CAPÍTULO 31

As respostas de Clarissa

-Estamos precisando nos distrair mesmo, então, vamos jogar – disse Joyce, balançando os ombros. –Todas concordam com a idéia da Mione? – ela perguntou às outras garotas.

Alone, Clarissa, Lanísia e Serena concordaram.

-Embora não saiba que jogo é esse, será bom esquecer os problemas – falou Serena.

-Agora que topamos – Clarissa olhou para Mione – como funciona esse jogo??

-Antes disso, acho que é melhor trancarem a porta – pediu Mione.

-Ui, to começando a ficar com medo, mané – comentou Alone, rindo.

-Bobagem. É só uma medida de precaução para que não haja interrupção enquanto estivermos jogando – explicou Hermione.

-Acho que ninguém vai aparecer, mas, se acha melhor... – Lanísia foi até a porta e a trancou. – Prontinho!

-Se alguém bater, a gente enrola a pessoa até terminarmos a partida – disse Mione.

Ela deixou transparecer um pouco de aflição e ansiedade, que foram percebidas por Clarissa. Intrigada, examinando o rosto de Hermione com interesse, ela comentou algo que fez a tensão de Mione triplicar.

-Você está estranha, Mione...

-Eu?? Estranha... Como assim?

Ela sentiu as mãos começarem a suar.

Estou piorando a situação, pensou.

-Chamando a gente para se divertir com uma "cara de velório" – explicou Clarissa, avaliando-a. – Não entendo isso...

-Bobagem. Impressão sua, Clarissa.

-E minha também – falou Serena, de repente. – Clarissa tem razão, Mione. Você está diferente mesmo. Parece que existe algo incomodando você...

Hermione deu uma risadinha.

-Vocês estão vendo coisas. Estou ótima! Talvez seja a ansiedade em deixar todas as preocupações de lado com esse jogo. É, deve ser isso que vocês estão vendo de diferente em mim, porque, é verdade, estou ansiosa para jogarmos logo! Será muito bom para todas nós.

Ela torcia para que as garotas acreditassem; quando viu que tanto Clarissa quanto Serena desviaram a atenção, relaxou.

-Agora, acho bom afastarmos as camas. Precisamos de espaço para formar um círculo.

-Ah, moleza – disse Joyce, pegando a varinha.

Enquanto ela movimentava as camas para os cantos do dormitório, Alone perguntou:

-Qual é o nome da brincadeira?

-O Jogo da Verdade! – disse Mione, cheia de entusiasmo.

-Hum... Nome interessante – comentou Joyce, baixando a varinha e guardando-a no bolso. – Como funciona?

-Formamos um círculo no chão; a varinha, no caso, a minha, será colocada no centro. Vou girá-la, e quando ela parar, vai mostrar quem pergunta e quem responde. A pessoa que perguntar pode fazer qualquer tipo de pergunta, e a outra deve responder com a verdade.

-Ih... – disse Joyce, cismada. – Não estou gostando muito disso...

-Do quê, Joyce?

-De ser pressionada para falar a verdade...

-Qual é o problema? – indagou Mione. – Tem algo a esconder?

-Não, mas existem coisas um tanto constrangedoras.

Lançar um Avada Kedavra em Rony e falhar, por exemplo?, pensou Mione.

-Mas acho que essa será a graça da brincadeira – opinou Lanísia. – Ouvir os segredos mais absurdos... coisas que nem entre nós, que somos tão amigas, foram comentadas!

-Isso se a pessoa não mentir – disse Clarissa. – Porque, se quiser, a pessoa pode fazer isso, não pode, Mione?

Ela esperaria uma pergunta como aquela vinda de Joyce ou Alone. Era estranho Clarissa preocupar-se com a possibilidade de mentir...

É uma preocupação natural. Quem não perguntaria isso?? É natural do ser humano; quando vamos nos arriscar no desconhecido, precisamos saber quais alternativas possuímos caso algo dê errado. Oh, minha nossa, estou ficando paranóica.

-Pode sim, Clarissa – ela respondeu, deixando de lado a desconfiança. – Li as regras e vi que não há obrigação em falar a verdade. Claro que seria divertido se ninguém mentisse, mas, se em alguma partida você não quiser falar a verdade, pode se calar ou contar uma versão que não exista.

-Não, acho que todas devemos falar a verdade – disse Alone. – Perderia a graça se transformássemos a brincadeira no Jogo da "Mentira".

-Concordo! – exclamou Serena.

Hermione caminhou até a mesa-de-cabeceira e retirou um pedaço de pergaminho. Molhando a pena em um tinteiro, assinou o seu nome e estendeu o pergaminho para Serena.

Serena sorriu, maravilhada.

-Ah, Mione, eu sei que sua letra é maravilhosa. Já vi várias vezes.

Alone espiou o pergaminho e deu um tapa na cabeça de Serena.

-Não é pra admirar a letra da Mione, sua anta! Ela quer que você assine também!

-O quê, o meu nome?

Alone revirou os olhos, impaciente.

-Não, o da minha avó!

-Hum... – Serena olhou indecisa para o pergaminho. – Qual é o nome dela?

-Desisto... – comentou Alone, dirigindo-se até um dos armários do quarto e batendo a cabeça contra a porta.

Vendo que Serena começou a escrever no pergaminho, Hermione aproximou-se da garota e tomou um susto.

-Serena, o que é isso?

-O nome da avó da Alone. Desisto... Meio exótico, não acha? Ah! Alone, falta o sobrenome!

-Eu não agüento mais! – gritou Alone, irritada. – Eu vou me jogar! Pra não ouvir mais tanta bobagem! Eu vou me jogar! – ela correu para a janela.

-Não! Calma! – pediu Lanísia, correndo na direção da amiga para contê-la.

