Parte X

We might live like never before

(Podemos viver como nunca antes)
When there's nothing to give
(Quando não há nada a perder)

Well how can we ask for more
(Bem, como nós podemos pedir mais?)

We might make love in some sacret place
(Podemos fazer amor em algum lugar sagrado)

The look on your face is delicate

(Sua expressão é delicada)

Delicate – Damien Rice

-

Encostei na soleira da porta, correndo os olhos pelo pequeno jardim. E não contive o sorriso leve ao ter ar pernas abraçadas e apertadas por pequenas e rechonchudas mãozinhas.

Abaixei um pouco, pegando Dean no colo e me sujando com a terra que estava na sua roupa assim como em suas mãos. Então apertei suavemente meus braços ao redor dele, fazendo o rir como quem sabe que aprontou uma travessura.

- Você fugiu de novo, pequeno – murmurei em tom divertido, vendo-o exibir alguns dentinhos de leite enquanto ria de maneira gostosa, os olhos brilhando vivamente.

Entrei, fechando a porta da cozinha para que Dean não escapasse novamente e o debrucei sobre a pia para poder lavar suas mãos sujas de terra. Ele riu, balbuciando sobre a água estar fria, as poucas palavras que havia aprendido ainda saindo com dificuldade.

Voltei a ajeitá-lo nos braços, seus pequenos bracinhos circulando meu pescoço ao deitar a cabeça no meu ombro e o ouvi bocejar. Eu ainda me surpreendia o quanto ele podia ficar elétrico por horas e de repente simplesmente cair no sono.

- Não durma agora, Dean, eu ainda vou dar banho em você. Está todo sujo – pedi, mesmo sabendo que era inútil, enquanto ele se ajeitava melhor nos meus braços.

Preparei seu banho, checando a temperatura da água antes de colocá-lo na banheira, vendo-o sonolento e quase dormir mesmo que eu estivesse dando banho nele. Dean era uma criança quieta e comportada com exceção da mania de fugir para o jardim e ir brincar com terra.

Fora isso ele não costumava me dar muito trabalho desde que nascera. Chorava pouco e tinha um sono calmo. Em seus primeiros meses de vida eu acordava no meio da madrugada para checar se ele estava bem. As vezes eu chegava no berço e ele estava acordado, brincando quieto com as próprias mãozinhas, como se não quisesse incomodar ninguém.

Quase nunca ele acordava chorando a noite como a maioria dos bebês, nem mesmo quando sua fralda estava molhada. No começo eu me preocupei com esse comportamento, mas ele era uma criança perfeitamente saudável, apenas quieta demais pra sua idade.

Terminei o banho, enrolando-o com cuidado na toalha felpuda, vendo que ele já ressonava baixinho, seu peito subindo e descendo compassadamente. O acomodei melhor nos meus braços, sorrindo ao ver seu rostinho tão calmo em meio ao sono.

O vesti com o pijama azul de ursinhos, indo com ele até o meu quarto, relutando em deixá-lo no berço. Draco dizia que eu era exageradamente apegada a Dean e que isso poderia ser prejudicial a ele no futuro.

Eu concordava com ele ao dizer que eu era exagerada, mas não é como se eu pudesse ser diferente. Eu tinha que checar quase o tempo inteiro se Dean estava bem, com fome ou sentindo dor, já que ele dificilmente chorava e mesmo agora já sabendo falar algumas palavras ele quase nunca se queixava de algo.

Uma vez eu li algo que dizia que bebês sentem tudo o que a mãe sente quando ainda estão na barriga. Então as vezes eu me pegava perguntando se Dean não era quieto e tinha aquele jeito de nunca querer incomodar ninguém, ainda que fosse novo demais para entender sobre isso, por conta dos momentos em que eu achara aquela gravidez um erro e que aquela criança não devia existir.

Talvez Dean tivesse sentido isso e achasse que era uma criança indesejada. Mas quando ele nasceu, quando eu ouvi seu choro pela primeira vez e o colocaram nos meus braços, eu já sabia que o amava e que a partir daquele momento ele era o que mais importava na minha vida.

Não importava a forma como ele havia sido concebido. Ele era o meu bebê, ele precisaria de mim, do meu amor e não tinha culpa de nada do que tinha acontecido no passado. Eu o amava incondicionalmente.

Deixei Dean deitado ao meu lado na cama, afagando suavemente seus cabelos ruivos, enquanto esperava Draco voltar do trabalho, o jantar já pronto.

Vivíamos em uma casa localizada em um povoado pequeno da Grã Bretanha, longe o suficiente de onde os meus pais moravam. Eu tinha dito a Draco que não queria estar perto deles durante a gravidez. Aquilo já era difícil o bastante para eu ainda ter que lidar com as preocupações dos meus pais ou os questionamentos da minha família sobre a razão de ter forjado uma morte anos atrás.

