Capítulo XXXVI
"Ficus Carica"
Elizabeth arrumou os cabelos. A licença para aparatar era muito útil para pequenas viagens, mas ela ainda não conseguia fazê-lo sem um certo desalinho das vestes e do penteado. A jovem olhou os portões de Hogwarts. Um tapete de neve imaculada cobria todo o caminho até o castelo. Ela ficou feliz por ter voltado antes do reinício das aulas.
O Natal na casa de Marge McFly havia sido uma linda comemoração, apesar de um tanto sombrio. Vários foram os amigos da boticária a visitá-la, entretanto a madrinha ficara visivelmente abalada com a ausência do afilhado.
- Tenho certeza que é ele – afirmara a senhora várias vezes ao ouvir batidas à porta, sem perceber que Elizabeth se sentia culpada pela desfeita do professor.
Elizabeth voltou seus pensamentos para a escola e os dias de quietude que a aguardavam. Ela havia mandado uma coruja para a Professora McGonagall pedindo autorização para passar os últimos dias do feriado na escola e a resposta viera de Madame Hooch, dizendo que a Diretora de Grifinória estaria fora da escola, mas ela seria bem vinda.
Ela subiu diretamente para a Torre de Grifinória sem encontrar ninguém pelos corredores. A mulher gorda foi a única a cumprimentá-la. Ao entrar em seu quarto retirou o malão do bolso e apontou a varinha para ele dizendo "Engorgio". Abriu a tampa do baú e ficou olhando para o pacote que Marge a encarregara de entregar.
- Mais tarde - pensou ela, deixando o pacote sobre a mesa e arrumando as roupas no armário.
No dia seguinte Elizabeth pegou o pacote e desceu para o café da manhã decidida a encontrar o Professor Snape e desincumbir-se da tarefa. Na mesa dos Professores apenas Dumbledore, Madame Hooch, Madame Pomfrey e a Professora Vector tomavam seu café.
Ao deixar o Grande Salão Elizabeth encontrou Firenze entrando no Castelo sacudindo a neve sobre seu dorso e espirrando descontroladamente.
- Bom dia Professor, muito frio lá fora?
- Bom dia Elizabeth. Que bom encontrá-la. Eu estava com o Professor Snape na estufa e parece que ele está tendo problemas com umas raízes de hellebore. Talvez você possa ajudá-lo – sugeriu Firenze depois de mais um espirro.
- Claro professor – e dizendo isso Elizabeth se dirigiu a estufa.
Caía um pouco de neve e o ar estava gelado. Os vidros da estufa estavam embaçados e Elizabeth falou baixinho, "Scourgify", limpando uma das janelas o suficiente para que pudesse ver o professor através dela. Snape estava sentado de lado, sobre a mesa uma pilha pequena de raízes. Ele tinha um lenço em uma das mãos e a varinha apontada para o nariz. Parecia que tentava controlar os mesmos espirros que haviam dominado Firenze.
Elizabeth sentiu vontade de rir. Agora lembrava das propriedades do hellebore. Era uma planta perigosa, a raiz tinha um odor forte e seu pó podia provocar crises de espirro se não fosse manipulada adequadamente. Era ingrediente fundamental da Poção Pacificadora. Parecia que o Mestre de Poções tinha sido descuidado. A jovem abriu a porta e ouviu o professor exclamar, sem se virar.
- Pelas barbas de Merlim! Feche essa porta, Firenze! Esse hellebore espalhado já é suficiente para muita confusão.
- Sou eu, professor. Firenze me mandou para cá – retrucou a bruxa a espera de uma reprimenda.
- Ótimo. Calce as luvas e me ajude a limpar essa bagunça. Não esqueça a máscara, não quero você aspirando esse pó – ordenou Snape.
Parecia que o feitiço que o professor usara tinha dado certo, pois os espirros cessaram. Os dois trabalharam em silêncio durante algum tempo.
- Como foi o Natal na casa da Marge? As festas dela são sempre divertidas – perguntou Severo em uma voz tranqüila.
Elizabeth olhou para o professor à procura de segundas intenções e respondeu com cautela.
