho por causa dos outros.

Todas estavam pálidas; houve um silêncio apenas quebrado pelo fungar de Clarissa e pelo choro das garotas. Mione esfregou as mãos, e surpreendeu-se ao se dar conta de como elas estavam frias; aquela história realmente a abalara, a ela e a todas as Encalhadas.

-Nossa... – murmurou Joyce, baixinho. – Eu não esperava algo tão profundo. Sinto muito, Encalhada.

-Não, sem problema – disse Clarissa. – Já estava mal ao vê-las sonhando com tudo isso, sabendo que eu não tenho direito a esse sonho. E até é bom, para que o meu erro possa servir de lição para vocês; nunca haja segundo a influência dos outros, porque você pode estar sacrificando um sonho.

Elas balançaram a cabeça, compreendendo, refletindo nas palavras.

Lanísia, os olhos marejados de lágrimas, fitava o fogo na lareira. Suspirou, pensando em Augusto; em como o caso entre os dois era proibido. Mas, ali estava, a frase que ele precisava ouvir! Não podia seguir a influência dos outros, a opinião dos outros, pois, daquela forma, podia sacrificar um sonho! O sonho de namorar Lanísia, de tê-la para si, de viver com ela, de sorrir com ela, resumidamente, de amá-la.

Lanísia sentiu um arroubo de medo a envolver e, subitamente, levantou-se.

-Preciso ver o professor...

-O que? – foi a pergunta geral da trupe Encalhada.

-Augusto... Preciso ver o Augusto!

A maneira como ela agia fez Mione estremecer.

-Lanísia... Depois do que ouvimos, você não está pensando em atacar o professor do nada e...

-Não, e você sabe muito bem que sempre tentei exatamente isso. Apenas... Apenas preciso vê-lo, falar com ele, trazê-lo para mais perto de mim.

-A Fogueira já vai fazer isso...

-Eu sei que vai, Serena. Mas eu preciso vê-lo. Fazer com que enxergue o que não conseguia enxergar antes da Fogueira acontecer.

-O que?

-Que devemos lutar por nosso ideal; que não devemos sacrificar o que queremos. Não devemos sacrificar os nossos sonhos.

Ela sorriu brevemente e saiu, decidida, do salão comunal.

-A sua história mexeu com todas nós – comentou Alone.

Clarissa apenas esboçou um sorriso.

-Acho que a sua frase ganha sentido em outras formas também – refletiu Hermione. – Pode-se dizer também: nunca haja segundo a opinião dos outros, porque você pode estar sacrificando um sonho.

-Sim, essa variável também tem sentido – concordou Serena.

-Apoiada – disse Joyce. – Preocupar-se demais com a opinião dos outros também pode estragar uma vida. Acaba-se caminhando como os outros desejam que se caminhe, e não conforme a pessoa deseja.

-É mesmo... – Clarissa murmurou, as lágrimas transbordando nos olhos. – Vocês têm razão.

Agora não eram lágrimas causadas por uma lembrança dolorosa; eram lágrimas causadas por sentimentos atuais. Ela sacrificava um sonho por causa da opinião alheia.

Fugia de Rony justamente por causa das outras pessoas, do que elas poderiam pensar ao vê-la com alguém tão pobre. Será que estava destinada a isso? Será que a sua existência estava resumida na destruição dos seus sonhos?

Ela enxugou os olhos. Chega. Tinha que ser forte. Afinal, não era um caso apenas relacionado aos outros; ela mesma não podia se imaginar ao lado dele. Já arranjara uma maneira de se livrar da situação, não arranjara? Tudo o que precisava agora era de força, e não de lágrimas. E tudo já estava engenhosamente montado em sua mente.

Bastavam apenas os detalhes.

"Preciso conhecer o Lorenzo´s como a palma da minha mão. Preciso ter em mente os atalhos, passagens, tudo, cada detalhe daquele bar. Já que ainda não foi inaugurado, qual a melhor hora de conhecê-lo senão durante a noite?".

Havia chegado o momento de abandonar as idéias e partir para a ação.

-Garotas... – ela começou a dizer, enquanto apanhava sua capa em uma das poltronas. – Sinto muito, mas também tenho algo a fazer.

-Podemos saber o que? – perguntou Joyce.

-Infelizmente não... Apenas, como Lanísia, toda essa conversa me despertou para algo que devia fazer. Depois posso contar a vocês – ela vestiu a capa. – Com licença – e saiu, apressada, do salão comunal.

Hermione, Alone, Joyce e Serena ficaram em silêncio por alguns momentos.

-Clarissa é um poço de mistérios – Mione não pôde deixar de comentar. – Vocês não têm idéia, mas ela me intriga tanto.

-É, dificilmente ela abre o jogo sobre alguma coisa – salientou Alone. – Foi de admirar o desabafo dessa noite!

-Mudando de assunto, garotas – disse Serena, bocejando. – Vamos até o dormitório conferir os nossos vestidos do Baile? Ainda não vi o seu, Hermione, nem o seu, Alone!

-Ah eu vou arrasar – disse Alone.

-Eu finalmente fiz a minha escolha pelo vestido negro – falou Mione, entusiasmada. – Com a ajuda da opinião do meu namorado!

-Eu não tive opinião que me ajudasse, mas acredito que o Harry vai adorar – Alone sorriu, confiante. – Afinal, é um vestido de alcinha...

-Ah, Harry e a alcinha da Alone! – exclamou Serena.

-É, a "alcinha da tortura" – falou Joyce. – Vamos, vamos lá, também quero dar uma espiada nos vestidos.

