CAPÍTULO 12

Vilões em ação

Clarissa em ação...

Caminhando de mãos dadas com a sua rival, Clarissa pensava que, dessa vez, não podia haver erro algum.

...Frieda em ação...

Frieda abriu a bolsa de pele de onça e tirou um papel pardo de dentro dela: -Eu preciso apenas que você assine isso aqui

...Draco em ação...

Draco passou os olhos pelo aposento... Finalmente, encontrou algo aparentemente inofensivo, mas que, visto por alguém com propósitos sombrios, poderia ser fatal.

...os vilões resolvem atacar! E, até mesmo, quem não é ruim toma algumas atitudes...

-É o desejo... O desejo por você que me enlouquece... – Augusto começou a beijar o pescoço da garota. – Você é uma safada.

...e resolvem entrar em ação!

-...eu vejo que preciso conseguir o que quero dessa forma... Prensando-a...

O que será que cada uma dessas ações vai dar?


Hermione respirou fundo.

-Não vejo outra alternativa, meninas. Por mais assustadora que essa idéia da Joyce possa parecer, é a única solução que nos ocorre nesse instante. A única forma de manter todas nós livres e sem macular as nossas vidas e nossas futuras carreiras profissionais com um ritual proibido.

-Então, você vai mesmo dizer ao Rony que está apaixonada pelo Draco e pedirá que ele não o denuncie?

-Exatamente, Alone. Não posso permitir que a Fogueira seja descoberta. Todos esses anos venho me esforçando em Hogwarts para construir uma carreira brilhante quando concluir os meus estudos. Tudo isso poderia ser destruído se eu ficasse quieta e deixasse Rony e Lorenzo denunciarem Draco.

-Pelo que vejo, não só a liberdade das Encalhadas pesa em sua escolha, mas o seu futuro também? – perguntou Serena.

-Sim – confirmou Mione. – As duas coisas. Se, para que eu tenha as duas coisas, eu preciso abrir mão do Rony, pelo menos temporariamente, é o que farei.

-Mas não se esqueça que você dirá a ele que está apaixonada pelo Malfoy, portanto...

-É, eu sei, Lanísia... Deverei ter algo com Malfoy.

-E deverá mesmo, Hermione – disse Joyce. – Draco está dominado pelo poder da Fogueira. A única coisa que o fará sossegar é reconhecer em você algum sentimento sincero por ele. Você terá que fazer com que Draco acredite que o que ele sente por você é o mesmo sentimento que você nutre por ele, caso contrário ele poderá fazer até mesmo mal para si próprio, como, por exemplo, um suicídio pela frustração de um amor não correspondido.

-Nossa, isso seria terrível – falou Mione, tendo um calafrio. Ela passou pelo círculo das amigas sentadas ao chão e aproximou-se de uma das janelas. Observando a noite, Mione continuou. – Uma vida quase foi perdida essa noite por conta do que fizemos. Se Draco se suicida por causa do sentimento criado pela Fogueira, nos sentiríamos culpadas pelo resto de nossas vidas – ela voltou-se para as amigas. – Não... Se for necessário até mesmo tocar em Draco para que ele acredite que estou apaixonada por ele, é o que farei.

-Até mesmo sexualmente? – indagou Alone.

-Pode ser – respondeu Mione. – Talvez seja um preço a se pagar pela nossa liberdade. Se algumas bruxas ganham a vida vendendo o corpo por dinheiro, eu poderia vender o meu pela minha liberdade.

-Talvez não seja tão simples quanto parece ser...

-Eu sei, Serena. Mas estou disposta a encarar qualquer coisa para que o meu futuro seja preservado. Pode ser que soe estranho, Hermione Granger falando dessa forma, mas quando algo tão importante está em jogo, revemos todos os nossos conceitos e a nossa maneira de pensar. Uma entrega de meu corpo a Malfoy não duraria mais que alguns minutos; a minha liberdade e o meu futuro, se manchados, ficarão dessa maneira a vida toda.

A determinação de Mione deixou-as mudas por alguns momentos. Ninguém esperava tal atitude da garota. Porém, tudo o que Mione falava fazia sentido. Diante de uma situação alarmante como aquela, tudo mudava. Cada uma das Encalhadas seria capaz de tomar a mesma atitude em nome de algo tão valioso; elas estavam praticamente na mesma situação. Talvez quem olhasse de fora pudesse dizer que não faria como Hermione Granger; mas elas, compartilhantes do medo e da insegurança que ela sentia, entendiam muito bem como tudo mudava a partir daquele instante. Como tudo o que acontecia poderia levá-las a fazerem coisas que nunca esperavam fazer...

-Então, quando falará com Rony? – perguntou Joyce.

-Agora.

Decidida, Hermione caminhou em direção a saída.

-Mas, Mione, todos devem estar voltando...

-Não importa, Serena! Preciso fazer isso antes que eu me arrependa e antes que seja tarde demais. Pelo bem das Encalhadas, pelo meu bem... – ela voltou-se para elas antes de sair, revelando um rosto que as amigas nunca tinham visto; uma Hermione capaz de guerrear pelos seus objetivos. – Vou agora mesmo.

-Eu vou com você – ofereceu-se Clarissa, levantando-se.

-Não. Acho melhor eu ir sozinha.

-Hermione, por favor – Clarissa fez uma expressão de tristeza. – De certa maneira também sou culpada pelo que aconteceu. A minha paixão por Draco foi um dos fatores que levou a toda a tragédia. Se eu não tivesse escrito o nome dele no papel... – ela baixou os olhos.

-Não... Não foi culpa sua, Clarissa...

-Mesmo assim, sinto-me culpada. E... Quero acompanhá-la neste momento tão difícil para todas nós, mas, principalmente, para você.

Ela apertou as mãos de Hermione. Mione sorriu.

-Obrigada pelo apoio. Bom, se é assim que deseja, então, vamos!

Clarissa e Hermione passaram pela passagem do buraco do retrato. Na penumbra dos corredores, Clarissa sorriu, esperançosa.

Ainda havia um meio, uma oportunidade, de fazer com que aquela noite não fosse em vão.

De fazer com que o espetáculo fosse concluído.

A última cartada antes que o ciúme de Draco terminasse, juntamente com o namoro de Rony e Hermione. Ela ainda podia usar aquele ciúme a seu favor.

Caminhando de mãos dadas com a sua rival, Clarissa pensava que, dessa vez, não podia haver erro algum.


-Lorenzo? – Mione bateu a porta e abriu uma fresta.

A saleta para onde Rony fora levado estava silenciosa e vazia, exceto pelo garoto, que repousava sobre a mesa. Hermione, com lágrimas nos olhos, entrou, aproximando-se, a passos lentos, do namorado.

-Clarissa – falou Mione para a garota que aguardava parada a porta. – Espere-me lá fora, por favor.

