A morte já havia chegado.

As estrelas despencavam sobre ele. O céu caía. Os demônios do inferno saudavam sua chegada.

Não, não, o lobo sacudiu a cabeça e rosnou, repreendendo a si mesmo. Não era nada daquilo. Sua fúria o estava deixando louco e cego. Não eram estrelas. Eram fagulhas. Eram fogueiras ali mais adiante. Eram seres humanos cantando. Ele pateou o chão, irritado. Cheiro de fogo e salsichas e marshmellows assando embaralhava completamente o rastro que a assassina havia deixado. Ah, sim, ela havia estado por ali. Mas devia fazer mais de doze horas, de modo que seu cheiro estava fraco. Jacob ganiu, frustrado. Latiu para o fogo. Ergueu o ffocinho e se lamentou para as estrelas.

Nessie.

Decidiu que a única coisa a fazer seria ir e vir pelo lugar. Algum rastro teria de ter. Ele o encontraria. Era insistente. Jamais havia desistido de coisa alguma que quisesse. Outro flash do Jacob-sem-um-sentido-na-vida. Lutando e se recusando a desistir mesmo quando todos davam o caso por perdido. E ele havia conseguido o que parecia impossível. Um beijo. Uma declaração. O quão alienígena parecia aquilo? Queimar por... Bella. Era tão estranho porque não conseguia sentir absolutamente mais nada por ela, além de um puro amor de irmãos... não era? Ele vacilou. Recordar-se de toda a história foi uma lembrança intensa, muito mais intensa do que as que havia tido até então. Talvez porque seus sentimentos na época tivessem sido enormes, carregados com a paixão e a intensidade do primeiro amor.

Mas era passado, ele resolveu, indo e vindo pelo terreno agora livre de neve. Nessie o havia curado de sua doença. Havia aberto seus olhos. Uma pedra o acertou e ele rosnou. Mais vários objetos foram atirados em sua direção, e ele saltou para o meio do mato. Não podia arriscar. O disparo de uma arma só camuflaria ainda mais o cheiro dela. Cheiro de coisas de garota e cigarros e café e naftalina. Cheiro de assassina. Lindos olhos azuis, traiçoeiros e infames. Que logo estariam abertos por toda a eternidade.

Por toda a eternidade.

Qual era mesmo o significado daquela expressão?

Estupidez.

Jacob rosnou para si mesmo outra vez e se concentrou na vingança. Tirar a vida da filha de Bella, de uma criança, pelo amor de deus! Uma criança inocente e tão amada por todos. Inofensiva e doce. Cor-de-rosa. Como alguém poderia jamais perdoar aquilo? Cor-de-rosa outra vez.

Costumava ser enjoativo.

Não. Enjoativo era o cheiro da cobra assassina. Enjoativo a ponto de não se poder esquecê-lo. A ponto de se poder reconhecê-lo mesmo entre o cheiro de carne queimando. Como a dela também queimaria, logo depois que ele colocasse as mãos em seu pequeno pescoço delicado e o apertasse até os olhos azuis parassem de piscar. Continuou farejando. Mas o fogo atraía seus olhos e os fazia se erguerem do chão. Hipnotizado. Ele aproximou-se das fogueiras outra vez, por trás das árvores. Apesar do tamanho, pisava de forma tão macia que poderia chegar até mesmo a dez centímetros de distância de um ser humano sem ser ouvido. Sentou-se, erguendo o focinho para o alto. Não havia vento naquela noite. O fogo crepitava e subia em linha reta para o céu. Ele se lembrou da primeira vez em que viu uma daquelas. Não devia ter mais de quatro anos. Billy caminhando por entre as árvores e sua mãe o acompanhando, graciosa. Ele se recordou do tom solene que o pai adquiriu ao contar as histórias de seus antepassados. Uma longa história. Ele se recordou do quanto se sentiu importante, a princípio. Estava tudo nos ombros dele. Toda a herança de coragem e honra e nobreza dos Black. Mas era apenas uma criança, então, e logo aquilo se perdeu. Tudo velhas lendas e velhas histórias empoeiradas - até se transformar e descobrir que a herança dos lobos era real. E ele não podia abrir mão dela. Ela lhe havia sido imposta. E como ele protestou, no começo. Não havia pedido por se transformar, havia? Onde estava seu maldito livre-arbítrio? Mas acabou por gostar. Da mesma forma que tantou condenou o imprintig... e acabou por se apaixonar pela idéia.

