Parte VII

Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas
Pra te prender?

Quase um Segundo – Paralamas do Sucesso

-

Quando sai do apartamento de Ginny não consegui ignorar a sensação de que algo não estava certo. Era uma sensação latente. Eu a senti durante todos aqueles dias, mas só hoje era parecia ter realmente despertado em um misto de aflição e desespero. E o desespero parecia ter tomado conta de mim assim que aparatei em casa.

Talvez eu apenas precisasse dormi um pouco e assim quem sabe quando acordasse tudo tivesse voltado ao normal interiormente. Mas por mais que eu tentasse, me revirando na cama, não consegui adormecer. A idéia de que algo não estava certo me consumindo.

Já se passara quase três semanas desde que decidi me render ao que sentia, praticamente me entregando a um relacionamento que não parecia ter a menor perspectiva. E por mais que eu tentasse me manter distanciado emocionalmente, sem que eu me desse conta já estava entregando a Ginny todo o que sentia em gestos e olhares.

Eu não conseguia mais lutar contra aquilo.

Era uma batalha que eu já sabia que tinha perdido há muito tempo. Mas a despeito a tudo isso, aquelas semanas tinham sido como um bálsamo para todas as minhas feridas. Talvez Ginny não soubesse do poder que ela tinha sobre mim, do quanto só estar ao lado dela me fazia ver que talvez fosse possível ela juntar todos os pedaços estilhaçados que faziam parte de mim e colá-los com cuidado.

Provavelmente um ou outro pedaço já estivesse perdido, mas eu podia viver sem isso se ela estivesse comigo.

Eu estava disposto a tentar novamente, esquecer toda a insegurança e o medo de que ela sumisse a qualquer instante. Não me importava mais se aquilo me machucava ou não. Eu só queria estar entre seus braços, poder sentir o perfume suave e doce da pele dela e os carinhos de suas mãos quentes.

E pela primeira vez em anos eu podia dizer que me sentia vivo, ainda que tudo fosse muito novo e eu não soubesse muito bem como lidar com a sensação.

Era estranho constatar que eu não conseguia refrear os planos que já começava a fazer para nos dois, mesmo sem ter conversado sobre nada disso com ela. Eu vinha pensando em pedir a ela para que parasse de trabalhar na boate e irmos morar juntos, por mais que idéia ainda me parecesse surreal demais. Mas era um desejo quase infantil.

Eu estava decidido a construir algo com ela, a fazer tudo do jeito certo dessa vez. Mesmo que eu soubesse que não seria fácil convencê-la a deixar de lado aquela farsa de fingir que ainda estava morta. Porque eu sabia o quanto ela relutaria em largar a vida dela para trás e retornar a antiga.

Mas eu queria algo de verdade e real ao invés de todos aqueles encontros durante a madrugada como se ela não existisse no nosso mundo.

Acabei adormecendo em meio a todos aqueles pensamentos, acordando duas horas depois com fome já que não tinha comido nada o dia inteiro. Ginny conseguia fazer um péssimo café.

Preparei algo com calma, ansioso para que o tempo passasse rápido e eu pudesse ir logo vê-la. Até pensei em ir naquele momento para lá, passar a tarde com ela e quem sabe até tentar convencê-la de não ir aquela noite para boate nem nunca mais.

Passei o resto da tarde, perambulando entediado pelo apartamento, lembrando que eu ainda precisava ir a procura de um novo emprego ou não conseguia pagar minhas contas nos próximos meses.

Aproveitei que estava sem fazer nada para jogar fora alguns papeis da sessão de aurores eu não iria precisar mais, assim eu passaria o tempo e controlaria minha ansiedade. E mesmo com as horas demorando a passar, esperei dar a hora de sempre para só chegar na boate quando Ginny já não estivesse mais dançando.

Eu detestava vê-la dançando ali aos olhos de outros homens. E tinha descoberto que era menos torturante quando deixava parar chegar depois.

Então quando já passava da meia noite, tomei banho e vesti uma calça e camisa social preta, arrumando os cabelos e pronto para aparatar próximo ao local de trabalho dela.