-Claro... – Clarissa respondeu, saindo e fechando a porta.

Rony estava inconsciente. Não havia mais hemorragia. Com um aperto no coração, Mione imaginou se Lorenzo não teria saído para comunicar a direção da escola o que havia ocorrido. Se tivesse acontecido isso... Ela tinha chegado tarde demais...

Ela fitou o rosto do namorado com carinho. Acariciou a testa do rapaz, enquanto as lágrimas percorriam seu rosto. Por pouco, a vida do rapaz que amava não fora perdida. Rony continuava vivo por pura sorte. E se metera naquela enrascada por culpa dela mesma...

Mione enxugou as lágrimas. A vida já lhe dava o castigo na mesma noite. Fora indiretamente responsável pelo atentado a Rony; o destino não o tirara das mãos dela, mas ia fazer com que ela devesse deixá-lo.

Rony mexeu-se. Piscou os olhos rapidamente e abriu-os. Assim que avistou Hermione, um fraco sorriso despontou em seus lábios.

-Mione... – murmurou ele.

-Olá, Rony...

-O que houve?

-Lorenzo deve ter lhe dado algo para que você desmaiasse e não sentisse dor. Ele já tratou de todos os seus ferimentos, fique tranqüilo. Não houve nenhum órgão perfurado.

-Que bom... E Draco...?

-Já está sob controle.

Rony suspirou.

-Sabe que eu até agora não entendo... O que aconteceu... – ele fazia pausas entre as frases, tentando tomar fôlego. – Foi tudo... Confuso e estranho...

-É, eu imagino – ela sentia o coração quase pular para fora de seu corpo; era chegado o momento da mentira. A mentira salvadora, capaz de livrar ela e as meninas de todas as mazelas possíveis, mentira mais poderosa do que a verdade. – Rony...

-O que foi? Você... Está pálida...

-É que... Bom... O que aconteceu hoje me fez ver que não posso continuar escondendo uma... Uma coisa de você. Que isso pode trazer conseqüências muito sérias para nós três.

-Que... Coisa? Como assim nós... três?

-Eu, Draco, e... E você...

Uma ruga de preocupação surgiu na testa de Rony.

-Hermione, eu... Não entendo...

-Eu, você e Draco, Rony! – ela impacientou-se. – Isso não forma um triângulo amoroso diante de você?

-Não...

-Dois pontos: você e Draco – ela traçou, no ar, um ponto na direita, e deslizou o dedo para a esquerda. – Convergindo para um ponto só – ela subiu os dois indicadores em diagonal, encontrando-os no ar. Olhou diretamente para os olhos de Rony. – Eu.

-Humm... Sim... Já reparei que Draco... Está gostando de você...

-Não, Rony. Você não entendeu!! O ponto central tem interesse pelos dois pontos que estão querendo se unir a ele! Sempre teve interesse pelos dois! E não sabia tomar essa decisão, não sabia... Até essa noite. Quando, finalmente, depois de um momento trágico causado pela sua traição, o ponto central tomou a decisão entre o ponto esquerdo e o ponto direito. Ou seja... Tomei a minha decisão entre você e Draco, destruindo o maldito triângulo amoroso de uma vez por todas!

-Decisão... Então... Você sempre teve interesse... Por nós dois?

-Isso... Isso! É terrível, eu sei, mas é a mais pura verdade.

-Então... Você me traiu?

-Sim. Mas não traí o meu desejo. Compartilhava o mesmo sentimento pelos dois, então, não conseguia me decidir entre um de vocês. Algo tão horrendo como o episódio de hoje precisou acontecer para que abrisse os olhos.

Rony ficou em silêncio.

-É difícil de entender, mas... A sua decisão... Sou eu, claro...

-Não... – Mione chorava. Precisou de um esforço tremendo para pronunciar as três palavras seguintes.– É o Draco.

Rony arregalou os olhos, enquanto uma das lágrimas de Mione caia em seu braço...

Do lado de fora da saleta, no corredor, Clarissa olhava fixamente para a cabine Ou Vai ou Racha. Sua marionete estava lá dentro, aprisionada. Antes que fizesse qualquer coisa, ela precisava de Lorenzo ali.

Apressada, Clarissa caminhou pelo corredor em direção ao Cantinho de Amor e Pegação...


-Será que as garotas vão demorar muito? – perguntou Joyce, ansiosa, olhando pela janela. – Não há ninguém retornando... O Baile parece que ainda não foi encerrado, mas deve estar perto de terminar.

-Aff... Nem me fale nesse Baile... Maldito Baile! – Alone saiu do círculo e chutou uma cadeira.

-Nossa... Aconteceu mais alguma coisa de ruim neste Baile? – perguntou Lanísia.

-Ah tudo de ruim aconteceu neste Baile! – Alone estava revoltada. – Vocês falaram num possível suicídio do Draco, não é? Pois então... Hoje quase presenciei um ato sórdido desses, ao vivo e a cores.

-Minha nossa! – exclamou Serena. – E quem foi que...?

-Colin – as garotas ficaram boquiabertas. – Pois é, dá pra acreditar? Viu-me junto com o Harry, deu um ataque, depois saiu correndo e quase se jogou dentro de um abismo. Convenci-o a não cometer tal loucura, mas ele se desequilibrou, ficou pendurado pela minha mão e quase despencou lá embaixo...

-Espere um pouco – disse Joyce. – Ele viu você e Harry juntos, e isso fez com que ele fosse até a beira do abismo e quisesse se matar?

-Exatamente.

Joyce estalou os dedos.

-Ele gosta de você.

-Não...

-Ah, gosta sim.

-Que nada, Joyce. Ele não gosta de mim...

-Ah, se não foi por causa de você, só ia sobrar o Harry. E, a não ser que você acredite que o seu amigo Colin é gay, isso não faria sentido... – Joyce se interrompeu. – Você acha que ele é?

-Não! Ou melhor, talvez... – Alone balançou a cabeça em negação. – Faria sentido, mas é o que estive conversando com a Mione durante o Baile: eu não quero acreditar. Mas ainda vou tirar a prova que preciso.

-Já tem algum plano formado? – perguntou Serena.

-Ainda não, mas arranjarei uma forma de descobrir...

-Acho que você devia investigar a vida do Colin e ver até que ponto Harry está relacionado a ela – sugeriu Lanísia.

-Acha mesmo?

-Sim. Acredito que seja uma das poucas formas que você tem de descobrir se existiu algo entre eles, ou se apenas Colin gosta do Harry.

-E de que maneira eu poderia começar essa investigação?

-Vasculhando os pertences de Colin! Invada o dormitório masculino quando o salão comunal estiver vazio, e investigue pertence por pertence. Será necessário tempo, por isso nem pense em investigar agora que todos já devem estar retornando.

-A Lanísia às vezes me assusta – comentou Serena. – Cada idéia mirabolante que parece surgir aí dentro...

