Parte VI

And now the beat inside of me
(E agora a batida dentro de mim)

Is a sort of a cold breeze and I've
(É um tipo de brisa gelada)

Never any feeling inside
(E eu nunca tive qualquer sentimento)

Ruining me...
(À minha volta…)

Bring my body
(Eu trago meu corpo)

Carry it into another world
(E o carrego em um outro mundo)

I know I live...but like a stone I'm falling down

(Eu sei que eu vivo... mas como uma pedra estou caindo)

Falling – Lacuna Coil

-

Eu estava cansada de tudo aquilo.

Cansada mais uma vez.

E mesmo que as minhas escolhas tivessem sido erradas e só causado dor as pessoas que eu amava, eu só conseguia pensar na minha própria dor. Queria desistir de tudo novamente. Não seria mais uma morte ensaiada. Ninguém sentiria minha falta. Nem mesmo Draco.

Ele queria a antiga Ginny. Essa não era eu.

Mas eu compartilhava do mesmo desapego dela, do mesmo sentimento de que não valia muito a pena existir. Eu não conseguia encontrar uma razão para estar ali. Então eu pensava no modo mais prático de acabar com tudo. O menos doloroso e mais rápido. E ainda que pensasse naquela solução eu desejava me apegar a algo que me fizesse desistir da idéia.

Draco ainda era a minha salvação no final das contas.

Havia prometido silenciosamente que não iria fazer mais ele sentir a mesma dor. Eu desejava fazer com que ele esquecesse suas mágoas. Eu poderia banhá-las de modo acalentador, utilizando do tempo que fosse preciso. Mas aqueles pesadelos não me deixavam imaginar que pudesse existir felicidade para mim em algum lugar. Eu não era tão altruísta assim a ponto de só pensar na felicidade dele e renegar a minha.

Até porque eu sabia que se continuasse tendo aqueles pesadelos iria enlouquecer. Eu não conseguia pensar racionalmente quando eles aconteciam. Chegaria um ponto em que mesmo que Draco me aceitasse de volta eu faria com que ele afundasse junto comigo. Eu não me sentia realmente capaz de fazê-lo feliz.

E parecendo adivinhar que eu pensava nele naquele momento, ele se remexeu em meio ao sono, apertando um pouco os braços inconscientemente a minha volta. Afundei os dedos nas mechas de cabelo platinadas, sorrindo. Mas em seguida fechei os olhos, reprimindo um suspiro que queria escapar, sentindo uma vontade sufocante de chorar.

Eu não iria conseguir fazer aquilo.

Não conseguiria deixar Draco novamente. Mesmo que eu começasse a morrer aos poucos e o levasse junto comigo eu queria estar ao lado dele. Queria poder ter alguns poucos momentos felizes, algumas horas sem lembrar dos pesadelos e eu só conseguiria se ele estivesse comigo. E isso era tão egoísta.

Ele se remexeu novamente, erguendo em seguida o rosto, deixando assim de apoiar a cabeça entre meus seios. Eu sorri do modo mais doce que podia, quando ele me fitou com uma expressão sonolenta para logo em seguida afundar o rosto no meu pescoço e roçar os lábios ali, resmungando algo inteligível.

Eu o amava tanto.

Mas acho que ele não fazia idéia do quanto. Porque ele sempre me olhava como se buscasse mais, como se a minha imagem pudesse se desfazer a sua frente a qualquer momento. Ele não acreditava nem confiava em mim, mas eu sabia que em contradição a isso ele me amava de forma tão completa quanto eu o amava.

- Hey, você está gelada – ele sussurrou abafado, sua respiração contra meu pescoço me fazendo arrepiar.

- Está um pouco frio – apertei Draco entre meus braços como se quisesse me aquecer e ouvi o riso baixo dele ainda tão sem vida.

- Claro, aqui não tem sequer uma lareira...

- Não, mas tem um aquecedor – eu disse, apontando para o aparelho no canto do quarto abaixo da janela mesmo que Draco não pudesse ver por estar com o rosto escondido no meu pescoço.

- Aquecedor?

- Um artefato trouxa que mantém o ambiente aquecido. Mas eu esqueci de ligar essa noite.

- Acho que há algumas horas atrás esse quarto estava aquecido o suficiente para você – ri, visualizando o sorriso malicioso que ele devia estar dando ao dizer isso.

