CAPÍTULO 38
Um final indecente: Parte 1
A seguir, a primeira parte do capítulo final de uma história nem um pouco normal...
-Ofereci uma visão da minha amiguinha para ele e ele topou na hora.
-Gozaram da cara da Clarissa... Literalmente!!
-Garota, por favor, não faça isso!!
-Hum... Andou mostrando a bunda pra Joyce, Alone?
...e nem um pouco inocente.
Hermione saboreou o pavor de Clarissa por alguns segundos e depois se voltou para a diretora McGonagall, sacando de dentro do bolso um pequeno caderno cor-de-rosa.
-O Lorenzo encontrou esse caderno nas proximidades do local em que Frieda foi assassinada. Adivinhe, professora, de quem é?
Minerva estendeu a mão e apanhou o objeto.
-Esse caderno é meu, mas eu não o perdi! – gritou Clarissa histérica. – Estava em meu dormitório, como sempre esteve! – olhou acusadoramente para as Encalhadas e levantou o dedo indicador na direção delas. – Vocês tiraram de lá!! Mexeram nas minhas coisas, pegaram o caderno e agora estão aqui inventando essa história absurda! Não foi isso o que fizeram??
As garotas permaneceram caladas e Clarissa as conhecera por tempo suficiente para saber que estava certa em tudo o que dissera; havia um prazer escondido naqueles rostos, que somente quem convivera com as Encalhadas era capaz de perceber.
Da mesma forma, com uma satisfação velada, Hermione rompeu o silêncio e disse:
-Não vejo motivo algum para termos inventado isso.
Nesse ponto, Clarissa perdeu o controle. Antes que tomasse consciência do que estava fazendo, viu-se avançando na direção de Mione, pronta para agarrá-la pelos ombros, forçá-la a dizer a verdade...
Houve um movimento brusco que ela captou com o canto do olho. Minerva, que segurava o caderno misterioso com uma das mãos, desceu a outra mão na direção de Clarissa, mão esta que carregava sua poderosa varinha.
Clarissa parou no mesmo instante. Sem erguer os olhos do caderno, mas com a varinha apontada diretamente para a garota, Minerva falou, tranqüilamente:
-A única pessoa que está sendo acusada aqui nesta sala é você, Srta Stuart.
-Desculpe professora – a voz de Clarissa denotava todo o respeito e temor que sentia pela diretora. – Mas... É que a senhora precisa entender uma coisa: essas garotas me odeiam! Elas querem me prejudicar, são capazes de qualquer coisa para isso...
-Mas eu não – disse Lorenzo. – Eu confirmo o que as garotas disseram e não tenho motivo algum para odiá-la ou querer o seu mal... Tenho algum motivo Clarissa?
Ele sabia que ela não falaria os possíveis motivos que tinha e divertia-se com isso.
Diante do silêncio de Clarissa, Lorenzo prosseguiu:
-Como Hermione já adiantou, eu encontrei esse caderno. Ele estava caído atrás de um vaso no corredor onde sabíamos que o assassino da professora Frieda havia golpeado-a na cabeça. Não era uma prova definitiva, afinal Clarissa poderia ter perdido em um momento qualquer, mas, ainda assim, deixei o caderno guardado. Bem guardado... Tal foi a minha surpresa quando esse grupo de garotas me procurou e me informou que tinha visto Clarissa rondando o local do crime exatamente na noite do assassinato.
-Como a senhora deve lembrar, nós vimos o corpo da professora no momento em que ela caiu da escada – disse Hermione. – O que ainda não tínhamos contado é que vimos uma pessoa no alto da escadaria...
-Clarissa? – perguntou a diretora.
-Não, Voldemort – respondeu Alone, irônica.
Ao ver-se cercada por olhares de censura, desculpou-se:
-É que é tão óbvio, não é?
-Mas não precisa responder desse jeito, principalmente para a diretora! – disse Hermione, nervosa. Voltou a fitar Minerva com seu olhar inocente. – Vimos a Clarissa bem brevemente, no topo da escadaria. Depois, ela saiu correndo.
-E por que nos esconderam isso?
-Ah, professora... Tente entender – Mione fingiu que estava encabulada. – Nós fomos amigas da Clarissa por tanto tempo. Acaba restando um pouco do valor que dávamos à nossa amizade...
-DESGRAÇADA! – vociferou Clarissa; não estava mais sendo mantida imóvel pelo feitiço de Minerva, de modo que precisou esforçar-se para não tentar atacar Mione outra vez. – Tenha vergonha nessa sua cara, Hermione!!
-Está vendo, professora? Como ela está perturbada? – Mione questionou, enquanto lançava olhares piedosos à Clarissa. – Eu e as meninas sentimos muita pena da situação dela. É por isso que não falamos nada...
-E o que fez com que mudassem de idéia?
Joyce adiantou-se.
-Vi Lorenzo com o caderno, caminhando por um dos corredores, e reconheci-o como sendo de Clarissa. Conversei com as meninas a respeito... Sabíamos que Lorenzo estava investigando o assassinato, e, se vimos Clarissa perto do local do crime e ele estava com um objeto que pertencia a ela, era porque ele já devia estar encontrando alguma conexão. Na nossa mente não restou mais dúvidas. Então resolvemos procurá-lo e dar o nosso testemunho.
-Um falso testemunho!! – protestou Clarissa, com voz estridente. – Professora McGonagall, tem que acreditar em mim! Não dê ouvidos a tudo isso! Eu nem teria motivos para matar...
-Era o que suas amigas pensavam – Lorenzo interrompeu-a. – Mas as páginas do seu caderno mostram o quão perigosa é a sua mente...
-Sim... – Minerva concordou, enquanto folheava as páginas do caderno. – Estou vendo aqui. É... Assustador...
A diretora mal conseguia acreditar no que tinha em suas mãos; havia diversas páginas manchadas de batom, onde Clarissa utilizara o objeto para escrever palavras e imagens aparentemente desconexas, mas com significados aterradores...
Numa página destacava-se a palavra MORTE...
Em outra, um coração partido ao meio, de onde escorria um líquido que provavelmente era sangue...
MATAR... CANSADA DE SOFRER... MORRA RONY...
-Rony... Seria... O Sr Weasley?
-Acredito que estava na lista negra de nossa pequena psicopata – disse Lorenzo, e, aproveitando que a diretora estava absorta na leitura do caderno, piscou um olho para Clarissa. Retomou seu ar de investigador para concluir. – Diante de tudo isso... Inclusive do comportamento perturbado apresentado pela jovem aqui nesta sala, só posso chegar a uma conclusão: ela é perigosa, muito perigosa, do tipo que não precisa sequer de um motivo para cometer um crime. Assim, eu posso afirmar, sem a menor dúvida, que Clarissa Stuart matou a professora Frieda Lambert.
