CAPÍTULO 35

Correndo contra o tempo

As Encalhadas possuem um plano...

-Chegou a hora de pormos um fim nesse pesadelo.

...mas existem pessoas que estão prontas para atrapalhar...

-De hoje não passa. Preciso encontrar o Malfoy.

-Está se referindo às garotas que encontraram o corpo?

...e certas situações podem atrapalhá-las também...

- Ela deixou-se levar; queria continuar agarrada ao corpo dele...

...quem levará a melhor?


-Há um jeito para tudo – disse Hermione, tentando manter as amigas – e ela mesma – tranqüilas. – Nós só vamos precisar enganar os rapazes para levá-los até o local em que realizaremos o ritual.

-É, e se um deles descobrir no meio do caminho, passa um recadinho para os outros e eles nos arremessam das escadas da escola! – replicou Alone, pessimista. – Ótima solução, Mione, parabéns – concluiu, irônica. – Acabar isso tudo com o crânio estourado é tudo o que eu mais queria, mané.

-Precisamos de algo que garanta a nossa segurança – disse Serena, concordando com Alone. – Apenas enganá-los pode não dar certo...

-E se os deixarmos inconscientes? – sugeriu Joyce, empolgada com a idéia. – Damos pancadas bem fortes nas cabeças deles e... pronto! Carregamos cada um até o local!

-Aí você corre o risco de estourar o crânio deles – disse Alone. – Não melhorou em nada...

-Já sei! – exclamou Lanísia de repente. – Podemos amarrá-los! Dessa forma, eles não teriam como fazer nada!

-Eles não vão permitir que a gente os amarre – falou Mione.

-É, imagine só... – disse Alone, mudando a voz em seguida. – "Oi querido, vou passar essas cordas em seus braços para amarrá-lo... Por quê? Ah, porque preciso levá-lo até o local em que vamos reverter o poder da Fogueira"!

-É só mentir no motivo – falou Lanísia. – Eles engolem qualquer marmelada que a gente diga. Se dissermos a eles que os queremos amarrados porque achamos que fica sexy, eles vão acreditar.

-Eu acho isso sexy – comentou Joyce, com um sorrisinho.

-Ah, depois que você disse que acha sexy quando um homem coça o saco, eu não duvido de mais nada – falou Alone, provocando-a.

-Ei, qual é o problema? – perguntou Joyce, encarando-a. – Aposto como o Harry também acha...

-Não fale assim dele! – Alone ficou exaltada.

-Harry gosta de bolas, Harry gosta de bolas...

-Ah, Joyce, agora eu te arrebento!! – Alone pulou em cima da amiga; as duas caíram no chão e, nessa posição, Alone agarrou os cabelos de Joyce e começou a puxá-los.

-Meninas... Meninas, parem com isso!! – falou Mione, mas elas não a ouviram; Joyce conseguiu reagir e grudou as mãos nos cabelos de Alone.

-Por que será que sempre começamos pelos cabelos? – perguntou Lanísia à Serena.

-Não sei... Mas também usamos as unhas... Olhe lá! – ela apontou; Alone acabava de receber um golpe na bochecha, aplicado pelas unhas compridas de Joyce.

-Será que podem parar de assistir e me ajudar? – perguntou Hermione às duas; Lanísia e Serena "acordaram" e foram ajudá-la a separar as briguentas.

Elas puxaram Joyce e a afastaram de Alone, que ficou caída no chão até que Mione estendeu a mão para ela e a tirou dali.

-Eu não consigo entender essas briguinhas idiotas – comentou Mione, quando Joyce e Alone já estavam instaladas diante da mesa, em posições bem distantes uma da outra. – Não houve razão para começar tudo isso, Alone!

-Como não?? Ela ofendeu o Harry!

-E disse alguma mentira? – perguntou Lanísia. – O Harry gosta de bolas mesmo.

-É, ele é veado – disse Mione.

-Bicha – falou Serena.

-Quando estava com o Colin, ele devia sentar...

-Tá bom, tá bom, já chega! – pediu Alone, colocando as mãos na cabeça. – Eu nem sei por que me irrito. Logo a Fogueira será desfeita e não terei mais nada a ver com ele.

-Agora podemos voltar ao que discutíamos? – indagou Mione; sinais de concordância foram expressos pelas outras Encalhadas. – Ótimo. Então, vamos convencer os garotos a aceitarem a condição de caminharem amarrados, contando uma mentira qualquer; com eles amarrados, nós os levamos até o lugar em que colocaremos As Cinzas do Despertar pra funcionar, fazemos tudo o que precisamos fazer e a Fogueira é desfeita... Certo?

-Sim – respondeu Joyce. – Eles não terão como se voltar contra nós.

-Também precisamos dos objetos que serão destruídos, não se esqueçam disso – lembrou Serena. – Como diz o livro, temos que conseguir coisas que representem algo para cada um deles, não pode ser um objeto qualquer.

-Para atingir o Harry, você pode queimar a Firebolt – sugeriu Mione à Alone.

-Sim, já tinha pensado nisso. Tem um grande valor para ele; na certa vai despertá-lo rapidinho.

-O Juca eu não conheço bem, mas, como ele é um superdotado, acho que algum dos livros que ele possui deve ter algum valor – disse Joyce, pensativa. – Preciso descobrir qual deles.

-Augusto tem aquela paixão pela pintura, e possui alguns quadros guardados no dormitório – falou Lanísia. – Pela pintura já poderei deduzir o valor... Ele costuma pintar pessoas. Talvez tenha alguma pintura da filha, ou dos pais...

-O Draco também poderá ser atingido pela vassoura – falou Hermione. – Assim como o Harry, também é apaixonado por quadribol.

-O Lewis gostava muito da mãe dele, tanto que nem queria namorar comigo antes da Fogueira porque ela não aceitava, como vocês lembram muito bem – falou Serena. – Vou pegar alguma fotografia dos dois juntos, ou algo que representasse a Frieda, para transformar em cinzas.

-Algo que represente a Frieda... Hum... – Joyce fingiu que pensava. – Uma cobra?? Ou um chinelo velho?

-Quem sabe uma dentadura? – sugeriu Mione.

-Meninas, a mulher nem foi enterrada ainda – lembrou Lanísia. – Vamos respeitar a vagabunda.

-Sim, tem razão – concordou Mione, rindo.

-Vamos reunir os objetos até amanhã cedo – falou Joyce. – Durante o dia, nós trataremos das outras partes do plano e, à noite, realizaremos o ritual. Combinado?

-Sim – a resposta foi unânime.

Elas saíram da biblioteca, juntas. Antes disso, retiraram o livro que ensinava os procedimentos para as Cinzas do Despertar; o livro, cujo título era Consertando estragos – eliminando erros em magia, ficaria com Joyce. Como o título era bem revelador, Joyce retirou outro livro para que, enquanto caminhasse, a capa ficasse oculta.

A poucos passos da biblioteca, cruzaram com Minerva, que caminhava ao lado de Rebecca e...

-Lorenzo?? – perguntou Joyce, intrigada, às amigas, antes de se aproximarem. – O que ele está fazendo aqui?

Como nenhuma delas possuía a resposta para aquela pergunta, elas se calaram. A professora as cumprimentou quando passaram por ela, assim como o dono do bar de Hogsmeade. Joyce, que não pôde conter a curiosidade, perguntou, olhando para o bruxo:

-Por que está aqui?

Antes que Lorenzo pudesse responder, Minerva tomou a palavra.

-Será que o Lorenzo não merecia mais educação?

Joyce deu uma risadinha maliciosa, recordando-se de tudo o que fizera com o bruxo no Lorenzo´s.

-Não – respondeu.

-Vocês têm tanta intimidade assim? – indagou Minerva, confusa, olhando de um para o outro. – Posso saber como...?

-Joyce é uma cliente assídua do bar – respondeu Lorenzo. – Por isso não a trato com tanta formalidade, assim como às amigas dela também, não é mesmo, meninas?

-Sim.

-Claro.

-Com certeza!

Minerva pareceu convencer-se depois disso.

-E então... Por que está aqui... amigão? – indagou Joyce, dando um soco "amigável" no braço dele.

-Vou investigar o assassinato da professora Frieda Lambert.

Elas perderam o fôlego.

-Ai, fodeu... – gemeu Alone, baixinho.

-O que disse? – Minerva a fitou severamente.

-Na-nada. É que foderam com a vida da professora, não é mesmo? Coitada... – ela fez uma expressão de pesar.

-Precisa consertar o seu vocabulário diante de mim e do Sr Lorenzo – Minerva censurou-a.

-Desculpe, professora. Mandei mal pra cacete...

-ALONE!

Ela engoliu em seco.

-Foi mal...

Minerva respirou fundo, lançando um olhar severo.

-Bom, vou levar o Lorenzo até o local em que o corpo da professora foi encontrado – explicou a diretora. – Vamos indo, Lorenzo?

-Sim, claro. Com licença, meninas.

Elas seguiram no caminho contrário, querendo passar a impressão de que estavam perfeitamente normais. Quando já estavam distantes o suficiente, Hermione falou:

-Acho que teremos que adiantar os nossos planos.

-Com certeza! – apoiou Joyce. – Vamos agora mesmo reunir os objetos que precisamos destruir!

