CAPÍTULO 24

Tarah

Um sonho de mulher...

-Ela simplesmente me jogou no chão do corredor, e avançou em minha direção, com um chicote na mão...

...a pior das amigas...

-É isso o que me diferencia das outras garotas. Não sou mais uma delas; comigo o lance é diferente.

...um acordo perigoso...

-Até mesmo matar alguém? – perguntou Frieda.

...uma ameaça do passado...

-Passado? Será que é mesmo, Alone?


-Atacado? Eu?

-É, Rony, mas será preciso apenas fingir que foi atacado! – avisou Mione. Sentou-se ao lado do namorado no chão do corredor onde fora se refugiar com ele e Alone, para informar o plano em primeira mão.

-Eu sei, mas isso vai acabar com a minha imagem diante de toda a escola! Não seria muito legal as pessoas apontarem para mim e falarem: olhem lá, ele foi violentado pela bruxa pervertida!

-Acho que o Rony tem razão, Mione. As pessoas não vão parar de comentar.

Ela estalou os dedos ao se deparar com uma idéia repentina.

-Não precisa dizer que foi atacado, diga apenas que quasefoi atacado, e que conseguiu escapar dela!

-Grande idéia, Hermione! – Alone comemorou. – Assim espalhamos que a pervertida está atacando e não destruímos a imagem de Rony.

-Eu não entendi uma coisa – falou Rony. – As outras garotas saberão que eu estou fingindo o ataque, já que são amigas de vocês. Falarão para as outras que estou sabendo de tudo sobre a Fogueira das...

-Shhh!! – Mione e Alone pediram silêncio, aflitas.

-Ah, esqueci a censura. Mas, enfim...

-Não precisa falar, já entendi – disse Mione. – Resolvi que ainda não é o momento de falar para as outras. Por enquanto, só Alone e Joyce sabem que estamos juntos e que você está a par de tudo o que fizemos, e continuará sendo assim. Não será preciso informar que você é nosso aliado.

-E como explicará a minha ajuda?

-Simples. Eu manipulei você, utilizando o que ainda sente por mim, para que me ajudasse, fazendo falsas promessas.

-Humm... Isso soará bem cruel... – comentou Rony, puxando com leveza o cabelo de Hermione.

-Crueldade não – ela deu um tapa na mão de Rony, retirando-a de seu cabelo. – Apenas o poder feminino se aproveitando da fraqueza masculina. Pode ter certeza que as garotas nem vão estranhar.

-E quando ocorrerá esse incidente?? – perguntou Rony.

-Hoje mesmo. Precisamos distrair Rebecca o quanto antes. Será melhor perto do final do jantar, quando a maioria dos alunos já estiverem saindo do Salão Principal.

-Enquanto isso, você precisa nos emprestar um de seus uniformes – lembrou Alone.

-Para que??

-Rony, você será quase atacado por uma maluca! Precisamos ser realistas e fazer uma certa destruição em sua roupa.

-Nossa... Será que já não fui atacado por duas malucas?

-Malucas, não. Espertas – corrigiu Mione.

-Acha que vai movimentar a escola a ponto de desviar a atenção de Rebecca? – indagou Rony, desconfiado. – Afinal, será apenas um ataque, e um ataque que nem será concluído...

-Rony, vai ocorrer uma movimentação tão grande que Rebecca ficará totalmente perdida!

-Não vejo como...

-Eu vejo. E foi só se aproveitar, outra vez, do ponto fraco masculino... Rony, vamos criar uma lenda!!

O rapaz franziu a testa, sem compreender muito bem.

-A nossa lenda só precisa de um nome. Um nome forte, para deixá-la bem popular!! – ela olhou para Alone. – Ainda não pensei em um nome pervertido.


-Que tal "Alone"? – perguntou Joyce, durante a reunião noturna, na Sala Precisa. Sem tirar os olhos de Alone, completou, enquanto terminava o rasgo que fazia no braço da veste de Rony: – Nome de garota que não vale nada, não acham?

-É, também acho – concordou Alone. – Esse também é o nome da sua mãe?

-Olha aqui garota, não brinca comigo! – Joyce tentou avançar, porém foi interrompida por Mione, que rapidamente se pôs entre as duas.

-Você que começou! – lembrou Alone. – Querer falar que o meu nome lembra perversão?? Se enxerga, Joyce! Vê se fui eu quem não quis mais saber de um garoto só por causa do tamanho da ferramenta dele.

