Autor: Alis D. Clow
Beta: Ivi
Ajuda Especial de: Dany, Tach, Sam e Marck (thx so much aos quatro)
Personagens/ Par: Draco Malfoy e Harry Potter (É pinhão, eô, pinhão, ea!)
Classificação: NC-17
Disclaimer: Não é meu, apesar de eu ter arrancado vários tufos de cabelo escrevendo isso aí, ó.
Warning: Slash. Não gosta, não leia.
/Harry/Draco/Harry/Draco/
Draco levou aproximadamente três segundos para compreender o que estava para acontecer. E quando ele chegou à conclusão que de alguma maneira a pessoa que iria possuí-lo era o maldito Harry Potter, ele decidiu que morrer era mais digno.
"Vamos então finalizar e-", continuou Tiberkins.
"Não.", disse Draco.
"Não o quê?"
"O que ele está fazendo aqui?", respondeu ele, falando mais alto.
"Vocês não disseram a ele?", disse Potter, num tom meio surpreso, meio indignado.
"Não achei que fosse necessário.", respondeu a bruxa.
"Não era necessário?", perguntou Harry, incrédulo.
"Esqueçam o contrato, tragam a forca!", disse Draco, cruzando os braços no peito.
"Não seja ridículo, você não tem como voltar atrás agora."
"Veremos se não."
"Eu já iniciei o ritual!", argumentou Tiberkins.
"Cancele-o."
"É impossível."
"Dê seu jeito!", sibilou Draco.
"Mas você morreria!", rebateu a bruxa, apertando as têmporas, como se estivesse com dor de cabeça.
Draco esperava que ela estivesse.
"Parece justo."
"Malfoy, não seja tão difícil.", disse Potter, mexendo nos cabelos.
Draco sentiu uma vontade insana de tocar fogo naquele ninho de corujas e ver o quatro olhos correndo com a cabeça em chamas pela sala.
"Cala a boca, Potter, eu não estou falando com você."
"Ótimo, não fale. Mas ou você decide morrer e matar seus pais no processo ou vamos terminar logo com isso aqui."
"Você está louco para me ver como escravo, não é, Potter? Aposto que você já até comprou uma coleira para mim. Esqueça."
Harry revirou os olhos.
"Aham, porque o mundo gira em torno de você. Decide, Malfoy, eu não tenho o dia todo."
"Você me odeia.", disse Draco, num tom irritado. Ele não iria se tornar escravo de Potter nem em um milhão de anos.
"Não se dê tanta importância. Ódio é um sentimento forte demais para eu gastar com alguém como você.", disse Potter, com desprezo.
Draco quis apertar o pescoço dele até ouvi-lo estalar.
"Vá à merda, Potter."
"Tanto faz, Malfoy. Não sou eu quem vou morrer."
Draco trincou os dentes, em frustração. Como o infeliz tinha a capacidade de agir de uma forma tão blasé quando estava prestes a assumi-lo como escravo? E por que o mundo o odiava tanto a ponto de colocá-lo nas mãos dele? Por que não qualquer outro Weasley? Aliás, Potter sequer era um Weasley!
"Você não é um Weasley.", disse Draco, depois de um tempo. "Por que você?"
"Porque eu fui adotado e isso não vem ao caso. Se você não se importa, eu quero terminar logo com isso. Ao contrário do que você pode achar, essa situação não me agrada nem um pouco.", disse o moreno, enquanto limpava a lente dos óculos na barra das vestes. Ele parecia irritado. E constrangido.
Curioso, pensou Draco.
"Se não quer, por que aceitou, Potter? Admita, você queria me humilhar."
"Porque, Malfoy, eu não quero ter a sua morte na minha consciência. Se você decidir que prefere morrer, é problema seu. Mas eu seu não te desse uma escolha, aí seria minha culpa.", disse Harry, olhando Draco nos olhos.
Draco devolveu o olhar.
"Senhores, se não se importam, eu tenho um almoço daqui a vinte minutos e eu gostaria muitíssimo de chegar no horário.", disse o juiz Odgen, parecendo entediado.