-Vamos realizar o ritual hoje? – indagou Serena, espantada; o dia já havia sido exaustivo. As verdades que Clarissa lançou em sua cara, sem dó nem piedade, ainda soavam em seus ouvidos.

-Claro! Lorenzo é um cara esperto, vai sacar tudo rapidinho...

-Mas ele ainda está começando a investigar, Mione...

-Sei disso, Serena, mas quem encontrou o corpo da professora fomos nós. Ele vai nos fazer um monte de perguntas embaraçosas e, mesmo se conseguirmos nos safar, não deixando escapar nada a respeito do que os rapazes fizeram, ele vai, com certeza, interrogar três deles... – ela ergueu três dedos e, conforme enumerava, ia baixando-os. – Harry; Juca; Augusto.

-Os suicidas e o professor que apareceu no corredor na hora em que o corpo caiu – Joyce completou.

-Talvez eles nem saibam dizer onde estavam antes da professora rolar escada abaixo – disse Lanísia. – Se ele perceber algo estranho, estamos perdidas.

-Isso nem com a Fogueira anulada nós conseguiremos mudar – avaliou Mione. – O problema é que, se a Fogueira permanecer ativa, o Lorenzo pode estranhar as respostas dos rapazes e, se isso acontecer, ele vai procurar onde está o erro e vai encontrar! Ele descobre tudo o que fizemos, como tudo aconteceu, e nós seremos presas por termos realizado o ritual proibido e, indiretamente, seremos culpadas pela morte da Frieda.

-Ai, ainda assim não vejo muitas chances de nos safarmos... – gemeu Alone, temerosa. – Mesmo sem a Fogueira, ele pode descobrir a culpa de um dos rapazes, e qualquer um deles pode ser preso sem ter culpa de nada...

-Sim, ainda correremos o risco, mas será bem menor – falou Hermione. – Então, agora chegou a hora de conseguirmos os objetos. Marquem um encontro com os rapazes diante das estufas, acho que será bom os amarrarmos no mesmo instante e sairmos juntas.

-Certo! A gente se encontra em duas horas na Sala Precisa – avisou Joyce. – Vamos dar o primeiro passo para nos livrarmos da Fogueira.

Ali, elas se separaram para procurarem os rapazes pelo castelo. Joyce ia entrar em um dos corredores quando trombou com Clarissa. Os dois livros que Joyce carregava caíram no chão. A capa do livro Consertando estragos – eliminando erros em magia ficou visível; Joyce agachou-se para recuperá-lo antes que Clarissa o notasse, mas Clarissa atraiu o livro para si utilizando a varinha. Com um olhar de interesse, ela leu o título em voz alta e comentou, sarcástica:

-Finalmente encontraram alguma coisa que possa ajudá-las...

-Não. Não encontramos nada... Apenas continuamos buscando algo que nos ajude.

-Sei... Oh, veja só, o que temos aqui: um marcador de páginas!!

Joyce ficou atônita.

-Se vocês ainda estão procurando, acho que posso ler o que está escrito na página marcada, não posso??

Joyce observou a garota inserir um dedo entre as páginas do livro, selecionando a que estava marcada. Clarissa ia abrir o livro, ler sobre o ritual, ia estragar tudo...

-Largue isso! – gritou Joyce, arrancando o livro das mãos da garota com um movimento brusco. Clarissa não ofereceu resistência. Para surpresa de Joyce, ela nem ficou irritada ao ser impedida de ver o que elas tinham selecionado; pelo contrário, olhava para ela de modo satisfeito, como se tivesse conseguido obter o que queria. – Você leu alguma coisa?? – ela perguntou, aflita.

-Não.

-Então por que está tão contente?

-Por nenhum motivo em especial. Simplesmente estou de bom humor.

-A sua alegria nunca é um bom sinal.

-Assim como a sua euforia e a de suas amiguinhas encalhadas também não é – ela falou de modo ríspido, mas o ar de satisfação permanecia. – Até logo, Joyce. Pode voltar à sua "corrida"...

Joyce, agarrando os livros junto ao corpo, afastou-se. Clarissa completou a frase quando ela não mais podia ouvi-la.

-...Que eu vou começar a minha. De hoje não passa – e a satisfação deu lugar a seu modo frio e calculista. – Preciso encontrar o Malfoy. Mas, antes disso, preciso ter acesso às chaves de Rebecca... – uma garotinha surgiu no corredor, pulando, agarrada a uma boneca.

Era Karen, a filha de Rebecca e Augusto.

-Já sei como vou consegui-las.


Confiante na nova amiga que havia feito, Karen segurou a mão de Clarissa e deixou-se guiar pelo castelo.

-Tia, você vai conseguir muitos doces pra mim? – perguntou, ansiosa.

-Sim. Eu consigo os melhores doces que existem, e eles serão seus... Oh, aqui, chegamos! – informou Clarissa, ao experimentar a porta de uma sala e constatar que estava aberta. – Entre... Você primeiro!

Karen entrou na sala de aula, seguida por Clarissa. Era uma sala comum, com carteiras, livros, estantes e um grande armário no fundo. O armário possuía uma tranca externa; era tudo o que ela precisava.

-Veja, Karen... – ela agachou-se para ficar na altura da garota. – Está vendo aquele armário ali?

-Estou sim... Ele me parece sujo.

-Mas é ali que começa a nossa brincadeira. Você vai esperar lá dentro, quietinha, até que eu apareça. Vou lhe trazer os doces mais deliciosos do mundo!

-Por que não posso esperar aqui na sala?

-Porque sua mãe poderia encontrá-la e estragar a nossa brincadeira! Ela não gostaria de vê-la comendo tantos doces, e ela sabe que dou presentinhos açucarados às pessoas que eu gosto. Ela não vai permitir que você me espere.

-Você tem razão, tia – Karen baixou os olhos. – Mamãe não deixaria. Acho que é melhor eu me esconder bem rápido!

-Também acho – disse Clarissa, rindo. Ela acompanhou Karen até o fundo da sala, abriu a porta do armário para ela e esperou que a menina se acomodasse lá dentro. – Vou trancar a porta do armário para garantir que ninguém a tire daí antes de ganhar os doces.

-Tudo bem, tia!

-E se algum chato, por acaso, a tirar daí, não conte para ninguém que foi a tia Clarissa quem fez isso, senão eu não terei mais como lhe dar esses docinhos e vão fazer mal à tia Clarissa. Você quer que isso aconteça, Karen? – perguntou, em tom gélido.

A garotinha, em sua inocência, nem percebeu que devia responder não para sair-se bem dessa história; sua resposta foi sincera:

-Não. Não quero.

-Até logo, Karen – despediu-se, trancando a porta do armário em seguida. Jogando a chave embaixo do mesmo, ela saiu da sala.

Agora, tinha que encontrar Draco ou Rebecca, as cartas que precisavam ser movimentadas para colocar a jogada decisiva em prática.


Hermione encontrou Malfoy antes de Clarissa. O rapaz estava andando, à toa, pelos jardins de Hogwarts. Ela aproximou-se e, segurando-o pelas mãos, o puxou até a sombra de uma árvore.

-O que houve? Não parece muito animado.

-Como poderia estar? Não temos aula porque a professora morreu, mas você nem me procurou para passarmos a tarde juntos.

-Sinto muito – ela sorriu. – Mas agora estou aqui, e quero que você me faça um favor. Se fizer isso, vai me deixar muito feliz.

-Deixá-la feliz me faz muito bem – ele disse, os olhos brilhando. – O que quer?

-A sua vassoura – ela falou como se estivesse fazendo um pedido normal; Draco aceitou prontamente, sem nem perguntar os motivos.

-Preciso buscá-la no dormitório. Você espera aqui?

-Sim. Ficarei aqui mesmo. Essa sombrinha está gostosa – ela lançou um olhar provocante; Draco suspirou apaixonado e saiu em disparada para realizar o quanto antes o desejo de sua amada.

Quem o visse correndo daquela maneira pensaria, sem a menor dúvida, que algo de grande urgência estava acontecendo. Foi o que Clarissa pensou ao localizá-lo no Saguão de Entrada; ela entrou na frente dele, bloqueando o caminho antes que ele entrasse nas masmorras.

-Ei, ei, por que a pressa? – ela perguntou.

-Será que... Não podemos... Conversar depois? – enquanto perguntava, Draco tentava passar por ela, mas Clarissa movimentava o corpo na mesma direção para continuar a impedi-lo.

-Não... O que deu em você? Por que está tão afoito? Ah! Nem precisa responder. Só um assunto o deixaria dessa maneira... – ela baixou a voz. – Encontrou um lugar bacana para matar o Rony. Não é isso?

-Não. Só quero satisfazer um desejo da Hermione – ele respondeu, desistindo de tentar driblar Clarissa e aceitando conversar por alguns segundos.

-É preciso mais do que realizar desejos para fazer com que ela fique com você e esqueça o outro.

-Sei disso. Mas é importante fazê-la feliz.

-Imagino que seja... E posso saber qual é esse desejo que a sua namoradinha quer que seja realizado?

-Ela quer a minha vassoura.

Clarissa ficou intrigada.

-A sua vassoura? Mas para quê?