-Isso não é sinal de perversão! É apenas uma busca por qualidade.

-E quem disse a você que qualidade está ligada ao tamanho? – questionou Clarissa.

-Não sei... Sabem que já experimentei de tudo, por isso agora procuro algo que esteja fora do comum. Quero um que seja fenomenal.

-Tem que pensar em sua satisfação, e não em querer ter direito a algo raro – opinou Clarissa. – Aposto que poderia alcançar prazer da mesma forma com um nas proporções daquele que o Juca possui.

-Uma mulher normal poderia, mas Joyce não é normal, Clarissa – alfinetou Alone. – Como alguém pode dar prazer pra essa coitada, se de tão esfolada ela não sente mais nada?

-Não me irrite!! – dessa vez, Mione precisou do reforço de Serena para conter a fúria de Joyce.

-Parem com isso! – pediu Mione. – Precisamos de concentração para encontrarmos um bom nome para a nossa lenda. Se não trabalharmos em equipe, talvez não encontremos, e temos pouco tempo!

-Certo, vamos analisar... – falou Lanísia, andando pela sala. – Uma mulher... Uma mulher depravada...

-Safada... – ajudou Mione.

-Tarada... – começou Alone, mas foi interrompida por Lanísia.

-Assanhada... – Lanísia olhou para Alone. – Tarada?? Que tal diminuirmos isso e deixarmos como Tara? É feminino, lembra perversão, é o nome que procurávamos!

-Sim! – concordou Mione. – Está aí o nome da nossa garota! Tara!

-É, gostei – falou Serena. – Que tal Tara com "H" no final? Dá mais pinta de nome próprio, além de dar um toque a mais!

-Tarah. Nome de mito – elogiou Hermione. – Terminaram de rasgar a veste de Rony?

Joyce ergueu a roupa rasgada.

-Sim! Totalmente destruída! – falou ela, largando a veste e virando uma garrafa de Demência, que havia contrabandeado para a escola depois da visita a Hogsmeade.

-Ótimo – os olhos de Mione brilharam. – É hora de Tarah atacar.


A maioria dos estudantes começava a se levantar das mesas para saírem do Salão Principal quando Rony Weasley passou pelas portas, chamando a atenção de todos.

O rapaz entrou no Salão cambaleando, as vestes cheias de rasgos e o cabelo desgrenhado. Trazia na bochecha direita uma marca de batom, e seus lábios tinham o mesmo tom de rosa, levemente borrado. Caminhando daquela forma, semelhante à um bêbado, ele disse, em voz alta, para o Salão silencioso:

-Fui atacado!

Nenhuma palavra; as pessoas esperavam que ele prosseguisse. Lançando um olhar discreto na direção das Encalhadas, Rony as viu sentadas lado a lado na mesa da Grifinória, todas parecendo tão tensas quanto ele.

Olhando para o chão do Salão, Rony continuou:

-Fui atacado por uma pervertida, próximo ao corujal! – ele levantou os olhos. – Ela quis me violentar!

Algumas pessoas não entenderam de imediato; Juca Slooper, que estava próximo ao rapaz, cutucou o ombro de Rony e questionou:

-Violentar??

-Sim. Abusar, estuprar, comer à força, fod...

-Sr Weasley!! – vociferou Minerva, pálida, erguendo-se de sua cadeira. – Não use esses termos, e nem fale dessas coisas em voz alta!

-Quanto pudor – comentou Joyce. – Até parece que ela nunca fez essas coisas...

Automaticamente, todas as pessoas esqueceram-se de Rony e voltaram os rostos para Joyce – o comentário, que ninguém escutaria em circunstâncias normais, foi escutado por todos.

-O que foi que você disse, Sra Meadowes?? – perguntou Minerva, fuzilando-a com o olhar.

-Que até parece que você nunca fez essas coisas!

Exclamações de assombro percorreram a multidão, enquanto Mione beliscava o braço de Joyce por baixo da mesa.

-Joyce, fique quieta...

-Quieta por que, Mione? Olha aqui, vamos encarar a realidade! Uma mulher com tantos anos nas costas, e bota ano nisso, não é, diretora?... Uma mulher com tantos anos, querer se passar por pura?? – ela deu um forte tapa na mesa. – É claro que já experimentou os prazeres da vida. Diz aí, diretora... – ela mexeu as sobrancelhas. – Algum aluno mais safadinho... Um dos professores... Já passou pelas mãos de alguns deles, não é verdade?

