CAPÍTULO 19
Movimentação na madrugada
A madrugada anda movimentada em Hogwarts e em seus arredores. Há de tudo. Tramas...
-Tudo vale a pena para ver a queda de quem se odeia...
-É que, vendo o Harry de longe, acho que ele estava mais satisfeito enquanto voava comigo.
...Maldade...
-Eu criei a minha própria forma de tortura, para torturar a minha própria inimiga. Você.
...e muita paixão...
-O que íamos fazer nesse tal cantinho pode ser feito em qualquer lugar...
-Estarei lá.
...Tudo isso e muito mais! Entre nessa madrugada imprevisível com as Encalhadas!
Clarissa não sabia o que dizer. Seu coração batia acelerado, devido ao susto, e, ofegante, ela não conseguia formar uma boa desculpa para dar ao dono do bar.
Lorenzo, percebendo que a resposta não surgia, perdeu a paciência e perguntou novamente:
-Aonde a mocinha pensa que vai?
Clarissa mordeu o lábio, pensando em uma resposta convincente; mandou a primeira idéia que lhe surgiu na mente.
-Passei do ponto com as taças de Demência. Estou com uma dor de cabeça terrível... Como se mil agulhas ferroassem minha cabeça por todos os lados...
Ela passou a mão pela testa, em um gesto dramático.
-E...?
-E pensei em tomar um pouco de ar fresco. Talvez ajude, vai saber... E, se mesmo assim não adiantar, voltarei ao castelo para deitar-me e descansar...
Lorenzo examinou-a com um olhar crítico. Clarissa, um gênio em disfarçar verdadeiros sentimentos, não demonstrou qualquer sinal de preocupação; continuou com a mão sobre a cabeça, os olhos um pouco fechados, como se realmente estivesse sentindo dor.
-Tudo bem... – disse Lorenzo, por fim. – Peço desculpas pela maneira como a abordei, mas... Você sabe, é uma festa proibida, e pensei que todos os alunos fossem embora juntos. Além disso, corro o risco de algum de vocês ir até a escola e... – ele suspirou. – Deixa pra lá. Temores de iniciante no ramo das festas proibidas.
Clarissa forçou uma risadinha.
-Espero que essa dor passe logo – falou Lorenzo.
-É, eu também espero. Assim poderei aproveitar a festa... – uma idéia repentina surgiu em sua mente. Clarissa seguiu o roteiro inesperado... – Tenho uma poção guardada no meu dormitório que sempre acaba com as minhas dores de cabeça...
-Qual poção? Tenho um excelente acervo de poções por aqui, e...
-Eu não sei o nome... Não me lembro... Teria que ser a que está no meu dormitório mesmo. Só de pensar em voltar ao castelo para buscá-la, já me dá um desânimo... – ela baixou os olhos. – Perderei a festa, porque se for até o castelo não voltarei mais... O que posso fazer, não é? Não tem jeito...
-Não tem ninguém que possa trazer a poção para você? Alguém que tenha ficado no castelo?
-Sim... Conheço uma garotinha do primeiro ano que poderia mandar-me. Mas, não, melhor não, fazer a pobrezinha sair na noite fria para me trazer a poção...
-Não é necessário! Para que existem as corujas, afinal?
"Que tal... Para denunciarem festas proibidas?".
-Tem razão... Não havia pensado nisso... – mentiu Clarissa.
-Um segundo só e já busco uma coruja pra você...
Ele afastou-se; Clarissa sorriu em triunfo. "A cada dia melhor, garota. Parabéns".
Lorenzo voltou com uma grande coruja marrom. Passou-a para Clarissa; a ave movimentou um pouco as asas, agitada, e depois parou.
-Ah obrigada.
-Escreva para a sua amiga informando que precisa da poção. Ela manda o frasco pela coruja, você toma e, em seguida, volta para a Festa Proibida!
-Ótima idéia, Lorenzo. Muito obrigada. Já tinha ouvido falar que era um bruxo muito inteligente.
-Que nada. Apenas quero que todos vocês aproveitem a minha festa!!
-Vou mandar a carta e esperar a poção. Já volto...
Lorenzo lançou-lhe um sorriso; Clarissa retribuiu e, dando as costas, assumiu a sua verdadeira expressão; uma expressão tranqüila, de prazer, como uma criança prestes a aprontar uma travessura; e ela ia aprontar, embora não houvesse nada de inocente em sua trama...
Ela abriu a porta do bar deserto e, encostando-a, afastou-se. Sem perder tempo, Clarissa caminhou até um pequeno morro próximo ao Lorenzo´s e começou a mexer em sua bolsa.
-Será que não tem nenhum pedaço de pergaminho aqui dentro?? Droga... Será que... Ah! Achei!
Ela retirou o pedaço de pergaminho e, em seguida, a pena que sempre trazia na bolsa. No pergaminho, Clarissa escreveu um bilhete simples e direto:
FESTA PROIBIDA NO LORENZO´S, AGORA!
BEBIDAS ALCÓOLICAS PARA ALUNOS DE HOGWARTS
-Acho que é o suficiente para deixar a diretora de cabelos em pé! – exclamou Clarissa. Colocando o bilhete no bico da coruja, soltou-a; a ave tomou o rumo do castelo.
Agora era hora da parte final de seu plano; abrir a porta do bar e bater em seguida, para dar a impressão de que alguém saíra apressado por ali. Clarissa ia começar a descer o barranco quando ouviu a voz de Lorenzo, cantando dentro do bar; o bruxo estava se aproximando da porta.
Ela ficou em dúvida; como provar que alguém saíra de dentro do bar sem bater a porta?? Não havia tempo para pensar; seus olhos fitaram o chão. Uns três metros de altura; o morro era bem alto. Alto demais...
Lorenzo abriu a porta do bar; ela não pensou duas vezes...
Arremessando o corpo para frente, Clarissa jogou-se do barranco.
-NÃO! – berrou Lorenzo, em pânico, ao ver a garota caindo.
Houve o forte baque do corpo contra o chão, além do estalido de um osso se partindo. Clarissa ficou esparramada no chão, gemendo de dor, enquanto Lorenzo correu até ela.
-Oh, minha nossa... – ele a fitava, os olhos cheios de preocupação. – Você está bem?
-Não... A minha perna... Dói demais... – ela respondeu, agarrando a perna esquerda.
-Deve ter quebrado – disse Lorenzo, examinando-a com os olhos. – Como você caiu??
