Capítulo XXXIX
Perguntas e Respostas
Severo não precisou de muito tempo para atravessar os portões de Hogwarts e alcançar o ponto de aparatar. Em instantes ele desapareceu, indo reaparecer na frente da casa de sua madrinha.
Ele levantou a mão para bater à porta, mas ela ficou pendente no ar quando ouviu vozes na sala. Snape então se dirigiu à janela e avistou ao pé da lareira Marge sorvendo lentamente uma beberagem e sentada à frente dela, Elizabeth, que movimentava lábios e mãos. O Mestre de Poções voltou para trás da porta, estendeu sua varinha e sussurrou um feitiço. No mesmo instante as vozes das duas bruxas soaram nítidas nos ouvidos dele como se ambas estivessem falando ao seu lado.
- Foi horrível, Marge – Severo escutou Elizabeth dizer e no mesmo instante ele sentiu o peito oprimido por mãos invisíveis.
- Não pode ter sido tão horrível assim, talvez você não tenha compreendido – retrucou Marge.
- Eu compreendi muito bem. Eu sabia onde estava me metendo, mas nunca imaginei que ele pudesse fazer aquilo – continuou Elizabeth para desalento do Mestre de Poções.
- Você pode ter ouvido mal – a madrinha tentou mais uma vez defender Severo.
- As palavras dele para Firenze foram: "um estado de insanidade passageira que eu lamentarei mais tarde" – explicou Elizabeth. – A voz dele foi fria, como se nada tivesse acontecido entre nós. Eu não sou nada para ele, Marge, fui apenas um desatino que ele quer esquecer. Eu não voltarei à escola, eu não posso encará-lo.
- Acho que será muito difícil você evitar isso – e dizendo isso a Sra. McFly levantou-se em direção à porta.
- Boa noite Severo, entre, está muito frio aí fora – falou Marge, abrindo a porta repentinamente e quase derrubando o afilhado.
Severo Snape ficou parado na soleira e ao invés de responder à madrinha, olhava para a jovem bruxa, agora de pé, em frente à lareira.
- Entre logo, rapaz. Vocês têm muito que conversar. Vou até o Caldeirão Furado ver se o Tom tem alguma coisa mais forte que esse chá – dizendo isso Marge saiu pela porta por onde Severo acabara de entrar.
- Marge.. – ambos chamaram a velha bruxa, mas ela já havia desaparecido do outro lado da porta.
O silêncio parecia interminável. Elizabeth pegou a caneca de chá a muito esquecida sobre uma mesinha e se concentrou em seu conteúdo. Foi o professor que começou o diálogo.
- Boa noite, Srta. John. O Diretor pediu para que eu conversasse com você e esclarecesse todo o incidente dessa tarde. De minha parte posso garantir que o episódio será esquecido e eu não lhe darei nenhuma detenção ou tirarei pontos de sua Casa.
- Muito obrigada por sua atitude magnânima, – a aluna parecia ter aprendido muito com o mestre e agora era ela que usava a ironia – mas ela não é necessária, eu não voltarei à Hogwarts.
Snape ficou furioso, mas apenas um leve levantar de sobrancelhas denunciava seu estado.
- Você voltará à escola agora mesmo, ninguém dá importância a sua vergonha adolescente.
- Eu dou importância – afirmou Elizabeth dois tons acima de sua voz normal – Fui eu quem me joguei nos braços do meu professor de Poções, eu fui rejeitada e tratada como lixo, logo eu tomo as minhas decisões.
O professor precisou respirar duas vezes antes de falar. Seu primeiro impulso foi o de gritar que ela era apenas uma aluna e faria exatamente o que ele mandasse. Mas lembrando das primeiras palavras que ouvira aquela noite concentrou-se na questão da rejeição, que parecia ser o que mais incomodava a garota.
- Concordo que poderia ter escolhido melhor minhas palavras. Esconder minha fraqueza sob o manto da indiferença foi ignóbil – declarou Severo.
Elizabeth encarou o professor e viu verdade refletida em seus olhos negros. Aquilo lhe deu coragem para fazer a pergunta que a atormentava.
- Você se importa comigo?
- É claro que eu me importo, você é minha aluna. Eu estaria aqui à sua procura se não me importasse? – respondeu Snape.
- Não com a aluna. Você se preocupa comigo? – perguntou Elizabeth mais uma vez.
- Eu me recuso a discutir esse assunto – encerrou o professor.
- Mas essa é a questão fundamental. Eu não sei o que você pensa. Você me dá sinais contraditórios, seu discurso não combina com suas ações. Na noite da batalha, lá na enfermaria, eu tinha certeza que eu era a pessoa mais importante do seu mundo. Mas depois tudo ficou complicado, o baile, Neville e agora isso... – Elizabeth deu um suspiro cansado e virou-se de costas para Severo.
- Não me dê as costas. Vamos deixar uma coisa bem clara, Elizabeth, – afirmou Snape segurando a garota pelos ombros e virando-a para ele – o que aconteceu na estufa foi totalmente impróprio e nunca deveria ter acontecido. Você é minha aluna e eu sou seu professor. Esse é todo o relacionamento que pode existir entre nós.
Apesar do tom firme, a expressão do professor denotava a frustração que sentia por tal declaração. Frustração essa que não passou despercebida à jovem.
Elizabeth olhou para os próprios pés e declarou em uma voz baixa, mas que não escapou aos ouvidos do Mestre de Poções:
- Eu não serei sua aluna para sempre.
Dirigindo-se ao sofá, Elizabeth recolheu sua mochila e vestiu a capa.
- Estou pronta professor, podemos voltar à Hogwarts.
