Parte VIII
When you feel so tired, but you can't sleep
(Quando você se sente tão cansado, mas não pode dormir)
Stuck in reverse
(Preso ao inverso)
And the tears come streaming down your face
(E as lágrimas descem, correndo seu rosto)
When you lose something you can't replace
(Quando você perde uma coisa que não pode repor)
When you love someone, but it goes to waste
(Quando você ama alguém, mas tudo se acaba)
Could it be worse?
(Poderia ser pior?)
Fix you - Coldplay
-
Abaixei o rosto contra os joelhos junto ao peito, encolhendo o corpo devido ao frio. Sequer arriscava a abrir os olhos, sabendo que só encontraria a escuridão na minha frente, presa naquela sala abafada. As lágrimas já tinham cessado há tempos e eu não tinha mais voz para gritar. Só me restavam forças para desejar que eles acabassem logo com aquilo, que me deixassem morrer.
Eu não sabia bem o porquê deles me manterem viva. Se era para se divertir mais com as torturas e abusos ou se eles tinham algum propósito para mim. E eu só podia esperar que uma hora tudo aquilo terminasse.
Já não agüentava mais me arrepiar em sinal de asco toda fez que ouvia o trinco da porta e alguém encapuzado entrava por ela. Eu não reagia mais, mas as vezes não conseguia conter as lágrimas e os soluços sufocados.
E aqueles dias pareciam uma eternidade. Não tinha idéia de dias e horas.
Eu evitava dormir porque sempre tinha pesadelos. Só que as vezes o sono vinha e acho que não demorava muito para que eu acordasse suando frio e com o corpo trêmulo, a boca aberta em um grito mudo.
Me encolhi instintivamente contra a parede quando ouvi o barulho da pesada porta de metal ser aberta. Não arrisquei abrir as pálpebras, sabendo que a claridade que entrava machucaria meus olhos.
Tremi em antecipação quando passos pesados e vagarosos vieram na minha direção e não demorou muito para que alguém se abaixasse, puxando meus cabelos com violência, erguendo assim meu rosto. Mantive os olhos fechados e ouvi uma risada baixa, debochada, antes dele sussurrar em um tom cortante.
- Abra os olhos, vadia – ordenou, puxando mais os meus cabelos e eu comprimi os lábios contendo um gemido de dor – Eu mandei você abrir os olhos!
Obedeci, entreabrindo as pálpebras devagar, mas logo voltei a fechar com a luz bruxuleante que vinha da ponta da varinha dele. Ele riu e pelo timbre da risada eu reconheci como sendo o pior que estava ali. Não era o mesmo cara que havia criado uma identidade falsa como o novo gerente da boate em que eu trabalhava, esse quase nunca eu via.
Mas quase todos os que estavam ali, mesmo encapuzados, me pareciam vagamente familiar.
Não arrisquei abrir os olhos novamente, sentindo-os arder e uma sensação de queimação por conta da sensibilidade a luz. Pude sentir o hálito dele próximo ao meu pescoço, fazendo com que eu me encolhesse uma segunda vez contra a parede.
Eu tentei desligar minha mente do que eu sabia que aconteceria, buscando refúgio em algum lugar secreto ao mesmo tempo em que rezava internamente para que ele não me tocasse.
Mesmo assim eu pude sentir suas mãos ásperas tocando minha cintura, arrastando minha camisa e debruçando parte do corpo na minha direção. Cerrei os olhos com força, a fagulha de esperança que sempre me atingia naquela hora me fazendo desejar que algo me salvasse.
Mas eu não tinha mais fé, não conseguia mais acreditar que aquele tormento acabaria. E eu continuei tentando fazer meus pensamentos vagarem para algum lugar distante, qualquer coisa que eu pudesse me prender. Nada me vinha à mente há não ser os momentos em que passara com Draco, largada na cama e aconchegada em seus braços, sendo embalada pela sensação reconfortante de estar com ele.