-Viu o que você fez, Serena? – perguntou Mione.

-Desculpe – ela baixou a voz. – Mas por que ela ficou assim? Será que não gosta de falar no nome da avó?

-Não é isso, Serena. Acho que perderei meu tempo tentando explicar a você, por isso nem vou falar nada... Agora, me passe o pergaminho – Mione rasgou-o e apanhou outro na gaveta. Assinou seu nome e, dessa vez, ao passar o pergaminho para Serena, foi bem clara. – Escreva o seu nome completo abaixo do meu.

-Sim – Serena apanhou a pena e, finalmente, escreveu o seu nome.

Cada uma das Encalhadas assinou o pergaminho. Com a pena molhada de tinta na mão, Hermione fingiu que conferia as assinaturas e, ficando de costas para as amigas, escreveu no topo do pergaminho o castigo que considerou mais leve:

O rabo no rabo.

-É, está tudo certo – disse, voltando-se para as garotas. – Agora é só tocar a minha varinha no pergaminho para que ela absorva o encantamento... Quais eram as palavras mesmo?? – curvando-se para sua mochila, começou a vasculhar os pertences à procura do livro.

-Anda logo, Mione! – pediu Lanísia. – Já estou ansiosa pra começar!

-Só um segundo, está por aqui... Ah! Pronto, achei! – puxou o livro. – Estava debaixo da minha caixinha de absorventes. Vejamos, onde está... – ela folheou as páginas. – Pronto! Segundo o livro, é só apontar a varinha... – ela direcionou a varinha para o pergaminho. – Agora... O FIO DA VERDADE ESTÁ FIRMADO!

Tocou a ponta da varinha no pergaminho. Por um instante, o objeto emitiu um clarão perolado, que logo se apagou. Satisfeita, Mione sentou-se no chão:

-Vamos, meninas, podem sentar-se. Em círculo, vamos lá!

Enquanto as Encalhadas se ajeitavam, Hermione fingiu que relia as regras do Jogo da Verdade. Era o momento de fingir que certos detalhes tinham passado despercebidos...

-Ai, ai – disse, fingindo surpresa.

-Ai o quê? – perguntou Alone.

-Está doendo? – indagou Clarissa.

-Não, não está doendo! – ela ficou irritada. Tentou voltar à expressão de surpresa. – É que... Eu vi...

-Ah, desculpe, Mione – disse Joyce. – Eu tentei coçar discretamente, mas é que ela fica um pouco irritada com a depilação...

-Não, não foi isso! Vi outra coisa...

-Poxa! – Alone fechou as pernas e enrubesceu. – Foi mal, Mione. Hoje eu to sem calcinha. Esqueci que não to usando e sentei toda largada aqui, com as pernas abertas...

-Eu não vi você sem calcinha! – explicou Mione, exasperada. – Vi...

Serena não permitiu que ela continuasse; olhou para Alone e perguntou:

-Por que está sem calcinha??

-Sei lá... Queria um pouco de liberdade... Ela precisava tomar um ar.

-A minha precisa tomar outra coisa – comentou Joyce, abanando-se com a mão.

-Vocês não gostam de ficar sem calcinha? – perguntou Alone.

-Eu não – respondeu Joyce. – Sinto-me mal quando ando sem calcinha. Sem falar que tive uma experiência ruim quando não usei calcinha...

-Que experiência? – Serena quis saber.

-Às vezes eu ajeito a calcinha com a mão... Uma mania imbecil que tenho! Eu esqueci que tava sem calcinha, fui ajeitar e a minha mão não encontrou a peça íntima... Conclusão, acabei dando um puxão violento na "danada".

-Ai, deve ter doído... – comentou Alone.

-Ei, a Mione ia dizer que tinha visto alguma coisa – falou Serena.

-É, Hermione, que demora em falar o que viu! – censurou Lanísia.

-Eu?? Demorando? Vocês me interrompem...

-Pô, chega de conversa mole, diz logo! – replicou Alone.

-Precisa aprender a ser mais objetiva, mocinha – disse Joyce, com um tom de censura.

-Eu nem vou discutir...

-DIZ! – ordenaram as cinco, em uníssono.

Mione sobressaltou-se; o livro quase caiu de suas mãos. Ajeitando-se novamente, finalmente conseguiu falar:

-O que acontece é que vi algumas regras que não tinha visto antes.

-Nossa... – Lanísia engoliu em seco. – E quais são essas regras?

-Vou começar da que não é tão ruim... Depois que toquei o pergaminho e a varinha absorveu o encantamento, nenhuma de nós pode abandonar o jogo até que a varinha emita um brilho avermelhado!

Brilho avermelhado? De onde tirei isso?, ela pensou.

-Estamos presas aqui até que a varinha decida que o jogo acabou... – resumiu Clarissa. – Certo, e qual é a pior?

-Somos obrigadas a dizer a verdade. Se alguém mentir, acontece uma coisa com essa pessoa.

-Um castigo?

-Sim, Alone.

-E... Que tipo de castigo? – indagou Clarissa, preocupada.

Mione olhou para cada um dos rostos, e, séria, anunciou a punição:

-A pessoa que mentir, morre.


-O QUÊ??

-É... Isso...

-Oh, por Merlin! – Joyce levou a mão ao peito e começou a cambalear pelo quarto. – To morta! To morta!

-Não, não está! – Mione foi até a amiga e a abraçou. – Meninas, é só falar a verdade em todas as respostas que nada vai acontecer.

-Mas corremos risco! – disse Clarissa.

-Não tinha nenhuma regra menos mortífera pra você deixar de ler, Mione? – indagou Alone.

-Não devia ter deixado de ler, mas agora já foi! Agora precisamos jogar, não tem jeito.