E mesmo após o nascimento de Dean eu tinha achado melhor permanecer ali, pensando em cuidar dele com toda a tranqüilidade que o local me proporcionava.

Eu sabia que talvez aquele não fosse realmente o lugar que Draco gostaria que estivéssemos, mas ele nunca havia reclamado ou proposto algo diferente. A única coisa que ele reclamava era a respeito do seu trabalho entediante e burocrático no Ministério. Ele havia conseguido de volta seu antigo emprego, provavelmente como um pedido de desculpas de Harry por tê-lo internado quando afirmou que eu ainda estava viva.

Mas eu imagino o que deve ter se passado pela cabeça de Harry ao ver Draco transtornado e dizendo que eu estava viva. E ele não deve ter parecido nem um pouco são quando levou Harry em busca de provas que dissessem que eu estava viva todo aquele tempo e na hora acabar encontrando nada, além de pessoas que diziam com toda segurança nunca terem me visto.

Eu não fazia idéia de como os comensais fizeram para apagar todos os meus rastros em tão pouco tempo, mas a intenção deles era claramente enlouquecer Draco em alguma espécie de vingança.

E acho que se não fosse por Ron, que de alguma forma acreditou ou se forçou a acreditar nele, eu e Dean não estaríamos aqui. Acho que Draco nunca agradeceu a Ron e eles deviam ter alguma espécie de acordo mudo entre eles de nunca tocarem no assunto.

Dean se remexeu em seu sono, agarrando com os dedinhos a manta que o cobria. Eu agradecia ao meu irmão por ser o único a acreditar em Draco sempre que olhava para Dean brincando sorridente, os olhos, tão idênticos aos de Draco, brilhando a cada nova descoberta.

Levantei da cama, quando ouvi barulho de passos na andar de baixo, indicando que Draco tinha acabado de chegar. Sai do quarto, não sem antes dar uma última olhada em Dean, me certificando que ele dormia bem, então desci as escadas para encontrar Draco.

Ele estava tirando o casaco quando apareci no último degrau, parecendo cansado e resmungando baixo a respeito de algo. Desci silenciosamente e sem que ele percebesse me aproximei, abraçando-o por trás, sentindo-o retesar o corpo em surpresa, mas relaxar quase no mesmo instante.

Sem dizer nada, afundei meu rosto em suas costas, enquanto ele acariciava meus braços, igualmente em silêncio. Alguns segundos depois o soltei, deixando que ele subisse as escadas, sabendo seus gestos e o que ele faria de cor mesmo que eu não estivesse olhando.

Primeiro ele desabotoaria a camisa de forma preguiçosa e seguiria para o banheiro indo tomar banho. Ao sair se enxugaria e entraria no quarto em busca de alguma roupa limpa, vestindo-a e ao terminar de arrumar os cabelos desceria para jantar.

Eu já tinha posto a mesa e só esperava Draco descer para começarmos a comer, notando que ele estava demorando mais do que o normal. Decidi ir ate lá em cima e esperá-lo no quarto, imaginando que tinha tido mais um daqueles dias extremamente difíceis no trabalho em que o fazia ficar um tempo na banheira tentando relaxar.

Mas ao chegar no quarto encontrei Draco já vestido e sentado na cama, brincando com os dedos nas mechas ruivas de Dean, que parecia acordado, uma de suas mãozinhas apoiada na perna do pai, os olhinhos azuis ainda sonolentos.

Sorri bobamente diante da cena a minha frente, algo aquecendo em meu peito ao ver a forma carinhosa com que Draco afagava os cabelos de Dean.

- Quando cheguei ao quarto ele estava começando a acordar – ouvi Draco dizer e só então percebi que tinha permanecido parada na soleira da porta, distraída os observando. – Estava meio choroso, mas não fez barulho algum.

- Ele dormiu enquanto eu dava banho nele. Deve ter estranhado ter acordado aqui – caminhei até a cama, sentando na beira do colchão e Draco desviou os olhos até mim, sem parar de acariciar os cabelos de Dean. – Acho que ele está com fome e por isso acordou.

Draco esticou a mão livre até mim, me puxando para perto e inclinando o rosto na minha direção, selando nossos lábios em um beijo carinhoso. E ao se afastar, puxou Dean para o colo, fazendo com que ele sentasse, o rostinho emburrado, provavelmente enjoado por conta do sono.

- Está com fome, Dean? – perguntou, levantando com o nosso filho no braço e Dean apenas assentiu, tombando a cabeça para a frente e apoiando-a no ombro do pai. – Eu dou a mamadeira dele enquanto jantamos.

- Já estou descendo – murmurei, levantando também, deixando que ele que descesse na frente enquanto eu arrumava a cama.