"E então?", disse Harry, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.
Draco nem pensou. Na verdade, não havia o que pensar. Ele não queria morrer. De jeito nenhum.
Mesmo que o preço fosse ser escravo de Harry Potter.
Bom, ele sempre poderia arruinar a vida do moreno.
E foi com esse pensamento que ele aceitou.
Harry/Draco/Harry/Draco/
Tirando o fato de que agora Draco usava duas finas algemas douradas em cada pulso e em torno de cada tornozelo, de que não podia discutir com Harry, nem contrariá-lo, de que sentia impulsos de satisfazer os desejos dele e tecnicamente ele não era uma pessoa, a coisa toda não era assim tão trágica.
A casa onde o Salvador do Mundo Mágico vivia era completamente diferente do que Draco teria imaginado. A princípio, o sonserino achou que se seu destino seria o mesmo que o dos pais: A Toca. Por isso quando ele aterrissou de Flu em um antigo casarão, obviamente puro-sangue, ele só conseguiu olhar em descrença.
"É aqui que você vive?", perguntou Draco, enquanto espanava um nada de cinzas das roupas que Harry o havia emprestado.
Mais uma das humilhações do contrato. Nem mesmo as roupas lhe pertenciam mais. Ele imaginava como Narcissa teria reagido ao ter de abrir mão de seus vestidos.
"Bem, não.", respondeu Harry, coberto de fuligem. Como o homem tinha conseguido se sujar tanto era um mistério para Draco.
"Eu estava meio que morando com os Weasley. Mas é simplesmente impossível abrigar mais três pessoas naquela casa."
Draco mordeu a língua para não comentar como era impossível abrigar até mesmo porcos naquele lugar. O feitiço de servidão o fazia sentir o que irritaria Harry e suprimia seus impulsos de fazê-lo. Por enquanto, era quase como se alguém tampasse sua boca com uma mão invisível. Mas Tiberkins havia explicado que, com o tempo, os impulsos diminuiriam naturalmente e a supressão mágica praticamente desaparecia, porque Draco não sentiria mais necessidade de ceder àqueles impulsos.
Com sorte, pensava Draco, ele não ficaria escravo por tempo suficiente para aquilo ocorrer.
"Entendo.", Draco sacou a varinha, sem nem mesmo perceber. Harry ficou subitamente tenso, e Draco se permitiu revirar os olhos. Com um aceno e uma palavra as cinzas sumiram.
"Obrigado.", murmurou Harry, sem jeito.
Draco não disse nada e se ocupou de prender a varinha ao cinto.
Draco ficou surpreso quando uma varinha lhe fora oferecida ao final de todo o ritual. Ele imaginou que, como escravo, não teria direito a uma. Mas aparentemente um escravo que não podia fazer os mais básicos feitiços de limpeza não era útil. Então, ele tinha uma varinha. Era bem verdade que a varinha de Draco era inútil contra Potter e não fazia feitiços ofensivos. Ele podia, sim, defender-se, mas nunca de Potter ou de alguém que Harry explicitamente tivesse dado permissão de puni-lo. Em resumo, ele poderia se defender de algum agressor aleatório, mas não poderia atacá-lo. Se Harry ou alguém que Harry permitisse tocasse em Draco, ele teria de agüentar.
Com sorte, a consciência grifinória do moreno falaria mais alto, e ele não apontaria a varinha para Draco.
Os dois ficaram ali, parados no meio da sala, um silêncio desconfortável crescendo entre eles.
"Bem, melhor eu mostrar aonde você vai, hm, dormir.", disse Harry depois de um tempo. Para Draco estava sendo extremamente divertido encarar o grifinório bem nos olhos e vê-lo desviar o olhar desconfortável.
Oh, morar com Potter teria seus momentos de diversão.
Draco assentiu e seguiu Potter até o segundo andar da mansão. Ele notou um quadro coberto com uma cortina e as cabeças de elfos empalhadas na parede, mas decidiu que não faria perguntas a respeito.