-Não sei. Ela não disse – ele balançou os ombros. – Talvez queira dar uma volta.

-Não acho que seja por isso... – falou Clarissa, mais para si mesma do que para Draco.

-Por que acha que não é por isso?

-Esquece, Draco. Estava procurando você para avisar que o seu plano precisa ser colocado em prática hoje mesmo.

-Hoje?? Mas ainda não encontrei um local...

-Eu vou encontrar! – ela disse, num modo ríspido; procurando manter a calma, prosseguiu em um tom mais delicado. – Vou pegar as chaves de Rebecca para termos acesso a algum local onde você possa ficar a sós com o Rony. É para o seu próprio bem que passo esse conselho: é hoje ou nunca mais. Por motivos que não lhe interessam, tenho quase certeza de que algo pode atrapalhar os seus planos se não eliminar aquele obstáculo hoje... – ela passou os braços em volta do pescoço dele, enquanto a boca se aproximava do ouvido esquerdo de Malfoy. – Se não matar o Rony hoje, perderá a Hermione para sempre. Você quer que isso aconteça, Draco?

-Não – ele respondeu, trêmulo.

-Ótimo. Então faça mais do que satisfazer desejos de sua namorada. Satisfaça o seu desejo de sangue.

Ela deu-lhe um beijo na bochecha e deixou-o seguir. Clarissa ficou parada, de braços cruzados, enquanto, em seus pensamentos, ela refletia... As Encalhadas tinham encontrado alguma coisa... E esse pedido de Hermione não estava lhe cheirando bem. Qual seria a relação desse pedido com o que elas haviam encontrado? Parada ali, no Saguão de Entrada, uma pergunta se repetia seqüencialmente em seus pensamentos:

Por que Hermione pediu para Draco buscar a vassoura?

Fosse qual fosse a resposta, duas coisas eram certas: precisava das chaves e da ajuda de Rebecca o quanto antes.

Ela ia atrapalhar os planos d´As Encalhadas.


Lanísia estava no dormitório de Augusto, vendo-o abrir o armário onde guardava os quadros que pintava.

-Você sabe, eu fiz alguns desenhos de nós dois – falava Augusto, enquanto escancarava as portas do armário. – Algumas pinturas são carregadas de erotismo. Não poderia deixar os quadros em qualquer canto.

-Claro que não. Sei que as pinceladas que definem as curvas do meu corpo em suas pinturas são baseadas em tudo o que você já viu; ficaria incomodada se alguém colocasse os olhos nesses quadros.

-É, mais um motivo para não deixar que ninguém os veja. Também acho que apenas eu posso ver o que você esconde atrás dessas vestes – ele olhou-a com desejo. – Ah! Essa conversa já começa a mexer com meus instintos...

-Segure a onda! Não é hora para fazermos isso! – ela observou o interior do armário; os quadros estavam empilhados lá dentro. – Será que eu mesma posso mexer neles?

-Nem precisa pedir... – ele abriu caminho e deixou-a agachar-se diante do armário, onde começou a mexer nos quadros.

Ela se concentrava apenas nos retratos. Quando reconhecia a si mesma na pintura, já a colocava de lado; o intuito era encontrar retratadas outras pessoas que foram importantes para Augusto antes que ela ocupasse todo o espaço dentro de seu coração.

Encontrou um quadro em que Augusto havia pintado a filha, Karen, brincando em um balanço. A paisagem ao redor era belíssima. Lanísia achou que precisava de uma pintura que retratasse com mais detalhes o rosto da menina, de modo que continuou a procurar.

Ao localizar um retrato que trazia apenas o rosto de Karen, pincelado com perfeição, com os mínimos detalhes da face, um fundo escuro que fazia com que as atenções se concentrassem na garota, ela sentiu que havia encontrado o que procurava. Ver aquele quadro em chamas seria como ver a própria Karen sendo incendiada até virar pó...

-Augusto... – ela levantou-se, com o quadro na mão, e aproximou-se do professor. – Vou levar esse quadro da Karen comigo... – ela nem precisava dar explicações, mas, mesmo assim, resolveu dar os seus falsos motivos. – Ela será praticamente uma filha para mim quando nos casarmos, por isso queria levar esse retrato.

-Pode levar – disse ele, como ela já esperava. – Mas tenha cuidado.

-Não precisa ficar preocupado. Não estou carregando uma pintura que traga eu e você nus, enrodilhados sobre lençóis, sobre uma cama desarrumada! É apenas o retrato de uma garotinha simpática que está aqui no castelo com Rebecca e que todos os alunos de Hogwarts adoram! Que mal há nisso?

-Nenhum. Só estava preocupado com você...

-Sei disso – ela beijou-o. – Quero que desça até o jardim e me espere diante das estufas...

-Humm... Já fiquei animado!

-Você sempre está. Nunca nega fogo – ela deu uma apalpada no traseiro do professor. – Não vou falar o que é. Mas, posso adiantar, que o fogo será apagado... – "Literalmente", ela pensou.

-Só vou vestir um suéter e depois eu desço.

-Não precisa ter pressa. Desça daqui a uns dez minutos. Enquanto isso, você pode desmanchar toda sua excitação nas tintas e fazer um quadro bem atrevido... O que acha?

-Uma ótima idéia! O desejo estimula a imaginação.

-É o que eu pensava... – dando-lhe um último beijo, Lanísia saiu do dormitório, guardando o quadro em sua mochila.

No outro corredor, encontrou Rebecca, azucrinando a vida de um casal de namorados que, segundo ela, estavam usando as mãos de maneira inadequada enquanto se amassavam.

Foi ver aquela mulher para que as humilhações a que Ted Bacon a submetera voltassem à sua mente. Ela havia sido acorrentada a uma cama e quase foi usada como escrava sexual, tudo por culpa daquela mulher. Ela já tinha decidido que toda a humilhação por que passara não ia ficar sem troco; Ted teria o que merecia, mas Rebecca também teria.

Decidida, sem pensar nas possíveis conseqüências, Lanísia foi até a inspetora de alunos, olhando-a com fúria.

-Perturbando os outros como sempre... – Lanísia soltou o comentário em provocação; Rebecca viu-a e lançou a ela um sorriso desagradável.

-É para isso que estou aqui. Para ser a pedra no sapato de quem vive fazendo coisas erradas.

-Então considera como "certo" fazer fofoca para Ted Bacon?

Rebecca não respondeu de imediato; antes disso, olhou para o casal e dispensou-o. O casal, doido para se livrar da inspetora sem receber uma bela detenção, saiu às pressas, tropeçando nos próprios pés. Finalmente, Rebecca respondeu:

-Fiz isso porque você merecia.

-Merecia o quê?? Ser abusada por aquele lunático? Espancada por ele? Ou assassinada? Estou certa de que a Clarissa passou toda a ficha do Ted pra você! Sabe muito bem que ele não vale nada. Você passou o recado pra ele já tendo todas essas possibilidades em mente. Queria que eu me estrepasse nas mãos daquele infeliz.

-Sim. Queria mesmo – ela admitiu. – Uma jovem que se mete na cama de um professor não deve valer grande coisa. Precisava castigá-la por agir como uma puta.

Lanísia ergueu a mão, pronta a desferir um golpe no rosto de Rebecca, mas a inspetora foi mais rápida e interrompeu-lhe o movimento, agarrando-lhe o pulso.

-Não se esqueça de que, aqui em Hogwarts, eu sou uma inspetora de alunos e você é uma reles aluna. Se encostar a mão em mim, posso não conseguir expulsá-la, mas aplicarei a mais cruel das detenções.

Lanísia, cedendo, baixou a mão.

-Não vou tocar em você agora. Mas ainda pagará por ter tentado me prejudicar.

-Não vejo como. Uma pessoa íntegra não tem nada a esconder. Não existem segredos ou fatos obscuros em minha vida com os quais você possa me prejudicar. Vou lhe contar uma coisa que talvez você não saiba, Lanísia: nem todas as pessoas são como você e suas amigas. Existem pessoas de boa conduta, limpas, sem segredo algum. Eu queria que todos fossem como eu, por isso tento limpar os alunos dessa escola... Você, como sei que vai continuar tendo esse comportamento de mulher fácil pelo resto da vida, não faria a menor falta. Se Ted a levasse embora daqui, me faria um grande favor.

-Não acredito que seja perfeita. Que não tenha errado uma única vez. Deve existir algo que prove que você erra assim como todas as pessoas que você persegue aqui em Hogwarts.

-Perderá o seu tempo procurando alguma coisa.

-É exatamente o que alguém diria se escondesse algo.

-Não posso impedi-la, então, faça como quiser. Estou tranqüila. Quem não deve, não teme, como diz o velho ditado. Esse ditado é muito verdadeiro, não acha? – ela riu. – Acho que o medo revela muitas coisas. Acredito que seja assim que os detetives ou os aurores descobrem os verdadeiros culpados de alguns crimes. Lorenzo Martin, observando bem as pessoas que irá interrogar, pode descobrir quem está envolvido na morte da Frieda num estalar de dedos – ela estalou os dedos diante dos olhos de Lanísia, que não pôde conter um estremecimento. – Sim... É disso que estou falando...

-Está me acusando, por acaso?

