Capítulo XVIII
A Visita
Londres, 22 de julho de 19..
Querido diário,
Essa noite tive um sonho terrível. Eu estava trancada em um quarto escuro e gritava para me soltarem. Cada vez que eu gritava o quarto diminuía. Então eu ficava com medo e gritava mais e o quarto diminuía mais um pouco. Quando parecia que eu ia sufocar um homem abriu a porta e me deixou sair. Ele não tinha rosto, só me lembro das suas vestes negras.
Acho que tenho que parar de ouvir as histórias da Marge. A de ontem foi impressionante. Não parei de pensar no professor, ainda criança, vivendo sozinho com um louco durante tantos anos.
Acho que a Sra. McFly percebeu a minha cara cansada por falta de sono e por isso me mandou tirar a tarde livre. Vou aproveitar e explorar a Floreios e Borrões, quem sabe encontro algum livro de poções com um bom desconto?
Elizabeth passou a tarde folheando livros mas não encontrou nada com um preço compatível com seu salário. Ela precisava economizar porque esse ano planejava comprar todo o material sozinha, sem precisar da ajuda do Prof. Dumbledore. Antes de voltar para a loja passou pela Florean Fortescue e comprou um enorme sorvete de nozes. Levou também um pacote de pequenos chocolates recheados, que a Sra. McFly apreciava, como agradecimento pela tarde livre.
Assim que entrou na Potes e Caldeirões, com o sorvete em uma das mãos e os chocolates na outra, percebeu que a dona da loja não estava sozinha. Sentado ao lado da bruxa, na mesa onde elas costumavam fazer as refeições, estava Severo Snape. Ele se levantou quando Elizabeth chegou e olhou para ela sem dizer uma palavra. Foi Marge quem primeiro falou:
- Se esse pacotinho é que estou pensando eu fico muito agradecida – e foi tirando os chocolates da mão de Elizabeth quando a moça acenou afirmativamente. – Chocolates recheados são os meus favoritos. Vou lá dentro preparar o jantar e vocês dois podem ir colocando a mesa.
A bruxa deixou a sala antes que qualquer um dos dois pudesse discordar. Ambos continuaram parados, constrangidos e sem saber como agir. O sorvete começava a se dissolver na mão de Elizabeth mas ela não tinha coragem de continuar lambendo-o na frente do professor.
- Se você não comer o seu sorvete agora ele vai derreter – apontou Snape.
Elizabeth mordeu então o sorvete como se tivesse recebido uma ordem.
- Tem um pouco de sorvete no seu nariz – indicou o professor.
Aquele diálogo era ridículo, pensou Elizabeth. Ela parecia uma menininha sendo repreendida pelo pai. Onde estavam as frases inteligentes que ela havia planejado para impressioná-lo? Para disfarçar sua frustração Elizabeth começou a tirar os pratos do armário e colocá-los sobre a mesa.
- Como vai o trabalho? – perguntou Severo
- Eu ainda não aprontei nenhuma confusão, se é isso que o senhor quer saber – respondeu Elizabeth na defensiva.
- Se você tivesse aprontado eu saberia. Eu perguntei se você está gostando do trabalho – redargüiu Snape sério.
Elizabeth não tinha certeza se a pergunta era sincera ou apenas uma forma dele encontrar motivo para uma nova censura, então foi cuidadosa na resposta:
- Ainda não tive oportunidade de ajudar muito porque o movimento está bem pequeno. A Sra. McFly disse que tudo será diferente em agosto, com centenas de estudantes gritando por ingredientes para suas poções. Tenho aproveitado para estudar, sua madrinha tem me ensinado algumas das poções mais vendidas na loja. Ela é muito gentil.
- Parece que Marge gosta de você. Fico feliz que ela tenha companhia – falou Severo num tom apaziguador.
Nesse momento a velha bruxa apareceu na sala e atrás dela vinham voando uma torta de carneiro, um suflê de abóbora e um prato com batatas recheadas. Os três se sentaram à mesa e foi Marge quem dominou toda a conversa. Elizabeth se manteve calada a maior parte do tempo, olhando diretamente para seu prato, apenas agradecendo cada vez que a senhora lhe fazia algum elogio. Severo contou sobre Hogwarts conforme a madrinha pediu. Marge mais uma vez lembrou da juventude e da mãe de Severo.
Apenas uma vez Elizabeth tirou os olhos do prato, e quando os levantou encontrou os negros olhos de Severo Snape analisando-a. Dentro deles ao invés do habitual sarcasmo encontrou curiosidade. Ela desviou o olhar rapidamente tentando disfarçar o rubor.
A visita terminou mais rápido do que Elizabeth desejava e foi ela quem acompanhou o professor até a saída, porque Marge dormitava em sua cadeira, como todas as noites. Antes de fechar a porta ela falou rápido para que ele não pudesse responder:
- Obrigada pela carta de recomendação.