-ISSO É MENTIRA! – berrou Clarissa.
-Eu queria muito que fosse – disse Minerva, fechando o caderno. – Mas não é possível desmentir provas e testemunhas. Clarissa, Clarissa... – a diretora suspirou. – Como pôde fazer isso? Como pôde transformar-se em uma pessoa assim??
-Não fiz nada... – ela foi até a diretora e agachou-se diante dela, em humilhação. – Por favor, tem que acreditar em mim! Elas devem ter algo a ver com isso, mas eu não tenho...
Alone deu uma risadinha.
-Acho que isso seria exatamente o discurso de um culpado querendo fingir inocência – comentou.
-De fato – concordou Minerva. Por trás das lentes dos óculos, ela fitou Clarissa com uma expressão de pesar. – Sinto muito, mas é tudo muito claro. Vou comunicar o Ministério imediatamente e providenciar sua ida a Azkaban.
O corpo de Clarissa foi tomado por calafrios. Seus olhos azuis arregalaram-se, ensandecidos, enquanto ela balançava a cabeça freneticamente, em negação.
-Não... Não... Não pode ser... Azkaban não... – ela agarrou os próprios cabelos. – Não... Azkaban...
Ela ergueu-se lentamente, trêmula.
-Azkaban não... Não... – olhou para cada uma das pessoas que se encontravam na sala. Exceto por Minerva, todos a olhavam com expressão de maligno prazer. Estavam contemplando a sua queda.
Ela ia para Azkaban, o pior lugar do mundo, para ficar encarcerada numa cela imunda, com ratos esfregando as caudas nojentas em seu rosto, comendo os restos da comida repugnante que lhe seria servida em pratos quebrados e mal lavados... Ia para Azkaban, com uma acusação de homicídio nas costas, para uma condenação perpétua, que a faria sair de lá apenas quando morresse.
Ela estava arruinada e era isso que eles tanto comemoravam por dentro.
Azkaban... Azkaban era o fim.
-NÃO! – ela berrou, subitamente, enquanto virava com um golpe violento uma das mesas da sala.
Seu olhar de ódio cravou-se nas Encalhadas.
-EU ODEIO VOCÊS!
Antes que ela pudesse avançar, Minerva a imobilizou novamente. Rapidamente, ela conjurou um par de algemas e imobilizou os pulsos da garota.
-Lorenzo, leve-a até Rebecca e peça a ela que a tranque em um local seguro. Que ela fique lá até que o Ministério venha buscá-la.
-Está certo.
Ele ia aproximando-se da porta quando Clarissa olhou para Hermione e disse:
-Ainda não acabou. Ouviu bem? Ainda estou livre. Livre! E isso ainda não é o fim da história.
Com aquela promessa de vingança fervendo em seus olhos azuis, Clarissa saiu da sala, acompanhada de perto por Lorenzo.
Ao bater da porta, Hermione tremeu dos pés à cabeça.
De alguma forma, sabia que Clarissa estava falando a verdade.
Ainda não era o fim.
O rumor de que a garota que já havia perturbado a escola com uma fantasia sexual chamada Tarah também havia assassinado a professora Frieda espalhou-se rapidamente pelo castelo.
Todos trocavam suas impressões a respeito de Clarissa, alguns dizendo que "já esperavam algo do tipo", outros manifestando surpresa com comentários como "jamais desconfiei".
Escutando aquelas declarações enquanto caminhava pelo Saguão de Entrada ao lado das amigas, Lanísia comentou:
-É sempre o mesmo tipo de declarações que se ouve em momentos como este.
-Acham que ela será vaiada? – perguntou Serena.
-Depois da humilhação que ela sofreu só por ter sido descoberta como a "tarada" da escola, eu não duvido de mais nada – disse Alone.
Lorenzo aproximou-se das garotas com um amplo sorriso de dentes brancos.
-Missão cumprida! Menos um lunático à solta!! Contentes com o resultado?
-Muito – Hermione respondeu, retribuindo o sorriso. – Lorenzo, queria lhe agradecer por tudo o que fez por nós. Sei que você seguiu seus princípios, considerando que a Clarissa é quem merecia ser considerada pelo crime, mas, de certo modo, acabou nos ajudando. Acho que jamais poderemos lhe agradecer o suficiente.
-É... Sentimos como se você fosse uma Encalhada também... Mas sem "amiguinha", é claro – disse Lanísia.
-E pra falar a verdade estou encalhado mesmo... Ah! Sei uma forma de retribuírem o que fiz.
-Pode falar.
Lorenzo tirou uma sacola plástica de dentro das vestes.
-Entreguem aos alunos da escola esses convites. De preferência fora da vista dos professores.
Alone pegou a sacola e guardou em sua bolsa. Remexendo discretamente lá dentro, espiou um dos convites. Riu e perguntou:
-Festa da Fantasia Sexual??
-Sim! Uma festa à fantasia muito mais interessante do que as tradicionais! Os convites trazem todas as orientações. Não precisam se preocupar com fantasias, eu as colocarei a disposição de vocês.
-E pra quando é a festa?
-Nessa madrugada. Vamos seguir um esquema parecido ao da outra festa proibida.
-Quero só ver as fantasias que estarão disponíveis... – Lanísia estremeceu, excitada e curiosa.
-Verão quando chegarem lá... Considerem essa festinha como uma comemoração pelo fim de todos os problemas que tiveram.
-Na verdade, ainda existem problemas a resolver e eles devem ser solucionados nessa festa... ou não – comentou Serena.
-Mas podem falar a verdade pro amigo Lorenzo aqui... Festa com tema indecente é a cara das Encalhadas, não é mesmo?
Enquanto recebia diversos tapas das garotas, ele ria, divertindo-se com a situação.
-Queridas, preciso ir. Qualquer inconveniente, me procurem no Lorenzo´s.
-Acredite: mesmo sem inconvenientes, apareceremos por lá, Encalhado! – falou Hermione, sorrindo ao observar o bruxo se afastar.
Foi então que, em meio ao monte de alunos que perambulava pelo Saguão, Mione avistou Rony, que acenou para chamar-lhe. Imediatamente ela pediu licença às amigas e foi até o rapaz, fazendo algo que há muito tempo tinha vontade, mas que só agora tinha oportunidade...
Ela jogou-se sobre ele, agarrando-o pelo pescoço. Rony envolveu-a pela cintura, e mantendo-a no ar deu dois giros no Saguão. Mione gargalhava, tomada de uma sensação de alegria triunfante, enquanto Rony sorria.