-Que nada – retorquiu Lanísia, sorrindo.

-Eu gostei da sua idéia... – disse Alone, pensativa. – Investigar, xeretar, vasculhar... Vou descobrir tudo, seja o que for que estiver escondido!!

-É isso aí, Encalhada! – exclamou Joyce. – Não espere a vida trazer a resposta até você: corra atrás dela!!

-O Baile também não foi muito bom para você, não é, Serena? – perguntou Lanísia, vendo que a amiga parecia pensativa, enquanto enrolava a ponta de seu cabelo loiro com o dedo.

-Não, Lanísia, foi... péssimo... Tive um encontro catastrófico com a Frieda...

-Cruz-credo! – Joyce estremeceu.

-...no qual ela fez revelações terríveis. Disse até mesmo porque me odeia tanto. E o motivo... O motivo desse ódio é o pior motivo que poderia existir...

-Mas o que é, mané? – perguntou Alone, já assustada pela palidez e expressão desnorteada da amiga.

-Eu e Lewis somos irmãos.

-O que?? – as Encalhadas presentes perguntaram, em coro.

-Exatamente – confirmou Serena. – Irmãos de sangue. Filhos do mesmo pai.

-Mas... Como isso é possível, Serena? – Joyce perguntou, enquanto abraçava a garota.

-Meu pai foi um caso antigo da Frieda. Ela foi professora dele, e ambos começaram a ter um caso. Na verdade, segundo ela, meu pai apenas a usou para que conseguisse ser promovido na escola.

-Olhe aí, hein, Lanísia – comentou Alone. – Se o Augusto ouve uma história dessas, vai achar que você só está querendo liberar tudinho aí para passar de ano...

-Há-há, muito engraçado, Srta Alone – debochou Lanísia. – Augusto sabe muito bem que o que eu sinto é sincero. Se for para ser promovida, só quero ser na escola da vida. De aluna a namorada, de virgem a promíscua.

-Ah, me desculpe, Lanísia, mas para promíscua você já foi aprovada há muito tempo... – comentou Alone, rindo. – E com louvor!

Lanísia ia retrucar quando Joyce a interrompeu.

-Ei, será que não dá para respeitar o momento ruim da nossa Encalhada aqui? – ela voltou às atenções para Serena. – Mas, querida, você tem certeza de que tudo o que Frieda lhe contou é realmente verdade?

-Absoluta. Ninguém mente daquela forma. Havia um nítido arrependimento na voz dela, acompanhado de muita amargura. Ela tem vergonha do que fez, de ter sido enganada pelo meu pai. Falar tudo o que ela falou hoje a noite vai fazer com que eu me afaste do Lewis, mas também abriu todas as feridas escondidas por ela mesma.

-Frieda é muito orgulhosa para admitir um erro – comentou Alone. – Com certeza foi por esse motivo que ela não foi logo revelando a você que vocês dois eram irmãos.

-Eu não sei não... – Joyce roeu uma unha, nervosa.

-O que? – perguntou Serena, ansiosa.

-Isso é um tanto estranho. Frieda, do nada, resolver contar tudo a você – ela olhou para as amigas. – Por que justamente hoje? Por que só essa noite? Por que, do nada, ela resolve contar o que podia ter contado há muito tempo?

-Joyce... O que está querendo dizer? – indagou Serena, tensa.

-Que não acho que esse seja um bom sinal... Desculpe-me, Serena, devia estar tranqüilizando-a agora, e não a apavorando, mas, para mim, isso indica que existe um mau motivo para Frieda revelar tudo isso. Ela está querendo aprontar alguma coisa...

-Ainda não enten...

-Serena, preste atenção: Frieda não admite um fracasso, e ter sido enganada por um aluno é um deles. Para ela admiti-lo, e na cara de uma inimiga, que é você, é porque ela tem algum trunfo na manga. Algo a fazer, algo que fará com que o fracasso seja esquecido e a fará erguer a cabeça logo em seguida. Serena...

Ela olhou fundo nos olhos apavorados da amiga.

-...Você precisa tomar cuidado nos próximos dias. Frieda Lambert vai fazer alguma coisa muito ruim, e o alvo, com certeza, será você.

Serena engoliu em seco, enquanto a sala comunal era envolvida por um silêncio tenebroso, fúnebre...


No Lorenzo´s, o Baile ia chegando ao fim. Os alunos e professores de Hogwarts já se preparavam para o retorno ao castelo. Walter, do balcão, observava a movimentação, satisfeito. O Baile tinha sido um sucesso...

O salário ali no bar era satisfatório, mas muito maior do que recebia quando trabalhava na mansão dos Lambert. Olhou para Frieda, que se encaminhava para as portas de saída junto com os outros professores.

Ela lhe prometera muito dinheiro... O que será que ele teria que fazer para que milhares de galeões fossem parar em seus bolsos? Algo dizia a Walter que não era nada muito bom...

Mas, tratando-se de dinheiro, tudo valia a pena... Ele mal podia esperar para agir e receber sua recompensa...

Dentro dos corredores do bar, Clarissa continuava a procurar o dono do bar e, antes que chegasse ao Cantinho de Amor e Pegação, a jovem encontrou Lorenzo, entrando apressado no corredor com uma toalha nas mãos. O dono do bar a fitou com a testa franzida.

-O que faz aqui, garota?

-Eu... Sou amiga da Hermione Granger, a garota que namora o rapaz que foi ferido... Ela contou-me tudo o que aconteceu... Terrível...

-Pois é... E tudo justamente na noite de inauguração do meu querido bar...

-Sinto muito – disse Clarissa, vendo a expressão de desapontamento de Lorenzo.

-Mas... Diga-me, sua amiga foi ver o garoto?

-Sim. Ela foi visitá-lo. Por isso vim atrás de você. Não sei não, Hermione está emocionalmente abalada, pode atrapalhar na recuperação do Rony.

-É, você tem razão... Vamos até lá.

Enquanto os dois se encaminhavam até a saleta, dentro dela Rony ainda tentava absorver tudo o que Hermione havia lhe contado.

-Então... você prefere... o Draco? Mesmo depois de ele ter quase... me assassinado?

-Sim... Mas, Rony, procure entender. Não podemos comandar os sentimentos! Sei que o que o Draco fez foi errado, mas é até compreensível...

-Compreensível? Tentar matar alguém... É compreensível? Desde quando?

-Rony, ele fez tudo isso por minha culpa! Draco, ao contrário de você, sabia que eu estava em dúvida entre vocês dois. Eu errei em tentar administrar uma dupla relação. Draco sempre morreu de ciúmes de você, então... Vendo que tinha uma oportunidade de tirar você do caminho para ficar só comigo... Ele fez toda aquela loucura... Mas, afinal, quem não comete loucuras ou faz besteiras por amor? Eu, por exemplo, errei ao tentar ficar com vocês dois. Draco errou dessa forma, apelando para a violência...

