Parte III
You were my sun (Você era o meu sol)
You were my earth (Você era a minha terra)
But you didn't know all the ways I loved you (Mas você não sabia como eu te amava)
So you took a chance (Então você aproveitou a chance)
And made other plans (E fez outros planos)
Cry me a River – Justin Timberlake
-
Encostei na porta de madeira esperando a irritante tontura passar.
Minhas mãos tremiam pateticamente. Era ridículo concluir o quanto ela ainda me afetava após tantos anos. E pior ainda admitir o quanto doeu dizer aquelas palavras. Que porcaria era aquela que eu estava fazendo?
A única coisa que eu pensei nesses últimos anos foi o quanto queria Ginny, que a morte dela não passasse de uma mentira. E quando a tinha para mim novamente, eu a tratava como uma qualquer. Talvez porque quisesse que não fosse ela. Estava acostumado a lidar com aquela dor. Tinha sido difícil, mas eu tinha sadicamente me habituado. Chegava a ser cruel ter que deixar essa dor de lado e voltar a sentir o que eu sentia por ela. Não que esses sentimentos tivessem partido junto com ela anos atrás, só que eles haviam se modificado e o que me restava eram apenas lembranças.
Minha mente está um caos. Eu devia entrar naquele apartamento e pedir desculpas pelo que tinha dito. Sei que é isso que tenho que fazer, então por que não consigo? Por que a idéia de fingir que ela está morta me parece bem melhor? A resposta está ali, guardada em um canto escuro da minha mente, mesmo assim ela resolve sussurrar: porque você é um covarde, sempre foi. E eu me vejo concordando e aparatando de volta para casa. Eu só preciso dormir um pouco e quem sabe quando acordar tudo não tenha passado de um sonho?
Mesmo estando ainda com os olhos fechados sei que não foi um sonho, as sensações ainda são fortes e é como se o cheiro dela ainda estivesse em mim.
Só quero voltar a dormir e apagar o encontro da noite passada da minha mente, mas o barulho da porta sendo esmurrada não me dá outra alternativa se não levantar e acabar com a vida do desgraçado que resolveu me acordar.
Abrir os olhos se torna uma tarefa mais difícil a cada dia, sinto eles tão pesados e uma pontada na cabeça só de tentar mexer um pouco as pálpebras. E quando finalmente consigo abri-los e mantê-los abertos por mais de um segundo, levanto da cama devagar, sentindo cada músculo do corpo reclamar.
Visto a calça largada ao pé da cama já sabendo quem seria a única pessoa a vir bater na minha porta daquele jeito. Foi com um careta desagradável que abri a porta e meu desagrado aumentou ainda mais ao ver que se já não bastava ter que agüentar o falatório de Potter, teria que agüentar o da sangue ruim também.
- Onde você se meteu esses dias, Malfoy? – Potter tem o tom de voz baixo e firme, mas posso perceber o quanto ele está se controlando para não me esmurrar.
- Meu Deus, você tá com uma cara péssima – contraio os lábios com o comentário de Granger. Não que esteja ligando para o comentário em si, o que me incomoda é o tom preocupado que ela usa. Detesto esse jeito da Granger. E detesto mais ainda esse olhar de pena.
- Nós tínhamos uma missão importante, você se esqueceu? – Potter continua se controlando. É claro que eu tinha me esquecido da missão, mas não iria admitir isso para ele.
- Não era tão importante assim – me limitei a responder, dando de ombros.
- Não era importante? – agora sim a voz dele estava alterada. – Capturar comensais fugitivos não é importante? Esse é o seu trabalho, Malfoy. Essa é única porcaria que você tem que fazer e ainda assim você não consegue!
- Eu faço meu trabalho muito bem, Potter! – respondi entre dentes.
- Você fazia o seu trabalho muito bem. Mas parece que se cansou de brincar de querer se vingar da morte da Ginny.
Soltei a porta pronto pra partir pra cima dele, mas Granger se colocou no meio, tentando me empurrar para dentro do meu apartamento.
- Será que podemos entrar? – ela pediu. – E, Harry, você me prometeu que não viria aqui pra isso.
Arquei uma das sobrancelhas. Se eles não tinham vindo aqui por conta do trabalho, só poderiam ter vindo pra dar um dos inúmeros sermões e checar como eu estava.