-CHEGA! – gritou Minerva, as faces coradas. – Detenção! Detenção para essa garota abusada!

-Vagabunda! – berrou Juca Slooper, erguendo-se e apontando para a diretora.

-Que audácia! – a diretora desviou-se para Joyce. – Agora...

-Vadia! – insistiu Juca.

-Bom – Minerva apenas o olhou de soslaio. – Agora, Joyce...

-Sua piranha velha! – ele esticou o dedo para a diretora. Ela não respondeu; Juca perdeu a paciência. – Velha caída, me dê logo uma detenção! Eu te chamei de vadia, vadia!

-É um absurdo! – Minerva abanou-se com a mão. – Aff, o que está acontecendo com a educação desses alunos? Detenção para você também, Sr Slooper, por me ofender!

-Finalmente... – ele suspirou, sentando-se.

Todos estranham a satisfação do rapaz em receber a detenção, exceto Joyce, para quem Juca mandou um beijo à distância.

-Olha... – ela começou, mas Hermione tapou a sua boca com a mão.

-Quieta! – pediu Mione. – O que aconteceu com você??

-Ela tomou uns goles de Demência – cochichou Serena, no ouvido de Mione.

-Ah tem razão... – concordou Mione, aproximando-se do ouvido de Joyce e, também aos cochichos, a instruiu. – Agora, escute-me bem, Joyce: você vai sair calmamente do Salão, em direção a detenção, sem falar coisa alguma! Está desviando o foco das atenções para você, e o foco deve ser o Rony!

-Rony! – ela lançou um sorriso abobalhado para o rapaz. – É mesmo... Ele precisa de atenção... – ela levantou-se, olhando indignada para a multidão. Em seguida, berrou: – ESSE RAPAZ FOI VIOLENTADO! – deu um soco na mesa. – Abusado sexualmente! Isso não pode ser permitido!!

Rony parou de cambalear, sem saber bem como reagir. Mione balançou a cabeça discretamente, pedindo para que ele entrasse no embalo de Joyce.

-É verdade... – ele olhou desesperado para os professores. – Me senti como um pedaço de carne.

-Explique-se, Sr Weasley! – ordenou a diretora. – Quem fez isso??

-Não era possível ver o rosto. Ela usava uma peruca negra que cobria todo o rosto. Ela simplesmente me jogou no chão do corredor, e avançou em minha direção, com um chicote na mão...

-Chicote? – perguntou um aluno da Lufa-Lufa.

-Sim. Ela vinha batendo o chicote no chão, nas paredes... Depois, tirou o casaco que vestia, e ficou apenas com uma lingerie preta...

-Era gostosa?? – perguntou Simas.

-Sr Finnigan! – censurou a diretora.

-Ah sem pudores... – rebateu o garoto.

Minerva ia lhe anunciar que também estava em detenção, mas Rony continuou a relatar o ataque que havia sofrido, chamando a atenção de todos.

-Sim, era gostosa... – ele franziu a testa; por mais estranho que pudesse parecer, ele estava gostando de contar tudo aquilo. Via a admiração e a curiosidade estampada nos rostos de todos os garotos, tanto dos mais jovens quanto dos mais velhos. Todos demonstravam um entusiasmo diferente da curiosidade natural das garotas. E ali ele entendeu onde Hermione queria chegar com aquele plano. Sorrindo, ele prosseguiu, entusiasmado. – O corpo era perfeito. Lentamente, ela vinha em minha direção... Bem devagar... E, quando chegou bem perto, agachou-se e começou a rasgar as minhas roupas... Rasgava sem piedade, usando as unhas afiadas... Enquanto fazia isso, me beijava sem parar...

A ala feminina fazia caretas de repugnância, enquanto a ala masculina vibrava com a história.

E foi sem ânimo que Rony encerrou o relato da maneira que havia combinado com as meninas...

-Então, na hora em que ela ia tirar a minha roupa e abusar por completo, eu... eu fugi...

-Você o quê?? – foi a pergunta feita por quase todos os garotos.

