Ele não parou, porque nada o deteria.

Mas quando passou por um ferro-velho Jacob Black teve outro pequeno flashback de sua vida antes de Nessie.

Com uma curiosidade distante e indiferente, ele viu o pequeno e jovem Jake pulando da escola para a reserva com Embry e Quill e para ferros-velhos e então para a pequena garagem na casa de Billy. Billy costumava ser sua família antes de Nessie. Depois, a única coisa que os continuou unindo foi o sobrenome. Jake costumava ser o herdeiro de uma longa linhagem de chefes indígenas. Agora, era apenas o maior dos devotos de Nessie, a quem vingaria. E depois, se deixaria morrer, porque nada mais lhe restava.

Nada.

Zip.

Que vida inútil e entediante havia sido aquela, simplesmente saltando de um lugar para outro sem ter realmente um objetivo. Talvez ele ficasse simplesmente indo e vindo para não ter de encarar o grande vazio dentro de si mesmo. Não tinha nem mesmo uma vida, então. Porque só abriu realmente os olhos para sua existência real quando Nessie também veio ao mundo.

Nessie.

Ele ganiu e rosnou e se forçou a pensar na assassina. A ânsia de vingança era o combustível que fazia suas pernas poderosas correrem cada vez mais rápido. Voarem sobre a grama e por entre as árvores. Como o vento.

OoO

A colcha cara de renda antiga estava arruinada.

Era tão frágil. Não havia sido feita para aguentar nem uma gota sequer de veneno - o que dizer, então, de todas as lágrimas que ela havia chorado no último dia.

Sua última esperança havia naufragado espetacularmente. Carlisle não tinha conseguido juntar de volta todos os pedacinhos de Renesmee. Era impossível. A explosão havia pulverizado o corpinho perfeito de sua filha. Bella gemeu, e então retornou à paralisia que a dominava, com os lábios levemente entreabertos, olhando para o nada. Edward, mais soturno do que nunca, inclinou-se em sua direção, passando com ainda mais força o braço em torno dos ombros da esposa e apertando a mão dela com a sua livre.

"Bells, por favor, reaja. Reaja. Nós vamos encontrar um jeito..."

"Jeito? Jeito, Edward? Não existe jeito", ela replicou, erguendo mecanicamente as mãos e cobrindo o rosto com elas. "Você sabe disso, sabe mais que eu, você passou anos convivendo com Rosalie antes de mim e sabe... sabe...", os soluços interromperam a frase.

Mais uma vez.

Edward a abraçou mais forte, e suspirou e abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas tornou a fechá-la. Estava cheio de dedos, mas parecia ser mais por educação do que por realmente lamentar. Estava tão frio e indiferente. Como ele podia...? Bella se voltou acusadora e furiosa para ele, mostrando os dentes.

"Você nunca gostou dela. O milagre do nosso amor, Edward! Tentou me fazer matá-la ainda quando eu estava grávida, tentou..."

"Bella! Mas que absurdo é esse?", ele a interrompeu, parecendo bravo, característica reforçada pelos olhos escuros e cheios de raiva contida. "Sabe como sou. Não tenho essa sua maravilhosa facilidade para me expressar. O que não quer dizer que não tenha amado Renesmee tanto quanto você", ele concluiu, em tom de tristeza, e depositou um beijo leve na testa da esposa.

Bella comprimiu os lábios e deixou os ombros caírem e caiu em seu mutismo pensativo. Ataque de fúria. Nunca havia reagido com tanta raiva a qualquer acontecimento negativo antes. Ela sabia, tinha visto através das memórias de Edwad. Jamais havia se sentido tão ferida. Tão atacada, de uma maneira visceral. O que levava ao terceiro novo sentimento que a dominava: a vingança. Talvez fosse influência de Jacob, talvez a única forma possível de qualquer criatura reagir ao assassinato de um filho. Ela só sabia que o desejo de vingança era capaz de romper até mesmo o estado de choque que a possuía sempre que sofria uma grande desilusão.

A vampira perfeitamente controlada estava a ponto de cometer uma loucura.

Claro que nenhum dos Cullen estava feliz com a situação. Alice sentia-se culpadíssima por não ter sido capaz de prever a tragédia - sequer de ver a caçadora de vampiros se aproximando, porque ela não havia ido até Forks com a intenção de caçar vampiros. Mas por mais culpa e tristeza que sentissem, não havia sido nenhum deles que carregara a criança no ventre, lutando contra a dor e a morte próxima, lutando contra os conselhos e desejos distorcidos e errados de todos: eliminar a criança. Não. Renesmee havia sido um milagre. Ela morreria por Renesmee. Morreria enquanto a gerava. Morreria em qualquer outra ocasião. Mas na primeira e única vez em que a filha havia realmente corrido um risco ela não estava por perto. Estava a centenas de metros de distância, incapaz de usar seu escudo protetor. Estava arrumando a cena para o piquenique perfeito com que recepcionaria a filha. Cupcakes de chocolate; e sangue humano obtido do bando de sangue. Cupcakes feitos pela própria Bella. Agora, o piquenique ficaria congelando na clareira por toda a eternidade - da qual sua filha havia sido roubada. O quão irônico era.

Era irônico também pensar que o que havia sobrado do corpinho de Nessie havia sido colocado em um freezer no porão. Era loucura. Era o que todos haviam dito. Não havia e jamais haveria maneira alguma de reconstituí-la. Mas Bella insistiu. Sentiu o chão fugir sob seus pés e quase desmaiou quando Esme, com toda aquela qualidade maternal que possuía, intacta apesar da tristeza, sugeriu que começassem os preparativos para o enterro.

Não haveria um enterro.

Enterrar Renesmee seria admitir irrevogavelmente a perda.

