CAPÍTULO 18

Marionetes que manipulam

Algumas pessoas manipulam outras para atingirem seus objetivos. Às vezes, o manipulador perde o controle...

-NÃO FAÇA ISSO, MALFOY!

...e em alguns casos a marionete "dá o troco"...

-Você descobriu? – perguntou Ted.

-Mas o que significa isso?

...estava na hora daquele monstro receber o que merecia...

...e no meio de marionetes e manipuladores, outras coisas acontecem...

-Minha nossa... Acho que vou desmaiar... – Joyce levou a mão à testa.

-Diga que eu faço; diga que eu mostro...

Era hora da vingança...


Ted suspirou ao terminar de tomar o seu champanhe. Estalou os lábios, sorrindo para Lanísia.

-Delicioso.

-Também acho – ela respondeu, sem conseguir tirar o sorriso do rosto.

-Então, está se divertindo? – perguntou Ted, depositando sua taça ao lado da bandeja com biscoitos.

-Por enquanto, não... Mas essa noite promete ser muito divertida. Você não faz idéia, Ted...

-Humm... Posso saber o que será tão divertido?

-Daqui a pouco você saberá... Aliás, segundo o que me foi ensinado, a diversão, para mim, é claro, deve começar a qualquer momento, está até demorando um pouco...

Ted franziu a testa e perguntou:

-Do que está falando, docinho?

-Da Poção do Sono!! – o rosto de Ted ficou tenso; Lanísia falava com calma e com desdém. – Mas acho que está demorando um pouquinho porque você não colocou muita poção no champanhe, não foi? Senão eu poderia ter visto as bolhas azuis...

Naquele instante, os olhos de Ted reviraram-se e ele bocejou.

-Você descobriu? – perguntou, enquanto abria a boca.

-Pois é... A noite seria muito animada para você, não é, Ted? Peço desculpas por estragar a sua noite. Mas, pense bem, não será tão ruim assim. Será bom descansar por horas e horas...

-Sua... – ele não conseguiu terminar; com os olhos revirando-se, Ted desabou no sofá, de boca aberta, um fio de saliva escorrendo pelo canto dos lábios.

-Bons sonhos, babaca – disse Lanísia, cuspindo no rosto do bruxo. Levantou-se e largou sua taça de champanhe ao lado da taça de Ted. – Que nojento... O que pretendia, afinal? Abusar de uma garota adormecida? Eu, hein, é cada tipinho que me aparece...

Lanísia examinou a loja, olhando atentamente para cada um dos manequins.

-Vejamos... O que será que usarei para essa noite?

Todas as lingeries eram magníficas, mas Lanísia descartou várias devido a cor. Ela procurava uma linda lingerie com a cor que mais gostava de usar... a cor que considerava mais sensual...

-Vermelho-Lanísia... – murmurou, enquanto examinava as peças vermelhas. – Qual delas?? Com qual ficarei mais linda?

Acabou decidindo-se por uma que estava em um manequim de destaque, próximo à entrada do Bruxetes – com certeza uma das peças mais caras da loja. Vestiu-o, olhou-se no espelho e ficou encantada.

-Quente!! Muito quente! – apressada, vestiu a roupa com que fora até a loja por cima da lingerie. Antes de sair, olhou uma última vez para Ted. – Vou pegar uma lingerie emprestada, queridinho. Trago antes de você acordar; você nem irá perceber. Ah, Ted, obrigado pela sua burrice... Graças à sua idiotice, terei a minha noite com o meu professor, e, o melhor, de lingerie novinha!!

Apertando a bochecha de Ted, Lanísia gargalhou e saiu do Bruxetes. Era hora de encontrar-se com o seu professor... Hora de rumar para a tão sonhada primeira noite...


No Lorenzo´s, a Festa Proibida ia muito bem.

Os jovens dançavam as músicas agitadas, tocadas pela banda "seminua"; alguns já se encontravam bêbados – a variedade de bebidas era tão grande que muitos se animavam e passavam do ponto com facilidade; o amasso já corria solto por diversos cantos do salão; era possível ver garotas caminhando sem blusa, de sutiã à mostra; até mesmo casais praticando certos atos em alguns cantos – atos "indecentes" em qualquer outro lugar, menos ali, onde o indecente tornava-se perfeitamente normal.

No meio do salão, Clarissa examinava Rony. Rony, o príncipe negro destruidor de corações. A erva daninha que se instalara em seu coração, e por isso devia ser extirpada, arrancada pela raiz, sem dó nem piedade, sangrando por todos os lados, para pagar por sua intrusão. Precisava cortar a erva maldita...

-Clarissa...

-AH! – ela gritou, sobressaltada; era Joyce. – Que susto, garota!

-Eu hein... Às vezes você fica meio estranha... Pensativa demais...

-Agora é pecado pensar?

-Calma, não precisa ficar nervosa! – Joyce sorriu. – E então? Vai à caça hoje à noite??

-Acho que não...

-Larga de ser boba, menina! Cheio de rapazes solteiros nesse salão e você vai ficar aí, sozinha?

-Esqueceu que eu estou apaixonada? Lembra que eu disse que amo o Malfoy?

-Claro que lembro... Mas, você sabe, isso é impossível. Malfoy só tem olhos para a Hermione, por causa da Fogueira e...

-...e de certa maneira fui eu que provoquei isso...

-Sem querer.

-Mas foi. – Clarissa fingiu tristeza; se manipular sentimentos alheios já era fácil, os próprios sentimentos eram mais fáceis ainda. – Vamos mudar de assunto, por favor??