- Pode esquecer. Vocês não vão entrar. Já disse pra me deixarem em paz.
Potter soltou um suspiro cansado, me empurrado de lado e entrando sem minha permissão.
Eu realmente tinha me tornado uma pessoa patética.
Entrei com Granger ao meu lado e me olhando atentamente.
Potter e Granger não eram meus amigos, nunca foram, mas talvez fossem os que chegassem mais perto disso desde que eu decidi ficar contra Voldemort e meus pais. Era estranho o tipo de relação que tínhamos, eu os detestava e o sentimento era recíproco, mas trabalhamos juntos na guerra e agora trabalhávamos para o ministério.
Potter realmente era um auror, Granger era uma inominável que trabalhava com os aurores e eu era uma espécie de auror não-oficial. Não era algo muito bem visto e eu sabia que só estava ali porque Potter mexeu alguns pauzinhos. Não que eu não tivesse competência, mas o fato de não ter se formado na Academia de Aurores contava muito. Resumo de tudo: meu emprego não-oficial estava na corda bamba há muito tempo.
- Malfoy... – Granger começou, meio hesitante. – ...você não pode continuar assim. Harry não vai poder segurar o seu emprego por muito tempo se você continuar não comparecendo.
- Não pedi pra ele fazer isso – respondi, cruzando os braços.
- E como você vai se manter sem esse emprego? – ela lançou o olhar por todo o meu apartamento. É, isso era algo que eu deveria começar a me preocupar.
Eu havia sido deserdado quando meu pai descobriu que eu era um espião e, mesmo depois da morte dele, não consegui reaver meus bens quando tentei. Ainda assim não abandonei totalmente o meu padrão de vida e quando a guerra acabou e consegui emprego com os aurores dei um jeito de alugar um loft razoavelmente confortável, mas não tão bem localizado, o que não o tornava muito caro.
Passei a mão pelo rosto, afastando a franja da minha testa sem realmente me importar com tudo isso.
- Olha, Malfoy, sei que você não superou o que aconteceu, mas você não pode fazer nada a não ser nos ajudar a capturar os comensais que estão escondidos por aí – Potter soou falsamente compreensivo.
- São tão poucos que eles nem oferecem mais perigos, Potter.
- Mas eles têm que pagar pelos crimes que cometeram.
Eu estava preste a dizer que aquilo não era do meu interesse, que só estava trabalhando para os aurores porque ficava mais fácil de conseguir informações sobre Ginny e os motivos da sua suposta morte. Agora eu não precisava mais daquilo.
Sentei-me na minha poltrona enquanto Potter e Granger continuaram de pé, me encarando como se esperassem que eu dissesse algo.
- E se ela estivesse viva? – perguntei, baixo.
Os olhos de Potter se desviaram para o outro lado da sala enquanto Granger cravou os olhos piedosos em mim, falando suavemente:
- Malfoy, ela não está viva – disse, dolorosamente. – Você sabe disso... Ginny não vai voltar.
Eu ia dizer que sim, que ela estava viva, que eu a havia visto e tocado, que todo aquele tempo eu estava certo em achar que Ginny não morrera, mas não conseguia dizer isso, me perguntando se realmente era ela quem eu vira, se aquilo não passava de um truque da minha mente. E a verdade também estava lá cravada bem fundo, dizendo que sim, que era ela e não era ao mesmo tempo. Por que Ginny fez questão de 'morrer' e eu já tinha certeza disso.
- Também fiquei assim quando Sirius morreu. Achei que não passava de um truque, uma brincadeira sem graça dele, que ele voltaria a qualquer momento. E isso não aconteceu - Potter não me olhava, parecia imerso nas próprias palavras e extremamente cansado. – Pare de pensar assim, Malfoy, e toque sua vida pra frente, é a única coisa que você pode fazer.
- Poupe-me dos seus sábios ensinamentos de vida – resmunguei. Tinha escutado aquilo milhares de vezes durantes aqueles anos. – Afinal de contas, pra que mesmo que vocês vieram aqui?
Granger e Potter trocaram olhares constrangidos e ela se aproximou sentando no sofá de frente para minha poltrona.
- Acho melhor eu ser direta com você, Malfoy, sei o quanto você detesta rodeios...