Mas nem mesmo o pensamento de que era apenas um interlúdio sombrio em sua vida perfeita fazia com que Bella se sentisse melhor. A única que parecia compartilhar de um estado de espírito semelhante ao seu era Rosalie.

Rosalie se lamentava tanto como se tivesse perdido a própria filha.

OoO

A assassina provavelmente havia arrumado um outro meio de transporte que não os pés, porque de repente seu cheiro se tornou muito mais fraco.

O grande lobo marrom parou no alto de uma colina, farejando em todas as direções. O tempo estava um pouco menos frio, e a neve não cobria todo o chão, deixando nesgas de grama verde surgirem aqui e ali. Havia mais seres humanos, também. Mas por mais cheiros com que tivesse de lidar, o dela estava impregnado nele. Assim como o rosto assustado, olhos azuis contornados por negro. Um rosnado cruel escapou de sua garganta. Talvez fosse bom deixá-los abertos pra sempre. Talvez a próxima coisa vermelha sobre a pele dela não fosse uma irritação causada pelo frio, mas sangue. Sangue quente e viscoso rapidamente se tornando ressecado e negro. Ele deu um latido de vitória quando localizou, muito fraco, vindo de sudoeste, o rastro olfativo que ela deixava. Uma euforia e uma excitação enormes tomavam conta de Jake enquanto ele corria, antecipando o momento em que finalmente a alcançaria.

Tão detestada. Tão odiada. Profana.

Humanos toscos e ignorantes, simplesmente destruindo tudo aquilo em que colocavam suas mãos imundas.

Houve uma época em que ele preferia os humanos - uma época antes de Nessie, logicamente. Era tão burro, então. Outra memória sua surgiu: naquele tempo, ele condenava com veemência aquela história de imprinting. Por que era, mesmo?

Ah, alguma coisa tola parecida com livre-arbítrio.

OoO

Nojento.

Era o que ele era, fingido ajeitar o cinto que quase gemia sob o peso da barriga proeminente, e depois, passando a mão pela jaqueta de couro gasto e pelos cabelos grisalhos, compridos e ensebados.

Mas havia sido da boca do velho nojento, duas cidades e dezenas de milhas depois, já no Estado do Wyoming, que ela tinha ouvido as palavras mágicas. 'O velho chinês louco. O que usa um tapa-olho.' Para tornar tudo ainda mais irrecusável, o velho estava deixando o posto naquele minuto, durante o crepúsculo. Prometendo dirigir a noite toda. E interessadíssimo na 'garotinha perdida' à sua frente. Claro, uma carona não seria problema algum. E qual era o nome dela, mesmo?

"Violet", ela resmungou, na sua voz baixa, e deu as costas a ele, caminhando apressada na direção do caminhão, sentindo-se aborrecida. Era terrivelmente incômoda a perspectiva de ter que passar mais algumas horas na companhia do velho nojento, porque ele era o único a parecer saber alguma coisa a respeito de Bai Hu. Ela havia ouvido falar dele por acaso. Pensou que seria muito bom alguém tão novo no ramo como ela conseguir dicas com alguém experiente. Claro, ela preferia descobrir sozinha o que fosse capaz - mas diziam que Bai Hu havia enfrentado o demônio em pessoa. E vencido, logicamente, embora com um olho a menos. Ela não acreditava muito na história; era cética por natureza. Mas não conseguia pensar em nada mais complicado de se derrotar do que um demônio, e por aquilo valia a pena sair de sua concha e de sua indiferença.

O velho nojento abriu a porta para ela e ficou esperando, devorando-a disfarçadamente com os olhos, enquanto ela subia e puxava a maçaneta e batia a porta com força. Ela não retirou a mochila das costas, como ele sugeriu que a deixaria mais confortável. Não, ela não tinha medo dele. Era outra vez o incômodo, o prospecto de conversas desinteressantes e do flerte descarado. Apenas conversa e flerte, sem os adjetivos, para ser bem exata. Ela não gostava de rodear. Ia sempre direto ao ponto - mas até mesmo aquilo estava fora de cogitação com o velho.

O motor começou a roncar, fazendo todo o automóvel tremer e ganhar vida. O velho pareceu igualmente ganhar ânimo. Ele estendeu a mão para mudar a marcha, e seu dedo mínimo tocou 'casualmente' na bainha do casaco dela.

Ela apoiou a mão sobre a pistola. A arma estava debaixo de camadas de tecido e couro. Mas estava ali.

Podia contar com ela quando precisasse.

--

agora eu confesso que estou fazendo uma coisa feia: NÃO estou relendo obcecadamente os livros atrás de todos os detalhes possíveis e impossíveis sobre os personagens. não me sinto muito confortável escrevendo a bella. se você encontrar algum erro de caracterização, não só pode como DEVE me avisar. por favor?

tentei pedir ajuda num fórum mas as pessoas eram simplesmente tão mimadas e covardes que me deletaram por falta de argumentos.

eu tentei.

muito, muito obrigada mesmo pelos reviews tão adoráveis, morg (acho que vou fazer maldade e não te mandar os caps do primeiro encontro, mwahah), isadora (haha que horror, indeed. mas prometo que os próximos capítulos serão mais lights), ale, lisa (olha, eu to escrevendo essa justamente por adorar o jake e achar que ele merece um amor decente - nessie não conta, sorry... e como a bella escolheu o ed... well. acho que já disse isso, haha), adriana (awn), julie (relax. é uma honra ter vc aqui :) e leave your hat (é, ela fez o que muitos fãs e ex-fãs e não-fãs ficaram a fim de fazer. matou O.o). to sem internet em casa e ando meio sem tempo no geral então posso demorar um pouquinho pra atualizar, mas estarei por aqui ;D

cuidem-se!