Quando cheguei lá, entrei já correndo os olhos em direção ao bar, onde ela costumava me esperar, mas nem sinal das inconfundíveis mechas ruivas. Caminhei até lá, buscando Ginny com os olhos pelo local e depois de um tempo ali, bebendo e esperando, decidi perguntar ao barman se ela já tinha se apresentado.

Estranhei quando ele disse que ela não tinha se apresentado e lá vinha a sensação estranha de que algo não estivesse certo. Sem esperar por mais nada achei melhor ir logo ao apartamento dela, mas não me surpreendi tanto assim quando cheguei lá e nem sinal dela.

Tudo ao meu redor parecia começar a desmoronar e a primeira coisa que me veio a cabeça foi que ela tinha decidido desaparecer novamente. Mas todas as coisas dela estavam ali, do mesmo jeito que estavam de manhã cedo e eu já não entendia mais nada.

Me sentei na cama, tentando ordenar os pensamentos e poder pensar do modo mais racional possível. Ela não podia ter feito aquilo novamente comigo, não havia razão para isso. Ainda havia os pesadelos que ela tinha quase toda noite, mas ela havia me dito que estava tudo bem, que eles não eram tão ruins como antigamente.

Eu acreditava, mesmo vendo-a pálida, suando frio e com o corpo trêmulo, sem coragem de me olhar nos olhos, me deixando claro que aquilo não era de todo verdade.

Levantei, sem saber se estava irritado com ela ou comigo, e em um acesso de fúria puxei a colcha da cama, jogando-a no chão junto com os travesseiros, um grunhido raivoso morrendo na garganta.

Sem me conter parti para cima da mesinha ao lado, derrubando-a com força no chão, ouvindo o barulho vago de vidro se quebrando. Em poucos minutos eu já tinha desarrumado todo o quarto, derrubando cadeiras e quebrando os poucos objetos delicados que ela tinha, juntamente com o espelho.

Eu sequer havia notado que em meio a toda a minha raiva em algum momento eu cortara um dos punhos, só percebendo isso quando manchei de sangue um dos lençóis brancos bagunçados em cima da cama.

Olhei ao redor, me sentindo mais perdido ainda, algo morrendo sufocado em minha garganta, o peito doendo como o inferno. E sem esperar que todas as lembranças dos momentos em que passara ali com ela invadissem minha mente decide sair dali o mais rápido, bloqueando cada lembrança.

Nada podia ser tão perfeito no final.

Sai do apartamento só então notando o quanto minha mão doía, mas não me preocupei em estancar o ferimento. Eu não tinha idéia do que fazer ou para onde ir, uma sensação de torpor tomando conta da minha mente. A noção de que ela tinha me abandonado mais uma vez tomando uma presença maior nos meus pensamentos.

E mesmo que eu não estivesse tão surpreso assim não conseguia refrear a dor e o sentimento de angustia alojados em meu peito. Eu tinha sido idiota o suficiente a ponto de fazer planos.

Desci as escadas do prédio ainda sem rumo e quando sai do local esbarrei sem querer em alguém que entrava, nem me dei ao trabalho de me desculpar ou olhar e teria continuado o meu caminho, se não tivesse sido chamado.

- Hey! É você, Draco? – senti uma mão tocar meu ombro como se tentasse me virar e quando olhei para trás reconheci imediatamente quem era, mas não pude deixar de ficar confuso sem saber o que ele fazia em um lugar como aquele.

- Zabine? O que faz aqui? – perguntei ainda surpreso por vê-lo na entrada de prédio trouxa e parecendo familiarizado com tudo ali.

- Eu conheço uma pessoa que mora aqui, mas bem, ela está de mudança – ele deu de ombros, as mãos nos bolsos. – Mas e você? Algum trabalho escuso de auror?

Neguei, enquanto pensava no que ele tinha dito. Fazia muito tempo que eu não tinha notícias de Blaise, desde que terminamos Hogwarts. Só sabia que ele tinha viajado para fora da Europa junto com a mãe. Na época da guerra, quando eu ajudava a Ordem, havia suspeitas de que ele fosse um comensal, mas ninguém nunca soube do paradeiro dele naqueles anos, só alguns boatos que surgiam, nada realmente comprovado.