Rony sentiu o rosto esquentar. Por que Mione não lhe falara que aquilo ia acontecer? Na verdade, por que ele mesmo não deduzira o que o plano da namorada visava? Para sua sorte, Minerva, que estava tão chocada quanto todas as garotas da escola, encerrou o momento constrangedor:

-Imagino como foi uma experiência traumatizante. Sr Weasley, sugiro que vá até a ala hospitalar para tomar algumas poções que aliviem o impacto desse momento terrível pelo qual teve que passar. Quanto a todos os alunos, peço que sigam diretamente para as suas respectivas casas e não saiam de lá até o amanhecer. Filch e Rebecca – ela voltou-se para o zelador e para a inspetora – peço que dobrem a vigilância. Se conseguirem descobrir quem foi a garota que atacou o Sr Weasley, ficarei grata.

-Farei o possível, professora – disse Rebecca. Lançou um olhar de ameaça para algumas garotas que estavam no Salão. – Um comportamento tão inadequado não pode ficar impune.

Minerva olhou para Rony, que estava encolhido de vergonha, ainda no meio do Salão.

-Sr Weasley, alguma pista de quem possa ser a garota?

-Nenhuma. Ela só disse um nome, mas com certeza é falso...

-Que nome?

-Tarah.

Minerva contraiu os lábios.

-É... Um nome fictício bem vulgar... Com certeza, as intenções dela não eram muito boas.

-Eu acho que ela vai atacar de novo, professora – disse Rony. – Enquanto chicoteava chão e parede, Tarah disse que eu seria o primeiro.

-Não foi o primeiro, e ninguém será o primeiro. Por isso, ordeno que os rapazes permaneçam em suas casas durante toda a noite. Nos próximos dias, não quero ninguém próximo ao ponto em que o Sr Weasley foi atacado! Seguindo esses procedimentos, a tal Tarah não conseguirá atacar ninguém. Fui clara?

Os meninos fizeram sinais afirmativos.

-Ótimo. Podem ir.

Todos começaram a deixar o Salão Principal; o burburinho habitual era maior; as discussões sobre quem seria Tarah e, principalmente, entre os garotos, o espanto pela fuga de Rony.

Enquanto Minerva conversava com Joyce e Juca os detalhes da detenção, as Encalhadas aguardavam a amiga, ainda sentadas na mesa da Grifinória. Mione comemorava o resultado...

-Vocês viram como os garotos ficaram? Vai sair melhor do que esperávamos!

-Foi uma idéia genial, Mione! – elogiou Lanísia. – Rebecca já ficou com vontade de capturar Tarah.

-Vai ficar com mais vontade ainda... Tarah será um pesadelo para ela.

Alheia à conversa, Clarissa estava atenta à Mesa Principal. Olhava discretamente para Frieda, enquanto os mecanismos de sua mente trabalhavam...

"Não poderei mais utilizar a Fogueira das Paixões para acabar com o Rony. Sem um envolvimento entre ele e Hermione, não posso manipular Malfoy. Como Serena me lembrou, eu sou a única Encalhada que não vou me dar mal caso a Fogueira seja descoberta; eu não encantei ninguém...".

Ela sentiu uma onda de emoção a envolver quando a idéia maravilhosa tomou a sua mente. Seria um pouco arriscado, mas ela tinha que tentar.

Quando viu que Frieda deixava o Salão Principal, Clarissa olhou para as amigas e disse:

-Garotas, vou até o banheiro. Hora do meu tratamento diário... Produtos para a pele... Enfim, as encontro no salão comunal.

-Tudo bem – respondeu Serena. Assim que a amiga afastou-se, ela olhou para as outras. – Ela está fazendo um tratamento diário para a pele?

-Não sabia... – disse Alone. – Mas sabemos bem como é a Clarissa. De uma hora para a outra inventa um tratamento de beleza diferente.

-Vamos para o salão comunal? – perguntou Mione, bocejando, enquanto Joyce se aproximava.

-Sim – respondeu Serena. – Vou com vocês. Enrolo um pouco conversando, aí quando for para o quarto Frieda já estará dormindo... Com Lewis na ala hospitalar, ficarei sozinha com ela... Dá para imaginar?

-Será terrível mesmo – falou Lanísia. – Boa sorte.

-E muito cuidado – lembrou Mione. – Ela pode tentar aprontar alguma coisa para tentar descobrir o que fizemos. Se ela atingiu o próprio filho, não hesitará em atingir a pessoa que ela mais odeia.