- Então vá logo falando – interrompi e ela não pôde deixar de soltar um muxoxo, irritada.
- Achamos que você precisa de ajuda – a encarei, sem entender. – Você vem faltando o trabalho, não tem se cuidado muito bem e vem ultrapassando alguns limites – ainda não entendia onde ela queria chegar. – Você pode não acreditar nisso, mas estamos preocupados com você – meus olhos se arregalaram ligeiramente e logo depois eu soltei um breve riso de escárnio.
- Você sabe o quanto isso soa absurdo?
- Não, não soa absurdo! – Granger disse com firmeza. – Você foi uma das pessoas mais insuportáveis durante o nosso período em Hogwarts, acho que você só perdia para Snape, mas depois que... depois do que aconteceu com Ginny as coisas mudaram um pouco. Se... se ela se envolveu com você de alguma forma é porque ela sabia que você não era uma má pessoa – Potter bufou irritado com a última frase. – Ela não ia gostar de saber que você está assim.
- Acredite, ela não liga – murmurei e Granger fingiu não ouvir. – Vamos parando com isso. Eu apareço na próxima missão, ok? Agora será que vocês poderiam dar o fora? Eu não dormi nada essa noite – levantei e andei em direção a porta e eles me seguiram
- Não esqueça que amanhã você precisa ir ao ministério. Chegaram alguns relatórios sobre o paradeiro de alguns comensais. – Granger disse quando já estava do lado de fora.
- Não vou encobrir mais uma falta sua, Malfoy – foi a última coisa que ouvi Potter falar antes de bater com a porta na cara dele.
Voltei para o quarto, os pensamentos voltados para Ginny. Não sei por que não falei para aqueles dois que ela estava viva e que eu sabia onde encontrá-la. Ela queria que todos pensassem que estava morta e isso não era muito justo. Não que me importasse com os outros, mas todos ali ainda sentiam a perda dela e eu sabia bem o que era isso.
Sabendo que não ia mais conseguir voltar a dormir, fui até o banheiro. Um banho morno era tudo que eu precisava naquele momento.
Já passavam das duas da manhã.
Depois de ficar dentro do meu apartamento sem conseguir pensar em nada a não ser no reencontro com Ginny, resolvi que o melhor era voltar à boate e encontrá-la.
Quando cheguei em frente a Babylon, os seguranças me reconheceram e não permitiram minha entrada. Passei bem uns quinze minutos tentando convencê-los de que não iria arranjar confusão, que só tinha agido daquela maneira porque tinha bebido demais e achado que uma das dançarinas era uma conhecida minha. E claro que só depois de ter dado uma boa grana a eles, finalmente me deixaram entrar, dizendo que ficariam de olho em mim.
Agora, parando para pensar, vi o quanto tinha sido idiota: Ginny não apareceria ali àquela noite, não depois de tê-la encontrado. Provavelmente ela fugiria.
Eu deveria ter ido para o apartamento dela e com um pouco de sorte a encontraria lá se tivesse pensado nisso mais cedo. Há essa hora eu não duvidava nada que ela já tivesse desaparecido mais uma vez. Tinha certeza de que não veria Ginny de novo e isso de certa forma me trouxe uma sensação de alívio. Ainda era mais fácil lidar com ela morta do que saber que ela tinha mentido e jogado fora o pouco que tivemos juntos.
E foi pensando nisso que a vi na outra ponta do bar, olhando na minha direção. Era olhar pra ela e tudo se misturava: saudade, dor, raiva e uma sensação pouco familiar que eu só experimentara quando estava com ela em Hogwarts. Era como se eu estivesse em casa, verdadeiramente em casa. Não sabia explicar, mas a raiva sobrepujava esse sentimento quando eu me lembrava de todo dor que passei quando perdi aquela sensação ao achar que ela estava morta.
Foi Ginny quem tomou iniciativa e andou na minha direção. Usava uma calça jeans justa e uma blusa preta com um discreto decote, os cabelos caiam soltos. Não estava ali para dançar, deduzi, e não parecia nem um pouco assustada em me ver como parecia na noite passada.
- Achei mesmo que você fosse aparecer – disse assim que chegou ao meu lado, sua voz saiu firme e segura, como se soubesse bem onde estava pisando, mas os olhos denunciam insegurança.