Mas eu sabia que ele tinha feito parte do grupo de comensais que atacaram Hogwarts no meu último ano. E imaginei que Blaise tinha sido um dos, que vendo a dimensão do que era ser um comensal, decidiram fugir. Eu até achava que ele já deveria estar morto há muito tempo e que aqueles não passavam de boatos infundados, já que dificilmente alguém conseguia escapar do Lord das Trevas.

Então Blaise estar tranquilamente em um bairro trouxa, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo e dizendo que conhecia alguém ali não me fazia o menor sentido. Ele tinha um verdadeiro asco a trouxas e qualquer coisa que os envolvessem.

Além do mais Ginny não era burra pra ter escolhido ir morar em um local onde houvesse qualquer outro bruxo por perto. E Zabini com contatos trouxas me parecia um verdadeiro absurdo.

- E você, huh? Um Malfoy andando por esses lados que não seja a trabalho é algo inusitado, não? – perguntou de forma astuta, curvando os lábios em um sorriso zombeteiro, enquanto seus olhos pareciam me avaliar.

Eu não devia estar em um bom estado mesmo: os cabelos desalinhados, a testa suada, roupas amassadas e sangue em um dos punhos.

- É o que se espera de alguém que trai o Lord, certo? – murmurou, ainda sorrindo, o tom de voz saindo cortante. – E você sabe que só será o bastante quando você perde tudo, não é?

Ele deve ter percebido toda a confusão que se passou na minha mente e alargou o sorriso, se aproximando.

- Você achou mesmo, Malfoy, que podia encontrá-la e que a teria de volta? Você não pode ser tão burro assim – e quando a compreensão se fez presente ao terminar de escutar o que ele falava, eu não esperei nem mais um segundo para partir pra cima dele, meu punho indo direto em seu rosto, fazendo-o colidir contra a parede.

Aquilo não podia estar acontecendo. Mas eu não consegui pensar em mais nada enquanto agarrava o colarinho da camisa dele e desferia um segundo soco com toda a violência que possuía. Sequer lembrando que poderia fazer aquilo sem machucar as mãos.

O desgraçado ainda riu, cuspindo sangue e quando eu ia desferir um terceiro golpe ele levantou uma das mãos, a varinha em punho, apontada para o meu coração.

- Acho melhor você me soltar, Malfoy. Se quiser vê-la novamente – ele disse, levando a outra mão até a boca para limpar o sangue e eu o soltei, não querendo imaginar a dimensão do que aquilo significava.

- O que você fez com ela? – em um gesto quase automático, busquei pela minha varinha em um dos bolsos do casaco, mas ele me impediu falando enquanto apontava a dele para mim.

- Até agora nada, mas ouse se mexer ou encostar um dedo em mim que você nunca mais vai encontrá-la viva. Eu não estou sozinho nessa, Malfoy.

- Onde ela está? – eu retirei a mão de dentro do casaco, todos os sentidos em alerta.

- Eu não vou devolver ela viva pra você, mas se for um bom garoto eu posso pensar em pelo menos devolver o corpo dela pra você poder enterrá-la novamente.

Não me contive quando vi o sorriso de escárnio que ele me dava enquanto falava e sem pensar avancei contra ele novamente, mas dessa vez ele revidou e antes mesmo que eu encostasse nele o socando, ele proferiu um Crucius me fazendo cair no chão e me contorcer em dor, minha cabeça latejando horrivelmente, cada nervo da pele parecendo ser espetado diretamente por uma agulha com força.

- Eu só não mato você porque quero ver a sua cara no segundo enterro dela. Você vai perder tudo, Malfoy. Até mesmo sua sanidade.

Registrei vagamente o que ele tinha falado e quando abri os olhos, a vista embaçada e o corpo trêmulo, ele já não estava mais ali. Tentei me levantar, não sentindo a menor firmeza nas pernas, a respiração ofegante e entrecortada.