Ao parar de girar, ele apoiou-se no ombro de uma quartanista que estava parada ao lado, para manter o equilíbrio e não despencar no chão com Mione nos braços. A garota olhou feio para os dois, que desculparam-se em meio a risos.
Delicadamente, Rony colocou-a no chão. Os olhos dos dois se encontraram, reflexos da mesma felicidade e sentimento. E em seguida, eles se beijaram, outro ato que antes era proibido.
-Estou tão contente, Mione – disse Rony a ela, antes de beijá-la outra vez.
-Eu também. Muito! – abraçou-o. – Não precisamos mais nos esconder, Rony! Veja... as pessoas estão nos vendo juntos... Olham tão curiosas... e não há problema algum nisso!
-Isso mesmo. Chega de preocupações! De encontros às escondidas! Vamos à forra! Se bem que, claro, existem coisas que faremos e eles não poderão ver – Rony deu uma piscadinha.
-Como você é atrevido! – Mione deu um tapa no braço dele, sorrindo ao mesmo tempo.
-Ué, mas não faremos mesmo?
-Por quê? – ela puxou-o para bem perto e sussurrou-lhe ao pé do ouvido. – Dizem que fazer essas coisas em público é bem mais excitante.
-Uau! – exclamou Rony, admirado. Ergueu uma sobrancelha. – Desse jeito vou achar que não é minha Hermione que está aqui na minha frente! Está muito diferente... O que houve com você?
-Digamos que as minhas amigas tiveram certa influência nessa mudança de comportamento – ela fez um sinal na direção das Encalhadas. – Com elas, percebi que sexo não precisa ser tabu. Eu tenho vontade de fazer, você tem vontade de fazer, todos nesse Saguão têm vontade de fazer... – ela puxou-o para um beijo, agarrando o colarinho da camisa. – E todos temos um potencial para a sedução, nossas artimanhas para aliviarmos essa vontade. Basta procurar dentro de si mesmo... Ou se ver diante de alguém tão atraente quanto você.
Rony engoliu em seco, ruborizando.
-Subiu até um calor pelo meu corpo... Nossa...
-Libere o calor. Não podemos nos conter – disse Mione, com um sorriso insinuante. Ela levou um dedo até a testa dele, secando uma gota de suor que começava a escorrer.
-Hermione, Hermione... – Rony deu dois passos para trás. – Vamos com calma...
-Não disfarce. Sei que você também está morrendo de vontade...
-Estou, mas não na frente dos outros, no meio do Saguão...
-Qual o problema??
-Vo-você faria mesmo? – ele gaguejou.
-Não... Claro que não – ela deu uma risadinha. – O legal é correr risco de ser flagrado, e não fazer à vista de todos.
-Isso quer dizer que, se fôssemos atrás de algum armário de vassouras, por exemplo...
-Faria, sem o menor problema... Mas não agora. Tem alguém que será enviada a Azkaban e esse espetáculo eu não perco de jeito nenhum. Até mesmo se fosse preciso comprar ingresso eu pagaria qualquer valor para não perder...
-Se você quiser um ótimo lugar, pode arranjar por um galeão – disse Rony.
-Como assim? Estava só brincando...
-Mas parece que a sua amiga Joyce, não.
Rony apontou para o alto da escadaria. Joyce parava todos os alunos que passavam por ela, oferecendo pequenos pedaços de papel amarelado, que eram entregues a quem lhe passava um galeão. Aparentemente, efetuar a venda não estava sendo tão difícil. No meio do corpo, Joyce havia passado uma faixa, onde era possível ler a palavra INGRESSOS.
-Não estou entendendo nada... – ela pegou a mão de Rony. – Vamos, preciso conferir o que essa desequilibrada está aprontando.
Ela foi até Serena, Alone e Lanísia, que continuavam paradas no mesmo lugar, conversando.
-Gente, o que aconteceu? A Joyce esqueceu de tomar o remédio pra cabeça?
Serena levou a mão ao coração.
-Ela toma remédios assim?
Alone fitou-a com raiva, impaciente.
-Acho que você está precisando de umas doses também.
-Por quê? Não posso me sensibilizar com o problema da minha amiga?
-Ela não tem problema nenhum! – falou Hermione. Ao olhar para o alto da escadaria, viu Joyce arrumando a calcinha diante de um grupo de marmanjos. – Quero dizer... Talvez tenha... Bom, esquece, esquece... Mas de onde ela tirou essa idéia?
-Não sabemos – respondeu Lanísia. – De repente apareceu lá e começou a vender os tais ingressos.
-Só perguntando a ela pra saber o que a motivou – disse Alone, já começando a subir a escadaria.
Rony e as Encalhadas a seguiram. Ao chegarem perto de Joyce, ela estava com o dedo médio enfiado na boca, lançando olhares sedutores a dois rapazes que acabavam de comprar seus ingressos.
-Olhem só, a Joyce ainda chupa o dedo! – comentou Serena, debilmente.
-Que nada, amiga. Você sabe que eu evoluí pra outra coisa há muito tempo.
-Nós, Hogwarts e o Ministério da Magia já sabemos disso – falou Mione. – Agora pode nos explicar o porquê desses ingressos?
Joyce pigarreou e assumiu um ar sério de negociante.
-Enquanto estávamos ali embaixo fiquei pensando... Nós suportamos demais a "Clariscarro"...
-Quem??
-Mistura de Clarissa com escarro, Serena... É tudo a mesma coisa, então resolvi juntar nesse apelido carinhoso... Continuando: nós convivemos com aquela cobra, corremos muitos riscos por causa da megera. Então nada mais justo do que tirar alguma vantagem financeira agora que ela está na pior.
-Mas para que são, exatamente, esses ingressos? – indagou Alone.
-Para vê-la lá na sala onde está acorrentada. Uma visão exclusiva da psicopata antes de ser enviada para Azkaban!!
-E posso saber como você vai conseguir levar essas pessoas até lá? – perguntou Hermione, cruzando os braços.
-A Rebecca deixou, com o apoio do Filch.
-E o que ganham com isso?
-A Rebecca não exigiu nada. Pareceu ficar contente em saber que a Clarissa poderia ser ofendida por cada um dos alunos que eu conseguisse levar até lá, por algum motivo ela não gosta muito dela...
-E o Filch?
-Ofereci uma visão da minha amiguinha para ele e ele topou na hora.
-JOYCE!!
-Nem vem com sermão, Mione! Ele não vai tocar em mim. Só vai ver. E isso também não deixa de ser uma boa ação.
-Boa ação??