-Caramba, não tem como sair... E se eu ficar com vontade de fazer xixi?

-Segure, Serena.

-Mas isso vai molhar a minha mão.

-Ô, minha nossa, você está péssima hoje – falou Alone. – Acho que estamos presas aqui no dormitório, mas os seus neurônios não estão! É para segurar dentro de você, não é para segurar com a mão!

-Ah sim... Ah, isso não é bom. Detesto ter que conter a urina.

-Terá que se esforçar um pouco dessa vez, caso fique com vontade – disse Mione. – Lamento muito por tudo isso, meninas. Mas, por favor, digam a verdade, ou uma de nós sai daqui direto pro cemitério.

-Não seria muito agradável... – comentou Lanísia, estremecendo.

-Posso começar? – Mione estendeu a mão para a varinha.

-Sim – falou Alone, séria. – Comece aí o Jogo dos Defuntos.

-Vamos lá – ela girou a varinha. Todos os olhares ficaram fixados no objeto, à espera. Quando parou, a varinha estabeleceu a ligação entre Alone e Joyce.

Alone, que estava na ponta, comemorou:

-Ótimo! Deixe-me ver, o que vou perguntar...

Joyce começou a roer as unhas, inquieta.

-Qual é a sua maior fantasia sexual?

-Hum... A de princesa árabe é a mais comprida.

-Não é desse tipo de fantasia que estou falando! Não percebe?

-Você falou que era do tipo sexual, então...

-Mas perguntei sobre fantasias que você quer realizar com um homem.

-Ah, você não pergunta direito, não posso fazer nada!

-Agora que entendeu, responde, mané!

-Ela não precisa responder, Alone – disse Mione. – Veja, o fio de ligação se apagou depois da segunda pergunta que você fez.

-Droga! – resmungou Alone. Olhou para Joyce com irritação. – Tudo bem. Da próxima vez eu pergunto direito e você vai ter que responder!

-Alone, você gira a varinha agora – avisou Mione.

Alone girou; a extremidade inferior apontou para Hermione e a superior para Joyce.

Era o momento de descobrir a verdade sobre a amiga.

Mione respirou fundo e perguntou, os olhos fixos no rosto de Joyce, que parecia tensa e cheia de expectativa em relação à pergunta que teria que responder.

-Você já tentou matar alguém?

A reação das garotas foi imediata.

-Nossa, Mione, que pergunta... – comentou Alone, traduzindo em palavras o que as amigas pensavam.

Só uma delas teve uma reação diferente. Clarissa não ficara assombrada com a pergunta feita por Hermione, mas ficou intrigada. Examinando Mione com o olhar, viu que as mãos da garota tremiam e que o rosto estava desprovido de cor.

Era muito esquisito Hermione formular uma pergunta como aquela. E a tensão que sentia era ainda mais estranha; ela havia feito a pergunta, mas parecia querer desaparecer do dormitório.

Por que?

Enquanto isso, Joyce se recuperou do choque e respondeu:

-Não. Nunca tentei matar outra pessoa.

As mãos de Hermione estremeceram ainda mais quando ela suspirou profundamente.

Clarissa, atenta, observou as mudanças; após esse suspiro, o bloco de tensão foi quebrado e Mione exibiu um sorriso de alívio. Aparentemente, fora muito bom saber que Joyce nunca havia tentado eliminar outra pessoa, como se, antes dessa resposta, ela pensasse o contrário.

Por que Hermione veria Joyce como uma possível assassina?

Clarissa sentiu uma agonia no estômago quando Hermione estendeu a mão para girar a varinha. Uma nova rodada daquele jogo perigoso. Se uma pergunta como aquela fosse direcionada a ela, estaria perdida...

Os segundos pareceram estender-se; finalmente, a varinha parou e, para seu alívio, a pergunta não seria destinada a ela – pelo menos por enquanto.

-Alone pergunta para Lanísia! – anunciou Mione.

-Estou com sorte! – vibrou Alone, pensando sobre a pergunta que ia fazer. – Vejamos... Ah! Já sei! Lanísia... Você já tentou se matar?

-Ai, ai... Já. Já tentei...

As Encalhadas ficaram boquiabertas.

-E por que não conseguiu?

-Eu me joguei de cima de uma árvore, mas acabei caindo sobre um imenso arbusto, que amorteceu a queda.

-Bom, se quisesse se matar agora seria mais fácil. Era só contar uma mentira – Alone lançou um olhar fulminante para Mione.

-Calminha, meninas, foi sem querer, já disse... – explicou-se Mione, novamente.

-Antes que a Alone gire a varinha e outra rodada comece, quero pedir um favor a vocês – Lanísia estava séria, olhando para cada uma das amigas. – Não façam mais perguntas a respeito dessa tentativa de suicídio. Foi um momento ruim que quero esquecer. Não gosto de tocar no assunto. Tudo bem?

-Sim.

-Claro.

Foram as respostas murmuradas pelas garotas.

A varinha girou. Parou.

-Serena pergunta para Lanísia! – anunciou Mione.

-Lanísia, por que tentou se matar?

Lanísia escondeu o rosto com as mãos.

-Eu queria saber o que aconteceria depois que eu morresse... Será que dá para mudar o assunto??

-Você achou que poderia fazer um tour no além e depois voltar pra contar história?

-Não. Não foi por isso.

O fio de ligação se apagou.

-Obrigada, Serena, por ter feito o que pedi – disse Lanísia, irônica. – Vou pedir de novo: sem perguntas sobre essa tentativa de suicídio!

A varinha parou e ligou, outra vez, Alone à Lanísia. Lanísia revirou os olhos, aborrecida.

-Por que você queria saber o que aconteceria depois que morresse?

Lanísia, enfurecida, respondeu:

-Queria saber se viraria um... fantasma.