E milagrosamente as mãos do homem foram afastada do meu corpo com brusquidão como se ele tivesse levado um choque. Não quis abrir os olhos, mas pude ouvir uma agitação do lado de fora e ele praguejar audivelmente, sua voz ecoando dolorosamente em meus ouvidos.
Só então arrisquei abri os olhos, a visão desfocada e só pode vislumbrar a sombra dele próximo a porta, parecendo tentar abri-la. Eu me alarmei com a possibilidade do que aquela agitação podia significar e o motivo dele estar tão irritado e nervoso. Então, em uma súbita compreensão, gritei, a voz saindo mais baixa e rouca do que eu planejava.
- Socorro! Alguém... – fui interrompida quando o homem encapuzado se virou e lançou um feitiço me silenciando.
- Quieta! – sibilou, se aproximando de mim e tapando minha boca, apertando meu maxilar, mesmo que não precisasse fazer isso devido ao feitiço. Ele ia dizer algo, mas no mesmo instante que abriu a boca para falar, alguém entrou pela porta, falando alarmado.
- Fomos invadidos! Aurores. Não sabemos quantos.
O homem a minha frente xingou audivelmente e eu reconheci a voz de quem tinha entrado como a do mesmo cara que se passava por gerente na boate.
- Só precisamos pegar a chave de portal e sumir daqui com ela – ele me puxou pelos braços, apertando-os ao redor do meu corpo e fazendo com que eu levantasse. – Não tem nada que nos incrimine aqui há não ser ela.
- Malfoy está com eles – eu arregalei os olhos, sentindo uma pontada dolorida no meu peito ao mesmo tempo em que uma sensação de alívio tomava conta de mim. Eu não podia acreditar que Draco estava ali, que ele tinha ido atrás de mim.
- Pensei que você tivesse cuidado dele, Blaise – o homem encapuzado resmungou e o outro respondeu em um tom claramente nervoso.
- Ele conseguiu fugir do St. Mungus. Eu cuidei de todos os detalhes, me ele recebeu ajuda de alguém de fora.
Fui puxada para que voltasse a andar e vi ele fazer um sinal para o homem em frente a porta para que a abrisse.
- E por que você não nos comunicou isso antes de sermos invadidos, seu idiota!?
- Eu fui informado disso no mesmo instante que começamos a ser invadidos, Teodore. E não venha me dar ordens – ele disse, raivoso. – Enquanto você estava ai se divertindo com essa adoradora de trouxas eu estava fazendo o meu trabalho – ao terminar de falar ele me tirou das mãos do outro comensal e me puxou contra ele, me empurrando para que andasse.
- Não estava me divertindo! Estava me certificando de que ela estava bem trancada.
- Poupe-me das suas desculpas furadas. Sei bem que você andou se divertindo com essa traidora do sangue – resmungou, apertando meu braço e cravando as unhas. – Eu vou com ela na chave de portal e você despista os... – mas parou de falar quando um forte estrondo, acompanhado de uma explosão ocorreu na parede ao lado.
Abaixei a cabeça e fechei os olhos, protegendo-os da poeira que começava a subir, deixando tudo cinza. Ele me puxou contra o corpo, protegendo-se.
Tossi, engasgando com a poeira e aproveitando que o comensal que me matinha presa também tinha começado a tossir para tentar me desvencilhar dele, mas ele me apertou enquanto eu me debatia. Até que parei ao escutar a voz conhecida, uma sensação nostálgica tomando conta de mim.
- Harry, você está bem?
Meus olhos encheram de lágrimas quando ouvi a voz de Ron e abri a boca tentando chamá-lo, mas não saiu som algum por conta do feitiço. Eu abri os olhos, vendo que a poeira ainda não havia abaixado e que por conta disso eu não podia enxergar Ron.
- Estou. Onde está, Malfoy?
- Não sei, ele sumiu...
Zabine me puxou, me obrigando andar e tentando ser silencioso, a varinha em punho me ameaçando e me dizendo mudamente para não tentar nada.