-Não. Você mesma está... Se não mantiver a postura quando estiver com o Lorenzo, ficará muito fácil para ele descobrir tudo!

Lanísia sentia vontade de pular no pescoço de Rebecca e arrancar-lhe os cabelos. Foi necessário muito esforço para permanecer no mesmo lugar.

-Você é digna de pena, Rebecca. Afinal, cuida tanto da vida dos outros, o que me leva a pensar que a sua própria vida é insossa e desinteressante.

-Você não tem autoridade pra falar sobre o que não sabe...

-Mas posso imaginar. Você estava agora mesmo fazendo suposições! Por que não posso? Posso sim. Vou dizer o que penso. Humm... Pra mim você é uma mulher mal amada, que tomou um pé na bunda do Augusto, não conseguiu se recuperar e agora não quer que ninguém seja feliz, que ninguém se dê bem...

-Feche a matraca, garota!

-Augusto ainda é sensacional, sabia? – ela começou a acariciar o próprio corpo, como se as lembranças a excitassem. – Ele me deixa enlouquecida. Quando estamos debaixo dos lençóis, ele me leva às alturas. Olhe bem para o meu corpo, Rebecca... – ela levantou as vestes, revelando as pernas até as coxas. – Não tem como competir, não é verdade? É só olhar pra você que a gente já se toca porque o Augusto te largou...

-Pare com isso...

-Carne fresca... É disso que ele precisava! Uma mulher que possa saciar todo o desejo que ele carrega. Eu posso fazer isso! Você pode até ter um corpo que ainda é bonito, mas, com essa idade, já não agüenta mais o pique do professor...

-Não vou ficar aqui ouvindo essas bobagens... – Rebecca, furiosa, deu as costas, procurando fugir das palavras de Lanísia.

-Incomodou bastante tudo o que eu falei, não foi? – gritou Lanísia para ela, enquanto ajeitava as vestes. – Prova que outro ditado também é verdadeiro, Rebecca: a verdade dói.

Satisfeita com a irritação da inspetora, Lanísia gargalhou.

-Ai, ai... O que um corpinho bonito não é capaz de fazer... Enlouquece qualquer homem, irrita qualquer mulher – ela lançou um beijo para o próprio reflexo na janela e, de mochila nas costas – um tanto pesada pelo retrato que carregava – seguiu para a Sala Precisa.


Rebecca estava profundamente irritada por conta das ofensas proferidas por Lanísia. Por isso, quando teve o braço agarrado por Clarissa e foi, dessa forma, forçada a parar para falar com a garota, a recepção que seria rabugenta em casos normais foi ainda pior.

-Você enlouqueceu? – perguntou Rebecca, soltando-se. – Sou uma autoridade aqui dentro, você não pode...

-Pare com isso que o meu tempo é curto pra ficar ouvindo seus sermões.

-Ah, Clarissa, essa sua ousadia...

-Eu raptei a sua filha.

Rebecca quase caiu no chão.

-Mas... Por quê?

-Porque eu preciso de um favorzinho. Só sumindo com a Karen para você me escutar...

Rebecca a segurou pelos ombros e balançou-a com violência.

-Cadê a minha filha?? CADÊ?

-Nem comece a gritar, ou será pior pra você e para a pequenina Karen. Se alguém nos ouvir, e for alguém importante, como a diretora, eu serei punida por isso, mas você não verá a sua filha nunca mais.

Rebecca soltou-a e deu uma risadinha nervosa.

-Você não teria coragem de fazer mal a ela... Não poderia matá-la! Ia sujar as suas mãos...

-É, de fato, eu não sujaria as minhas mãos. O problema é que eu não estou sozinha nesse lance. Tenho um aliado e, acredite, sei manipulá-lo muito bem. Se eu for punida, ele acaba com a sua filha.

Rebecca fechou os olhos, reconhecendo a derrota.

-O que você quer?

-Primeiro, quero que você me indique uma sala bem escondida, em algum corredor que seja pouco freqüentado pelos alunos.

-Existe uma sala no quinto andar que fica localizada no final de um corredor de pedra. O corredor não tem sequer janelas ou outras portas, apenas a que leva a essa sala.

-É... Acho que vai servir muito bem... Agora, preciso da chave que abra essa porta, e nem tente me enganar. Se me passar a chave errada, sua filha já era.

Rebecca puxou um dos molhos de chaves que trazia no bolso e procurou pela chave que abria aquela sala. Quando a encontrou, retirou-a do molho e passou-a para Clarissa.

-Isso... Gostei de ver – ela debochou. – Quando acabar de utilizar a sala, eu lhe entrego a chave e a sua filha. Mas, escute bem... – ela apontou o dedo indicador para o rosto horrorizado de Rebecca – ...se avisar à direção, eu serei punida, mas a sua filha também. Agora tudo depende de você. Funciona como você faz com os alunos aqui em Hogwarts: não tente ter um "comportamento inadequado", ou será punida por isso.

Clarissa deixou-a aos risos.

Guardando as chaves em um dos bolsos, ela conferiu se o outro objeto que trazia, tão importante quanto às chaves, continuava dentro da bolsa.

Respirou aliviada ao ver que estava lá.

Estava indo bem. Agora precisava de Draco para que o rapaz desse o passo decisivo: conduzir Rony até a sala indicada por Rebecca.


-Oi, Lewis – Serena cumprimentou o rapaz, que estava dentro do dormitório da mãe lendo um livro, deitado sobre a cama. – Me diz uma coisa... Sua mãe tinha alguma dentadura extra?? Ou um chinelo velho??

-Ãh? – Lewis fechou o livro e olhou para ela, sem compreender.

-Essas coisas lembram a sua mãe, não lembram? – ela torceu as mãos enquanto falava, inquieta. – Pelo menos deviam lembrar... Foi o que as garotas disseram.

-Que garotas?

-Deixe pra lá, Lewis, não tem importância... Acho que elas estavam brincando... – falando consigo mesma, ela olhou para um par de chinelos velhos que estavam largados em um canto do quarto. – Isso me lembraria a Frieda... Assim como aquele monstrengo naquele quadro – ela apontou para um quadro da parede que trazia o desenho de um gnomo. – Mas o Lewis não tinha essa visão dela. Apesar de tudo o que ela fez...

-Ei, eu to aqui! Não me ignore dessa forma, Serena. Fica falando de mim como se eu nem estivesse aqui!

-Desculpe, Lewis – ela respirou fundo e aproximou-se da cama, fitando-o com um misto de carinho e pesar. – O dia está meio ruim. Péssimo, para falar a verdade.

-Por isso está tão desligada?

-Sim. Minha cabeça está doendo tanto, que parece que vai explodir! – ela massageou as têmporas. – Mas não posso perder o foco. Não posso baquear agora.

-Eu posso ajudá-la de alguma forma...?

-Pode sim – ela sorriu fracamente, admirando o rosto dele; era incrível a harmonia dos traços, a confiança que aqueles olhos lhe transmitiam. Detalhes que a atraíram, que criaram aquele sentimento tão forte que, talvez devido à sua força, tenha atraído tantas desgraças. Como era possível o amor atrair o ódio? Ódio que atingira até mesmo quem não merecia... Ela mordeu o lábio, censurando a si mesma; e repetiu em pensamento: não posso perder o foco. – Em que lugar você, ou a sua mãe, guardavam as fotografias?

-A maioria fica em nossa casa, mas mamãe trouxe algumas para cá, já que íamos passar a maior parte do ano por aqui e a casa ficaria ocupada apenas pelos elfos domésticos. Vem cá... – ele tomou-a pela mão e, abrindo a porta que dava para o quarto de Frieda, foi até o guarda-roupa e abriu a segunda gaveta do lado esquerdo. De lá, retirou uma caixa comprida feita de madeira. – Estão aqui – estendeu a caixa para ela.

Serena apoiou-a sobre a escrivaninha e abriu-a. O odor daquele quarto a incomodava; estava impregnado do perfume de Frieda. O cheiro enojou-a mais do que antes; a repulsa pela falecida professora aumentara. Aquele cheiro lhe trazia tudo o que ela fez para prejudicá-la, e, para piorar, o quarto a recordava do repulsivo espetáculo que Frieda armou para assustá-la. Os bonecos deformados... As palavras impactantes...

-Está tudo bem? – perguntou Lewis, que a olhava com preocupação.

-Sim. Não se preocupe... – ela abriu a caixa e a imagem da primeira fotografia piorou a situação. No retrato, Frieda sorria diante de sua mansão. A alegria daquela imagem a incomodava; queria rasgar aquela foto, fazê-la em pedacinhos, destruir a felicidade que havia naquela imagem...

-Serena... – a voz de Lewis soou preocupada. – Está tremendo.

Ela olhou para as próprias mãos; elas tremiam, balançando a caixa.

-Acho que você não está bem.

-É, Lewis, mas não é nada grave... – ela sentiu que as lágrimas de ódio estavam a caminho. – Preciso ficar sozinha.

-Tem certeza?

-Sim.

-Certo... Estarei na minha cama, lendo. Qualquer coisa é só chamar.

Ela confirmou com a cabeça e, em seguida, Lewis saiu do quarto, deixando-a sozinha dentro daquele quarto fedorento e que, para ela, era tão repugnante quanto um cemitério.