-Empurrada... Empurrada por alguém que saiu aí de dentro do bar. Só não sei lhe dizer quem foi...
-Alguém mais saiu?
-Sim. Eu pensei ter ouvido a porta se fechando, depois julguei que fosse só impressão. Estava soltando a coruja com a carta... Depois percebi que alguém se aproximava correndo... Virei-me para ver quem era, mas só consegui ver, de relance, roupas descoladas... Acho que alguém bem jovem... Vi apenas de relance, porque a pessoa me empurrou, me jogou do barranco... Nunca imaginei passar por tamanho ato de violência... Ai...
-A pessoa jogou você dessa maneira tão bárbara, o que significa que não quer ser reconhecida. Mas por que fazer isso?
-Não sei... – ainda não era hora de Lorenzo descobrir... – Ai, ai... Está doendo muito, por favor, me ajude...
-Sim. Segure a minha mão. Isso... – Lorenzo ajudou-a a se levantar, passando um braço de Clarissa por seu ombro. – Vamos. Vamos para dentro...
De cabeça baixa, Clarissa sorriu.
Depois de beijar os lábios de Alone, Harry começou a descer para o pescoço da garota, onde deu diversos beijos e pequenas chupadas. Totalmente entregue às carícias e toques, Alone fechou os olhos, aproveitando o momento maravilhoso.
Enquanto a beijava, Harry murmurava algumas palavras.
-Você... é perfeita... incrível...
-Humm... – gemia Alone, zonza.
Harry parou com os beijos em seguida. Ainda segurando-a pelos braços, ele agachou-se e a fitou, com a testa suada e a respiração ofegante.
-Fale para mim, o que deseja? Sou seu escravo... O mais obediente dos escravos...
-Adoro isso!! – Alone sorriu. – Adoro saber que mando em você, que você obedece a todos os meus comandos... Fale para mim, Harry, quem tem o poder sobre você??
-Você, Alone, você...
-Bom garoto... No entanto, não é o melhor lugar para praticarmos coisas divertidas – Harry vacilou o aperto nos braços da garota e ela levantou-se.
-Qual o melhor lugar então? – perguntou Harry, decepcionado.
-Não faço a menor idéia. O imprevisível me atrai, Harry. Do nada, nos vemos em um lugar, e as coisas acontecem. O inesperado é maravilhoso. E é assim que vai ser.
-Mas...
-Shhh! – ela levou um dedo aos lábios. – Eu tenho o poder sobre você, esqueceu? Sou eu que mando. E, agora, eu digo que é assim que vai ser.
E saiu, lançando um beijo para o rapaz, que ficou sentado no chão, abobalhado, zonzo...
Serena beijou Lewis até ficar sem fôlego. Em seguida, lançou um olhar desdenhoso na direção de Frieda Lambert, que estava transtornada. Serena podia ver as mãos magras fechadas em punho, os lábios finos extremamente contraídos, a falta de cor nos lados da face.
Ver aquela reação na megera foi maravilhoso.
-Está vendo, Frieda? Não podemos ser confundidos com dois irmãozinhos. Algo desse tipo, algo como esse beijo, não é algo que aconteça entre casais de irmãos.
Os lábios de Frieda contraíram-se ainda mais; parecia que ela não conseguia encontrar as palavras certas, tamanha fora a surpresa que o ato de Serena provocara.
Lewis, alheio as provocações que ocorriam entre a mãe e a namorada, abraçou Serena, sorrindo.
-Gosto muito quando você mostra que é uma mulher bem decidida... – ele beijou-a no rosto. – E então, vamos continuar a montar o mural de fotos?
-Ah que belo mural... – disse Frieda, recuperando-se do choque. Parada em pé atrás dos dois, ela observou, com um brilho no olhar que fez Serena respirar fundo; era um olhar que mostrava a indiferença de Frieda diante da morte de seus pais; o quanto ela não se importava com a morte do homem que um dia amara; e, o pior de tudo, era que Serena sabia que ela estava constatando tudo isso porque Frieda queria que ela constatasse. Queria que ela soubesse o quanto aquele acontecimento fora ótimo para ela, o quanto ela estava comemorando. – Seus pais ficariam muito orgulhosos de você...
-Não preciso de suas frases feitas, Frieda; frases de apoio, vindas de você, só me causam enjôo.
Serena percebeu que o olhar de Frieda desviou-se para Lewis, como se ela aguardasse a defesa do filho. Geralmente Lewis vinha em defesa da mãe naqueles momentos de atrito, ou, no mínimo, pedia que Serena não discutisse. No entanto, Lewis não saiu em defesa da mãe; pelo contrário, segurou as mãos de Serena com força e começou a beijá-las. Serena engoliu em seco; Frieda não deixaria aquela mudança passar despercebida...
-Que engraçado... Como as coisas mudam, não é mesmo, Lewis?
-Que coisas, mãe? – ele perguntou, de sobrancelhas franzidas.
-Algumas de suas atitudes, por exemplo. Você sempre vinha em minha defesa quando havia um problema entre Serena e eu, ou, pelo menos, mostrava que estava neutro no meio da discussão com algum tipo de comentário. Mas, agora, isso não acontece mais... Não é interessante, filho?
Lewis balançou os ombros.
-Não sei... Para mim continua tudo igual.
-E você, Serena, o que acha disso? – ela olhou para Serena, que se encolheu um pouco diante daquele olhar irônico e zombeteiro. – Intrigante a mudança em Lewis, não acha?
-É... Talvez... Mas, como ele mesmo falou, não houve mudança alguma...
-Não, houve sim... E foi uma mudança gradual. Começou na época em que ele, do nada, resolveu namorá-la, coisa que ele hesitava em fazer por respeito a mim. E foi mudando a cada dia, a cada hora... E, agora, ele não se importa mais comigo, comigo que sou a própria mãe dele. Só tem olhos para você, Serena. Lewis agora vive somente para você.
-Acho que está exagerando, mamãe... – comentou Lewis.
-Ah e veja só!! Você nem percebe que mudou! Uma mudança que aconteceu e agora você nem se dá conta disso! É algo bem mágico...
Serena estremeceu...
-...tão incrível que parece até que existe magia no meio disso tudo!! – Frieda deu uma risadinha seca, enquanto, no chão, Serena sentia um calafrio percorrer a sua espinha. – Não concorda comigo, querida?