-Sim... Desculpe... – ela examinou o ambiente. – Você viu o Juca por aí?

-Não...

-Queria vê-lo... Vou atrás dele! Até!

Joyce afastou-se. Clarissa olhou novamente para Rony e surpreendeu Hermione, que estava parada próxima ao palco, olhando para o rapaz. Estava na hora de unir os dois pombinhos...

Clarissa aproximou-se e passou um braço pelo ombro de Mione.

-Não tem jeito mesmo, não é? Quando amamos de verdade uma pessoa, não temos olhos para mais ninguém.

Hermione sorriu, um sorriso fraco, um pouco deprimido.

-Sim, tem razão...

-Fale com ele.

-Não... Sabe que não posso. Joyce ficaria uma fera se soubesse que fui até o Rony outra vez...

-Mas, Mione...

-Clarissa, sei que procura a minha felicidade e, mais uma vez, agradeço por isso. Mas sabe o quanto são perigosas as conseqüências que eu ao lado de Rony posso provocar. A descoberta da Fogueira... O enlouquecimento do Draco...

-É, desculpe. É que é tão desesperador ver uma linda história de amor como a de vocês ser desfeita por esses problemas.

-Também acho. Mas não tenho escolha – ela fitou Rony com os olhos que começavam a encher-se de lágrimas.

Ele flagrou aquele olhar triste e apaixonado lançado em sua direção; Rony franziu a testa, enquanto Mione secava rapidamente os olhos. Para seu pavor, Rony levantara-se de sua mesa e vinha apressado em sua direção.

-Droga...

Desviando-se da multidão de alunos, Hermione entrou na parte de trás do palco, procurando ocultar-se. Atrás das sombras que o palco de madeira lançava, ela encolheu-se, trêmula, as lágrimas rolando sem parar pelo rosto. Era um lugar muito óbvio para esconder-se, e ela só tomou consciência disso quando foi erguida à força pelas mãos de Rony.

Havia determinação no rosto do rapaz... Era evidente mesmo naquela semi-escuridão...

-Vi muito bem o olhar que lançou para mim... E... Essas lágrimas... – ele passou um dedo e secou-as. – Você está sofrendo, Hermione. E ainda me ama.

-Isso não tem nada a ver...

-Não adianta dizer que não! Está chorando. E eu sei que é por mim!

-Rony, não...

-Hermione, por que foge de mim? Por que não quer mais estar ao meu lado mesmo me amando? Diga o que foi que eu fiz de mal a você, onde eu errei!

-Não foi um erro seu...

-Se não foi meu, foi seu? – ele esperou uma resposta; Mione ficou calada, sem chorar, apenas olhando-o. – Ótimo... Você não vai falar... – ele esfregou os olhos. – Por que esse medo em responder? Tento pensar no motivo desse medo e não consigo encontrar nenhum!

-Eu...

-Não, Mione, sem mais desculpas! Você me ama, você me quer; seu corpo, seu ser, tudo em você diz isso claramente. Mas algo a faz não querer namorar comigo – ele ergueu o rosto dela pelo queixo com uma das mãos. – Por favor, diga-me o que está acontecendo. Seja o que for, eu vou entender. Juntos poderemos encontrar uma saída.

Do meio da multidão, Clarissa espiava o momento íntimo do casal, escondidos na penumbra. Draco passou um pouco mais à frente; Clarissa correu até o garoto.

-Olá, Draco.

-Oi... Viu a Hermione por aí?

-Vi sim. Ela está atrás do palco...

-Hum... Obrigado. Vou até lá encontrar a minha namorada – ele falou com um certo desdém.

-Pode não ter acreditado em tudo o que eu lhe disse, Draco, mas os próprios fatos farão com que você acorde desse devaneio. Ela ainda ama o Rony. Vá até atrás do palco para conferir.

O rosto de Draco perdeu a cor no mesmo instante; tenso, ele correu até o fundo do palco, cego pelo medo, cego pela ira...

Surpreendeu Rony e Hermione, olhos nos olhos, cabeças bem próximas. Ele com a mão no queixo dela. Momentos românticos atrás do palco...

Momento horrível para Draco Malfoy. Todo o seu íntimo encheu-se de desgosto, de tristeza, de derrota. Ver a garota que amava mais do que a si próprio, a garota com quem vinha sempre sonhando nas últimas noites, a garota que acreditava ter conquistado, trocando carícias com o ex, era o fim... O fim de tudo... Era uma dor tão potente que atravessou a alma e tocou o coração... Tudo estava perdido...

Sem tirar os olhos do casal, Draco puxou um canivete do bolso. Apertou um botão ao lado do cabo e a lâmina saiu.

Clarissa não podia acreditar... Ia sair melhor que a encomenda...

Draco ficou segurando o canivete ao lado do corpo por mais alguns segundos; e, do nada, deu as costas para o casal e correu, desesperado, pela multidão.

-O que? – perguntou Clarissa, a pergunta saindo em voz alta sem querer, devido à surpresa.

Draco tomava o rumo contrário do que ela esperava... Mas, então, por que o canivete? Por que aquela arma se não ia avançar em Rony? Por que...

-Oh... não... – balbuciou a garota, assim que percebeu o que Draco queria fazer; a quem Draco queria atingir... – Ele vai se matar...

Apavorada, Clarissa começou a atravessar a multidão, indo no encalço de Malfoy.


Draco subiu as escadas, saindo do salão subterrâneo; Clarissa seguiu-o, temendo perdê-lo de vista quando saísse do salão. Se isso acontecesse, Draco seguiria em frente, tiraria a própria vida, e ela perderia a sua principal marionete.

