CAPÍTULO 33
O fim da guerra
Entre confusões e momentos tensos...
-E agora? Pra que lado vamos? – perguntou Alone.
-Acho que as mulheres são recepcionadas pelo Calça Rasgada e os homens pela Peituda.
-Não tem jeito: precisamos segui-lo.
...a Guerra Encalha-Enruga se aproxima do fim...
-Ah, tem que ser este!!
"Nunca subestime o poder de um inimigo, sim, é o que dizem por aí".
Rony quis acompanhar as Encalhadas, mas Hermione lembrou-o de que Draco não podia vê-los perto um do outro. Assim, as garotas seguiram sozinhas.
-Temos que alcançar a Lanísia, antes que seja tarde demais... – disse Hermione, apreensiva.
-Vamos manter a calma! – orientou Joyce. – O que Ted poderia fazer de tão sério com a Lanísia em tão pouco tempo?
-Muitas coisas – lembrou Alone. – Ele é meio tarado, pode estuprá-la...
-É mesmo, ele tava doidão para dar uma "bimbada" nela – disse Joyce.
Mione levou uma das mãos ao coração, apreensiva.
-Não pare de andar, Mione! – avisou Serena, que vinha atrás dela e a empurrou pelos ombros.
-Não vou parar mesmo! – Hermione começou a correr, passando a frente de todos. – Pobre Lanísia... Não podemos permitir que a pegue à força! Vocês se lembram de como a "Vaclarissa" ficou ao lembrar da experiência que teve com ele?? Estava arrasada! Aquela noite traumatizou a garota!
-Tem razão – concordou Alone. – E olha que ela deu porque quis.
-Pois é! Se o Ted causou um trauma psicológico em uma garota que abriu as pernas por livre e espontânea vontade, imagine o que fará com uma que não quer praticar atos indecentes!
-Lanísia nunca mais será a mesma! – exclamou Serena, espantada. Seguindo Hermione, ela também acelerou os passos. – Corram também, meninas!
Joyce e Alone entraram na corrida. Elas desceram a escadaria de mármore e cruzaram o saguão de entrada sem parar por um segundo. No jardim iluminado pela luz da lua, as Encalhadas, já ofegantes, correram em silêncio por um bom tempo.
-Estava pensando... – Joyce começou, ao mesmo tempo em que desviava da raiz de uma árvore.
-Como você consegue pensar numa correria dessas? – indagou Mione, exausta, olhando-a com admiração.
-Adquiri a prática ao dormir com muitos homens – ela disse, orgulhosa. – Às vezes o "bem-bom" rola em véspera de prova, ou simplesmente está rolando em lugar público, então preciso ficar atenta. Consigo aproveitar o momento e pensar quais eram os ingredientes essenciais para preparar determinada poção.
-Interessante... – comentou Mione.
-É, mas necessita de prática e muita atividade na amiguinha. Lamento, Mione, mas essa qualidade você não vai adquirir tão cedo.
-Mas... – ela ergueu as mãos.
-Mãos não valem! É preciso um homem de verdade... Ou mais de um, como foi no meu caso.
-Você já tem um, Mione – lembrou Alone, quase tropeçando. – Só precisa levá-lo pra cama!
-Eu, não. Quero que ele me leve para a cama, e não o contrário!
-Então faça com que ele tenha essa vontade – disse Joyce, com um tom de educadora.
-Sim, vou tentar... Ei! Estamos chegando aos portões!
-Vamos conseguir salvar a pobre e indefesa Lanísia!! – comemorou Serena. – Nossa, já estou me sentindo uma heroína!
-"As Super Encalhadas"- disse Alone. – Um grupo de heroínas prontas a ajudarem garotas que não conseguem arranjar um namorado!
-Seria um sucesso! – falou Serena.
-Seria um fracasso, isso sim – replicou Hermione. – Nem nós mesmas nós conseguimos desencalhar direito... íamos ferrar a vida das coitadas...
Elas cruzaram os portões.
-Agora vamos mudar o ritmo – orientou Mione, parando e puxando a varinha. – Menos papo e mais ação!
-Oh, isso é o que eu costumo dizer pros caras que falam muito – comentou Joyce, dando uma risadinha.
-Vamos aparatar na Rua Principal do povoado, não é isso? – indagou Serena à Mione.
-Sim. Se a Lanísia preferiu ir caminhando, chegaremos antes dela.
-Todas prontas?? – Joyce fitou as amigas, que confirmaram. – Certo, então, quando eu contar até três... Um... Dois... Três!
Elas aparataram lado a lado em Hogsmeade. Joyce localizou-se e apontou a direção correta para a Bruxetes.
-É por ali! – as Encalhadas iam começar a correr, mas Joyce as impediu. – Não façam isso! Poderiam estranhar!
-Hum... Tenho uma idéia que fará com que não estranhem... – Alone sorriu, misteriosa.
-Que idéia??
Ela começou a correr e gritou para as amigas:
-Gente!! A bolsa exclusiva da Pradar está em promoção!!
Assim, elas puderam correr à vontade, misturando-se às outras mulheres que estavam em Hogsmeade e começaram a se precipitar em direção à loja que supostamente estaria oferecendo a bolsa da grife em promoção. Vendo que as Encalhadas tomavam um caminho diferente, uma delas chegou a gritar:
-A concorrência está diminuindo!!
-A bolsa é minha, é minha! – berrou outra.
-Excelente idéia, Alone! – elogiou-a Hermione, enquanto disparavam por uma rua escura.
-Obrigada. Só lamento como elas ficarão decepcionadas quando perceberem que não existe bolsa nenhuma em promoção...
-Já passei por isso, e não é nada bom... – comentou Serena.
-E vejam só: chegamos à Bruxetes...
A loja estava diante delas. Uma faixa indicava que a inauguração ocorreria em dois dias. Por enquanto, a fachada permanecia apagada durante a noite, de modo que a janela iluminada do andar térreo se destacava na escuridão.
-Talvez ele ainda esteja sozinho, apenas a esperando – sugeriu Serena.
-Vamos até a janela para verificar – disse Joyce. Olhou para os dois lados da rua. – Parece que não há ninguém por perto.
-Acha melhor irmos todas nós? – perguntou Mione.
-Bom, duas pessoas espiando a janela de um local dá no mesmo que quatro pessoas fazendo isso: é estranho do mesmo jeito.
-É, não tem porque nos separarmos – concordou Alone. Ela atravessou a rua e fez sinal para que as amigas a seguissem.
Reunidas diante da janela, elas espiaram...
As cortinas estavam afastadas, permitindo às garotas enxergarem toda a ala principal da loja. Entre os manequins, puderam visualizar Lanísia e Ted aos beijos.
-Nada anormal por enquanto... – disse Serena, tranqüilizando-se.
Dentro da loja, Lanísia encerrava o beijo ao afastar Ted com as mãos.
-Não... Aqui não...
-Por que não, docinho? – indagou o bruxo, erguendo o rosto da jovem. Sua voz expressava um carinho que ele jamais sentira. – Quer ir até a mansão outra vez?
-Sim... Você sabe que esses manequins não me deixam à vontade. Podemos ir até a sua mansão, usar qualquer um dos vários quartos! – ela acariciou o peito dele. – Dessa vez não seremos interrompidos, não é?
-Não, pode deixar comigo. Nenhum elfo imbecil vai incomodá-la com passos irritantes.
-Sendo assim... – ela abriu o pote que continha pó-de-flú; inclinou-se propositalmente para apanhá-lo, sabendo o efeito que tal movimento causaria em seu vestido curto. A reação entusiasmada de Ted foi presenciada pelas Encalhadas...
-Nossa, ele quase entrou na bunda dela – comentou Alone.
-Por um momento eu pensei que tivesse entrado... – disse Mione, horrorizada.
-Alerta-macho! – Joyce exclamou de repente. – O negócio dele já ficou erguido! Olhem lá o volume!
Ted levantou-se para apanhar um pouco do pó-de-flú, deixando bem à mostra o que Joyce havia apontado.