Absortas no assunto, nenhuma delas se lembrou das Encalhadas que não estavam presentes; as Encalhadas que estavam em ação. Uma para o bem; a outra para o mal.


O Saguão de Entrada não estava muito movimentado; naquele instante, o movimento concentrava-se no Salão Principal, onde alunos e professores enchiam a pança após um longo dia de estudos e trabalho.

A encantadora Clarissa sorriu para todos os que passavam e, na primeira oportunidade, abriu uma pequenina fresta nas portas de entrada e esgueirou-se para fora.

O vento frio arranhou-lhe as faces; ela ajeitou a capa, estremecendo. Precisava enfrentar todos os fatores; frio, medo, perigo. Era essencial agir naquele instante. Não dispunha de muito tempo; o Baile ocorreria em dois dias.

Ela amarrou os cabelos longos em um rabo-de-cavalo e, respirando fundo, começou a correr.

Próxima parada: Lorenzo´s. Em Hogsmeade.

Precisava escrever o roteiro do filme de horror que se desenrolaria no dia do baile. O filme cheio de sangue, gritos e, o essencial, um corpo.


Com o pincel na mão, Augusto dava as últimas pinceladas na tela. Sua concentração só terminou ao concluí-la. Suspirando, ele pousou o pincel no chão ao seu lado e voltou o olhar para a tela, enquanto afastava os cabelos da testa.

Havia pintado um casal, um casal que olhava um para o outro. A mulher tinha longos cabelos negros, lábios carnudos e um sorriso atrevido, parecendo bem jovem. O homem possuía uma vasta cabeleira negra, com alguns fios caindo sobre a testa, uma barba rala, um aspecto bem mais maduro. Mas uma coisa era idêntica nos dois: a força do olhar. O olhar irradiava uma paixão desmedida, uma paixão simultânea, compartilhada por ambos.

Augusto baixou os olhos para verificar os outros detalhes. Sem perceber, como sempre deixando-se guiar por seu sentimento, ele havia pintado duas correntes, correntes que envolviam os pulsos do dois. A garota e o homem tinham as mãos entrelaçadas nas costas, presas por essas correntes. Era como se algo os prendesse. Como se alguma coisa prendesse os dois e não os deixasse se aproximar um do outro. Augusto secou o suor da testa com o seu lenço habitual, enquanto pensava o quão errado era aquilo. Porque ali havia paixão, uma verdadeira paixão, os olhares deixavam isso bem claro. O que poderia separar os dois? Quem colocara aquelas malditas correntes ali?

Ele estancou, sem fôlego, ao se dar conta de que tinha as respostas.

Afinal, ele era o autor da obra, não era? Portanto, mesmo que estivessem bem escondidas, ele possuía as respostas que procurava.

A jovem e o homem.

A aluna e o professor.

Lanísia e eu.

Ele ficou sem fôlego. Claro, as semelhanças físicas eram evidentes. Ele retratara os dois, não só fisicamente como sentimentalmente também. Ele e Lanísia compartilhavam aquele olhar de paixão, a paixão devastadora e sem limites. E os dois tinham correntes presas aos pulsos, embora estas fossem invisíveis.

Invisíveis até mesmo para Lanísia.

Ela não as via, mas ele as via muito bem.

Quem colocara aquelas correntes nos dois? As pessoas. Todos que diziam que era estritamente proibido o romance e o simples contato físico entre alunos e professores (como se o coração e o desejo fossem capazes de catalogar as pessoas por profissão). Sem falar na enorme diferença de idade (como se houvesse diferença de idade entre os sentimentos humanos).

Esqueça, pensou Augusto. Vários "como se" não mudariam nada. Toda aquela baboseira existia e ponto final. Para todos era abominável imaginar tal situação, um professor e uma aluna aos beijos, um professor e uma aluna na cama...

Até para ele era abominável. Até surgir Lanísia.

Ele próprio se deixara prender pro aquelas correntes; mas, agora, de uma hora para a outra, sentia vontade de libertar-se. De jogar tudo para o alto, de não ligar para todas as proibições.

A brincadeira do chocolate demonstrara isso. Demonstrara como ele estava mais suscetível a Lanísia. Muito mais suscetível a ceder as vontades carnais – e as vontades de seu coração.

Passara a tarde inteira pintando. Mais e mais telas, e, ao fim, sempre percebia que, de alguma forma, ela estava relacionada. Como não haveria de estar? Lanísia agora fazia parte de sua vida, de seu cotidiano, de seu pensamento. Grudara de maneira que não sairia jamais.

Toc-toc-toc-toc.

Alguém batia a porta. Augusto olhou ao redor; telas e mais telas de Lanísia, uma pendurada na parede, outras ao chão. Devia ser algum professor que estranhara a sua ausência na hora do jantar. E se ele visse algum daqueles desenhos? Seria o fim... Mas não havia tempo para arrumar tudo. Devia apenas ser cuidadoso, e não deixar que a pessoa entrasse.

Secando-se com o lenço, Augusto encaminhou-se para a porta. Girou a maçaneta. Ia abrir apenas uma fresta, mas acabou escancarando-a com o susto que tomou.

Era ela. Mais admirável que qualquer pintura; aquela ele podia tocar; podia tê-la para si.

Lanísia em pessoa.

-Posso entrar, querido professor?

Ela deu uma risadinha levada, enquanto ele a fitava, boquiaberto, surpreso.


NA: Mais emoções em breve. Aguardo o seu comentário! Beijos e abraços, DAN