-E eu errei achando que namorava uma pessoa íntegra, sendo que, na verdade, estava entregue de corpo e alma a alguém que não se importa com os sentimentos dos outros!

Mione ficou sem fôlego; o ódio deu vigor a Rony, fazendo com que a fala dele voltasse ao normal.

-Rony, não fiz por mal...

-Assim como Draco também não fez, não é isso? Não é essa a lógica que você está seguindo, Hermione? Pois para mim ela não faz nenhum sentido!

-Mas eu espero sinceramente que passe a fazer. Rony, tenho um pedido a lhe fazer. É muito importante e peço que, ao considerá-lo, pense na amiga de tantos anos que você sempre teve ao seu lado, e não na namorada que fui nos últimos dias.

-Que tipo de pedido? – ele indagou, emburrado.

-Eu estou apaixonada pelo Draco, e quero ficar ao lado dele. Se ele fosse preso, isso seria terrível demais para mim...

-Ah, não me peça o que eu... Acho que você vai pedir...

-Sim, Rony! Peça a Lorenzo para que abafe o que aconteceu e não denuncie o Draco...

-Não, não...

-Por favor...

-Não dá...

-Rony – ela apertou a mão dele. – Por favor. Pela sua amiga! Não me faça sofrer mais do que já estou sofrendo...

Rony olhou fundo nos olhos de Hermione. Naquele momento, ele viu lá dentro um sincero desespero, uma angústia avassaladora, uma necessidade de que ele fizesse o que ela pedia. Ali estava a Hermione de tantos anos pedindo ajuda.

-Está bem... Não vou contar a ninguém...

-Oh – ela suspirou. – Obrigada...

-Mas, saiba de uma coisa; algo me intriga nisso tudo. Eu não sou um imbecil, e estou vendo que há algo não está certo. E eu vou tentar descobrir o que é que está errado, Hermione.

Naquele instante, a porta da saleta se abriu e Lorenzo entrou com a toalha nas mãos. Aproximou-se, aflito, e olhou para Mione.

-Hermione, sei que está preocupada, mas Rony não pode ficar abalado. Ele está em recuperação.

-Desculpe, Lorenzo – ela secou rapidamente as lágrimas com a manga do vestido. – Eu... Posso conversar com você por um instante?

-Se for rápido, claro.

-Tem alguma outra sala onde possamos falar a sós?

-Sim... Acompanhe-me...

Eles saíram, deixando Rony sozinho. A outra saleta ficava ao lado. Assim que os dois encostaram a porta, Clarissa, surgindo das sombras do corredor, caminhou a passos cautelosos até a cabine Ou Vai ou Racha...

-Lorenzo... – começou Hermione dentro da saleta. – Eu preciso pedir uma coisa a você, e Rony depois vai confirmar...

-O que é?

-Não denuncie Draco.

Do lado de fora, Clarissa girava a maçaneta da cabine e libertava a fera.

Draco, confuso, espiou para fora da cabine, procurando quem havia aberto a porta. Surpreendeu-se ao dar de cara com Clarissa, que o observava, ansiosa.

-Você? – perguntou Draco, sem esconder a surpresa.

-Sim – cochichou Clarissa em resposta. – Vim até aqui para abrir a porta da cabine antes que prendessem você.

-Oh, obrigado – agradeceu o garoto.

-Hermione está dentro dessa sala aqui, falando com o dono do bar. Já o garoto que você quis matar, o Rony, está se recuperando nessa sala em frente. Pobrezinho, está muito mal, mas parece que vai se recuperar...

-Vai, é? – perguntou Draco, tenso.

-Parece que sim... Bom, vou me afastar para que não saibam que eu o libertei. Por favor, Draco, nem um pio a ninguém. E nada de entrar na sala onde Rony está. Ele está sozinho e, se alguém o ver lá dentro, poderá achar que você está tentando terminar o serviço. Afinal, Rony está completamente vulnerável... Eliminá-lo agora seria muito fácil... – ela fez uma expressão de inocência e se afastou pelo corredor.

Bastou dar as costas ao garoto para que o sorriso maldoso de Clarissa surgisse em seu rosto. Após alguns passos, ela olhou para trás e viu que Draco havia desaparecido.

Marionete movimentada com sucesso...

Conversando, dentro da outra sala, Hermione e Lorenzo não ouviram nada, e nem imaginavam o que estava acontecendo.

-Eu posso entender o seu lado, Hermione, mas vou considerar o lado do Rony também – disse Lorenzo, torcendo as mãos. – Ele foi o principal atingido nisso tudo. Se ele quiser denunciar o garoto, vou ajudá-lo a colocar aquele moleque atrás das grades.

-É, eu entendo... – murmurou Mione. – Mas não pense que somente eu e Draco seremos beneficiados com o abafamento desse caso. Você também será, Lorenzo. Se tudo o que ocorreu essa noite for esquecido, o seu bar não estará amanhã em todos os jornais bruxos como o palco de um atentado horrendo a um adolescente. Se isso acontecer, o nome do seu bar ficará manchado para sempre. Ninguém voltará aqui... Os bruxos ficarão inseguros, os alunos de Hogwarts provavelmente proibidos de freqüentar o local. Será ótimo para o Lorenzo´s se tudo o que aconteceu aqui virar um segredo absoluto.

-Maldito moleque! – Lorenzo chutou uma cadeira. – Nunca imaginei que poderiam usar a minha Cabine para um propósito tão perverso e... maligno...

-Pessoas cruéis arranjam propósitos malignos para qualquer coisa, Lorenzo. Por exemplo, facas foram criadas para cortarem alimentos, e pessoas ruins as utilizam para ferir os outros. Qualquer coisa o ser humano pode transformar em algo maligno; você não tem culpa.

-É... acho que você tem razão...

E, na outra saleta, Draco provava que aquela teoria de Hermione era mais do que verdadeira. A sós com Rony, naquela sala fracamente iluminada, ele procurava algo que o ajudasse a terminar o serviço. Para sua sorte, Rony tinha os olhos fechados e parecia estar inconsciente. Draco passou os olhos pelo aposento... Finalmente, encontrou algo aparentemente inofensivo, mas que, visto por alguém com propósitos sombrios, poderia ser fatal.

Um travesseiro. Um simples travesseiro branco caído no chão.

Draco sentiu um friozinho de ansiedade na barriga. Apressado, apanhou o travesseiro. Segurou com força cada lado do travesseiro com cada uma das mãos. Decidido, já segurando o travesseiro em posição de ataque, aproximou-se de Rony... Do rosto de Rony... Das narinas de Rony... Para bloqueá-las... Para deixá-las sem ar...


Na sala comunal, o silêncio fúnebre continuou pairando no ar por um bom tempo.

