CAPÍTULO 37
Garotas vingativas
O fim se aproxima, mas elas continuam as mesmas: safadas...
- Estou sentindo umas pontadinhas na "amiguinha", mané!
...atrevidas...
-Foi o meu faro pra sentir presença masculina que fez com que eu o notasse rapidinho...
...indecisas...
- Agora não dá Colin. Depois eu lhe darei a minha resposta.
...e, até mesmo, vingativas...
-Só depende de você.
...agora inicia-se o penúltimo capítulo dessa história.
Diante da varinha que Lorenzo erguia diante dela e de Serena, Hermione ergueu as duas mãos e deixou-as ao lado da cabeça. Serena olhou-a interrogativamente e questionou:
-O que pensa que está fazendo?
-Colocando as mãos ao alto! – disse Mione, como se contasse algo óbvio.
-Para quê?
-É o que a gente faz quando um bandido aponta um revólver e... – ela parou de falar e relaxou o corpo, aliviada. – Oh, mas que bobagem a minha... – deu uma risada e, percebendo que Lorenzo estava tão confuso quanto Serena, resolveu explicar. – Os trouxas fazem isso quando são intimidados por alguém que esteja armado com um revólver. Eu acabei confundindo as coisas...
-Entendi... – disse Lorenzo. – E por que é preciso fazer esse gesto?
-Pra mostrar que você não vai reagir... Que não vai puxar outro revólver...
-O que é um revólver?
-Um cano comprido de onde saem balas...
-Humm, cano comprido é minha área! – disse Joyce, que se aproximara naquele instante. – Cano comprido com balas dentro... É um novo modelo de vibrador?
-Não, Joyce, é um revólver.
-E o que é um revólver?
Hermione tomou fôlego, tentando controlar a impaciência.
-É isso: um-cano-comprido-de-onde-saem-balas – ela disse, pausadamente.
-E dá pra usar como... – ela fez um gesto, enfiando os dedos da mão direita na esquerda.
-Claro que não! – respondeu Mione, perplexa. – Quer se estourar por dentro?
-Ah, mais do que eu já estou... Acho que o tal revólver não tem essa capacidade...
-Você é pirada, Joyce... Essas balas que saem dos revólveres não são confeitos coloridos que você compra na Dedosdemel! São feitas para ferir e matar. É só perfurar um de seus órgãos e pronto... Já era.
-Por isso que as pessoas erguem as mãos quando se vêem diante de um!! – concluiu Serena.
-Isso mesmo – confirmou Mione.
-Assim como eu quando me vejo diante de um p...
-Joyce! – ralhou Mione, interrompendo-a antes que ela proferisse um palavrão. – O Lorenzo está aqui, não fica bem falar essas coisas.
-Eu sei que ele está aí – disse Joyce, lançando um olhar desagradável ao bruxo. – Foi o meu faro pra sentir presença masculina que fez com que eu o notasse rapidinho...
-Não vai perguntar por que estou com uma varinha na mão e parado aqui, na frente da estufa? – indagou Lorenzo, desdenhoso.
-Isso, por acaso, é importante?
-Pior que é – respondeu Hermione fitando-a com desânimo.
Joyce ficou assustada.
-Ai, ai... O que você quer?
-É simples: levá-las até a sala da diretora e contar que estão envolvidas na morte da professora Frieda Lambert.
Joyce amparou-se no ombro de Hermione para não cair.
-Eu ouvi direito? – indagou, apavorada, à amiga.
-Sim.
-Mas como ele pode saber disso?
-Ele me ouviu conversando com a Serena – Mione baixou a cabeça, não conseguindo encarar os olhos da amiga. – Sinto muito.
-Tem que sentir mesmo! – Joyce repreendeu-as. – As duas! Depois da surubinha na estufa, precisavam conversar sobre a morte da velha?
-Não ofende a Frieda, senão piora as coisas – Hermione murmurou baixinho.
-Pior do que isso não dá pra ficar – disse Joyce, irritada e em voz alta. – Olha, Lorenzo, nós não tivemos culpa, nós não queríamos que ela morresse, mas a mulher era uma cobra, não dá pra ficar adulando. Aí chamo de velha mesmo, afinal, você também a conheceu, e ela não era mais tão nova assim.
-É, lembro bem das rugas – Lorenzo parecia pensativo, como se recordasse. – Parecia um pergaminho amassado... – ele balançou a cabeça. – Mas eu ouvi bem o que as duas disseram. Vocês fizeram uma...
-NÃO FALE! – gritaram as três ao mesmo tempo.
A agitação que havia ao fundo, entre Lanísia, Augusto, Alone, Harry, Draco e Lewis – que até então não tinham percebido a presença de Lorenzo – dissipou-se com os gritos.
Em seguida, elas escutaram a risada sarcástica de Lanísia e um comentário:
-Parem com isso, com essa mania de serem puritanas! Eu falo sim, é uma posição como outra qualquer! Eu e o Augusto praticamos o agachamento centralizado.
Ela vinha se aproximando enquanto falava, e, ao deparar-se com Lorenzo parado na frente da estufa, sentiu a face corar no mesmo instante.
-Lorenzo, você por aqui?? Ouvindo tudo...
-Já ouvi bastante coisa, mas não precisava ter escutado sobre o tal agachamento.
Lanísia, confusa – e com o rosto ardendo de vergonha – olhou para Hermione, que lhe oferecia uma explicação.
-Não foi para você que mandamos o "não fale". O Lorenzo escutou uma conversa entre eu e a Serena e sabe sobre o que fizemos.
-Oh! Ele também sabe sobre a morte da Frieda?
Hermione deu um beliscão no braço da amiga e censurou-a:
-Se não soubesse, estaria sabendo agora, não é mesmo? – num tom mais baixo, ela completou. – Dá para segurar a língua?
-Sim, será fácil. Ela está dormente de tanto... Ai! – e outro beliscão de Hermione fez com que ela se calasse.
-Vocês gostam de falar sobre sexo, hein? – comentou Lorenzo, desdenhoso.
-Na verdade, nós preferimos fazer, e de preferência terminar... – falou Lanísia, desviando o olhar para Hermione. – ...mas tem gente que ainda não fez e gosta de atrapalhar!
-Não foi por isso que interrompi vocês! – Hermione protestou, indignada. – E não fale na frente dos outros sobre a minha vida pessoal.
-Então, o Rony ainda não "compareceu"? – indagou Lorenzo, zombando de Hermione.
Mione lançou-lhe um olhar de fúria. Alone, que aproximara-se, respondeu pela amiga:
-Na verdade, ele "compareceu", mas acabou fazendo o serviço na Hermione errada... – e gargalhou.
-Alone, será que não dá pra sacar que esse não é o momento de piadinhas infames?? – o rosto de Hermione estava rubro de fúria.
Alone deu dois passos para trás, assustada.
-Para sua informação, Lorenzo, nós ainda não tivemos oportunidade, por isso não fizemos amor.
-É, e o que você tem a ver com nossa vida amorosa? – indagou Draco, supondo que estavam falando dele e de Hermione.
Lorenzo olhou-o com espanto e movimentou a varinha ameaçadoramente.
-Esse aí é o psicopata que tentou matar o Rony Weasley no meu bar! Você está com ele agora? – perguntou para Mione. – Como pode ter algo com esse maluco?
-Digamos que existem pontos abertos nessa história que você ainda desconhece... Ou melhor, desconhecia – ela suspirou. – Não tem por que não contar, você já sabe mesmo o que a gente fez... – com um sinal discreto com a mão, ela indicou Draco; Lorenzo, astuto, captou o sinal. – Isso tem a ver com o que você acabou de descobrir... Dá pra entender?
-Acho que sim... – respondeu ele, embora parecesse confuso. – Draco foi...
-Isso. Por meio do que eu e as minhas amigas fizemos.
-Eu fui o quê? – indagou Draco. – Que papo maluco...
-Eu quis dizer ao Lorenzo que você foi, e ainda é, o grande amor da minha vida.
-Ah, sou mesmo! Tudo o que podia me atrapalhar não existe mais.
Hermione resolveu ignorar esse comentário entusiasmado a respeito da "morte" de Rony que ele acreditava ter ocorrido.
-Todos os outros rapazes que estão por aqui também... – ela fez um gesto vago para trás. – Estão aqui por que tomamos certas medidas para trazê-los para nós, Lorenzo.
-Medida que agora você conhece – disse Alone, desanimada.
-Certo... Mas por que todo esse cuidado com as palavras? Não entendo... Por que não falam o nome da...
-NÃO FALE!! – o grito foi ainda mais agudo dessa vez, já que todas as Encalhadas participaram com suas vozes assustadas.
Os garotos estremeceram; Augusto chegou a tropeçar.
-Mas continuo sem entender...