Ao terminar as escadas, Clarissa olhou ao redor, apavorada. Viu uma sombra desaparecendo pelo Cantinho de Amor e Pegação; seguiu-a. Com o coração acelerado, martelando em seus ouvidos, ela chegou ao Cantinho e flagrou Draco, sentado no chão, aos prantos, com um pulso estendido e o canivete, com sua lâmina afiada, sendo aproximado pela outra mão, sem hesitação alguma...

-NÃO FAÇA ISSO, MALFOY! – ela berrou; o susto foi tão grande que Draco derrubou o canivete no chão.

-Clarissa... O que faz... aqui? – ele ofegava, sem fôlego.

-Vim impedir que cometesse essa loucura!

-Loucura? – ele perguntou, como se estranhasse aquele termo; seus olhos vidrados focalizaram Clarissa com estranheza. – Loucura é amar e não ser amado, isso sim causa loucura! É como se tudo fosse destruído... Nada mais importa se ela não me quer, nem mesmo a minha vida importa!

Clarissa, intrigada, aproximou-se do rapaz. Agachou-se ao seu lado, examinando-o atentamente como um curandeiro examina seu paciente.

-Impressionante... Não sei direito como o encantamento faz efeito, mas você, com certeza, atingiu o estado final...

-Encantamento?? Do que você está falando?

Clarissa falava do estágio final da Fogueira das Paixões. Sem dúvida alguma, Draco atingira o limite – ou até mesmo ultrapassara-o. Antes era capaz de buscar a morte alheia por causa do amor; agora, era capaz de ferir a si próprio, de matar a si próprio, tudo por conta daquela paixão avassaladora. Nada mais importava; não havia mais vida própria; tudo o que existia era a garota que amava – Hermione Granger. A garota era parte vital de seu ser; perdendo-a, era como se perdesse o ar e não pudesse viver mais...

O poder da Fogueira atingindo o ápice...

-É assustador... – Clarissa comentou, incapaz de se conter. – Previsível, mas assustador...

-Ainda não estou entendendo...

-Nada, esquece...

Precisava trabalhar com cuidado desse momento em diante. Draco deixara de ser uma ameaça para Rony para se transformar em uma ameaça para si próprio. Ele não hesitaria em tirar a própria vida devido à frustração de perder Hermione, e a maneira como ele direcionava o canivete para o próprio pulso no momento em que ela apareceu mostrava isso claramente. Ela precisava mudar o foco de Malfoy...

-Escute, Draco... Sei que o que viu foi terrível. O quanto lhe machuca ver Hermione perto do ex-namorado. Mas não compensa tirar a própria vida por isso...

-Claro que compensa...

-Não! Draco, pense bem: tirando a própria vida, você deixa o caminho livre para Rony ficar ao lado de Hermione. É isso o que você quer?

-Não, mas...

-Draco, sabe o quanto ela quer você. Teve provas disso. O que acontece é que, da mesma maneira que Hermione quer você, ela quer o Rony também! Está dividida. Metade dela quer você, outra metade quer Rony! Tudo está muito bem equilibrado. Amando e querendo na mesma medida, Mione não sabe quem escolher. Mas algo facilitaria a escolha e acabaria com essa indecisão. Veja, Draco... – Clarissa puxou a varinha e conjurou três bonequinhos de madeira. – O da ponta direita é você, o do meio, Hermione, e o da outra ponta, Rony. Hermione está perdidamente apaixonada pelos dois; ama tanto você quanto ele. Mas não sabe qual escolher. Pois eu lhe digo o que facilitaria a escolha dela; a morte de um dos dois...

Clarissa explodiu o boneco que indicava Draco.

-Oh, Draco se matou... Que trágico, ela choraria horrores... Agora só tem o ombro de Rony para chorar, amava os dois, mas agora só ele está vivo, perto dela... Mione e Rony ficam juntos para sempre...

Ela juntou os dois bonequinhos, vendo a reação perplexa no rosto de Malfoy.

-Agora... – ela conjurou um novo boneco. – Se você, Draco, elimina Rony – ela explodiu o boneco que indicava o Weasley. – Que pena, Rony se foi... Mione pensa: o que posso fazer? E eis que, ao lado dela, vivo, está um dos garotos que ela ama. Você, Draco. E aí temos você e Hermione, felizes para sempre...

Clarissa derrubou os bonecos com a mão.

-A morte de um dois decide o jogo! Sacou, Draco?

Ele balançou a cabeça, afirmativamente.

Clarissa conjurou uma pequena balança e depois duas pequenas pedras, de pesos iguais, que colocou sobre a balança, equilibrando-a.

-Estão no mesmo nível, não estão? Pense que essa balança é o coração de Hermione. Você e Rony são as pedras. Tem o mesmo peso, a mesma medida no sentimento dela. Você sai de cena – ela tirou uma pedra; a outra subiu. – Rony domina. – ela colocou a outra pedra e retirou a que "indicava" o ruivo. – Ele sai de cena – a "pedra" Malfoy subiu. – Quem domina é você.

Draco ficou em silêncio por alguns segundos, observando a balança.

-Mas será que eu realmente ocupo metade do sentimento dela? Será que existe essa dúvida? Eu achava que existia, mas... os dois juntos atrás do palco... me confundiu...

-Claro que existe! Você tem muita chance... Assim como ele também.

Draco mordeu o lábio, indeciso.

-Já sei... Quer a prova disso, não quer?