Não que houvesse outra coisa a fazer.

Toda e qualquer vontade sua havia sido anulada. Eliminada.

Boom.

Explodido.

Como a bala da cobra assassina e traiçoeira.

Não haveria mais cobra assassina e traiçoeira.

Não haveriam mais Blacks.

Seus longos e nobres capítulos haviam chegado ao fim.

Ele era o último Black, e havia tido toda sua história, passada e futura, arrancada das próprias mãos.

OoO

Repugnante.

Era uma palavra com muito mais impacto, e perfeita para a situação. Ah, droga. Ela ia pedir para descer ali mesmo. Não se importava de estar no meio do nada às três e meia da manhã. Mas se irritava incrivelmente em ter seu espaço invadido por um velho repugnante.

"Pode parar, vou descer aqui mesmo."

O velho continuou fitando a estrada, e só alguns segundos depois olhou para ela, erguendo uma sobrancelha.

"Disse alguma coisa?"

Ela girou o botão do volume do máximo até o mínimo.

"Você fala muito baixo, garota", o velho repugnante anunciou, como se houvesse feito uma grande descoberta.

Era outra característica dela que todos pareciam fazer questão de apontar.

"Disse que pode parar. Vou descer aqui mesmo."

"Aqui? No meio do nada? A essa hora? Ah, não, não posso fazer isso, minha menina... Mais quinze quilômetros e chegamos a um Hollyday Inn; não é nenhum palácio mas..."

Ela suspirou, tentando se acalmar um pouco não deixar o velho descobrir toda a repugnância que a idéia lhe causou. Fitou-o com a testa franzida e pediu outra vez que ele parasse. O velho continuava sendo pouco perceptivo e não dando a menor importância às reações dela. Ele nem mesmo diminuiu a velocidade.

"Ok", ela disse, e abriu a porta do caminhão, que ainda corria veloz sobre o asfalto.

O caminhão quase saiu da estrada, e o velho teve que apoiar com força as duas mãos sobre o volante para controlar a enorme máquina. Pareceu surpreso e até mesmo contrariado por um instante, e então gargalhou.

"Um pouco impetuosa, não é? Gosto disso", ele disse, mantendo a velocidade baixa, mas ainda sem parar o veículo.

Ela simplesmente saltou. Era como atirar. Ignorar tudo. Não se importar com probabilidades. Simplesmente se focar no que precisava ser feito e deixar fluir. Mas jamais havia feito aquilo antes e claro que tinha de aterrisar de joelhos; era sorte ainda estar usando as roupas pesadas de frio. O caminhão finalmente parou. Ela não esperou para ver se o velho repugnante viria atrás dela. Correu para dentro da floresta, para dentro da noite.

A tensão deixou seu corpo imediatamente, como que por mágica.

OoO

Ele a possuiu de uma só vez.

Estava tão cansada que o sono tomou conta dela assim que se deitou na cama do chalé. Dormiu quase que o dia todo, fato raro por causa de toda a cafeína que consumia. De fato, quando se levantou, lá pelas cinco da tarde, saiu do quarto para comprar café, chocolate e cigarros, mas deixou os dois últimos de lado para dormir mais. Precisava reunir toda a energia de que fosse capaz antes de seguir em frente. Aconchegou-se sob as cobertas grossas e suspirou. Ela gostava do silêncio, gostava muito. Só havia uma coisa tão boa quanto: música.