-Acho que precisamos falar sem meias-palavras – disse Hermione. Voltou-se para os rapazes; alguns ainda estavam ofegantes devido ao susto provocado pelos berros. – Meninos, podem aguardar no fundo da estufa por um instante? O Lorenzo vai nos falar algo importante, que vai ajudar-nos na hora da diversão na Floresta.
-Claro – respondeu Augusto por todos eles. – Mas não demorem: estamos doidos para a suruba na mata!!
-É, já estou preparado pra mais uma – disse Juca, piscando um olho para Joyce.
-Serena, pode amarrá-los outra vez? – pediu Mione.
Assim que eles se afastaram, acompanhados por Serena, deixando perto de Lorenzo apenas Mione, Lanísia e Alone, Hermione pôde, finalmente, falar sem rodeios.
-Nós não permitimos que você citasse o nome da Fogueira para que eles não fizessem com você o que fizeram com a Frieda.
-O ritual que vocês efetuaram seria... – ele baixou a voz. – A Fogueira das Paixões?
-Esse mesmo – confirmou Alone.
-Eles estão sendo movidos pelo sentimento, então eu posso supor que foram vocês que pediram para que eles matassem a professora?
-Não! – falou Joyce com indignação. – Jamais pediríamos isso. A Frieda era um saco, mas jamais faríamos uma coisa assim de propósito.
-Ela descobriu que tínhamos efetuado o ritual, e ia nos denunciar à direção por termos realizado um ritual proibido – contou Lanísia. – Acontece que um deles escutou o que ela pretendia fazer e, juntos, armaram uma emboscada para matá-la.
-Tudo para evitar que o ritual fosse cancelado – disse Joyce. – E o mais assustador é que eles fizeram tudo sem a consciência dos próprios atos.
Lorenzo parecia intrigado.
-Estão querendo me dizer que o poder da Fogueira, presente em cada um deles, assumiu o controle dos corpos?
-Isso – respondeu Hermione. – Como pode ver, existem pedaços de corda espalhados pelo chão. Nós os trouxemos amarrados, e pretendíamos levá-los até o local da reversão dessa maneira. Tudo para evitar que algo como o que aconteceu com a Frieda se repetisse.
-Se eles escutam que você quer nos denunciar... Ah, é melhor correr e começar a chorar, mané – falou Alone.
-Vocês nunca deviam ter feito um ritual como este.
-Sabemos disso, mas agora já é tarde pra se lamentar – disse Lanísia. – E, de qualquer modo, já íamos pôr um fim nisso... Até que você apareceu.
-Por mais que não tenham dado a ordem para que Frieda fosse assassinada, a culpa pelo que ocorreu foi de vocês! Ninguém prenderá os rapazes, porque eles não sabiam o que estavam fazendo. Vocês erraram, e terão que pagar por isso.
-Erramos? Sim. Mas qual foi o motivo dos nossos erros? – questionou Hermione. – Nossos erros não foram cometidos por desejo ou aventura...
-Foi por desespero – disse Joyce, solenemente.
-JOYCE!! – esbravejaram as outras Encalhadas.
-Ué! O nome do grupo é As Encalhadas, então o Lorenzo pode imaginar como estávamos desesperadas...
-Não, não – interrompeu Mione. Voltou a olhar para Lorenzo. – Os nossos erros foram cometidos por amor... E por desespero, só no caso da Joyce...
-É, eu estava procurando um superdotado...
-Não precisa ficar explicando – cortou Alone.
-Foram motivos simples – Mione continuou. – Não esperávamos prejudicar ninguém.
Lorenzo respirou fundo. Serena, que havia acabado de amarrar os rapazes, juntou-se a eles naquele instante.
-Lamento, mas eu estou aqui na escola para descobrir quem matou Frieda Lambert, e por quê, e acabei de encontrar as respostas que procurava. Preciso entregar um culpado pelo crime e é isso que farei.
Hermione teve uma idéia repentina. Ousada, mas não custava tentar...
-E se você entregar outra pessoa?
-O quê? Espere aí... Está tentando me convencer a culpar um inocente?
-Não... Essa pessoa não tem nada de inocente. Está, inclusive, metida nessa história e em grande parte das complicações que eu e as garotas tivemos...
-Posso saber quem seria?
-Clarissa... Clarissa Stuart. Uma garota que fazia parte do nosso grupo e traiu a todas nós.
-"Traiu"... Como assim??
Hermione contou a ele sobre o amor que Clarissa sentia por Rony, o estranho desejo que a garota possuía de eliminar o rapaz que amava e todas as armações cometidas por ela, começando pela troca de papéis na noite em que a Fogueira foi realizada e passando pelo golpe em que a jovem transformara-se em Hermione para dormir com ele. A conclusão, é claro, foi o que havia acabado de acontecer na sala de aula. Esse trecho foi acompanhado com interesse até mesmo pelas Encalhadas, que desconheciam o acontecimento.
-Que sorte, Mione! – exclamou Lanísia, horrorizada. – Se você não tivesse encontrado a Clarissa, o Draco ia fatiar o Rony em pedacinhos!
-Cuidado, fale mais baixo – ela pediu, mas tanto Draco quanto os outros garotos estavam distantes, nos fundos da estufa. – Draco acha que Rony está morto.
-Isso me faz recordar o incidente na cabine Ou Vai ou Racha...
-Exato Lorenzo! São incidentes semelhantes porque tinham a mesma finalidade e foram tramados pela mesma pessoa! Contei todas essas coisas para que você consiga entender: embora Draco tome as ações, ele é movido pelo ciúme, que é uma conseqüência da troca de papéis armada pela Clarissa, e pelos conselhos que ela ainda sussurra para ele! Draco é apenas uma vítima nisso tudo. A verdadeira cascavel da história é a Clarissa!
-Ela morre de medo de ir para a cadeia, Lorenzo – falou Alone. – Temos certeza de que ela jamais teria coragem de matar com as próprias mãos por causa dos riscos que estaria correndo caso fizesse alguma coisa. Mas manipulando o Draco ela não corre risco nenhum... E mesmo que o poder da Fogueira seja quebrado, ela encontrará outras formas de tentar matar o Rony e manter-se sã e salva, livre de suspeitas.
-Pois é... – Mione fitou-o pesarosa. – Ela não vai descansar enquanto não matá-lo... E eu nunca poderei provar nada contra ela – Hermione deu dois passos para frente, aproximando-se de Lorenzo. – Houve um crime na escola e você precisa entregar um culpado. Sabe como tudo ocorreu realmente, e que esses rapazes não tiveram culpa de nada, assim como nós. Ninguém tinha a intenção de matar Frieda. Mas estamos lhe dizendo: há uma assassina em Hogwarts, uma garota perigosa, que quer fazer mal ao Rony e talvez ainda atinja outras pessoas. É uma oportunidade única de manter a Clarissa onde ela merece estar: em Azkaban. Por favor, Lorenzo...
-Eh... – ele hesitou. – Precisaríamos de provas...
-Nós podemos criá-las – falou Joyce.
-Mesmo assim... Como posso saber se estão, de fato, falando a verdade?? Eu conheço a Clarissa. Ela sofreu uma queda diante do meu bar, acabou quebrando a perna... E me pareceu uma garota muito bondosa.
-Mas quem disse que ela é ruim? – indagou Lanísia. – Ela conseguiu nos enganar por meses. Ficou entre nós sem que percebêssemos o que ela queria. Clarissa é simpática, bondosa, meiga... Mas é louca!
-Você não faz idéia de como funciona a mente dela – falou Serena. – Pra ela é tudo normal... Para tudo o que ela fez tem uma explicação...
-Por isso é tão perigosa – disse Mione. – Não tem limites. E não existe forma de culpá-la... Ou melhor, existe uma agora. Só depende de você.
Elas viam a confusão estampada no rosto de Lorenzo.
-Preciso pensar... Enquanto isso, ordeno que fiquem por aqui. Vou fechar a entrada da estufa... Podem me passar as varinhas??
Ele apanhou as varinhas de todas elas. Em seguida, ainda com o olhar de quem refletia a respeito de um problema complexo, deixou a estufa, lacrando-a e encerrando as Encalhadas e os rapazes lá dentro.
As Encalhadas formaram um círculo, compartilhando o mesmo ar de preocupação.
-Apostam quanto que ele volta ao lado da Minerva e de todos os professores? – indagou Joyce, pessimista.
-E nós chegamos a pensar que hoje à noite tudo seria tão simples... – recordou Serena, afastando uma mecha de cabelo da testa e surpreendendo-se com a frieza de sua mão.
-Relaxem! – pediu Alone. – Ele saiu indeciso! Talvez acabe concordando com a nossa idéia!
-É o que eu espero, Alone... – falou Hermione. – Ia nos salvar e condenar a Clarissa, que está merecendo e muito!
-Se desse tempo de revertermos a Fogueira... – Joyce parou de falar ao ouvir passos que se aproximavam. Dois segundos depois, Draco surgia por entre um par de vasos. – Algum problema?