-Sim. Para saber o que devo fazer. Se realmente acabar com o Rony ou não decide tudo...

-Venha comigo que eu tiro essa dúvida. Vamos voltar ao fundo do palco...

Ela puxou Draco e os dois caminharam de volta até o salão subterrâneo...


-Você pode me odiar por isso, Rony, mas, já que insiste tanto, eu vou falar... – Mione decidiu-se; Rony tirou a mão do queixo dela e deixou-a caminhar alguns passos, tensa e pensativa. – Eu e as garotas efetuamos um ritual mágico proibido. Um ritual que cria o amor. Um ritual antigo chamado Fogueira das Paixões.

-Você?? – Rony perguntou, perplexo. – Você, Hermione Granger, participando de um ritual proibido?

-Sim... Demorei muito a aceitar, mas, sim, aceitei e participei. Foi a maior besteira que já fiz em toda a minha vida, mas não conseguia pensar direito, estava muito confusa... O amor me modificou, foi o sentimento que me deixou dessa maneira... – ela olhou dentro dos olhos dele. – Amor que sinto por você.

-Um ritual que cria o amor... Você jogou meu nome nessa tal Fogueira?

-Não. Era para ter sido o seu nome, mas por um descuido meu e de uma das minhas amigas acabei jogando outro nome na Fogueira. Resultado: o sentimento de amor que devia ser criado em você foi para outra pessoa, que agora está perdidamente apaixonada por mim.

-Quem?

-Malfoy.

Rony respirou fundo. Estava chocado.

-Então... É por isso que está ao lado dele?

-Sim.

-Por isso terminou o nosso namoro?

-Exatamente.

-E também por esse motivo Draco tentou matar-me na noite do Baile?

-Sim... Por ciúmes. O amor criado por magia é muito potente, sabe disso. Chega a ser doentio... Pode-se cometer loucuras por causa desse tipo de amor. Estando ao seu lado eu ameaçava a sua vida, porque Draco ficava enciumado, e ameaçava também a vida de Draco, já que, por amor, uma pessoa é capaz de tirar a própria vida.

-Foi um ato medíocre participar desse ritual... – censurou Rony.

-Sei disso. Mas já foi, e não posso mais voltar atrás. Agora só posso evitar os danos que esse meu erro pode provocar...

-E uma das formas de se evitar é fugindo de mim?

-Rony...

-É, Mione, porque foi isso que você fez! Será que não parou para pensar, nem por um segundo apenas, que evitar que Draco fique com ciúmes e afastar-se de mim são coisas totalmente diferentes?

Ela ficou muda; Rony continuou:

-Hermione, não é necessário que nos afastemos para que todos esses possíveis danos não aconteçam. Você sabe, o que os olhos não vêem, o coração não sente etc, etc... Draco não pode ver que estamos juntos, mas, longe dos olhos dele, podemos ficar juntinhos...

-Sim... É, tem razão...

Ele aproximou-se e segurou a mão de Hermione.

-Viu como é simples? Não precisava ter complicado tanto. Não precisa mentir para mim. Namoramos em segredo. Draco não precisa saber disso.

-Mas, do mesmo jeito, terei que fingir que estou com ele, porque Draco pode enlouquecer se for ignorado por mim.

-Eu sei. E também sei que você é a garota mais inteligente que conheço. Enrole o Malfoy. Esquive-se dos toques e carinhos dele. Ele só precisa acreditar que você o ama, que você o quer, e sei que você é capaz de fazê-lo pensar tudo isso.

Mione concordou; sim, era capaz. O único problema era a espantosa atração que surgira do nada entre ela e Draco. Podia ser uma atração passageira, que desapareceria facilmente se ela se afastasse de Draco; porém ela continuaria próxima de Malfoy, e, talvez, com isso, a atração aumentasse e a confundisse ainda mais. Rony era amor, e Draco era atração, mas o que o desejo físico não era capaz de fazer? Poderia fazer com que ela fosse longe demais, e aí era uma vez o namoro com Rony...

Teria que ser cautelosa; muito cautelosa, para que tudo corresse bem.

-Está certo – disse Mione, por fim. – Vamos namorar em segredo.

Rony abriu o maior sorriso de felicidade que Hermione já vira em seu rosto, em todos aqueles anos de amizade. Ele beijou-lhe uma mão e, fitando-a, disse:

-Amo você.

-Eu também amo você, Rony. Mais que...

(Hermione engoliu o "mais que qualquer pessoa")

-...que tudo – em seguida, os dois se beijaram. Um pigarro sobressaltou-os, e ambos voltaram-se na direção do som.

Era Joyce. Com uma expressão muito contrariada no rosto.

-Não precisa me dar uma bronca, Joyce – adiantou-se Hermione. – Sei que quebrei o nosso juramento de nunca contar a ninguém sobre a Fogueira, mas eu abri o jogo com o Rony. Ele está ciente de tudo, inclusive da farsa do meu namoro com Draco.

Joyce suspirou, talvez de decepção, Mione não tinha certeza.

-Certo... Bom, o nosso juramento foi quebrado, mas não posso culpá-la por isso. Você se meteu nessa enrascada pelo erro de outra Encalhada, não pode pagar por esse erro afastando-se de quem você ama. Mas, Rony, por favor, não conte a ninguém.

-Não contarei – ele afirmou. – Juro a vocês que ninguém saberá sobre a Fogueira das Paixões.

-Ótimo... E o que foi decidido por vocês?

-Namorar em segredo – respondeu Mione. – Continuarei ao lado de Draco, fingindo namorá-lo, como estou fazendo agora, mas me encontrando com Rony.