Serena não ficou especulando sobre o que Frieda poderia aprontar, assim como nenhuma das garotas. Lanísia sentou-se e, sorrindo, comentou:

-Ah vocês não têm idéia de como foi divertido trocar de papéis com o meu professor... A aula de anatomia foi um sucesso...

-Que bom!! – exclamou Alone. – Então, rolou?

-Eh... Não...

-Não? – perguntou Joyce, chocada.

-Não...

-Ah não posso acreditar! – protestou Joyce. – Ele broxou, foi isso?

-Claro que não! O que você está pensando? Meu professor é muito viril e potente...

-Nem tanto quanto o meu garoto, Lanísia – retorquiu Joyce. – Eu tive mais uma visão do instrumento do Juca essa noite, e... Oh... – ela abanou-se. – Vocês tinham que ver... É enorme!

-Qual tamanho aproximadamente? – indagou Alone.

-Mais ou menos, assim – Joyce demonstrou com as duas mãos.

-Ohhhhhh – as Encalhadas disseram em coro.

-Pois é... Vocês sabem que eu já vi vários... E bota vários nisso... – ela sorriu, assanhada. – Quero dizer... Vi um bom número e, posso lhes assegurar, que isso é uma anormalidade!! Uma jóia rara!

-E você se aproveitou dessa jóia essa noite?

-Claro que não, Serena. Se tivesse aproveitado, essa hora eu não ia nem conseguir movimentar as pernas...

-Você não... Fugiu, fugiu? – perguntou Alone.

-Sim... Fugi... – Joyce suspirou. – Fiquei apavorada, imaginando o quanto seria doloroso aquilo tudo... E também pensava se ia sobreviver aquela coisa gigantesca.

-Você sempre soube que ele era superdotado – disse Alone. – Devia estar preparada...

-É, eu sei. Mas nunca imaginei que superdotado era aquilo tudo... Na hora que eu vi a sombra, percebi que não estou preparada como eu pensei. Vou precisar ler alguns livros, procurar uma técnica pra relaxar na hora e acomodar aquela pistola.

-Se a da Joyce precisa de treinamento pra acomodar, imagine as nossas – falou Alone, gargalhando.

-O que você quer dizer com isso, Srta Alone?

-Nada... É que a sua é um pouco mais aberta do que a nossa, usada pra caramba. Se a sua que já ta bemmm aberta não consegue agüentar o tranco... As nossas, puras, iam sofrer e muito.

-Seria um homicídio – comentou Serena.

-Atentado no meio das pernas – disse Alone. – Arma causadora da morte: o Pinto Assassino!!!

-Pinto? Aquilo lá está mais é pra galo... – falou Lanísia. – Vai ser desenvolvido assim lá na...

-Olha o nível da conversa descendo!! – alertou Serena, rindo.

-Falando em "descer"... Lanísia, ele não falhou mesmo?

-Que nada! De certo modo, quem falhou fui eu... Fui eu quem saiu do clima...

-Você? Saindo do clima? – Alone riu, desacreditando.

-Parece mentira, não é?

-Com certeza! Com o fogo que você sempre está...

-Mas foi isso que aconteceu: bem na hora de começarmos o ato em si, eu vi uma foto no meio das roupas dele. Na foto estava o Augusto com uma mulher e uma garotinha...

-Minha nossa!! Família dele? – perguntou Serena, de olhos arregalados.

-Não... Ou melhor, era. Eles não estão mais juntos. Mas, enfim, foi o que eu pensei na hora, o que fez com que eu me assustasse e saísse do clima.

-Pobre Augusto... – Alone suspirou. – Você corta o clima do professor bem na hora que a temperatura e outras coisas estão elevadas...

-Ah, mas o que eu poderia fazer?

-Acho que devia ir até a sala dele agora...

-Serena, não dá tempo de fazer qualquer coisa! O pessoal já deve estar voltando para o castelo!

-Você se infiltra rapidamente na sala dele! – sugeriu Joyce. – Ele tranca a porta e o céu pode desabar lá dentro que ninguém vai interrompê-los!

Lanísia coçou o queixo, pensativa.

-Não deixe que essa noite termine sem nenhum acontecimento extraordinário só por causa de uma foto – falou Serena.

Lanísia levantou-se e ajeitou o vestido vermelho.

-Tudo bem, vou até lá... Se não voltar, vocês já sabem o que aconteceu...

Dando aquele seu sorriso travesso, Lanísia saiu da sala comunal e tomou o caminho até a sala do professor Augusto. Por sorte, o castelo continuava deserto.

Será que ele já havia voltado a sua sala? Ou ainda estaria na Sala Precisa, deitado sobre os edredons, imaginando como seria se a aula de anatomia tivesse sido concluída?

Assim que se aproximou da sala do professor, Lanísia colou o ouvido a porta, para ver se conseguia captar algum movimento lá dentro. Não só captou movimento, como também vozes. Não apenas a voz grave do professor, mas também uma fina voz feminina...

-Não sabe como sinto falta dela – dizia Augusto naquele instante.

-Ela também sente muita falta – respondeu a mulher. – Nossa, Augusto... Não sabe como tudo está sendo difícil para nós... Preciso urgentemente de ajuda...

-Posso imaginar, Rebecca... Já ofereci a minha ajuda, mas você não quer aceitar...

-Não quero mesmo, Augusto. Sempre consegui o meu dinheiro com o suor do meu rosto, e assim quero continuar. Sei que não existem muitas oportunidades de emprego, mas vou encontrar uma vaga.

-Espero sinceramente que consiga – disse ele. – Agora... Cadê a Karen? Já subiu?

-Já. Levou um pedaço gigantesco do bolo de chocolate lá para cima e, a essa altura, deve estar toda lambuzada – a mulher riu.

-Que bom... Então, acho que era só isso... – Augusto tossiu. – Boa noite, Rebecca.

-Boa noite.

Lanísia abriu a porta, a tempo de ver o rosto da mulher desaparecer dentro da lareira. Augusto voltou-se para a porta e, ao vê-la ali, com cara de poucos amigos, apanhou o lenço do bolso e secou a testa.

-O que foi, Lanísia?

-Achei que não havia mais nenhum contato com elas.

-Claro que existe! Rebecca é mãe da minha filha!

-Vocês fazem encontros noturnos com freqüência?

-Não... Acontece que estava com saudades da minha filha, e a nossa conversa sobre ela só fez com que a vontade de vê-la e ouvi-la aumentasse. Tem algum problema em manter contato com a minha filha?

Lanísia observou-o calada; depois, suspirou bem devagarinho, dando um tapa estalado na testa.

-Não... Problema algum... Desculpe, Augusto.

-Você precisa se controlar mais.

-É, eu sei. É que a idéia de uma mulher perturbando a minha vida, pairando entre nós dois como um fantasma, me deixa louca...