-Já está armado... Oh, minha nossa, o que será que ele vai fazer com esse facão? – perguntou Alone, aflita.
-Eu não sei, mas pelo que estou vendo dá pra ele fazer um belo estrago – comentou Joyce, arregalando os olhos diante do que via. – Ele podia tirar a calça pra gente admirar um pouquinho...
-Vai ver foi por isso que a "Vaclarissa" não gostou muito – sugeriu Hermione.
-Não tenha dúvida de que foi um dos motivos – concordou Joyce, apertando os olhos para enxergar melhor. – É preciso preparo para agüentar uma coisa como essa... Ah, acho que daqui a pouco vou conseguir dar uma olhadinha...
-Acha que ele vai tirar tudo?
-Acho que a calça vai arrebentar antes disso.
Dentro da loja, Lanísia também notou a animação de Ted e expressou surpresa através do olhar.
-Puxa... O que acontece aí embaixo??
-Será que preciso explicar como funciona o órgão sexual masculino? – ele riu, desdenhoso.
-Não. Eu sei para que serve faz tempo. A minha amiga Joyce me explicou bem como funcionava antes que eu pudesse ver um... Me diz uma coisa: fui eu mesma quem causou tudo isso nele?
-Sim. Ele está louco para invadir você.
-Humm... – ela gemeu. Jogou o pó-de-flú sobre as chamas da lareira. Fez um sinal com a mão convidando-o a fazer o mesmo e disse. – Mansão Bacon!
As Encalhadas ficaram tensas.
-Na certa estão indo até a mansão dele – falou Hermione. – Só precisamos esperar que Ted faça o mesmo para entrarmos na loja!
Ele fez; também desapareceu nas labaredas, deixando a loja ocupada apenas pelos manequins. Joyce adiantou-se até a porta do estabelecimento, apontando a varinha para a fechadura.
-Alorromora!
O feitiço foi o suficiente para permitir que elas entrassem na loja. Depois de todas passarem, Joyce trancou-a novamente, suspirando de alívio.
-Que sorte! Achei que a loja estava cercada por outros feitiços de proteção.
-Provavelmente ele deve cercá-la de alguma proteção adicional durante a noite, mas, no ânimo do momento, tendo a "diva" da loja ao lado dele, deve ter esquecido – opinou Hermione, enquanto passava os olhos pelos manequins. – Eles são um tanto assustadores, não acham?
-Sim – respondeu Serena. – Não ficaria aqui sozinha com eles de jeito nenhum!
-Meninas, sem muito papo! – alertou Alone, abrindo o vidro que continha pó-de-flú. – Vamos para a mansão!
-E se chegarmos lá e dermos de cara com os dois?
-Acho que não precisamos nos preocupar muito com isso – respondeu Joyce. – Vocês viram como o clima estava esquentando. Ele deve arrastá-la para o quarto dele rapidinho.
-Para violentá-la.
-Aff, Serena, vira essa boca pra lá! – disse Mione, estremecendo. – Está pegando o pessimismo do Lewis! Voltando à nossa missão de resgate... quem vai primeiro?
-Eu vou – era Joyce quem se adiantava até a lareira, com a mão fechada cheia de pó-de-flú.
-Boa sorte!! – todas desejaram.
Joyce jogou o punhado de pó sobre as chamas e, em seguida, respirou fundo e disse:
-Mansão Lingüiça!
-Bacon!! – disseram as Encalhadas em uníssono; mas era tarde demais. Joyce já havia desaparecido.
-Droga! – Hermione chutou a perna do manequim mais próximo. – Qual é o problema que ela tem com esse sobrenome??
-Ela confunde as comidas – disse Alone. – Nossa, aonde será que ela foi parar?
-A única coisa certa é de que na mansão do Ted ela não está – falou Serena. – Pobre Joyce: perdida em algum lugar, sozinha...
-Isso não é bom... – murmurou Mione, pensativa. – Não podemos deixá-la. Uma de nós precisa fazer o mesmo que ela e dizer o nome da tal Mansão Lingüiça.
-Eu posso ir – Serena ofereceu-se, solícita.
-Ótimo – Hermione passou o pote de pó-de-flú para ela. – Será uma missão mais simples, então...
-Ei, ei, o que quer dizer com isso? – indagou Serena, irritada. – Que não sirvo para situações mais arriscadas?
Mione suspirou e respondeu com sinceridade:
-Sim.
-Olhe só, Hermione, eu...
Alone baixou a mão de Serena – que estava com o dedo em riste apontado para o rosto de Hermione – e interrompeu:
-Enquanto você discute a sua inteligência com a Hermione, a Lanísia pode estar na cama do Ted e a Joyce correndo risco de morrer em algum lugar desconhecido.
-É, tem razão – Serena, apressada, apanhou o pó. – Discutiremos isso depois, Mione! – ela avisou, antes de entrar nas chamas e pedir para ser direcionada até a tal Mansão Lingüiça.
-Agora somos nós – falou Mione, enchendo a mão com pó-de-flú. – Por favor, Alone, não confunda o Bacon com outra coisa!
-Relaxa, estou concentrada. Aquele verme não vai tocar em nossa amiga.
As duas disseram corretamente o nome da residência e, segundos depois, encontravam-se na lareira da sala da Mansão Bacon. Encolhidas dentro da lareira, elas examinaram o local com o olhar; a sala estava deserta.
-Eles já devem estar em um quarto – disse Alone. – Devo ficar triste ou contente com isso??
-Depende do que ele está fazendo com ela... – Hermione esticou a perna e saiu da lareira.
-Mione... Enlouqueceu?
-Para salvar a Lanísia não podemos ficar aí dentro! – ela olhou o local novamente. – Não tem ninguém por aqui, pode sair!
Nervosa, Alone deixou o esconderijo que a lareira proporcionava e juntou-se a Hermione na sala da mansão. Aos cochichos, encolhidas e de mãos dadas, as duas começaram a confabular:
-Eles devem ter ido até um dos quartos – disse Mione, apontando para a enorme escadaria que levava ao segundo andar.
-Talvez não...
-Acha que ele a levou pra onde, então?
-Ah, não sei... Mas essas coisas nem sempre acontecem nos quartos. O Harry me traçou no vestiário do campo de quadribol, por exemplo...
-É, mas não tem nenhum vestiário por aqui...
-Então eles podem estar na cozinha, porque...
-Quer saber? Vamos logo ver os quartos. Estamos perdendo tempo com essa discussão. Se não estiverem lá em cima, a gente examina os outros cômodos!
-Certo... – elas se encaminharam até os degraus da escadaria.
Galgaram os degraus em silêncio, mas não pararam em momento algum. As palmas das mãos suavam devido à tensão do momento; tentando transmitir apoio uma à outra, elas colocavam mais força no aperto de mão.
Ao alcançarem o patamar, as duas pararam, indecisas...
-E agora? Pra que lado vamos? – perguntou Alone.
-Não faço a menor idéia... Seguimos por um dos dois lados, passamos na frente de todos os quartos, e, se não os encontrarmos, voltamos...
-Shhh! – fez Alone, pousando um dedo sobre os lábios de Hermione e fazendo-a calar-se imediatamente.
Mione fitou-a, sem compreender e, em resposta, Alone apontou para a sala; Hermione olhou na direção que o dedo da amiga apontava e viu a sombra gigantesca e assustadora sobre o carpete; a sombra de alguém que se aproximava...
Ela sentiu o coração disparar e, após o momento de choque, segurou a mão de Alone e sussurrou:
-Corre.
Elas entraram no corredor à direita. Mione girou a maçaneta da primeira porta, mas esta estava trancada.
-Já volto, minha diva... Não saia daí, hein? – elas ouviram a voz de Ted e notaram o tom irônico utilizado na pergunta.
Puxando a varinha do bolso, Hermione destrancou a porta. Aflitas, ela e Alone entraram no dormitório e respiraram, aliviadas, ao trancarem a porta.