-É, uma boa idéia. Mas Draco não pode descobrir esse namoro, de maneira nenhuma. Precisam ter muito cuidado. Acho até que esse namoro não deve ser anunciado para o restante das Encalhadas...

-Acha mesmo?

-Sim, Mione... Não sei porque... Talvez seja intuição, essas que nós mulheres temos às vezes... No momento, acho que as Encalhadas não devem saber.

-Bom, se você que é a líder do grupo, diz isso, tudo bem. A existência desse namoro fica entre nós três.

-Acho melhor saírem daqui – disse Joyce. – Alguém pode aparecer e surpreender vocês. Não se esqueçam de que Draco também está por aí... A propósito, seria ótimo se você, Mione, saísse daqui aos prantos, para dar a impressão de que estava brigando com o Rony atrás desse palco. Assim, ninguém suspeitaria dos ex-namorados sozinhos, escondidos.

-Tudo bem... – ela olhou para Rony. – Damos um jeito de nos encontrar na escola amanhã.

-Sim – ele beijou-a.

Mione olhou para Joyce, sorrindo:

-E, agora, é hora do teatrinho...

Hermione escondeu o rosto com as mãos e, de cabeça baixa, correndo, saiu da parte de trás do palco para o salão movimentado.

Naquele instante, Clarissa e Draco se aproximavam; ambos estancaram ao verem Mione saindo daquela maneira.

-Mas o que significa isso? – questionou Clarissa.

Draco correu até a "namorada", preocupado.

-Querida, o que houve?

-Nada... Tudo o que sei é que não quero mais ver o Rony na minha frente. Nunca mais, meu amor.

Mione abraçou-o. Clarissa ficou boquiaberta...

-Ele fez você ficar triste... Quer que eu soque a cara dele?

-Não, Draco. Eu tentei conversar amigavelmente com ele, mas depois começamos a discutir... Tudo o que sei é que não quero mais ver o Rony.

-Vou pegar uma bebida pra você, já volto – disse Draco; assim que ele desapareceu, Clarissa aproximou-se de Mione, curiosa.

-Isso é mentira, não é?? Essa briga com Rony, e tudo mais...

"Não deve ser anunciado para o restante das Encalhadas...".

-Não, Clarissa. O pior é que é verdade.

Mione não cedeu espaço para mais perguntas; foi atrás de Draco, que servia-se de bebida em uma das mesas. Clarissa ergueu a sobrancelha, intrigada... Não era possível... Justo agora, que provaria a Draco a atração de Mione tanto por ele quanto por Rony, ela decidia-se por Malfoy e brigava com Rony?

-Droga... – bufou Clarissa, frustrada e irritada.

Quem sempre manipulava acabava de ser manipulada.


Naquele exato momento, as atenções da maioria dos jovens – inclusive de Clarissa – foram atraídas para o fundo do salão, ao lado do palco. Uma porta gigantesca foi aberta ali, e, por ela, surgia uma enorme banheira de espuma. Lorenzo, interrompendo a banda e subindo ao palco, anunciou:

-Aí está mais um artefato para que vocês pratiquem coisas proibidas – disse o bruxo, malicioso. – Ainda virão mais surpresas, pessoal, porque a noite... Ah... A noite está só começando...

Um urro de alegria tomou conta do salão; a banda começou uma música mais agitada, enquanto vários jovens curiosos aproximavam-se da enorme banheira.

Alone sorriu, admirada. Aquela espuma... Muita água... Perfeito!

Felizmente, Harry estava por perto. Alone olhou-o sensualmente e levou um dedo aos lábios; seu corpo acompanhava o movimento da música. Harry acenou em resposta e, dançando, Alone chamou-o com a mão. Enquanto ele se aproximava, meio zonzo, a garota foi até a banheira e, apoiando-se na borda, entrou, acompanhada de uma nuvem de espuma e bolhas.

-Não posso acreditar... – balbuciou Hermione que, ao lado de Draco, visualizava a cena. – Ela nem parou pra pensar...

Harry, o olhar fixo em Alone, como um homem perdido no deserto que contempla a mais linda miragem, aproximou-se da banheira, só parando quando suas mãos tocaram as bordas.

Dentro da banheira, Alone mergulhou na espuma, subindo logo em seguida, os cabelos negros e molhados caindo sobre o rosto, coberta de espuma por toda a parte e, é claro, com a roupa molhada.

Ela viu os olhos verdes de Harry arregalando-se como um par de enormes balaços.

Os seios de Alone estavam colados à roupa. Perfeitamente modelados. Harry podia ver o formato exato do par de seios fartos, sem falar no detalhe mais fascinante... Os bicos pontudos que se revelavam por baixo da malha.

Alone viu o efeito que sua roupa molhada causou em Harry. Ele remexeu-se, inquieto, como se lutasse contra um forte impulso de pular na banheira e agarrá-la; a face estava corada, como se ele estivesse ardendo por dentro e esse ardor se refletisse na pele; e, é claro, ela sabia que algo que ele tinha um pouco mais embaixo também sentira o efeito-Alone.

Levantando-se dentro da banheira, Alone, toda molhada, começou a dançar, justamente no momento em que a banda iniciava uma música muito sensual...

Ela remexia os quadris lentamente. A platéia masculina gritou, apesar de seus olhos estarem direcionados apenas para Harry.

Alone alisava o próprio corpo, colando a roupa ainda mais. Insinuou que ia erguer a blusa; deixou à mostra o umbigo e a barriguinha; novo urro dos admiradores...