Ela secou as lágrimas e começou a examinar as fotos. Era difícil olhar para o rosto de Frieda, sorridente na maioria das imagens, em algumas até acenando; mas ela precisava romper a barreira do ódio, deixar toda a raiva de lado e concentrar-se no que estava procurando: alguma imagem que causasse impacto em Lewis.

Entre as fotos, encontrou uma que serviria perfeitamente a seu propósito: nela, Frieda tinha um dos braços sobre o ombro do filho. Os dois estavam muito felizes, e, pelo que ela podia ver, era a imagem de um dos aniversários de Lewis. Algumas pessoas dançavam ao fundo e uma enorme faixa balançava sem parar, com os dizeres: FELIZ ANIVERSÁRIO, LEWIS. Ela observou o rosto dele e calculou que, na foto, devia estar completando uns doze ou treze anos.

Havia sido uma data importante, e a festa devia ter sido excelente pela alegria que ele expressava. Todas as lembranças e emoções que ele guardava daquela data viriam à tona quando ela queimasse a foto; seriam lembranças boas e fortes emoções? Ela supunha que sim.

-E mesmo se fosse uma fotografia do pior dia da vida dele, daria resultado, porque ela está ao lado dele... A grande víbora – ela falou baixinho, surpreendendo-se com o próprio tom de voz, que vibrava de ódio.

Contendo a vontade de destruir todas aquelas fotos, ela fechou a caixa e guardou-a apressadamente na gaveta de onde Lewis a havia retirado. A foto que utilizaria no ritual das Cinzas foi guardada dentro de sua bolsa. Feito isso, ela avançou para a porta, mas, antes de sair, ela teve uma idéia muito importante.

Retornando ao armário, Serena começou a remexer nas gavetas e nas portas. Ela também deslizou as mãos pelo interior do móvel, à procura de algum fundo falso.

Quando seu dedo tocou uma pequenina elevação na madeira, ela deteve-se e resolveu examiná-la. Tentou mover a elevação para cima, depois para a esquerda e para a direita. Ela continuava imóvel. Após tentar um movimento para baixo e ver que permanecia da mesma forma, Serena decidiu pressioná-la. Conseguiu.

Imediatamente, abriu-se uma pequena passagem logo acima da elevação. Era uma abertura minúscula, de onde ela retirou algo muito importante que foi guardado em sua bolsa.

Ansiosa por sair daquele quarto e abandonar aquele ambiente repulsivo, ela ocultou o compartimento secreto, recolocou as peças de roupa que havia retirado de qualquer jeito, fechou as portas do armário e saiu do dormitório.

Tantas emoções em um único dia; ela merecia um pouco de paz. Deixar aquele quarto já melhoraria as coisas, mas...

O que viu no quarto contíguo, ao abrir a porta, atingiu-a de outra maneira.

Lewis estava deitado sobre a própria cama, lendo, como havia dito a ela. Porém as roupas haviam desaparecido; ele estava apenas de calção. Sem que ao menos percebesse, Serena percorreu, com o olhar, todo o corpo do rapaz, parando apenas nos pés. Sentiu-se entontecer, e se agarrou com força à maçaneta da porta, enquanto seus olhos reviravam, um calor enchia o seu corpo...

A porta foi para o lado e ela, segurando-se na maçaneta, foi junto, desequilibrando-se com o movimento furtivo.

Lewis percebeu sua presença, desviando a atenção do livro.

-Serena! – ele levantou-se, largando o livro sobre a cama e indo até ela oferecer apoio.

O apoio foi oferecido com as suas mãos firmes que seguraram os braços dela. Aquilo a entonteceu ainda mais...

-Não sei o que tenho – ela tentou se explicar.

Ele abraçou-a. Naquela proximidade, ela não podia evitar; aconchegou a cabeça no peito dele e, fechando os olhos, deixou o cheiro de Lewis invadir suas narinas. Era agradável e de certa forma inflamável; aquela sensação quente retornou, aquecendo o seu corpo outra vez.

-Lewis, não precisa...

-Oh, precisa sim – ele apertou-a ainda mais contra o próprio corpo; era uma forma de carinho, de proteção, mas que a estava deixando louca. – Vai ficar melhor depois do meu abraço...

Era bom, mas ao mesmo tempo não era, porque ela não devia permitir.

-Lewis, não...

Ela ergueu o rosto para ele, tentando fazer com que parasse, mas nesse movimento ele a surpreendeu com um beijo. Perdendo as forças, entregando-se aos cuidados de Lewis, ela deixou de lutar contra a sua vontade e colou-se ainda mais ao corpo do rapaz. Ela sentiu a intimidade de Lewis sendo pressionada por suas coxas, e tal contato deixou-a ainda mais quente e mais zonza.

Ainda juntinhos, ela sentiu as mãos de Lewis deslizarem por suas costas e começarem a conduzi-la para trás. Ia levá-la para a cama.

Ela deixou-se levar; queria continuar agarrada ao corpo dele, tocando aquela pele...

Eles caíram sobre a cama desarrumada. Lewis jogou o livro longe com um movimento da mão. Ele estava em cima de Serena, e beijava-lhe o pescoço de uma maneira que a fazia encolher-se de tanta satisfação.

Ela sentiu a intimidade de Lewis pressionando-a; ainda estava coberta pela bermuda, mas ele logo ia se livrar daquela peça de roupa, despi-la também e, quando os dois estivessem nus, ia mergulhar dentro dela...

Seria possuída por Lewis.

Ia entregar-se ao irmão.

-Lewis... – ela tentou desvencilhar-se. – Lewis, não dá...

-Por que não? – ele perguntou. – Já chegamos até aqui. Por que vamos parar??

-Agora não dá... Lewis... – e ela foi obrigada a erguer a voz. – LEWIS, PARE, POR FAVOR!

Ele finalmente parou de beijá-la e olhou para o rosto dela.

-Se você continuar, ficarei chateada com você. Quer que isso aconteça?

-Não...

-Então precisamos parar por aqui – disse ela, enquanto saltava da cama e ajeitava as vestes. – Nem ia pegar bem fazermos uma coisa dessas no mesmo dia em que sua mãe morreu. Vamos agir como pessoas normais.

-Desculpe – ele pediu com sinceridade. – Se passei dos limites, foi por impulso...

-Conheço esses impulsos muito bem. Eu também os ultrapassei... – ela acariciou o rosto dele. – Preciso que me encontre na frente das estufas daqui a pouco... Acho melhor você já ir descendo.

-Sim, claro. Teremos momentos como esse no jardim escuro??

-Talvez. Fique tranqüilo, Lewis... A nossa hora ainda vai chegar.

Enquanto saía da sala, uma pergunta em seus pensamentos colocava aquela afirmação em xeque.

Será que vai chegar mesmo?


Joyce estava diante de uma situação complicada. Sabia que Juca devia gostar muito de alguns dos livros que possuía, mas, diante da gigantesca pilha que o rapaz havia colocado diante dela, percebeu que não seria nada fácil encontrar os prediletos.

-Juca... São só esses aqui? Ou tem mais? Sabe, eu queria que alcançassem o teto... – ela comentou, irônica e desanimada.

-Ah tem mais três aqui – falou ele, aproximando-se com os três volumes de capa dura. – Vou usar a varinha para colocá-los no topo... Não dá pra alcançar nem se eu subir na cadeira.

Ele ia tirar a varinha do bolso, mas Joyce o interrompeu.

-Não, não precisa... Já tem livro demais. Entre esses eu já devo encontrar alguma coisa...

Joyce pensou: como encontrar o livro favorito de alguém? É só ver o que está mais usado, pensou, utilizando a varinha para descer cinco livros do topo. Dispensando os de melhor aparência, ela examinou os dois que tinham a aparência surrada.

-Hum... Dicas para conduzir unicórnios... Gosta de unicórnios, Juca? Ou gostava?

-Não... Que eu me lembre, não. Por que a pergunta?

Ela mostrou o livro a ele.

-Parece que você o leu bastante.

-É, eu mexi bastante nesse livro, mas não foi por causa dos unicórnios.

-Não?

-Não. Veja só... – ele abriu o livro. – Está vendo? Essas marcas brancas... Algumas páginas estão tão coladas que nem abrem...

-Você passou cola nelas?

-Não. Foi esperma mesmo.

-Argh – com uma cara enojada, Joyce jogou o livro para longe. – Por que fez isso? Unicórnios excitam você por acaso?

-Não – respondeu Juca, indo buscar o livro. – A garota que monta os unicórnios nas imagens do livro é que me excitava... Isso antes de você aparecer, é claro.

-Sei... – ela respirou fundo. – Me dê essa porcaria. Acho que esse livro servirá.

-Humm...

-Por que está me olhando desse jeito safado, Juca?

-Está querendo ficar perto dos meus fluidos, safadinha! – ele cutucou-a no ombro para provocá-la. – Quando ver essas manchas, vai se lembrar do reservatório de onde tudo saiu, hein?

-Largue de ser... podre, garoto! Não é por isso que vou ficar com o livro...

-Por que então?

-Porque... Porque me interesso por livros sobre unicórnios... Gosto de ver as figuras dos bichinhos...

-Mesmo que eles tenham tomado banho de...?

