CAPÍTULO 36
O confronto
Fechados num espaço; dois inimigos, um deles armado...
-Draco... Guarde essa faca.
...dentro de um corredor; duas inimigas, a força do amor...
- Eu estou avisando, Clarissa: é melhor passar por bem.
...entre quatro paredes; três casais e seus desejos sexuais...
- Vamos fazer uma surubinha!
...incidentes que provocam dúvidas mortais...
-Ele está morto?
Draco seguia mantendo Rony próximo ao seu corpo; a faca estava pronta para atingi-lo caso o rapaz tentasse escapar. Conforme caminhavam, Rony foi percebendo que o número de pessoas começava a cair.
-Para onde está me levando, Draco??
-Shhh... Fique calado. Hermione e Clarissa estão nos esperando...
Rony foi obrigado a entrar em um corredor à direita, um corredor fracamente iluminado de aspecto sinistro. Não havia ninguém ali, a não ser ele, Draco e algumas armaduras que não contribuíam em nada – apenas tornavam o ambiente ainda mais desagradável.
Rony percebeu que não vira nenhuma porta desde que entraram nesse comprido e estreito corredor. A única porta parecia ser a que ele avistava ao fundo, margeada por duas tochas que a faziam destacar-se mesmo à distância.
-Elas estão ali dentro? – indagou Rony.
-Sim. Viu só? Estamos chegando...
Foi Rony quem apressou o passo. Draco permitiu e acompanhou-o; quanto mais rápido chegassem àquela porta, melhor seria.
Diante da porta de madeira, Draco chamou Clarissa.
A porta se abriu no mesmo instante.
Rony, assustado, tentou perscrutar que local a porta revelava, mas não foi possível; a iluminação lá dentro era pior que a do corredor, e, antes que seus olhos captassem qualquer coisa, um par de mãos emergiu da escuridão e o agarrou, puxando-o para o interior.
Ele sentiu as mãos deslizando por seu corpo, apertando-o.
-Chega a ser um crime ter que mandar um corpo como este para o cemitério – falou Clarissa às suas costas; Rony, percebendo que era ela, tentou escapar das mãos o seguravam, mas Clarissa apertou-o ainda mais. Os dedos da jovem subiram pelas coxas e acariciaram-lhe a virilha. Clarissa gemeu de prazer. – Mas, se pensarmos bem, foi essa gostosura a responsável por tudo isso...
Ela empurrou-o, fazendo com que Rony caísse no chão.
-Accio, varinha! – a varinha de Rony foi parar nas mãos dela. Correndo, Clarissa passou por Draco, que lhe entregou a sua varinha. – Agora é com você.
Ela fechou a porta e trancou-a.
Rony levantou-se do chão, aflito. Olhando ao redor, percebeu que a sala era enorme. Havia o piso principal e o segundo piso, mais estreito, que corria em volta do ambiente, exceto no lado da porta de entrada. Tinha o formato semelhante ao de grandes bibliotecas. A parte superior, no entanto, não era protegida por corrimãos ou balaustradas; na realidade, não havia nenhum tipo de proteção. Pelas diversas estantes que estavam agrupadas no espaço de cima, Rony deduziu que o espaço superior era utilizado apenas por professores. Uma escada precária e móvel levava ao segundo andar. Os archotes da parte superior estavam apagados, de modo que apenas a dupla de archotes postada ao lado da porta iluminava o local. Ao voltar o olhar para a porta, Rony divisou os contornos do corpo de Draco, que permanecia parado.
-Draco... Por que está fazendo isso? Cadê a Hermione?
-Ela não está aqui. Não existe motivo algum para que ela estivesse aqui.
-Onde ela está?
-Não sei. Sei apenas onde ela estará amanhã. Em um cemitério. Acompanhando o seu funeral. Eu também estarei lá, e irei consolá-la. No momento em que seu caixão desaparecer debaixo da terra, ela perceberá que não existe mais dúvida, porque a partir daquele momento só terá uma opção. Eu. Ficaremos muito bem sem você para nos perturbar, e este é o fim da história, trágico para você, um alívio para eu e Hermione.
-Estamos sem varinhas... Quer vencer apenas com as mãos, é isso? – Rony fechou os punhos. – Não pense que vou deixá-lo fazer o que quer sem lutar!
-Fique à vontade – disse Draco, a voz no mesmo tom frio e monótono, indicando que as ameaças de Rony não o atingiram de modo algum. – Você pode tentar resistir, se não se importar em receber alguns cortes a mais... – e ele retirou a faca do bolso.
A lâmina fulgurou, destacando-se com um brilho laranja-avermelhado. Rony deu dois passos para trás, sem perceber; o impacto causado pela visão havia provocado o movimento.
Havia imaginado que Draco estava tão desarmado quanto ele, e, de repente, ele puxara a faca gigantesca, talvez a maior faca que ele já havia visto na vida, com aquela lâmina assustadora que parecia ter o mesmo tamanho do que a distância entre seu punho e o cotovelo.
Parecia tão afiada que, ao menor contato com a pele, devia provocar um estrago esmagador.
Draco continuava no mesmo lugar, segurando a faca na mão direita, com a ponta assustadora apontando para o chão; de onde Rony estava, parecia até que a ponta da arma era uma extensão do braço do garoto.
Ainda não havia sinal de que ele ia atacar.
-Draco... Guarde essa faca.
-Não – uma única palavra, um monossílabo que demonstrava que a decisão estava tomada. E ponto final.
-Escute...
-Escute você! Nada que disser vai fazer com que eu o deixe vivo. Havia alguma dúvida em mim na noite em que o esfaqueei no Lorenzo´s? Eu mesmo respondo: não havia, e você sabe disso. Também não havia dúvida quando avancei para matá-lo com o travesseiro. Você só está vivo ainda porque a Hermione não me disse sobre as dúvidas que tinha. Depois que ela começou a namorar comigo, achei que você fazia parte do passado, então, não tentei matá-lo outra vez; mas tudo mudou... Você tocou nela; você transou com ela; eu ouvi tudo o que vocês conversaram...