-Será que estamos seguras aqui? – indagou Alone, ofegante.
-São muitos quartos... Seria muito azar ele estar vindo justamente pra cá.
-Mesmo assim, é melhor ficarmos prevenidas – Alone olhou o quarto onde estavam. A mobília era simples; havia uma cama de solteiro, uma cômoda, um guarda-roupa e um caldeirão pequeno que, pelo aspecto, não devia ser utilizado com freqüência. – Parece um quarto de visitas... – ela foi até o guarda-roupa. – Vamos nos esconder aqui dentro... – ao abrir a porta e olhar para o interior do móvel, Alone levou um susto. Não havia roupas ali dentro, apenas livros. Hermione, atrás da garota, estranhou a reação da amiga e aproximou-se.
-Algum problema??
-Sim. Mas entre primeiro, ele pode estar vindo pra cá!
Elas entraram no guarda-roupa, subindo nos livros que estavam empilhados e encostaram as portas.
-Lumus – Alone acendeu a varinha e apontou-a para a capa de um dos volumes. – Veja, Mione. Um livro sobre feitiços proibidos.
-Minha nossa... – exclamou Hermione, pegando o livro das mãos da amiga. – Feitiços impróprios para bruxos grandiosos. Foi isso que a assombrou?
-Não... Dê uma olhada na capa desse aqui – ela mostrou outro volume. – Mais feitiços malignos... Todos os volumes guardados aqui dentro se referem a feitiços e rituais proibidos.
-Quem possui uma coleção como essa é capaz das coisas mais terríveis...
-Não tenha dúvida disso, Mione...
-Ele não veio para esse quarto. Seria bom descobrirmos onde ele está agora.
-Ah, não sei não... Da próxima vez pode ser que não dê tempo de fugirmos...
-Vamos fazer o seguinte: ficamos com a porta entreaberta e, ao avistarmos qualquer sinal de movimento, nós o seguimos. Estamos bem perto do patamar; se ele sair do quarto onde está agora para descer para o térreo terá que passar por ali.
-Oh... Está bem – respondeu Alone, temerosa. Elas deixaram o esconderijo, ambas com as respectivas varinhas em punho, prontas para qualquer ataque.
Mione abriu um pouco a porta. Sentindo um medo descomunal, ela e Alone aguardaram. Uma hora a sombra ia reaparecer... ou Ted Bacon empurraria aquela porta e encontraria as duas...
Uma música alta e estridente estremecia as paredes da Mansão Lingüiça. A pedido de Serena, Joyce saiu da residência com a amiga. Sobre o caminho de pedras que levava à porta da mansão, já livre de toda a barulheira, Serena contemplou a fachada, enojada.
-MANSÃO LINGÜIÇA: PEGUE EM UMA OU USE A SUA... Que palhaçada é essa?? – ela perguntou, apontando para a placa pendurada acima da porta. Ao lado das palavras, havia o desenho de um homem e de uma mulher, nus.
-Eu ainda não entendi direito, mas confesso que achei bastante interessante – disse Joyce, sorridente.
-Quando você saiu da lareira também foi recepcionada pelo cara da calça rasgada??
-Sim!!
-Oh, minha nossa... – Serena estremeceu. – Ele me ajudou a sair da lareira, e quando virei para agradecer... A calça estava rasgada atrás!! Aparecia tudo!!
-E do lado tinha uma mulher com os peitões de fora, você viu?
-Claro. Tinha como não ver??
-Eu reparei que é a única lareira disponível. Acho que as mulheres são recepcionadas pelo Calça Rasgada e os homens pela Peituda.
-E aquele povo se esfregando em cima do balcão?? Todos pelados, se pegando lá em cima, Joyce!! E rodeados por aquelas luzes...
-Sabe, eu estava achando que era apenas alguma danceteria mais liberal, mas to achando que é mais do que isso... "Pegue em uma ou use a sua": isso é um incentivo ao ato sexual!
-Eu vi um cara passando uns galeões para uma das garotas, mas achei que era um prêmio pela performance dela...
-Deve ser um prêmio antecipado pela performance que ela terá na cama, isso sim! – opinou Joyce, olhando para as janelas. – Olhe: todas as cortinas fechadas. É... Isso deve ser um prostíbulo luxuoso.
-Olá, Joyce! – uma voz cumprimentou-a.
-Oi, tio Eddie! – ela acenou. O tio continuou caminhando rumo às portas da mansão. Ela olhou para Serena, ainda contente por ter visto o tio. – O que será que ele faz por aqui... OHHHHH!! – Serena segurou-a para que ela não caísse com o espanto.
-Parece que o seu tio veio usar a lingüiça dele...
-Que absurdo... Vamos até lá, Serena! Quero ver o que esse velho abusado vai fazer lá dentro!
-Ah, eu não quero voltar pra lá...
-Deixe de ser mole! É só encarar naturalmente!
-Um bando de mulher com a amiguinha de fora e um bando de homens com as coisas balançando... É, realmente, Joyce, é fácil de encarar com naturalidade! – replicou Serena, irônica.
-Então ande com os olhos fechados! Eu seguro a sua mão.
Serena aceitou, mas foi resmungando.
-Mansão Lingüiça... Que coisa mais bizarra!
-Estamos cercadas por coisas bizarras, amiga – disse Joyce. – Nem fique impressionada...
-Vê logo o que o seu tio está fazendo para darmos o fora daqui!
Elas abriram as portas da mansão. De imediato, foram cercadas pelo som ensurdecedor. Segurando Serena pela mão, Joyce caminhou entre as diversas mesas dispostas no saguão, cujo chão era coberto por um carpete vermelho-escuro. As paredes, também vermelhas, eram cobertas por desenhos dourados. Além do balcão onde as pessoas nuas dançavam, havia diversas plataformas dispostas pelo saguão, divididas por outros casais que se esfregavam sem parar em danças sensuais.
Joyce olhou para a escada e viu diversos casais subindo. Era uma mansão feita para ambos os sexos: algumas mulheres subiam ao lado dos funcionários, e homens subiam os degraus acompanhados das dançarinas seminuas.
-Isso aqui devia se chamar Mansão da Perdição – comentou Joyce ao ouvido de Serena, para fazer-se ouvir ao barulho do local.
-Aposto como você está gostando muito – respondeu Serena.
-Oh!! Não posso acreditar que eles façam isso!!
-O quê? Encontrou algo pior?
-Não! Muito melhor!!
Ela correu, puxando Serena. Aproximou-se de um estande onde uma mulher – que, para sua surpresa, estava inteiramente vestida – atendia; no alto, estava a faixa: PROVADOR.
A placa que havia chamado a atenção de Joyce anunciava:
ESCOLHA O SEU TAMANHO FAVORITO E ENTRE NO PROVADOR!
Roland – P
Balazar – G
Hugo – GG
Melvin – XG
-Olá, querida!! – Joyce cumprimentou a atendente. – Esses tamanhos aí se referem a...
-As lingüiças deles – a mulher respondeu. – E aí, vai querer entrar no provador??
-Sim!!
-Joyce, que provador é esse? – perguntou Serena, assustada. Ela abriu os olhos e leu a placa. – Você enlouqueceu??
-Ainda não! Oh, Serena, é uma oportunidade única! Não posso desperdiçá-la! – olhou para a atendente novamente. – Quero provar o XG!!
-É maior de idade?
-Sim.
-Então entre! – ela conduziu Joyce até a frente do provador que trazia a indicação: XG. – Tem certeza de que não quer um número menor? Não sei se...
-Pode ficar tranqüila. Eu vou agüentar!
-Tudo bem... Já que está dizendo... – a mulher balançou os ombros e abriu a cortina.
O interior do provador era iluminado por uma luz rosada, que aumentava o ar de sensualidade. Havia um sofá e uma cama; o homem estava sentado no sofá. Joyce foi se aproximando, esquecendo-se totalmente de Serena. Seu coração batia acelerado, sintoma de sua ansiedade excessiva. Ao chegar mais perto, viu que o tal Melvin estava de cabeça baixa, aguardando-a.