Pensou no que estava construindo, com um pouco de ceticismo no começo. Ou um muito, para ser mais sincera. Lembrou-se do primeiro encontro com uma criatura lendária, Ivan Sharpe. Um vampiro. Jamais havia acreditado nelas até então. Não se podia dizer que havia evoluído muito em sua crença. Elas podiam estar na sua frente, mas ela não sentia mais do que indiferença. Elas não a afetavam. Não lhe causavam medo ou o horror do desconhecido que a maioria esmagadora dos seres humanos sentiriam. E era aquela falta de reação, claro, que a tornava boa no que fazia. Eliminá-las.

Hm, é. Um pouco de música não lhe faria nada mal. Alguma coisa bem antiquada, saudosista e familiar. Deixou o conforto das cobertas de lado e foi atrás do player de MP3, dentro da mochila. Retirou-o lentamente dali, sentiu seu peso na palma da mão e pensou que até pouco mais de um ano atrás jamais poderia ter um daqueles. Jamais poderia tomar um vôo tão facilmente. Aquela era outra conseqüência do que vinha construindo, sua carreira. Embora ela não soubesse exatamente o que fazer com tanto dinheiro. Anos vivendo na rua lhe haviam ensinado como era possível viver com pouco. O dinheiro não a deslumbrava. Mas ela não se sentia especial ou poderosa diante do fato. Colocou os fones no ouvido.

O estrondo foi tão alto que mesmo com os ouvidos tampados ela conseguiu ouvir a porta explodindo.

Ela era rápida. Mas a velocidade com que se virou não foi suficiente para reagir.

O invasor a agarrou pelo pescoço, com uma mão grande e muito forte, e a prensou contra a parede de tábuas. Os olhos negros, próximos demais do rosto dela, exerciam tanta pressão quanto a mão, e ele respirava de forma pesada e acelerada.

"Assassina", ele rosnou, e sua voz era rouca e profunda.

Ela sentiu suas pernas perdendo a firmeza à medida em que a pressão em seu pescoço aumentava. Sempre tivera consciência de que mais cedo ou mais tarde alguma retaliação aconteceria. E, pra variar, não fazia diferença alguma. Sentiu os fones de ouvido escorregando para o chão. Sentiu o ar frio da noite entrar porta adentro. E então, sentiu a pressão em sua traquéia afrouxar um pouco.

"Como teve coragem? Você sabe o que destruiu?", ele sussurrou, ameaçador.

Ele afrouxou ainda mais a pressão, querendo uma resposta dela. Ela deu:

"Na verdade, não é preciso muita coragem."

As sobrancelhas dele, franzidas sobre os olhos, voltaram à posição normal. Não era a resposta que ele esperava. Talvez nem a postura. Sua calma sempre parecia abalar de alguma forma os oponentes.

"Só é preciso", ela continuou, num fiapo de voz, "apertar o gatilho."

Para ilustrar o que havia acabado de dizer, ela ergueu a pistola que estava dentro da mochila, exatamente ao lado do player de MP3, e que estivera segurando com esforço desde o ataque. Ergueu-a e a pressionou contra a têmpora esquerda da criatura. A surpresa no rosto dele se tornou indisfarçável quando os olhos negros se arregalaram.

O clic que o cão produziu ao ser engatilhado fez companhia ao resfolegar pesado dele, quebrando o silêncio da noite.

Ela soltou o dedo lentamente enquanto sorria.

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mmm cenas de casais querendo matar um ao outro são tão séquissis. ces não concordam? P finalmente um pouco de ação / interação, e teremos mais nos próximos capítulos )

muuuuito obrigada pelos reviews leka (awn, que lindo ver vc aqui tb... e eu vou colocar algumas mençõezinhas a j/b, não se preocupe :), morg, jubs, gabyone por ter add.