-Procure esquecer isso – ele aproximou-se e a abraçou, trazendo-a para perto de seu corpo. – Rebecca é passado. Não tem maneira alguma de ela voltar a fazer parte da minha vida.

Lanísia levou a mão a uma das coxas do professor e a apertou; algo dentro da calça se movimentou imediatamente.

-É... Acho que ainda sou eu quem tem o toque mágico. Eu toco no seu corpo, algo acontece. Algo se movimenta.

-Ia se movimentar muito mais aí dentro de você.

Lanísia ficou boquiaberta.

-Nossa, Augusto... Que comentário foi esse? Sabia que não estou te reconhecendo nos últimos dias?

-É o desejo... O desejo por você que me enlouquece... – ele começou a beijar o pescoço da garota. – Você é uma safada. Veio terminar o que não conseguimos encerrar na outra sala, não foi?

-Você se acha mesmo... – Lanísia riu, um calafrio de excitação percorrendo cada poro de seu corpo. – O que o faz pensar que eu vim até aqui para me entregar a você?

-Sinto o cheiro da vontade subindo no ar – respondeu Augusto. – Tudo indica que você está pronta e desejosa de que eu suba em você e termine o serviço.

-Abusado...

-Assanhada...

Augusto foi empurrando Lanísia em direção a sua mesa. Ele colocou-a sobre a mesa, de pernas abertas, e subiu no meio, enquanto a cobria de beijos calorosos.

Lanísia, sentindo um suor quente envolver seu corpo, entregava-se ao momento, deixando com que o homem sobre seu corpo agisse da maneira que quisesse.

-Sou o seu parque de diversões... Faça o que quiser... – sussurrou ela. Deu sua risada de garota levada e, colando-se ao ouvido do professor, sussurrou. – Não quer entrar na montanha-russa?

-Adoraria... – respondeu Augusto.

Ia baixar o zíper da calça quando alguém gritou:

-Augusto!!!

Lanísia, por instinto, escondeu seu rosto, colando-o ao peito de Augusto. O professor, que estava sobre ela, virou-se imediatamente.

Dentro da lareira, pairava o rosto chocado de Rebecca.


Draco se aproximava cada vez mais. Não havia hesitação em seu caminhar; ele ia veloz, ágil, sabendo que cada segundo era precioso. E... Lá estava...

Lá estava o seu rival, totalmente vulnerável, como Clarissa havia falado. Daquela maneira, fraco como aparentava estar, não ofereceria nenhuma resistência. Ia se entregar à morte...

Draco posicionou-se e, segurando as dobras do travesseiro com força, aproximou-o do rosto de Rony...

-DRACO! – o grito de Hermione encheu o aposento, ecoando pelas paredes.

Ela escancarou a porta; Draco imobilizou-se. Mione correu até ele e o abraçou, tirando o travesseiro das mãos do rapaz no mesmo instante. Em seguida, Lorenzo surgiu, assustado.

-Pelas barbas de Merlim, que grito foi esse?

-Desculpe... – falou Mione, deixando o travesseiro cair no chão as suas costas. – Fiquei um tanto surpresa com a presença do Draco aqui no quarto... Acho que está arrependido e veio fazer uma visita, não foi isso?

-S-sim – gaguejou Draco, sem compreender. – Claro...

-Quem libertou você? – perguntou Lorenzo.

-Não sei... Do nada, a porta da cabine se abriu, e... eu saí...

-Que grito foi esse? – perguntou Rony, que havia despertado com o berro de Hermione.

Ele movimentou a cabeça para o lado. Assim que os seus olhos pousaram em Malfoy, a expressão tranqüila de Rony deu lugar a uma expressão de ódio.

-O que faz aqui? – Rony perguntou, irado.

-Draco veio apenas ver como você está, Rony – Mione respondeu. – Ele está profundamente arrependido de tudo o que fez...

Draco ainda estava desnorteado, fitando Hermione sem compreender coisa alguma. Ela o havia flagrado numa nova tentativa de assassinato, e agora vinha com aquela de que ele estava arrependido? E o que tinha significado aquele abraço apertado e as mãos dela sobre as suas?

-Ah é, imagino como ele deve estar... arrependido...

-Rony... – Mione largou as mãos de Draco e agachou-se ao lado da mesa. – Já falei com Lorenzo. Pedi a ele que não denunciasse Draco, e disse também que essa é a sua vontade... – Mione olhou para o dono do bar, que observava tudo, de braços cruzados, ao lado da porta. – Rony... Você quer denunciar o Draco a direção da escola?

Rony engoliu em seco antes de responder. Ali, deitado na mesa, fitando Hermione, imensos fragmentos de lembranças vieram a sua mente, pequenos flashes de tempos melhores e mais felizes. A primeira viagem de trem a Hogwarts... Os vários anos de amizade... O primeiro beijo trocado entre o casal, diante da imensa fogueira...

Esforçando-se para agir da maneira que Hermione esperava, Rony respondeu:

-Não... Não denunciem o Draco...

Lorenzo concordou com a cabeça e sorriu.

-Se é assim que a parte que mais sofreu nisso tudo acha que é o certo, é assim que será feito. O atentado que ocorreu hoje à noite, aqui no Lorenzo´s, passa a ser um segredo entre nós. Porém, Rony terá que passar a madrugada em repouso, e terá que ficar uns quatro dias sem comparecer as aulas. Espero que criem uma boa desculpa para isso.

-Pode deixar, arranjaremos – disse Rony.

Hermione viu que ele observava o comportamento dela e de Draco. Era chegado o momento de fazer com que a mentira se transformasse em verdade através de um ato. Enlaçando o pescoço de Draco, ela o puxou para perto de si e o beijou. Draco ficou sem reação por alguns segundos, incapaz até mesmo de movimentar os lábios diante da surpresa; depois, começou a acompanhar os movimentos labiais de Hermione, e ambos entraram em perfeita sincronia, criando um beijo ardente e intenso.

Rony fechou os olhos com força. Já vira o suficiente...

Na porta, Clarissa surgiu. Imobilizou-se ao presenciar o beijo entre Draco e Hermione. Rony continuava vivo, Draco beijava Hermione... A última cartada fracassara.

Clarissa ardia em fúria. Sua marionete estava conseguindo o que queria; tendo Mione para si, Draco nunca mais tentaria matar Rony, nunca mais se movimentaria segundo os seus conselhos...

Ela sabia que aquele não era um beijo sincero, que era tudo uma farsa; ela só tinha que arranjar um meio para que Draco percebesse isso. Como? Ela ainda não sabia responder...