-O-oi... – ela cumprimentou, tocando-o no ombro.
O homem ergueu o rosto. Joyce gritou:
-TIO EDDIE??
Após poucos minutos – que, para elas, pareceram horas – elas ouviram sons de passos e uma sombra se destacar no patamar: Ted havia saído do outro corredor e agora descia para o térreo.
Hermione e Alone saíram do quarto. Alone tocou o ombro da amiga e questionou, em seu ouvido, se estariam fazendo a coisa certa.
-Ele pode ter carregado a Lanísia para algum lugar oculto. Não tem jeito: precisamos segui-lo.
Cautelosas, elas alcançaram o patamar e espiaram a sala. Ouviram os passos de Ted distanciando-se para o mesmo lado de onde ele havia saído anteriormente. Temendo perde-lo de vista, elas desceram a escadaria correndo.
As duas seguiram pela sala e encontraram um único corredor. Seguiram o corredor até o fim, os ouvidos atentos a qualquer ruído; não ouviram som algum vindo do aposento, e não sabiam dizer se isso era um bom ou mau sinal...
De onde estavam, elas podiam ver uma mesa cercada por cadeiras elegantes, o que fez Mione supor que se tratava de uma sala de jantar; ao saírem do corredor elas confirmaram essa suposição. A sala era luxuosa e encontrava-se deserta; Alone indicou uma passagem no lado esquerdo, que provavelmente correspondia à cozinha.
Elas seguiram para essa passagem, procurando captar algum sinal de que Ted estava ali dentro. Só havia silêncio; elas atravessaram e entraram na cozinha da residência. Ver que Ted não estava parado ali pronto para atacá-las fez com que ambas suspirassem profundamente.
Por um momento, Hermione pensou que não havia como seguir em frente, mas uma porta de madeira no fundo do aposento revelou que estava enganada. Instintivamente, ela olhou para a fresta que havia entre a porta e o piso e reparou que havia luminosidade no aposento que a porta ocultava e, mais do que isso, havia sombras lá dentro; alguém caminhava lá dentro, agitado. Ela indicou a parte inferior da porta para Alone, que arregalou os olhos ao perceber que havia alguém no outro aposento.
Hermione fechou os olhos, tomou fôlego e, sendo seguida de perto por Alone, começou a caminhar na direção da porta.
As pernas bambeavam, mas ela permaneceu firme, seguindo até a porta...
Estava a poucos passos quando a voz de Ted tornou-se audível...
-...foi difícil encontrar essas algemas, minha diva, você não sabe como foi complicado! Os trouxas vendem esses acessórios justamente para fazer brincadeiras desse tipo, mas eu precisava de algo mais resistente; não estava muito convencido de que você ia querer brincar comigo, não sei porquê... Então, resolvi me prevenir e comprar esse par que não pode se destruído por nenhum tipo de magia. Não acha que dessa maneira será mais divertido?? Você só sai se eu quiser.
-Ted, me tire daqui... – elas ouviram a voz de Lanísia, e perceberam que a amiga estava chorando.
-Isso... Implore... Peça para que eu a deixe em paz. A coisa fica mais excitante, sabe?
-Não toque em mim!
-Calma, diva! Calma! Você tem razão; afinal, por que perder tempo com carícias se temos coisas mais interessantes para utilizar? – ele gargalhou. – Tenho até um artefato que vai deixar a brincadeira mais divertida! Vou buscá-lo.
Alone agiu mais depressa que Hermione; agarrando o braço da amiga, ela se agachou e, juntas, as duas se esconderam debaixo da mesa, ficando ocultas pela toalha de mesa que a cobria.
Ted abriu a porta.
Ele atravessou a cozinha e saiu.
Assim que ele deixou o aposento, Mione e Alone deixaram o esconderijo e correram para dentro do local onde Lanísia fora deixada.
O que elas viram fez com que se esquecessem momentaneamente de Ted...
O local era uma espécie de quarto para empregados. Lanísia estava deitada em uma cama de casal, ainda utilizando o vestido com que saíra, embora este trouxesse rasgos que antes não estavam ali. As mãos estavam algemadas, presas à uma prateleira que ficava situada logo acima da cama. Ao ver as amigas ali dentro, Lanísia sorriu entre as lágrimas.
-Que bom que estão aqui... – disse ela. – Ted enlouqueceu; do nada ele apareceu com essas algemas... Não tive como reagir, ele é mais forte do que eu...
-Ele fez isso porque sabe que você não tem interesse algum nele – explicou Mione. – Graças à Clarissa, ele já está sabendo dos nossos planos.
-Por isso viemos até aqui – disse Alone. – Para evitar que ele faça algo contra você.
-Nós não poderemos mais enganá-lo, por isso seria muito bom se você conseguisse descobrir...
-O quê? – Lanísia olhou para a amiga, incrédula. – Você quer que eu continue a investigá-lo? Olhe só como estou, Mione! Esse cara vai abusar de mim e depois me matar!
-Justamente por isso! Sei que parece assustador, mas não existe melhor momento para descobrir o que ele e Frieda tramaram no passado. Ele pensa que é o fim da linha pra você, e vai acabar falando pelos cotovelos...
-Hermione, se vocês me deixarem aqui será mesmo o fim da linha...
-Não vai. Estaremos por perto para evitar...
Elas ouviram sons de passos.
-Ele está vindo – murmurou Alone, alarmada.
Mione apontou para um pequeno sofá que estava encostado na parede do fundo.
-Vamos ficar ali atrás!
-Meninas, voltem aqui! – pediu Lanísia, mas as garotas não a escutaram e desapareceram atrás do sofá. – Droga! Estou perdida... Ele vai acabar comigo...
Joyce levou as mãos à boca.
-Não posso acreditar... Tio Eddie!! Eu pensei que era um tal de Melvin!
-Melvin é meu nome de guerra...
-Droga!! Eu pensei que você trabalhasse com fabricação de vassouras! – disse Joyce, indignada.
-Não, minha filha, dou duro aqui mesmo.
-É, e bem duro, não é??
-Desculpe... Mas não costumo falar que trabalho aqui na Mansão Lingüiça. Não podia imaginar que você ia vir até um dos vestiários, ainda mais o do tamanho XG!
Joyce corou.
-Que saco, não quero falar sobre esses assuntos com o senhor! – ela virou-se para sair do vestiário. Antes de sair, indagou. – É XG mesmo?
Tio Eddie baixou a cabeça.
-Não pergunta isso, Joyce, eu fico com vergonha...
Indignada, ela abandonou o vestiário e segurou a mão de Serena, que estava caminhando, perdida, pelo saguão.
-Vamos embora! O lugar é ótimo, mas perdi a vontade de farrear.
-Desistiu??
-Sim. Mas não me intimidei pelo tamanho; o problema era o dono do "negócio".
-Que bom, não vejo a hora de sair daqui. Você não sabe os apuros que passei... Com os olhos fechados acabei esbarrando em coisas indevidas.
-Acha que ainda vale a pena irmos até a mansão do Ted?
-Acho que não. Talvez as garotas já tenham voltado para o castelo. Vamos para lá.
Elas passaram pelos corpos seminus que ladeavam a lareira e, pedindo para serem direcionadas até a Bruxetes, as duas deixaram a mansão da perdição.
Ted voltava ao quarto; ele olhou Lanísia de cima a baixo e sorriu maliciosamente.
-A jovem indomável presa e forçada a fazer tudo o que eu quiser... hummm... Isso é excitante demais!
Lanísia percebeu que as mãos dele estavam ocultas pelo próprio corpo. Intrigada, ela perguntou:
-O que está escondendo aí atrás?