- Você não precisa ir trabalhar, Draco?

- Fui demitido... – ele ergueu-se, saindo dos meus braços e sentando-se na cama e eu protestei internamente por ele não estar mais tão perto. – Já que se ver livre de mim?

Sorri novamente, levando uma mão até o rosto dele e acariciando sua bochecha.

- Você aparece na boate quase todas as noites e só sai comigo no meio da madrugada, então acabamos dormindo a manhã inteira e eu me perguntava de que horas você devia pegar no trabalho. Achei que ainda estivesse no ministério.

- Potter me demitiu há algumas semanas - ergui uma sobrancelha ao escutá-lo, questionando mudamente e ele deu de ombros. – Eu não gostava daquilo lá mesmo, o trabalho chegava a ser maçante.

- Pensei que a profissão de auror era agitada – brinquei, sentando-me melhor na cama e afagando os cabelos dele.

- Já disse a você que não sou um auror. E eu praticamente só ficava com a parte burocrática.

Ele levantou, vestindo a camisa preta, se dirigindo ao banheiro. Aproveitei para levantar também, ligar o aquecedor e ir preparar algo quente para bebermos. Não demorou muito para que Draco saísse e se aproximasse de mim, me abraçando por trás e fazendo com que eu sentisse uma felicidade absurda com o gesto.

Draco não era dado a cenas de afeto, ainda mais quando se sentia magoado. Mas os últimos dias ele parecia ter baixado um pouco a guarda e em despeito da sensação maravilhosa que eu sentia ao receber os carinhos dele, não sabia se ficava contente com isso ou apreensiva.

Era como se as feridas dele estivessem se regenerando aos poucos. Mas eu tinha medo de que a qualquer momento elas voltassem a abrirem. Ele estava se expondo demais, deixando de ser cauteloso, vulnerável como há anos atrás quando deixou que eu entrasse em sua vida pela primeira vez.

E eu tinha certeza que o machucaria sem querer de novo e de novo, em um gesto cansativo e repetitivo.

Me aproveitei dos segundos de carinho que ele me oferecia e encostei a cabeça em seu ombro, fechando os olhos, envolvendo uma das canecas que continha café com as mãos. Depois de mais alguns minutos ele me soltou, ficando ao meu lado e pegando a outra caneca sem parecer realmente com vontade de tomar o café. Eu sorri antes de beber um gole pequeno do líquido quente, sendo fitada por ele.

- Você vai trabalhar hoje? – assenti, fazendo um sinal para que ele bebesse, mas ao invés disso ele passou a mão pelos cabelos, parecendo meio relutante em dizer algo.

- Não vai poder me ver? – perguntei, afastando a caneca e deixando-a no balcão. Draco revirou os olhos ante de me responder.

- Não gosto muito de ver você lá.

- Com ciúmes? – ri, deixando meus braços em volta da cintura dele e ele negou, revirando os olhos pela segunda vez, os lábios crispados. – Você pode me encontrar aqui, vou estar te esperando quando voltar do trabalho.

Ele negou, um suspiro cansado escapando dos lábios antes de sussurrar:

- Eu te vejo por lá...

Eu sorri, entrelaçando nossos dedos, concordando com um aceno. Draco se aproximou mais de mim, afagando meus cabelos brevemente, se afastando em seguida ao murmurar que precisava ir embora.

Mas quando chegou na porta ele se virou, abrindo a boca duas ou três vezes para dizer algo. Eu o interroguei mudamente esperando ele falar até que ele disse em um tom meio irritadiço:

- Você precisa mesmo ir trabalhar hoje?

Eu ri, achando que era alguma cena boba de ciúmes, mas ele parecia desconfortável com algo.

- Você não tem com o que se preocupar, Draco – respondi, tentando tranqüilizá-lo.

- Só tome cuidado – sussurrou, a voz saindo meio cansada, mas sem me dar tempo de dizer mais nada, ele saiu pela porta, fechando-a e me deixando a sós no meu apartamento.


Eu estava atrasada. Muito atrasada.

Eu já devia estar na boate há uns quarenta minutos, mas por volta das oito da noite peguei no sono, enquanto lia um livro na cama e já passava das dez e meia quando acordei em um sobressalto, lembrando que precisava ir trabalhar.