- Foi muito bom, mas sua madrinha ficou triste com a sua ausência.
- Eu também – afirmou ele lacônico.
Elizabeth voltou a se concentrar no trabalho, mas foi novamente interrompida.
- O seu noivo esteve lá?
- Neville não é meu noivo. Nós nem mesmo chegamos a namorar – respondeu Elizabeth sem acreditar no teor da conversa que estava tendo com seu professor.
- Não! – exclamou Snape levantando uma das sobrancelhas.
Alguma coisa surpreendente estava acontecendo com Severo Snape. A cabeça de Elizabeth girava rápido tentando encontrar uma explicação para o comportamento inusitado do Mestre de Poções.
- Professor, qual a importância da raíz de hellebore na preparação da Poção Pacificadora? – perguntou Elizabeth tentando confirmar uma suspeita.
- A Poção Pacificadora tem como objetivo produzir uma sensação de paz e tranqüilidade. Nela usamos hellebore, pó de pedra da lua e gengibre. A função da pedra da lua é dar equilíbrio emocional, do hellebore controlar os impulsos agressivos e do gengibre melhorar o sabor. Mas nela não usamos a raíz do hellebore, porque ela é muito concentrada, usamos apenas o extrato das folhas – respondeu o Mestre no mesmo tom sereno.
A teoria de Elizabeth fazia sentido. O professor havia aspirado o pó da raiz de hellebore e provavelmente ele era o responsável pela maneira calma como o professor estava se expressando.
Logo o trabalho foi concluído e todos os resíduos da planta foram armazenados em frascos separados. Elizabeth retirou a máscara e as luvas.
- Muito obrigado, Elizabeth. Sua ajuda foi inestimável. Orchideous – e ao dizer isso um buquê de flores surgiu da ponta de sua varinha e Severo o entregou a jovem bruxa.
Elizabeth não tinha muita certeza se gostava desse novo Snape, ele lembrava um pouco a afetação de Lockhart. Antes de sair Elizabeth pegou o pacote que havia deixado sobre uma das mesas e o estendeu ao professor.
- Marge mandou essa encomenda para o senhor.
O Professor pegou o embrulho, o estudou com cuidado e abriu o envelope que o acompanhava. Para surpresa de Elizabeth ele indicou uma banqueta para ela sentar-se e leu o bilhete em voz alta:
"Querido Severo,
um amigo muito especial os trouxe diretamente de Portugal. Como sei que você os aprecia, aproveitei a portadora para fazer-lhe esse agrado.
Com carinho da sua madrinha,
Marge."
- A senhorita aceita um "Ficus Carica"? – perguntou o professor ao abrir a caixa.
- O que? – perguntou Elizabeth confusa.
- Figos, senhorita John. Você gosta de figos? – continuou Snape enquanto pegava um dos figos e o levava a boca. – Eles estão deliciosos.
- Sim, eu gosto – respondeu Elizabeth atônita enquanto observava o professor devorar a fruta com paixão.
"Sem dúvida esse hellebore fez muito bem ao humor dele" – pensou Elizabeth enquanto aceitava a fruta que ele oferecia.
O figo ficou na mão de Elizabeth algum tempo sem que ela se desse conta. O movimento dos lábios dele mordendo a fruta era hipnotizante. Cada mordida deixava pequenos rastros de semente e sumo ao redor da boca do professor que prontamente eram removidos pelo roçar da língua.
Elizabeth apreciava o espetáculo sensual que o Mestre oferecia. De repente seu devaneio foi interrompido pelas palavras dele:
- Você não sabe como comê-los? Veja, é fácil – E dizendo isso Severo levantou-se, tirou a fruta da mão da aluna, a partiu em duas, comeu um dos pedaços e ofereceu a outra metade à ela.
Elizabeth estava sentada em uma banqueta alta, ao lado da mesa de trabalho da professora Sprout e Snape estava de pé à sua frente, um sorriso enigmático no rosto, uma das mãos estendidas em direção à jovem, oferecendo a fruta.