Serena olhou diretamente para Frieda, tentando não demonstrar seu nervosismo; mas não houve como. Antes de responder, Serena mordeu o lábio, inquieta...
-Acho que não...
As duas se encararam por alguns segundos, até que Frieda, subitamente, puxou Serena do chão pelo braço, levantando-a à força. Serena gritou; Lewis levantou-se no mesmo instante, irritado, e saiu em defesa da namorada.
-SOLTE-A! – ele ordenou.
-Veja bem, Serena. É disso que eu falo! – disse Frieda, apertando o braço dela. – Repare como ele está irritado! Dando ordens para mim!! Bem diferente do Lewis de antigamente... E é aí que eu pergunto, Serena...
Ela aumentou o apertão no braço da garota...
-Será que esse Lewis também a ama mais?
Serena ficou sem ar; Frieda não deixou-a responder. Puxando-a pelo braço, caminhou em direção a outra parte do dormitório. Lewis, irado, seguiu-a.
-Deixe a Serena em paz! Solte-a, ou eu...
-Ela é mais do que uma aluna qualquer, e mais do que a sua namoradinha – respondeu Frieda, sem olhar para o filho. – A responsável por ela sou eu, e, por isso, ela deve fazer o que eu mando!!
Frieda abriu a porta do dormitório, jogou Serena lá dentro e, em seguida, entrou correndo, fechando a porta atrás de si para impedir que Lewis entrasse.
-Agora que estamos sozinhas, precisamos ter uma conversa muito importante...
-Não tenho nada para conversar com você, Frieda! – respondeu Serena, sentada sobre a cama da professora.
-Tem sim... Se antes eu suspeitava que você armou alguma coisa para manipular os sentimentos de Lewis, agora eu tenho certeza. Praticou algo ilegal para aumentar o amor que existia dentro dele, e eu quero saber o que foi.
-Não fiz nada, você está enlouquecendo...
-NÃO ESTOU! – gritou Frieda, descontrolada. – Sou a mãe dele, conheço meu filho muito bem! O Lewis que existe agora não é o mesmo! Está diferente, e por sua causa!! Você fez algum maldito encantamento para que isso acontecesse, e eu ordeno que me diga qual encantamento foi esse!!
Serena engoliu em seco antes de responder:
-Não existe encantamento algum.
Frieda respirou fundo.
-Não vai contar, não é?
-Não há o que contar...
-Sabe que agora quem manda em você sou eu...
-Mas, mesmo assim, não pode me obrigar a falar qualquer coisa!
-É... Talvez não... Mas posso levá-la a falar. Não vencer pelo cansaço, Serena. Vencer pela dor...
-Do que está falando, sua maluca?
-De algo que você já conhece...
Frieda pegou uma garrafa vazia de perfume, e, antes que Frieda jogasse a garrafa no chão e ela se espatifasse em vários cacos, Serena já sabia o que viria a seguir.
-De novo isso, Frieda... – murmurou Serena, em pânico.
-Sim. Outra vez... – disse a megera, com nítido prazer, enquanto, com um movimento da varinha, reunia os cacos no chão. – Da última vez não pude fazer com que se ajoelhasse... Fui interrompida. Mas, agora, tudo mudou, Serena. Agora eu mando em você; eu sou a sua responsável. E você tem que fazer o que eu mando.
-Tudo bem, fazer o que você manda, mas isso é tortura barata, é absurdo...
-Claro que não. Ainda não mandei que se ajoelhasse. Isso será um castigo. Se você não me falar a verdade, paga o preço da omissão.
-Não estou omitindo coisa alguma...
-Está. Eu sei que está, e nenhuma negação sua vai me convencer do contrário. A questão é a seguinte, Serena: ou fala o que você fez para enfeitiçar o Lewis ou se ajoelha nos cacos de vidro.
-Mas eu não fiz nada...
-Fala ou ajoelha.
Serena lançou um olhar desesperado para os cacos de vidro pontiagudos. A dor seria absurda... Mas quebrar o juramento de segredo absoluto das Encalhadas era inadmissível. Se Frieda tivesse aquele segredo em suas mãos, poderia arruinar a vida de todas elas. E nada daria mais prazer a ela do que vê-la encarcerada em uma cela escura e fria de Azkaban.
-Eu repito o que já disse. Não fiz nada.
Frieda estalou os lábios, contrariada.
-Já que não quer falar, ajoelhe-se.
-Essa idéia é muito patética, sabia? Que coisa mais idiota... Bizarra... Juntar vários cacos de vidro e me obrigar a ajoelhar sobre eles. Sua mente, que você diz ser tão grandiosa, podia ter pensado em coisas melhores!
-Isso não tem nada de patético, muito menos de idiota – respondeu Frieda, suavemente. – Isso é tortura. Tortura física. Tortura é o melhor meio de castigar a quem odiamos; um excelente meio de obtermos a verdade de quem se recusa a dizê-la, como você está fazendo agora. As grandes mentes da história, tanto bruxa quanto trouxa, usaram a tortura como meio de punir os inimigos e mostrar quem é que mandava. Mentes grandiosas, que testam os limites da capacidade humana. Os limites da dor. É ótimo causar dor em quem odiamos, Serena. Ver quem odiamos gemendo de dor, chorando, implorando para que aquilo cesse de uma vez, até mesmo se humilhando... Porque, quando a pessoa chega no limite, faz o que for preciso para se livrar da dor, do sofrimento. Torturar é ter o inimigo em sua mão, e ver o seu próprio inimigo pedindo ajuda a você... – ela suspirou, como se tudo aquilo lhe desse um prazer descomunal. – Enfim... Eu criei a minha própria forma de tortura, para torturar a minha própria inimiga. Você. E, se antes eu não podia submetê-la a essa tortura, por impedimentos de pessoas moralistas e de mente pequena que não percebem que a dor é o melhor remédio, agora eu posso. Porque agora eu mando em você. Chega de papo furado, ajoelhe-se nesses cacos de vidro de uma vez. Quero vê-la chorar... Implorar... E soltar toda a verdade. Se falar o que eu quero, poderá sair do castigo. Senão, ficará até eu me saciar.
-S-saciar, do q-que? – gaguejou Serena.
-De vê-la sofrer – respondeu Frieda, apontando um dedo para os cacos.
Serena, trêmula, foi ajoelhando lentamente. As lágrimas já corriam fartas por seu rosto; será que suportaria tamanha tortura? Não podia revelar o segredo das Encalhadas, não podia...