Me arrumei o mais rápido que conseguia, vestindo um casaco e luvas para me proteger do frio e trancando a porta, pronta para descer as escadas correndo. Eu não tinha falado muitas vezes com o novo gerente da boate, mas segundo Milena ele era bem rigoroso. E o que eu menos queria era ter que falar diretamente com ele para explicar o meu atraso e torcer para não ser demitida.

Andei apressadamente pelas ruas quase desertas àquela hora em um típico bairro do subúrbio. Além de tudo estava tão frio que eu duvidada que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso estaria andando pelas ruas de bom grado.

Agradeci internamente ao chegar a boate, entrando pelos fundos e já me livrando das luvas, a temperatura ali dentro mais agradável do que a do lado de fora. Eu já podia ouvir a música que vinha do ambiente mais a frente, mas estranhei o fato de não ter nenhum funcionário ali nos corredores do fundo.

Segui para um dos camarins, rezando pra que ninguém tivesse notado o meu atraso, mas sabendo que isso era impossível. Entrei na pequena sala, vendo Milena largada ao canto em uma poltrona que ficava de costas para a porta e a cumprimentei em um tom baixo não recebendo resposta dela. Ela sequer se virou para me olhar.

Melhor assim. Ela devia estar dormindo, já que com toda certeza não perderia a oportunidade de reclamar por eu ter chegado atrasada.

Tirei o casaco, já com a roupa que usaria aquela noite e me olhei rapidamente no espelho para retocar a maquiagem e em meio a pressa derramei um vidro de perfume que estava em cima da mesa, o barulho dos cacos de vidros se espatifando no chão ecoando pela sala.

Eu não estava mesmo com sorte. Reconheci o perfume como o sendo o de Milena e ela com certeza me esfolaria viva por tê-lo quebrado. Foi só aí que percebi que ela sequer tinha se mexido mesmo com o barulho do vidro se quebrando ou com o cheiro forte e doce que impregnava a sala.

- Milly? – chamei cautelosamente, me aproximando da poltrona, chamando-a pela segunda vez. – Milly? Acorda... – toquei seu ombro, mexendo-a com delicadeza, mas em resposta a isso a cabeça dela pendeu molemente para frente.

Eu gelei antevendo o que aquilo significava mais ainda assim não contive o grito estrangulado que escapou de minha garganta ao virar a poltrona de frente e ver a mancha enorme de sangue no pescoço, colo e na blusa que ela vestia.

Me afastei bruscamente, tapando a boca com uma das mãos e sufocando assim um novo grito. Meus olhos estavam presos ao corpo já sem vida de Milena, um corte profundo em sua garganta, os olhos abertos e esbugalhados em sinal de choque ou dor.

Eu não conseguia reagir. Meu corpo estava completamente entorpecido pela sensação desagradável que se alojava no meu estômago e o aperto que eu sentia na minha garganta, quase me sufocando.

E em um lapso de puro instinto, rapidamente eu me virei de lado, pegando meu casaco e procurando minha varinha em um dos bolsos internos. Haviam matado Milena e eu não sabia se quem tinha feito aquilo não iria voltar e fazer o mesmo comigo por eu ter visto o corpo.

Mas antes mesmo que eu conseguisse pegar minha varinha, senti uma respiração quente contra o meu pescoço e mãos fortes segurando meus pulsos com brusquidão, me forçando a largar o casaco.

- Ah... Eu não faria isso se fosse você, Elanor. Você não vai mais precisar disso – ele sussurrou, próximo a minha orelha aumentando a sensação de pânico que se apoderava de mim. – Eu achei que iria poder me divertir um pouco mais com você...

Eu tentei falar algo ao mesmo tempo em que tentava me soltar do aperto das mãos dele, mas ele me segurou com os braços, me imobilizando, deixando um riso baixo escapar.

- Calminha, huh? E eu prometo não machucar muito você. Quem sabe assim seus pais não podem te enterrar decentemente dessa vez?

- Quem é você? – perguntei em um fio de voz e ele roçou os lábios nas minhas mechas, próximo a têmpora, rindo mais uma vez.

- Você ainda não consegue adivinhar? – ele puxou meus cabelos com força, fazendo com que eu erguesse o rosto para fitá-lo. – Eu achei que você fosse mais esperta... Digamos que por enquanto eu ainda sou o seu gerente... E eu preciso que você me faça um pequeno favor – ele soltou um dos braços procurando algo nas próprias vestes, mas ainda me mantendo imobilizada com o braço restante.