O quarto de Draco ficava no final do corredor. O aposento era retangular, com um guarda-roupa de madeira antiga e escura encostado na parede, uma cama com dossel, ladeada por uma mesa de cabeceira e uma escrivaninha. Uma cortina puída tampava parcialmente a entrada do sol frio de maio e um tapete velho e empoeirado se estendia pelo chão.
"Bom, você pode ficar nesse quarto de hóspedes.", disse Harry, ainda da porta, enquanto segurava a maçaneta. Draco estava parado do lado dele, próximo o suficiente para sentir o gosto do desconforto do outro. "Erm, eu vou deixá-lo aqui. Qualquer coisa, ahn... Bom, tchau.", Harry saiu andando, visivelmente perdido.
Draco permaneceu parado onde estava, confuso. Ele tinha certeza de que seria mais difícil, que entraria em crise ou algo similar, mas ao contrário, tudo o que Draco sentia era um imenso vazio, uma sensação de nada que o assustava mais do que lágrimas e gritos. Era como se alguém simplesmente tivesse retirado todos os seus objetivos, vontade e sonhos de dentro dele e tudo o que restara fora uma casca humana sem um nada para viver por. Era tão assustador que Draco sentiu-se nauseado. Com algum esforço, ele conseguiu sentar-se na ponta da cama, respirando rápido demais para absorver o oxigênio de maneira adequada.
Ótimo.
Segurando a cabeça entre as mãos, os cotovelos enterrados nas coxas, Draco tentou retomar as rédeas das próprias emoções ou da ausência delas. Não havia nada lá, a não ser um medo recém-nascido do vazio que sentia. Lentamente, ele conseguiu rastejar para debaixo das cobertas, ciente de que nem mesmo o sono parecia capaz de alcançá-lo.
Harry/Draco/Harry/Draco/
Harry tentou de verdade se concentrar na sua leitura. O livro de procedimentos padrões de operação de aurores estava na bibliografia obrigatória do curso de aurores e Harry sabia que teria de decorar cada letra do que estava escrito ali, se quisesse fazer bem a prova de aurores. A última coisa que ele desejava era ter era uma nota baixa e ter de ouvir o longo sermão de seus instrutores e ficar preso em classes extras. Mas quando ele se viu lendo pela quinta vez a mesma linha do texto, decidiu que era melhor desistir.
Com um suspiro longo, Harry recolocou o livro dentro da mochila e se acomodou na poltrona da sala de estar. Estava tão quieto dentro da casa, tão diferente da época em que a casa era usada como sede da Ordem que era quase desesperador. Sentado ali, tendo como companhia apenas o som da própria respiração, Harry entendia porque Sirius fora movido pelo impulso de sair daquela casa. Ali era sem dúvida melhor do que Azkaban, mas não era um consolo muito grande ficar trancado num mausoléu tendo apenas ruídos ocasionais como provas de que você não morreu ou ficou surdo.
Ele não soube bem ao certo quando a chuva começou a cair lá fora, escurecendo ainda mais a casa, o som das gotas contra os vidros encardidos embalando os pensamentos de Harry. Quando ele tinha aceitado todo o absurdo de se tornar dono de Malfoy, ele nunca previra que as coisas fossem ser, bem, tão estranhas. Harry estava quase querendo que o rapaz se rebelasse, gritasse e tentasse bater em Harry. Ele queria ver Malfoy enfurecido com o próprio destino, dizendo coisas que o fariam sacar a varinha e mandar o loiro voando pela sala até se chocar contra a parede. A última coisa que ele esperava é que ele fosse ficar em seu quarto, tão quieto que Harry poderia achar que estava sozinho dentro da mansão. Ele não queria ter de pensar que o que fazia com Malfoy era uma crueldade, que ele devia ter tentado usar a influência que tinha junto ao Ministério para encontrar uma outra saída. Pensar fazia sua cabeça doer e a culpa pesar em seus ombros e ele não queria lidar com nada daquilo naquele exato momento.
