Rosa.
Vestidos cor-de-rosa. Laços cor-de-rosa. Bonecas e canecas e todo o maldito quarto decorado em tons de rosa. Ele sempre tinha detestado rosa. Mas rosa era a cor preferida dela. E ele tinha vindo a amar rosa. Cor-de-rosa era a cor exata do sangue dela sobre a neve. Ele não entendia como. Ia contra tudo o que sabia. Mas ele havia visto. A maldita bala da desgraçada explodindo. Explodindo dentro daquele lindo rosto, do rosto que era sua vida, sua razão para acordar dia após dia e respirar e se alimentar. Despedaçando-o. Espalhando seus pedacinhos sobre a neve. Vermelho. Branco. Cor-de-rosa. Tinha visto com os próprios olhos, e ainda via a cena se repetir infinitamente em sua mente.
Nessie.
Morta.
Nessie.
Morta.
Não.
Não dava pra assimilar. Não quando ele não havia parado de pensar, até então, em sua enorme sorte, o oposto do que estava ali, jogado grotescamente sobre a neve: Nessie era imortal. Ele a acompanharia em suas caçadas, faria tudo o que ela quisesse e, enquanto isso, a veria crescer e se tansformar de garotinha adorável em mulher, sua mulher... para sempre. Era o que estava escrito, era como as coisas seriam, destinados a estarem juntos, por toda a eternidade. E como explicar aquilo?, Jacob Black se perguntava e cerrava os punhos de ódio enquanto gania e rosnava e tentava não olhar para os restos. Não. Não era Nessie. Não era, por favor, deus, não era, não podia ser. Cor-de-rosa sobre a neve e cheiro de carne queimada simplesmente não se encaixavam na eternidade, não! Ele uniu as mãos junto ao peito, jogou a cabeça para trás e gritou qualquer coisa incompreensível enquanto caía de joelhos ao lado de duas pequenas pernas e um pequeno braço e a metade de baixo de um vestido ensanguentados.
E um bracelete.
O bracelete do compromisso. Ele o havia esculpido com as próprias mãos e dado a ela pouco mais de um ano atrás. Conhecia cada uma de suas linhas, o significado de cada um de seus entalhes. E não demorou para compreender o significado dos novos detalhes, chamuscados e brasas que se apagavam rapidamente em contato com o frio: estava morto.
Jake.
Morto.
Flutuando pelo espaço, sem ar, sem luz, sem seu sol.
Mais um espasmo de fúria e sequer humano ele era; os sons que saíam de sua garganta traduziam com mais perfeição todo o ódio e angústia e dor que sentia. Era só questão de tempo para que ele morresse fisicamente, também. Uivou e ganiu e cravou os dentes no cadáver do lince que estava ali. Maldita caçada. Maldita aposta. Atirou o animal para longe. Então, "Renesmee!", a voz familiar de Bella gritou, cheia de horror. Jake a viu se paralisar por um instante na borda da clareira. Ela repetiu o nome da filha e começou a correr, os cabelos voando para trás e para cima do rosto e por fim desabava no chão ao lado dele. Gemendo. Parecendo estar pior, coisa que Jake jamais imaginou ver, do que quando Edward a havia deixado. O mesmo olhar vazio, quase catatônico. Boquiaberta. Curvada para a frente, completamente imóvel. Depois, muito lentamente, estendendo uma mão e tocando os restos. Bella. Sofrendo. Como? Como alguém poderia ter tido a coragem de machucar Bella? Outra onda de fúria sacudiu seu corpo. Ele a odiava, odiava a maldita que havia destruído sua vida, a vida de Bella e a de Edward. Rosnou, e os longos pêlos de seu pescoço se eriçaram. Sentiu a vontade de revidar e se vingar tomar conta de si. É, aquela parecia uma excelente idéia. Vingar-se, e depois morrer. Jacob inspirou profundamente, controlando-se, e reassumiu sua forma humana. Arrastou-se de joelhos sobre a neve, sem se preocupar em cobrir sua nudez, e aproximou-se de Bella, agora balbuciando palavras incoerentes, também ajoelhada sobre a neve, tentando montar o corpo da filha como se fosse um quebra-cabeça.
Mas pelo menos metade das peças estava faltando.
Haviam sido destruídas.
Para sempre.
"Como, Jake? Como alguém pôde? Matar...", ela se interrompeu, como que se certificando de que aquela era a palavra a ser usada na ocasião, "... Nessie? Tão linda. Tão inteligente. Todo mundo... todo mundo se apaixonava por ela à primeira vista", ela lamentou, ainda com o olhar perdido no nada. "Não entendo, Jake, não entendo..."
Ele a abraçou, e o tom de sua voz era baixo e ameaçador quando ele falou:
"Eu não sei, Bells. Também não consigo entender. Não acho que alguém vá conseguir entender algum dia. Mas não importa. Ela vai pagar", ele prometeu, por entre os dentes cerrados, seu corpo começando a tremer de fúria outra vez. "Vai sofrer, como eu e você estamos sofrendo."
Ela hesitou por um instante, como que assimilando muito lentamente o que ele havia dito. Então, uma onda de compreensão feroz tomou conta de suas belas feições.
"Oh. Por favor, Jake!", ela fungou, e o abraçou, cobrindo-o com lágrimas de puro veneno - que mal causaram danos à pele cor de cobre. "Por favor, Jake, por favor. Faça isso. Faça ela sofrer", Bella pediu, então, pareceu se desligar outra vez, voltando a atenção para o corpo, para o vestido cor-de-rosa, que tentou alisar sobre as perninhas mutiladas.