Seus joelhos alcançaram os cacos; ela sentiu as pontas afiadas penetrarem em sua carne; o sangue quente escorrendo por suas pernas em grossos fios. Tudo acompanhado por uma dor dilacerante, que parecia envolver não só os joelhos como as pernas.
-Você pode se livrar da dor quando quiser, Serena... – disse Frieda, agachando-se ao lado dela. – É só me falar... Só falar...
Serena fechou os olhos e mordeu o lábio com força, tentando suportar a dor...
-Vamos, é só falar...
Ela não respondeu; tentava ignorar a voz maligna de Frieda e concentrar o pensamento em suas amigas. Hermione, Alone, Lanísia, Joyce, Clarissa...
"Meninas, socorro...", pensava Serena, num apelo mudo, que nunca poderia chegar a uma das Encalhadas...
-Vamos, Clarissa, sente-se aqui – disse Lorenzo, ajudando-a a sentar-se em uma cadeira do salão principal do Lorenzo´s.
-Obrigada – agradeceu a garota, fazendo uma careta de dor. A perna quebrada doía horrivelmente, provocando descargas dolorosas que faziam algumas lágrimas rolarem pelo rosto de Clarissa.
-Está doendo bastante, não é?
-Demais...
Walter surgiu naquele instante; olhou para o patrão e depois para a garota, sem compreender o que estava acontecendo.
-Um dos alunos saiu do bar – respondeu Lorenzo, antes que o funcionário fizesse qualquer pergunta. – Aparentemente, estava bem apressado e assustado, porque saiu correndo e derrubou a menina do barranco que fica aqui em frente, para que ela não visse o seu rosto.
-Humm... Isso é bem estranho – comentou Walter.
-Também acho...
-Talvez ele tenha feito alguma bobagem na Festa Proibida e fugiu – sugeriu Walter.
-É, pode ser... Ou ele foi fazer o que eu temo que algum dos alunos faça desde que a festa começou – disse Lorenzo, a ficha caindo naquele instante. – Ele foi até Hogwarts informar à direção da escola sobre a Festa Proibida.
Walter cambaleou um pouco para trás com o baque da afirmação.
-Será??
-Claro que sim, Walter!! – Lorenzo olhou para Clarissa. – Antes de cair do barranco você conseguiu ver qual foi a direção que a pessoa que lhe empurrou tomou?
-Foi muito rápido... – Clarissa fingiu estar em profundo estado de concentração. – Mas... É, parecia que ia tomar a direção do castelo mesmo...
-DROGA! – vociferou Lorenzo, virando uma das mesas em seu ataque de fúria.
-O que faremos, chefe? – questionou Walter, torcendo as mãos.
-Procedimento de emergência – disse Lorenzo, ofegante. – Nunca queria utilizá-lo, mas não existe outra alternativa. Desse jeito, poderemos mandar os alunos para longe do bar, pelo menos. E, talvez, com sorte, ainda dê tempo de todos entrarem no castelo.
-Sim.
-O que está esperando, Walter? Não fique aí me olhando com essa cara de assustado! Cada segundo é precioso! Prepare as vassouras enquanto eu comunico aos alunos que a festa acabou.
-Certo! – disse Walter, saindo às pressas.
Lorenzo colocou uma mão sobre o ombro de Clarissa e procurou sorrir, apesar da tensão.
-Fique quietinha aqui. Eu já volto.
-Tudo bem... – respondeu, fingindo que estava desnorteada.
Lorenzo saiu do saguão correndo e entrou no Cantinho de Amor e Pegação, rumo ao salão subterrâneo.
Sozinha, Clarissa tentava pensar com clareza, apesar da dor. Envolvendo a perna quebrada com uma das mãos, ela falava para si mesma:
-Não esperava um procedimento de emergência, mas tudo bem... Não é possível que dê tempo dos alunos se acomodarem em suas respectivas salas comunais. Ainda vai dar certo. Vai dar tudo certo... Não fui obrigada a quebrar a perna à toa. A minha vitória ainda vai rolar... Assim como o fracasso de Lorenzo...
Acariciando a perna dolorida, Clarissa sorriu.
-Tudo vale a pena para ver a queda de quem se odeia... – murmurou para o saguão vazio, como se aquilo fosse a mais perfeita lição de moral do mundo...
O grupo musical tocava uma música bem "pauleira", com uma letra nada apropriada para menores, quando Lorenzo interrompeu-os com um gesto. Houve uma vaia dos estudantes. Lorenzo apressou-se e, ampliando a voz com a varinha, avisou:
-Estamos com um grave problema, pessoal. Um de vocês, que eu não sei quem é, saiu correndo do bar em direção a Hogwarts. Estava muito apressado, como se fosse fazer algo errado, e, ao que tudo indica, ele foi até a escola para avisar à direção sobre a Festa Proibida.
Murmúrios de assombro misturados com reclamações e protestos.
-Foi bolado um procedimento de emergência para casos do tipo, mas não sei se haverá tempo de vocês irem até as suas salas comunais. Meu funcionário, Walter, está arrumando, lá em cima, algumas vassouras para vocês. Não existem vassouras suficientes para todos, então vocês terão que dividi-las; três para cada uma, acho que é o suficiente.
-Voamos até a entrada do castelo? – perguntou Rony, erguendo a mão.
-Até os portões de Hogwarts – corrigiu Lorenzo. – Lá vocês descem das vassouras e seguem a pé. Walter traz as vassouras de volta e eu as escondo novamente.
-Se não der tempo de irmos até as salas comunais, e alguém da escola questionar onde todos nós estávamos, o que diremos? – indagou Mione, apavorada.
-Digam que houve um encontro de jovens, sim, porém dentro dos limites de Hogwarts. A noite tem muita neblina, se houvesse algo do tipo na escola com certeza vocês não seriam vistos.
-A pessoa com certeza disse que a festa é aqui no Lorenzo´s – falou Mione. – Se ela avisou sobre os salões subterrâneos, não haverá tempo de esconder tudo!
-Eu sei – disse Lorenzo com a voz fraca. – Mas preciso tentar... Precisamos tentar. Se vocês querem que noites como esta voltem a se repetir, não temos tempo a perder!
Houve um urro de apoio dos jovens, tão forte que fez as pernas de Lorenzo bambearem.
-Vamos! Walter já deve ter preparado as vassouras!!