Eu estava aflita e em pânico. Saber que Draco, Ron e Harry estavam ali em meio a outros comensais, provavelmente correndo risco, me deixava a beira do desespero. E mesmo assim a sensação de que talvez as coisas não dessem tão erradas para mim, faziam com que eu ansiasse em ser resgatada, depositando todas as minhas esperanças neles.
As lágrimas já corriam soltas, deixando minha vista embaçada e eu quase podia sentir ser puxada em câmera lenta, abrindo a boca para tentar gritar, sentindo o gosto salgado nos lábios.
Eles deviam estar tão pertos e eu nem podia ver. Draco estava ali, a minha procura. Meu irmão estava ali.
E no meio de toda aquela confusão eu podia sentir que tinha uma razão para continuar. Havia pessoas que me amavam, que se preocupavam comigo. Eu tinha sido tão egoísta, pensando unicamente na minha dor, sem perceber que eu havia causado sofrimento as pessoas que me eram mais importantes.
Eu quase podia sentir os braços de Draco ao meu redor, me confortando, me tirando daquele pesadelo, me devolvendo uma vida que eu não sabia que tinha. Então procurei em meio aquela poeira e toda a fumaça, em meio aos gritos e feitiços sendo proferidos. Procurei pelos olhos deles e sua voz, um sorriso quase infantil se formando nos meus lábios com a perspectiva de vê-lo. A sensação de perigo se dissipando, mesmo que eu estivesse sendo segurada com força por um comensal, arrastada até um canto longe de onde eles estavam.
Mas não demorou muito para que eu vislumbrasse primeiro os inconfundíveis cabelos ruivos de Ron quando a poeira já havia baixado um pouco.
- Ginny! – ele me chamou assim que me viu e eu não pude deixar de sorrir, as lágrimas correndo livres pelo meu rosto.
Zabine apertava meu corpo contra a parede, sibilando para eu ficar quieta, seus olhos arregalados ao ver a situação fugindo do seu controle.
- Rápido, Teodore, a chave... – ele esticou a mão apontando um objeto qualquer em uma mesa mais afastada.
- Largue ela, Zabine – ouvi a voz de Harry e quando olhei mais a frente ele estava parado, apontando a varinha, sua expressão confusa por me ver. – Você não vai conseguir escapar, a um esquadrão de aurores no galpão e do lado de fora.
- Você está blefando – Zabine rosnou, virando-se com destreza e me deixando a frente dele como escudo. – Mas um passo e ela já era, Pottter! Eu sei que só você, Malfoy e Weasley estão aqui.
- E mesmo sendo só nos três você não vai conseguir escapar – Ron disse decidido, se aproximando, mas sendo impedido pela mão de Harry em seu ombro indicando calma.
E partir daí tudo aconteceu muito rápido.
Eu não lembrava bem exatamente o que tinha acontecido, só assimilando o segundo estrondo vindo da parede próxima onde estava eu e Zabine.
Ele caiu por cima de mim, mas logo todo o peso do corpo dele foi tirado e eu só pude ver o momento em que Draco o puxava para cima com brusquidão. Tentei chamá-lo, esquecendo que ainda estava sob o efeito do feitiço silenciador assim como havia me esquecido de que ainda havia outro comensal ali.
Ron e Harry também pareciam não ter se dado conta de Nott. Ron veio até mim, me acolhendo nos braços, enquanto Draco jogava Zabine contra a parede e o esmurrava sem piedade.
Mas não demorou muito para que Harry o contivesse, imobilizando Zabine com um feitiço e afastando Draco de cima dele. Eu suspirei aliviada, soltando a respiração que nem havia percebido que tinha prendido, minha visão voltando a ficar turvar por contas das lágrimas que eu tentava espantar, piscando os olhos diversas vezes, aconchegada nos braços de Ron que balbuciava:
- Ginny!? Então era mesmo verdade... Malfoy disse a verdade, você... – murmurou confuso, os braços me apertando com força e eu solucei, contendo o novo choro ao ouvir o tom aflito e perdido dele, os olhos presos aos meus, transbordando emoção, mas me olhando como se ainda não acreditasse que eu estava ali a sua frente.