-Não. Só vim saber se vai demorar muito ainda pra... Vocês sabem...
-Segure a onda, loirinho – respondeu Joyce. – Logo, logo você vai pro mato com a Mione.
-Está bem. Vou avisar aos outros – e desapareceu.
Joyce olhou preocupada para as amigas.
-Acham que ele ouviu alguma coisa?
-Acho que não – palpitou Mione. – Estamos falando em voz baixa.
-Você acha que a Clarissa se machucou muito na queda? – Lanísia perguntou a ela.
-Não sei... Penso que...
Elas continuaram a conversa.
Nos fundos da estufa, acontecia uma mudança entre os rapazes. Silenciosamente, ocorria uma comunicação entre eles.
A Fogueira tomava o comando dos corpos.
Ao mesmo tempo, eles começaram a esfregar os pedaços de corda que traziam amarrados aos pulsos contra troncos que estavam fincados em montículos de terra...
Mancando, Clarissa caminhava pelo corredor. Vez ou outra se apoiava na parede em busca de apoio. Seu estado era lamentável; havia sangue seco abaixo do nariz e no queixo. A queda na escada ainda piorara a situação. Pontadas dolorosas subiam por suas costas a cada movimento brusco que fazia, e era difícil até mesmo falar. Por isso, quando Rony insistiu mais uma vez que ela precisava de ajuda, Clarissa respondeu com extrema irritação:
-Não quero que encoste esses dedos sujos em meu corpo... Posso muito bem ir até a ala hospitalar sozinha! Vá! Deixe-me em paz...
Rony não respondeu, nem insistiu, mas continuou seguindo-a.
-Quer o quê? Fingir que está preocupado comigo? Você quer mais é que eu morra agora mesmo! Eu quis matá-lo, e você está desejando que eu seja castigada da mesma forma.
-Está enganada, Clarissa. É assim que você pensa, mas isso não vale pra todo mundo. Estou preocupado...
-Está? Pois não devia! Cai fora, Rony! Some daqui!!
Percebendo que a garota estava à beira de um ataque histérico, Rony apressou o passo e deixou-a para trás.
Sozinha, ela avançou até a ala hospitalar, assustando alguns alunos durante o percurso com sua aparência desagradável. Aquilo a incomodou; sua beleza era algo que ela valorizava muito. Secretamente, xingou todos que a viram daquela maneira. Clarissa Stuart era sinônimo de status e beleza. Aquilo não combinava com ela...
Quando um dos alunos a chamou de Tarah, ela recordou-se de que sua reputação estava indo para o fundo do poço antes disso.
Tentou não lembrar que, a essa altura, a Fogueira das Paixões já perdera o seu poder, eliminando, junto com ela, o próprio poder que Clarissa possuía sobre Draco Malfoy. Teria que perder noites e noites em claro até encontrar uma outra forma segura e eficaz de matar Rony Weasley.
Ela chegou a ala hospitalar, que tinha as portas abertas. Madame Pomfrey, que lia uma revista de fofocas em sua mesa, deu um salto ao deparar-se com a garota ensangüentada.
Clarissa tapou os ouvidos aos sermões da enfermeira enquanto os curativos eram aplicados. Depois de desinfetar os cortes, limpar o rosto da jovem e dar-lhe um vidro de poção que ajudaria na cicatrização, Madame Pomfrey passou a cuidar das dores que Clarissa sentia nas costas.
Quando a enfermeira afastou-se para apanhar uma de suas poções para dor, uma pessoa entrou na ala hospitalar. Apesar da situação, Clarissa não conseguiu conter uma risada.
-Não, Lorenzo, obrigada, detesto beber Demência, não pedi nenhum copo dessa coisa nojenta que você chama de bebida – ela zombou, tratando-o como se estivesse no bar.
Encontrá-la ali confirmava o que Hermione havia lhe contado, mas a surpresa maior ficou por conta da maneira com que Clarissa falou com ele. Talvez fosse apenas uma brincadeira...
-Preciso falar com você, Clarissa – disse ele, aproximando-se da cama onde a garota estava deitada.
-Não tenho nada para falar com você – respondeu ela, rabugenta.
-Sei que talvez não seja um bom momento, mas é importante.
-Importante? Um assunto entre nós dois? Ah, francamente, Lorenzo! Que tipo de assunto teríamos em comum? – de repente, ela começou a gargalhar; um riso histérico, que rapidamente deixou-a com lágrimas nos olhos. Lorenzo apenas olhava-a, estudando silenciosamente o seu comportamento. – Já sei! Você descobriu que eu me joguei do barranco, não é isso?
Ele recordou-se da noite em que encontrara Clarissa caída diante do Lorenzo´s. Acreditara que a jovem havia sido empurrada pela pessoa que escrevera para a escola denunciando a Festa Proibida. Afinal...
-Por que você fez isso? Como pôde jogar-se do barranco? Quebrou a perna, e poderia ter sido ainda mais grave...
-Vingança – ela respondeu, novamente séria. – Já ouviu falar nisso? É quando a gente dá o troco em quem nos prejudicou. E você fez isso, caro Lorenzo. Ah, fez sim... Está lembrado? Ou será que preciso deixar tudo bem claro? Não tem nenhuma garrafinha de Demência aí no bolso para deixá-lo mais esperto?
-Não tenho nenhuma bebida. E não consigo entender mesmo...
-Parece meio abobalhado. O que há? Essa Clarissa que está vendo na sua frente surpreende você? Quer saber: nem ligo. Pouco me importa o que pensa de mim. Já estou na fossa mesmo. Todos que precisava enganar já sabem a verdade. Você está em segundo plano, mas, é claro, não me esqueci de você. Ainda vou fazê-lo pagar por ser tão intrometido.
Em um movimento rápido, ela pegou uma tesoura que estava sobre a mesa de cabeceira. Lorenzo assustou-se, mas logo notou que ela não pretendia atacá-lo. Clarissa apenas queria simular movimentos de ataque; ela fechou a mão em torno da tesoura e fez os movimentos, enquanto olhava para ele com a satisfação de quem contava uma bela história...
-Isso não lembra nada? Ãh? Não vou dizer nada, porque sou muito esperta para me prejudicar... Mas eu sei que isso significa algo para você.
Ela estava certa. Ele entendia que ela se referia ao incidente na cabine Ou Vai ou Racha, quando Rony quase fora assassinado por Draco. História que Hermione relembrara momentos antes...
E que, nas duas versões, envolviam Clarissa.
-Você acabou me atrapalhando ao ajudar... Nossa, como estou sendo indiscreta – ela riu. – Mas só queria que você entendesse os meus motivos. Ainda não acabou, Lorenzo... – ela recolocou a tesoura na mesa.
-Uma hora as coisas podem começar a dar errado...
-É mesmo? Sabe, até que elas não dão certo algumas vezes... Mas, de tanto a gente insistir, acaba acontecendo!
-Você pode se prejudicar.
-Não. Não existe nada contra mim. E jamais existirá. Eu faço o que acho certo, e não sou culpada de nada... – ela fez uma expressão angelical e mandou um beijo para ele antes de cair num novo acesso de risos.
Madame Pomfrey retornou naquele instante. Lorenzo cumprimentou-a antes de sair da ala hospitalar em passos rápidos. A loucura de Clarissa deixou-o de estômago embrulhado.
Precisava de ar.
E precisava ajudar quem realmente merecia.
Ao abrir a porta das estufas, quase sem fôlego, ele anunciou para as Encalhadas.
-Podem sair. Depois, vou ajudá-las na vingança contra Clarissa. Seremos imorais para colocarmos uma imoral nos calabouços de Azkaban.
As Encalhadas sorriram exultantes!
-O que fez com que tomasse essa decisão? – indagou Hermione, maravilhada.
-Encontrei a Clarissa na ala hospitalar e ela acabou confirmando algumas coisas que vocês me contaram... A garota está maluca, realmente...
-Totalmente pirada – concordou Joyce. – Parece que piorou depois que deixou As Encalhadas.
-Isso prova que não somos tão doidas assim – falou Alone. – Mantivemos um pouco da sanidade da Clarissa. Só foi deixar de conviver com a gente pra ela perder o único parafuso que restava naquela cabeça oca.
-Acho que agora vocês têm um ritual para reverter, não é mesmo? – recordou Lorenzo.
-É. Precisamos correr com isso – Hermione voltou-se para os fundos da estufa e chamou os rapazes. – Venham até aqui! Chegou a hora de irmos para a Floresta!!
Não houve resposta, o que a deixou intrigada.
-Tem alguma coisa errada... Eles estavam tão ansiosos.
-Não imagino o que possa ter acontecido... – disse Lanísia.
-Isso é muito esquisito... – comentou Mione, chamando-as com a mão. – Venham comigo. Lorenzo, guarde a porta, por favor.