-Sim! – ela baixou a voz. – Vocês acreditam que até hoje ele não viu nenhuma periquita na frente dele?
-Está brincando! – riu Alone. – É um absurdo... Ele já é tão velho, não pode ser...
-Será que a aparência atrapalhou?
-Não, Mione, foi o lugar em que ele vivia mesmo.
-Como assim? A família dele não o deixava ter contato com outras pessoas, por acaso? Vivia em alguma espécie de isolamento?
-Que nada. É que ele morava num lugar chamado Vila da Putta.
-Sei. E eu nasci na Puta que Pariu – falou Lanísia, impaciente.
-É, Vila da Putta não é nome de lugar nenhum, Joyce – disse Mione. – Isso é um palavrão!
-Caramba, vocês só pensam em maldade, hein? V-I-L-A. Vila. Vila, com V e sem H. E Putta foi uma escritora bruxa muito famosa, a primeira a aventurar-se nos romances eróticos. Nunca leram nenhum livro dela?
-Eu não, mas a minha mãe, já – disse Alone. – Vocês sabem muito bem como ela é liberal...
-Pois bem: Laila Putta nasceu nessa vila, que acabou recebendo o sobrenome dela em sua homenagem. Parece que ela precisou dormir com uns bruxos do Ministério para conseguir isso, mas não vem ao caso...
-Quem nasce em Vila da Putta é o quê? – perguntou Alone, rindo.
-Putto. Ou putta – respondeu Joyce. – Você nasceu lá, não é, Alone?
Todas gargalharam, menos Alone, que fez uma careta para a amiga.
-Nasci sim. E a sua mãe tam...
-Parou, parou! – Lanísia cortou o início da discussão. – Por favor, Joyce, continue a nos contar. Eu não sei porque estamos debatendo a origem do Filch, mas agora fiquei curiosa...
-A população da vila foi atingida por algum feitiço poderoso e todos começaram a enlouquecer. As mulheres e os homens se dividiram em grupos e ocuparam dois casarões diferentes. A mulherada se esfregava no Velcro´s e os homens no Redondo´s.
Todos arregalaram os olhos.
-Era o nome dos casarões, pessoal! – explicou Joyce.
-Você acha isso normal? – perguntou Mione.
-Pô, o lugar se chama Vila da Putta, galera! – ela gargalhou.
-Então, pelo que entendi, as mulheres passaram a gostar umas das outras e os homens também?
-Isso mesmo, Rony. Famílias foram destruídas. Filhos abandonados, porque, afinal, o encantamento não atingiu as crianças. Filch era uma delas. Ele foi criado no Redondo´s. Quando cresceu, ele e os amigos começaram a ser assediados pelos velhotes assanhados. Aqueles que não funcionavam mais queriam enfiar as bengalas em lugares indiscretos, porque ainda não existia o milagroso remédio Miabra... Mas Filch e os amigos conseguiram se preservar e se mandaram assim que puderam. Mas todo esse episódio deixou traumas terríveis. Depois da infância no Redondo´s, ele nunca conseguiu ter relações com mulheres por conta desse trauma...
-Aí, em troca da visita exclusiva a Clarissa...
-...eu só preciso mostrar a amiguinha pra ele! Eu já estou acostumada, nem ligo...
-Nós podemos apenas ver a Clarissa, ou será que podemos também aprontar com ela? – indagou Alone, interessada.
-Pessoal! O zelador e a inspetora estão permitindo essa visita!! Nós podemos fazer o que quisermos!!
-Ah então pode me passar um ingresso – disse Mione, eufórica, levando a mão ao bolso.
-Não, não, nem precisa pagar – falou Joyce, baixando a mão da amiga. – Acham o quê? Que minhas amigas não têm entrada VIP também? Garanti isso pra todas nós. É só acabar de vender os ingressos que nós vamos até lá também.
-Faltam quantos? – perguntou Lanísia, esticando o pescoço.
-Cinco – respondeu Joyce.
-Ande logo com isso – falou Serena. – Daqui a pouco os bruxos do Ministério chegam e não poderemos fazer nada.
-Consigo vender rapidinho. Olhem só... – sem pestanejar, Joyce ergueu a barra das vestes e exibiu-se para cinco rapazes que passavam por ali.
-Rony, não olhe! – ordenou Mione, tapando com a mão os olhos do namorado.
Os rapazes se aproximaram, enquanto Joyce cobria-se novamente e fazia a propaganda:
-Querem ver a famosa Tarah acorrentada, e fazer o pedido que desejarem? Para isso, é só desembolsar um galeão. Uma pechincha, imagina, para ver da Tarah os peitos e a vagi...
-Não precisa concluir – Mione interrompeu-a. Olhou, simpática, para os jovens. – Eles já entenderam, não é mesmo?
-Sim! – respondeu o mais alto deles, passando um galeão para Joyce. – Peitos e perereca!
-Isso... – Joyce apoiou, os olhos brilhando enquanto fitava a moeda dourada. – Podem pensar em muita sacanagem. Sabem que a Tarah adora essas coisas.
-Você também entra no pacote? – indagou um Sonserino, erguendo as sobrancelhas.
-Não. Sabe que não cobraria para fazer isso – Joyce riu. – Mas agora é coisa do passado. Aquela Joyce amiga, companheira de todos, aberta a relacionamentos, não existe mais.
-Por quê? Está namorando, por acaso?
-Ainda não. Mas é questão de tempo para que eu desencalhe... – ela recolheu o último galeão e entregou o bilhete restante a um jovem gorducho. Olhando para ele, fez um comentário maldoso. – Hoje vai se acabar no banheiro, não é? Aposto como perderá uns quilinhos...
-Sim... Vou emagrecer um bocado. Ver a Tarah peladona e acorrentada vai estimular minha imaginação!
-Por que não começa a praticar na frente da Tarah mesmo? – sugeriu Lanísia. – Fomos amigas, e sei que ela ia adorar ver pessoas se estimulando ao vê-la.
-Que bom! – ele comemorou, erguendo os braços gorduchos. – Vou me "exercitar" e deixá-la maluquinha.
Joyce consultou o relógio.
-Está na hora! – olhou para as amigas e depois para os rapazes. – Vamos até lá. Cada um tem direito a cinco minutos para zoar... digo, visitar a Clarissa!
Eles seguiram em direção ao corredor do segundo andar, onde ficava a sala em que Clarissa era mantida enclausurada. Filch guardava a porta. Joyce olhou-o, provocante, recordando-o da proposta indecente que haviam fechado.
Filch arreganhou os lábios num sorriso e abriu a porta. Joyce organizou os alunos em fila, deixando as Encalhadas para o final. Queriam presenciar o resultado das humilhações, ofensas e maledicências sofridas por Clarissa.