O rapaz acenou com a cabeça, decidido, e alcançou com cuidado o braço da criança que ainda existia. Retirou o bracelete e, cortando com os dentes uma tira do que havia sobrado de suas calças, amarrou nela o objeto. Prendeu tudo no pescoço. Não que ele precisasse de um lembrete - desde a primeira vez em que havia colocado os olhos nela, Nessie, ela passara a comandar cada segundo de sua existência. Seria daquela forma até o fim.
O bracelete desfigurado ia ser um lembrete para a maldita, ele pensou.
Encontrou o celular dentro do bolso da calça e telefonou para Edward. Não entrou em detalhes - apenas disse, muito rapidamente, alguma coisa sobre uma tragédia. O vampiro estaria ali em cinco minutos. Quase deixou o aparelho cair de volta no chão, quem se importaria com celulares ou calças quando seus dois últimos projetos de vida eram matar e morrer? Mas Bella o impediu:
"Não. Você tem que chamar a gente quando a encontrar. Alice não vai conseguir ver você... e eu quero estar lá", ela rosnou outra vez.
O celular tinha sido um presente de Edward. Havia sido a maneira que encontrou de rastrear Jacob e a filha, quando os dois se perdiam do mundo dentro da floresta. Jacob concordou, e rasgou outro pedaço da calça e prendeu o celular ao lado do bracelete. Então, tansformou-se em lobo outra vez. Rosnando, saltou até o último ponto onde a havia visto, e farejou. Não foi difícil identificar o cheiro da assassina, e logo ele estava correndo. A caçada havia começado. Os quilômetros que o separavam de seu último ato de devoção a Nessie começaram a diminuir. Além do cheiro, ele levava bem nítida na lembrança o rosto dela, pele pálida com as bochechas avermelhadas pelo frio e grandes olhos azuis, ainda maiores por estarem arregalados. E ele corria como se ela estivesse ali, apenas a poucos passos de distância, que se tornava cada vez mais e mais curta. Ele se recordou vagamente, como se as sensações fizessem parte da vida de outra pessoa, ou como se ele as tivesse sentido em um sonho, da última vez em que havia corrido daquela maneira. Bella tinha contado a ele que pretendia abrir mão de sua vida humana e se transformar em uma vampira dali a algumas semanas. Havia sido demais para ele suportar. Dor demais. Humilhação demais. Então ele correu. Fugiu. Tendo a ilusão de que poderia se libertar. Ele até chegou a sentir realmente a sensação de liberdade por alguns instantes.
O lobo sacudiu a cabeça enquanto corria.
Como pudera achar bom ser livre?
Devia ser porque ainda não tinha conhecido Nessie.
Nessie, ele suspirou, e o vento carregou seu lamento.
A distância continuava diminuindo.
OoO
Acendeu outro cigarro. Aumentou o volume do rádio. O número de estabelecimentos vinha crescendo à medida em que descia mais para o sul e se aproximava da civilização; de fato, não demorou para que uma placa anunciasse o próximo para dali a dois quilômetros. Pensou se não deveria voltar para casa e recomeçar tudo de lá. Rapidamente resolveu que não; que, já que estava na estrada, deveria continuar por lá mesmo. Além disso, não era como se tivesse algo ou alguém a esperando em casa. Deu-se conta de que dirigia um carro roubado. Perguntas sobre o automóvel também eram do tipo a serem evitadas. Pegou a primeira brecha entre as árvores que encontrou e dirigiu até estar fora do campo de visão de quem passava pela estrada, e saltou. A caminhada até o posto foi um pouco mais longa e dolorida do que ela esperava. Respirou fundo e abriu a porta do bar. Algumas cabeças se viraram quando ela entrou, mas nenhuma delas uma segunda vez. Era sempre assim, ela pensou, indiferente. Não era feia. Seus olhos até podiam ser considerados bonitos, azuis, adornados por cílios longos e escuros. Mas aquilo era tudo. Ela era magra em excesso, e não se podia dizer que o corpo tinha curvas, parecendo, se não um rapaz, alguém muito mais jovem do que os dezenove anos que possuía. Mas o maior problema, um sujeito havia lhe dito uma vez, era que ela era séria demais. Séria, carrancuda e pessimista. E as pessoas se interessam por gente que sorri, ele tinha acrescentado. Gente que parece de bem com a vida.
Grande droga, ela pensou, dando de ombros e se aproximando do balcão. Pediu um café duplo, expresso, com bastante açúcar, e dirigiu-se a um reservado. Não fazia a menor questão que se interessassem por ela. Sentou-se, abriu a mochila e retirou de dentro dela seus mapas e anotações.
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ok. é simplesmente impossível escrever qualquer cena dramática com uma criatura chamanda NESSIE. renesmee, também. no primeiro caso os ataques de riso quebraram o clima. no segundo, o bombardeio de WTF's na minha mente não me permitiu me concentrar muito. thanksgodess (a.k.a. tia jo) o nome nessie/renesmee vai aparecer com bem menos freqüência daqui pra frente.
é meio óbvio o que vai acontecer nos próximos capítulos, eu sei. não tenho a pretensão de ser a escritora MAIS ORIGINAL EVER, aqui, não quando tô escrevendo uma fic, cujo único objetivo é dar uma vida mais digna ou pelo menos, menos medíocre, pro meu personagem preferido na série.
:)
AMO TODO MUNDO QUE COMENTOU! vocês são demais. continuem acompanhando, atualizações não vão demorar.