Quando levantei ainda não conseguia ordenar os pensamentos, o fato de Ginny ter sido pega por antigos comensais, provavelmente atrás de vingança, não sendo totalmente compreendido por mim de imediato. Mas quando a idéia me atingiu um misto de desespero e alivio se fez presente, a dor no peito parecendo ser acalentada por saber que ela não tinha fugido, que aquilo não havia sido escolha dela.

Eu podia quase sufocar enquanto pensava, em meio a toda dor de constatar que para mim era muito mais importante ela estar em perigo do que ter decidido matar o nosso amor novamente.

E toda aquela forma de amar parecia tão errada e egoísta. Eu só pensava em não ser decepcionado novamente, em não me machucar. Era como se só aquilo me importasse.

Mas eu ainda precisa dela ao meu lado, ainda que achasse que ela não merecia um amor como aquele, egoísta e obsessivo. Eu precisava dela para que tudo ao redor fizesse um pouco de sentido. Eu tinha que encontrá-la, vê-la bem, torcer pra que ainda houvesse tempo.

E começando a raciocinar de forma mais precisa, aparatei no único lugar onde eu sabia que encontraria alguém que iria me ajudar, por mais que aquilo me contrariasse. Bati na porta com força e não demorou muito para que eu ouvisse passos vindo em direção a ela junto com alguns resmungos baixos. Ele abriu a porta, com as feições mal-humoradas, ajeitando os cabelos espetados em um gesto automático.

- O que diabos você está fazendo aqui a essa hora? – Potter perguntou, só então me olhando e notando o meu estado, arregalando os olhos. – Que droga aconteceu com você?

- Ginny foi seqüestrada por comensais – apoiei uma mão no batente da porta, fazendo ele se afastar um pouco assustado, arregalando ainda mais os olhos.

- O quê...? – ele pareceu confuso durante alguns instantes, mas logo ficou sério, me olhando de forma preocupada e eu já podia adivinhar o porquê. Certo, eu não devia ter dito daquele jeito, mas não havia tempo para explicações. – Malfoy... Ginny está morta.

- Não, não está! Era tudo mentira. Ela não morreu naquele incêndio. Eu tenho visto ela nos últimos dois meses – ele me olhou incrédulo, abrindo mais a porta e dando passagem para que eu entrasse. – O quê? Você acha que eu estou louco? – entrei, passando uma das mãos nervosamente pelos cabelos.

- Você tem que concordar que o que está dizendo não tem o menor sentido – ele sussurrou, desviando os olhos. – Ela morreu, você estava lá no enterro dela.

- Nós nem vimos o corpo, Potter! Era tudo mentira...

- Claro que não vimos o corpo, ela foi... – a voz dele morreu com um suspiro dolorido e ele voltou a me fitar de forma quase piedosa.

- Ela está viva e mentiu durante todos esses anos. Ela trabalha em uma boate trouxa e mora em um bairro do subúrbio em Londres.

- Chega, Malfoy! Ginny está morta! – gritou, se aproximando de mim e tentando suavizar a expressão. – Não pense que isso é doloroso apenas para você. Todos nós sofremos com a morte dela, mas ao contrário de você continuamos vivendo. E tenho certeza que era isso que ela mais desejava.

- Você não sabe de nada – esbravejei. – Ela está viva! Que parte disso você não entendeu ainda, seu idiota? Ginny armou tudo aquilo. E agora Zabini apareceu dizendo que a seqüestrou, ele vai matá-la. Ele quer se vingar porque eu trai o Lord e...

- Você tem noção de todo o absurdo que está falando?

- Não tenho tempo pra explicações, Potter! Ela está correndo perigo. Mas você quer uma prova de que eu estou falando a verdade, certo? Pergunte a Lovegood, ela sabia de tudo durante todos esses anos.

Ele sentou no sofá, abaixando a cabeça em um gesto cansado e afastando a franja da testa.

- Luna está no Canadá. E eu não acho que vai ser fácil falar com ela, considerando que ela tem o hábito de se meter em povoados bruxos que nem mesmo nós sabemos exatamente onde fica ou se realmente existem.