Ao lado da porta, elas esperavam que o último pagante saísse da sala. Finalmente, a porta se abriu e por ela passou o gorducho.
Abismadas, elas o observaram.
O rosto dele estava coberto de suor, muito vermelho, e os olhos estavam ligeiramente deslocados. O cinto estava aberto, assim como a braguilha da calça jeans.
Fitou-as, sorrindo. E murmurou uma única palavra, que quase não saiu:
-Obrigado.
Capengando, ele afastou-se pelo corredor.
-Humm... – fez Lanísia. – Acho que ele seguiu corretamente a minha sugestão!!
Elas gargalharam. Joyce pediu silêncio.
-Controlem-se! – levou a mão à maçaneta. – Chegou a hora de contemplarmos o que fizeram com a Clarissa...
Joyce entrou na frente. E parou, ainda com a mão na maçaneta, olhando para o fundo da sala.
-Joyce... O que houve? – indagou Serena, assustada.
-Oh... – fez Joyce, com uma súbita tonteira. Ela desequilibrou-se e, segurando na porta, acabou puxando-a e voltando para o lado de fora.
As Encalhadas ajudaram a amiga a recompor-se.
-Mas o que fizeram de tão grave assim? – perguntou Hermione enquanto abanava a amiga com a mão.
-Parece mentira... – respondeu Joyce. Apoiando-se em Alone, ela levantou-se. – Eu... Eu preciso ver de novo...
Ela abriu a porta outra vez. Imobilizou-se novamente, mas não havia espaço para sentir outra tonteira e fazer uma nova cena, já que as outras Encalhadas precipitaram-se ansiosas para dentro da sala, empurrando Joyce para o lado.
Elas estancaram ao se depararem com a mesma cena que assombrara Joyce.
Clarissa estava sentada no chão, com os braços acorrentados acima da cabeça e as pernas presas a pesadas bolas de aço. Todo o seu corpo exibia os resultados das visitas inesperadas que havia recebido graças a excursão promovida por Joyce.
Ela estava com a cabeça baixa, mas ergueu os olhos para as amigas.
Os olhos exibiam círculos feitos em tinta roxa. Com a mesma tinta, fora desenhado um cone na testa, cujas extremidades terminavam no par de círculos. Tal cone tinha um risco na ponta, risco que o cortava de um lado para outro.
Sim. Haviam desenhado um pênis no rosto de Clarissa.
Passado o momento de pânico, elas compreenderam o absurdo da situação, não resistiram e começaram a rir.
Muito.
Elas se desdobraram de tanto rir; lágrimas começaram a saltar dos olhos; era incontrolável.
-Ela está com um pinto no rosto... – disse Joyce. – E o pior é que está acorrentada e nem pode coçar o "saco"!!
-É a coisa mais feia que eu já vi – comentou Lanísia quando conseguiu falar.
-Eu também – concordou Alone. – E olha que eu vi a perna da Joyce no mês em que ela resolveu não fazer depilação.
Joyce parou de rir no mesmo instante.
-É, eu também achava que já tinha visto a coisa mais feia do mundo... – disse Joyce, provocando Alone. – No dia em que vi aquele furúnculo que apareceu na sua bunda!
-Hum... Andou mostrando a bunda pra Joyce, Alone? – perguntou Serena, rindo.
-Não... – Alone ficou constrangida. – Eu só fiquei preocupada e precisava saber o que era aquilo...
-Ah! Isso foi há uns dois meses não é? – indagou Mione, e Alone assentiu. – Lembro que naquela época você fazia caretas todas as vezes em que se sentava!
-E por isso me sentava um pouco de lado.
-Bom saber disso – comentou Lanísia. Diante do olhar inquisitivo de Alone, ela explicou-se. – É que chegaram a falar que você estava com dificuldade pra sentar porque tinha dado o...
-Buracão!
-Como é que é? – perguntou Alone, indignada, olhando para Mione, que havia "completado" a frase de Lanísia. – Não gostei disso, Hermione, pode ir se explicando! Quem é que tem buracão aqui??
-A Clarissa! Pelo menos é o que está escrito na perna dela...
De fato, era o que estava escrito na perna esquerda da garota, em tinta azul.
-E ainda tem uma placa indicando o caminho do buracão – mostrou Mione, novamente tendo um acesso de risos.
-Tem mais coisas escritas nas pernas... Estou vendo que também zoaram com o cabelo – Joyce analisava enquanto chegava mais perto de Clarissa, que permanecia na mesma posição, apenas fitando-as com os olhos guardados pelos testículos de tinta.
Os cabelos negros e sedosos haviam sido cortados de qualquer jeito e parcialmente – enquanto o lado esquerdo exibia uma cabeleira que mal chegava ao pescoço, o direito descia até o meio das costas.
-Vamos, meninas! – Joyce chamou. – Precisamos chegar mais perto para vermos o que realmente fizeram com a depravada da Tarah!!
Ao ver que as garotas se aproximavam, Clarissa tentou se mexer, mas as correntes limitavam os seus movimentos.
-Calminha... – pediu Mione. – Eca, olhem só – ela apontou para uma goma de mascar que fora grudada no cabelo de Clarissa. – Parece que você vai perder ainda mais cabelo, Clarissa.
-E jogaram um negócio branco aqui... – falou Serena, estendendo a mão para o líquido que havia colado em alguns fios de cabelo da prisioneira. – Parece sabão... – comentou, esfregando nos dedos para sentir a consistência.
-Ah, Serena...
-Que foi Alone?
-Lembra daquilo que comentamos com você... Que os homens soltam do negócio que eles possuem no meio das pernas...
-E que a Clarissa agora tem no meio da cara... – a piadinha de Joyce provocou risadas, enquanto todas espiavam mais uma vez o pênis que haviam pintado na face da jovem.
-Lembro sim – Serena confirmou.
-Dado o número de rapazes tarados que entraram aqui... E, mais ainda, o estado deplorável do gorducho que saiu agora há pouco... Eu não sei não, mas isso aí só pode ser uma coisa...
-Mas o quê...? – finalmente captando a informação, Serena olhou para os dedos com uma careta de nojo. – Nãooo!!!
-Sim – Alone insistiu. – Gozaram da cara da Clarissa... Literalmente!!
Um novo acesso de gargalhadas tomou conta da sala, enquanto Serena limpava os dedos na roupa de Clarissa, que lhe lançou olhares desprovidos de emoção.
