Fogo
Calor. Mesmo estando vazia, a sala tinha o ar abafado – e essa era a sua perdição.
Duas cabeleiras ruivas idênticas encontravam-se próximas; um debruçado sobre o tórax gêmeo do outro numa carteira qualquer daquele lugar. Com a respiração sincronizada, ambos mantinham o olhar fixo, um nos orbes d'outro. Talvez, aquela fosse sua perdição.
Você é tão acostumada
A sempre ter razão
- Hikaru... – sussurrou o gêmeo debaixo, as mãos posicionadas na cintura do outro.
Você é tão articulada
Quando fala não pede atenção
Hikaru agora mordia levemente a nuca do irmão, que guardava nos lábios os gemidos que insistentemente lhe queriam escapar.
O poder de te dominar é tentador
Eu já não sinto nada
Sou todo torpor
- Não, eu... Aah... – Kaoru tentou afastar o irmão, mas os calafrios que lhe permeavam a coluna falavam mais alto.
É tão certo quanto o calor do fogo
É tão certo quanto o calor do fogo
Eu já não tenho escolha
Participo do seu jogo
Eu participo
"Você não é só meu, Kaoru... Você sou eu", pensou Hikaru, enquanto livrava o irmão das roupas colegiais. Ele sabia que o irmão negaria de primeira, mas, era só da boca para fora.
Não consigo dizer se é bom ou mau
Assim como o ar me parece vital
Onde quer que eu vá
O que quer que eu faça
Sem você, não tem graça
Kaoru tentou conter o irmão, o medo de serem flagrados se digladiava com o desejo que conduzia cada poro seu a sucumbir à seu reflexo, que agora o enchia de mordidas pelo corpo.
- Alguém pode, ah... Pode chegar, Hikaru...
- Então... Teremos de ser rápidos, não? - sorriu o outro, despreocupado.
Você sempre surpreende
E eu tento entender
Hikaru ergueu a cabeça uma última vez para beijar o irmão intensamente, e logo pôde sentir com a boca toda a rendição do irmão. Ela era saborosa – e quente.
Você nunca se arrepende
Você gosta e sente até prazer
Finalmente, Kaoru libertou todos os gemidos que reprimira. Sentindo a língua do irmão estimulá-lo como nunca havia conseguido por conta, ele agora se despira de seu medo e era só prazer.
Não, nada importava mais que aquele momento.
Mas se você me perguntar
Eu digo sim
Eu continuo
Porque a chuva não cai
Só sobre mim
Hikaru, por outro lado, sentia o pecado de seu incesto lhe percorrer as veias, e isso só aumentava a sua vontade de possuir o irmão completamente. Ele sentiu o sabor do fruto proibido - e adorou.
Vejo os outros
Todos estão tentando
E é tão certo quanto o calor do fogo
Eu já não tenho escolha
Participo do seu jogo
Eu participo
"Sim, você é meu", pensou novamente.
Não consigo dizer se é bom ou mau
Assim como o ar me parece vital
Onde quer que eu vá
O que quer que eu faça
Sem você, não tem graça
Não se contendo mais, ele acabou por penetrar o irmão com dois de seus dedos, já segurando o instinto de ir com seu membro. Kaoru, por sua vez, agarrou-se à mesa com toda a força que pode para conter o grunhido de dor iminente em sua garganta.
- Kaoru... – o gêmeo fez menção de parar, mas uma mão conhecida fez com que ele continuasse e fosse mais a fundo. Era seu brinquedo quem implorava para ser inteiramente dominado.
Quando Hikaru tirou os dedos, esboçou um sorriso sedento: seriam um só.
Assim, começou a penetrá-lo com todo o tesão que regia seus atos, e Kaoru parecia extasiado de poder sentir seu irmão inteiramente nele. Dados poucos segundos, a dor já era deleite, e todo o tabu era pura adrenalina.
A sensação era ardente e tempestuosa, pois sentimentos de dúvida, fúria e fome carnal tomavam conta dos dois. Mesmo assim, o sangue que ditava os atos de um ditava o do outro, e sua sincronia física era tamanha que Hikaru soube muito bem como tocar Kaoru, como fazê-lo sentir o mesmo prazer que ele. Eles eram um só, afinal.
É tão certo quanto o calor do fogo
É tão certo quanto o calor do fogo
Finalmente, gozaram em uníssono. Era a sinfonia incestuosa que chegara ao auge de sua volúpia.
Eu já não tenho escolha
Participo do seu jogo
Eu participo do seu jogo
Depois do longo dia de tarefas no Host Club, os gêmeos Hitachiin estavam aliviados de poder deitar em sua cama, e não demorou muito para que o mais frágil dos dois se juntasse ao outro.
"Hikaru, o que você...", ele pensava, com medo de completar seus pensamentos e o irmão respondê-los.
Mas era tarde. Sua simetria natural permitia que muitas vezes um pudesse entender o outro. Porém, os impedia de manter segredos e sentimentos na sombra de si mesmos, já que eram feitos do mesmo vidro translúcido.
O irmão olhou para Kaoru ternamente e o beijou os cabelos, confortando-o com um abraço fraterno. Este sorriu, adormecendo logo em seguida.
Na manhã seguinte, o céu flamejava tanto quanto os cabelos dos dois.