-Não era a Hermione...
Draco ergueu a faca num movimento repentino.
Rápido como um raio, ele deu passos rápidos na direção de Rony e, quando estava próximo o suficiente, girou a faca no ar.
Rony saltou para trás, saindo de onde estava e evitando o golpe.
Ele ergueu-se apressado do chão, alerta, pronto para desviar novamente caso fosse preciso. Mas Draco havia parado outra vez, e a faca, novamente, estava com a ponta voltada para o chão...
-Não foi algo que me contaram, Weasley... Eu vi – disse ele, ligeiramente ofegante.
-Mas... Ela não ficará ao seu lado sabendo que você me matou! Você sabe como é a Hermione; ela não concordaria com isso...
-Não dê ouvidos ao que ele disser; uma pessoa prestes a morrer é capaz dos piores apelos e súplicas – Draco citou, pensativo e balançando a cabeça em concordância. – Bem que a Clarissa disse que você chegaria a esse ponto...
-A Clarissa é uma doida, Draco! Não dê ouvidos a ela. Ela não é sua amiga...
-Quem é meu amigo, então? Você? Claro que não. Qualquer um que tente me tirar a Hermione é meu inimigo. E no seu caso, mais do que isso, o problema é a ameaça que você representa. A quedinha que ela tem por você... – ele grunhiu, como se estivesse lutando com um acesso de fúria. – É isso o que me incomoda; é isso que me faz sentir essa vontade doentia de acabar com você.
Ele ergueu a faca.
-Aqui, ninguém vai me atrapalhar. Você não tem onde se esconder... Será tão simples, rápido e doloroso quanto eu sempre imaginei.
É, Rony pensou...
Ele está certo.
Um ambiente sem janelas; sem saídas, exceto uma, guardada pela outra pessoa que queria livrar-se dele, que não permitiria que ninguém a ultrapassasse.
Dessa vez, o ciúme havia criado, na mente de Draco, um plano horrendo, mas perfeito dentro de seu propósito maligno.
No final de tudo, um deles sairia morto dali.
E não era ele quem tinha uma faca na mão.
Hermione perguntou para diversas pessoas que passavam se elas tinham visto algum sinal de Draco, Rony ou Clarissa. Seguindo o que cada uma delas lhe dizia, Hermione avançou rapidamente, alcançando as proximidades do corredor que levava à sala onde Draco ameaçava a vida de Rony.
Ao passar diante do corredor, ela estancou.
De onde estava, via a figura inconfundível de Clarissa, parada ao lado da porta com os braços cruzados. Clarissa movia a cabeça sem parar, como se estivesse ansiosa, quase incapaz de conter as próprias emoções.
Não demorou muito para ela erguer a cabeça e ver que Hermione aproximava-se, caminhando pelo corredor.
Clarissa lançou um olhar curioso para trás, na direção da porta, e depois sorriu para Hermione.
-Pode desmanchar esse sorriso falso, Clarissa. Sei que não está nem um pouco contente em me ver.
-Para ser sincera, isso não é agradável em momento algum... Está atrás de mim, por acaso? Quer falar alguma coisa?
-Não banque a desentendida, que eu sei muito bem que o Draco raptou o Rony, induzido por você, é claro...
-Não acredito! – ela fingiu espanto. – O Draco raptou o Rony? – ela deu uma risadinha seca. – Ah, mas que garoto esperto! Agindo sozinho...
-Eu não sou nenhuma imbecil – disse Mione, sem sorrir. – Sei muito bem que Draco trouxe o Rony para esses lados, e encontrá-la por aqui, para mim, não é coincidência nenhuma – ela estava bem próxima de Clarissa; quanto mais perto ela chegava, mais Clarissa notava o quanto ela estava decidida; os contornos do rosto pareciam revelar uma outra Hermione. – Diga: onde eles estão?
Abandonando a encenação, Clarissa deixou fluir toda a sua loucura e delírio ao responder:
-Acha mesmo que vou falar pra você? Hã? Você bebeu alguma coisa antes de vir pra cá? Ou será que é a falta de sexo que está afetando a sua mente?
Ela fechou os olhos e lambeu os próprios lábios; soltou pequenos gemidos.
-Humm... Humm... Pena que você não vai ter tempo de experimentar a potência do seu ruivo. A não ser que você seja uma daquelas pessoas que gostam de abusar de cadáveres... Sabia que tem até um nome pra isso? Deixe-me ver se consigo lembrar... Ah! Claro... Necrofilia! Pois é, tem gente que faz isso, você também pode fazer. É só violar o túmulo do Rony, abrir o caixão e pimba! Pula lá dentro e se esfrega no defunto...
Ela riu com prazer; Mione a fitava, enojada.
-Claro que existem coisas meio desagradáveis nisso... Você terá a companhia dos vermes, sem falar no mau cheiro que o corpo do seu ruivo vai desprender quando entrar em decomposição. Sei que ele já não cheira muito bem, mas até no caso dele vai dar pra perceber o quanto vai piorar... Ah, e ele não ficará mais excitado. O órgão dele não vai ficar em pé... Mas, veja bem, nem tudo estará perdido! Tenho até uma sugestão a fazer! Você poderá utilizar as mãos dele! É, sim! Pode levar os dedos até a sua intimidade, introduzi-los e, de certa forma, você estará sendo deflorada pelo Rony. Será apenas um cadáver, é verdade, mas ainda será o Rony.
-Ele já está morto? – Mione perguntou, quase sem fôlego.