Os jovens seguiram em direção as escadas que levavam à parte superior do bar. As Encalhadas, juntas, estavam espantadas – Hermione, principalmente.
-Minha nossa!! Já pensou se Minerva vê que eu também estou participando de algo como isso? Minha reputação já era...
-Acalme-se! – falou Joyce. – As coisas ficarão feias é para o Lorenzo, se tudo isso for descoberto! Bebidas alcoólicas, banda seminua!!
-É verdade – concordou Alone. – Se fingirmos que a farra é lá em Hogwarts, eles deduzirão que foi algo bem mais "leve".
-Garotas... Lanísia em Hogwarts pegando o professor, Serena em Hogwarts, descansando, mas... Cadê a Clarissa? – perguntou Mione, olhando ao redor.
-Faz um tempinho que não a vejo – falou Joyce. Uma hipótese estranha, e assustadora, surgiu em sua mente. – Seria ela a pessoa que foi até Hogwarts denunciar Lorenzo?
-Deixe de bobagem, Joyce! – replicou Mione. – Conhecemos Clarissa muito bem, e sabemos que ela nunca faria algo do tipo. Isso é coisa de quem não presta, de quem não quer ver a felicidade dos outros, que encontra prazer na desgraça alheia. Coisa de gente cruel, e a nossa amiga não é desse tipo de gente.
-É verdade – concordou Alone.
-Tudo bem, desculpem. Vocês têm razão. Foi só uma possibilidade maluca que surgiu... Já que ela não está por aqui...
Elas atravessaram o Cantinho de Amor e Pegação e logo alcançaram o salão de entrada do bar. As portas envidraçadas estavam abertas, e várias vassouras encostadas às paredes; Walter ia passando-as a cada grupo de três alunos. Olhando o ambiente, Mione avistou Clarissa, sentada a uma das mesas.
-Olhem lá! A Clarissa! – mostrou às amigas.
Elas driblaram alguns alunos e algumas mesas e chegaram à amiga, que ainda gemia de dor e envolvia a perna quebrada com as mãos.
-Olá, meninas...
-Soube do que aconteceu? – perguntou Mione. – Alguém foi até Hogwarts e deve estar denunciando a Festa Proibida nesse exato momento! – ela lançou um olhar para a perna de Clarissa. – O que houve aí?
-Saí para tomar um ar e me jogaram do barranco que tem logo aqui em frente.
-Oh! – Alone ficou espantada. – Quem fez isso??
-A mesma pessoa que está obrigando todos a saírem correndo do bar! Ela saiu às pressas daqui e, antes que eu pudesse ver quem era, me derrubou.
-Que absurdo... Essa pessoa é um monstro! – falou Mione, revoltada.
-Sim... Jogar-me do barranco dessa forma... Sem dó nem piedade... Com certeza não vale nada. Deve ser alguém muito cruel e sem coração – disse Clarissa, balançando a cabeça – falsa revolta.
-Você quebrou a perna, como subirá em uma vassoura?
-Walter me levará, Joyce. Não se preocupem. Agora, acho melhor vocês irem.
-Se cuida – disse Mione, beijando a amiga no rosto antes de afastar-se.
Assim que as três se viraram, Clarissa limpou o beijo com a manga da blusa, fazendo uma careta repulsiva.
Em frente às portas de vidro, Walter passava as vassouras para cada grupo de três alunos, acomodando-os e pedindo que partissem imediatamente. Alone, Joyce e Hermione aguardavam a sua vez quando Alone viu Harry se aproximando da próxima vassoura a partir – vassoura ocupada por uma garota que ela não conhecia e por ninguém mais, ninguém menos, que Colin Creevey.
Colin, o segundo na vassoura, acenava animado para Harry, convidando-o a ocupar o último lugar. Alone suspirou e balançou a cabeça, satisfeita, sabendo que Harry não ia topar... imensa foi a sua surpresa ao vê-lo subindo na vassoura e, o que era pior, retribuindo o sorriso de Colin.
-Não posso acreditar nisso – disse Alone, sentindo uma explosão de ira envolver seu coração.
Tomada pela raiva, sem medir seus próprios atos, ela desviou-se dos alunos que estavam em sua frente e, parando ao lado de Harry, deu-lhe um violento cutucão no ombro; Harry levantou os olhos verdes para ela e sorriu com uma expressão de "abobalhado-apaixonado" – só percebia o quanto ela era bela, e até as sobrancelhas franzidas em ira pareciam belas diante de seus olhos – na verdade, para ele nem ira havia ali, apenas um leve franzir que, provavelmente, Alone permitia, sabendo que realçava ainda mais a beleza de seu rosto.
-Olá! – disse Harry.
-Aproveite a viagem de vassoura com o seu "amiguinho" Colin – cochichou Alone, colocando muito desprezo na palavra amiguinho. – Abrace-o bem forte para não cair da vassoura, tenho certeza de que garantirá uns beijinhos. Idiota.
Ela deu outro cutucão no ombro dele; Harry entendeu a ironia. Finalmente percebeu a raiva de Alone. Era ciúme. Ciúme de Colin; claro, havia um passado entre ele e Colin, ignorado por ele devido a paixão total por Alone; ele não recordava mais de seu passado amoroso, na verdade era como se não existisse esse passado. Mas, apesar de ele ter se esquecido, Alone não se esqueceu, e interpretou erroneamente o seu gesto ao aceitar o convite de Colin. Viu maldade onde não existia...
-Alone!! – gritou Harry, chamando a garota que ia de encontro às amigas. – Alone!! – ele fez menção de levantar-se, mas foi interrompido por Walter.
-Nem pense nisso! Procedimento de emergência, é preciso rapidez!! Vão!
A garota que estava na dianteira da vassoura tomou impulso para voar. Antes que a vassoura levantasse vôo, Alone registrou o olhar de "culpa" de Harry e o olhar prazeroso de Colin – ambos causaram-lhe um novo ataque de fúria – Alone derrubou uma mesa.
-Droga!! – vociferou sobre o barulho de vidro se partindo.
-Alone! – lamentou-se Joyce, sem graça.
-Cuidado aí, galerinha – pediu Walter. – É preciso pressa, mas não desmontem o bar!
As Encalhadas aproximaram-se mais; enquanto aguardavam para partir na próxima vassoura, Alone, ainda impaciente e descontrolada, comentou com as amigas:
-Eu podia jurar que o Harry já estava plenamente apaixonado por mim! Mas, pelo que vejo, ainda existe uma quedinha pelo babaca do Colin!
