Como não era a bala que causava grandes danos, o tiro abriu apenas um pequeno buraco no telhado.
O som da arma caindo no chão, quando Jacob empurrou furioso o braço da assassina para o alto e então para baixo, foi abafado pelo da explosão. Ele pensou que deveria levá-la dali - havia humanos por perto e ele não gostaria de terminar seu trabalho na frente deles.
"Ai."
Ele tornou a olhar para a assassina. Ela havia se aproveitado de um mínimo momento de distração para tentar chutá-lo no meio das pernas - mas, obviamente, só tinha conseguido machucar a si mesma e cair no chão. Uma memória, mais forte do que todas as outras, explodiu em sua mente. Bella o socando na boca. Quebrando a mão. Furiosa. O primeiro beijo. Ele suspirou pesadamente. Sentiu as ligações poderosas que o subordinavam à filha de Bella afrouxarem. Afrouxarem, agora, sendo impossível não sentir ou compreender. Como uma cortina de neblina que se esgarça, ele conseguiu ver a si mesmo além da existência de Nessie, mas uma visão completamente livre da influência dela. Rosa era enjoativo. Perambular por ferros-velhos e contruir carros e o tempo passado com os amigos havia sido legal. Livre-arbítrio e o poder de escolha e a liberdade haviam sido seus valores mais importantes. Jacob se agarrou àqueles fatos com um certo desespero, respirando com cuidado, como se até um sopro um pouco mais forte pudesse romper a ligação frágil com seu eu-anterior. Logo as antigas memórias vieram numa enxurrada, preenchendo-o perfeitamente, sem falha ou excesso. Ele jogou a cabeça pra trás e suspirou outra vez e quase gemeu de felicidade e consciência do quanto havia sido perdido... e do risco que havia corrido de continuar tão fatalmente separado de si mesmo.
Para sempre.
"Vá em frente. Me mate. Não me importo."
A assassina.
Ela continuava caída no chão e olhava aborrecida para cima.
Mesmo que ele estivesse lentamente voltando a ser o velho Jacob Black, a garota não havia deixado de ter cometido um crime. De machucar Bella. Ele se ajoelhou e prendeu os pulsos dela com as mãos. Eram finos, frágeis, delicados. Todo o corpo dela havia sido construído daquela forma. Exceto os olhos. Azul contornado por negro. Agora finalmente diante dele. Não havia nada de delicado neles. Eram uma explosão de desafio e aborrecimento. E o cheiro, que ele conhecia em todas as sutilezas e camadas, também estava ali, mais intenso do que nunca.
"Você matou a criança", ele sussurrou, rouco, outra vez o rosto bem próximo ao dela.
Como que para reforçar o que ele havia dito, os restos do bracelete suspensos por uma tira de jeans penderam sobre o rosto da garota.
"É o que eu faço. Mato criaturas perigosas."
Jake sacudiu a cabeça.
"Ela não era perigosa."
Ela deu um meio sorriso cínico.
"Não foi o que as minhas experiências até agora me mostraram. Inclusive a de ver um lince adulto sendo morto na minha frente por uma garotinha."
Ele esperou enquanto outra onda de memórias o invadia.
Era exatamente o mesmo pensamento que ele tinha antes de vir a conhecer tão profundamente os Cullen. Não só 'pensamento' - era o que havia determinado sua transformação em lobo, só pra começar. Era uma definição que estava em seu sangue. Os frios: criaturas perigosas das quais as terras dos Quileute deveriam ser defendidas. Ele entendia perfeitamente o ponto de vista dela. Jacob suspirou e lentamente soltou um dos pulsos finos da garota. E que ela tivesse mesmo experiência em matar 'criaturas perigosas' tinha ficado claro através das balas de sua arma. Elas não eram como qualquer outra que ele já havia visto. E era mesmo bem provável que ela tivesse tido apenas más experiências com vampiros e lobisomens. Ele não a culpava. Os do tipo ruim ainda eram maioria, Jacob pensou, sombrio. Ou pelo menos se importavam menos em mostrar seu poder para o mundo e que, logicamente, seriam caçados. Examinou-a com atenção. Ela não parecia cruel, ou mesmo má. Apenas aborrecida. O cheiro dela não trazia absolutamente nenhum medo.