Em poucos minutos, as garotas se misturaram a multidão que saía do Lorenzo´s e retornava ao castelo de Hogwarts. Mione, fora do alcance do olhar de Rony, caminhava ao lado de Draco, mas sem dar espaço a amassos ou carícias. Apenas estavam de mãos dadas, sendo alvos de diversos comentários maldosos e cochichos de fofoqueiros. Mione, estática, caminhava como se estivesse trajando uma armadura, que a impedia de ser atingida por esses comentários. Mas estava muito ferida por dentro; a armadura era apenas uma fantasia.

Ali, sendo envolvida pela brisa noturna, Hermione pensava que nada seria como antes... Depois daquele Baile, tudo seria diferente... E realmente seria...


-Rebecca! – Augusto exclamou. Apertou o rosto de Lanísia contra o seu peito para protegê-la do olhar curioso da sua ex-esposa.

-Mas o que... O que significa isso?

-Nada... Sou um homem solteiro, não sou, Rebecca? Isso não me dá o direito de levar para a minha cama quem eu quiser?

-Sim, mas... Aí é uma escola!!

-Não sabia que as escolas pregavam a abstinência – Augusto disse, irônico. – Quer dizer que professores não podem fazer amor?

-Depende... Se não for nenhuma aluna...

O coração de Lanísia deu um salto.

-Não, Rebecca, não é nenhuma aluna...

-Acho bom... Afinal, você sabe que esse é um relacionamento proibido...

-Por favor, Rebecca, nenhuma demonstração do seu comportamento "certinho" a essa hora da noite! Não é nenhuma aluna e, mesmo se fosse, você não teria nada a ver com isso, pois não é a inspetora de alunos dessa escola! – Rebecca não respondeu; Augusto continuou. – Agora posso saber por que voltou?

-Karen está aqui ao meu lado, e pediu que eu o chamasse novamente. Mas não se preocupe. Vou informar a ela que o papai anda ocupado.

Rebecca tinha um estranho desprezo na voz.

-Não... Deixe-me falar com ela... Eu...

Antes que Augusto pudesse argumentar, o rosto de Rebecca sumiu entre as chamas. Ele deu um soco na mesa, enquanto Lanísia erguia o rosto, abandonando o seu esconderijo.

-Droga! – protestou Augusto.

-Bem enérgica ela, hein?

-Sim. Rebecca é professora, e já foi inspetora de alunos em uma escola. Ela inspecionava o comportamento dos estudantes. Anos de trabalho a deixaram dessa maneira, uma espécie de "ditador estudantil".

-Será que não eram... ciúmes?

-Não... Você não conhece Rebecca como eu conheço. O valor que ela dá as regras é maior do que qualquer outra coisa. Ela é capaz de esquecer qualquer parentesco ou amizade no momento de seguir o que ela acha que é o certo.

-Inspetora... Diga para mim que essa mulher nunca virá trabalhar em Hogwarts?

-Claro que não. McGonagall está satisfeita tendo apenas Filch como uma espécie de inspetor. Nunca ia contratar Rebecca...

Lanísia respirou fundo.

-Bom, duas interrupções abruptas numa noite só, é muita coisa para a minha cabeça – ela desceu da mesa. – Querido professor, acho que essa não é a nossa noite mesmo.

-Tem certeza? Não quer terminar?

-Não, depois de tudo isso não. Mas tenho certeza que a oportunidade certa virá. Virá ao nosso encontro e a aproveitaremos muito.

Ela o beijou.

-Vou indo antes que todos voltem. Boa noite, querido professor.

-Boa noite, querida aluna.

Lanísia encostou a porta ao sair, deixando na sala o rastro de seu perfume arrasador. Naquela noite, Augusto perdeu a conta de quantas vezes xingou Rebecca por conta de sua aparição repentina.


Lanísia encontrou a multidão que retornava ao castelo. No meio da multidão que subia a escadaria de mármore, ela avistou Hermione e Clarissa, que subiam as escadas em silêncio. Lanísia correu até elas e perguntou:

-E aí? Como foi?

-Péssimo – respondeu Hermione. – Mas o problema foi resolvido. As Encalhadas não correm mais perigo.

-Ah que bom! – Lanísia sorriu. – Você falou com o Draco?

-Sim. Você está diante da nova namorada de Draco Malfoy!

Hermione falou de modo tão frio que Lanísia resolveu seguir o silêncio que Clarissa mantinha. As três não trocaram nenhuma palavra durante o caminho até o salão comunal da Grifinória, ao contrário de todos os outros estudantes, que voltavam falantes e animados do Baile que havia ocorrido.

Elas encontraram Joyce, Alone e Serena sentadas ao redor de uma mesa, conversando em voz baixa. Todas se calaram no momento em que elas chegaram, e todos os olhares convergiam diretamente para Hermione.

-Foi tudo resolvido – disse a garota, sem sorrir. – Rony e Lorenzo não denunciarão Draco.

Houve três suspiros simultâneos.

-Agora basta seguir com a farsa e Draco nunca mais tentará fazer mal ao Rony – falou Mione, olhando para o chão, cabisbaixa.

-Mione... – Joyce passou um braço pelo ombro da amiga. – Vamos encontrar uma solução melhor depois de um tempo, você vai ver...

-Você não é a única que está colhendo frutos ruins com a Fogueira – disse Serena. – Eu também não estou muito bem. Terei que abrir mão do meu amor por Lewis porque descobri que ele é meu meio-irmão – Mione soltou uma exclamação de surpresa. – Pois é... Agora não sei como lidar com essa situação. Lewis irreversivelmente apaixonado por mim por causa da Fogueira, e tendo o meu sangue nas veias. E é uma situação bem parecida com a sua. Se eu o deixar, ele pode até mesmo se matar de frustração; no seu caso, se você deixar Draco, ele pode matar Rony.

-Nunca devíamos ter armado a Fogueira das Paixões... – murmurou Hermione.

-Pelo menos, no meu caso, ela só tem rendido bons frutos... – disse Alone.

-Como assim? – indagou Serena. – Colin quase se matou essa noite porque viu você com o Harry!

-É... Mas...

-Mas nada! Quase ter causado o suicídio de alguém é algo muito grave!

-No meu caso é que não houve nenhuma surpresa ruim – falou Joyce. – Exceto que o passarinho do Juca é maior do que eu esperava, precisarei encontrar uma maneira de agüentar o tranco... Mas só isso...

-E a Clarissa jogou um papel em branco, mas não ama mais Malfoy. Portanto, se tivesse jogado o nome dele no fogo, teria se arrependido... Enfim, de certa maneira, deu errado para todas nós, e fico pensando se mais coisas ruins não vão acontecer em conseqüência disso – falou Mione. Ela bocejou. – Acho melhor irmos descansar. Não vejo a hora de ver o amanhecer e constatar que essa longa noite teve fim.

-É mesmo... Foi uma noite terrível – falou Lanísia.

-Tantas coisas acontecidas... E nessa noite corremos o risco de sermos mandadas para a cadeia... – disse Alone.