-Depende do quanto ele é esperto. Mas nós sabemos que ele não é tão inteligente, então acho que não vai demorar muito pra ele bater as botas. Basta uma facada no lugar certo pra fazê-lo sangrar até a morte...
Mione olhou, curiosa, para a porta que estava fechada atrás de Clarissa.
-Eles estão aí dentro – não era uma pergunta.
-Será? Por que não vê você mesma? – ela afastou-se e deixou o espaço livre para Hermione aproximar-se da maçaneta.
Ela fez três tentativas desesperadas, mas não conseguiu abri-la. O desespero era tão grande que ela precisou convencer-se, mais de uma vez, de que a porta realmente estava trancada, mesmo diante das evidências. Ela tentou abrir a porta com a varinha, mas devia haver ali algum feitiço de proteção que a impedia.
Quando se voltou para Clarissa, viu que a jovem estava divertindo-se – e muito – com o seu pavor. O convite para tentar abrir a porta foi feito justamente para que ela assistisse ao pânico de Hermione...
-Abre essa porta, Clarissa – pediu, ríspida.
-Não. Você gosta quando é interrompida? Deixe o Draco matar o Rony de uma vez...
Hermione avançou e apertou o braço da garota.
-EU QUERO A CHAVE!
-Ei, ei, acalme-se, sua...
-Passe-me a chave logo, Clarissa. Eu estou avisando: é melhor passar por bem.
-Ah, o que você vai fazer? Vai matar-me? – ela riu, desdenhando. – A única coisa que você sabe fazer é estudar, Hermione; pro resto, você não presta...
Mione soltou o braço da garota e desferiu um tapa em seu rosto.
A força do golpe derrubou Clarissa, que se estatelou no chão. Rápida, ela tentou erguer-se, apoiando-se na parede de pedra, mas enquanto se levantava as mãos de Hermione grudaram-se em seus cabelos; Mione jogou-a no chão novamente.
Dessa vez, Clarissa bateu o rosto e, quando Mione pulou sobre ela e forçou-a a encará-la, viu que ela havia cortado o queixo.
-Agora PASSE A CHAVE! – ela ordenou.
-De jeito nenhum. Eu quero que o RONY MORRA! MORRA! – Clarissa berrou, mas não por muito tempo; foi calada pelo soco de Hermione, que provocou um forte estalo.
Enquanto Clarissa gemia de dor, Mione aproveitou a distração e começou a colocar as mãos nos bolsos das vestes da garota, procurando a chave.
Ao se dar conta disso, Clarissa começou a mexer as pernas, tentando livrar-se da garota.
-PARE DE MEXER! – ordenou Mione, sem parar de tatear nos bolsos.
-Você não vai conseguir salvá-lo...
-CALE A BOCA! – mesmo com a dor que já sentia na mão, Mione não se conteve e o ódio lhe deu o impulso necessário para esbofetear Clarissa por mais duas vezes.
-Pode estourar a minha cara... Pode fazer o que quiser... Mas livrar o Rony você não vai!
Clarissa tentou erguer-se; Mione não permitiu. Ela pressionou uma das mãos contra a cabeça da garota, mantendo-a no chão, enquanto verificava os bolsos novamente. Devia estar em algum deles... Devia estar...
Ela encontrou as varinhas que estavam guardadas com Clarissa – a da própria garota, a de Rony e a de Draco – e as jogou longe. Finalmente, em outro bolso, sua mão fechou-se sobre a chave. Ela retirou-a do bolso de Clarissa e, largando a inimiga no chão, levantou-se para caminhar em direção à porta...
Clarissa agarrou seu tornozelo.
Mione caiu, amortecendo a queda com os braços, mas ainda assim cortando as mãos. Ela fechou a mão direita sobre a chave.
-Você não vai salvá-lo... – Clarissa riu. – Eu não vou deixar. Ele só sai dali morto!
Hermione sentou-se no chão e, utilizando a mão que segurava a chave, desferiu um soco nos dedos de Clarissa que aferravam seu tornozelo.
Clarissa gritou, debatendo-se com a dor, mas, diante de sua decisão em manter Mione longe da sala, não soltou o tornozelo da garota.
Era necessário outro golpe, talvez mais violento...
E foi o que Hermione aplicou. Com a perna que estava livre, ela desferiu um chute no rosto de Clarissa que fez a garota ceder, xingando em meio à cascata de sangue que voava de seu nariz, e ela pôde, finalmente, correr até à porta.
Trêmula, consciente de que precisava abrir aquela porta o quanto antes – antes que Draco matasse Rony e antes que Clarissa levantasse e tentasse impedi-la – ela inseriu a chave na fechadura. O objeto encaixou-se com perfeição e, em um único movimento, Hermione destrancou-a.
Ela praticamente jogou-se para dentro da sala, levando a chave consigo.
Ao ver-se diante do amplo aposento de dois andares, ávida por qualquer sinal que lhe indicasse que Rony ainda estava bem, ela chamou por seu nome, num grito que ecoou pelas paredes do recinto:
-Rony!
Não houve nenhum grito em resposta.
Houve um movimento repentino na parte superior, e, ao erguer os olhos, ela encontrou Rony, que surgia, parecendo cansado e com um aspecto nem um pouco agradável, mas vivo.
-Hermione! Draco está aqui! Está com uma faca na mão!
-Sim, eu sei. Você precisa sair... CUIDADO, ATRÁS DE VOCÊ!!
Rony virou-se o suficiente para ver Draco brandindo a faca em sua direção.
Ele agachou-se, desajeitado; Draco, pego de surpresa, tropeçou nos pés de Rony e caiu de encontro a uma cômoda cheia de tintas e pergaminhos, que tombou sobre ele.
Rony correu na direção da escada que levava ao primeiro piso.
-Isso! – gritou Hermione, ansiosa. – Desça para irmos embora daqui!