Juntas, elas caminharam entre as fileiras de vasos e plantas. Conseguiram divisar os rapazes no fundo, aparentemente normais. Todas suspiraram ao mesmo tempo.
-Por que não nos responderam? – perguntou Mione ao aproximar-se de Draco. – Estamos com pressa e... – ela olhou para os pulsos do rapaz.
Hermione ficou sem fôlego.
Os pulsos estavam livres.
Em seu pânico, ela olhou para os lados. Os demais estavam amarrados, mas as cordas estavam danificadas, como se eles estivessem tentando libertar-se...
E ela só via um motivo para que eles tentassem fazer isso.
Ao voltar a atenção para o rosto de Draco, ela viu que estava certa. Por trás dos olhos cinzentos do garoto, ela via uma outra força agindo. A força maligna que havia eliminado Frieda.
Parecia que o mundo havia ficado sem som e todas as imagens tinham sido congeladas.
Só havia aquele olhar.
E a apreensão do momento seguinte.
Num piscar de olhos, o corpo de Draco foi posto em movimento. Ela encolheu-se, esperando um ataque, mas ele dirigiu-se a uma mesa. Ali havia inúmeros vasos, alguns com tocos afiados. Ela viu os pedaços da corda que ele havia cortado.
Ele tinha usado a ponta de um toco para libertar-se.
Uma ponta afiada que agora teria outro propósito. Com um movimento brusco, o toco foi arrancado da terra. Draco agarrou-o com firmeza, deixando a ponta direcionada para frente.
Mione gritou:
-MENINAS, ELES ESTÃO DOMINADOS PELA FOGUEIRA!!
Alone, Lanísia, Serena e Joyce analisaram com atenção os rostos de Harry, Augusto, Lewis e Juca e tiveram a mesma sensação de Hermione, a sensação que confirmava o que a amiga tinha dito. Eram os olhos deles, mas o que estava por trás, no fundo daqueles olhares, não pertencia a nenhum deles.
-Maldita Fogueira! – esbravejou Joyce, antes de empurrar Juca contra a parede do fundo.
As outras fizeram o mesmo, certificando-se se eles ainda estavam amarrados.
-Ainda estão presos! – exclamou Serena, agarrando a corda que prendia os pulsos de Lewis para não deixá-lo escapar.
-Não! Draco está livre! – respondeu Mione, que recuava com passos para trás enquanto observava ele chegar cada vez mais perto com a estaca na mão. – Alguém ajude! ELE VAI ME MATAR!
Ela recuava pela fileira de vasos e plantas. Acabou tropeçando e caindo no chão empoeirado. Procurou pela varinha, recordando-se, com um aperto no estômago, que Lorenzo não havia devolvido.
Draco, com o rosto insano – reflexo do medonho poder da Fogueira – estava pronto para matá-la. Ela podia jurar que os olhos não eram mais cinzentos; eram vermelhos agora, e uma labareda rubra dançava dentro deles...
Ela ouviu um grito de fúria quando Lorenzo surgiu da fileira ao lado e, com um salto, caiu sobre o corpo de Draco, derrubando-o no chão.
Mione levantou-se, enquanto Draco debatia-se e tentava acertar Lorenzo com a estaca.
-Largue isso! Não é brinquedo de criança! – vociferou Lorenzo, desarmando-o com um movimento da varinha.
A estaca foi parar em um canto distante.
-Hermione, amarre as mãos dele! – pediu Lorenzo, utilizando toda a sua força para manter as mãos de Draco unidas nas costas.
Mione conjurou uma corda e, agachando-se, amarrou-a às mãos de Draco, mantendo-as seguras e imóveis. Após o último nó, Lorenzo ergueu-se, deixando Draco largado no chão, para em seguida desabar ao lado dele, exausto.
-Achei que ele ia acabar me derrubando – comentou, ofegante. – Ele está muito forte...
-Na certa foi a Fogueira que emprestou essa força extra – disse Mione; seu coração estava tão disparado que ela era capaz de sentir as batidas ressoando nos ouvidos. – Obrigada, Lorenzo.
Cansado demais para responder, ele fez um sinal de jóia com o polegar. Mione correu até os fundos da estufa.
-Tudo bem por aqui?
Os rapazes debatiam-se, mas As Encalhadas os seguravam com firmeza através das cordas.
-Vamos ter que ir puxando, mas uma hora chegaremos na Floresta – respondeu Joyce.
-Não será tão diferente de puxar um cachorro pela coleira – falou Alone, rindo.
-É, mas não se esqueça que, nesse caso, é como puxar um cachorro com raiva – disse Lanísia. – Esses aqui estão querendo machucar as donas... Que feio! – ela puxou a corda que amarrava Augusto com força, fazendo com que o rosto do professor se contorcesse de dor.
-O mais rebelde também já está amarradinho – disse Mione, referindo-se a Draco. – Todas prontas?
Elas confirmaram com a cabeça.
-Vamos eliminar essa Fogueira vagabunda.
Elas seguiram até a Floresta. Lorenzo ia atrás do grupo, de varinha em punho, pronto para ajudá-las caso um dos rapazes causasse maiores problemas ou conseguisse escapulir.
Progrediram de forma mais lenta, mas conseguiram alcançar a Floresta Proibida, embrenhando-se um pouco no seu interior antes de encontrarem um local adequado para efetuarem o ritual de reversão.
Na clareira escolhida, elas formaram um círculo.
-Lorenzo, os objetos que vamos usar estão nas nossas bolsas – explicou Mione. – Poderia retirá-los pra nós?
Ele colaborou, tirando as bolsas das costas das garotas, juntando-as e, no meio do círculo, abrindo-as. Muito interessado pelos objetos que elas haviam reunido, Lorenzo fazia comentários a respeito...
-Que cueca mais bizarra... Qual deles usava isso?
-O revoltadinho da cicatriz que estou segurando – respondeu Alone, desgostosa. – Nem pra comprar uma cueca decente...
-Acho que destruir isso aqui fará muito bem a você também... – ele deixou a cueca de lado e pegou o livro sujo de Juca Slooper. – Que livro mais estranho... – ele retirou o livro do saco plástico, tentou abri-lo e reparou nas manchas das páginas. – Argh! Já estraguei algumas edições de Bruxota com isso, mas um livro sobre unicórnios? Quem foi o pervertido?
-O Juquinha – respondeu Joyce. – Mas não o culpe. Tem uma gostosa que fica montada nos bichos, aí ela pirou as duas cabeças do pobrezinho.
-Se eu não estivesse com nojo de pegar nesse livro, daria uma olhada pra confirmar se é excitante mesmo.
-Ah, pra um CDF virgem que nem ele, até a McGonagall é excitante – zombou Alone, maldosamente.
-Você "deu" ontem e já está se achando a "experiente"! – falou Joyce, irritada. – Saiba que isso não tem nada a ver. Sabe que eu já tive inúmeros parceiros e nem por isso fiquei mais fria ou controlada.
-Estou falando de garotos esquisitos e solitários como esse seu namorado aí. Não podem nem ver um par de peitos que já se molham inteirinhos...
-Pois saiba que ele segurou muito bem a onda quando estávamos na cama! Aposto que durou mais tempo do que esse seu cicatrizado que gosta de bananas e pererecas!
-Que mentira! O Harry só gosta de uma coisa!
-Pererecas? – supôs Lorenzo.
Alone fechou os olhos e reconheceu:
-Não, bananas.
Joyce gargalhou.
-Ela nem tem argumentos...
-Escute aqui, Joyce Meadowes! Se eu não estivesse segurando essa corda, eu enfiava a mão na sua cara!
-Aposto que foi o Harry que ficou todo molhado quando você tirou a roupa dele – Joyce continuou a provocá-la.
-Do que está falando? Ele fez tudo, e muito bem feito!
-Claro, não estou dizendo que ele não fez. Ele ficou molhado, mas não foi do que você está pensando. Quando viu você nua na frente dele, ele deve ter mijado nas calças!
As outras Encalhadas tiveram que segurar o riso para que Alone não se descontrolasse. Joyce, no entanto, ria em alto e bom som.
-Ele urinou de tanto medo! Afinal, não sabia o que fazer com uma mulher!
-Oh, Joyce, eu vou te arrancar os cabelos!! – Alone fez menção de avançar para a amiga, mas Mione gritou:
-PAREM COM ISSO! – somente ao ver que as duas tinham se acalmado ela prosseguiu. – Ótimo. Lorenzo já retirou todos os objetos.
-É, mas nem por isso deixei de ouvir o barraco – disse ele, sarcástico. – Gostei muito. É só passar uns cinco minutos com vocês que revelações e mais revelações começam a surgir pelo ar...
Alone e Joyce baixaram a cabeça, ruborizadas.
Lorenzo levantou-se do chão e, depois de limpar a terra que cobria os jeans, perguntou:
-Qual é o próximo passo?
