Parte IX
Peço pelos azuis que não tenho
Todos buscam a tranqüilidade
Apesar de satisfeita, quero mais
Eu persigo a sombra do amor.
Prisoner of Love – Utada Hikaru
N.A: Assim, eu não costumo interferir nisso, porque considero algo pessoal e tudo mais, mas se vocês puderem ler a fic ouvindo One more kiss, dear do Vangelis eu acho que ficaria legal.
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Parei de andar, meus olhos presos a casa a frente, os pés hesitantes em continuar seguindo adiante. E não segurei o suspiro cansado que escapou de forma audível, me perguntando internamente se eu devia mesmo estar ali.
Durante todo aquele mês aquele era o lugar que eu mais desejara estar, mas agora que tinha finalmente reunido coragem para confrontar minhas incertezas diretamente eu já não sabia se aquilo era mesmo o mais certo.
Porque eu tinha a sensação de que eu e Ginny estávamos tentando algo que já tinha se perdido há muito tempo.
Eu me perguntava se agora que ela estava bem, em casa e segura, se iria realmente precisar de mim ao seu lado, provavelmente lembrando-a de algo que nunca havia dado certo. E eu começava a achar que deveria parar de pensar nas minhas vontades e esperar para ver o que Ginny faria dali em diante.
Ela podia ir atrás de mim, dizer que precisava que eu estivesse ao seu lado tanto quanto eu precisava estar ao lado dela. Então eu aceitaria aquilo e nós tentaríamos compartilhar uma vida junto, em meio a alguns erros. Mas ela não havia me procurado durante aquele mês. Ela tinha me deixado ir.
Talvez Ginny precisasse de tempo assim como eu. E tivesse os mesmo receios que a impediam de ir atrás de mim e questionar o que seria de nós dois dali em diante.
Porque todos aqueles sentimentos e receio eram reais e assustadores demais para conseguirmos lidar de maneira lógica ou com facilidade.
E mesmo com todo o medo de que tudo afundasse mais uma vez, eu tinha decidido ir até ali, cansado de pensar e consciente de que tempo nenhum seria suficiente para nos ensinar como lidar com o que sentíamos sem mágoas.
Eu quase havia perdido Ginny de verdade há semanas atrás. E eu ainda podia sentir claramente as sensações que me acometeram durante os dias em que me vi prestes a perdê-la de uma vez. E nada podia sobrepor esse medo, nem mesmo a minha insegurança a respeito do nosso futuro.
Ergui os olhos, respirando fundo antes de recomeçar a andar em direção a casa estranhamente torta. E ao bater na porta, esperei impacientemente ser atendido, os segundos parecendo correr lentamente. Até que finalmente a porta foi aberta pela mãe de Ginny que me olhou de forma receosa.
Sem dizer nada, ela deu passagem para que eu entrasse, fechando a porta e enxugando suas mãos no avental. A olhei sem saber o que dizer, mas provavelmente ela já sabia o motivo que me fazia estar ali. Mesmo assim ela perguntou com a voz calma, um sorriso sereno no rosto me deixando desconfortável.
- O que faz aqui, Draco?
- Duvido que não saiba.
Não que eu me desse extremamente bem com os Weasley, mas depois de todo aqueles anos partilhando da mesma dor por perder Ginny, minha relação com os pais dela era de cordialidade e até mesmo uma certa afeição vinda da mãe dela, já que eu passara vários meses escondidos na sede da Ordem da Fênix. Então havia muitas formalidade, além de tudo eu nunca gostei de rodeios.
A Sra. Weasley suspirou pesadamente, me olhando ainda de forma serena, mas parecendo meio relutante.
- Você não sabe o quanto estamos gratos pelo que fez por Ginny, Draco... Até agora não conseguimos acreditar que ela está aqui... – ela parou de falar, a voz tornando-se um pouco embargada ao continuar. – Ver nossa filhinha viva foi o maior presente que poderíamos receber.
Abaixei o rosto, ainda mais desconfortável com aquela situação, só podendo imaginar o choque e alívio que eles deveriam ter sentido ao ver Ginny entrando pela porta de casa junto com Weasley.
- Mas ela ainda está se recuperando de tudo, então eu e Arthur andamos conversando, e achamos melhor que você devia se afastar dela por enquanto.
Arqueei uma sobrancelha, tentando entender o que ela havia dito.
- Se Ginny quiser que eu me afaste dela, eu farei isso. Mas não porque a senhora decidiu que assim é melhor.
- Ginny não está em condições de decidir nada... Ela precisa de descanso e ficar aqui com a família dela.
- Não vou atrapalhar nada disso – resmunguei, qualquer respeito ou cautela sendo deixados de lado.
- Draco! – ergui o rosto em direção a escadas, vendo Ginny surgir no final da escada, tão surpresa quanto eu. – Eu... eu achei que você não viria... eu... – ela me olhou angustiada e eu me contive para não ir abraçá-la, sorriso aliviado internamente só de vê-la bem.