-Vocês não vão a lugar nenhum – falou Clarissa, que entrara na sala e acabava de passar por ela em disparada.
Mione levou alguns segundos para entender exatamente o quê ela pretendia fazer e, quando notou o que era, já era tarde demais.
Rony estava a alguns passos da escadaria quando Clarissa, com um simples movimento, a empurrou.
A escada veio abaixo sob o olhar ensandecido daqueles olhos azuis.
-Saia daí, Clarissa! – gritou Hermione, disposta a erguer a escada novamente, embora a tarefa não parecesse tão simples.
Clarissa, que estivera contemplando a sua obra, olhou para ela.
-Não vou deixar que você interfira no que deve acontecer!
Ela colocou o corpo diante de Hermione, fitando-a com o rosto úmido do sangue que escorria do nariz e do queixo, pronta para não deixá-la prosseguir; foi afastada com um empurrão.
-Deve acontecer nesse seu mundinho psicótico e maluco, onde tudo é perfeitamente normal. Lamento, Clarissa, mas...
Mione apontava a varinha para a escada quando ouviu o baque da porta encostando-se. Ela voltou-se e viu Clarissa com o corpo colado contra a porta, rindo como se tivesse acabado de ouvir a piada mais engraçada do mundo.
-Faça o que quiser, mas o Rony não sai vivo dessa sala – avisou ela. – Talvez eu não consiga impedi-la em meio a toda essa "força" que desperta em você quando seu adorado porco imundo está em perigo, mas vou dar um pouquinho de trabalho, tempo suficiente para Draco esfaquear o seu sujinho.
Clarissa olhou para cima, de lado, com extrema satisfação e depois piscou para Hermione.
-Parece que não vai demorar muito.
Mione acompanhou a direção do olhar da garota e viu que Draco havia se levantado, com o rosto sujo de tinta e a faca na mão. Começava a caminhar com a atenção fixa no ponto onde Rony, apavorado, buscava alguma forma de descer.
-Humm... – fez Clarissa em desdém. – Se ele pular, talvez o Draco nem precise matá-lo. Uma queda dessas... Caindo de mau jeito deve dar pra quebrar o pescoço, não acha, Garota-Maravilha Granger? – ela gargalhou.
Hermione imaginava que daria tempo de erguer a escada, mas aquela era uma situação que não abria espaço para erros. Se errasse, ela precisava ter uma garantia de que Rony não ia saltar, ou de que Draco não conseguiria atingi-lo... bom, pelo menos, que não conseguisse tão facilmente.
Ela ia dificultar as coisas e igualar o cenário; ficaria uma bosta para ela e Rony, mas não ficaria nem um pouco animador para Draco e Clarissa.
Assim sendo, ela desviou a varinha da escada e apontou-a diretamente para o archote que brilhava do lado esquerdo da porta. Ela apagou-o, em seguida apagou o archote direito e a sala mergulhou em escuridão.
-Treinou o seu assassino particular em cabra-cega, Clarissa? Se não pensou em treiná-lo nessa brincadeira, acho que as coisas se complicaram para o seu assassino.
Clarissa, que continuava no mesmo lugar, encostada na porta, gritou para Draco:
-Não se intimide, Draco! Procure-o, ele não tem como descer! Se tocar em alguma pessoa, esfaqueie sem dó, só estão vocês dois aí em cima!
Enquanto isso, Hermione tateou a procura da escada caída e, apontando a varinha na direção do objeto, começou a erguê-la.
Na parte superior, Rony caminhou para trás na escuridão, até alcançar a parede.
Ele sentiu o sangue gelar; estava avançando no desconhecido – e sabendo muito bem quem caminhava nas sombras e qual era a intenção dessa pessoa...
Teria que fazer com que Draco não o localizasse.
Nos jardins, as Encalhadas aguardavam o retorno de Hermione e Draco, ao lado dos rapazes que permaneciam amarrados, aguardando, ansiosos, o momento de se embrenharem no matagal da Floresta Proibida para uma noite de "pura diversão".
Joyce, que havia mergulhado na fantasia, animava-os.
-Não tem nada como trepar numa árvore... – disse, abanando-se.
-É, eu também gosto muito! – exclamou Juca, tão entusiasmado quanto ela.
Joyce o fitou com estranheza.
-Ei, espere um pouco, mocinho! Eu achei que você nunca tinha feito nada antes...
-Não me lembro de ter dito a você que eu nunca havia trepado numa árvore.
-Mas... Você fala como se fosse algo normal!
Alone pigarreou e intrometeu-se:
-A única coisa que está anormal aqui é a sua cena de ciúmes.
Joyce estava indignada.
-Acha que é certo um cara que se dizia "virgem" falar que já andou trepando em algumas árvores sabe-se lá com quem?
-Joyce, essa sua mania de levar tudo para o mau caminho às vezes atrapalha as coisas! – disse Lanísia. – O trepar a que o Juca se refere não significa que ele transou numa árvore, e sim que ele subiu em uma!
-Subiu em uma... Quem foi? – ela perguntou, voltando-se para Juca. – Quem foi a vadia?
-Não é isso! Ele subiu na árvore – ajudou Serena.
-Francamente, hein, Joyce, até a Serena entendeu mais rápido do que você... – disse Alone.
Ela começou a rir de si mesma.
-Nossa... como fui estúpida... É claro! Eu uso tão pouco o outro sentido da palavra "trepar" que nem lembrei... Foi mal, Juca...
-O ciúme a deixou confusa.
-Sim, tem razão, Alone... – de repente, ao perceber com o quê estava concordando, ela interrompeu-se. – Ei, ei, ei! Alto lá! Ninguém sentiu ciúme por aqui!
-Nem vem, Joyce. Você sentiu ciúme sim, e também deixou escapar que o Juca dizia que era virgem... Dizia, o que quer dizer algo no passado!