-E por que se jogou justamente em cima de arbustos??

-Bom, eu... Eu queria diminuir a dor...

Alone gargalhou.

-Desculpe-me, Lanísia. Se fosse a Serena ou a Joyce, podia até aceitar, mas você... Quanta burrice!

Lanísia ia puxar a varinha, mas foi interrompida por Hermione.

-Mais uma rodada, meninas. Alone, agora é com você. Gire a varinha!

Clarissa cruzou os dedos, tensa. Mais um momento que pareceu estender-se por minutos. A varinha girava, ameaçadora. Uma ligação com a pessoa errada, uma pergunta que a encurralasse e todos os seus segredos podiam ser revelados. E a pessoa errada, para ela, era Hermione.

Quando a varinha parou, ligou Hermione a Alone. O nervosismo de Mione retornou. Ela gaguejou enquanto fazia a pergunta:

-V-você já lançou uma ma-maldição da morte em alguém?

-Hermione! – disse Joyce. – Por que está fazendo esse tipo de pergunta?

-Podemos perguntar o que quisermos – ela explicou-se.

-Não, Mione, nunca lancei uma maldição da morte – respondeu Alone, sem sorrir. – Agora pode fazer o Rebate. Vai perguntar o quê agora? Se já decapitei alguém com uma faca?

Apesar do modo seco como Alone se dirigiu a ela, Hermione estava radiante.

-Não é preciso. Não vou utilizar a segunda pergunta.

Duas questões quase idênticas, para duas pessoas diferentes. A tensão em receber um "sim" como resposta. Perguntas feitas justamente por Hermione, que sugeriu o Jogo da Verdade...

Hermione bolou o jogo para desmascará-la.

Sim, era isso. Clarissa começou a suar frio. De algum modo, Hermione devia ter começado a desconfiar das amigas, e seu objetivo seria fazer aquela pergunta para cada uma delas. Ela devia saber que a garota que roubara a sua primeira noite com Rony Weasley estava ali, naquele círculo, como uma das Encalhadas.

Faltava descobrir qual delas era a traidora.

-Não estou me sentindo bem... – disse ela, o medo a impedindo de permanecer sentada. – Preciso sair...

-Não dá pra sair, Clarissa, só quando a varinha emitir o tal brilho avermelhado – lembrou Serena.

-Dane-se, eu não posso ficar aqui! – ela estava de pé, sem olhar para as amigas, o suor acumulando-se sobre a testa.

Hermione levantou-se e segurou os ombros da amiga.

-Clarissa, acho que já está acabando, mas, enquanto isso, sente-se...

-EU NÃO QUERO MAIS JOGAR ESSE JOGO ESTÚPIDO! – ela gritou, desvencilhando-se das mãos de Mione e correndo pelo quarto.

-Clarissa, volte aqui! Não tem como sair!

Clarissa não foi muito longe; foi barrada pelo escudo invisível formado em torno das participantes. Com o impacto, ela caiu para trás. Mione sabia que, ao contrário do que havia contado às amigas, o escudo só ficava ativo quando uma nova rodada começava, por isso surpreendeu-se quando Clarissa não conseguiu prosseguir. Olhou para o círculo e viu o que ocorrera; uma nova rodada tinha sido iniciada, e o fio de ligação unia Serena a Joyce.

-Quem girou a varinha? – ela perguntou.

-Você, ué – respondeu Serena. – Chutou quando se levantou para ajudar a Clarissa.

Ela foi ajudar a amiga a erguer-se do chão. Clarissa não precisaria esperar muito; Mione já havia conseguido as respostas de Joyce e Alone. Para seu alívio, nenhuma das duas era o inimigo misterioso. Era só acabar a próxima rodada e encerrar a brincadeira.

-Só mais algumas rodadas e acho que poderemos sair, Clarissa – disse Hermione, confortando a amiga.

-Tudo bem – respondeu a jovem de olhos azuis, tentando manter o controle; não adiantava espernear, gritar, se revoltar. Não havia como sair dali sem jogar.

Ela voltou para o seu lugar, olhando cautelosa para a varinha ameaçadora que repousava no centro do círculo. Por favor, Hermione não pode perguntar para mim, não, preciso ter sorte, por favor...

-Joyce – começou Serena – qual foi o cara mais estranho que você já viu pelado?

-Sem dúvida, o Nick Quase-Sem-Cabeça.

-Por que você quis ver o fantasma pelado?

-Eu queria saber se o "quase-sem-cabeça" também valia para a cabeça de baixo.

Serena fez uma careta enojada.

-Por que ta fazendo essa cara? – estranhou Joyce. – Seria um exemplar no mínimo diferente!

Antes que pudesse inventar o fim do jogo, Mione foi surpreendida pela rapidez de Serena, que girou a varinha, ansiosa em iniciar uma nova rodada.

A varinha parou e apontou a parte superior para Clarissa. Para seu imenso alívio, a pergunta seria feita por Alone, e não por Hermione. Ela permitiu-se até um sorriso.

-Vê se pega leve, Alone! – pediu, sabendo que a pergunta de Alone não a ameaçaria.

-Eu acho que será uma pergunta leve, comparada com as que já saíram por aqui... Clarissa, você está apaixonada por alguém?

Não queria responder aquilo; poderia gerar especulação. Mas o que podia fazer? Era só responder e usar todo o seu poder de persuasão para convencer as amigas a manterem sua privacidade. Sempre dera certo, por que ia falhar agora?

-Sim – baixou o olhar, fazendo sua expressão mais sofrida. – Peço que não perguntem mais sobre isso. É algo que me faz sofrer. Sabem que não gosto de revelar segredos desse tipo.

Alone confirmou com a cabeça, como se compreendesse a amiga.