- Ginny, meu amor, volte pra cama, você precisa descansar – A Sra. Weasley pediu, passando na minha frente e subindo as escadas em direção a ela.
- Eu já descansei o suficiente, mamãe – ela murmurou parecendo meio contrariada, os olhos ainda na minha direção.
A Sra. Weasley deu um suspiro e se afastou descendo as escadas em sinal de derrota, indicando para que eu subisse, mas me lançando um último olhar apreensivo.
Subi as escadas, sentindo algo bater forte no peito a cada passo, a vontade de abraçá-la aumentando. Mas estávamos tão quebrados internamente que acho que ambos tínhamos receio desse contato.
Ela subiu os degraus restantes e eu a segui até entrarmos em seu quarto. Ginny fechou a porta, encostando-se nessa, a cabeça abaixada, me fazendo sentir falta do seu olhar.
Me aproximei dela com cautela, a ponta dos meus dedos tocando sua bochecha em um leve roçar, sentindo-a estremecer mesmo que o toque fosse tão suave.
- Eu pensei... pensei que você não quisesse mais me ver... – começou a falar, a voz trêmula e baixa. – Ron me contou tudo. Disse que ninguém tinha acreditado em você, mas que você tinha falado com tanta certeza que ele não pode ignorar. Mas aí naquele dia você foi embora...
Eu me aproximei mais, tocando seu rosto com a palma da mão e pela primeira vez desde que estávamos a sós ela levantou a cabeça, me encarando com incerteza. Inclinei o rosto na direção do dela, prestes a fechar os olhos, mas antes que fizesse isso, Ginny espalmou delicadamente as mãos no meu peito em sinal para que eu parasse.
A fitei sem compreender e ela desviou os olhos dos meus, retirando suas mãos do meu peito para se afastar ir até a cama, sentando na beira do colchão.
Virei ficando de frente para ela, perguntando mudamente o que estava acontecendo e notei o quanto suas mãos estavam trêmulas ao enroscar os dedos na colcha de retalhos ao falar:
- Eu senti tanto a sua falta esses dias.
- Eu precisava pensar em tudo o que aconteceu e acho que você precisa desse dias também – ela assentiu, abaixando o rosto.
- Na hora que você foi embora eu não entendi isso, mas depois eu percebi que não dava pra simplesmente levar a diante.
- O que você quer dizer com levar a diante? - perguntei, tentando esconder o tom alarmado diante do conformismo dela.
Então ela voltou a me encarar, um sorriso meio triste nos lábios.
- Você acha mesmo que a volta para o que vivemos antes? – ao invés de responder sua pergunta eu me sentei ao seu lado na beira da cama, fingindo a mim mesmo que eu não entendia sobre o que ela estava falando quando na verdade eu entendia bem até demais.
- Nós estamos aqui, não estamos? Não tem nada que nos impeça...
- Draco... – ela me interrompeu, sua mão buscando a minha e eu senti seus dedos quentes apertarem a palma da minha mão. – Talvez o que tivemos anos atrás não seja mais pra ser vivido agora, entende? Eu não sou mais a mesma. Você não é mais o mesmo. Nós dois estamos tão...
Quebrados. Completei em pensamento.
E eu sabia o quanto ela estava certa. Nossas mágoas sempre existiriam, assim como os medos dela.
Os pesadelos continuaram assombrando-a e eu iria me sentir inútil por não poder fazer nada diante daquilo, há não ser puxá-la para os meus braços e confortá-la até que ela voltasse a dormir.
Sempre haveria aquela melancolia em seu olhar e em alguns momentos eu me sentiria frustrado por não conseguir apagar aquilo nela.
E era por isso que talvez nada fosse dar muito certo para nós dois.
- Você sabe sobre o que eu estou falando, não é? – e aquilo era mais uma afirmação do que uma pergunta. Assenti, abaixando os olhos e direcionando-o para nossas mãos entrelaçadas.
- Então, você acha que só podemos ficar juntos se houver felicidade absoluta? - Ginny permaneceu em silêncio, sua outra mão brincando com a colcha e eu suspirei um pouco inconformado. – Eu acho que isso não existe pra casal nenhum. Eu não vou poder te fazer feliz o tempo inteiro, nem fazer com que você esqueça tudo o que passou. Mas eu posso estar ao seu lado quando tudo estiver difícil demais de suportar.
Ergui os olhos a tempo de vê-la sorrir, seus orbes castanhos brilhando com lágrimas não derramadas.
- Eu não sei se vou conseguir estar ao seu lado quando as coisas estiverem difíceis pra você – confessou e eu neguei com um aceno leve.
- Não seria muito diferente então se você não estiver por perto. Mas eu posso tentar lidar com isso sozinho.