O auror em treinamento tirou os óculos e coçou os olhos. A vida nunca havia sido normal ou simples para ele. Nunca. Em nenhum momento ele pudera dizer que tivera momentos de normalidade. Toda sua vida fora preenchida pelo caos que outras pessoas traziam para ela, fosse por bruxos megalomaníacos que apenas ele poderia matar, fosse uma família bruxa cuja vida dependia de uma decisão dele. Era como se o mundo tivesse um prazer mórbido em jogar os seus problemas para Harry resolver, como se a única coisa para qual a existência inteira dele servisse fosse para isso: salvar os outros.
Uma única vez na vida, Harry queria sentir que alguém estava lá para ele. Para salvá-lo do que quer que fosse.
Ele só notou os passos de Draco se aproximando quando ele já estava dentro da sala. Seu instrutor ficaria horrorizado de ver Harry tão distraído e exposto.
"Você...", começou o loiro, de modo incerto. Ele parecia não saber ao certo o que estava fazendo ali, e Harry quase sentiu simpatia por ele.
"Você precisa de algo?", perguntou Harry.
"Ahn, não.", disse Draco. Estava escuro demais na sala, mas Harry tinha a impressão de que ele estava um pouco mais rosado que o normal. Ele hesitou um pouco, trocando o apoio dos pés. "Eu, bom, eu achei que...", Draco sacudiu a cabeça negativamente e ajeitou o suéter dado por Harry. "Nada. Me desculpe. Eu vou-"
Um reflexo esverdeado vindo da lareira distraiu Draco. Alguém estava passando através do Flu.
Harry viu Draco ficar paralisado no meio da sala, como se não soubesse ao certo o que fazer. Ele recuou alguns passos, vacilante em seus movimentos e se recostou em silêncio contra a parede. Mesmo na penumbra, Harry ainda podia ver os olhos do loiro pela pálida luz dos postes lá fora. Havia medo e vergonha neles.
Harry se levantou da poltrona, incerto do que fazer também. Uma parte dele queria mandar Malfoy subir, mas a simples idéia de mandá-lo fazer o que quer que fosse o deixava nauseado. Ele poderia pedir, mas ele não sabia se o rapaz se ofenderia e era tudo tão confuso, tão improvável.
Quando Rony Weasley passou pelo Flu, Harry teve certeza de que devia ter mandado Malfoy embora.
Harry/Draco/Harry/Draco/
Draco teve um impulso louco de sair correndo e se esconder no quarto. Ele não queria ser visto em companhia de Potter, mesmo sabendo que provavelmente toda a comunidade bruxa tinha ciência de sua servidão. Ele hesitou, na dúvida do que fazer. Ele queria desesperadamente sair daquela sala e se trancar no quarto até que o mundo estivesse de volta em seu lugar devido, até que ele fosse, de novo, apenas um rapaz nascido numa família abastada e com um futuro promissor pela frente. Ele sentiu mais do que viu os olhos de Potter em si e detestou a idéia de estar passando fragilidade para o grifinório. No final das contas, ele apenas recuou um pouco, deixando que as sombras do aposento se encarregassem de escondê-lo.
Quando o Weasley pobretão saiu da lareira, espalhando cinzas pelo tapete antigo e empoeirado da casa, Draco teve certeza absoluta que devia ter saído correndo.
Trincando os dentes, Draco tentou ficar o mais quieto possível. Com sorte, o idiota ruivo não perceberia sua presença e iria para outro lugar com Potter, qualquer lugar. E então ele poderia voltar à tranqüilidade de seu quarto e se permitir se afundar no mar de nada que era sua mente.
Ele assistiu em silêncio completo os dois se cumprimentarem, abraçando-se com um braço só. Havia um certo ar de desconforto no ar, algo que Draco podia sentir nos ossos. Ele achava que talvez devesse fazer algo a respeito, mesmo sabendo que não havia nada a ser feito.
"Ei, cara,"disse Weasley, depois de soltar Potter rapidamente. "Cheguei em mau momento?"
"Hã, não. Eu só não estava esperando.", disse o moreno, enquanto se ajeitava.