-Será que você não está vendo coisas que não existem?
-Claro que não, Mione! Eu vi o olhar que eles trocaram! A felicidade do Harry ao subir naquela vassoura!
-O ciúme faz justamente isso – disse Joyce. – Faz com que vejamos muita coisa onde às vezes não existe absolutamente nada.
-Eu vi!
-E o enciumado nunca concorda que viu demais – falou Joyce, e, ao olhar para Mione, as duas deram risadinhas da amiga enciumada.
-Vocês, meninas! – chamou Walter.
Elas subiram na vassoura, Joyce na frente, Mione no meio e Alone atrás, com o rosto emburrado. Joyce deu impulso e logo as três sobrevoavam o povoado, rumo ao castelo de Hogwarts.
Minerva dormia profundamente quando ouviu batidas seguidas contra o vidro da janela. Resmungou, irritada, e fechou os olhos para dormir novamente. As batidas continuaram, fazendo com que a professora, resmungando novamente, se levantasse.
Havia uma coruja do lado de fora; uma coruja com um pedaço de papel preso no bico – provavelmente um bilhete. Minerva calçou os chinelos e caminhou até a janela. Abriu o vidro, retirou o papel do bico da ave e fechou a janela; a coruja logo sumiu de vista, sendo engolida pela neblina fria que envolvia a noite.
-Só pode ser um bilhete... – disse Minerva, apanhando os óculos e ajeitando-os. – Mas quem mandaria um bilhete a essa hora? – ela desdobrou o papel com curiosidade. A mensagem era curta e direta, e fez com que os nervos da diretora explodissem. – "Festa Proibida no Lorenzo´s, agora! Bebidas alcoólicas para alunos de Hogwarts"... O quê?? – Minerva levou uma mão ao peito. – Não posso acreditar. Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto... – ela respirou fundo, procurando pensar com clareza. Lançou um olhar para a janela; a neblina a impedia de visualizar os terrenos do castelo. – Preciso conferir... Verificar se isso é realmente verdade. Pouca probabilidade de ser verdadeiro, mas, se não conferir, não conseguirei mais dormir...
Ela puxou um xale do cabide ao lado da cama e, enrolando o xale ao corpo, Minerva saiu de sua sala, embrenhando-se nos corredores escuros...
...onde Lanísia e Augusto caminhavam, a moça de olhos vendados e o professor a guiá-la passo a passo.
-Mas que droga, Augusto! Já estou ficando cansada! – reclamou Lanísia. – Estou caminhando há um tempão e nada de chegar nesse tal lugar perfeito que você encontrou!
-É meio longe mesmo – disse o professor. – Ainda mais tendo que caminhar na lerdeza em que estamos caminhando...
-Pois é, se eu tirasse a venda, seria mais fácil...
-Não! Justo você, a perita em brincadeirinhas do tipo, quer estragar justamente a brincadeira que, temos certeza, chegará até o fim?
-Não quero estragar, eu quero...
Lanísia não concluiu a sua frase; de olhos fechados, todos os outros sentidos humanos ficam mais aguçados – e a sua audição em grau elevado captou o som de passos, passos que vinham de ambos os lados do corredor.
-O que houve? – perguntou Augusto, olhando-a sem entender; Lanísia ergueu a venda, revelando olhos arregalados de pavor. No momento em que seus lábios formavam um novo "O que houve?", Augusto também ouviu, os passos que vinham dos dois lados, os passos que fechavam o caminho, os passos que os encurralava.
-E agora? – perguntou Lanísia, baixinho.
Augusto, em pânico, não perdeu tempo; dirigiu-se para uma das portas do corredor, sem esperanças de encontrá-la aberta, levado apenas pelo medo. Por sorte, ao girar a maçaneta, a porta se abriu. Ele fez um gesto para Lanísia, que correu e passou pela porta aberta; Augusto passou em seguida, encostando-a atrás de si no momento em que sombras já se formavam no corredor.
Dentro da sala, Augusto e Lanísia suspiraram de alívio.
No corredor, as pessoas que vinham em lados contrários se encontraram. Dentro da sala, eles perceberam que os passos cessaram subitamente; um grupo de cinco alunos acabava de dar de frente com Minerva McGonagall.
-Posso saber o que fazem por aqui? – perguntou a voz severa da diretora.
"Minerva", formou os lábios de Lanísia. Augusto balançou a cabeça em concordância.
-Nada – respondeu uma voz masculina. – Só estávamos... dando uma voltinha... Sabemos que é errado, mas...
Passos decididos; Minerva caminhava até o aluno. Ela segurou-o pelo colarinho da veste e, aproximando o rosto da face do rapaz, respirou fundo.
-Álcool – falou Minerva, soltando o rapaz com certa brutalidade. – Então, realmente tem uma festa no Lorenzo´s?
Um momento de silêncio.
-Não sabemos do que a senhora está falando...
-Quantos de vocês estão por aí, bebendo como adultos? – gritou a diretora, exaltada. – Quantos?? – os passos fortes e decididos de Minerva se afastaram.
Houve silêncio do outro lado da porta; em seguida, os alunos começaram a murmurar coisas que Lanísia e Augusto não puderam ouvir, e, depois, afastaram-se também.
-Do que Minerva está falando? – perguntou Augusto.
-Não sei... – mentiu Lanísia. – Mas não faz muito sentido... Álcool, festa...
-Já percebeu onde nos metemos?
-Não... – Lanísia olhou a sala onde se encontravam; era a sala de Defesa contra as Artes das Trevas, a sala onde Frieda Lambert dava as suas aulas. – No meio de tanta afobação nem percebi que caímos justamente na sala da megera.
-É, não deixei de perceber – falou Augusto. Ele ouviu novos passos do lado de fora, assim como outras vozes de alunos. – Parece que tem mais gente fora da cama hoje.
-Sim... – concordou Lanísia, preocupada; será que a festa no Lorenzo´s realmente dera errado?
-O castelo está movimentado demais... Como vou levá-la até o nosso cantinho especial?
-Não sei... Mas... – um brilho malicioso cintilou nos olhos de Lanísia. – O que íamos fazer nesse tal cantinho pode ser feito em qualquer lugar...
Ela passou os braços em volta do pescoço do professor, que sorriu.
-É mesmo?? – ele perguntou.