- Mas não seriamos um casal completo se eu não te apoiasse também.
- Não precisamos ser completos, Ginny. Uma parte é melhor que nada – ela riu baixo, aproximando o rosto do meu sem perceber, o som da sua risada fazendo-a parecer mais viva.
- Acho que você só está procurando motivos para se apegar a algo que não existe mais – sussurrou ao parar de rir e eu apertei sua mão suavemente em um gesto quase inconsciente.
- Meu amor por você ainda existe.
Ela fechou os olhos, deixando que as primeiras lágrimas escorressem por seu rosto e entreabriu os lábios como se quisesse dizer algo, mas logo voltou a comprimi-los.
Puxei seu corpo desajeitadamente para perto contra os meus braços, abraçando-a apertado de forma sôfrega, murmurando frases incompreensíveis.
A ouvi tentar conter um gemido dolorido, seu corpo tremendo ao corresponder ao abraço, me agarrando com a mesma força e murmurando seguidos pedidos de desculpas aos quais eu não compreendia a razão.
Seu rosto afundou em meu peito e meus dedos acariciaram suas mechas ruivas. Abaixei o rosto, meus lábios roçando em sua testa e eu até podia dizer que aquele abraço já era mais do que suficiente para mim. Eu não precisava mais de conforto algum se pudesse abraçá-la daquele jeito a cada dia que estivéssemos juntos.
Ginny ergueu o rosto e eu me afastei apenas o suficiente para fitá-la, apoiando a palma da mão em sua bochecha, limpando o rastro de lágrimas que havia ali.
- Enquanto... enquanto eu estive presa – ela começou a falar, a voz embargada e os lábios trêmulos. – Eles... fizeram coisas...
- Shhhh – pedi, roçando meus lábios aos dele e sussurrando. – Eu sei... você não precisa me falar se não quiser.
Eu sabia que talvez ela precisasse contar sobre aquilo, mas eu desejava que ela não o fizesse porque eu não tinha idéia de como lidar com os possíveis fatos. E internamente eu pedia que confortá-la entres os braços ajudasse de alguma forma. Eu só queria fazê-la esquecer de tudo, ainda que soubesse que isso não era possível.
Seus olhos buscaram os meus e eu vi o esforço que ela fazia para conter as lágrimas e voltar a falar, provavelmente sentindo as palavras sufocarem na garganta antes de chegarem aos lábios.
- E-eu... eu estou grávida, Draco – sussurrou dolorosamente e naquele instante eu pude sentir o chão sumir dos meus pés, enquanto algo sem o menor sentido ecoava na minha cabeça. – E eu não sei se é seu.
Meu corpo paralisou quando eu finalmente compreendi suas palavras, o real sentido daquela frase me atingindo e me mostrando o quanto nada daquilo estava ao meu alcance.
- Você entende agora porque eu digo que não há mais volta? – me perguntou, suas lágrimas cessando, mostrando o quanto ela tentava se manter no controle em meio a toda aquela realidade.
Ginny me soltou, saindo dos meus braços e se afastando um pouco, deixando de olhar nos meus olhos.
- Mas ainda há uma chance de ser meu, não há? – perguntei, me apegando a uma fagulha ínfima de esperança. Ela continuou em silêncio e eu me perguntava por que tudo tinha que ser sempre tão difícil e errado quando se tratava de nós dois.
- E se não for, Draco? E se...
- Isso não importa! – interrompi, quase gritando, apertando a colcha da cama com força entre as mãos. – Não importa... Eu não ligo. Sério, Ginny, eu não ligo – murmurei, tentando acreditar nas próprias palavras.
- Eu ligo... – ela sussurrou com dificuldade e eu a puxei novamente para os meus braços, tentando com aquele gesto mostrar que eu não me importava com aquilo. – Isso tudo é tão difícil. Eu...
- Eu já disse que vou estar ao seu lado, mesmo que seja difícil. Apenas deixe que eu esteja com você – pedi mesmo que não compreendesse o peso daquela sentença, sem saber o que nos esperava dali em diante.
- Eu acho que não podia existir um amor mais errado e certo do que esse – apertei meus braços ao redor dela com força ao escutá-la, assentido em concordância mesmo que ela não pudesse ver.
Eu sabia que não estava aceitando aquela situação por inteiro, mas realmente não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eu só poderia permanecer ao seu lado o tempo que ela me permitisse, só então entendendo pela primeira vez o que era amar tanto uma pessoa a ponto de se anular.
Ginny deitou sua cabeça no meu ombro, me deixando embalá-la suavemente enquanto ela chorava sem fazer barulho.
E aquela seria a nossa nova vida.
Tão imperfeita como éramos, mas a única que ainda fazia com que sentíssemos vivos o suficiente.
Continua...
N.A: E antes que vocês me apedrejem, não esqueçam que ainda há o último capítulo.
E mais uma vez obrigada pelas reviews!