Em seguida, fez a sua segunda pergunta:

-Qual o nome do garoto que você ama?

A tristeza cedeu lugar ao pânico e, enquanto todas as Encalhadas a fitavam, esperando a resposta, Clarissa sentia que era o fim da linha.


Clarissa estava encurralada; não tinha como fugir. Era obrigada a responder. Ou isso ou a morte. Simples assim. Assustadoramente simples.

Teria que confessar o que sempre procurou esconder. A sua paixão por Rony Weasley, pelo garoto das vestes surradas e dos livros usados. Era vergonhoso demais...

O que seria pior? A morte ou reconhecer aquela paixão?

Envergonhada, olhando para a janela, respondeu:

-Ronald Weasley.

Hermione levantou-se, olhando, confusa, para a amiga.

-Como?

-É isso aí... – disse Clarissa, desviando o olhar da janela e encontrando a expressão perturbada de Hermione. – Isso que você ouviu. Não me obrigue a repetir esse nome.

-Rony... Não pode ser – Hermione não conseguia aceitar a resposta de Clarissa; não conseguia sequer pensar a respeito. Apenas perguntar... – Desde quando? Como aconteceu??

-Não sou obrigada a responder essas perguntas, Hermione – respondeu Clarissa, secamente. – Não existe nenhum fio de ligação ativo que me obrigue a isso.

-Opa, Clarissa, baixe a guarda – disse Joyce. – Essa resposta que você nos deu foi... surpreendente! É natural que a gente queira entender melhor...

-E é natural que eu não queira falar sobre isso! – vociferou Clarissa, erguendo-se e ficando de costas para as amigas.

-Mas é que é tão estranho – comentou Lanísia. – Você sempre ofendeu o Rony, o chamava de imundo, pobretão, e agora diz que é apaixonada por ele. Queríamos entender melhor...

-Não há nada para entender! Eu mesma não entendo como isso aconteceu. Não posso explicar para vocês...

Um silêncio incômodo. Enquanto Alone, Serena, Lanísia e Joyce permaneciam sentadas em seus lugares, Clarissa permanecia sem olhar para elas, os braços cruzados, enquanto Hermione, também de pé, fitava algum ponto de uma das paredes do quarto, tentando pensar e não chegando a lugar nenhum.

-Será que ainda vai levar muito tempo para acabarmos com esse jogo imbecil? – perguntou Clarissa.

Hermione olhou para a varinha que estava no chão.

Era o momento de encerrar o jogo?

Eu acho que não.

-Não podemos encerrar o jogo ainda – falou ela. – Como vocês podem ver, a varinha não emitiu nenhum brilho avermelhado. Continuamos presas aqui.

-Mas que droga! – Clarissa olhou para Hermione e, enquanto virava-se, derrubou alguns pertences que estavam sobre a mesa-de-cabeceira mais próxima. – Essa porcaria de brincadeira não tem fim?

-Por que, Clarissa? Existe algum problema em continuar com o jogo? Tem medo que seja feita alguma pergunta sobre o que acabamos de descobrir?

-É! Isso mesmo! Não quero mais falar sobre isso! O assunto Rony Weasley me enjoa. Somos tão amigas... Será que não dá para respeitar a minha vontade?

Mione estava confusa; não sabia se confiava ou não em Clarissa. Sentindo piedade ou não, o jogo ia continuar e Clarissa era obrigada a aceitar. Quanto a não tocar mais no assunto... Hermione não podia garantir.

Uma parte de seu ser insistia para abordar o assunto outra vez.

Mas, por enquanto...

-Está bem – disse Mione. – De minha parte, pode ter certeza de que não voltarei a falar nisso, pelo menos enquanto estivermos jogando.

As outras Encalhadas concordaram em não tocar mais no assunto. Clarissa fitou-as com desconfiança, até que, por fim, sentou-se no mesmo lugar, sem abandonar o olhar vigilante.

Hermione, ainda sentindo-se zonza pela descoberta, também se sentou e fez sinal para que Alone rodasse a varinha. Alone assim fez, sem animação – a animação parecia ter sido expulsa do círculo. Havia um clima pesado pairando sobre as Encalhadas.

O fio da verdade uniu Serena a Lanísia.

-Qual foi o momento que a fez sentir mais medo em sua vida?

-Quando vi a foto de Augusto ao lado da família – respondeu Lanísia. – Pensei por um momento que teria destruído um lar.

-Acha que a filha dele, a Karen, vai aceitá-la quando você e o professor assumirem que estão juntos?

-Sim. Isso vai demorar ainda, mas tenho certeza de que, quando falarmos para todos que nos amamos, a Karen vai entender.

-Com uma mãe daquelas, ela com certeza tem que adorar você – comentou Alone. – Acho que ela adoraria qualquer uma...

-Atenção! Vou girar a varinha! – avisou Serena.

Quando a varinha parou e ligou Clarissa a ela, Joyce reclamou:

-Não é possível! Eu de novo?

Clarissa precisou de dois minutos para encontrar uma pergunta; era difícil pensar diante do medo que sentia. Por fim, encontrou uma pergunta interessante e a fez:

-De todos os caras com quem você já se relacionou, qual foi o que mais mexeu com o seu coração?

-Hum, pergunta inspirada – comentou Serena.

Joyce mordeu o lábio. Buscou a resposta dentro de si mesma, e o primeiro rapaz que veio à sua mente estava acompanhado por uma lembrança...

"Está vendo esse local, Juca? Olhe como ele está vazio. Sem movimento. Sem vida... Agora, se ficar em silêncio, pode-se ouvir bem a agitação lá em cima, como o Lorenzo´s está lotado. Movimentado. Cheio de pessoas".