Eu sabia o quanto Draco se sentia aliviado todos os dias por saber que Dean era filho dele. Era o mesmo alívio que eu sentia. A única diferença era que eu amararia Dean do mesmo jeito, independente de qualquer outra coisa.

Quanto a Draco, eu não sei ele também conseguiria amar Dean como um filho se ele não fosse seu de verdade. Eu tenho certeza que ele me ajudaria a cuidar de Dean como me prometera no dia em que contei que estava grávida. Mas eu também sabia o quanto tudo aquilo era difícil para ele e que ele sequer entendia as razões que o levaram a tentar aceitar aquela situação.

E quando ainda havia a incerteza de que o filho não fosse dele, eu só consegui levar aquela gravidez até o fim porque Draco estava ao meu lado, me apoiando e me confortando quando tudo ao meu redor parecia prestes a desmoronar.

Ele tinha guardado todas as suas mágoas e seus receios, negligenciado sua própria dor, unicamente para me manter firme como havia me prometido. E eu o amava ainda mais por isso.

Porque ele estava dando chance a algo que ele mesmo não conseguia compreender, tateando no escuro e esperando pacientemente o momento em que tudo começaria a se acertar ou simplesmente desmoronaria de uma vez.

E nós tivemos a sorte de que tudo tinha dado certo no final, vendo pela primeira vez, com o perdão do clichê, que nem tudo ao nosso redor estava perdido.

Sai do quarto e ao chegar na sala Draco já estava na mesa, sentado em uma cadeira, dando mamadeira a Dean que se encontrava em seu colo de olhos fechados, quase dormindo.

Sentei ao lado, com um sorriso, me servindo em seguida e fazendo o mesmo para Draco já que ele alimentava Dean.

Eu ainda me pegava me perguntando se tudo aquilo era mesmo real, se eu tinha mesmo aquela vida tão normal e agradável depois de tudo o que passamos. Mas só me restava a certeza a cada gesto carinhoso que eu recebia de Draco ou a cada sorriso de Dean, o som de seu riso ecoando deliciosamente nos meus ouvidos.

Terminei de servi o prato de Draco, ao mesmo tempo em que ele terminava de dar a mamadeira para Dean e o colocava de bruços com a cabeça apoiada em seu ombro, tão exageradamente cuidadoso quanto eu, apesar de não conseguir enxergar isso em si mesmo.

Como Draco havia dito uma vez, aquela era a nossa vida.

Ainda havia os momentos em que eu mergulhava em um mundo só meu, tentando me esquecer das lembranças amargas, mas Draco sempre estava ao meu lado, em silêncio, me confortando.

Mas a minha vida com ele e com Dean superava todos aqueles medos.

E em algum lugar da minha mente eu podia dizer secretamente que era verdadeiramente feliz por mais quebrada que estivesse por dentro.

E eu ia reconstruindo parte por parte delicadamente, pedindo refúgio nos braços de Draco quando os pesadelos voltavam me fazendo achar que poderia voltar a estilhaçar.

FIM



N.A: alguém pensou que o filho não seria do Draco no final? Eu não seria tão cruel assim, certo? (Ah, Marci, você sabe que eu sou boazinha! Eu até pensei nisso, mas não iria conseguir escrever algo assim).

Bom, como eu já havia dito há algumas pessoas, depois que eu terminasse de publicar Delicate eu não publicaria mais nenhuma fic D/G. Então, essa é a última. Talvez um dia eu volte, mas acho isso muito remotamente difícil, na verdade pra ser sincera eu acho impossível voltar. Apesar de amar o casal eu já perdi o ânimo de escrever com eles há muito tempo. Eu até tenho planos pra outras fics, mas não tenho mais projetos ou planos para algo no fandom de HP. Então acho que isso é uma despedida pra quem acompanhou essa fic e as anteriores.

Vocês me deixaram muito feliz em vários momentos e eu tenho muito a agradecer a todos que abriram mão de um tempinho pra deixarem alguma review em qualquer uma das fics ou mandou algum e-mail. A quem também me adicionou no msn, puxou minha orelha ou sempre me incentivou e me divertiu. Aos que tiveram paciência em esperar por atualizações (e mais uma vez eu peço mil desculpas pela demora). E a pessoa especial que me fez voltar a escrever depois de meses sem conseguir abrir uma fic sequer minha e tentar terminá-las, mesmo que não tenha idéia desse fato.

Eu adorei escrever todas as fics, me diverti muito enquanto as fazia e tenho um carinho especial por cada uma delas, assim como tenho pela Lou, Rafinha, Cah e ChunLi, pessoas que eu nunca poderia deixar de citar.

E me desculpem por essa N.A. gigante.

Obrigada mais uma vez!