-Foi um Baile muito marcante... – Serena estava pensativa. – Nunca vamos esquecê-lo...

-Foi o "Baile de Nossas Vidas" – falou Joyce.

Em seguida, as Encalhadas subiram para o dormitório, para repousarem e finalmente colocarem um fim aquela longa noite, a qual elas não esqueceriam jamais...


O dia seguinte amanheceu radiante.

Era um domingo. Um belo domingo de sol. Exaustos pela longa noite, todos os estudantes e professores nem pensavam em acordar antes do meio-dia.

Exceto um deles. Ou melhor, uma. Uma professora que tinha coisas muito importantes a fazer. Coisas que ninguém podia saber. Qual o melhor momento do que a manhã após uma festa de arromba?

Frieda Lambert levantou-se de sua cama e arrumou-se elegantemente, como sempre. Apanhando a sua bolsa de pele de onça, Frieda saiu do dormitório e caminhou tranqüilamente pelo castelo. Foi diretamente aos jardins; os assuntos que ia resolver estavam bem longe da escola. Frieda só parou de caminhar quando saiu dos limites de Hogwarts onde, finalmente, podia desaparatar.

Rapidamente, em um estalo, ela saiu da estrada e foi parar na mansão dos Bennet. Mais especificamente dentro do quarto de Brian Bennet.

Brian acordou com o craque produzido pela aparição de Frieda. Estava sonolento, mas a simples visão da megera o fez despertar rapidamente, apanhando os óculos na mesinha de cabeceira e arregalando os olhos.

-Frieda!! – exclamou, apavorado. – O que faz aqui?

-Relaxe, Brian – disse Frieda, com um gesto de desprezo. – Achava que já havia implantado feitiços que não permitissem que bruxos aparatassem em sua residência, mas, pelo que vejo, continua o mesmo preguiçoso e idiota de sempre; acha que nada de mal pode acontecer com você.

-Depois da derrota de Você-Sabe-Quem, não é preciso mais tantos cuidados...

-Engano o seu. Acha o que, Brian? Que somente Voldemort era cruel? Que após a derrota dele qualquer tipo de maldade teve fim? Não, meu querido. O mal sempre existiu e sempre vai existir. Alguns são destruídos, mas sempre nascem outros. Não há como negar isso.

-Chega de suas filosofias e seja direta, por favor... Logo a Florence vai subir e...

-Não precisa se preocupar. Serei breve.

Frieda abriu a bolsa de pele de onça e tirou um papel pardo de dentro dela.

-Eu preciso apenas que você assine isso aqui.

Ela estendeu o papel para Brian, que o apanhou, com a testa franzida.

-E posso saber o que é isso?

-Não interessa – respondeu Frieda. – Preciso apenas de sua assinatura.

-Ah, e você acha que eu vou colocar a minha assinatura em um documento que não sei qual é?

Frieda suspirou.

-É apenas um documento que autoriza a sua filha, Serena, a ir até uma viagem a América que Hogwarts está organizando.

-Serena não comentou nada conosco...

-Se está desconfiando, Brian, leia o documento! – Frieda estava perdendo a paciência.

Brian olhou para o papel; aquelas milhares de letrinhas miúdas ofuscaram seus olhos. Ainda um tanto desconfiado, molhou uma pena em um tinteiro.

-Saiba que se estiver aprontando alguma, vou descobrir. À noite vou comunicar-me com a diretora McGonagall para saber se esse documento e essa história de viagem são realmente verídicos.

Brian deslizou a pena pelo pergaminho e deixou registrada a sua assinatura. Em seguida, entregou, para uma Frieda triunfante, o documento.

-Oh! Obrigada, Brian!!

-Não precisa agradecer... Agora, suma daqui logo! Florence deve aparecer logo, logo...

Frieda desaparatou. Em um segundo, já estava novamente na estrada de Hogsmeade. Um sorriso crispou seus lábios, enquanto ela passava os dedos pelo documento.

-Isso, Brian, bom menino... – murmurou ela. – Pena que você não terá tempo de comunicar a McGonagall que eu levei um documento para que você assinasse... Tolinho...


Alone foi a primeira das Encalhadas a acordar. Já arrumada para o domingo, com uma blusinha de alcinha rosa, ela desceu para a sala comunal. Para sua agradável surpresa, Harry estava lá, sentado em uma poltrona e olhando bem em sua direção, como se estivesse a sua espera.

-Harry? – ela perguntou, sorrindo. – O que faz aqui tão cedo?

-Olha como você ri... Como fica satisfeita em ver que está me enlouquecendo... Não consigo entender qual é o prazer maligno que existe nisso!

-Harry... – Alone aproximou-se, fingindo que não entendia o que ele estava dizendo. – Quem disse que eu gosto de enlouquecer você? Nunca, nunca faria uma coisa dessas...

-Não finja que não sabe do que estou falando! – ele exclamou. Levou as mãos aos ombros de Alone, com força, e começou a empurrá-la para trás. Alone, sem ação, arregalou os olhos.

-Harry, o que você está fazendo?

Harry não respondeu; continuou a empurrá-la, decidido, até a parede.

-Harry...

Ele encostou Alone na parede, fechando o caminho dela com o seu próprio corpo.

-Você está me fazendo mal... – ele falou. – Tenho sonhos com você, pensamentos, ilusões... Todos muito quentes.

-Harry, eu não...

-Você me provoca, Alone! Provoca e depois vai embora! E eu sinto como você fica feliz quando vê que isso acontece! Que eu estou em suas mãos!

-Mas...

-Sem "mas". Se você fica nesse jogo de "mostra-não-mostra", "faz-e-não-faz" só para me torturar, eu vejo que preciso conseguir o que quero dessa forma... Prensando-a...

-Har...

Ela não conseguiu terminar a frase; com as mãos, Harry prendeu os pulsos da garota e deu-lhe um beijo roubado. Alone se remexia, incapaz de lutar contra as forças de Harry. E, de certa forma, a brutalidade e a audácia do garoto a fizeram amolecer, adorar e querer conservar por muito tempo aquele momento inesperado...

Paf!

Harry parou no mesmo instante; olhou na direção do ruído com os olhos arregalados, assim como Alone.

A poucos metros dos dois, Colin Creevey estava parado, os olhando, com um monte de caquinhos de vidro caídos a sua frente, e com as mãos cheias de cortes e cobertas de sangue.


NA: Esse capítulo é dedicado ao meu sobrinho Marco Aurélio, que veio ao mundo no dia 6 de fevereiro de 2007.

Ao meu tio Antônio, que deixou o mundo no dia 14 de fevereiro de 2007.

E ao garoto brutalmente assassinado no Rio de Janeiro. Como diz Frieda Lambert, a maldade sempre vai existir. Não sou nada para mudar essa violência das cidades; você que está lendo, também não; unidos, somos tudo.