"Você quer dizer que também existe essa separação em sua vida, não é? Por mais homens que já tenham passado por ela, eles dançaram e se divertiram no baile do desejo. Nenhum deles bailou no baile do amor... Ou melhor, nenhum deles criou essa divisão. Nenhum deles dividiu espaço nos dois bailes. Nenhum fez um balanceamento agradável entre amor e desejo".

"Exatamente... Apenas ocuparam o baile do desejo, farrearam, e quando foram embora, deixaram o lugar vazio. A minha vida sempre foi assim, Juca; divertida, mas vazia".

Ela fechou os olhos, com força. O rapaz não podia ser Juca; aquilo era absurdo. Precisava forçar a mente a encontrar a resposta correta; não podia ser aquela.

Mas outra imagem daquela noite sobrepôs-se aos seus pensamentos...

Ela via Juca lhe falando...

"Sim, eu sempre fui conhecido por causa do meu "talento", mas nunca fui amado por ninguém, nem mesmo...".

Ela calou-o, colocando um dedo sobre os lábios dele. Ela falou:

"Então, somos mais parecidos do que imaginávamos...".

"Talvez não...".

"Claro que somos. Cercados por diversas pessoas durante nossas vidas, sendo que nenhuma delas deixou uma marca em especial".

"É, faz sentido...".

O que estava acontecendo com ela? Por que a primeira resposta que lhe ocorria era justamente Juca Slooper, com seus óculos de aros grossos e seu Q.I. extraordinário?

Ela tentou pensar em outro garoto, mas não conseguiu; a resposta para a pergunta de Clarissa estava ali, era Juca, e seria considerada como verdade, porque de fato era.

-Juca – ela respondeu, abrindo os olhos. – Juca Slooper.

-Sério? – perguntou Lanísia.

-Sim. Eu estou viva ainda, não notou?

-Clarissa, vai fazer o Rebate? – perguntou Alone.

-Não. Está tudo bem. A resposta de Joyce já foi suficiente.

-Mesmo assim, quero explicar algumas coisas. A pergunta de Clarissa foi sobre o cara que mexeu com meu coração. Juca me deixou sensibilizada em alguns momentos, por isso senti que a resposta seria ele. Mas isso não quer dizer – ela fez uma pausa para rir um pouco. – Desculpem, até dá vontade de rir diante disso... Isso não quer dizer que eu esteja apaixonada por aquele CDF de pinto murcho. Por favor, nem brinquem com uma coisa dessas!! Nem ousem pensar nisso! É que, como o Juca é diferente dos outros caras com quem já dormi, que só pensavam "naquilo", ele foi o único que conseguiu me sensibilizar em alguns momentos. Mas nada de paixão, meninas, nada disso! – ela fitou-as com ar de preocupação. – Vocês entenderam, não entenderam?

As garotas se entreolharam, em dúvida.

-Bom, acho que sim – respondeu Alone. – Depois de você enfatizar tanto que não é paixão, só podemos acreditar.

-Ótimo. Que bom! – Joyce pareceu satisfeita. Ansiosa em mudar de assunto, incentivou Clarissa a girar a varinha.

-Calma, Joyce, já vou girar – disse Clarissa, estendendo a mão para a varinha.

Uma nova sensação de pânico a invadiu. A varinha rodou... rodou... rodou... Quando parou, Clarissa achou que ia desmaiar; o fio de ligação a unia com Hermione Granger.

E o pior era que Hermione perguntaria.

Desconfortável, Clarissa decidiu tentar usar todo o seu poder de convencimento – que falhara na outra pergunta – para convencê-la a não insistir no assunto Rony Weasley. Achava que não ia adiantar, mas era melhor, pelo menos, tentar.

-Hermione, peço que...

Mione ergueu a mão, um gesto que pedia silêncio. Clarissa calou-se, amedrontada; o olhar desconfiado de Hermione já avisava o que estava por vir...

-Clarissa, você já transou com Ronald Weasley?

Direta. Fria. Ou "sim" ou "não". Não havia escapatória. Estava encurralada por aquela pergunta.

Fizera tantas coisas para que nem aquela paixão fosse descoberta, e, agora, confirmando, acabaria reconhecendo que o ralé a tocara, fizera coisas com ela, aquele homem imundo sobre o seu corpo delicado...

Ela sentiu o rosto esquentar, envergonhada. Não havia como fugir; se mentisse e morresse, seria, de qualquer maneira, uma confirmação de que havia dormido com Rony.

Nesse caso, era melhor falar a verdade vergonhosa...

-Sim.

Hermione levantou-se subitamente.

Foi ela.

Clarissa, uma das Encalhadas; uma de suas amigas. Uma Encalhada que tentara matar outra pessoa...

-Mas... É difícil entender... Se você ama o Rony, por que quer matá-lo?

-Como assim, Mione? – intrometeu-se Alone, perdida.

-Quem disse que a Clarissa quer matar o Rony? – indagou Lanísia. – Que palhaçada é essa?

-Meninas, deixem a Clarissa responder! – vociferou Mione.

Ela respondeu, o rosto ainda corado, mas os olhos azuis encarando Mione.

-Porque sei que o único modo de me livrar do amor que sinto por ele é matando-o.

As garotas sentiram-se ainda mais perdidas; Hermione sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Era quase inacreditável. Era como se, diante delas, estivesse outra Clarissa. A Clarissa que conheciam não diria coisas como aquelas; a Clarissa que convivia com elas odiava Rony Weasley; a Clarissa que era uma Encalhada não possuía instintos assassinos, muito menos aquele olhar psicótico que, agora, passava por cada uma delas.

Os olhos eram os mesmos, mas estavam desprovidos de emoção e cheios de loucura.

-Clarissa, pare com isso... – pediu Joyce. – Está me assustando...