Draco o viu lançar um olhar de esguelha na direção dele, mas não havia muito a ser feito. Um sentimento louco de que ele devia sair dali o atingiu, mas não havia o que pudesse ser feito. Ele não podia simplesmente sair andando para fora da sala e não havia a menor chance de sair sem ser notado.
"Ah, desculpe, cara, eu achei que, sei lá, você fosse querer companhia. Sabe como é, tendo de aturar a doninha.", Rony coçou a cabeça com um meio sorriso constrangido no rosto. Só quando Harry sorriu de volta, é que o constrangimento se dissipou.
Draco rangeu os dentes. Doninha era a senhora mãe roliça dele.
"Não é tão ruim assim, Rony, ele só está aqui há algumas horas.", disse Harry numa patética tentativa de amenizar o clima.
Draco quase bufou, mas se conteve, pelo bem do precário esconderijo que tinha arrumado.
"Claro, dê ao infeliz mais algum tempo e eu tenho certeza que você vai querer mantê-lo estuporado.", rosnou Rony. "Harry, sinceramente, para que se incomodar? Larga o cara aqui, dê meia dúzia de ordens como 'não saia na rua e não quebre a mobília' e esqueça-o. Você não tem que ficar aqui, suportando o desgraçado.", contrapôs Rony, num tom feroz que estava fazendo os instintos mais primitivos de Draco despertarem. Ele queria ir ali e lançar Cruciatus até ele ser uma massa incoerente no chão, mas algo o estava prevenindo. Ele contou até dez, tentando a todo custo não explodir.
"Rony, olha, vamos para a cozinha conversar.", disse Harry, tão nervoso que Draco podia jurar que era capaz de sentir o desconforto do moreno. Ele lançou mais um olhar a Draco, um que estava recheado de apreensão e desconforto. Draco achou ter lido um pouco de pena, mas a simples noção de que Potter sentia pena dele era demais para Draco absorver.
E foi por um puro lance de azar que Rony seguiu o olhar de Harry.
Levou aproximadamente dois segundos para o caos se instalar. Rony viu Draco, reconheceu-o e imediatamente puxou a varinha para ele. Draco tentou de verdade alcançar a própria, mas se descobriu completamente incapaz. Ele insistiu, mas descobriu que enquanto sua mente dava a ordem para pegar a droga da varinha, seus músculos simplesmente não reagiam. Todo o seu corpo estava paralisado na mesma maldita posição, absolutamente indefeso. Uma sensação gelada de pânico ameaçou subir pela sua garganta, nublando sua mente. A realidade de ser um escravo se tornava tão clara para Draco que ele sentiu que se não fosse o orgulho, seria capaz até mesmo de gritar de desespero.
Ele estava à mercê da vontade de outra pessoa. Enquanto sua mente ainda podia ser sua, seu corpo e sua vontade não eram.
Pouco importava se Draco queria azarar Weasley ou apenas se defender. O que importava é que Potter se importava com Weasley, que este era amigo do maldito quatro-olhos e que Draco não poderia feri-lo.
A verdade penetrou fundo, cortando–o como uma navalha, deixando mais vulnerável do que jamais se sentira em toda a vida, nem mesmo sob olhar psicótico de Voldemort. Ele não era nada. Absolutamente nada. Enquanto Comensal, Draco ainda tinha família, seus pais e, por algum tempo, sua varinha. Agora, naquele exato instante no meio de uma mansão que ele não sabia onde ficava e a quem havia pertencido, Draco não tinha pais que pudessem defendê-lo, nem amigos a quem recorrer tampouco uma varinha que pudesse protegê-lo.
Draco não era sequer uma pessoa.
A realidade de ser apenas uma coisa, algo para ser usado e descartado se assim fosse a vontade de Potter. Apenas uma coisa.
Atordoado com a realização de sua posição no mundo, Draco se agarrou à parede como pôde, recostando todo seu peso contra ela. Ele se fundiria à pedra, se pudesse. Só queria dormir. Dormir e acordar com a certeza de que tudo fora um pesadelo bizarro. Apenas um sonho ruim.