Impaciente, ela interrompeu:

-Sim, Juca. Sim... Vou pegar umas luvas para segurar essa... porcaria.

Ela tirou um par de luvas da bolsa e só tirou o livro das mãos de Juca quando as mãos já estavam cobertas.

-Não faça essa cara de nojo, Joyce. Você gosta disso que eu sei... – e ele cutucou-a novamente, dessa vez nos quadris.

-Não enche, Juca – ela respondeu, envolvendo o livro em um saco plástico antes de guardá-lo na mochila.

-Quando vou encontrar a sua "amiguinha" novamente?

-Como sabe do apelido "amiguinha"?

-Ora, Joyce, todo mundo conhece!

-Nossa, devo tê-la chamado pelo apelido quando dormi com alguns caras...

-Vários.

-Está bem, eu sei com quantos eu dormi... – ela colocou o livro embalado na mochila. – Quanto ao que aconteceu entre nós dois... Eu não esperava que fosse acontecer. Não sei se vai rolar uma segunda vez... – disse ela, e estava sendo sincera em sua resposta.

Ao ver que Juca estava ficando desanimado, resolveu corrigir-se.

-...Hoje. Não sei se vai rolar uma segunda vez hoje. Mas, amanhã... provavelmente.

Ele comemorou diante dela. Joyce sentiu um pouco de remorso, mas sabia que, se tudo desse certo, no dia seguinte todo o sentimento de Juca já teria ido para o espaço.

Para ele, ela seria apenas mais uma aluna de Hogwarts entre tantas outras.

Para ela, ele continuaria sendo mais um dos inúmeros rapazes com quem havia dormido.

Apenas mais um. Ele era isso para ela; ela seria isso para ele.

Mas e aquele carinho que sentia por ele, que trazia algo que nunca havia sentido por nenhum outro?

Deve ser algo passageiro. A Fogueira será desfeita e tudo voltará a ser o que era antes: simples assim, pensou Joyce, antes de desferir um beijo na bochecha de Juca.

-Nos vemos daqui a pouco. Preciso lhe pedir um favor...

-Sim. O que você quiser, eu faço!

-Daqui a uns dez minutos, desça até o jardim e fique perto das estufas me esperando... Antes disso, você podia alimentar a Chana para mim. Ela está no salão comunal, deitada – ela retirou um pouco de ração para gatos da bolsa e passou para ele. – Faz isso por mim?

-Por você faço qualquer coisa – ele aproximou-se dela. – Eu te desejo muito, Joyce, mas o mundo não é só feito de sexo. Agradar-lhe de outras formas também me faz muito bem.

-Por que está dizendo isso?

-Porque é o que sinto, e quero que você saiba disso. A minha insistência para dormirmos juntos outra vez pode lhe passar a impressão de que eu quero apenas sexo e diversão, mas não é só isso.

-Sei que não, Juca. O que fizemos foi maravilhoso porque era muito mais do que um simples ato feito por desejo. Havia... amor. Nossa... – ela baixou a cabeça e deu uma risadinha. – Essa palavra soa até absurda em minha boca. Mas foi o que eu senti. Foi isso que fez a diferença, e foi o que tornou que fizemos um ato único.

Ela beijou-o; tinha a impressão de que aquele podia ser o último momento que teria a sós com ele, antes que o levasse para realizar o ritual das Cinzas. O momento tinha um ar de despedida...

-Você foi o cara mais especial da minha vida. Você não viu apenas um corpo, Juca. Você viu muito mais em mim.

-Claro que sim! Não tem como não enxergar a pessoa divertida e maravilhosa que você é, Joyce!

-Eu queria que isso fosse verdade... – ela disse, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. Ela abraçou-o. – Mas até o que você sente e acha de mim é uma ilusão...

-Não é, não. É a mais pura verdade!

Nada foi verdade em nossa história, Juca. Seu sentimento, assim como seu fogo, foram criados pela Fogueira. Não existem.

-Até logo, Juca... – ela beijou-o uma última vez e, caminhando de costas, para não deixar de olhar para o rosto apaixonado do rapaz, ela alcançou a porta e deixou o dormitório.

Antes que saísse do salão comunal, ela o viu agachado em um canto, oferecendo a ração à Chana. Joyce riu. Havia comprado a gata para tirar Juca da cabeça, mas não tinha adiantado; ele continuou presente, firme e forte, e a força de tudo o que sentia a fez ter uma crise de ciúmes por causa de uma boneca inflável! Ela agiu sem pensar, e quando viu estava nos braços de Juca, daquela maneira louca e inesquecível...

Não, ele não seria apenas mais um quando o poder da Fogueira se extinguisse. Ela estava errada quanto a isso.

Mas estava certa em um ponto: depois da reversão, ele não se lembraria de mais nada.

Ela seria uma garota qualquer entre tantas outras. Para Juca, seria sinônimo de diversão e safadeza, como era para todos os garotos.


Alone procurava por Harry quando encontrou Colin Creevey, sozinho, sentado no primeiro degrau da escadaria de mármore. Vê-lo daquela forma a sensibilizou da mesma forma que no dia em que o vira sozinho no gramado dos jardins. Perplexa diante daquela imagem, Alone não conseguiu continuar a caminhar.

Devido ao medo de perder Harry, ela colocara em risco a segurança das amigas; com medo de perder Harry, ela abandonara o amigo leal que fora, em tantos anos, Colin Creevey. A paixão por Harry vendara os seus olhos; confundira a sua mente.

Agora, as coisas tornavam-se mais claras.

Um pouco receosa, sem imaginar qual seria a reação do garoto, ela sentou-se no degrau, ao lado dele, e ali ficou, sem palavras, sem gestos.

Colin, que estava de cabeça baixa, moveu-se o suficiente para perceber que era Alone quem estava ao seu lado. Quando Colin suspirou, a jovem notou que ele a havia reconhecido sem chegar a pôr os olhos em seu rosto.

Enquanto ele baixava o rosto outra vez, Alone falou:

-Como sabe quem sou eu, se tudo o que pôde ver foram as minhas vestes?

A voz dela não demonstrava raiva nem provocação. Colin, percebendo esse detalhe, respondeu da mesma forma:

-O seu anel – automaticamente, Alone olhou para o anel que trazia no dedo; nele, uma pequenina pedra vermelha brilhava. – Dei a você no seu aniversário. Para que você sempre se lembrasse de mim. E da nossa amizade.

A mão que trazia o anel estremeceu levemente diante da lembrança. Até mesmo esse detalhe ela havia esquecido.

-Parece que isso não adiantou muita coisa, não é? – disse ele, com uma risada seca, sem humor. – Eu pensava que você era mais sensível, e que ia valorizar algo que representasse a nossa amizade. Estava enganado.

-Colin, você também não fez nada para que continuássemos amigos...

-Porque você roubou o cara que estava ao meu lado – finalmente, ele ergueu o rosto; Alone percebeu que, assim como ela, ele estava à beira de cair em lágrimas. – Foi uma traição, Alone. Coloque na balança e veja quem desestabilizou a nossa amizade.

-Você sabia que eu era apaixonada pelo Harry, mas nunca falou o que rolava entre vocês dois! Se você tivesse me contado...

-...Daria na mesma – ele completou. – E você sabe disso. Afinal, depois que você descobriu a verdade, depois de tudo o que aconteceu, como a noite em que pirei e tentei me matar, o que você fez? Continuou com ele. Como se o que eu sentia, e o que tive com o Harry, não importasse. Não adianta tentar arranjar justificativas para os seus erros: você agiria da mesma forma.

Ela não soube o que dizer para cortar as palavras de Colin.

-A nossa amizade não é tão importante quanto o amor que você sente pelo Harry. Isso é fato... – ele enxugou as lágrimas, desajeitado, utilizando as mangas das vestes. – Esse anel... E todas as coisas que fizemos juntos... Não são nada pra você, insignificantes diante da possibilidade de tê-lo ao seu lado na cama pro resto da vida.

-Está certo, eu errei – ela fez uma careta de impaciência ao ser obrigada a admitir o seu erro. – Mas nossa amizade é importante, sim... E tem mais: não adiantava nada tentar largar o Harry, ele nunca ia olhar pra você.

-Claro, depois que você o amarrou usando magia!

-Não tinha jeito de reverter isso, Colin, mas... Agora tem... – ele ergueu o rosto. – Estou disposta a reverter o encanto que caiu sobre o Harry.

Colin engoliu em seco, sem palavras.

-Não posso lhe dizer o que é, mas, para que dê certo, precisarei de um objeto que tenha representado um grande valor para o Harry antes que ele fosse enfeitiçado. Para isso, eu queria a sua ajuda... – ela não suportou o olhar esperançoso de Colin. – Oh, droga, não consigo olhar pra você... Mesmo sabendo que é o certo, é difícil demais... Ah, imaginar vocês dois juntos ainda incomoda muito, é estranho pra caramba, mané...

-Acho que você continua egoísta...

-Não, não, espere! Tente entender também, pô! É complicado pra mim. Bom, mesmo não olhando pro seu rosto, vou continuar... – ela olhou para o chão. – Você conhece o Harry muito bem... Por causa do... do...

-Namoro.