-É, pare com essa brincadeira... – falou Lanísia.

-Ela não está brincando, garotas – disse Mione. – Ela disse a verdade! Não tem como contar mentiras nesse jogo!

-É a verdade, mas, por mim, não seria, podem ter certeza disso! – os olhos de Clarissa estavam marejados de lágrimas... porém, ainda estavam impregnados de loucura. – Não queria matá-lo, mas é o único meio que tenho para me libertar, entendem? Rony não pode ficar vivo...

-Existem outras formas de se esquecer alguém, Clarissa – lembrou Mione, percebendo que em breve também ia começar a chorar. – Não é preciso matar!

sim! A única forma de se livrar definitivamente!

Ela se levantou e ficou diante de Hermione; agora as duas se encaravam, frente a frente, enquanto as demais Encalhadas observavam, tensas.

-Como pôde nos enganar desse jeito? – perguntou Mione.

-O que você queria que eu contasse? Que queria matar o Rony? Vocês nunca entenderiam, como não estão entendendo agora!

-Poderíamos ajudá-la a encarar as coisas de outro modo...

-Os outros modos não me interessam, Hermione! Os outros modos que você menciona são limpos, lentos e na maioria das vezes não dão resultado algum!

-O seu modo deu algum resultado, Clarissa? Rony não está vivo?

-Sim, mas... Não por muito tempo...

Houve um momento de silêncio onde as duas apenas encararam uma a outra. Lágrimas escorriam pelos rostos das duas.

-Os resultados que você conseguiu com essa maneira de tentar se livrar do Rony são esses – Mione fez um gesto em direção às Encalhadas. – Todas as suas melhores amigas decepcionadas com você. E, além disso, tornou-se uma criminosa...

-Não sou uma criminosa! Nem se o seu namorado bater as botas poderei ser chamada de criminosa. Eu planejo o ato, Mione, mas não sou eu quem seguro o punhal...

-O que quer dizer?

-Quero dizer que, se o Rony morrer, não serei eu quem o matará. Eu apenas dou as coordenadas para outra pessoa...

-Draco?

-Esse mesmo! Ele faz tudo o que eu quero, só precisa ouvir as palavras certas...

-Todas as vezes em que Draco tentou matar o Rony...

-...ele foi orientado por mim. Eu não participo da parte em que posso sujar as minhas mãos. Fazer com que você jogasse o nome dele na Fogueira foi a idéia mais perfeita que já tive...

Joyce avançou lentamente, olhando para Clarissa com indignação.

-Você não escreveu o nome do Draco no papel porque na época estava apaixonada por ele?

-Não. Escrevi apenas para fazer com que a Hermione jogasse o nome dele.

-Você já pensava em utilizar o ciúme dele para prejudicar o Rony? – perguntou Mione.

-Sim. O ciúme e os meus conselhos criaram um monstro. Cego. Influenciável. Era como uma outra Clarissa solta por aí; Draco fez tudo o que eu lhe pedi.

-O seu lado obscuro em outra pessoa... Se Rony fosse morto, Clarissa, mesmo que não fosse por suas mãos, você seria uma criminosa. Do mesmo jeito.

-Não, não seria... E tem mais! Também não perdi as minhas amigas! Não preciso perdê-las! É só vocês me perdoarem, entenderem as minhas ações e tudo ficará da mesma forma!

Ela olhou, esperançosa, para as garotas. Parou quando, novamente, ficou frente a frente com Hermione.

-Até você, Mione, pode me perdoar!

-O quê? Depois de tudo o que você fez?

-Sei que peguei mais pesado com você, mas tudo o que fiz tem fundamento...

-Fundamento? Qual é o fundamento em se passar por mim e dormir com Rony?

-Eu tive minhas razões para fazer isso! E você também teve a sua parcela de culpa na história...

-E qual foi?

-Estava namorando o Rony às escondidas! Vocês dois me enganaram. Isso merecia uma punição... Se bem que, para ele, acho que não foi ruim. Ele acabou nem sendo punido...

Ela sorriu em meio às lágrimas.

-Ele adorou. Grudou em mim feito um animal no cio.

Mione fechou os punhos, atormentada.

-Não queria mais largar. E ofegou, gritou feito louco, oh, foi maravilhoso para nós dois.

-CALE A BOCA, CLARISSA! – berrou Mione, de repente, assustando a todas.

-Não fale assim comigo! – replicou Clarissa. – Estou só contando como foi para ele aquele momento.

-Não preciso ouvir mais nada...

-E então? – ela estava aflita, ansiando pelo perdão. – Vocês compreendem as minhas atitudes? Vão me perdoar?

Joyce, pálida, respondeu:

-Não, Clarissa. Eu nunca pensei que teria que falar isso, mas você está expulsa d´As Encalhadas.

-Como??

-Isso mesmo que você ouviu – disse Mione. – Ninguém precisa de uma psicopata dentro do grupo; de alguém que pensa apenas em si mesma; de alguém que não tem limites e acha que os atos mais loucos são atos normais...

-O que está insinuando? Que não sou normal?

-Normal ou não, não a queremos mais no grupo – disse Alone.

Clarissa revoltou-se; enxugou as lágrimas e, recompondo-se, ergueu o dedo indicador.

-Querem saber de uma coisa: que se dane! Não estou nem aí para vocês e para esse grupo estúpido! Não me querem aqui? Tudo bem... Não farão falta. Agora...

Olhou para Mione.

-O Rony fará muita falta, não é mesmo? Por isso, um último conselho de amiga, para mostrar que não sou uma louca, que não tenho consideração alguma por você: aproveite o seu namorado. Aproveite todos os segundos que puder passar com ele, porque o tempo está acabando. Qualquer dia desses você fica sozinha outra vez... E já experimentei do material, e é fantástico. Se fosse você, saía daqui e já ia atrás dele. Se esbalde, Mione, porque é uma delícia!