-Podem deixar. Ficarei atenta – disse Serena, firme, embora sua voz estivesse ligeiramente trêmula.

Andares acima, algo que poderia colocar um fim na guerra estava prestes a acontecer. Algo que poderia dar a vitória ao inimigo...

Clarissa acabava de alcançar Frieda em um corredor sombrio...


Frieda olhou para a garota com a sua costumeira arrogância.

-Uma das nojentinhas atrás de mim? Posso saber a que devo a desonra de tal aparição?

-Não use esses termos para se referir a mim, Frieda. Pode ter certeza de que você tem muito a ganhar com o nosso encontro.

-Do que está falando, garota tola? Isso faz parte de algum plano imbecil tramado por vocês? Saiba que seria um erro muito grande acharem que podem equiparar a minha inteligência com a de vocês. A minha idéia de deixar o Lewis fora de acesso já não lhes mostrou isso?

-Não faz parte de plano algum. Pode ter certeza disso.

-Não quero conversar com você, garota. É uma delas. Estava junto com elas quando foi feito aquilo que estou tentando descobrir, de modo que...

-Eu estava junto, porém não participei – interrompeu Clarissa. – É isso o que me diferencia das outras garotas. Não sou mais uma delas; comigo o lance é diferente. Se a casa cair para todas, não chega a cair para mim. Eu estava lá, porém a descoberta do que feito naquela noite não me atingirá de maneira nenhuma.

Frieda cruzou os braços, enquanto analisava o rosto de Clarissa, levemente iluminado pela fraca luminosidade dos archotes.

-O que você quer? – perguntou, por fim.

-Propor um acordo. Eu sei o que você tanto anseia em descobrir, e sabemos que, agora, na verdade, você tem a necessidade de descobrir. Sabendo o que as garotas fizeram, você terá a oportunidade de acabar com Serena e, além disso, trancafiar em Azkaban as meninas que vêm tentando descobrir algo de ruim em seu passado. O tempo passa, Frieda, elas vão avançando, e não são tão tolas quanto você imagina. Será que em todos os seus anos não aprendeu a nunca subestimar um inimigo?

Frieda perscrutou o rosto de Clarissa por mais um momento, antes de comentar:

-Você, de fato, é diferente das outras. Muito inteligente, e vai atrás do que quer. Eu só não entendi ainda o quê você quer. O quê a fez vir até aqui, e que tipo de acordo é este.

-Um acordo bem simples. E, se tudo der certo, nós duas saímos ganhando.

-Chega de rodeios, não suporto quem enrola para chegar direto ao ponto. Diga, de uma vez, que acordo é este!

Os olhos azuis de Clarissa refletiam a chama ardente dos archotes quando ela verbalizou a proposta maligna:

-Mate Rony Weasley para mim, e eu digo a você tudo o que as garotas fizeram.


Quando as outras Encalhadas entraram no salão comunal da Grifinória, perceberam que o ataque de Tarah surtira um efeito negativo para Rony. Diversos garotos fecharam um círculo ao redor do rapaz e o bombardeavam com perguntas, demonstrando espanto por sua atitude e querendo saber detalhes sobre Tarah, a "mulher misteriosa"...

-Não entendo o que deu em você, Rony! – dizia Dino Thomas. – Se uma gostosa viesse me atacar, eu me entregava por completo! Fugir jamais!

-É, Rony, isso foi muito estranho – comentou Simas. – Diz aí, se fosse um "Taroh", você deixava, não é mesmo?

Todos no círculo deram risadas. Rony, emburrado, fingiu que também estava rindo:

-É, muito engraçado... Estou rolando de rir...

Hermione suspirou, observando a cena.

-Estou ficando com pena.

-Eu achei engraçado – comentou Alone. – Não sei porque o Rony ficou tão irritado! Sabemos que se fosse atacado por um homem tarado ele não ia permitir o abuso. Agora, se fosse o Colin...

Naquele momento, ela viu Colin sentado na escada que levava ao dormitório, e as palavras se perderam por alguns segundos. O garoto a olhava com um sorriso cínico, e balançava lentamente entre os dedos algo que ela reconheceu de imediato. Uma das fotos que ele havia tirado com Harry.