-Ah, está doidinha para saber, não é?? Eu não disse que ia buscar uma coisa? Então... O artefato misterioso que faltava para a nossa brincadeira tornar-se ainda mais divertida é este aqui – ele revelou o chicote, diante do olhar perplexo de Lanísia. – Que tal? Uma brincadeira sadomasoquista – ele girou o chicote, desferindo um golpe sobre o guarda-roupa e sobre o sofá. Alone e Mione, escondidas atrás do móvel, estremeceram com o susto. – Incrível, não acha? Que tal receber golpes como esses no seu corpinho tão maravilhoso?
-Tudo bem, Ted. Mas solte-me...
Ele fingiu que estava pensativo e, depois, balançou a cabeça negativamente.
-Não, não... Nem pensar! Já reparou que sempre acontece alguma coisa quando estamos quase conseguindo dormir junto? É intrigante, até... O que é ainda mais curioso é que sempre é você quem interrompe... Isso é muito esquisito... Bom, mas deixa pra lá. Agora estamos num quarto isolado da mansão, nada poderá nos interromper e você também não terá como ir embora... – ele riu desdenhosamente.
-Depois disso... O que fará comigo?
-Se quer saber se vou soltá-la, a resposta é não. Você passará de diva à escrava; iremos nos divertir de várias maneiras, até que você se canse e implore para as brincadeiras terminarem...
-E o que vai acontecer quando... Quando eu cansar?
Ted agachou-se ao lado da cama, aproximou bem o rosto e sussurrou:
-Irei jogá-la no lixo.
Irritada, Lanísia cuspiu no rosto dele.
-Eu tenho nojo de você! – ela gritou, forçando as algemas.
Ele limpou o rosto com um lenço, sem tirar os olhos dela; o sorriso desdenhoso voltou a surgir.
-Você terá ainda mais depois de tudo o que fizermos nesse quarto, minha escrava – ele levou a mão ao rosto dela e acariciou-a. – Não devia ter me enganado...
Hermione e Alone estavam certas; ele sabia...
-Nós não descobrimos nada importante, Ted. Deixe-me ir...
-VOCÊ NÃO ENTENDE! O QUE MAIS IRRITA É TER SIDO ENGANADO POR VOCÊ! Que se danem as descobertas que vocês fizeram! Você não devia ter me usado! Isso é algo que eu não suporto, de maneira nenhuma!
Assustada demais para falar qualquer coisa, Lanísia observou-o em silêncio, perdido em sua própria fúria.
-Já fui enganado uma vez... E sempre afirmei que não ia acontecer de novo!
Mais para ganhar tempo do que seguir o plano das amigas, Lanísia perguntou:
-Quem o enganou? Uma mulher?
-Sim. Não uma mulher sensual como você. Ela não utilizou o meu desejo sexual para atingir seus objetivos, mas mexeu com outro tipo de paixão... A paixão por dinheiro; a minha avareza...
-Quem foi essa mulher?? – perguntou Lanísia, embora já esperasse qual seria a resposta...
-Frieda. Eu odeio aquela mulher, assim como estou odiando você agora! Não era isso que você e suas amigas estavam investigando? Então, aí está a resposta: eu odeio Frieda porque ela é igual a você: dissimulada, falsa, capaz de mentir e mexer com as paixões humanas para conseguir o que quer... – ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando se controlar. – Frieda me deu um golpe...
-Tem a ver com a fortuna do seu pai?
-E depois ainda diz que não sabia muita coisa! Oh, minha diva, será que não percebe que não adianta mentir mais?? Sim, tem a ver com a fortuna do meu pai – ele sentou-se na beira da cama. – Era muito dinheiro; milhões de galeões. Mas a única forma de tocar em uma parte ínfima daquele dinheiro era pedindo permissão para o papai... Não suportava ser filho de quem era e não poder tocar na grana. Ele dizia que mesmo quando eu completasse dezessete anos precisaria da permissão dele para efetuar qualquer movimentação. Assim seria até que ele batesse as botas; quando isso acontecesse, eu teria livre acesso a toda fortuna.
-Você... Por acaso, você tomou providências para que isso acontecesse?
-Sim – ele puxou um charuto do bolso, acendeu-o e começou a fumar. – Não dava pra esperar o velho morrer naturalmente; vai saber quanto tempo ia levar pra isso acontecer. Sem falar que também havia o risco dele casar-se novamente e, se isso acontecesse, a grana seria deixada para a esposa. Teria outra barreira em meu caminho! Tive que planejar a ida do velho ao cemitério por isso...
-Então por que o deixou casar-se com Frieda?
Ele tragou e respondeu:
-Porque Frieda fazia parte do esquema.
Ele levantou-se e começou a caminhar pelo quarto, ainda segurando o charuto em uma das mãos.
-Frieda fazia visitas ocasionais à nossa casa. Ela presenciou uma das várias brigas que tive com o velho por causa de grana. Como sempre, eu expressei a minha revolta em não poder gastar a quantia que quisesse quando bem entendesse. Percebendo a minha ambição, Frieda foi até o meu quarto naquela mesma noite, afastando-se dos outros com o pretexto de que precisava ir ao banheiro. E, no meu quarto, ela revelou um plano terrível que havia formulado e seduziu-me com uma proposta bastante atraente... – ele interrompeu-se para tragar o charuto. – Íamos fazer com que o velho morresse e dividiríamos a fortuna dele em partes iguais ao deixarmos apenas os nossos nomes no testamento.
Lanísia sentiu um frio na barriga; era algo tão cruel que, para Ted, parecia ter sido banal...
-Além do resultado maravilhoso, o plano de Frieda também era muito engenhoso. Não havia como não fazer parte dele! Você não sabe o que a mente daquela mulher é capaz de criar... Ela havia criado o plano perfeito! Não haveria investigação; não haveria a menor suspeita de assassinato, porque o velho ia se matar!
-Como poderiam ter essa certeza?
-Porque ele estaria apaixonado por ela. E Frieda nem precisou conquistá-lo; usamos magia para fazer com que isso acontecesse.
-Uma poção de amor?
-Não; sem amadorismos. Fizemos um ritual que o deixou perdidamente apaixonado. Frieda havia descoberto como fazer em um livro bem nebuloso.
-Foi assim que ela conseguiu casar com ele?
-Exatamente. Ela precisava de mim para executar o feitiço e deixá-lo apaixonado por ela. Segui as instruções que ela me passou e realizei o Feitiço da Devoção na aliança do papai. Consegui fazer com que ele a retirasse e assim pude realizar o feitiço. Quando ele a colocou, ficou apaixonado por Frieda, e assim ficaria para sempre, a não ser que retirasse o objeto.
-Ele estava fora de si... Então foi por isso que casaram tão rápido...
-Sim. Frieda não queria perder tempo; eu, muito menos. Apaixonado como estava, o velho alterou o testamento a pedido da esposa: metade da herança para ela, a outra metade para mim.
Ele apagou o charuto e sentou-se outra vez; a lembrança lhe causava revolta, mas ele continuou:
-No dia do suicídio, estava rolando uma festa na mansão. No quarto, ela fez com que ele alterasse o testamento novamente. Foi nessa alteração que ela me passou a perna, ao pedir que ele deixasse a maior parte da herança para ela. Em seguida, avisou que não o amava mais. Aquilo o deixou perturbado, infeliz; talvez ele acabasse se matando por vontade própria, mas isso podia levar tempo. Então, usamos um empregado ambicioso para servir como conselheiro... Walter, era esse o nome. O tal Walter disse ao velho que Frieda não voltaria mais para ele, que não adiantava mais viver, deixando assim a abertura para ele sentir-se atraído pelo suicídio. Encontrando um machado à sua disposição, papai proporcionou o espetáculo diante de todos, ferindo a si mesmo até a morte.
Lanísia engoliu em seco; estava imóvel, perplexa com as palavras de Ted.
-Fiquei admirado com o sucesso do plano de Frieda; Walter embolsou uma mísera quantia pelo "serviço", que para um pobre era até muita coisa. E eu... – ele chutou uma cadeira, derrubando-a no chão. – Herdei uma quantia mínima! Só percebi que havia ocorrido uma nova alteração no testamento quando o documento foi lido! A safada da Frieda ficou com a maior parte da grana, quebrando o nosso acordo!