-Sim. Sem falar que sou muito mais a casualidade do que o planejamento. Não acha muito mais interessante termos parado nesta sala por acaso, e fazermos tudo o que queríamos aqui mesmo??
-Humm... Bem interessante!! Sexo na sala da megera!
-Ah, penso em algo ainda melhor, querido professor... – Lanísia soltou-o e subiu na mesa da professora; sentada sobre a mesa, de frente para Augusto, Lanísia moveu os pés e chutou todos os livros e papéis que havia ali em cima. O professor subiu na mesa também, jogando o casaco para longe. – Sexo na mesa da megera!
-É pra já! – disse Augusto, caindo sobre Lanísia e beijando-a na boca.
Conforme o que foi passado por Lorenzo, os alunos desciam das vassouras em frente aos portões de Hogwarts e seguiam o restante do trajeto a pé.
Alone, Hermione e Joyce mal haviam pousado quando Harry aproximou-se, os olhos verdes cheios de culpa fixados em Alone.
-Oi! – disse ele. – Desculpe-me se...
-Harry, não enche! – ela empurrou-o para o lado e começou a caminhar, as amigas um pouco mais à frente; Harry caiu sobre o gramado frio, mas levantou-se rapidamente, limpou as vestes com as mãos e começou a segui-la.
-O que você viu não foi o que você pensou que viu, e...
-Ah que bela explicação, Harry! – ela dizia, sem olhar no rosto dele; seguia o seu caminho olhando em frente, tendo Harry seguindo-a ao lado. – Veja como fico comovida!
-Por favor, acredite...
-Cadê o seu amiguinho Colin? Vá lá chorar no ombro dele! Não é isso que você gosta de fazer?? Não vieram voando agarradinhos? Então!
-Alone...
Mas Harry não concluiu; naquele momento, os dois pararam de caminhar, assim como Joyce e Hermione. As portas de entrada do castelo estavam abertas e, recortada contra a luz, eles viam a inconfundível silhueta de Minerva McGonagall. Minerva berrava; os alunos entravam no castelo de cabeça baixa, encolhidos.
-Oh não! – disse Mione, desesperada. – McGonagall! E agora?
-Podemos nos esconder em algum lugar! – sugeriu Joyce, notando o quanto Hermione tremia ao ser pega em flagrante.
-É, talvez...
A voz de Minerva, magicamente amplificada, tomou os terrenos da escola.
-Já vou avisando que nem adianta se esconderem. Já percebi que praticamente todos os alunos mais velhos da escola estão aqui fora. É inútil fugirem... Oh! Parvati, até você!! Argh, que hálito horrível, oh...
-Não tem jeito mesmo, então, vamos – disse Joyce, mas Mione ainda hesitou, de lábios contraídos.
-Ela não pode ver que também estou aqui...
-Mione, relaxe! Você está melhor do que muita gente por aqui. Não está cheirando a álcool como a Parvati Patil, por exemplo.
-Mas fiz algo contra as regras, e McGonagall verá que...
-Ah, por favor, não foi a primeira coisa que você fez que é contra as regras nas últimas semanas... Agora, venha – Joyce puxou-a pelo braço até ela começar a caminhar voluntariamente.
Alone e Harry também voltavam a caminhar quando Colin Creevey apareceu e interrompeu-os. Harry suspirou, desesperado; Alone revirou os olhos; Colin sorriu.
-O que quer, Colin? – perguntou Alone, cruzando os braços.
-Nada. É que, vendo o Harry de longe, acho que ele estava mais satisfeito enquanto voava comigo. Havia diversão e prazer no rosto dele.
-Que lindo, Colin! Por que não se divertem um pouco mais??
Uma rajada de vento frio anunciou a chegada da neve; grandes flocos começaram a cair do céu, enchendo o gramado de inúmeros pontos brancos. Alone tirou um floco de neve que havia caído no rosto e, com desprezo, disse:
-Agora sim, tudo está perfeito para vocês dois! Construam uma casinha na neve e mandem ver lá dentro. Vocês se merecem!
Irritada, Alone desviou-se para o lado, tomando um caminho diferente do que levava ao castelo. Harry fez o mesmo, enquanto Colin ralhava com ele.
-Por que vai atrás dessa ridícula? – perguntou Colin; ele não obteve resposta; Harry ignorou-o, seguindo Alone novamente, tentando afastar com as mãos os flocos de neve que caíam nas lentes dos óculos.
Alone, sem perceber, caminhava na direção do campo de quadribol.
Serena estava prestes a perder a consciência, abalada pelas constantes ferroadas de dor e esguichos de sangue quente, quando Frieda mandou que ela se levantasse.
-Já está bom – disse a professora. – Hoje você não falou, mas novas sessões de tortura com certeza a farão abrir o bico... Que demora para levantar-se, quer ajuda? – Frieda agarrou os cabelos loiros de Serena e puxou para cima, forçando a garota a erguer-se. A visão de Serena rodopiou, e ela achou que ia despencar no chão, inconsciente, mas a visão entrou em foco novamente. Seus joelhos estavam trêmulos, cobertos de sangue, sangue que escorria pela perna e formava pequenas poças no chão. Um caco ficara penetrado em sua pele, colado pelo sangue; com a mão trêmula, Serena agarrou-o e arrancou-o com um gemido de dor; quase despencou no chão novamente, mas esforçou-se para manter-se de pé e não dar a Frieda o prazer de puxá-la pelos cabelos novamente. – Vejo que perdeu muito sangue... Deve estar sentindo-se bem fraca... – zombou Frieda. – Ali na prateleira tem Essência de Kaviazat e outras poções que interrompem a perda de sangue. Se prestou atenção nas aulas de Poções que teve até hoje, saberá encontrá-las. Enquanto isso, vou tomar um gole de vinho... – Frieda sorriu, contemplando o estado de Serena, e saiu do quarto.
Ela trancou a porta atrás de si; enquanto apanhava as poções e tratava dos ferimentos, Serena ouviu a pequena discussão travada entre mãe e filho. Lewis, obviamente, ainda insistia em entrar no quarto...
As poções foram muito eficazes; os cortes pararam de sangrar e ficaram resumidos a pequenas marcas vermelhas; tomando a Essência de Kaviazat com freqüência, os ferimentos cicatrizariam em poucos dias. A porta do quarto se abriu quando Serena arrumava as poções nas prateleiras.
-Vejo que conseguiu dar um jeito mesmo – comentou Frieda, olhando para os cortes.