- E eu achei que você já tivesse fugido.
Ela desviou os olhos rapidamente e pareceu pensar em algo para dizer.
- Eu imagino como seus pais e seus irmãos ficarão felizes em saber que você está viva e tem um ótimo emprego.
Vi com prazer ela arregalar os olhos e se mostrar chocada.
- Você contou pra eles?
- Ainda não.
- Você não pode contar pra eles, por favor, Draco – me pediu, com os olhos bem abertos e presos aos meus.
- Você tem idéia do que fez? Tem idéia do que todos nós passamos achando que você estava morta? – não me contive e meu tom se alterou um pouco, ela abaixou a cabeça. – Você foi tão egoísta, mas sabe que eu até concordo com você? – ela levantou a cabeça e me olhou sem entender. – Porque só vai causar mais dor a eles se descobrirem que você armou tudo.
- E você se importa com eles? – perguntou, incrédula.
- Não – respondi com convicção.
Ela pareceu confusa.
- Você não vai contar, vai?
- Isso não é problema meu - menti. De certo modo, eu sabia que era. – E também acho que eles não iam se orgulhar muito em ver no que você se tornou.
- Eu já disse que sou apenas uma dançarina – me olhou com raiva.
- Uma dançarina e uma prostituta – ela levantou a mão em direção ao meu rosto, mas eu segurei a tempo.
- Já disse que sou apenas uma dançarina – disse, tentando se soltar.
- Então por que eu tive que pagar uma noite com você? – vi a mágoa em seus olhos, mas era isso que eu queria. Fazer ela sentir a dor que eu sentia.
Soltei-a e, antes que se afastasse, envolvi meus braços ao redor da sua cintura. Ginny se debateu um pouco, mas eu sussurrei para ela ficar quieta:
- Sem escândalos, Ginny, ou eu posso me irritar e seus pais vão acabar descobrindo que você está viva.
Ela me olhou chocada mais uma vez e espalmou as mãos em meu peito, ainda tentando se soltar.
- Draco, o que você vai fazer?
- Nada que você não queira – beijei a bochecha dela suavemente. – É só que eu perco completamente o controle quando você está por perto, Ginny – a apertei mais entre meus braços.
- Draco...
- Vamos embora daqui.
Segurei em seu pulso com força, a arrastando para fora dali.
Continua...
N.A: Adianta pedir desculpa pela demora? Não, né. Sei que eu falei que iria tentar publicar esse capítulo quinze dias depois de ter publicado o segundo, mas realmente não deu. Eu só tenho parado em casa pra tomar banho e dormir, então não tenho tido muito tempo pra atualizar minhas fics. Mas eu não vou desistir delas, podem ficar tranqüilas, eu posso sumir, mas uma hora apareço pra atualizar.
O nome da boate eu escolhi quando estava ouvindo uma música do Placebo, mas depois percebi que coincidiu também com o nome da boate de Queers as Folk... talvez não tenha sido tanta coincidência assim, uma escolha do meu inconsciente. Outra coisa é que o Draco sabe usar dinheiro trouxa. Bem, digamos que ele precisou aprender a lidar com dinheiro trouxa pra facilitar suas investigações como auror.
E eu não tenho respondido as reviews pelo mesmo motivo em demorar a atualizar, mas tenho lido todas com muito carinho e é isso que me ajuda a escrever, então obrigada pelas reviews.
Bjus.
No próximo capítulo:
- Você dança divinamente bem – não consegui conter o suspiro irritado. Mais um idiota que provavelmente tinha deixado mulher e filhos em casa enquanto pagava por sexo.
- É, já me disseram isso... – nem me dei ao trabalho de olhar pra ele quando respondi e parecendo não muito satisfeito ele mudou de lado, ficando com o rosto de frente pro meu.
- Imaginei que isso não fosse novidade pra você, mas eu não podia deixar de vir aqui e ser mais um a te dizer isso – dessa vez eu o encarei, me deparando com olhos azuis e um rosto bastante jovem. Ele devia ter a minha idade ou ser mais novo do que eu, tinha os cabelos pretos e despenteados propositalmente e um sorriso que eu não pude deixar de achar bonito.