- Vamos fazer assim – ele mostrou a varinha de modo displicente. – Você vai sair daqui comigo quieta e sem escândalos ou então se não quiser cooperar eu posso lançar um Imperius em você.

Eu assenti silenciosamente, vendo o sorrir e passar um braço em volta do meu, me deixando colada ao seu corpo e me puxando para fora dali.

- Por que... Por que você matou Milena? O que você quer?

- Sua amiga trouxa era muito barulhenta e ela teve o azar de me irritar em um momento de mau humor – respondeu em um tom risonho, beirando a loucura.

Ele abriu a porta dos fundos, nem se dando ao trabalho de fechá-la, conjurando em seguida cordas para amarrar minhas mãos, me arrastando até um carro estacionado ali perto. Então abriu a porta, me jogando com força dentro do banco de trás, lançando um feitiço imobilizador.

- O que você vai fazer comigo?

- Logo você vai saber, Elanor... Ou melhor, Weasley, certo? – ele riu, entrando no carro e ligando a ignição, começando a dirigir. – Me pergunto como você conseguiu se esconder durante todo esse tempo. Realmente achamos que estava morta, huh? E nem imaginei que ficar todo esse tempo de olho em Malfoy me traria até você.

Senti novamente a sensação de algo apertando minha garganta, lágrimas começando a se forma no canto dos meus olhos. Só de imaginar que ele podia ter feito algo contra Draco... Machucado ele ou até mesmo...

Solucei em um choro desesperado, tentando inutilmente me mexer e soltar, angustiada só de pensar que algo podia ter acontecido com ele. Eu já tinha desistido de encaixar as peças daquele quebra-cabeça, do por que do novo gerente, o tal do Josh ter matado Milena e parecer saber tanto de mim. E o que afinal ele queria? Nada daquilo fazia o menor sentido.

- Você não está entendendo nada, não é? – ele virou o rosto para trás durante alguns segundo antes de voltar a prestar atenção na direção. – Mas não se preocupe, Weasley. Eu vou esclarecer bem as coisas para você em breve.

Ele parou o carro em frente ao que parecia ser um galpão abandonado e saiu, abrindo a porta do banco de trás, desfazendo o feitiço de imobilização antes de me puxar para fora do veículo com violência.

- É uma pena que eu não vou poder ver a reação de Malfoy quando não encontrar você hoje noite... – ele murmurou em um tom debochado, me empurrando para dentro do galpão velho. – Imagina só o que ele vai pensar...

Eu tentei me soltar dos braços dele, mas ele me apertou, me empurrando com força em seguida, me fazendo bater com as costas na parede, machucando os cotovelos e os braços. Mas eu sequer conseguia sentir a dor tamanho meu desespero em me ver sozinha ali com um assassino.

Ele sorriu, negando com a cabeça ao se aproximar, uma das mãos puxando meu cabelo com violência.

- Eu vou matar você, sua vadia! – ele disse em um tom baixo, trincando os dentes, toda a calma que aparentava antes se esvaindo. – Mas você vai sentir tanta dor antes disso que vai desejar ter morrido naquele incêndio.

- Como você...?

- Você acha mesmo que não me conhece, Weasley? – ele tirou um par de algemas do bolso interno do casaco e puxou meus pulsos ainda amarrados, então prendeu uma das algemas em um cano ali perto e com um feitiço desfez os nós da corda e algemou um dos meus pulsos. – O efeito da poção já deve estar passando. Mas por enquanto eu vou deixar você um pouco sozinha, tudo bem? – acariciou meus cabelos e eu tentei me afastar com repugnância do toque falsamente carinhoso.

Ele se afastou, sorrindo e quando eu me vi sozinha ali, presa e sem ter idéia do que acontecia, voltei a chorar, puxando-o pulso como se fosse possível me soltar, machucando-o, a visão embaçada por conta das lágrimas que não paravam de cair.

Eu não queria morrer. Não dessa vez.

Continua...


N.A: Acho ótimo esse pessoal que favorita uma fic e não comenta [/ironia]

Acho que terça atualizo de novo. E desculpem pelos erros mais uma vez.