Ele aproximou-se de Lanísia novamente, segurando-lhe o rosto.
-É por isso que odeio ser enganado. Sentir que fui "usado" me deixa maluco... Você me usou, assim como a ordinária da Frieda. Não pude puni-la com isso, mas você... Será bem fácil de castigar...
-Por que não conseguiu vingar-se dela?
-Porque existe algo que preciso encontrar... E ela tem uma coisa que pode me incriminar.
-Que coisa?
-Uma carta que escrevi a ela na época em que íamos colocar o plano em prática. Uma carta que ela inseriu dentro do cabo do machado que o meu pai utilizou para se matar. Eu tento recuperar essa carta, mas ela não me entrega... Quando ela ficou sabendo que eu estava aqui em Hogsmeade, veio visitar-me para saber se havia algum motivo na minha aproximação. Repeti que queria a carta, ela veio com uma resposta malcriada e tomou um soco na cara... Imagino que ela deve ter precisado explicar aos aluninhos o que significava aquele hematoma no rosto... Mas eu acabei me arrependendo de ter batido na velha ordinária; ela me causou um susto depois disso.
-O que ela fez?
-Colocou o machado no quarto do Walter. Ele tentou matar um aluno de Hogwarts, mas acabou morrendo no atentado... Os aurores encontraram o machado no quarto dele e acharam que ele era um tipo de serial killer, que matava sem razão, apenas por diversão. Ver aquele machado nas mãos dos aurores me assustou... Se eles descobrissem que não era um machado comum, se encontrassem o que havia dentro do cabo, eu estaria perdido. Frieda sabia que eu reconheceria o machado, assim como sabia como eu ficaria apavorado; ela fez de propósito. Imagino que não tenha sido a única razão para ela colocar o machado no quarto do infeliz, mas que foi uma das razões, não tenho dúvida disso.
-Mas os aurores ainda podem encontrar o documento dentro do machado... Eles ficaram com a arma, não?
-Sim. Mas depois a própria Frieda fez questão de avisar que havia retirado a carta. Foi o que eu disse... Era só para rir da minha cara. O desespero dos outros é diversão para ela.
-E você sabe onde foi parar essa carta?
-Provavelmente está no dormitório dela, escondido em algum canto. Se eu conseguisse pôr as mãos nela, poderia provar a todos que Frieda está envolvida no suicídio do meu pai, e ela não teria nenhum meio de provar que eu a ajudei!
-Mesmo com essa carta, você não tem certeza se conseguirá provar o envolvimento dela?
-Não... Como eu disse, existe algo que preciso encontrar... A aliança do meu pai.
-Frieda a pegou?
-Sim. Ele foi enterrado com ela, mas Frieda a retirou do dedo dele depois disso. Escondeu em algum lugar que desconheço... Acontece que o Ritual da Devoção fica gravado no objeto para sempre. Mesmo que papai já tenha morrido, é possível comprovar que ele foi realizado, através da aliança, e Frieda sabe disso. Por isso ela desapareceu. Sem a carta e sem a aliança, estou de mãos atadas... Estou só aguardando a inauguração da Bruxetes para, quem sabe, ser convidado a entrar em Hogwarts e finalmente pôr as mãos na carta... Ou encontrar a maldita aliança!
-Eu posso encontrá-las pra você!! É, posso sim, Ted! Só me tire daqui e não faça nada comigo! Invadindo o quarto da Frieda, tenho chances reais de pôr as mãos nelas...
Ted girou o chicote, dessa vez na direção de Lanísia; ela gritou. O chicote estalou na coxa da jovem, provocando uma onda súbita de dor.
-Nem pensar! – ele abriu o zíper da calça. – É hora da diversão!
Hermione e Alone ergueram-se ao mesmo tempo; com as varinhas direcionadas para as costas de Ted, as duas o estuporaram.
Ted foi erguido no ar e estatelou-se contra a parede.
-As chaves! Precisamos das chaves!! – gritou Mione, desesperada.
-Aqui na mesa de cabeceira! – avisou Lanísia, angustiada. Seu olhar desesperado estava pousado em Ted, que, aparentemente, havia desmaiado. – Depressa! DEPRESSA! Ele vai acordar!!
Mione apanhou a chave e segurou as algemas.
-Tente não tremer tanto! – ela pediu à amiga. – Isso está atrapalhando.
Lanísia respirou fundo e tentou se controlar. Sem os estremecimentos da garota, Hermione conseguiu enfiar a chave na fechadura e abrir a algema direita. Lanísia sacudiu o pulso dolorido, percebendo a marca roxa que se formara em sua pele; enquanto isso, Mione encontrava a fechadura da algema esquerda e inseria a chave para efetuar a abertura. Com um estalido seco, a algema esquerda também se abriu.
-Oh, que alívio... Minha nossa... – gemeu Lanísia, massageando o pulso esquerdo. Ela deslizou da cama para o chão, chorando.
-Eu sei, minha amiga – disse Alone, agachando-se e abraçando-a. – Fique tranqüila, ele não vai mais tocá-la. Agora, vamos: levante-se! – ela ajudou-a a se levantar. – Precisamos dar o fora daqui antes que ele acorde!
Hermione, parada ao lado da porta, observava o bruxo atentamente; sem tirar os olhos dele, fez sinal para as amigas.
-Ele ainda está desmaiado, podem vir!
Elas deram a volta na cama para chegarem à porta. O corpo de Ted bloqueava o caminho, de modo que as duas precisaram saltá-lo.
-Ai, que vontade de pisar bem em cima do "negócio" dele! – disse Lanísia, trincando os dentes em fúria.
-Controle-se! – pediu Alone. – Um movimento desses ia fazer com que ele acordasse!
-Vai ficar para outra oportunidade, mas aviso a você: ainda vou fazer isso.
Elas juntaram-se à Hermione. Mantendo as varinhas em punho, Hermione e Alone atravessaram a cozinha, ambas oferecendo apoio à Lanísia.
-Vocês são malucas... – ela comentou. – Custava me soltar logo que chegaram?
-Sim – respondeu Mione. – Se fizéssemos isso, não saberíamos a metade do que Ted contou a você. Só precisamos de provas para colocar a Frieda atrás das grades... E ele também.
Elas alcançaram o corredor que levava à sala. Nesse ponto, Lanísia tropeçou e foi amparada por Alone, que a segurou pelos ombros.
-Calminha, Encalhada! – ela riu. – Você já sofreu demais por hoje... – Alone olhou para trás, com o intuito de olhar para Hermione, e o viu...
Ted, com um olhar homicida amedrontador, segurava um enorme vaso azulado sobre a cabeça, pronto para golpear Hermione.
-MIONE, CUIDADO!!
Hermione voltou-se, com a varinha em punho, e, rapidamente, bradou:
-ESTUPEFAÇA!
Ted foi lançado no ar, assim com o vaso que segurava. Com enorme estrondo, ele caiu, o vaso espatifando-se ao seu lado em grandes cacos de porcelana.
Mione observou tudo, sem ação; quando se acalmou, agradeceu à Alone.
-Se não tivesse olhado para trás, ele teria estourado a minha cabeça...
-Ele é duro na queda – comentou Lanísia. – Vamos andando. Chega de surpresas assustadoras!
-Só espero que as meninas estejam bem... – suspirou Mione.
-Ei, por quê? O que aconteceu com elas??
-A Joyce errou ao dizer o nome da mansão e pediu para ir até a Mansão Lingüiça!
Lanísia começou a gargalhar.
-Não ri não, mané, isso é sério – disse Alone, censurando a reação da amiga.
-Desculpem... Mas será que a Joyce não fez isso de propósito? – questionou Lanísia.
-Por que faria? – indagou Mione.
-Porque existe sim uma Mansão Lingüiça. É um lugar freqüentado por bruxos assanhados. É cheia de homens e mulheres que dormem com as pessoas em troca de dinheiro, mas alguns vão até essa mansão apenas para ver shows de strip-tease... É sacanagem pura!