-Agora é só queimar os objetos – respondeu Mione. – Cada objeto ao lado do seu dono. Depois, é hora do fogo.
Lorenzo, então, começou a separar os objetos, deixando-os no chão, a alguns metros ao lado de cada um dos rapazes. Alguns tiveram reações hostis; Draco Malfoy chegou a cuspir, tentando atingi-lo enquanto ele depositava a vassoura no chão; Augusto chutou o solo a esmo, fazendo nuvens de poeira, num esforço inútil para atingi-lo. O mais chocante ocorreu quando ele colocou o objeto que faltava – o retrato – ao lado de Lewis. Uma voz que era apenas parecida com a verdadeira voz do garoto elevou-se no ar, enregelando os ossos de todos eles.
-Isso não vai funcionar... – Lorenzo ergueu-se lentamente, e ao olhar para o rosto de Lewis viu, claramente, o fulgor alaranjado nos olhos dele – fulgor que Mione julgara notar nos olhos de Malfoy momentos antes.
A cor não parecia fixada nos olhos; era como se ela mudasse de tom constantemente, tornando-se ora mais escura, ora mais clara. Uma dança de tons que lembrava movimentos de labaredas.
Quando Lewis tornou a falar, a voz continuava com o tom enrouquecido...
-A Fogueira das Paixões não pode ser destruída. Ela habita em nós e nada pode retirá-la. Ela está entranhada em nós e enlaçada ao redor daquelas que a criaram. Para sempre. Só a morte pode quebrar esse enlace. Você... – o dedo de Lewis ergueu-se no ar e apontou para Lorenzo. – Você não tem o direito de intrometer-se nisso. Nem aquelas que despertaram o poder da Fogueira!
Ele fez um movimento brusco que quase derrubou Serena. A jovem vacilou um pouco e se Lewis tivesse insistido em fugir, teria conseguido. Mas uma visão o fez desistir da fuga.
Lorenzo apontava a varinha na direção dele, com um olhar nem um pouco piedoso.
-Observe sua "coisa" – disse ele, sem saber como definir a força que controlava o corpo do garoto. – Seja destruída com o próprio veneno... – ele desceu a varinha e apontou-a para o retrato. – ...O FOGO! – e, brandindo o encantamento, o feitiço incendiou o retrato.
A reação foi imediata.
A expressão, os gestos, o olhar, tudo o que era alheio a Lewis extinguiu-se, deixando ali apenas um rapaz assustado, que observava o fogo espalhando-se pelo retrato como se estivesse hipnotizado.
Lorenzo entendia que aquilo devia ser feito em seqüência, de modo que, rapidamente, apontou a varinha para cada um dos objetos.
O resultado era o mesmo; os garotos debatiam-se, tentavam arrancar as cordas, mas a simples visão do fogo a queimar aqueles objetos trazia à lembrança deles momentos importantes ocorridos quando eram pessoas comuns... Coisas importantes – que lembravam a eles que existiam outras paixões além daquela criada pelo ritual.
Hermione, Alone, Serena, Lanísia e Joyce foram afrouxando o aperto nas cordas, pouco a pouco, temendo que, de repente, eles se rebelassem.
Mas não era preciso temer. Draco, Harry, Lewis, Augusto e Juca só tinham olhos para os objetos que ardiam sob as labaredas. Elas os desamarraram, aproveitando esse momento em que eles estavam presos à destruição dos objetos.
Aquelas coisas tinham tanta importância... E estavam sendo destruídas... Dentro de poucos minutos, restariam apenas as cinzas...
Antes que isso acontecesse, as garotas precisavam executar a última etapa do ritual.
As Encalhadas postaram-se atrás dos objetos incendiados correspondentes ao garoto que haviam enfeitiçado. Elas tentavam manter o controle, mas era uma tarefa difícil; a sensação de que tudo o que vinham buscando nos últimos tempos estava prestes a acontecer deixava-as tensas, ansiosas e aflitas.
Então, cheias de expectativa, elas tiraram as varinhas dos bolsos. Tanto quanto os garotos estavam hipnotizados pelo fogo, as Encalhadas estavam absortas em cada um deles, em seus rostos abobalhados que pareciam querer compreender o que estava acontecendo...
Ficaram assim, fitando-os, até que as labaredas começaram a perder a potência e os restos dos objetos tornaram-se visíveis.
Mione olhou para Joyce, que pediu paciência.
-Estava escrito no livro que o fogo precisa se extinguir.
-Mas podemos acelerar o processo... Lançando água, por exemplo – sugeriu Alone. – O fogo se apagará e os objetos já estão destruídos pra burro...
-Será que não vai atrapalhar o resultado? – indagou Serena, preocupada.
-Não. Se tivesse algum problema nisso, na certa estaria escrito no livro – disse Joyce. – Vamos arriscar?
-Não foi arriscando que entramos nessa? Então, acho que não há problema em arriscar mais uma vez – disse Hermione.
Elas lançaram jatos de água sobre os objetos. As cinzas estavam amontoadas no solo. Tomando fôlego, com os corações disparados, elas apontaram as varinhas para os rapazes, que fitavam os restos dos objetos com a mesma feição de atordoamento.
Ao mesmo tempo, a palavra foi dita:
-Desperte.
Um floreio e elas desviaram as varinhas para as cinzas. Os restos incendiados elevaram-se no ar, num redemoinho que primeiro subiu para, em seguida, descer diretamente sobre cada um dos rapazes, envolvendo os corpos de cima a baixo.
Elas observaram boquiabertas ao lado de Lorenzo. Trocaram olhares entre si, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, certas de que o ritual havia funcionado.
Quando as cinzas voltaram ao chão, elas estavam abraçadas, comemorando, emocionadas, o fim daquela fase turbulenta causada pela Fogueira das Paixões.
Lorenzo chamou-as:
-Eu detesto interromper esse momento emocionante, mas... Acho que eles precisam de orientação.
Elas olharam para os rapazes. Eles continuavam perdidos, sem compreender como foram parar ali e o que estavam fazendo...
Draco Malfoy, que esfregava a testa pálida como se estivesse com dor de cabeça, perguntou para si mesmo, em voz alta:
-O que estou fazendo aqui?
Então era assim: eles não se lembravam de nada.
As meninas não esperavam por aquela amnésia. Antes de desfazerem o círculo, Joyce passou a dica às amigas em voz baixa:
-Amnésia coletiva! Nós também não lembramos nada!
-Eu também gostaria de saber o que estou fazendo aqui – disse Augusto. Apontou para Lanísia. – Você tem alguma coisa a ver com isso?? Deu alguma coisa para eu tomar e me trouxe até aqui?
-Relaxa aí! – pediu Lanísia, sorrindo. – Estou certa de que não fiz nada disso. Aliás, não farei mais nada que force você a fazer o que não quer.
As Encalhadas observaram a maneira curiosa como Augusto ficou de queixo caído. Parecia que aquela resposta o espantara mais do que o fato de encontrar-se na Floresta Proibida sem ter a menor idéia do que estava fazendo ali.
-Ficou mais maluca do que antes? – perguntou ele, indicando as pessoas ao redor.
-Não vi nada de mal no que falei professor! Não existe nada entre nós além da relação normal entre professor e aluna, não é mesmo?
-S-sim – gaguejou Augusto, confuso.
-Então eu fui dopado, não é possível... – disse Draco. – Isso não faz sentido algum. Nem conheço essa criatura aqui – apontou para Juca, que limpava as lentes dos óculos na blusa.
-Oh... Sou Juca Slooper. Eu acabei de entrar na escola...
-Sua vida não me interessa. O nome já basta – falou Draco, ríspido.
-Será que houve uma tragédia em Hogwarts? – questionou Lewis, com seu habitual pessimismo. Adiantou-se até Serena. – Estou tão confuso quanto eles... Você me trouxe até aqui, ou...?
-Está se achando muito, hein, Lewis?? Não, eu não trouxe você pra cá... Na verdade – ela olhou para as amigas. – Estamos tão confusas quanto vocês... Não nos lembramos de ter vindo pra Floresta!
-Quem é esse cara? – perguntou Harry, referindo-se a Lorenzo.
-Sou Lorenzo Martin, dono do Lorenzo´s, que fica em Hogsmeade... – Lorenzo fingiu espanto. – Não me reconhecem?
Joyce fez uma volta ao redor do corpo do bruxo.
-Não... Nunca vi você antes. E olha que não costumo esquecer os homens que vejo!
-Mas inaugurei o bar há uns dias! Vocês foram até lá também, creio, porque a inauguração rolou no aniversário da diretora!
Os rapazes entreolharam-se em sincera confusão.
As Encalhadas fizeram o mesmo na maior cara-de-pau.
-Nunca compareci a um aniversário da diretora – disse Alone.
-Nem eu – comentou Harry. – Ai, isso aqui está muito esquisito! Parece até que todos nós perdemos a memória...