Ela deslizou a língua pelos lábios e riu.

Hermione fitou-a com desprezo.

-Quer saber, Clarissa? É justamente isso que vou fazer! Vou atrás do Rony agora mesmo, mas não para fazer isso que você aconselhou...

-Para fazer o que então?

-Para mostrar a você o preço de enganar as suas amigas – Mione tirou o pergaminho do bolso e o rasgou, quebrando o encanto do Jogo da Verdade. – Meninas, vamos imobilizar a Clarissa!

Antes que ela pudesse reagir, Hermione, Alone, Serena, Joyce e Lanísia agarraram os seus braços. Mione conjurou cordas resistentes para conterem a fúria de Clarissa. As garotas a soltaram, enquanto Hermione explicava:

-O jogo acabou, já podemos sair do quarto.

-Mas a sua varinha não emitiu nenhum brilho avermelhado...

-Depois explico, Lanísia. Agora preciso chamar o Rony. Enquanto isso, vocês podem tirar as roupas da Clarissa e a deixarem apenas de lingerie.

-O que está pensando em fazer comigo, sua doida? – perguntou Clarissa, exaltada, ainda lutando contra as cordas.

-Você logo vai entender, "amiga" – provocou Mione.

As Encalhadas que ficaram no dormitório trataram de fazer conforme Mione pediu; arrancaram as peças de roupa que Clarissa vestia, deixando-a apenas de calcinha e sutiã.

-Acho que já sei o que Hermione quer fazer... – comentou Alone.

-É, também andei pensando uma coisa – disse Lanísia, um sorriso maldoso brilhando em seu rosto.

Hermione voltou.

-Já falei com Rony. Ele está nos esperando no salão comunal. Por sorte, não há ninguém lá, todos estão tomando café-da-manhã.

-E agora, o que fazemos? – perguntou Serena.

-Temos que levá-la até o Salão Principal...

-O quê?? – Clarissa arregalou os olhos. – Querem me exibir no meio do Salão lotado, é isso?

-Não, Clarissa. É pior.

Elas forçaram Clarissa a caminhar. Desceram para o salão comunal, onde Rony aguardava, com as vestes rasgadas e alguns riscos no rosto. Apesar disso, sorria, satisfeito, para a prisioneira seminua.

-Fiquei muito chocado em saber que você foi a responsável por tudo, Clarissa, mas, diante do que está para acontecer, não consigo ter outra reação senão sorrir.

-Agora começa a encenação, Rony! – avisou Mione. – Podemos encontrar alguém nos corredores, e todos precisam ter a mesma impressão.

-Que impressão??

Clarissa não teve resposta. Elas a obrigaram a caminhar. Saíram do salão comunal e começaram a andar pelos corredores, rumo ao Salão Principal. Rony fingia que estava assustado, e, vez ou outra, principalmente quando cruzavam com alguns grupos de alunos, gritava assanhada, louca, safada! Isso enquanto apontava para Clarissa...

Era só passar pelas pessoas que elas começavam a segui-los, curiosas. Ao chegarem em frente ao Salão, já havia um numeroso grupo de curiosos atrás deles. Quando Hermione abriu as portas do Salão, encontrou o ambiente lotado.

Alguns foram atraídos pela visão da jovem seminua; mas aqueles que não perceberam foram imediatamente atraídos pelo grito de Rony:

-CAPTURAMOS A TARAH!

Um "Oh" admirado percorreu a multidão.

Clarissa, presa, se debateu.

-Não podem fazer isso! – ela reclamou às garotas. – Isso é injusto!

-E tudo o que você fez a nós não foi? – perguntou Mione, olhando-a com frieza.

-ISSO É MENTIRA! – gritou Clarissa, desesperada, para a multidão. – É TUDO ARMAÇÃO! ELES ESTÃO...

-TODOS OS RAPAZES QUE JÁ FORAM ATACADOS PELA TARAH, DIGAM SE NÃO FOI ESSA MULHER QUEM OS ATACOU! – bradou Rony, apontando para Clarissa. – ESSA MULHER LINDA, PORÉM SAFADA, NÃO FEZ VÁRIAS COISAS COM VOCÊS?

Simas Finnigan levantou-se.

-Sim! Foi ela que me atacou!

-É, ela estava com essa lingerie mesmo! – gritou um Sonserino, apontando para Clarissa. – Estava assim quando LAMBEU O MEU CORPO INTEIRINHO!

-É, ela é a Tarah! – gritou um rapaz da Lufa-lufa. – Foi ela que sentou no meu colo como uma potranca assanhada!

Hermione empurrou Clarissa e gritou:

-CLARISSA STUART É TARAH! FOI ELA, MENINAS, QUE ATACOU OS NAMORADOS DE VOCÊS! FOI ELA QUE ATAPALHOU OS RELACIONAMENTOS! ELA QUE ROUBOU A ATENÇÃO DE TODOS OS RAPAZES DE HOGWARTS!

Várias garotas, de todas as Casas, levantaram-se. Mione olhou para trás e viu que outras garotas começavam a se manifestar, irritadas.

Por todos os lados, ouviam-se comentários femininos...

-Essa ordinária atacou o meu namorado!

-Ele disse que essa safada era melhor do que eu!

-Ele me contou que ela fez de tudo...

As garotas começaram a sair das mesas das Casas e aproximaram-se; todas tinham o mesmo olhar furioso direcionado à Clarissa.

Assustada, Clarissa olhou para todos os lados. As garotas se aproximavam pela frente, pelos lados, por trás. Horrorizada, ela percebeu que estava sendo cercada por aquele grupo numeroso de mulheres enraivecidas...