-...Creevey – ela conseguiu concluir, com a voz fraca. O salão estava lotado, e Colin segurava aquele retrato com uma tranqüilidade absurda. Se alguém apenas resvalasse o olhar naquele registro fotográfico... – Não posso permitir...

Ela deixou a companhia das amigas e começou a atravessar o salão abarrotado.

-O que deu nela? – perguntou Mione às outras, que sacudiram os ombros, também sem compreender.

Alone avançou com dificuldade por entre os estudantes. Parecia que o salão havia dobrado de tamanho, e algo lhe dizia que era tarde demais, alguém veria o retrato antes que ela pudesse impedir Colin Creevey...

Mas, quando ela finalmente chegou à escada, ele continuava sentado, da mesma maneira tranqüila e despreocupada, balançando a foto e a olhando com um prazer irritante.

-Oi, Alone! – cumprimentou.

-Dê-me essa foto, Colin! – pediu Alone, estendendo a mão; ela arfava, devido à corrida e à tensão do momento.

-Por que deveria? É um registro de um momento tão maravilhoso! – ele respondeu, contemplando o retrato; Alone também viu o que a foto trazia. Harry e Colin juntos, debaixo dos mesmos lençóis, sorrindo para a máquina. – Não é lindo? Se você ficar observando, verá que às vezes acenamos, e de vez em quando recebo um beijo no rosto...

-Me passa isso, Colin. É apenas passado, é melhor esquecer tudo o que está aí...

-Passado? Será que é mesmo, Alone? Será que está tão no passado que não pode atingir ninguém, nem mudar nada?

-Claro que não – respondeu Alone, ansiosa. – Harry não gosta mais de você.

-É mesmo? Será que todos acham isso?

E, ao findar aquela frase, Colin arremessou a foto no ar. Um registro indiscutível de seu antigo romance com Harry Potter. Planando entre várias pessoas, fora do alcance de Alone, estava a foto de seu namorado ao lado de outro homem...


Frieda olhou para Clarissa, com nítida surpresa.

-Uma proposta bem ousada. Mais ousada do que eu poderia imaginar. Diga-me, por que quer matar esse menino?

-Quero enterrar tudo o que sinto junto com ele – Clarissa respondeu. – Ele não é homem para mim. Mereço coisa melhor do que um morto de fome.

-Com certeza. Homens não prestam nem com dinheiro, sem ele ficam ainda piores, pode ter certeza disso – comentou Frieda, sem parar de analisar Clarissa. – E o que a faz pensar que eu seria capaz de matá-lo?

Neste momento, Clarissa hesitou, e Frieda não deixou de perceber. Seu olhar clínico captava cada gesto e emoção da garota que estava à sua frente. Clarissa sabia mais do que as amigas; sabia algo que ela de fato havia feito, e por isso achava que podia contar com ela para aniquilar o rapaz que amava. Mesmo sabendo de alguma coisa, Clarissa resolveu manter em oculto, pois respondeu:

-Simplesmente acho que seria capaz de tudo para ver Serena em apuros... Para ter esse segredo em suas mãos...

-Até mesmo matar alguém? – perguntou Frieda.

Clarissa, incomodada com a desconfiança, perdeu a paciência.

-Escute aqui, se não quer firmar um acordo, tudo bem. É só falar! Se não quer esse atalho que estou lhe fornecendo, para ter o que tanto busca em suas mãos num piscar de olhos, tudo bem!

Frieda respirou fundo; a proposta era tentadora. Pouparia muitos esforços, e não seria preciso sujar suas mãos. Alguns galeões e ela colocava Walter em ação outra vez...

-Está bem. Negócio fechado – disse a professora. – Mas, ouça bem: não tente me passar para trás. Quando Rony estiver morto, quero que me forneça todos os detalhes sobre o que suas amigas fizeram. Quero um relato minucioso.

-Pode deixar. Eu presenciei todo o ritual. Detalhes é que não faltarão a você. Diga-me uma coisa, quando poderá eliminá-lo?

-O mais depressa possível. Preciso de suas amiguinhas em Azkaban o quanto antes.

-Você conseguirá mandá-las para lá, e para sempre – prometeu Clarissa. – O que elas fizeram não tem perdão.

-E o que está fazendo a elas também não... Você é uma grande amiga, não é mesmo?

-Não sou das piores. O problema é que estou sem alternativas. Para mandar Rony para o além, precisarei sacrificar a amizade.