-OH! – fez Serena, surpresa. – Você traçou o Juca!
-É mas, na verdade, fui eu quem traçou ela – disse Juca.
-Não, nós sabemos muito bem que é a Joyce quem traça os homens – Serena corrigiu-o.
-Sim, eu e o Juca dormimos juntos... Mas ele está certo ao dizer que quem tomou conta da situação foi ele, e não eu. Existe algo poderoso escondido nesse rapaz, meninas!
-Ué, mas eu achei que o bilau dele fosse pequenininho...
-QUIETA, SERENA! – gritou Joyce. Em seguida, sorriu constrangida para Juca. – Não escute o que ela diz... Ela nunca viu um cara pelado, então os comentários dela devem ser ignorados.
-Então você e o Juca dormem juntos e a gente nem fica sabendo? – perguntou Lanísia.
-Desculpem, eu não sabia que precisava publicar no "Profeta Diário"! – respondeu Joyce, impaciente.
-Acho que devia ter contado, Joyce... – reclamou Serena.
-É, também acho, mas está ficando bem claro porquê ela não falou nada, meninas. Vejam só: até agora ela só reconheceu que dormiu com o Juca, mas está na cara que a coisa vai bem mais fundo do que isso... – ela teve a teoria confirmada diante de si, ao ver Joyce mexer-se inquieta sobre o gramado. Então, completou, sem dúvida alguma. – Você se apaixonou pelo Juca!
-Sério?
-Sim, Serena, qual é o problema? – indagou Joyce. – Não posso? É proibido?
-Não, mas não sabia que você era capaz de se apaixonar por um homem... Não é pelo bilau dele que o seu coração bate mais forte?
-Não, Serena, NÃO! Apesar de gostar muito de tudo o que o Juca fez comigo, não é só dessa parte que eu gosto. Estou... É, estou apaixonada por ele, é, isso... Apaixonada, bestificada, enlouquecida, perdidamente apaixonada por... – ela indicou Juca com a mão. – ...ele. E nem adianta tentar me enganar porque é verdade. Eu já tentei fugir e não consegui.
Houve um momento de silêncio, enquanto Lanísia, Serena e Alone olhavam para a amiga completamente aturdidas.
-Vou contar uma coisa... – começou Alone. – Eu não imaginava que viveria para ver essa cena.
-É, Joyce... você está bem?
-Estou ótima! Serena, nunca estive tão bem! O Juca é maravilhoso... Melhor do que todos os garotos que já passaram pela minha cama.
-Não seria pela sua vida?
-Aff, estamos entre amigas, vocês sabem que eles só passaram pelos meus lençóis e nada mais. Menos o Juca. Ele deu para mim a melhor noite de sexo que eu já tive, isso porque havia algo a mais em tudo o que fazia.
-Amor – falou Lanísia, sorrindo para a amiga.
-É. Isso – Joyce suspirou. – Esse negócio de amor é tão desprezado hoje em dia, tão colocado em segundo plano que eu nem podia imaginar que é tão bom... E que é capaz de deixar tudo melhor, até os atos em que, aparentemente, não se precisa dele.
-Nossa, Joyce! – Alone riu. – Seus olhos estão até brilhando!
-Mas você sabe que... – Lanísia interrompeu-se; os rapazes pareciam distraídos, mas a força que podia controlá-los talvez estivesse com os ouvidos em pé. Citar o nome do ritual seria arriscado demais; procurou, então, tomar um caminho mais sutil... – Você sabe que depois de irmos até a Floresta, algumas mudanças vão acontecer... Entende?
O brilho nos olhos de Joyce, e todos os sinais de felicidade, desfizeram-se.
-Eu entendi. E também já havia me lembrado disso... Mas o que posso fazer? Será bom para vocês, e para que tudo volte ao normal, é necessário que eu aceite essas mudanças.
Ela baixou a cabeça outra vez e elas conseguiram visualizar as lágrimas que corriam silenciosas por seu rosto.
-Voltarei à vida movimentada de antes... Acho que conseguirei me adaptar...
As garotas aproximaram-se da amiga para abraçá-la. Serena, percebendo que Juca olhou intrigado, deu uma explicação...
-Está um pouco constrangida com a suruba que vai acontecer na Floresta, coitada...
-Ah... Serena, vem aqui... – ele aguardou até que pode cochichar em seu ouvido. – Tente convencê-la de que não precisa ter vergonha.
Ela fez um sinal positivo com o dedo e juntou-se ao abraço coletivo.
-Controle-se, Joyce, não vai ser fácil pra nenhuma de nós... – falou Lanísia, bem baixinho, de modo que só as Encalhadas presentes pudessem escutá-la. – Veja o meu caso, por exemplo. Depois que o poder da Fogueira se extinguir, o Augusto vai voltar ao que era antes: ignorando-me devido ao medo de ser descoberto que ele tem um caso com uma aluna. Ficarei na "seca" por muito tempo!
-Eu também – disse Alone. – O Harry vai continuar na atividade exercitando o outro lado dele, mas, eu... Pô, mané, ficarei a ver navios!
-Para mim, continua na mesma, o que não significa que vai melhorar – falou Serena. – Meu irmão vai me assediar um pouco menos... só isso...
-Nós sentiremos as mudanças, mas não dá pra baixar a cabeça – aconselhou Lanísia. – As coisas mudam... E é questão de tempo para nos adaptarmos às mudanças.
Joyce concordou com a cabeça.
-Obrigada pelo apoio, meninas... Obrigada mesmo. Mas ainda assim... Será terrível não transar mais com ele...
-Droga, pra mim também – reclamou Lanísia.
-É, vou ficar subindo pelas paredes e não terei ninguém pra me aliviar – disse Alone.