- Não temos tempo pra isso. Olha, você não perde nada me ajudando. E você sabe que eu não pediria sua ajuda se não fosse algo sério. Eu preciso ter acesso ao ministério para rastrear Zabini e quem está nisso com ele.

Ele negou com um aceno.

- Eu não posso fazer isso. É absurdo demais e eu não vou compactuar com essa loucura! Você tem que aceitar de uma vez por todas que Ginny morreu e se eu te ajudar nisso só vou alimentar essa sua loucura.

- Qual o seu problema, hein? Está com medo de que achem que você está ficando louco de novo?

- Se tem alguém louco aqui é você, Malfoy! – ele berrou, levantando. – Já passa da uma da madrugada e você aparece na minha casa, sujo de sangue, nesse estado deplorável e me dizendo que Ginny está viva? Espera mesmo que eu acredite nisso?

Eu o xinguei de qualquer coisa, desistindo de tentar convencê-lo. Caminhei em direção a portar, mas antes que a abrisse Potter voltou a falar, me fazendo parar e me virar para ele.

- Me leve nessa boate e no local que você disse que ela mora e se tiver algo lá que me faça acreditar nessa história absurda eu ajudo você – ele disse, parecendo relutante. - Amanhã antes de ir ao Ministério me encontro com você e...

- Eu disse que ela está correndo perigo e você quer ir amanhã? Nós precisamos ir agora!

Potter suspirou cansado, mas pegou o casaco largado no sofá e vestiu antes de calçar os sapatos. E sem falar nada, apenas com um semblante extremamente contrariado, ele saiu comigo, aparatando onde eu tinha dito que ficava o apartamento dela.

Subimos as escadas e ao chegar em frente a porta do apartamento de Ginny, tirei a chave que ela havia me dado há alguns dias e tentei abrir a porta, mas o formato da chave sequer encaixava na fechadura. Potter me fitava meio pesaroso como se já soubesse que seria assim e eu inutilmente tentei encaixar a chave mais uma vez.

- Eu estive aqui antes de ir ao seu apartamento.

Ele assentiu com a cabeça, como se não quisesse me contrariar, me fitando com preocupação. Eu chutei a porta com raiva, sem saber o que estava acontecendo.

- Malfoy, chega! Vamos embora antes que apareça alguém e... – eu já ia retrucar, mas mudei de idéia assim como Potter quando ouvi o barulho de chaves do outro lado da porta e alguém abri-la.

Soltei a respiração que sequer havia notado que tinha prendido nos pulmões, uma ínfima esperança me fazendo desejar que fosse Ginny, mas quem apareceu foi uma moça loira, aparentemente da mesma idade que ela, abrindo só uma fresta da porta e nos olhando desconfiada.

- O que querem? – perguntou de modo ríspido. Potter já ia abrindo a boca para se desculpar, mas o interrompi.

- Você conhece Elanor? Ela é quem mora aí.

- Quem? – ela revirou os olhos, deixando um riso debochado escapar. – Eu moro aqui há mais de três anos e nunca ouvi falar de nenhuma Elanor.

- Malfoy, vamos embora – Potter me puxou pelo o ombro, se desculpando com a garota.

- É bom irem logo mesmo antes que eu chame a polícia.

- Esse apartamento nem seu é! – acusei, enquanto ele segurava meu ombro para sairmos dali e a garota batia a porta na nossa cara.

- Malfoy, eu não tenho tempo pra isso. Eu acho melhor você ir para casa e descansar um pouco ao invés de aparecer no apartamento de pessoas que você nem conhece dizendo que é onde Ginny mora.

- Eu não estou mentindo! Eu passei os últimos dois meses nesse apartamento quase todas as madrugadas com Ginny.

Ele bufou irritado, me deixando ali e descendo as escadas, pronto para ir embora, então eu o segui, tentando achar algo que se encaixasse naquela situação enquanto falava.

- Você não percebe que isso tudo deve ser uma armação? Quando eu saí daqui mais cedo, Zabini estava chegando. Ele deve ter feito algo. Talvez aquela garota esteja envolvida nisso, mas não temos tempo para pensar nisso agora. Temos que procurar Ginny.