Depois jogou os longos cabelos negros de um lado para outro, enquanto remexia o corpo – os quadris e os seios movimentando-se. Fantástica...

Quando a música cessou, Alone inclinou-se para a borda da banheira e, estendendo a mão, alisou o rosto de Harry – aquele rosto avermelhado, tenso, perplexo, enlouquecido.

-Quero você – balbuciou Harry, sem fôlego.

-Prove – respondeu Alone, saindo da banheira sob os aplausos e gritos masculinos. Ignorando a todos, caminhou em direção ao vestiário.

Harry, ainda meio tonto pelo espetáculo que presenciou, não percebeu que Colin Creevey estava ao seu lado, chamando-o; só percebeu quando Colin cutucou-o no ombro.

-Oh! Colin, que susto...

-Desculpe – disse Colin, no tom de quem não desculpava coisa alguma. – O que o deixou dessa maneira foi o show da "baranga"?

-Que "baranga"? Dentro daquela banheira estava a mulher mais gostosa desse mundo!

-E você gosta de mulheres, Harry?

-Ah, claro que sim! Daquela ali, até você, que não gosta, devia gostar. Alone é... Nossa, não tenho nem palavras para descrever. Só sei que me deixa zonzo...

Os olhos de Colin encheram-se de lágrimas.

-Você... Você não se sente nem um pouco sem graça ao falar isso assim, na minha cara?

Harry olhou-o sem compreender.

-Deveria me importar ao dizer isso?

Colin sentiu mais lágrimas se formando; até então, Harry demonstrara uma certa preferência por Alone, mas sempre se mantendo levemente hesitante, e respeitando o sentimento de Colin; agora, porém, parecia não se importar com o que Colin estava sentindo. Só Alone importava.

Colin não podia imaginar, mas o último estágio de possessão da Fogueira das Paixões atingira Harry durante a exibição de Alone. O poder do encantamento cobrira agora todo o coração de Harry como um manto invisível; não havia espaço para antigos sentimentos, antigos amores. O manto tinha nome, e o nome era Alone Bernard.

Chorando, Colin deixou Harry sozinho. O rapaz fechou os olhos, inalando o ar.

-Humm... Ainda posso sentir o perfume...

Com os olhos fixos na porta do banheiro, Harry começou a caminhar, farejando aquele perfume maravilhoso, lembrando-se do corpo molhado de Alone, dos cabelos lindos de Alone, sem perceber o quanto era estranho, no meio de um salão lotado de pessoas com odores de todos os tipos, ele só sentir o delicioso perfume de Alone, como se todo o seu ser estivesse destinado a só sentir o cheiro que vinha daquela garota, como se todo o seu corpo conspirasse para que seu mundo fosse Alone e nada mais.

E esse era um dos muitos sinais da possessão total da Fogueira das Paixões.

Harry ia em direção ao banheiro, olhos abertos, ainda fixados na porta, mas, se ele fechasse os olhos, mesmo no meio de toda aquela multidão, não haveria problema algum; seu corpo seria direcionado até Alone, porque suas pernas também queriam que ele chegasse até ela.

Harry alcançou a porta e abriu-a, silenciosamente.

Ele entrou no banheiro; Alone, que se secava com uma toalha branca, viu através do espelho a chegada do rapaz; parou de secar-se no mesmo instante.

-Harry? – ela perguntou, voltando-se para ele.

-Oi... – respondeu ele, sem parar de avançar.

-O que houve? Vai me dizer que veio provar que...

Alone caiu para trás, sob o impacto do empurrão de Harry; amorteceu a queda com as mãos, mas seu coração palpitou acelerado com o susto.

-Harry...?

Antes que Alone dissesse qualquer outra coisa, Harry caiu sobre ela e a imobilizou no chão, segurando-a pelos braços estendidos.

-O que você quer que eu faça, tentação? O que quer que eu mostre? Diga que eu faço; diga que eu mostro...

E lhe deu um beijo ali mesmo; Alone sentiu-se a garota mais feliz do universo; o jogo tinha virado; Harry a jogara no chão, como ela fizera uma vez com ele; ela deixara Harry enlouquecido, fora de si...

"Ponto para as Encalhadas".


-Juca! – exclamou Joyce, correndo até o rapaz; Juca, que tinha uma taça de bebida nas mãos, parecia um pouco embriagado. – Estava lhe procurando... Alguns contratempos me interromperam, mas, enfim... Andou bebendo muito??

-Por que pergunta isso? – indagou Juca, com voz pastosa.

-Nada... deixa pra lá...

-Queria falar alguma coisa pra mim?

-Sim... É que eu fico pensando, às vezes... Você não fica chateado com o tempo que eu necessito para... Para usufruir melhor do seu "talento", fica?

-Não! Claro que não!! – Juca lembrou-se das vezes em que usara a sua inteligência em prol de alunos com Q.I. inferior. – É assim mesmo; sei que existem pessoas que ficam incomodadas diante do meu alto nível.

Joyce riu.

-Já vi que você, embriagado, não é muito modesto.

-Ah se você fosse assim, especial, seria modesta?

-Difícil responder...

-Mas, vou lhe dizer uma coisa, Joyce: não sou profissional, mas, quem prova, gosta. Ajudei muita gente. E a grande maioria voltava outras vezes, e eu sempre estava ali, pronto a ajudar. Consegui ajudar algumas em Hogwarts até...

-É mesmo? Em tão pouco tempo? Quais?

-Hum... Olhe lá! A Alicia, da Corvinal, por exemplo!