Então eu me lembrei de que ainda havia outro comensal por ali e olhei em volta assustada não o vendo em nenhum lugar. Ron desfez o feitiço silenciador me olhando de forma questionadora e eu murmurei com a voz rouca e falhada.
- Ainda há outro...
- Ele fugiu, Ginny. Pegou a chave de portal e fugiu quando viu Zabine ser atacado por Malfoy.
Eu assenti ao compreender o que ele havia dito. Ron me levantou com cuidado, quando Harry chegou ao seu lado arrastando Zabine a força e eu virei o rosto para trás procurando por Draco.
Ele estava mais a trás, quieto e com a cabeça baixa. Chamei por seu nome em um sussurro, mas Draco não pareceu ouvir e Ron já me puxava delicadamente para andar, seus braços a minha volta me sustentando em pé, para sairmos do local.
Me abracei instintivamente quando saímos do galpão, o vento gelado da noite fria me arrepiando. Ron notando isso, me soltou para poder tirar o casaco e colocá-lo em volta dos meus ombros enquanto Harry me olhava nervosamente e confuso, mas sem dizer nada.
Ele se afastou arrastando Zabine e eu vagamente ouvi ele murmurar que iria levar o comensal até o ministério e que nos três deveríamos voltar para a casa. Involuntariamente me encolhi com toda aquela situação, temendo as explicações que teria que dar a minha família.
Até mesmo Ron parecia me cobrar isso com seu olhar perdido, ainda que se mostrasse aliviado por me ver bem.
Mas no momento eu só queria estar ao lado de Draco e me refugiar de qualquer problema nos braços dele.
Ele me olhou pela primeira vez e eu me contive para não abraçá-lo e recomeçar a chorar. Mas senti todo o desespero de antes voltar quando ele desviou os orbes azulados de mim a acenou com a cabeça para Ron em uma comunicação muda que eu não compreendia, antes de virar de costas sem me dizer nada e se afastar.
- Draco! – chamei de forma dolorida e Ron me abraçou sem muito jeito como se quisesse me confortar. As lágrimas recomeçaram a cair no mesmo instante em que eu me dei conta de que ele não voltaria, de que continuaria se afastando, indo pra longe.
- Está tudo bem, Ginny. Ele só precisa de um tempo – Ron murmurou e eu sabia o quanto me confortar daquele jeito era difícil para ele, mas tentei me soltar de seus braços querendo ir atrás de Draco. – Há pessoas esperando você em casa, Ginny. pessoas que ficaram muito felizes em ver você.
Eu me virei para fitá-lo quando ele terminou de falar, ainda mais desesperada e de algum modo ele pareceu perceber isso, então voltou a me abraçar ao murmurar:
- Por favor, vamos voltar – pediu e eu me vi concordando mecanicamente, olhando para trás uma última vez só para constatar que Draco já havia sumido.
Talvez ele só precisasse mesmo de um tempo, assim como Ron havia dito. Tentei me convencer daquela idéia, senda levado pelo meu irmão de volta para casa novamente.
Mas eu não conseguia abandonar a sensação de que nada voltaria a ser como antes. Começando por mim e por Draco.
Continua...
N.A: Eu estava com um puta bloqueio pra escrever esse capítulo, enrolando a semana inteira, até que tive um surto e resolvi ouvir Prisoner of Love... E Utada é muito amor, okay!? Aí o capítulo saiu. Eu até queria ter colocado um trechinho da música, mas apesar de ter me inspirado eu achei que não tinha muito haver com o capítulo. [/random]
Eu não usei os nomes de feitiços nem nada para escrever, porque pra falar a verdade ultimamente eu ando completamente desligada de Harry Potter. Então achei melhor não citar diretamente nenhum feitiço pra não cometer erros. Além do mais eu sou péssima com cenas que envolvam ação.
Mas caso algo tenha ficado confuso me avisem que eu tento explicar ou até mesmo ajeitar se for o caso.
Obrigada pelas reviews de vocês, meninas, elas me deixaram muito feliz. E bem, só faltam mais dois capítulo para o termino da fic.