Sentindo-se mal com aquele olhar, Serena ergueu-se rapidamente, afastando-se. Ao fitar os rostos das amigas, percebeu que não fora apenas ela a atingida pelo impacto dos olhos de Clarissa. As risadas haviam cessado, e um silêncio perturbador – tão perturbador que chegava a incomodar – instalou-se na sala.
Elas se lembraram com quem estavam lidando. Clarissa relembrava, naquele silêncio, o que havia dito um pouco mais cedo, na sala da diretoria.
Aquele ainda não era o fim.
Ali elas estavam frente a frente com o lado sombrio de Clarissa. O buraco negro de sua loucura, pronto a tragar quem fosse necessário, encontrando razões supostamente lógicas para tudo o que cometia.
No silêncio, ela dizia: estou aqui, acorrentada nessa porcaria de sala, com o corpo completamente imundo, sem possibilidades de agir, mas aqui ainda é Hogwarts, vou dar a volta por cima antes de ser enviada para Azkaban, porque eu consigo tudo...
Confrontada com aquele silêncio, Hermione viu-se falando, em voz alta:
-Nem tudo o que você quer você pode ter. Nem tudo o que deseja necessariamente vai acontecer. Será que tudo o que aconteceu não lhe mostrou isso? Todo o seu dinheiro não foi capaz de ajudá-la a matar o Rony. E todos os galeões da sua família não podem comprar a sua liberdade. Acabou, Clarissa. Aca...
-Não – Clarissa interrompeu-a. – Não acabou. E você... – ela apontou o indicador para Mione. – Você tem medo. Medo. É por isso que desatou a falar como uma imbecil...
-Não tenho medo de você. Já está condenada, não tem como...
-Tenho... Tenho sim....
-Vai fazer o quê? – Hermione deu um riso nervoso. – Tentar fugir??
-Talvez... – Clarissa balançou os ombros; era visível que estava deliciando-se com a apreensão de Hermione.
-Você é muito ridícula mesmo... Foi humilhada e ainda quer sair como uma vitoriosa...
-E vou sair. Sair para acabar com todas vocês...
-Está maluca...
-Estou. E isso ajuda a tornar tudo ainda mais apavorante, não é mesmo? – Clarissa gargalhou.
A porta da sala abriu-se naquele instante, sobressaltando a todas, que estavam praticamente hipnotizadas pelo espetáculo delirante oferecido por Clarissa. Elas viraram-se para a porta, assustadas. Era Filch.
-Vocês precisam sair daqui. O Ministério acaba de chegar!
As garotas assentiram e caminharam até a porta. Antes de sair, Hermione parou e olhou para Clarissa, que ainda ria com satisfação.
-Vou pegar uma boa posição para assistir a sua ruína – disse à Clarissa.
-Não tenho duvidas disso. Mas veremos se serei eu quem vai ruir.
Ela não tinha condições de fazer nada. Na certa estava delirando.
Mas, ainda assim, Mione pegou aquelas palavras como um desafio.
Com as mãos frias, saiu da sala.
Na incerteza de quem ia ruir.
-Tome, Serena.
A garota olhou para a mão de Alone.
-Não, obrigada, não costumo comer ovo cru.
Alone mordeu o lábio, irritada.
-Isso não é pra comer, sua anta. É pra atirar na Clarissa na hora em que ela passar por aqui!
-Nós ainda vamos fazer isso??
-Por que o espanto, Serena? – indagou Joyce.
-É que pensei que já tínhamos nos vingado o suficiente! Haja humilhação para uma pessoa só!
-Ela merece... – falou Lanísia. – E, de qualquer forma, mesmo se não atacarmos nada, ela vai tomar uns ovos na cara do mesmo jeito.
Era verdade; no corredor onde se encontravam, próximo à sala onde Clarissa estava acorrentada, inúmeros alunos seguravam nas mãos ovos e outras coisas mais para sujarem a condenada e expressarem sua revolta.
-Eles estão vindo!! – gritou um moleque na ponta do corredor.
O silêncio caiu sobre todos que ali estavam como um manto invisível. As Encalhadas aproximaram-se umas das outras, tomando suas posições próximas à curva do corredor. Enquanto todos olhavam fixamente para o local por onde Clarissa e os bruxos do Ministério iam surgir, Hermione espichava o pescoço na direção contrária. Por isso, tomou um beliscão no braço, aplicado por Joyce.
-Ai!! Ficou doida, Joyce?
-Só estou fazendo você acordar! Eles vão vir por ali!
-Ah mesmo?? Que engraçado, jamais imaginei que viriam por ali, afinal, todos estão olhando pra lá! – disse Mione com ironia. – Estou procurando o Rony... Não o vi desde que deixamos a sala.
-Ele já deve estar vindo... Relaxa, sua boba! Clarissa já está bem presa para fazer qualquer coisa.
Hermione cruzou os braços, incapaz de conter sua inquietação. Lançou um olhar para a janela mais próxima; o corredor era cheio de janelas, e de onde estava ela podia ver as estufas lá embaixo. Voltou a atenção para as sombras que se formavam no corredor; já discernia a sombra de Clarissa pelo corte inusitado dos cabelos.
Joyce estava certa. O que Clarissa podia fazer? Com certeza não teria como manipular uma faca ou varinha com os braços acorrentados. Rony logo apareceria ao seu lado e os dois assistiriam a passagem de Clarissa rumo à Azkaban, representando o fim de todo o pesadelo.
Clarissa tornou-se visível. Vinha ladeada por dois bruxos parrudos, de varinhas na mão e rostos pouco amigáveis, com linhas rudes. As pernas não estavam mais acorrentadas, mas os braços permaneciam ligados pela corrente de ferro que limitava os movimentos da garota. A pintura do rosto havia desaparecido.
-Vejam!! – gritou Joyce, entusiasmada. – Castraram a Clarissa! O pinto sumiu!
As Encalhadas gargalharam, e Hermione conseguiu vislumbrar sorrisos nos rostos dos dois bruxos do Ministério que faziam a guarda. Clarissa, que caminhava de cabeça erguida apesar de toda a situação pela qual estava passando, girou os olhos na direção das garotas, parecendo entediada e não achando graça nenhuma na piadinha.
Rony surgiu naquele instante, aproximando-se de Hermione e cumprimentando-a com um beijo nos lábios.
Os olhos de Clarissa ficaram marejados de lágrimas diante de tal cena. Ela continuou a andar, mas sem tirar os olhos úmidos do casal. Rony postou-se ao lado de Hermione, e os dois perceberam a angústia com que Clarissa os olhava.
Ignorando qualquer emoção da jovem, os alunos começaram a arremessar coisas na direção dela. Um ovo explodiu sobre os cabelos de Clarissa, sujando-lhe o rosto. Tomates e bolas de papel também flutuavam até ela, alguns a atingindo com certo impacto.