Mas não era, e a voz de Rony Weasley o trouxe de volta com violência.
"Então você estava se esgueirando pelos cantos, como o rato imundo que é, não?", rosnou Rony, bradando a varinha na direção de Draco. Chamas vermelhas saíram da ponta, deixando pequenos pontos enegrecidos no tapete.
Ainda assim, o loiro se recusou a se intimidar. Ele continuou encarando Weasley nos olhos, ciente de que isso o deixava ainda mais nervoso.
"Rony, chega.", pediu Harry. Mas o ruivo o ignorou.
"Sua cobrinha podre, eu aposto que você estava esperando a primeira oportunidade para fazer algum mal a Harry. Eu devia matar você."
Draco sentia o corpo inteiro vibrar. Ele queria tanto, mas tanto acertar o nariz do Weasley com os próprios punhos – uma atitude bárbara e indigna, mas o infeliz merecia – que a todo o momento forçava os limites da magia, tentando desesperadamente quebrar a paralisia que o acometia. O ódio, a vergonha e o medo se acumulavam em seu peito com uma intensidade tamanha que chegava a doer. Ele queria revidar com todo tipo de palavras rudes, deixar que sua língua ferina fizesse o serviço que seus punhos não conseguiam executar, mas até mesmo isso lhe tinha sido roubado. Sentiu-se sufocar lentamente por tudo aquilo que gostaria de gritar e não podia.
"Pára, Rony, por Deus!", pediu Harry, varinha numa mão e a outra segurando o ombro de Rony enquanto ele continuava a bradar ofensas.
"Você merece isso. Ser um nada, seu verme. Você tem sorte que Harry foi piedoso em te aceitar aqui, por mim você e aquela corja que você chama de família estariam mortos-"
Draco fechou os olhos com força, incapaz de mantê-los abertos. O ódio e a vergonha se misturavam em seu peito com um temor e nervosismo que pareciam estranhos a si mesmo. Sua respiração estava rasa e acelerada, o coração batendo rápido demais. Ele tinha certeza que acabaria morto se não pudesse por pra fora aquele turbilhão de sensações, se não pudesse gritar e aliviar a pressão em seu peito. Ele agarrou a frente da camisa, um gesto de fraqueza que ele nunca teria se permitido se não estivesse completamente perdido. Abriu a boca, puxando o ar com força, um som rascante saindo pelos lábios entreabertos.
Uma renovada sensação de desespero mixada com uma resolução de aço se formaram dentro de si, fazendo as pernas de Draco ameaçarem ceder. Ele não podia mais. Simplesmente não podia.
"RONY, CHEGA!", berrou Harry, puxando-o sem qualquer delicadeza. Weasley o encarou, a surpresa estampada no rosto sardento. "Isso já é difícil como está... Por favor. Acho melhor você ir.", completou segundos mais tarde, varinha ainda segura entre os dedos, ainda que apontada para o chão.
"Harry...", gaguejou o ruivo, confuso.
"Rony, por favor.", pediu Harry.
"Ele não merece sua consideração, Harry!"
"Talvez não. Mas eu não o vi abrir a boca desde que você começou. Rony, por favor."
O outro se ergueu ao máximo de sua altura e encarou o bruxo de olhos verdes. Uma compreensão silenciosa passou entre os dois, uma súplica muda de Harry, uma aquiescência relutante de Rony. O ruivo deu dois tapinhas à guisa de uma despedida no ombro de Harry. Encaminhou-se a passos decididos para a lareira e deixou as chamas verdes o engolirem, um olhar enfurecido fixo em Draco.
Assim que a figura ruiva desapareceu em meio ao fogo, Draco desabou no chão. Suas pernas já não tinham mais a força para sustentá-lo e todos aqueles sentimentos suprimidos o engolfaram com a violência de uma tormenta. Ele sentia cada músculo de seu corpo tremer, dessa vez não mais pelo esforço de resistir ao laço da magia. Marginalmente consciente dos olhos chocados de Harry sobre si, ele se encolheu contra a parede, abraçando as coxas, as mãos sobre a cabeça posta sobre os joelhos e chorou.