Lanísia, de repente, deu um risinho travesso.
-Humm... Eles estão aqui... Amarrados... E parece que a Hermione não vai aparecer tão cedo...
-Opa, no que está pensando? – indagou Alone, curiosa.
-Só estou pensando em aproveitar esse tempo livre... Podemos nos ocupar um pouco... Eles não acham que terão uma noite de sexo selvagem no meio da Floresta Proibida? Então por que não damos isso a eles, não na Floresta, mas por aqui mesmo?
-É, gostei disso... – apoiou Alone. – Aliviaríamos a nossa vontade e seria como uma despedida!
-Isso! – falou Lanísia, entusiasmada com a própria idéia. – Muita diversão nos jardins de Hogwarts! O que acha, Joyce?
Joyce tinha no rosto a expressão maliciosa que elas já conheciam muito bem.
-Demorou! Vamos fazer uma surubinha!
Hermione conseguiu erguer a escada, que acabou inserida em um ponto localizado mais à direita de sua posição normal. Esperando que Rony tivesse permanecido no mesmo lugar, aguardando enquanto ela erguia a sua única rota de fuga, chamou, uma vez:
-Pode descer Rony!
-ANDE LOGO, DRACO, MATE ESSE ESTÚPIDO! – berrou Clarissa, ainda a postos diante da porta.
Mione aguardou que algum movimento na escada indicasse que Rony estava descendo por ela, mas o objeto permaneceu imóvel. Ela tentou captar algum outro som – qualquer som – do piso superior, mas só havia silêncio, o que, por um lado, até era bom...
O silêncio significava que os dois rapazes ainda não haviam se confrontado.
Impaciente, sentindo a necessidade de agir, Hermione tateou em busca dos degraus e começou a galgá-los em direção ao outro piso.
Alguns dos degraus rangeram – pequenos rangidos que ganhavam intensidade em meio à ausência de som que tomava conta da sala.
Rangido que indicou para alguém o que ela pretendia fazer...
Ela subiu o mais rápido que pôde e, ao atingir o piso superior, estendeu as mãos diante do corpo, certa de que Rony estava escondido por ali.
Mas suas mãos tocaram apenas alguns móveis e objetos.
Precisava localizar Rony antes de Draco, e tinha um trunfo em mãos: a varinha. Teve uma idéia repentina e, antes que se arrependesse, disse:
-Lumus!
Ela mexeu a varinha iluminada, tentando pegar diversos pontos, na ânsia de encontrar Rony.
-Rony! Sou eu! Venha até aqui!
Quando se virou para verificar o espaço às suas costas, a varinha iluminou o rosto desesperado de Rony que, ao aproximar-se, a envolveu em um abraço apertado.
-Espere – pediu Mione. – Tenho que apagar a varinha para despistarmos o Dra...
-NÃO!
Era Clarissa que gritava, ao mesmo tempo em que tirava a varinha das mãos de Hermione. Com a varinha iluminada em mãos, ela acendeu dois archotes do piso superior que estavam apagados, iluminando o ambiente, permitindo assim que Draco visse onde eles estavam.
Draco estava a uns seis metros de distância, mas agora avançava a passos rápidos.
-Vamos, Rony! Desça a escada! – disse Hermione, puxando o garoto até a escadaria.
Apesar de as mãos estarem molhadas de suor frio e os dedos tremerem descontrolados, Rony conseguiu agarrar-se aos degraus e iniciar a descida...
Apenas iniciar, porque Hermione não conseguiu segui-lo. Ela se debruçava para acompanhá-lo quando Clarissa a empurrou para o lado. Mione, atingida inesperadamente, acabou caindo de lado no piso, abrindo o espaço que Clarissa precisava para interromper a fuga de Rony.
Deitando-se em frente a escadaria, ela estendeu as mãos e agarrou os braços de Rony.
Suas unhas compridas cravaram-se na pele do garoto, tamanha a força com que ela o segurava.
-Não vai sair antes do fim da festa, mocinho! – ela provocou.
Rony tentava desvencilhar-se, mas sem muito esforço, temendo cair da escada. Clarissa olhou para o lado e viu que Draco estava a menos de dois metros de distância.
-Ande logo, estou segurando o desgraçado pra você!
-Largue-o, Clarissa! – ordenava Hermione, recuperada da queda, agarrando os braços de Clarissa e tentando afastá-los de Rony.
-Nem pensar! Seu namorado sujo não vai escapar.
E, acima da briga das duas, Rony viu surgir Draco Malfoy, com seu olhar assassino penetrando-o, o rosto sujo de tinta, um perfeito maníaco de histórias de horror. Ele viu as mãos de Draco fechando-se com mais força ao redor do punho da faca.
Aquela visão aterradora fez com que ele perdesse a razão.
Rony puxou os braços com mais força, esquecendo-se do perigo que corria caso fizesse algum movimento brusco. As unhas de Clarissa pressionaram sua pele, soltando fios de sangue. Ele tentou mais uma vez, aflito.
Algo mudou. Ele não conseguiu libertar-se, mas Clarissa não ficou no mesmo lugar. O puxão de Rony fez a garota perder o equilíbrio.
Ela despencou.
Agarrou-se ao corpo dele para não cair.
Clarissa ficou pendurada nas costas de Rony.
Os movimentos súbitos tiveram um preço.
A escadaria começou a pender para trás.
-OH, droga... AJUDE AQUI, MIONE! – berrou Rony, praticamente abraçando os degraus.
Hermione encontrou a varinha no chão e apontou-a na direção da escada. Ela conseguiu mover a escada para o lado, mas não conseguiu evitar a queda.
Assim, de forma menos impactante, mas ainda assim terrível, a escada tombou de lado sobre o piso da sala, levando, consigo, Rony e Clarissa.