-É... Depois poderá fazer novas amigas, mas, um novo amor, talvez não. Já pensou nisso? Que poderá amar esse rapaz mesmo ele não estando mais aqui?

-Poderei amar, mas sem a possibilidade de tê-lo para mim. Não se pode ter o que não existe. Isso é o que eu penso – ela acenou e começou a afastar-se. – Depois que o matar, a procuro novamente.

-Então, até amanhã.


Desesperada, empurrando as pessoas que se encontravam em sua frente, Alone recuperou a foto pouco antes do retrato tocar o chão. Assim que a recuperou, dobrou a foto, ocultando a imagem. Enquanto recompunha-se, percebeu que algumas pessoas a fitavam, mas ninguém parecia ter visto o que estava retratado na fotografia que ela tinha em mãos.

Ela voltou-se para a escada. Colin não estava mais sentado no degrau. Determinada, Alone guardou a foto no bolso enquanto subia a escadaria. Alcançou o garoto quase no alto, e o deteve segurando-o pelo braço.

-O que você quer, Colin?

-Que desista do Harry – respondeu ele, friamente. – Sabe que tenho muitas fotos, e estou pronto a espalhá-las por toda a escola. Ou desiste dele, ou todos saberão que ele não passa de uma bicha.

-Ele já teve algo com você, mas isso está no passado, eu já disse...

-Mas você sabe que muda muita coisa, pelo menos para os outros. Se não mudasse, você não teria corrido como uma louca para pegar a foto antes que alguém a visse.

-Colin, você precisa entender! Harry está comigo, e isso não tem volta!

-Por que não tem volta? – questionou o garoto, intrigado. – Usou algum tipo de magia?

-Não, mas... Sei que ele não quer mais você! Ele tem outra cabeça agora! Gosta de mim!

-Se não tem como mudar isso, eu também não tenho como deixar de revelar as fotos que possuo... Será apenas uma questão de tempo, antes que todos saibam como o seu namorado é esquisito. Já pensou como será terrível? Você, casando-se com ele, tendo filhos, e seus rebentos sabendo que o papai já viveu momentos tórridos com um colega de escola?

Alone encolheu-se, tomada por um calafrio.

-Por isso adoro fotografar. Às vezes pode ser muito útil, sabia? Para registrar o que depois as pessoas teimam em esquecer.

E, lançando um último olhar ameaçador, Colin entrou no dormitório. Alone permaneceu ali, imóvel, na escadaria, por alguns minutos. A perspectiva do futuro que Colin lhe fornecera era terrível. Se tudo seguisse conforme ele dissera, ela e Harry ficariam marcados para sempre...

Visivelmente abalada, ela voltou para a sala comunal. Mione foi ao seu encontro e a guiou até o local onde ela e as outras meninas estavam reunidas.

-O que aconteceu? – perguntou Serena.

Alone lhes contou a ameaça de Colin.

-Conclusão: ele vai acabar mostrando as fotos. Vocês sabem que não posso fazer nada para evitar. É impossível largar o Harry por causa do que fizemos.

-Talvez não seja impossível – lembrou Mione, segurando a mão da amiga. – Mais um motivo para encontrarmos uma maneira de reverter o que fizemos. Você continuará me ajudando em minhas pesquisas, não é, Alone?

Naquele momento, ela não sabia o que era pior: as amigas descobrirem uma maneira de reverter a Fogueira e ela perder Harry para sempre, ou Colin condená-la a ser conhecida como a mulher de um homem que gostava de brincar com outros homens.

Joyce consultou o relógio.

-Uma hora para a detenção – ela suspirou. – Algo me diz que o Juca xingou a Minerva de propósito, para ficar a sós comigo!

-Você ainda está pensando sobre isso? – indagou Lanísia. – É óbvio que a intenção dele era essa.

-Malditas doses de Demência! – praguejou Joyce. – Agora, só me resta aguardar, enquanto o paspalho fica olhando para a minha cara e mandando beijinhos.

Todas olharam na direção de Juca que, de fato, mandou um beijo para Joyce.


Serena foi dormir quando a sala comunal já estava quase vazia. Caminhou lentamente até o dormitório de Frieda, torcendo em silêncio para que, quando chegasse lá, a megera já estivesse dormindo.