-É, namoro... Eu tento imaginar que foi um caso, pra ficar mais fácil, essa palavra namoro complica ainda mais as coisas...

-Alone, continue ou vou embora.

-Está bem. Foi mal. Então... Por causa do namoro, você o conhece muito bem. Eu preciso que você arranje essa coisa que foi muito importante para o Harry antes do que eu fiz. Preciso queimar essa coisa.

-Humm... Algo muito importante... Bom, poderia ser eu mesmo, mas, como ninguém quer que eu seja queimado vivo...

-Será que não??

-O que disse?

-Nada...

-Ah – ele estalou os dedos. – Sei de algo que pode ser queimado nesse encanto que você vai realizar!

-Ótimo. Preciso que você me passe imediatamente. Se tudo der certo, corrijo esse meu erro hoje mesmo. Vou provar a você que não sou egoísta, e que finalmente entendi que não posso obrigar o Harry a ficar comigo... Ele será seu outra vez... E... – ela voltou a olhar para o chão. – Espero que você me perdoe também...

Colin sorriu. Segurou a mão dela e tocou no anel com o qual a havia presenteado.

-Acho que vou perdoar, se você fizer o que diz.

-O primeiro passo precisa ser seu. E aí? Qual é esse tal objeto??

Algo no rosto de Colin antecipou que ela não gostaria muito de ver o objeto...


Clarissa chegou ao jardim a tempo de ver Draco passando a vassoura para Hermione.

-Obrigada, Draco!! – Hermione abriu um largo sorriso de alegria. – Muito obrigada mesmo!

-Imagina. É um prazer fazê-la feliz, Hermione.

A expressão de "babaca" feita por Draco fez Clarissa sentir-se nauseada.

-Vou conversar com as minhas amigas agora. Draco, daqui a pouco vou procurá-lo novamente. Você podia me esperar perto das estufas?

-Sim, claro, ficarei lhe esperando.

-Merece um beijo – ela deu um selinho nos lábios de Draco e saiu correndo, segurando a vassoura com cuidado, como se fosse muito importante conservá-la em bom estado.

Clarissa aproveitou o fato de que Draco estava sozinho para aproximar-se dele e saber um pouco mais a respeito daquela conversa.

-E então? Ela disse alguma coisa? Por que precisa da sua vassoura?

-Não. Mas eu nem perguntei; olha, não deve ser nada...

-Pra você, ela nunca faz nada... Vi que conversaram um pouco e que ela estava animada. Vocês falaram sobre o que?

-Ela me agradeceu e falou que ia conversar com as amigas. Pediu que eu a esperasse perto das estufas.

-Pediu, é? Interessante... – Clarissa refletiu...

Elas estão tramando algo, como eu imaginava! Hermione precisava da vassoura de Draco... Será que precisa voar para algum lugar??

Não... Isso não faz sentido. Ela poderia pegar a vassoura de Rony, ou do Harry... De qualquer garoto, não precisaria ser a vassoura do Draco...

Ele é o rapaz que ela encantou por minha causa. A vassoura devia ser a dele. Claro... Para realizar esse ritual de reversão, elas precisam das vassouras.

Mas nem todos os rapazes enfeitiçados utilizam vassouras...

Não, talvez não envolva especificamente vassouras, e sim qualquer objeto que pertença a eles. Talvez os objetos precisem ser destruídos, ou mergulhados em algum tipo de poção, não importa qual seja o método, mas elas o conhecem, vão se reunir para acertar os últimos detalhes e verificar os objetos recolhidos...

E vão se reunir agora.

E o "daqui a pouco" que ela informou a Draco não será para um encontro amoroso. Se elas de fato conseguiram reunir tais objetos, esse encontro diante das estufas só pode ter uma finalidade...

Ela precisará do Draco para efetuar tal ritual.

Isso vai acontecer... "daqui a pouco".

-O que eu disse a você mais cedo se confirmou, Draco. O tempo é curto. Vamos nos antecipar!

-Você encontrou o local para matá-lo?

-Sim. Já tomei todas as medidas para que o seu plano dê certo. Agora, olhe para mim – ela segurou-o pelos ombros. – Um golpe certeiro e você se livra dele de uma vez! Siga tudo o que planejou. Vocês ficarão isolados em uma sala, sem varinhas, apenas você terá em mãos uma arma, que será a faca que usará para matá-lo. Eu aguardarei do lado de fora e não deixarei que ninguém o interrompa.

-Mas...

-Não dá pra discutir, Draco! A sua querida Hermione está tramando agora mesmo uma forma de dar um chute em seu traseiro pra ficar com o Rony! Você precisa matá-lo AGORA!

Ele finalmente pareceu entender a gravidade da situação.

-Perfeito... O que preciso fazer primeiro?

-Estou cumprindo detenção na cozinha, então, hoje de manhã, peguei algo interessante lá dentro – ela abriu a bolsa e ele pôde ver o cabo de uma faca de cozinha. Clarissa riu de modo doentio. – Já deu pra imaginar qual é o tamanho da lâmina dessa faca, não? Dá pra fazer um estrago danado. Um corte no lugar certo e as tripas do Rony vão saltar pra fora...

Ela chegou a estremecer, imaginando aquela cena que lhe daria tanto prazer em ver...

-Vou passar essa faca para você, e você vai seguir exatamente o que eu disser...


Hermione encontrou Alone a caminho da Sala Precisa. Mione, com o objeto que ia queimar tão à mostra, estranhou o fato de Alone não estar com a vassoura de Harry nas mãos.

-Houve uma mudança inesperada – explicou Alone, sem graça. – Vou usar outro objeto.

-Ah! Está dentro da sua bolsa?

-Sim. Eu nem queria que saísse dela, mas... – e balançou os ombros.

Elas chegaram na Sala Precisa, fazendo com que Mione deixasse de lado os possíveis questionamentos a respeito do objeto que Alone utilizaria no ritual das Cinzas. Todas já estavam lá; Joyce, Serena e Lanísia estavam ao redor de uma mesa circular que havia aparecido no local. Sobre a mesa, havia um livro envolvido em saco plástico, uma fotografia e um quadro.

Ao vê-las entrar, Joyce aproximou-se, aflita:

-Conseguiram apanhar os objetos?

-Sim – respondeu Mione, mostrando a vassoura. – Ou acha que eu vim voando nisso aqui?

-E você, Alone? Cadê o objeto? Você não ia pegar a vassoura do Harry? – Joyce levou uma das mãos à testa. – Oh, minha nossa, deu errado! Você não conseguiu!

-Calma, Joyce! Sem stress! – replicou Alone. – Eu consegui sim! Está aqui, dentro da minha bolsa...

-Não vá me dizer que você destruiu a vassoura antes da hora! – previu Joyce, aflita.

-Típico... – comentou Serena.

-Típico?? – indagou Alone, fitando-a com desprezo. – Seria típico se fosse com você! Não cometo as suas "burradas", Serena... – e voltando a atenção para Joyce. – O objeto está na minha bolsa porque não é a vassoura do Harry!

-O que trouxe, então? – perguntou Lanísia.

-Bom, eu... Eu pedi ajuda ao Colin. Eu estava querendo me desculpar por tudo o que eu fiz, então pedi que ele me indicasse um objeto que representasse algo para o Harry.

-Que bom que vocês estão se acertando, Alone!

-É, é bom, sim, Mione, mas existem coisas difíceis de engolir... Como o objeto que ele me passou – ela abriu o zíper da bolsa e retirou de dentro dela uma peça de roupa, que jogou rapidamente sobre a mesa circular.

As meninas, inquietas, olharam para o objeto sem entender.

Lanísia estendeu a mão e esticou a peça de roupa. Olhou para Alone.

-Uma cueca?

Alone, com o rosto vermelho, respondeu:

-É. Essa é a cueca favorita do Harry...

-Ele gostava de usá-la, é isso?

-Não, Joyce. Ele gostava de ver o Colin usando.

Houve silêncio por um momento. A estampa da cueca era formada por listras de tigre e, na frente, havia algo escrito.

-"AQUI SE ESCONDE A FERA" – Lanísia leu, mostrando para as outras.

Foi o que faltava para elas caírem na gargalhada.

-Imaginem o Colin usando isso – disse Joyce entre uma risada e outra. – E vejam bem: se essa era a melhor, pensem em como as outras cuecas não devem ser...

-Bizarro, muito bizarro – comentou Lanísia.

-"A fera"... Que coisa mais ridícula... – riu-se Mione. – Não é possível! O Harry está me surpreendendo com essas preferências...

-Imaginem o Harry, gente... – e Joyce começou a imitá-lo. – Vai Colin... Mostra a fera pra mim... Quero pegar nela... Ruge, Colin, ruge...

Lanísia rugiu de modo afetado e, simulando garras de tigre, começou a "arranhar" o corpo de Joyce.

-Isso, agora põe o tigrão pra rugir! Sou sua tigresa potteriana...

Alone, que no começo mostrava-se irritada, não pôde deixar de rir diante da encenação das amigas.

-É muito absurdo, não é? – ela comentou. – Como o Harry é tosco... Tenho que esquecê-lo. Pô, mané, ele é apenas uma tigresa...

-Que já se acasalou com um tigre – disse Joyce, arranhando-a. – Bola pra frente, Alone. Finalmente você se tocou!