Hermione olhou para o resultado daquele incidente com um aperto no coração. A escada estava caída ao lado dos corpos esparramados de Rony e Clarissa; ambos estavam inertes, o que só contribuiu para deixá-la ainda mais nervosa.
-Minha nossa... – ela murmurou, enquanto apontava a varinha para a escada e a erguia novamente.
-Ele está morto? – Draco perguntou ao seu lado, mostrando que pouco se importava com o estado de Clarissa.
-Não sei... Talvez... – assim que a escada firmou-se contra o piso, Mione começou a descer pelos degraus, ansiosa em chegar até Rony e Clarissa e constatar que nenhum dos dois estava morto.
Draco a seguiu, a faca guardada no bolso das vestes; de fato, ele apostava todas as suas fichas na morte de Rony. O corpo do ruivo no chão parecia indicar a ele que não seria mais necessário o uso daquela faca.
Mione chegou ao piso e correu até os corpos. Estava a poucos passos quando Rony, ainda de barriga para baixo, moveu-se levemente.
De costas para Draco, ela permitiu-se um sorriso e, pensando com rapidez, disse, em voz pesarosa, contrária aos seus sentimentos:
-Não! – voltou-se para Draco, aflita. – Ele está morto!
Draco sorriu, radiante.
-Mesmo?? Você... Tem certeza??
-Sim – ela apertou-lhe a mão com força e abraçou-o. – Olhe você mesmo.
Rony, que havia percebido a jogada de Hermione, permaneceu imóvel.
-É... Parece que ele bateu as botas.
-Que coisa horrível!
-Mas acho que ele merece coisa pior por ter invadido o nosso caminho... – Draco ia levar a mão ao bolso e retirar a faca, mas Hermione o interrompeu.
-Não... Nós não temos tempo...
-Por quê?
-Draco... Pense bem. Se alguém aparece por aqui agora, nos acabaremos em uma enrascada. Teremos que dar explicações... Talvez nem acreditem em nós...
-É... A coisa pode se complicar. Precisamos ir pra bem longe daqui.
-Isso mesmo – ainda segurando a mão dele, ela começou a puxá-lo para a saída da sala.
Tinham dado alguns passos no corredor quando Mione mentiu:
-Esqueci a varinha lá dentro!
-Vá buscá-la. Se a encontram, saberão que esteve por aqui.
-Sim... Aguarde aqui. Só um minuto... – e voltou correndo para a sala.
Felizmente, Draco não a seguiu e ela pôde agachar-se ao lado de Rony e falar com ele:
-Tudo bem aí?
-Apesar das dores, parece que não quebrei nada... – respondeu Rony; ele fez menção de erguer-se, mas Mione o conteve.
-Não. Continue assim. Draco pode aparecer... Escute: vou sair com ele para efetuar o ritual de reversão. Enquanto isso, ajude a Clarissa... Ela está viva, não está?
Rapidamente, Rony estendeu uma das mãos e sentiu o pulso da garota.
-Sim. Está apenas desacordada. Vaso ruim não quebra mesmo, então, já era de se esperar...
-Não brinque com isso, Rony! Você precisa levá-la até a ala hospitalar. Ela está com ferimentos no nariz e no queixo e pode ter machucado outro lugar quando a escada caiu.
-Ótimo... E se ela tentar me matar? Essa garota é louca...
-Ela não vai tentar matá-lo! Sabe que ela não tem coragem pra isso. Agir diretamente não é com ela... Pode fazer isso?
-Sim. Vou tentar despertá-la e depois a levo até a ala hospitalar – disse Rony, contrafeito.
-Preciso ir agora. Depois do ritual, não precisaremos mais nos preocupar com o Draco.
-Agradeço por isso. Assim não serei mais triturado como carne de açougue.
Só o humor negro de Rony poderia fazê-la sorrir em um momento tão tenso e ansioso quanto aquele...
-Eu te amo.
-Eu também amo você.
Retirando a varinha do bolso das vestes, ela saiu da sala. Mostrou a Draco.
-Estava no chão, acredita? Tinha derrubado e nem percebi.
-Por enquanto a barra está limpa, ninguém passou por aqui – disse Draco, olhando para o início do corredor. Segurou a mão de Hermione e, juntos, os dois dispararam pelos corredores como dois meliantes abandonando o local do crime.
Ao chegar diante das estufas e não encontrar nenhuma das Encalhadas e nenhum dos rapazes amarrados, Hermione quase caiu em lágrimas. Depois do incidente na sala, ela não esperava outro obstáculo que pudesse atrasar – ou até mesmo atrapalhar – o plano.
Draco observou seu nervosismo com interesse.
-Por que está desse jeito? Ninguém vai saber que estivemos lá...
-Não é nada a ver com isso, Draco... É... Ah, não importa... – ela lançou um olhar desconsolado em direção a um agrupamento de arbustos, mas não havia ninguém escondido por ali. Para onde elas teriam ido? Será que já teriam se encaminhado para a Floresta Proibida?
Quando voltava para perto de Draco, ela ouviu, bem longe, sons um tanto inquietantes...
-Draco... Está ouvindo isso?
Draco franziu a testa, procurando captar o som.
-Não é som de...?
-Pornôs – completou ele, com um sorriso malicioso. – Filmes pornôs! Os trouxas costumam fazer isso. Eles gravam a própria transa e depois jogam nas lojas para comercializar...
-Mesmo?
-Por quê? Está espantada?
-Não. Sei que existem pornôs... Só pensei que os bruxos ainda não faziam isso.
-Bom, filmes ainda não existem, mas têm as revistinhas. Caldeirão Fervente, Bruxota, As caldeirudas...
-Bruxota?
-É, uma das melhores. Eles pegam uns ângulos bem assim... – Draco colocou as mãos entre as pernas e simulou uma máquina fotográfica.