Harry/Draco/Harry/Draco/
Harry ficou sem saber ao certo como reagir. Ele estava pronto para apartar uma briga quando ouviu Rony dizer todas aquelas palavras, mas ficou completamente chocado com a ausência de reação de Draco. A princípio, Harry achou que Draco estivesse apenas calado por conveniência ou por temer alguma represália de Harry. Apenas quando ele reparou na expressão de dor no rosto e a imobilidade pouco natural do corpo dele é que percebeu que algo estava terrivelmente errado.
Não custou muito a Harry notar o que estava acontecendo de fato. Ele havia sido alertado no Ministério sobre efeitos colaterais do Feitiço de Servidão. Um deles era a incapacidade de Draco de se defender ou ofender a quem Harry tivesse grande estima. E não havia ninguém no mundo a quem Harry tivesse mais amizade que Rony. Era mais que óbvio para o moreno que Draco estivesse sendo magicamente impedido de revidar. Harry tentou imaginar como devia ser aquela situação e falhou. Era tudo caótico demais, impossível até grandes limites.
Ele assistiu impotente, Draco escorregar para o chão, trêmulo da cabeça aos pés. Observou ele se encolher, abraçando as pernas, o rosto escondido entre os joelhos. Viu como os ombros dele se sacudiam com soluços silenciosos e lágrimas que ele não podia ver, mas das quais estava certo de que estavam lá. A dor do loiro era tão palpável, tão óbvia que marcava Harry como um ferro em brasas sendo lentamente encostado em sua pele, algo que ele não desejava testemunhar. Lembranças de seu sexto ano em Hogwarts encheram-lhe a mente, deixando-o nauseado. Naquela ocasião, Draco parecia quase tão perdido quanto agora. As lembranças do sangue, das lágrimas e de toda a dor que se seguiu àquele episódio deixaram um gosto amargo em sua boca. Incapaz de continuar ouvindo os pequenos gemidos de desespero de Draco e a maneira como toda sua imagem transpirava desesperança, Harry saiu da sala, deixando o outro sozinho com sua própria solidão.
No dia seguinte a briga, Harry acordou sentado na poltrona da biblioteca, onde fora se refugiar de seus próprios pensamentos.
Todo seu corpo doía desagradavelmente devido à posição incomoda na qual adormecera e as poucas horas de sono se mostraram ineficazes em prover algum descanso. Com a cabeça um pouco pesada pelo sono, Harry foi até seu quarto, pronto para se enfiar dentro do primeiro par de roupas velhas e confortáveis que visse pela frente e passar o dia fazendo absolutamente nada. Talvez ao cair da tarde estudasse um pouco o manual de aurores e fosse dar uma corrida pelo quarteirão, fazer alguns exercícios.
Vestido com seu moletom mais antigo e uma camisa de malha dois números acima, Harry desceu para a cozinha, o estômago roncando de fome. Na agitação do dia anterior, acabara deixando de comer e o esquecimento cobrava seu preço de modo bem audível. Bocejando, ele entrou na cozinha.
E encontrou Draco Malfoy parado no meio dela.
O loiro estava parado, no meio do aposento, olhando ao redor como se não tivesse a menor idéia do que estivesse fazendo, mas fosse fazer mesmo assim. Segurava um bule numa mão e a varinha na outra e tinha a aparência de quem não pregara os olhos.
"Erm, você precisa de ajuda?", perguntou Harry, incerto do que pensar.
Draco estava vestido apenas com as calças do pijama que Harry tinha cedido para ele no dia anterior e parecia completamente perdido.
Draco se virou lentamente na direção de Harry. Os dois se encararam por alguns segundos.
"Eu não sei.", disse sem emoção.
"Você não sabe se precisa de ajuda?", perguntou Harry, começando a ficar assustado com o ar ausente do loiro.
"Eu não sei o que eu estou fazendo aqui.", disse Draco no mesmo tom inexpressivo de antes.
Harry franziu o cenho.
"Como assim?"