-Menos o descolado aí, com esse penteado grotesco – falou Draco, fazendo uma careta diante dos cabelos de Lorenzo.
-O que faz em Hogwarts? – indagou Hermione. – Não deveria estar em Hogsmeade cuidando do seu bar?
-Estou investigando a morte da professora Frieda...
-OH, ela morreu? – indagou Draco, espantado.
-MAMÃE! – berrou Lewis, caindo sobre o gramado.
-YUPI! – comemorou Harry, de modo afetado. – Agora serei aprovado!
-Isso é um pesadelo! – gemeu Lewis.
-Ah, se for, eu não quero mais acordar – disse Harry, insensível.
-Isso é verdade? – perguntou Augusto a Lorenzo.
-Sim... – Lorenzo olhou inquieto para Lewis, que era abraçado por Serena. Devia ter preparado o terreno antes de soltar a bomba... as Encalhadas partilhavam da mesma opinião, já que o fuzilavam com olhares de reprovação. – Foi um assassinato, então estou por aqui para investigar.
-Mas você não é só um dono de bar? – perguntou Draco.
-Não. Tenho faro para realizar investigações. Também conheço técnicas de enfermaria...
-Você faz de tudo então? – Draco riu. – Não é possível... Isso aqui só pode ser um pesadelo... Eu, ao lado de um bando de malucos, em plena Floresta Proibida, onde o único que está são e que se lembra das coisas é um super-herói de cabelo esquisito.
-Espere um pouco... – Juca adiantou-se. – Se ele se recorda das coisas, deve saber o que fazíamos antes de... despertarmos!
-É, acho bom encontrar uma boa explicação! – disse Mione; discretamente, cruzou os dedos na torcida para que Lorenzo de fato pensasse em algo interessante.
Ele hesitou por alguns segundos.
-Vocês... Vocês estavam transando!
-O quê?? – indagaram as meninas, espantadas.
-JURA?? – perguntaram os rapazes, orgulhosos.
Lorenzo confirmou com a cabeça.
-Poderia ter pensado em outra coisa! – ralhou Hermione, cochichando perto dele.
-Estávamos transando de roupa?? – indagou Draco.
-Não... Vocês não estavam vestidos quando cheguei... – disse Lorenzo. – Estavam... praticando. E aí, do nada, pararam, vestiram-se e pareceram despertar completamente... É como se vocês estivessem enfeitiçados e o encanto tivesse terminado. Mas, é sério, vocês estavam transando sim!
-Ô moço... – Juca aproximou-se, timidamente. – Tem certeza?? É que... Não pode ser verdade. Eu não sei transar...
Draco debochou.
-Ah, vá vestir as fraldas, nenezinho...
-Falou a "voz da experiência" – comentou Joyce, irritada com o tratamento dispensado a Juca. – Você pega todas, não é, Draco?
-Digamos que eu sou a sua versão masculina. Pelo menos metade das jovens dessa escola já conheceu a minha fúria loira.
-Bom, aqui foi um pouco diferente... – disse Lorenzo.
-O que quer dizer com isso, ô Cabelo Esquisitão? – indagou Draco.
-Havia uma pessoa conhecendo essa tal "fúria loira"... Mas não era uma garota.
Draco ficou quase transparente. Hermione, Joyce, Lanísia, Serena e Alone tentaram segurar o riso.
Os rapazes indagaram, preocupados:
-Com quem ele estava??
Houve um tom dissonante entre eles; alguém perguntou de forma um tanto animada. Era Harry, que recebeu olhares indagadores.
Rápido, ele corrigiu-se, em tom furioso:
-COM QUEM ELE ESTAVA?
Draco continuava do mesmo jeito; pálido e aparentemente próximo de um colapso nervoso.
-Com você – respondeu Lorenzo, apontando para Harry.
-Jura?? – perguntou ele, levando a mão à boca. Parecia espantado e... "contente" ao mesmo tempo.
-Potter? – balbuciou Draco, incrédulo. – Eu vou chorar de desgosto... Amigo...
-Pensei que fosse o Cabelo Esquisitão...
-Foi mal... Amigo: preciso que diga pra mim... O que eu e o... P-potter estávamos fazendo?
-Está vendo os dois ali? – perguntou Lorenzo, ao mesmo tempo em que indicava Lewis e Serena no gramado.
Lewis estava ajoelhado, chorando, enquanto Serena o abraçava por trás.
-S-sim...
-Era basicamente aquilo, só que sem roupa.
-NÃOOO! – berrou Draco, escondendo o rosto atrás das mãos.
-E quem estava por trás...?
-CALA A BOCA, POTTER! – urrou Draco. – Eu não quero mais ouvir...
-Você Potter.
-Não... Não pode ser... – Draco caiu no chão e começou a esmurrar o gramado. – FUI VIOLADO! FUI VIOLADO!!
-Que lindo! – exclamou Joyce, em tom de provocação. – Draco virou mocinha!
Todos, com exceção de Lewis, Serena, Draco e Harry, explodiram em gargalhadas. Harry não gargalhava porque ainda estava estupefato pela revelação do que havia feito.
-Lorenzo... Pode dizer ao Draco por que ele estava amarrado? – disse Mione, sorrindo maliciosamente.
-Pelo que pude ver, fazia parte da brincadeira. Estava amarrado para que não pudesse escapar da fúria morena do Potter.
-Fúria morena... Não... – ganiu Draco, ainda socando o gramado.
Juca esperou que o acesso de gargalhadas se encerrasse para perguntar a Lorenzo:
-Eu estava com quem moço? Era mulher, não era?
-Sim... – Lorenzo não pôde continuar; Joyce passou a frente e estendeu a mão para Juca.
-Prazer, sou Joyce Meadowes!
-Juca Slooper – ele apertou a mão dela. – Muito prazer.
-Apesar de não me lembrar de nada, tenho a impressão de que era eu quem estava com você... – ela voltou-se para Lorenzo. – Estou certa? – e deu uma piscadela para ele.
-Claro... Vocês estavam no maior amasso!
-Uau! – exclamou Juca. – Eu a beijava também?
-Sim.
-Que coisa estranha... Eu nunca beijei, nunca fiquei com garota nenhuma... Agora, eu fiz de tudo e não me lembro! – olhou para Joyce. – Como pôde adivinhar que estava comigo?
-Nós mulheres temos um sexto sentido. Talvez tenha sido isso... Ou simplesmente seja o fato de que, entre os caras que estão aqui, para mim você é o mais interessante.
Ele baixou a cabeça, encabulado.
-Obrigado. Você também... é linda...
Nesse momento, Augusto tocou o ombro de Lorenzo.
-Como deve saber, sou professor de Hogwarts.
-Sei sim...
-Então... Todas as mulheres que estão aqui... Ok, já são mulheres, mas, apesar disso, são minhas alunas. Pelas regras da escola, não posso ter qualquer tipo de envolvimento sexual com nenhuma delas. Por isso, peço, por favor, que não diga nada à direção da escola. Falo a verdade quando digo que não me lembro de nada.
-Acredito. Pode ficar sossegado. A amnésia aqui foi geral, como podemos ver.
-Agora... Só por curiosidade, apenas por isso... – ele continuou bem baixinho. – Com quem eu estava?
-Com aquela que você achou que o tinha trazido a força pra cá.
-Claro. Quem mais poderia ser? – ele fitou Lanísia, que acenou em resposta.
-Estávamos juntos, não é?
-Sim. O seu sexto sentido agiu como o da sua amiga pra lhe fornecer essa resposta?
-Não – ela acariciou o rosto dele. – É que eu conheço bem essa força de atração arrasadora que existe entre nós dois. Mesmo fora do meu estado normal, é óbvio que eu me enroscaria com você. Não tem jeito, Augusto. O que nos une é forte demais para tentarmos correr.
-Pensei ter ouvido você falar que não ia mais me forçar a fazer o que não queria.
-E não vou. Só estou frisando que o nosso amor... e todo o desejo, não acabaram. Só vou manter os pés no chão, esperando a hora certa.
-E que hora é a certa?
-Quando deixarmos de ser "professor e aluna" e passarmos a ser apenas "homem e mulher".
Antes de afastar-se, ela sorriu provocante e passou a língua pelos lábios.
-Se você me esperar, poderei ser sua para sempre.
O Augusto boquiaberto, que observava o caminhar da jovem com admiração, foi afastado por Lewis. Com os olhos inchados, ainda vertendo lágrimas, ele indagou a Lorenzo:
-Acho que nem é a hora certa pra perguntar, afinal, acabo de saber sobre a morte de mamãe, mas... Cara, com quem eu estava?
-Você...
-Não era homem não... Descobrir que a mãe morreu e que fui violado no mesmo dia será ruim demais...
-Controle-se – pediu Lorenzo. – Você estava com... – as meninas perceberam que ele diria que Lewis estava com Serena e anteciparam a tragédia.