-Tá bem, não precisa imitar... – ela procurou ouvir mais atentamente; os gemidos continuavam, vindos de dentro de alguma das estufas e, aparentemente, envolviam mais de duas pessoas. – É... Acho que não é um filme pornô que está rolando, mas pornô ao vivo!
-Ei, a gente pode assistir?
-Não temos tempo pra isso...
-Que pena – disse Draco, triste. – Queria ver quem está participando dessa suruba...
-Eu também – Hermione admitiu, olhando indecisa para as estufas. – Ah, uma espiadinha não fará mal a ninguém.
-Opa, concordo!
Eles seguiram a direção do som e encontraram a estufa onde o ajuntamento de casais estava acontecendo. A porta estava aberta, mas eles tentaram espiar do lado de fora.
-Está vendo alguma coisa? – Hermione perguntou a Draco.
-Não. Só escutando mais do que nunca!
-Está ouvindo a "poliglota"?
-E como! Essa garota deve conhecer as línguas faladas no mundo inteiro. Ela geme em todos os idiomas!
-Totalmente globalizada.
-E a Garota do Ui? Ridícula também – Draco riu baixinho.
-É, parece até que está chorando... Que pouca vergonha!
-Vamos entrar?
-Draco, alguém pode nos ver...
-Acha que eles estão preocupados com quem pode aparecer? Estão confiantes de que ninguém vai incomodá-los, pode ter certeza disso.
-É...Mas rapidinho!
Eles abriram a porta cuidadosamente e entraram na estufa. Na ponta dos pés, espiaram por entre as fileiras de plantas que estavam bloqueando a visão externa.
O primeiro casal que Hermione viu foi Harry e Alone, que estavam nus sobre um lençol estendido no chão, perto de Augusto e Lanísia – que se divertiam meio de lado – e Joyce, que estava sendo montada por Juca.
-Acho que vou desmaiar... – disse Mione, dramática.
Draco segurou-a antes que ela se estatelasse no chão. Ao erguer-se novamente, Hermione gritou para os casais:
-O que pensam que estão fazendo??
Harry, Alone, Augusto e Lanísia pararam no mesmo instante em que notaram a presença de Hermione. Joyce e Juca, no entanto, continuavam a brincadeira.
-Não vão parar não? – indagou Mione, cobrindo o rosto com as mãos.
-Ai... Só mais um pouco, Mione – respondeu Joyce. – Pode ser a última... vez...
-Não temos tempo a perder, será que vocês não se tocam? – indagou Hermione, revoltada.
-É que você demorou muito pra voltar – explicou Lanísia, vestindo-se. – Aí nós decidimos aproveitar o tempo vago...
-Eu não estava passeando por aí durante todo esse tempo, tampouco me divertindo! Se vocês soubessem tudo o que passei... Enquanto vocês estavam aí, rolando no mesmo lugar como num sonho pervertido de adolescente.
-Você também sonhava com isso, Mione? – perguntou Harry, com as "coisas" balançando na frente dela e fitando-a como se isso não fosse esquisito. – Acordei todo molhado diversas vezes por conta desse sonho...
-VÁ SE VESTIR, HARRY! – ela berrou, cobrindo ainda mais o rosto. – Vou esperar ali perto da porta... – cambaleando, ela foi até a porta e postou-se de cabeça baixa.
Draco parou ali perto, e começou a mexer, distraído, em alguns vasos de plantas.
Serena, que estivera ao lado de Lewis com abafadores de ouvido para não escutar os gemidos das amigas, avistou Draco e correu até a entrada para conversar com Hermione.
-Que pouca-vergonha, Serena!
-É, também achei um tanto ousado...
-Eles estão desamarrados!
-É que elas concluíram que eles não representavam ameaça em um momento como esse, sem falar que nenhuma ia ser louca de falar algo sobre a reversão... Mas, diz aí... Você escutou alguma coisa?
-Eu não queria ouvir, mas... Quem é a poliglota?
-Lanísia! Do nada deu a louca nela e ela começou a gritar expressões sacanas nos mais diversos idiomas...
-É, pelo tom sacana deu pra perceber que era sacanagem pura! E a Garota do Ui?
-Garota do Ui?
-É... A que ficou fazendo "uiiii", "uiiiii".
-Ah! Não era uma garota, era o Harry.
-Mas era tão feminino... Ohhh! Claro que era o Harry... Sabe, eu às vezes esqueço que ele tem esse outro lado...
-ACABAMOS! – gritou Joyce, satisfeita.
-Parabéns. Nem todas tivemos essa sorte – comentou Lanísia, rancorosa, lançando um olhar furioso para Hermione.
Mione balançou os ombros, indiferente, e pediu:
-Vistam-se logo! Precisamos ir para a Floresta!
-Por que demorou tanto? – indagou Serena à amiga.
-A Clarissa tentou atrapalhar. O Draco quase matou o Rony outra vez... – Mione fez uma pausa para suspirar. – Acho que ela sabe que vamos reverter o poder da Fogueira e quer atrapalhar.
-Se ela soubesse como aconteceu a morte da Frieda, provavelmente ia contar aos rapazes que vamos tentar reverter o poder do ritual para que morrêssemos também...
-É, felizmente ela não sabe disso. Agora ela não vai nos atrapalhar. Podemos reverter o ritual tranqüilamente...
-Eu acho que não.
Elas voltaram-se para a porta.
Lorenzo Martin olhava-as com um sorriso astuto.
-Acha que deixarei livrarem-se da única prova que liga vocês à morte da professora? Nem pensar...
Ele ergueu a varinha para Hermione e Serena, ameaçador...
N/A: Espero que tenham gostado! Se tudo seguir conforme os meus planos, o próximo capítulo é o penúltimo da fic. Se puder , deixe o seu comentário! Obrigado e até o próximo!