Para seu desgosto, encontrou o quarto iluminado, e a professora sentada em frente à escrivaninha, com a cabeça baixa, braços entrelaçados, como se estivesse bem concentrada. Aguardou alguma piada de mau gosto, ou um olhar de desprezo, mas não recebeu nada. Frieda permaneceu na mesma posição.

Estranhando aquele comportamento, Serena atravessou o quarto e abriu a porta que dava acesso ao outro dormitório. Ao fechar a porta, sentiu seus dedos tremerem sobre a maçaneta.

Ela não saberia explicar o motivo, mas a concentração de Frieda a amedrontou mais do que qualquer coisa.

O que ela estaria tramando?


Meia-noite, horário marcado para a detenção de Juca e Joyce – Minerva escolhera o horário de propósito, tendo a intenção de mantê-los acordados por toda a madrugada. Joyce levantou-se da poltrona, e Juca fez o mesmo. Ela olhou para o garoto, irritada.

-Escute aqui, se pensa em se aproveitar dos momentos em que ficarmos a sós limpando aquela maldita sala, já vou lhe avisando: esqueça!

-Relaxe! – ele respondeu, tranqüilo. – Só quero cumprir a minha detenção em paz!

-Sei... – Joyce deu as costas para o garoto e atravessou o buraco do retrato.

Eles seguiram em silêncio, Joyce na frente, Juca atrás. Caminhavam em direção à sala de Transfiguração, a qual teriam que limpar sem o uso de magia – Minerva havia avisado que se encarregaria pessoalmente de pegar as varinhas de ambos antes que entrassem na sala.

Quando dobraram um dos corredores escuros, Joyce trombou com alguém; Juca, distraído, completou a catástrofe, derrubando os três no chão.

-Ai... – reclamou Joyce, limpando a roupa. – Quem é você? – olhou para o rosto da figura; Goyle sorriu, sem graça. – Goyle? O que faz aqui?

-Nada, eu só... só...

-Parece que tem mais gente pra lá, veja! – apontou Juca, mostrando uma sombra em outro corredor.

Joyce correu até lá e espiou. Havia dois garotos da Lufa-Lufa no outro corredor, um parado próximo a um quadro e outro perto de uma estátua.

-Mas o que está acontecendo por aqui? – perguntou Juca, confuso, chegando próximo à ela para espiar também.

-Eu imagino o que seja – respondeu Joyce, voltando para perto de Goyle. – Está esperando alguém por aqui, Goyle?

-Na verdade, sim.

-Quem?

Os olhos do garoto cintilaram quando ele respondeu, lambendo os lábios.

-A Tarah.

-Mas ela é uma tarada! – lembrou Juca, espantado.

-Por isso mesmo! – Goyle estava animadíssimo. – Já pensou ser abusado por uma pervertida?

-Isso é loucura! – insistiu Joyce.

-Ah, diga isso para todos eles... – ele apontou para outro corredor.

Joyce e Juca olharam. Naquele corredor, viam nada menos que cinco garotos, brigando para ver quem ficava com a área.

-Minha nossa... – comentou Juca.

-E pela escola deve haver muito mais... – disse Joyce. Sorriu, pensando na genialidade do plano de Hermione. Os garotos morderam a isca direitinho. – Parece que teremos uma madrugada bem movimentada no castelo...


N/A: Peço desculpas pela demora com mais este capítulo. Vou aproveitar esta nota para dizer que vou alterar o gênero da fic para Romance/Comédia. A fic ficou mais engraçada do que eu esperava a princípio; tomou rumos inesperados, e situações cômicas viraram rotina. No que eu planejava, as Encalhadas eram um pouco mais sérias, mas, não houve jeito: como em todas as fics que escrevi, a história se apossou de mim, personagens ganharam vontade própria e pareciam me conduzir. E fico feliz pela maneira como me conduziram: as Encalhadas são personagens divertidíssimas; rio à beça com as situações e os diálogos, assim como vibro de emoção quando um vilão decide aprontar mais uma. me sussurrando uma nova idéia. À medida que o fim se aproxima, me perco em pensamentos, imaginando como viverei sem essas garotas. Mas, tem que se conformar, não é mesmo? De qualquer maneira, sempre poderei reler as situações vividas por elas, e o orgulho pela fic e pelas personagens irá permanecer. Obrigado a todos, e aguardo o seu comentário!