Ao invés de pegá-la Elizabeth se aproximou da mão do professor e mordeu o figo que ele segurava. A sensação da fruta dulcíssima em sua boca fê-la imaginar um mundo distante, onde o sol brilhava o tempo todo e as pessoas se despiam para aproveitá-lo.
Um pedaço molhado da fruta escorreu e ficou preso na lateral da palma da mão de Severo. Instintivamente Elizabeth aproximou os lábios da mão do professor e recolheu o pedaço com a língua. Nesse intante ela ouviu um gemido abafado e sentiu a mão do homem à sua frente tremer.
Elizabeth olhou para cima e viu um par de olhos fechados e uma expressão de prazer no rosto do Mestre de Poções. Ela se levantou e o beijou. Os lábios dele traziam o gosto da fruta misturado a centenas de outros sabores: chá, gengibre, canela...ela ainda tentava identificá-los quando Severo abriu os lábios permitindo que suas línguas se encontrassem. Elizabeth se perdeu na exploração daquela boca cada vez mais exigente.
Num movimento rápido Snape segurou Elizabeth pela cintura e levantou-a até sentá-la na bancada. Os joelhos da jovem se separaram permitindo que o professor se aproximasse completamente. Sem separar os lábios dos dela Severo passou a acariciar as pernas que agora envolviam seus quadris.
No silêncio da estufa ouvia-se apenas o barulho da respiração rápida e ofegante dos dois.
Entre atônita e deliciada Elizabeth se perdeu em um turbilhão de sensações. Ela sentia o corpo dele rígido, onde o dela era frágil, as mãos ásperas sobre sua pele macia.
- Severo? Você ainda está aqui? – a voz de Firenze foi como uma lâmina separando os dois.
Elizabeth corada de vergonha e prazer procurou nos olhos de Severo cumplicidade e encontrou apenas arrependimento. O professor lhe deu as costas e seguiu para a porta, de onde vinha a voz.
- Estou aqui Firenze. O que você quer?
- Está tudo bem? Você conseguiu recolher todo o hellebore?
De onde estava Elizabeth podia ouvir as vozes dos dois professores. A conversa banal a tirou do estado de torpor. Ela olhou para baixo e viu que alguns botões da sua blusa estavam abertos. Ela passou a mão pelos cabelos tentando se recompor.
- Sem problemas – respondeu Snape lacônico.
- E os efeitos colaterais? Pela quantidade de hellebore que aspirou você deve ter sofrido de alucinações – afirmou Firenze em tom de escárnio.
- Nada demais. Apenas um estado de insanidade passageira que lamentarei mais tarde – declarou Snape friamente.
As últimas palavras de Severo foram demais para Elizabeth. A garota se levantou da bancada e correu para a porta sem cumprimentar nenhum dos professores que a acompanhavam com os olhos.
O primeiro com olhar interrogativo o segundo com olhar atormentado.
Nota de agradecimento: nesse capítulo usei como inspiração uma cena de "Falling Further In", escrita por Kaz2 e publicada aqui no fanfictionnet. Nela Snape e Hermione compartilham um figo com resultado altamente erótico.
Respostas aos leitores:
Sheyla Snape - é um prazer tê-la novamente como leitora, enfim você foi minha incentivadora de primeira hora, lembra?
Priscila Marvolo - você tem razão, "O Retorno" é demais. Outra fic da Ana Cláudia que eu adoro é "Destino Solidão", que descreve a infância do Severo. Pena que ela não a tenha terminado porque está dando um tempo nas fics.
Amy Lemon - obrigada. O Snape, sem dúvida é o máximo. Minha única preocupação é o que a J.K.Rowling vai fazer como personagem no livro 7, porque "HP and the Half-Blood Prince" me deixou MUITO preocupada com o destino do Mestre de Poções.
Lele Potter Black - espero que você tenha gostado desse capítulo também. Obrigada pelo comentário.
Mary Snape Lupin - você acha mesmo que ele está suficientemente sarcástico? Eu achei que exagerei um pouquinho no tom romântico...
Beijocas para todos e até o 37 (já escrevi quase todo, mas estou achando meio esquisito, vou reler umas vezes antes de ter coragem de postar).