Ele apontou; o sorriso de Joyce murchou. Alicia caminhava com dificuldade, as pernas bem abertas, coluna curvada. Ela acenou, parecendo receosa... Joyce podia muito bem imaginar porque...

-Oi Juca! – cumprimentou Alicia.

-Olá... – ele olhou para o meio das pernas dela. – Está doendo muito ainda?

Joyce ficou escandalizada com a audácia.

-É, um pouco. Mas o pior foi durante a noite, depois que a tora dilacerou tudo aqui. Fiquei horas me contorcendo de dor, não consegui nem me levantar...

-T-tora? – perguntou Joyce, gaguejando.

-Sim – respondeu Alicia.

-Não seria um... Pauzinho?

-Não... Tora mesmo. Grande e bem larga.

-Minha nossa... Acho que vou desmaiar... – Joyce levou a mão à testa.

-Você está bem? – perguntou Juca.

-Não, mas vou melhorar... espero... – respondeu ela.

-Você tinha que ver, Joyce – Juca ria enquanto falava. – Alicia sentando direitinho na tora. A cara de dor que ela fez...

-Você ri, Juca, mas foi terrível – disse Alicia. – Acertou em cheio. Nossa... Meus olhos se reviraram, Joyce, juro pra você... Minha cabeça começou a rodar... Foi como se todo o meu corpo estivesse sendo rasgado...

-Nossa... – Joyce estava pálida; os lábios tremiam. – E... Demorou muito pra voltar ao normal?

-Bom, fiquei um dia de cama, com as pernas bem abertas, pra relaxar a "região", sabe?... No dia seguinte consegui me levantar... Com muletas, é claro... E, dia a dia, vou voltando ao normal. Mas, sabe de uma coisa? Ainda é muito difícil de sentar-me em qualquer lugar. Dói demaissss!!

Joyce engoliu em seco.

-Peço desculpas, Alicia – disse Juca, parecendo tão inocente...

-Imagine, querido. Só acho que não pedirei a sua ajuda tão cedo... O negócio foi feio...

-Entendo...

-Vou tentar curtir a festa um pouco... Divirtam-se!

Alicia distanciou-se, ainda com as pernas afastadas e andando daquela maneira esquisita. Juca olhou para Joyce, risonho.

-Como essa vida é engraçada, não é?? Deixe-me contar os detalhes...

-Não, Juca... Não precisa... Eu... Vou beber alguma coisa... Com licença!! – de olhos arregalados, Joyce correu para longe dele.

-Ah! Queria tanto contar a história toda! – ele lamentou para si mesmo. – Eu ensinando a Alicia, esclarecendo a dúvida com o dever de Poções, em cima da árvore; ela escorregando do galho na hora de descer e caindo de pernas abertas sobre a enorme tora de madeira que estava deitada no chão... – ele gargalhou com a lembrança. – Pobre Alicia...


Largada em uma das mesas, Clarissa bebia alguns goles de Demência, enquanto pensava...

Todo o seu esforço em vão. Tudo estava saindo conforme o planejado; tudo começou a dar errado depois do Baile anterior. Draco estava seguindo os seus conselhos, atingira Rony com uma faca... Se ninguém tivesse interrompido o atentado, ela já teria se livrado de Rony. Mas, não... Interromperam. E, para piorar, Lorenzo conseguira curar o ferimento de Rony, salvara a vida do rapaz e...

...acabara com a esperança de que Rony morresse.

Os olhos de Clarissa estreitaram-se, fitando o dono do bar, que estava parado próximo à escada que levava ao andar superior.

Idiota...

O pior era que estava sorrindo. Atrapalhara os planos de Clarissa e agora estava lá, contente, feliz pela festa idiota que produzira, pela cambada de jovens que conseguira atrair, ia ganhar muito dinheiro, e ela mesma colaborava com isso, tomando aquela taça de Demência, oh, quanto dinheiro indo para o cofre do incrível Lorenzo, mas...

Ele atrapalhara um plano de Clarissa. E quem atrapalhava um plano de Clarissa pagava caro, muito caro, principalmente quando ela se encontrava de mau humor, como naquele momento.

O mau humor era a semente para sua mente fria.

Ela, ali, suportando a constatação da derrota, enquanto ele, que lhe atrapalhara, comemorava o sucesso? Ah, nunca... Era inadmissível...

Era hora da vingança.


Em Hogwarts, no castelo que se encontrava muito vazio – embora sem o conhecimento das "autoridades", Serena estava acordada, no dormitório que partilhava com Lewis e Frieda. Agachada, ela ajeitava um mural de fotos. O mural, feito com papel azul, era pontilhado de estrelas feitas com papel prateado, sobre as quais ela afixava as fotos que tirava de uma grande caixa ao seu lado, fotos de seus pais, fotos de sua família perdida...

As lágrimas escorriam, enquanto Serena selecionava as melhores fotos. Eram tantos momentos bons eternizados em cada uma daquelas imagens... Um passeio no parque; compras no Beco Diagonal; almoços de domingo na enorme mesa da cozinha; brincadeiras; risos; abraços; beijos; caretas; afagos; felicidade.

Ela ouviu um ruído às suas costas; era Lewis quem se aproximava, levantando-se da cama e agachando-se ao seu lado.

-Não quer deixar para fazer isso amanhã? – ele perguntou, preocupado.