Mas nada tirava seus olhos de Rony.
Ela estava bem próxima dos dois. Sem nem ao menos perceber, Mione cruzou os dedos, tensa. Nada ia acontecer, isso era certo... Mas ela não conseguia controlar.
O amor obsessivo de Clarissa, mergulhado na angústia daqueles olhos azuis, era de gelar o coração e provocar calafrios.
E então... Aconteceu.
Muito rápido. Aconteceu.
Um aluno do quinto ano, que estava encarapitado diante de uma das longas janelas de vidro do corredor, arremessou um imenso e gordo tomate que, ao invés de acertar em Clarissa, atingiu em cheio o rosto de um dos bruxos do Ministério, obscurecendo-lhe a visão.
Enquanto o bruxo atingido parava para tentar limpar-se, o outro, surpreso, distraiu-se, olhando para o colega.
E foi o suficiente para que Clarissa pudesse surpreender a todos e mudar o curso da situação.
Agilmente, ela avançou para Rony, puxando-o para o seu lado pelo pescoço, usando as correntes que prendiam os seus braços.
Rony ficou diante de Clarissa, preso pelo pescoço, e soltou um grito quando a garota começou a apertar a corrente com força.
Clarissa ria maldosamente, alucinada, enquanto apertava bem a corrente em torno do pescoço de Rony.
Rony começou a ficar com o rosto roxo.
Ela ia sufocá-lo!!
Hermione precisava fazer alguma coisa.
Ela fez menção de avançar, assim como os dois bruxos do Ministério, que ergueram as varinhas para ameaçar Clarissa, mas todos eles, e todos os alunos que ali estavam, perceberam que não podiam fazer nada.
Clarissa mostrou a eles que não podiam ao caminhar para trás, puxando Rony pela coleira mortal e improvisada, e aproximar-se de uma das imensas janelas de vidro.
-Se tentarem me impedir, eu pulo lá embaixo com ele. Se não fizerem nada, eu sufoco esse imundo aqui até que a língua dele salte pra fora e os olhos fiquem esbugalhados e vidrados... – ela riu, saboreando a situação. – É questão de escolha... Se no final vocês querem um cadáver... Ou dois!
Ela puxou com mais força; Rony nem mais conseguia gritar.
Estava perdendo o fôlego.
Mesmo sem uma corrente ao redor do seu pescoço, Hermione também estava.
Todos estavam...
E não sabiam o que fazer.
Era a corrente ou a queda.
Hermione sentia-se incapaz de agir. Clarissa, a centímetros da imensa janela de vidro, não vacilava em apertar a corrente, depositando todo a força possível para bloquear a respiração de Rony, cuja cor roxa aumentava a cada segundo.
Clarissa olhou para Hermione com um sorriso medonho distorcendo-lhe as feições.
-Eu tinha avisado a você... Que ainda não era o fim!! Está vendo só tudo isso?? Olha só a situação do infeliz! – ela puxou a corrente com mais força; as pernas de Rony estremeceram. – Em poucos segundos e ele já era!! Vou para Azkaban, mas com a consciência limpa, sabendo que esse... esse imbecil está morto!! Não estará comigo, e com mais ninguém! Eu estarei infeliz, mas ele nem existirá mais!!
-Clarissa... Por favor... Sei que não é capaz de matar...
-Só o medo me impedia. Mas agora serei presa de qualquer jeito, não é mesmo?? Agora, Hermione, não tenho mais o que temer!! Posso ser presa ou morta, mas eu vou levar esse ruivo, essa... essa praga para o cemitério!!
Os olhos de Rony começaram a se revirar. Ele não ia agüentar por muito tempo...
Hermione olhou para as amigas.
Via a própria agonia refletida nos rostos de Alone, Joyce, Lanísia e Serena. Todas compartilhavam do mesmo temor, da mesma aflição, simplesmente porque sabiam o tormento que aquilo estava representando para Hermione.
Sofriam em dobro.
Temiam pela vida de Rony; temiam pela felicidade de Hermione.
E naquela troca de olhares todas perceberam que algo podia ser feito... Ou pelo menos tentado. Não só por uma delas, ou por duas.
Por todas.
E elas agiram.
Hermione e Alone pularam na direção de Clarissa, atingindo-a frontalmente, mantendo-a, assim, longe da janela de vidro.
Com o impacto, Clarissa caiu, afastando a corrente do pescoço de Rony, que desabou diante dela, sem forças, lutando para respirar.
Enquanto as amigas pulavam sobre a assassina, Serena apontava a varinha para a cortina que cobria a janela, arrancando-a da parede.
Joyce e Lanísia puxaram Rony logo após ele ter caído no chão, cada uma segurando-o por um braço, afastando-o de Clarissa.
Clarissa tentou erguer-se rapidamente, recuperar sua vítima, mas havia a dificuldade em apoiar-se com as correntes e, enquanto olhava para os lados, a cortina manipulada pela varinha de Serena caiu certeira sobre seu corpo, bloqueando-lhe assim a visão e os movimentos.
O corpo de Rony foi estendido no chão. Hermione e Alone correram até o local em que Joyce e Lanísia abanavam o garoto, as duas visivelmente apavoradas.
-Rony... Meu querido... – falou Mione, ajoelhando-se ao lado do namorado. Passou a mão pelo rosto roxo e molhado de suor. – Você está bem?? Está conseguindo respirar?? Hein? Ah, meu amor, por favor, fale alguma coisa...
-Calma – pediu Joyce, segurando a mão da amiga.
Mas, subitamente, Rony falou:
-Eu vou... ficar bem... – conseguiu pronunciar, entre os arquejos de sua respiração.
-Vejam! – falou Serena, de pé próxima a elas. – Clarissa!
Os bruxos do Ministério erguiam a cortina com o uso das varinhas. Os alunos que estavam no corredor mantinham agora uma distância considerável do ponto em que Clarissa se encontrava, temendo a possibilidade de serem os próximos reféns.
Um dos bruxos parrudos retirou a cortina, o outro apontou a varinha para Clarissa, mas ela, mais uma vez, fez com que ele não seguisse em frente.
Dois passos para trás deixaram-na colada ao vidro da janela.
Ela voltou-se na direção do vidro. Acariciando o vidro com as mãos acorrentadas, ela desviou o olhar dos bruxos e fixou os olhos azuis carregados de lágrimas no local em que as Encalhadas estavam.
-Eu nunca imaginei que tudo acabaria assim... Mas, o que posso fazer? – deu um sorriso triste. – Esse amor sempre significou destruição. Eu só não imaginava que acabaria por arruinar a mim mesma...