-Sim – disse Serena, sem olhar para a professora.
-Do jeito que estava sangrando, era perigoso ter algum problema... Já pensou se você morre?? Ia dar um trabalho gigantesco...
-Não minta, Frieda. Só estamos nós duas nesse quarto. Você adoraria ver-me morta.
-Não gostaria. Serena, eu quero vê-la sofrendo em vida. Presenciar o seu sofrimento, a sua dor. A morte não seria uma boa opção. Pelo menos, no seu caso...
Houve um momento de silêncio depois daquela frase. Serena refletiu se Frieda quisera dizer alguma coisa com aquilo, mas não chegou a uma conclusão; ainda estava abalada demais para formular um pensamento lógico.
Houve batidas seguidas na porta.
-Lewis, já disse para não incomodar!! – gritou Frieda.
-Filch está na porta – falou Lewis.
Frieda franziu as sobrancelhas.
-Agora?? – perguntou para si mesma, olhando no relógio. – Vou ver o que aquele traste quer... Ah! Vou deixá-la sair, mas nem um pio para o Filch ou para o Lewis sobre o que aconteceu aqui dentro. Fui clara?
-Sim...
Frieda abriu a porta; Lewis entrou. Agachando-se em frente à namorada, tomou-lhe as mãos e perguntou, preocupado:
-Você está bem?
-Estou.
-Mas... E esses cacos... Esse sangue todo...
-Não foi nada, Lewis. Esqueça.
-O QUE? – eles ouviram a voz espantada de Frieda.
-Deve ter acontecido algo grave – disse Lewis.
-Vamos ouvir – falou Serena, levantando-se e só parando de caminhar ao chegar bem perto de Frieda, que estava de costas.
-Os alunos estão voltando aos poucos da festa, e a diretora pediu que eu a acordasse para ajudá-la – falou Filch. Ele lançou um olhar de esguelha para os dois jovens que surgiram atrás da professora, mas Frieda, aturdida com as informações que o zelador lhe havia passado, nem percebeu. Saiu imediatamente.
-Claro. Vou ajudá-la a dar um jeito nesses atrevidos!
Filch seguiu-a, olhando torto para Lewis e Serena antes de seguir a professora. Os dois entreolharam-se.
-Minerva deve ter descoberto a Festa Proibida organizada pelo Lorenzo´s – disse Lewis.
-Nossa!! Minhas amigas... Com certeza foram à festa... – Subitamente, Serena recordou-se de que precisava falar com as Encalhadas. – Preciso vê-las!
-Serena, não! Deve estar a maior confusão aí fora!
-É importante! – ela falou para Lewis antes de sair em disparada.
Alone atravessava o campo de quadribol, já coberto de neve. Harry continuava em seu encalço, pedindo para que ela o escutasse, que ela vira coisas – sempre a mesma ladainha...
-Eu já pedi para deixar-me em paz, Harry!
-Não vou deixar até que pare e fale comigo!
-Tudo bem, então! – ela virou para a esquerda e, com passos rápidos, pulando um montículo de neve que se formava na porta, entrou em um dos vestiários. Lá dentro estava aquecido; Alone sentou-se em um dos bancos do vestiário e, cruzando os braços, o aguardou. Harry entrou poucos segundos depois, limpando a neve que cobria as vestes. – Pronto! – disse Alone. – Vamos conversar! Só desse jeito mesmo para fazer você parar de me seguir!
-Ótimo... Mas, pode ser uma longa conversa...
-Que seja! Comece logo a se explicar! – ela exigiu.
De onde ambos estavam não era possível ver que o montículo de neve em frente à entrada do vestiário ia aumentando consideravelmente...
Quando Frieda chegou às portas de entrada para ajudar Minerva, Mione e Joyce estavam paradas em um canto do Saguão de Entrada. Joyce abanava Mione com as mãos.
-Não fique abalada desse jeito! Precisamos voltar ao dormitório, é ordem da McGonagall!
-Ela... me... deu... uma... bronca... terrível... – gaguejou Hermione, de olhos arregalados.
-Será pior se continuarmos aqui!
Rony apareceu, beijando Hermione no rosto.
-Olá!
-Não faz isso!! – ralhou Joyce, controlando-se para não gritar no meio do saguão, onde havia outros alunos. – Demonstrações de carinhos em locais públicos não faz parte de um namoro secreto!
-Desculpe. Não me controlei! E ainda não estou acostumado...
-Pois se acostume, para o bem de vocês dois!
-Não vou fazer de novo – disse Rony. – Mione, amanhã, às oito, no segundo corredor, à esquerda, da sala comunal.
-Estarei lá – respondeu Mione, toda a preocupação se apagando do rosto.
Ela suspirou, observando Rony afastar-se.
-Esse olhar também não faz parte do namoro secreto... Ai... – Joyce respirou fundo. – Isso não vai dar certo... Já estou vendo...
-Não seja tão pessimista – disse Mione. – Ninguém saberá sobre eu e Rony, você vai ver!
-Meninas!
Elas ergueram os olhos; era Serena.
-Olá, "sumida"! – cumprimentou Joyce, sorrindo. – Já soube do que aconteceu?
-Sim. Filch foi atrás de Frieda e eu consegui ouvir. Mas, não é por isso que resolvi procurar vocês... – Serena engoliu em seco. – Frieda está desconfiada.
-Desconfiada?
-Sim, Mione. Desconfiada de que eu tenha feito algo para aumentar a paixão em Lewis. Não é nem desconfiada; ela tem certeza. Percebe que o comportamento dele mudou... Ela... Torturou-me... Para que eu falasse o que eu fiz...
-Você não disse... Disse?
-Claro que não, Joyce. Nosso juramento em primeiro lugar. Diz ela que vai me torturar até que eu fale o que eu fiz. Não sei se continuará com a tortura, mas sei que ela procurará saber, sim, o que eu fiz para conquistar o Lewis. E, vocês sabem, estaremos perdidas se ela descobrir. Todas nós.
-Então, devo procurar uma magia praticada em conjunto.
Serena sentiu o coração quase sair pela garganta; Mione e Joyce deram um salto. Era Frieda, que sorria para elas, tendo um brilho maligno em seu sorriso.
N/A: A madrugada ainda não acabou! Vocês aproveitarão a continuação dessa noite no próximo capítulo!! Obrigado pelos comentários e aguardo novos hehehe