- Ela morreu, Malfoy! Quantas vezes eu vou ter que dizer isso? Esqueça tudo isso, você nem consegue pensar racionalmente mais. Vamos logo nessa tal boate pra ver se você se convence de uma vez que isso não passa de um absurdo criado pela sua mente – Potter descia as escadas rapidamente, enquanto falava e eu o segui, praguejando contra ele.

Eu devia ser muito idiota mesmo em ter ido pedir ajuda a ele. Mas quem mais eu conhecia que tinha acesso fácil a meios mágicos dos aurores para encontrar alguém?

Não demorou muito para que chegássemos a boate, com ele ainda resmungando o quanto aquilo não tinha o menor cabimento. Assim que entrei no ambiente, andei direto para o bar, indo falar com o mesmo barman de mais cedo que tinha me dito que Ginny não havia aparecido àquela noite. Mas o cara falou que não existia nenhuma Elanor, nenhuma Ginny Weasley, nenhuma dançarina ruiva.

- Como não tem nenhuma dançarina ruiva? Eu falei com você há poucas horas. Ela dança aqui quase todas as noites!

- O senhor deve estar confundindo... Desde que eu trabalho aqui nunca teve nenhuma dançarina com essas características, nem ninguém chamada Elanor.

Potter deixou um muxoxo irritado escapar e já foi logo saindo para fora, me deixando ainda lá tentando arrancar algo do barman. Mas nenhum dos funcionários do local sabia dela.

Sai, encontrando Potter do lado de fora com cara de poucos amigos, os braços cruzados como se esperasse uma explicação.

- Eles devem ter tido as memórias apagadas – respondi, confuso com tudo aquilo e ele retrucou de imediato.

- Eles pareciam normais para terem tido a memória apagada em tão pouco tempo. Pra mim chega, Malfoy! Vê se volta pra casa e dorme. Quando você acordar as coisas estarão melhores.

- Vá a merda, Potter! Eu não estou ficando louco, não fantasie nada disso. Ela está viva, mas se não fizermos nada isso não vai ser mais verdade e a culpa vai ser tudo sua.

Ele deixou um longo suspiro cansado escapar, me fitando uma última vez antes de dizer de forma pausada:

- Vá para casa. E amanhã procure um medi-bruxo – então aparatou, enquanto eu ficava sozinho ali sem ter idéia do que fazer e como encontrar Ginny.

Olhei ao redor em um gesto inútil, como se buscasse alguma solução, o desespero só então parecendo se apoderar por completo, a idéia que de que ela já podia estar morta me atingindo de uma vez.

E eu não podia fazer nada. Não tinha nada ao meu alcance que pudesse salvá-la ou mudar aquele quadro. E por mais perdido que eu me sentisse, sem enxergar nenhuma luz eu não podia desistir assim dela.

Ou eu iria enlouquecer.


Eu não conseguia pensar em mais nada.

Os pensamentos vinham de formas desordenadas, vagas lembranças, dor e gritos.

Era tudo uma confusão. Talvez por conta das poções ou simplesmente porque a minha cabeça era daquele jeito. Eu já não sabia mais.

Quem sabe todos eles não estivessem certos e eu de fato estivesse louco. E a única coisa que parecia fazer sentido para mim é que eu precisava ir atrás de Ginny, saber que ela estava viva e segura.

Mas eles insistiam em dizer que ela estava morta, que tudo não passava de uma história inventada pela minha mente, uma tentativa de refúgio confortável que eu havia criado para de algum modo encontrar paz.

Eles não sabiam de nada no final das contas. Eu havia tocada-a. Ainda podia sentir seu perfume como se ela estivesse ao meu lado. E mesmo que as lembranças não me viessem em ordem cronológica e eu só pudesse vislumbrar um borrão do que tinha acontecido nos últimos meses, eu sabia que tudo era real.

Acho que já tinha se passado uma semana que eu estava naquele local impecavelmente branco. Talvez duas semanas, não sei precisar bem. Eu não tinha noção de horas ou dias ali. Eu sequer sabia dizer quando exatamente eu havia parado naquele local.