Alone, a contragosto, adiantou-se.
-Estava comigo!! Comigo! – ela deu pulinhos ansiosos.
-Alone?? Mas...?
-Eu sei que estava com você... Só pode, Lewis! Sabe por quê?
-Não...
-Estou sentindo umas pontadinhas na "amiguinha", mané! – ela deu um tapa no braço dele. – Qual é o único cara que a gente ainda não sabe com quem estava?? Hein?
-É, só falta eu...
-Então! Isso significa que estávamos juntos! – ela olhou para Lorenzo. – Não estou certa?
-S-sim! Fico admirado com esse poder de adivinhação que vocês possuem garotas! – exclamou Lorenzo, provocando-as. – Parabéns! Deviam trabalhar esse dom!
Elas riram, envergonhadas. Lewis caminhou até Serena.
-Sinto muito. Eu não queria ter nada com a Alone, nem lembro como tudo aconteceu...
-Não tem problema.
-Ei, espere um pouco! – disse Harry. – Você disse que todos estavam transando. Mas ainda não sabemos com quem a Hermione e a Serena estavam!
-Só sobraram as duas... – falou Augusto. – Elas estavam... Juntas??
Mione e Serena entreolharam-se, constrangidas. Seria pura mentira, elas sabiam, mas os rapazes que estavam por ali acabariam acreditando.
-Sabe, eu sempre desconfiei que você gostasse de uma aranhazinha de vez em quando, Mione – zombou Joyce.
-Não, Joyce, não foi de prazer a careta que eu fiz quando você pegou na minha amiguinha depois que tomamos banho – rebateu Mione, murchando o sorriso sarcástico da amiga.
-Elas não estavam juntas – disse Lorenzo, esclarecedor. – Elas... Bom, estavam divertindo-se sozinhas, se é que vocês me entendem – ele balançou os dedos.
-Oh... Você faz isso, Mione? – perguntou Harry, admirado.
-Eh... Sim... – ela corou. – Quando não tenho nada pra fazer...
-É uma forma de falar que amamos nós mesmas – disse Serena, tão corada quanto a amiga.
Lorenzo suspirou.
-Agora que já foi tudo esclarecido, acho que vocês podem voltar ao castelo, não é mesmo?
-Só um momento – pediu Augusto. – Ainda existem pontos a esclarecer. O que, afinal, foi lançado sobre nós? Que tipo de feitiço foi esse que apagou a nossa memória e nos levou a agir como... como bandos de animais sedentos por sexo?
-Eu tenho um palpite – disse Hermione.
-Claro, esqueci que temos outra sabe-tudo por aqui – comentou Draco, que parara de socar o chão, mas continuava com o ar de revolta.
-Já li algo sobre poções que despertam a libido.
-É esse tipo de livro que você lê? – perguntou Draco.
Ela lançou-lhe um olhar furioso, mas preferiu não responder.
-Uma das poções descritas no livro mexia com o desejo e também afetava a memória... As pessoas que a ingeriam ficavam fora do estado normal! Talvez tenha sido isso.
-Acha que alguém, numa brincadeira de mau gosto, fez com que, de alguma forma, tomássemos essa poção? – indagou Augusto.
-Sim. Talvez outras pessoas em Hogwarts tenham tomado também... E é impossível descobrirmos quem foi. É fácil colocar algo na bebida de alguém que esteja, por exemplo, jantando no Salão Principal.
Novamente ela cruzava os dedos, torcendo para que os rapazes engolissem essa.
-Para mim, faz sentido – comentou Augusto.
Todos concordaram.
-Como eu disse, essa poção tira qualquer um do normal – continuou Mione. – Por isso, acho que nem devemos estranhar caso saibamos de atitudes estranhas que as pessoas digam que cometemos e não conseguimos lembrar.
-Será que fui violado mais de uma vez? – perguntou Draco, voltando a empalidecer.
-É possível... Só o tempo dirá... Ou alguma pessoa que queira zombar de você – disse Hermione, sorrindo amigavelmente.
-O que houve aqui... Vocês não falarão para ninguém, não é mesmo?? – Draco fitou-os, quase chorando em sua súplica. – Por favor. Não falem nada sobre... Eu e o Potter.
As Encalhadas sorriram ao mesmo tempo.
-Fique tranqüilo, Draco – disse Joyce. – Tudo o que houve aqui, nessa Floresta, e essa estranha magia que nos uniu, ficará entre nós. Um segredo que não sairá daqui.
-Todos concordam? – perguntou Alone aos rapazes.
Eles confirmaram.
Augusto, Draco, Juca, Harry e Lewis saíram da Floresta, deixando as Encalhadas a sós com Lorenzo.
-E, no fim, tudo acabou bem... – disse Hermione. – Sinto-me até mais leve...
-Você tinha que falar que estávamos transando? – perguntou Joyce a Lorenzo. – Podia ter tido outra idéia.
-Não sei por que, mas olhar para vocês me lembra sexo na hora – disse Lorenzo. Encolheu-se para proteger-se dos tapas que recebeu. – É verdade! Foi só o que eu ouvi desde que intimidei vocês na estufa!
-Nós temos um certo fogo, mas nada fora do comum – comentou Alone.
-Que culpa temos se sexo é bom de falar, discutir e fazer? – perguntou Joyce.
-Preciso cumprimentar o Lorenzo por ter dito ao Draco que ele foi "violado" pelo Harry - falou Lanísia. - Foi incrível!! Alguém tem a intenção de falar a verdade para ele?
-NÃÃÃÃÃO - disseram todas em coro.
-Agora que o problema da Fogueira já foi resolvido, só nos resta um – lembrou Serena. – Clarissa.
-Bem lembrado – disse Mione.
-Para que o plano dê certo e Clarissa seja de fato considerada culpada pela morte da professora, precisamos criar as provas – explicou Lorenzo. – Mas esqueci de mencionar que, além das provas, precisamos apresentar outra coisa.
-O que mais é preciso? – perguntou Mione.
Lorenzo piscou um olho.
-Acho que gostarão de saber.
O plano começou na manhã seguinte. Diante da entrada do salão comunal da Grifinória, Serena e Alone aguardavam as amigas que estavam no dormitório conseguindo um objeto que serviria de prova contra Clarissa.
-Ai... Estão demorando muito – comentou Alone, balançando o corpo.
-Por que está mexendo tanto as pernas?
-Estou com vontade de fazer xixi. É culpa do nervosismo, mané...
-Dá pra segurar?
-Acho que sim...
Colin Creevey apareceu naquele instante.
-Olá, Alone!
-O-oi Colin.
-Algum problema?? Parece um tanto trêmula.
-Não, nenhum... Está tudo bem!
-Queria trocar umas palavrinhas com você. Um assunto importante.
-É sobre o Harry?
-Isso.
-Ele não voltou ao normal?
-Voltou sim. É tão bom ter o verdadeiro Harry de volta... O problema é que até os defeitos dele retornaram...
-Defeitos?
-Isso... – Colin tomou fôlego. – Gostei muito da sua atitude. De reconhecer o erro e pedir a minha ajuda para reverter o que vocês fizeram... Isso mexeu muito comigo, e trouxe de volta toda a amizade e o carinho que sentia por você... Na verdade, acho que agora sinto ainda mais, porque aprendi a dar valor ao que existe entre nós.
-E-eu também...
-Vou ser sincero com você, por tudo isso. O Harry é muito feliz comigo, mas eu não consigo suprir todas as necessidades dele...
-Como assim?
-Ele gosta do que eu tenho... Mas gosta do que você tem também.
-Quer dizer que...
-O Harry é bissexual.
-OH!!
E o espanto fez com que Alone esvaziasse a bexiga em pleno corredor.
-Ai! Tá se mijando!! – exclamou Serena, apavorada. – Tá se mijando!!
-Minha nossa – disse Colin, exasperado, enquanto a poça amarelada se formava no chão. – Mesmo assim, eu preciso continuar – ele fechou os olhos. – É por isso que ele ficava tão nervoso quando você tentava seduzi-lo. Ele sentia vontade, mas queria ser fiel a mim... Ah, esse ruído chato! – ele referia-se ao som do jato de urina que batia no piso.
-Não dá pra segurar – falou Alone.
-Continuando... A minha proposta é: que tal dividirmos o Harry? Somos amigos... Eu saberia dividi-lo com você... E isso o deixaria completamente feliz!
Alone parou de urinar e olhou para o rosto dele.
-Tudo isso é surpreendente demais pra mim... Mas, como pode ver, não estou em condições de responder.
-Quando ela não estiver coberta de urina ela responderá pra você... Não é isso, Alone?
-Isso mesmo. Serena está certa. Agora não dá Colin. Depois eu lhe darei a minha resposta.
-Tudo bem – disse ele, afastando-se.
-Até logo, Colin! – Alone despediu-se.