-Precisarei de outras cenas como essa pra esquecê-lo de vez...

-Deixando a cueca de lado – falou Mione – vamos decidir o que faremos a seguir.

-Certo – Joyce tomou a palavra. – Todas avisaram para os rapazes nos esperarem perto das estufas?

-Sim – elas responderam.

-Perfeito! Todos os objetos já estão aqui. Agora, vamos até os rapazes para amarrá-los. Estão com as varinhas?

As Encalhadas tiraram as varinhas dos bolsos e mostraram à líder do grupo que estavam preparadas.

-Precisaremos das varinhas para conjurarmos as cordas e para queimarmos os objetos – explicou Joyce. – Acho que é bom já resolvermos uma questão crucial: em que local realizaremos o ritual das Cinzas?

Hermione levantou a mão.

-Acredito que o melhor é efetuarmos o ritual na Floresta Proibida.

-É, podemos seguir os mesmos procedimentos adotados quando fizemos a Fogueira – opinou Alone.

-É, é um ótimo local – concordou Joyce. – Já está escurecendo, o pessoal vai começar a entrar no castelo. Conseguiremos agir sem sermos vistas.

-Vamos? – chamou Lanísia, pegando o quadro de Augusto.

-Sim... – falou Joyce, com a voz falhando. – Sabem, dá até um friozinho na barriga... Ter a consciência de que estamos saindo para pôr um fim à Fogueira... Parece mentira!

-Sinto a mesma coisa – falou Mione. Ela puxou a vassoura de Draco e estendeu a mão para a maçaneta da porta. – Chegou a hora de pormos um fim nesse pesadelo.


Rony estava parado no pátio quando sentiu a lâmina da faca ser pressionada contra as suas costas. Ele não pôde conter um sobressalto, e isso lhe custou um aperto no braço, aplicado pela mão violenta de Draco Malfoy.

-Nem pense em pedir ajuda – ameaçou. – Não tenho nada a perder. Se tentar pedir ajuda, com apenas um movimento eu enfio essa faca nas suas costas, depois o jogo no chão e termino o serviço golpeando seu corpo inteiro. É melhor não duvidar disso.

-Por que fazer isso, Draco? Para onde quer me levar?

-Tranquei a Hermione em uma sala, e quero que ela decida entre nós. Você precisa estar presente para alguns esclarecimentos...

-Sei que você não teria coragem de fazer mal a ela...

-Eu não. Mas a Clarissa está lá.

O coração de Rony disparou.

-O quê?

-Isso mesmo que você ouviu. A Clarissa está lá, fazendo companhia à Hermione.

-Não posso acreditar... – ele balbuciou, tenso.

Draco percebia que as mentiras inventadas por Clarissa estavam dando resultados.

-Eu vou com você – disse Rony, por fim. – Não pedirei ajuda. Leve-me até essa sala.

-Um movimento em falso e você já era – ele deslizou a lâmina da faca para que Rony se recordasse de sua presença.

Andando lado a lado, muito mais próximos do que o normal, Draco e Rony passaram pelo Saguão de Entrada e começaram a subir a escadaria de mármore.


Diante das escadas em que Frieda havia rolado para a morte, Lorenzo fazia anotações em um pergaminho. Rebecca, aflita com o desaparecimento da filha, aproximou-se dele com curiosidade.

-Alguma descoberta?

-Não. Por enquanto, nenhuma. Isso está muito esquisito... – ele dobrou o pergaminho, nervoso. – Tudo foi realizado com perfeição. Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada... Começo a pensar que não foi coisa de uma pessoa só.

-Sabia que eu penso a mesma coisa?

Lorenzo lançou um olhar clínico sobre Rebecca.

-Parece nervosa.

-Estou, mas já vai passar...

-Você tem alguma idéia do que possa ter acontecido na morte da professora Frieda?

-Sim; na verdade, é até óbvio para quem conhecia a Frieda tão bem quanto eu. As garotas que ela mais odiava, perambulando perto do local em que ela morreu, ah, é coincidência demais para que eu aceite isso como um mero acaso.

-Está se referindo às garotas que encontraram o corpo?

-Sim.

-Mas havia mais pessoas no corredor, que confirmam o que elas contaram.

-Todos eles estão nas mãos delas!

-A diretora McGonagall me informou que o professor Augusto e duas garotas, chamadas Amanda e Tina, viram o corpo caindo, e elas confirmam que todas as cinco garotas que você acusa também estavam no corredor. Elas não teriam como golpear a cabeça da professora! O assassino estava lá em cima!

-Pode ter sido um dos outros! Alguns dos namoradinhos delas não estavam presentes! Lorenzo escute: essas nojentinhas não prestam, e odiavam a Frieda! Você precisa focar as suas atenções nelas!

-O que quer que eu faça?

-Interrogue os rapazes – sugeriu Rebecca com frieza. – Nem que você interrogue apenas o Harry Potter e o Juca Slooper, que estavam junto com elas no momento em que o crime ocorreu. Verá que existe algo errado neles. Acredite em mim: não falaria isso se não tivesse quase certeza do envolvimento delas no que aconteceu.

Lorenzo concordou.

-Eu ia interrogá-las primeiro, mas agora vou atrás de Harry Potter e Juca Slooper. Tem alguma idéia de onde eles estejam?

-Vi Harry e Juca saindo do castelo poucos minutos atrás.

-Ótimo. Vou até os dois. Com algumas perguntas, é fácil pegar um mentiroso. Se você tem razão, vou saber logo, logo.

Lorenzo desceu para o Saguão de Entrada.

Ao ver, ao longe, as Encalhadas, atravessando o Saguão com expressões de ansiedade nos rostos, ele tomou outra decisão: ia segui-las.

Elas carregavam bolsas e mochilas, e uma delas caminhava com uma vassoura na mão.

Muito estranho...

Talvez elas fossem se encontrar com os rapazes para confabularem a respeito do assassinato que tinham cometido.

Ele não as perderia de vista.

Ele as seguiu.


As cinco Encalhadas saíram do castelo – sem perceberem que Lorenzo vinha logo atrás –, tomando o rumo contrário ao da maioria dos alunos, que entravam na escola depois do anoitecer.

Os rapazes estavam diante das estufas, seguindo o que havia sido combinado. Ficaram em pontos diferentes; elas se aproximaram deles, com a desculpa de que estavam planejando uma aventura sexual na calada da noite. Os rapazes aceitaram prontamente.

Segurando-os pelas mãos, elas se reuniram em um círculo. Todas, exceto Hermione.

Desesperada, ela vasculhou os arredores por duas vezes, procurando algum sinal de Draco. Não havia como enganar-se; Draco não seguira o seu pedido.

-Droga... – ela aproximou-se das amigas. – Draco não veio!

-Fique calma, Mione – falou Lanísia. – Ele pode ter se atrasado.

-Entre no castelo e o procure – recomendou Joyce. – Nós aguardaremos aqui.

-Ah, espero o tempo que for preciso para essa tal "aventura no mato" – disse Juca, todo entusiasmado.

Hermione deixou-os e retornou ao castelo. O medo que sentia começava a causar-lhe dormência nas mãos; o desaparecimento de Draco já fazia com que perdessem tempo e complicava o que antes parecia tão simples.


Oculto nas sombras, próximo às estufas, Lorenzo observava o grupo de quatro garotas conjurarem cordas. Era nítido o controle que elas possuíam sobre cada um dos rapazes.

Sim, havia algo errado ali.

Ele começava a convencer-se de que Rebecca estava certa. Havia algo podre naquele grupo, algo errado, e poderia estar relacionado à morte da professora Frieda Lambert.

Se estivesse relacionado, ele ia descobrir, ah, nada o tiraria dali.

Quando farejava alguma coisa, só sossegava quando descobria a fonte de suas desconfianças.


No Saguão de Entrada, Hermione perguntou para alguns conhecidos se eles tinham visto Draco. Depois de várias respostas negativas, ela recebeu uma confirmação de Simas Finnigan.

-Sim, vi o Draco subindo a escadaria.

-Faz muito tempo?

-Não, apenas alguns minutos...

Hermione pensou, pesarosa, que se não tivessem demorado tanto na Sala Precisa teriam esbarrado com Draco e poderiam já estar a caminho da Floresta Proibida. Mione ia agradecer a Simas pela informação e subir a escadaria para procurar Draco quando o rapaz completou:

-Ele estava com o Rony.

Mione sentiu uma pontada dolorosa no coração.

-Não... – murmurou, desolada.

-Eles estavam caminhando tão próximos um do outro que eu até achei engraçado...

Sem maiores explicações, ela disparou escadaria acima, correndo em desespero, deixando Simas sem entender o que havia de tão grave no que tinha contado a ela.

Furiosa e assustada, Hermione grunhiu, enquanto subia os degraus:

-Preciso salvar o Rony e acabar com a Clarissa...

Mas ainda haveria tempo para salvá-lo?

A resposta era uma incógnita, assim como também era um mistério o caminho que eles haviam tomado; para eliminar as interrogações, ela precisava correr e torcer para que a sorte estivesse ao seu lado...

Ao menos uma vez.


N/A: O final se aproxima... Não deixem de comentar! Até o próximo!!