Eu só me lembrava com nitidez do dia em que Ginny desaparecera e que eu tinha encontrado Zabine. Os dias seguintes passavam na minha mente tão borrados quantos os meses que antecederam tudo isso. Eu só lembrava vagamente de não ter dormido durantes dois dias em busca de informações, de um modo de achá-la.

Eu até havia contado para os Weasley. Mas todos, assim como Potter, me olharam com pena, como se eu estivesse enlouquecendo. Então nem sei por que fiquei tão surpreso assim quando alguém interferiu me internando na ala psiquiátrica do St. Mungus. Acho que tinha sido Potter ou Granger, alegando que eu não estava em perfeito juízo há um bom tempo já.

Mas quem se mostraria são depois de passar por tudo que eu passei?

Mesmo assim havia horas que eu mesmo duvidava do que tinha vivido, sem conseguir discernir o que tinha sido real ou não, se ao menos algo tinha sido mesmo real.

Eu já estava cansado de gritar para me tirarem dali, de me deixarem achá-la e só me restava ficar a um canto do quarto, vendo o tempo passar vagarosamente, enquanto algo parecia morrer dentro de mim.

E eu já estava preste a desistir de tudo, quando alguém apareceu acreditando no que eu havia dito por conta de uma esperança tola de que a irmã estivesse viva, desejando acreditar que aquilo podia ser possível.

Então foi quase em choque que eu vi Weasley entrar furtivamente pela porta do quarto em que eu ocupava no St. Mungus, parecendo nervoso e atento, os olhos fixos em mim e os punhos fechados em claro sinal de que um lado racional dele relutava em estar ali.

- Ela está mesmo viva? Isso não é um truque seu? – neguei com um aceno, anestesiado com o fato de alguém acreditar no mesmo que eu, não me importando quem era.

- Você não estaria aqui se não acreditasse nisso – respondi, em um lapso de razão e Weasley assentiu, desviando os olhos, parecendo relutante no que iria falar.

- Eu vou te tirar daqui, Malfoy... Mas se você estiver me enganando ou louco eu juro que acabo com essa sua vida.

E depois disso tudo aconteceu muito rápido. Weasley tinha arranjado um jeito de me tirar dali sem que ninguém nos pegasse, sem fazer mais perguntas, parecendo depositar todas as suas esperançar em algo que nem mesmo ele entendia ou sabia o porquê.

Era como se ele agisse por puro instinto, depositando suas esperanças em alguém que ele nem confiava, tateando no escuro incansavelmente até achar o que procurava de forma quase infantil. E eu me deixe levar, uma gratidão velada e que talvez eu nunca fosse admitir, tomando conta de mim.

Não demorou muito para que estivéssemos do lado de fora de hospital, Weasley mostrando uma habilidade que eu não esperava em sair furtivamente dali comigo em péssimas condições.

E ele já estava resmungando que tinha um plano mais ou menos traçado em como encontrar a irmã. Por mais que eu detestasse admitir Weasley era um ótimo auror, meio estúpido, mas sabia fazer bem o trabalho dele.

Mas eu ainda tinha uma pergunta martelando na minha cabeça ao vê-lo fazendo tudo aquilo só pra me tirar daquele lugar.

- Por que? – ele me olhou sem entender e eu expliquei – Por que acredita em mim?

Ele deu de ombros, desviando os olhos e murmurando baixo.

- Nós todos vimos o quanto você ficou... perdido com a morte dela. E quando você chegou contando que ela estava viva... você não parecia mais tão perdido como nos últimos anos.

Não falamos mais nada depois da resposta dele. Mas eu estava grato por alguém acreditar em mim, ainda que não parecesse ser de forma completamente racional.

Continua...



N.A: Só pra esclarecer as coisas: a indireta direta na N.A do capítulo anterior não foi pra ninguém que já tinha deixado review anteriormente, e sim pra quem favoritou e nunca deixou uma review sequer.

Bom, eu sei que o Blaise é o queridinho em fics D/G, ao menos era quando eu costumava ler, mas eu só pensava nele para ser o cara mau.