A passagem no buraco do retrato abriu-se e por ela surgiram Hermione, Joyce e Lanísia, animadas.
-Conseguimos a prova! – exclamou Mione. Observando a enorme mancha no vestido de Alone e a poça no chão, perguntou. – O que houve?
-Me urinei toda, Mione – respondeu Alone, desgostosa. – Mas depois explico.
-Vá se lavar e trocar de roupa. Depois, vamos levar a prova ao Lorenzo – ela sorriu para as amigas. – A Clarissa não faz idéia do que a espera!
Clarissa tomava sol no pátio. Precisava descansar um pouco. Não adiantava mais lamentar-se; elas tinham conseguido reverter a Fogueira das Paixões. A maneira como Draco, a pessoa que vinha manipulando com maestria, olhara para ela, como se nem a conhecesse direito, mostrara isso.
Mas não havia problema. Continuava esperta como sempre. Uma nova idéia surgiria, mais cedo ou mais tarde.
Rebecca aproximou-se dela, tapando, com a sua sombra, os raios do sol. Tinha profundas olheiras no rosto, sinais de uma noite insone.
-Nem consegui dormir por sua causa! Diga-me: cadê a minha filha?
-Ah! Claro. Que bom que me procurou, senão nem ia lembrar da pirralha...
Clarissa deu as instruções para que ela localizasse a filha. Em seguida, voltou ao seu banho de sol, que foi interrompido dez minutos depois.
-Clarissa Stuart?? – indagou Filch.
-Isso mesmo. O que quer?
-A Professora McGonagall deseja falar com a senhorita. Na sala dela.
Era um pedido estranho, mas, com a tranqüilidade de quem nada tinha a esconder, Clarissa levantou-se e tomou o caminho para a sala da diretora.
-Serena... Você está diferente...
-Não estou Lewis. Só não posso lhe dar atenção agora...
Ele enlaçou-a pela cintura. Ela repeliu-o.
-Lewis, por favor. Agora não.
Ele a fitou seriamente.
-Existe um motivo para isso, não existe? Você não gosta mais de mim? É isso?
-Eu gosto de você. Amo você.
-Agora estou sozinho, Serena. Não tenho mais ninguém. Só você. Queria que já pensássemos no nosso casamento, porque...
-Lewis... – ela interrompeu-o.
-O que? Você não quer casar comigo? Pensei que tivéssemos planos para o futuro...
-Eu não sei...
Era verdade. Ela ainda não tinha uma posição definitiva a respeito.
-Eu não sei – ela repetiu. – Mas a minha incerteza tem um motivo. Um motivo sério, que vou falar a você, mas não aqui, não agora. Quando estiver a par desse motivo, nós chegaremos a uma decisão. Juntos – ela apertou a mão dele, afetuosamente. – Enquanto isso não acontece, a única resposta que tenho, a respeito do nosso futuro, unidos como marido e mulher, é essa: não sei.
Ela beijou-o no rosto.
-Conversaremos depois. Eu prometo.
-Ótimo... Porque, sabe... Está difícil de entender você... – ele afastou-se, parecendo perdido.
Hermione aproximou-se da amiga e abraçou-a.
-Fique tranqüila. Está fazendo a coisa certa. Precisam conversar antes de qualquer coisa.
-Eu sei... Obrigada pelo apoio, Mione.
Elas estavam no Saguão de Entrada, aguardando a passagem de Clarissa.
-Augusto já lhe deu uma resposta a respeito do que você propôs? – indagou Alone a Lanísia.
-Ainda não. Ele é muito racional. Vai pensar e pensar... Espero que ele perceba que podemos nos dar bem juntos quando eu sair da escola.
-O amor dele o fará esperar por você?
-Não sei... É essa a resposta que ele vai encontrar após as longas reflexões que deve estar fazendo agora mesmo...
-Olhe lá, nossa inspetora com a filha de seu amado...
Rebecca beijava o rosto da filha e indicava a ela o Salão Principal. Em seguida, fechando bem o casaco que vestia, ela saiu do castelo.
-Estranho... Por que ela está tão vestida? Está um dia lindo lá fora!
-Quer esconder as banhas, Alone. Pobre Augusto. Quem já se serviu com aquilo ali enlouquece mesmo diante da possibilidade de traçar um corpo lindo como o meu.
-Não sei... Ela parecia preocupada. Como se fosse aprontar alguma...
-Será? – indagou Lanísia, ficando interessada. – Eu quero muito achar algo podre na vida da Rebecca. Se ela estiver aprontando alguma... Hum, eu vou descobrir, Alone. Pode apostar. Vou descobrir e revelar para toda a escola.
-Meninas! – chamou Mione. – A Clarissa!!
Clarissa começou a subir a escadaria de mármore, despreocupadamente. Elas esperaram alguns segundos e, em seguida, subiram também.
-Com licença, diretora – falou Clarissa, timidamente, ao abrir a porta da sala. – Posso entrar?
-Claro – respondeu Minerva, que observava a paisagem diante da janela. – À vontade.
Clarissa entrou na sala. Ia até a cadeira que ficava em frente à mesa da diretora, mas não conseguiu continuar a caminhar ao ver que havia mais alguém ali... E esse alguém era...
-Lorenzo? – ela indagou sem poder conter a curiosidade. – Mas o que faz aqui?
-Foi Lorenzo quem pediu que a chamasse – respondeu Minerva, finalmente voltando-se para ela. A dureza no olhar da diretora a fez ter a sensação de que não vinha coisa boa pela frente... – Ele está em Hogwarts fazendo a investigação da morte de Frieda Lambert e parece ter chegado a uma conclusão... Não estou certa Lorenzo?
-Sim, diretora. É isso mesmo.
O medo dissipou-se. Ela desconfiava que as Encalhadas estivessem envolvidas na morte da professora, mesmo que de forma indireta. Talvez Lorenzo quisesse confirmar alguma coisa... E mesmo sem certeza de nada ela poderia ajudá-lo; as garotas não tinham mais importância.
Poderia vingar-se de todas elas de uma só vez.
-É algo relacionado às garotas que eram minhas amigas? – perguntou Clarissa, armando-se com seu olhar mais doce e inocente. – Vocês sabem... Hermione, Joyce, Serena, Alone e Lanísia?
-De certo modo, sim – respondeu Lorenzo.
-Entendam: se elas fizeram algo de errado, eu não quero prejudicá-las. Elas não falam mais comigo, mas fomos amigas e ainda sinto muito carinho por todas...
-Quando falei com você ontem, você estava tão diferente – comentou Lorenzo, examinando-a. – Voltou a ser um anjinho da noite para o dia?
Clarissa olhou para a diretora, como se estivesse confusa.
-Não sei do que está falando...
-Diante da diretora ainda é importante continuar com o teatro, não é mesmo? Ou melhor... É o que você acha. Não adianta mais fingir, Clarissa. Pode agir naturalmente.
-Está me ofendendo... E sem motivos.
-Ah? Acha que não tenho motivos? Está enganada. Tenho motivos. Tenho provas. Tenho testemunhas.
-Está louco...
-Você matou a professora Frieda Lambert.
Com o baque da acusação, Clarissa sentiu a cabeça girar. Amparou-se em uma das mesas.
-Como é que é?
-Não tente fingir que não tem culpa... Eu já tenho certeza que foi você.
-Eu... EU NÃO MATEI AQUELA MULHER!! – berrou Clarissa, descontrolada. – Não pode me acusar dessa forma...
-Não mesmo. Por isso, trouxe as provas e as testemunhas.
-Não podem existir provas e testemunhas. Eu não fiz nada!
-Mas eu tenho.
-Ah, quero só ver... Onde estão?? Cadê suas testemunhas? Suas provas? Não estou vendo nada!
-Vou pedir para que as testemunhas entrem com as provas – falou Lorenzo, encaminhando-se para a porta.
Quem estaria ali? Quem fora até Lorenzo e a acusara? Quem conseguira armar provas contra ela? Ela não tinha feito nada, era inocente. Quem teria a audácia e um motivo para acusá-la?
A compreensão desceu sobre ela, arrepiando sua pele...
-As Encalhadas – balbuciou, virando-se para a porta.
De fato, por ali entravam Hermione, Lanísia, Alone, Serena e Joyce.
Todas sorridentes.
Clarissa sentiu-se nauseada.
Hermione falou:
-Viemos contar o que sabemos é mandá-la para a cadeia. Assassina!
Ela perdeu o fôlego.
Aquela manobra fora inesperada demais.
As últimas confusões; os últimos conflitos; as decisões; os destinos de cada personagem.
Surpresas ainda estão por vir no último capítulo de Fogueira das Paixões...
N/A: Sei que levei um mês pra atualizar, mas o capítulo ficou grande demais hehe. Conto com vocês no próximo (e último) capítulo da fic!!
Reviews são sempre bem-vindas hehe. Abraços!