-Clarissa... – Mione engoliu em seco antes de prosseguir. – O que está pensando em fazer?
Mas ela sabia. Era evidente para todos que ali estavam.
Chorando, e ainda acariciando o vidro, Clarissa respondeu.
-Não posso viver encarcerada em Azkaban sabendo que você está vivo, Rony, e não me pertence. Se não posso eliminá-lo para acabar com esse amor... Se eu perdi a única chance que me restava... Não poderei matá-lo, mas poderei acabar comigo.
-Garota, por favor, não faça isso!! – disse um dos bruxos do Ministério.
-Vou fazer... – respondeu.
Olhou fixamente para as antigas amigas.
-Porque desde o começo desse amor, já estou condenada...
E o rosto sofreu uma transformação.
Da dor pura para a maldade delirante. E ela gargalhou.
Um riso que ainda ecoaria por muito tempo na mente de todos que o escutaram.
-E no fim, Rony, veja como isso é irônico... De qualquer forma, o nosso amor acabou em morte... EU ODEIO AMAR VOCÊ!!
Ela berrou as últimas palavras. Depois, berrando, precipitou-se ao encontro da vidraça.
Atravessou-a acompanhada de um barulho estrondoso e uma chuva de estilhaços de vidro.
Todos no corredor moveram-se, aproximando-se da abertura.
O corpo de Clarissa despencou no ar, indo chocar-se contra o teto envidraçado de uma das estufas, estilhaçando-o em enormes cacos. A queda encerrou-se sobre o piso da estufa, onde o corpo sofreu o impacto da queda e foi coberto por uma chuva de vidro.
Uma enorme poça de sangue envolveu o corpo. Todos os cacos cintilavam ao redor de Clarissa como minúsculas estrelas contemplando a brutalidade de sua morte.
Como aqueles que, no corredor de onde a jovem havia saltado, a olhavam com horror.
As Encalhadas, agachadas junto à abertura, seguravam as mãos umas das outras, mais chocadas do que qualquer outra pessoa que estava ali.
-Eu não... Não sei o que dizer... O que fazer... – Hermione lamentou-se. – Foi a coisa mais chocante que já presenciei...
-Ela se matou... É inacreditável – comentou Alone, olhando para o corpo da amiga. – Como tudo pôde mudar tão depressa?? Éramos tão unidas e, de repente, Clarissa enlouqueceu, e... com essa paixão obsessiva... estragou tudo!
-E o que ela ganhou com tudo isso? – questionou Joyce. – Nada! Isso podia ter acabado de uma maneira muito melhor... Ou menos terrível...
-É estranho pensar que um sentimento tão puro como o amor possa causar danos como este – falou Lanísia.
-Pois é, mané. Tudo em excesso faz mal, inclusive o amor – falou Alone, filosoficamente.
-Sei de algo que não faz mal se é feito em excesso.
-O que Joyce?
-Sexo!
-Ai, ninguém merece... – comentou Hermione, enquanto elas afastavam-se da janela. – Num momento desses e a pessoa lembra justamente disso...
-Ela caiu com as pernas meio abertas, né? – falou Joyce, ainda olhando para o corpo esparramado de Clarissa.
-Vem pra cá, Joyce! – disse Alone, puxando-a pelo braço.
Os bruxos do Ministério conversavam com Minerva, que havia aparecido e estava pálida como cera.
-Lamentamos muito, diretora – lamentou-se um deles. – Podemos ajudá-la a cuidar do corpo e ajustar os danos causados à estufa...
-Não é preciso – disse Minerva. – O Sr Filch cuidará de tudo... Vocês podem voltar ao Ministério. Obrigada por tudo.
Os dois iam afastar-se quando, inesperadamente, Serena correu até onde a dupla se encontrava.
-Ei, bruxos sérios! Bruxos sérios!!
Eles olharam para a garota, como se ela os tivesse chamado pelos nomes.
-Pode falar, jovem adorável – disse um deles, o que parecia mais moço.
O amigo dele riu, abandonando o ar sério que vinham mantendo.
-"Jovem adorável"... Que coisa mais brega pra se dizer, Steve!
-Fica quieto, Calvin! – reclamou Steve, voltando a olhar para Serena com simpatia. – Algo em que podemos ajudá-la?
-Na verdade sou eu quem vai ajudá-los – falou Serena, animada. – Suponho que seja divertido para vocês levarem para Azkaban bruxos que não valem muita coisa...
-Sim – respondeu Steve. – Muito melhor do que quando eles se jogam pelas janelas... – e fez um sinal com a cabeça na direção da abertura deixada pelo impacto de Clarissa contra o vidro.
-Então, eu tenho algo que vai lhes interessar – falou Serena, remexendo no bolso das vestes e retirando lá de dentro uma pequena caixa em veludo azul. Diante dos olhares curiosos dos dois guardas, ela completou: – Esta é a prova de um crime.
As Encalhadas chegaram mais perto da amiga, inclusive Hermione, que estivera observando Rony se afastar numa maca, ao lado de Madame Pomfrey.
-O que é isso, Serena? Endoidou? – perguntou Alone.
-Nem um pouco... – ela voltou-se para as amigas a fim de explicar-lhes. – Achei esse objeto dentro do armário de Frieda... Adivinhem o que tem dentro dele?
As garotas arregalaram os olhos, estupefatas. Serena tinha nas mãos a prova de que Ted havia ajudado Frieda a matar o próprio pai.
-O anel!! – exclamou Lanísia.
-Isso aí!
-O Toucinho está frito!!
-Bacon, Joyce, Bacon!!! – corrigiram as Encalhadas.
-Não estou entendendo nada – comentou Steve, coçando a cabeça. – Qual é a relação desse anel, do bacon e do tal crime?
-Já explico... – disse Serena. Olhou para Lanísia. – Agora você terá sua vingança.
-Sim – Lanísia chegou a arrepiar-se com a perspectiva. – Vamos colocar aquele Bacon pra assar!
N/A: Devido ao tamanho do capítulo e o tempo que ainda levaria para deixá-lo completo, resolvi dividir o capítulo final em 2 partes. Espero que entendam!
Na segunda e última parte, vocês conferem os destinos que ainda não foram definidos e a Festa da Fantasia Sexual! Estão todos convidados para essa festa de encerramento hehe. Espero que tenham gostado, e à leitora que se identifica como Encalhada´s Fan e faz aniversário hoje, dia 10 de novembro, desejo parabéns e espero que tenha gostado desse "presente" de aniversário.
Obrigado e até a segunda parte!!