-Não conseguirei dormir de qualquer forma... Então, é melhor aproveitar o tempo... – Serena suspirou. – Foi o pior dia da minha vida, Lewis. Ver os dois, os meus pais, sendo sepultados... Um choque horrível, uma sensação que nem posso descrever... – ela engasgou-se. – Antes eu chorei pelos dois, mas, no momento em que os caixões desceram, no momento em que foram cobertos de terra, eu tomei consciência de que eles estavam partindo para sempre; de que nada seria como antes. Parece que foi necessário aquele momento para que eu finalmente percebesse que não era um pesadelo; que era real, e eles realmente partiram.

-É natural... Essa demora em aceitar...

-Sim. E dói, Lewis. Dói muito.

-Eu sei... Mas eles merecem uma bela homenagem, nem que seja bem simples. Vamos, eu ajudo você a terminar de completar o mural.

Lewis pegou a mão de Serena e a guiou para a caixa de fotos. O rapaz pegou uma em que Brian e Florence seguravam a filha no colo; os dois, assim como o bebê, sorriam.

-Sabe por que eles estavam tão felizes assim? – perguntou Lewis. – Porque se amavam. E sabiam, de alguma forma, que esse bebê se tornaria uma garota incrível, linda, amiga, inteligente, perfeita...

Serena olhou-o com carinho, através das lágrimas.

-Essa garota foi a pessoa que os dois mais amaram no mundo. A estrela mais brilhante. Por isso, uma foto dos dois com quem eles mais amavam merece o lugar de destaque... A estrela do topo...

Lewis levou a mão de Serena até a estrela de papel que ficava no topo do mural. Afixou a foto e, em seguida, acariciou o rosto de Serena.

-E essa estrela continua a brilhar; e quem vai cuidar dela sou eu. Não vou deixar que o brilho se apague; não vou deixá-la cair; serei seu alicerce...

Serena fechou os olhos, entregue ao toque carinhoso oferecido por Lewis.

-Obrigada... – ela agradeceu. – Porque essa... estrela... Precisa de você... Ela só brilha se for lustrada com amor.

-Amor ela terá de sobra; por isso que sempre brilhará...

Ele beijou-a no rosto; Serena pousou a cabeça no peito de Lewis e chorou, enquanto o rapaz alisava os seus cabelos dourados.

Houve um ranger na porta que indicou a chegada de Frieda.

-Ah! Que cena mais linda! – exclamou a bruxa, com um cinismo declarado. Serena ergueu a cabeça e olhou-a. – Os dois, abraçadinhos. Parecem até dois irmãozinhos...

O coração de Serena apertou-se; por um momento esquecera-se daquele fato. O amor de Lewis era reconfortante; ela realmente precisava dele para manter-se de pé. Só restara ele em sua vida; ela tinha a certeza absoluta que ele a amava acima de todas as coisas, e lutaria contra tudo para fazê-la feliz.

E estava cansada, cansada das piadinhas e brincadeiras de Frieda; estava na hora daquele monstro receber o que merecia...

-Não, não podemos ser confundidos como dois irmãozinhos, Frieda. Porque irmãozinhos não fazem isso...

Serena grudou-se aos lábios de Lewis e deu-lhe um beijo ardente, diante dos olhos escandalizados de Frieda Lambert...


-Que demora... – Augusto passava o lenço pela testa, preocupado. – Lanísia já devia estar aqui... Alguma coisa deu errado. Será que ela não virá mais?

Toc-toc-toc.

Augusto correu para a porta, um sorriso de ponta a ponta.

-Quem é? – perguntou.

-Aluna gostosa procurando carinho de professor másculo e viril. Posso entrar??

Augusto abriu a porta, já agarrando Lanísia e a puxando para um beijo.

-Não... Não pode entrar... – ofegou ele. – O que queremos fazer não vai acontecer aqui, e sim em um lugar muito especial...

-Isso pode ser feito em qualquer lugar, professor, mas, lugares especiais sempre são perfeitos... Vamos lá?

-Sim... Mas eu é que vou guiá-la... – Augusto tirou uma venda negra do bolso da calça; passou a venda sobre os olhos de Lanísia e amarrou-a. – A brincadeira começa agora...

A escuridão tomou conta da visão de Lanísia. Ela sentiu as mãos do professor segurando-a pelos dois braços e guiando-a...

A brincadeira estava só começando...


Clarissa esperou que Lorenzo se afastasse da escada. Enquanto isso, o plano magnífico se formava em sua mente; peça por peça, detalhe por detalhe; o incrível quebra-cabeça era montado, o excelente plano era traçado.

-Seria extremamente frustrante que, na noite da primeira festinha clandestina desse bar de quinta categoria, a diretoria de Hogwarts tomasse conhecimento do que está ocorrendo aqui embaixo – falou Clarissa, sozinha. – Interromperia um futuro glorioso para o Lorenzo´s... Você vai experimentar o sabor da derrota, Lorenzo, assim como interrompeu o meu...

Clarissa largou a taça na mesa, ao ver que o bruxo havia se afastado, e levantou-se. Discretamente, aproximou-se da escadaria. Olhou ao redor e, rapidamente, subiu-a, saindo do salão.

Enquanto rumava na direção da saída do bar, Clarissa sorria... Mal via a hora de comunicar à direção sobre aquela festinha idiota... Mal via a hora de ferrar com a vida daquele bruxo imbecil...

-Opa!

Ela estancou; uma luz irrompeu na escuridão, vinda de uma varinha; Clarissa virou-se e, encontrou o rosto divertido de Lorenzo.

-Posso saber aonde a mocinha pensa que vai??


N/A: Aguardo comentários (não recebi nenhum no capítulo anterior) e espero que tenham gostado... Abraços!