-Não, ela deve ter ido por engano – disse Alone. – Mas deve ter adorado o engano...
Utilizando pó-de-flú, elas retornaram a Bruxetes. Sabendo que Joyce devia estar muito contente na Mansão Lingüiça, as três deixaram a loja e, do lado de fora, aparataram diante dos portões de Hogwarts.
-Meninas, vocês precisam conhecer a Mansão Lingüiça!! – disse Joyce, entusiasmada, na manhã seguinte, à mesa do café da manhã.
-Está bem, Joyce, nós já entendemos – falou Alone, entediada. – Você não pára de falar nessa tal mansão desde ontem! Muda o texto, por favor!
-Joyce parecia uma criança num parque de diversões – recordou Serena, sorrindo.
-Se parar pra pensar, era mesmo! Afinal, quais são os "brinquedos" favoritos da Joyce, meninas?? – indagou Lanísia.
Elas gargalharam, maliciosas.
-E se o negócio XG não fosse do tio dela, a noite teria sido ainda mais bacana, não é, Joyce? – zombou Serena.
-Isso... Vai rindo... Pode rir! Quando isso acontecer com você, eu é que vou rir!!
Serena, percebendo que algo como aquilo nunca aconteceria com ela, resolveu deixar para lá e nem responder.
-E o Ted? – perguntou Mione, tomando um gole de suco de abóbora. – Tudo o que ele falou se encaixa com as lembranças de Lewis. As conversas misteriosas que ele havia presenciado entre Ted e Frieda... Até mesmo a presença do Walter na sala quando Frieda não tolerava ver os empregados entre os convidados... O estrondo que ele escutou dentro do quarto, que corresponde ao momento em que o testamento foi alterado... E a devoção sem limites do Sr Bacon por Frieda...
-Isso tudo também explica porque Frieda tem tantos conhecimentos sobre pessoas que possuem os sentimentos alterados por magia – disse Serena. – Por isso ela desconfiou tão rápido que havia alguma coisa errada em Lewis pouco depois de termos realizado o ritual...
-Agora, será que Ted vai falar com a Frieda? – perguntou Mione. – Contar a ela o que nós já sabemos?
-Acho que sim, mas não tão cedo – opinou Alone. – Precisamos invadir o dormitório dela e pôr as mãos na carta e na aliança antes que ela as retire de lá! Isso se estiver lá...
-Será que Lewis nunca viu nenhuma das duas? – perguntou Mione, olhando para Serena. – Sei lá, algum envelope que a mãe dele guardasse em algum lugar especial... Ou alguma caixinha onde ela guardasse a aliança do falecido...
-Só há um jeito de descobrir – respondeu Serena.
Em seu dormitório, Frieda bebia uma xícara de café diante de sua mesa. A pesquisa ainda não havia dado grandes resultados, mas ela continuaria tentando; desconhecia o quanto as "garotas ordinárias" já sabiam a seu respeito. Era melhor não parar de agir.
Ela abriu o livro A alquimia do amor, o próximo título a ser analisado. Ajeitou os óculos de leitura e percorreu o índice com o olhar, como sempre fazia. Percebeu pelos nomes dos capítulos que se tratava de um livro completo, cheio de feitiços e rituais. Bom, talvez a sorte lhe sorrisse aquele dia e ela finalmente encontraria...
A mão que ela estendia para virar a página parou.
Frieda franziu a testa, intrigada.
A ponta superior de uma das páginas se destacava, enegrecida porque havia sido queimada.
Será que teriam queimado a página inteira? E se tivessem feito isso, por que motivo haviam procedido dessa forma?? Para se livrar do conteúdo da página?
Ela abriu o livro diretamente na página que trazia a ponta chamuscada. A primeira coisa que Frieda notou foi que, com exceção da ponta, a página do livro estava normal. A segunda – que a deixou de queixo caído – foi ler o nome do ritual que o texto ensinava a realizar...
-A Fogueira das Paixões... – ela balbuciou, quase sem fôlego, fitando, admirada, a ilustração das mulheres dançando ao redor da fogueira.
Até podia imaginar as vagabundas pulando perto do fogo...
-Lewis, quero que preste bastante atenção e procure se recordar – pediu Serena, sentada na beira da cama em que o garoto repousava, na Sala Precisa. – Você por acaso já viu a sua mãe escondendo alguma carta?? Existe alguma correspondência que ela guarde em um lugar especial?
-Humm... – ele mordeu o lábio, enquanto pensava. – Não, acho que não... Ela tem uma caixa onde guarda as cartas mais importantes, mas nunca a vi guardando alguma correspondência em um lugar diferente.
-E a aliança do Sr Bacon? Ela guardou, por acaso?
-Não. Acho que foi enterrada com ele...
-Como eu imaginava – suspirou Hermione. – Temos duas pistas que poderiam levar Frieda diretamente para Azkaban, mas não sabemos onde encontrá-las! A velha não deixa rastros!
-Que velha?? – perguntou Lewis à Mione.
-Sua mãe.
-Oh...
-Isso... Não irrita você? Não fica ofendido por alguém chamar a sua mãe de velha??
-Nem um pouco – respondeu Lewis, tranqüilo, recostando-se nos travesseiros. – Ela está bem enrugada mesmo.
-É impressionante como o que fizemos criou um bando de retardados... – debochou Lanísia.
-Meninas, acho que já podemos liberar o Lewis – disse Serena; o rapaz observava, mas não dava a menor atenção à discussão. – Já tiramos todas as informações que poderíamos obter com ele...
-Sim, mas deixe isso bem claro à sua sogra psicótica – lembrou Joyce. – Senão ela enfeitiça o coitado outra vez, e aí, já viu, não é?
-Certo... Só uma correção... – ela baixou o tom de voz para que apenas as amigas pudessem ouvir. – Ela não é mais minha sogra.
-Ah, pára com isso, Serena – falou Joyce. – Você não pode desistir do Lewis por causa do que aquela tirana idosa diz!
-Não, já está decidido... Se continuar com ele, vamos querer transar e, se isso acontecer... Nem quero imaginar as conseqüências...
-Espere aí, mas você pode transar sem ter filhos – disse Lanísia.
-Sei... Posso saber como??
-É só usar o Feitiço de Prevenção!
-Feitiço de Prevenção??
-Isso! Você lança na "ferramenta" do cara, no caso, do Lewis, e ele fica envolvido por uma barreira protetora, que não permite que nada a ultrapasse.
-Não sabia que isso existia!! – exclamou Serena, admirada.
-Ah, por favor, por que você achava que a Joyce nunca engravidou? – ela deu um tapa camarada nas costas de Joyce. – Se isso não existisse, ela já teria uns dez filhos!
-Obrigada por me pegar como exemplo, Lanísia – agradeceu Joyce, num tom que indicava que ela não parecia tão grata.
-Puxa, fiquei surpresa agora... – comentou Hermione. – Essa prevenção eu também desconhecia...
-Existem bruxos do Ministério que desaprovam isso – falou Lanísia. – Acham que estimula as pessoas a terem vários parceiros. Por isso não ensinam essa prevenção nas escolas...
-E como é essa barreira protetora? – indagou Mione, os olhos brilhando de fascinação.
-Azulada e brilhante – foi Joyce quem respondeu. – Cria um efeito fantástico quando você faz besteirinhas em lugares escuros. Na hora da diversão, fica um apaga-acende, apaga-acende, apaga-acende, apaga-acende...
-Uh... – Hermione e Serena gemeram, enquanto os rostos ficavam corados.
-Lembra um abajur no momento em que eles estão excitados... – comentou Joyce. – Ah, Serena, podemos fazer uma demonstração agora no Lewis, se quiser... – ela já ia caminhar até o rapaz, mas Serena a interrompeu.
-Não, nem pensar!
-Poxa, não pegarei nele não...
-Mesmo assim, Joyce!