Foi a vez de o loiro franzir o cenho, os olhos correndo de um lado para o outro, sem realmente focalizar nada.
"Eu não sei. Eu, eu estava lá em cima, não conseguia dormir e então..."
Harry esperou ele continuar, mas Draco não o fez.
"E então?"
Draco o encarou nos olhos.
"E então eu acordei, devo ter pegado no sono por alguns minutos. E a última coisa que eu soube é que eu estava aqui, tentando... Cozinhar.", Draco encarou o bule como se ele fosse um objeto absolutamente desconhecido.
Harry assentiu, apenas pelo senso de que tinha de reagir de alguma forma. Se não fosse estúpido demais, ele simplesmente ficaria encarando Draco, boquiaberto.
Os dois ficaram parados, Draco mirando o bule sem realmente vê-lo e Harry observando o rapaz.
"Você devia estar com fome, acho.", disse Harry depois de vários segundos.
"Eu não estou."
"Você quase não comeu ontem e..."
"Eu disse que não estou com fome.", repetiu Draco, com mais ênfase.
"Bom, eu não consigo imaginar outro motivo.", retorquiu Harry, indo para a geladeira. Bruxo ou não, Harry gostava de algumas facilidades trouxas. Tirou uma garrafa de leite e ovos. O loiro continuava de pé, quieto. Harry reparou que ele estava descalço.
"Vai ficar aí parado?", perguntou Harry, pousando o que seria seu café na bancada.
"Você realmente não vê outro motivo?" Draco o observava, com uma expressão ilegível.
Harry chegou a abrir a boca para dizer não. O som já estava quase escapando por sua garganta quando se fez a luz.
O feitiço.
"Isso é ridículo.", murmurou Harry.
"Está dizendo isso para mim?"
"Tá me dizendo que você desceu para fazer café como imposição do feitiço?", perguntou Harry, enquanto reunia os ingredientes para fazer uma omelete.
"Sabia que só de ver você fazendo isso, eu sinto um impulso de mandar você se sentar e fazer eu mesmo, ainda que eu tenha plena consciência de que não sei nem por onde começar?", comentou Draco num tom leve que pouco condizia com a situação.
Harry o olhou. Draco virou o rosto, encarando a parede.
"Eu sinto muito."
Draco deu um sorriso triste.
"Eu também."
Notas e um pouquinho de falação
E aí, gente! Mais uma parte da fic! \o/ Agora só faltam duas partes, que já estão prontinhas aqui, só esperando as reviews, digo, eu postar. ºsorriso cínicoº
Ai, gente, desculpa ae se tiver qualquer falha nesse cap. O efe efe ponto net fez o favor de comer minha formatação do texto e zoneou tudo.
Super thankees para...
melina - Adoro demais slave!fic! É um gênero pelo qual sou apaixonadérrima. ºAlis murmurando 'Owned é amor'º
mfm2885 - Draco dá chilique, mas tem apreço demais pela própria vida. E a autora carente agradece o carinho. Mas também quer mais. i.i
Srta. Kinomoto - LucLuc ruleia! Nossa, o Draco "se morria" se fosse o Ron. Depois desse cap então... XD Thx pelo comment. Ja nee!
sapina - Draquette gosta de sofrer! XD E eu gosto de maltratar. XDDD Ginny? Que Ginny? Morte à biscate ruiva! E a fic já tá pronta, amore, mas vamos ver, quem sabe se tiver sequel... ºassoviaº
Aloka - Updateada como pedido! :D Thx so much pelo comment!
Lis - Não demorei, demorei? ;D Super express dessa vez. E obrigada!
Lithos de Lion - A adoção é complicada mesmo, era só explicação pro outro desafio. Mas se eu mudasse isso, tinha que mudar coisas demais e deu preguiça... Obrigada Lithos!
Thx a todos que leram a fic.
Comments são amor! A tia Alis aqui fica feliz e updeteia (nossa, neologismo cantou alto agora XD) mais rápido. E fica contente. E contente ela pode até pensar em continuação e coisa e tal... ºarzinho inocenteº
Kisses a todos!
Alis