Ela parecia firme no que dizia; Joyce guardou a varinha, admitindo a derrota.
Serena voltou para perto de Lewis.
-Pode se levantar! Você já está bem o suficiente para sair dessa sala e voltar a vida normal – ela anunciou a novidade com um enorme sorriso.
-Que bom! – ele levantou-se e segurou a mão dela. – Vamos juntos??
-Claro – ela respondeu; ia beijá-lo no rosto, mas Lewis virou o rosto para que os lábios dela encontrassem os seus. Serena, surpresa, não teve forças para interromper aquele beijo. Quando os dois perderam o fôlego e ambos se afastaram, ela completou. – Juntos... Sempre!
A saída dos dois, juntinhos, foi acompanhada do enorme suspiro dado em uníssono por todas as outras Encalhadas.
Clarissa primeiramente certificou-se de que Rony e as Encalhadas não estavam por perto; depois, ao constatar que nenhuma delas estava ali, no pátio, ela aproximou-se de Draco, que escrevia sem parar em um pergaminho.
-Humm... Planejando alguma coisa? – ela perguntou.
No pergaminho, havia um desenho muito mal feito; Draco havia desenhado um quadrado e, dentro dele, inserido um bonequinho.
-Sim – ele respondeu, lentamente. – A morte do meu rival.
-O que isso tem a ver com a morte dele?
-Vou prendê-lo em um lugar fechado – ele respondeu, reforçando o traço do quadrado. – E lá dentro ele terá apenas a minha companhia, e nenhuma alternativa de fuga.
-Será que isso vai dar certo? – ela perguntou, zombeteira. Acariciou os cabelos de Draco. – Lembre-se de que você já fez isso antes, naquela cabine do Lorenzo´s, e não deu muito certo...
-Agora será diferente – Draco fitou-a, os olhos cinzentos sem brilho. – Ninguém poderá abrir a porta.
-Como pode ter certeza? Se a chave ficar com você, Draquinho, Rony pode tomá-la com um simples feitiço e...
-Não! Estaremos sem varinha e a chave estará do lado de fora.
-Com quem?
-Com você.
Clarissa ficou surpresa com a resposta.
-Comigo??
-Sim. Você me ajudou até agora. Não quer ver-me feliz ao lado da Hermione?
-Claro que sim, Draquinho – ela apertou uma das mãos dele e sorriu. – Pode contar comigo. Eu seguro a chave pra você, e a porta só será aberta quando Rony já estiver mortinho.
-Ótimo... Obrigado!
-Imagina, querido... Será um prazer... – ela apontou para a figura. – Já decidiu em que lugar fará isso?
-Ainda não – ele desenhou uma poça de sangue ao redor do boneco solitário que representava Rony. – Só falta isso. O lugar.
Frieda, entusiasmada, perambulava pelo dormitório com o livro aberto em suas mãos. Quanto mais lia sobre o ritual, quanto mais fitava a ilustração, mais certa ficava de que aquele era o ritual praticado pelas garotas...
-..."exigindo apenas três ou mais pessoas"... "a fumaça da fogueira segue as pessoas cujos nomes estão escritos nos papéis"... "uma paixão avassaladora, imensa, inexplicável. Uma devoção sem limites...".
Ela passou o dedo pela ponta chamuscada no papel.
-Só pode ter sido esse ritual! De todos os possíveis rituais e feitiços que encontrei, esse é o mais lógico de todos. Precisa ser feito em grupo e não existem grandes exigências para a sua realização... Pode ser feito por qualquer pessoa, até mesmo por aquele bando de adolescentes encalhadas! E o efeito... A devoção sem limites... Sim, o ritual criou a simulação perfeita de uma paixão verdadeira; isso era visível no Lewis... Ah, tem que ser este!! Este é o ritual!
Alguém bateu na porta. Frieda colocou o livro em uma gaveta e, recompondo-se, abriu.
Ao ver as cinco garotas diante de si, ela sentiu uma vontade quase incontrolável de gargalhar e dizer a elas que o jogo havia acabado. No entanto, ao lado delas, estava Lewis, que era muito mais do que o seu filho; era um dos enfeitiçados pelo ritual, uma cobaia que vinha na hora certa, no momento certo, trazido por suas próprias inimigas.
Nunca subestime o poder de um inimigo, sim, é o que dizem por aí, ela pensou, triunfante. Engolindo o orgulho, ela disse, no mesmo tom seco de sempre:
-Resolveram libertar o meu filho?
-Digamos que já descobrimos o suficiente – provocou Hermione.
-Se prepare, Frieda, porque surpresas vêm por aí – disse Serena.
-Sim. Eu sei – ela respondeu, deixando escapar um sorriso. Ela puxou Lewis para dentro do quarto e fechou a porta.
-Não gostei daquele sorriso – comentou Mione, assustada.
-Relaxa! – falou Alone. – Ela apenas não quer reconhecer que estamos quase ferrando a vida dela, enquanto ela não conseguiu encontrar nada contra nós.
-Espero que seja isso – disse Hermione. – Bom, devo estar ficando paranóica... Vamos, daqui a pouco começa a primeira aula...
-É, e eu ainda preciso dar comida pra Chana – falou Joyce, fazendo com que a aluna do terceiro ano que passava ao seu lado arregalasse os olhos diante do que considerou um comentário um tanto indecente.
-Lewis, sente-se aqui – pediu Frieda, estendendo uma cadeira para o filho.
Lewis, confuso, fez o que a mãe lhe pediu.
-Responda: se eu tentasse impedir o relacionamento entre você e Serena, o que você faria?
-Enlouqueceria – ele respondeu, sério. – Faria tudo para impedir que isso acontecesse.
-Você a ama acima de tudo?
-Sim.
-Você se recorda de como era diferente antigamente?? Do que você achava da minha opinião a respeito de vocês dois?
-Não... – ele fechou os olhos, esforçando-se. – É difícil lembrar... Tem coisas do meu passado que parecem ter se apagado... Vejo fogo, mas sempre vejo isso quando...
-Você vê o quê? – Frieda levantou-se, derrubando a cadeira ao efetuar o movimento.
-Fogo – repetiu Lewis. – Uma grande labareda. Aparece algumas vezes, quando tento recordar certos momentos...
-As sensações que você sentia antes do ritual ser realizado... – disse Frieda, pensativa. – Desapareceram...
-O que disse?
-Nada, filho. Nada... – ela riu, animada. – Agora não resta mais dúvidas... – o sinal tocou. – Vista o uniforme e vá para a sala. Enquanto isso, vou dar a minha primeira aula; vou ver se termino antes do horário, para fazer uma visitinha a certas alunas.
Ela saiu da sala, rindo, orgulhosa de si mesma. Havia vencido.
Augusto estava quase terminando a sua aula. A porta estava aberta. As Encalhadas, assim como os colegas, estavam concentradas em suas redações quando Frieda passou pelo corredor, cantarolando em voz alta:
-A Fogueira...
Hermione ficou gelada; olhou para as amigas e viu o próprio olhar de pânico refletido nos rostos delas.
Enquanto isso, os outros alunos entreolhavam-se, confusos. Frieda, indiferente, continuou a cantoria pelo corredor:
-Fogueira... Fogueira... Paixões...
As Encalhadas ficaram sem ar... Os corações disparados... O suor frio brotando das peles...
Ela havia descoberto. De alguma forma, havia descoberto.
O sinal tocou naquele instante. As cinco saíram da sala, apressadas. Frieda continuava caminhando pelo corredor, mas, em meio à movimentação dos alunos, sua cantoria tornou-se inaudível. Juntas, as garotas aproximaram-se dela. Então, Frieda, diante de seus olhares aterrorizados, disse o nome do ritual, aquilo que elas haviam feito e que ela nunca deveria descobrir...
-A Fogueira das Paixões!!
N/A: Fiquei sem tempo nos últimos dias, e isso provocou a demora na atualização. Espero que tenham gostado. Peço desculpas pela demora. Conto com o seu comentário! Abraços!