"Me mata", ela pediu outra vez, parecendo contrariada por ainda estar viva.
Ele sacudiu a cabeça. Nunca havia matado um humano, e não se sentia nada confortável com a idéia - principalmente num caso que possuía tantas variáveis. Ela havia destruído a filha de Bella, fato, mas houve um tempo em que destruir a criança era o que ele próprio tinha querido fazer. O quão dolorosa era aquela situação? Soltou o outro pulso delicado. Simplesmente matá-la não parecia certo. Sentir-se feliz daquela forma também não, e era aquela felicidade que o impedia de pensar muito seriamente no momento. Sabia que havia várias coisas com que se preocupar, mas... ele suspirou outra vez, agora, confuso e irritado, tentando ignorar o desejo de viver que o atingia. A vontade de sair correndo por entre as árvores, apenas porque podia, apenas porque era uma expressão de seu desejo, seu e não uma obrigação à ligação estúpida com Renesmee, pela qual ele jamais pedira, pelo contrário, tomou conta dele. E por mais que Jacob se obrigasse a pensar que era errado se sentir daquela forma enquanto Bella sofria, ele não podia deixar de se sentir aliviado.
Era como acordar de um pesadelo.
Era como encarar o mundo pela primeira vez.
As coisas como eram. Não cobertas por um maldito borrão cor-de-rosa.
Ah, que se danasse, Jacob pensou e arrancou a coisa do pescoço. Deixou o bracelete da escravidão cair no chão. Talvez pisasse em cima dele, mais tarde, e ele não se importaria. A maldita coisa merecia mesmo ser destruída. Era o símbolo perfeito do que ele mais desprezava, e estava tudo acabado agora. Finalmente acabado. Ele estava livre. Ele estava feliz. Transbordando de felicidade. Voltou-se para a garota.
Para a garota frágil e com ar de poucos amigos que havia salvo sua vida.
Jacob deu uma risada curta e estendeu a mão para ela. Puxou-a até que estivesse de pé, e a abraçou.
"Obrigado, obrigado", ele repetia, aumentando a pressão até erguê-la do chão, sentindo vontade de dar voltas em torno do quarto abraçado a ela.
Sua salvadora respondeu com um pequeno gemido abafado e contrariado e ele colocou-a de volta no chão. Ela se apoiou contra a parede, evitando soltar o peso do corpo sobre a perna quebrada.
"Você está bem? Sua perna?"
"Tudo bem", a garota respondeu.
Ela o encarava com olhos frios e inquisidores. A história era meio longa para ser contada naquelas condições, ele nu e ela com uma perna avariada, então Jake a simplificou:
"Aquela... criatura que você matou. Ela me enfeitiçou. Eu não conseguia ver mais nada além dela. É como acordar de um sonho ruim", ele disse, se arrepiando. "Foi horrível", ele franziu a testa, sentindo a raiva tomar conta dele.
Não só horrível. Tinha sido também injusto e irônico. Era como se tivesse passado meses com as mãos amarradas e os olhos vendados, sendo guiado por uma coleira. Assumindo finalmente e por completo o apelido pejorativo que os frios davam a seu povo... cachorro. Humilhante. Ele ergueu os olhos. Ela continuava olhando para ele. Curiosidade distante. Científica.
"Não vai revidar, então?"
"Revidar?", ele repetiu a pergunta, erguendo uma sobrancelha. "Bom, pra começar, posso revidar perguntando se tem alguma coisa que eu possa fazer por você. Você só me salvou da pior coisa que já aconteceu na minha vida", e, deus, ele se sentia tão egoísta pensando que aquilo era ainda pior do que ver Bella se transformar em uma vampira... mas de repente compreendia tudo. Ninguém a havia obrigado. Era apenas outra expressão de livre-arbítrio. Por mais que ele discordasse dela, devia ficar feliz por aquilo.
Ela não respondeu - continuava o observando desconfiada e belicosa, enquanto escorregava pela parede até sentar-se no chão.
"Na verdade, acho que você até poderia ir em frente e atirar em mim. Eu ainda seria grato pelos meus últimos segundos de vida", ele disse, calmamente.
"Mesmo que eu quisesse, não teria como", ela replicou, olhando para a pistola caída um pouco atrás dele.
Ele se virou, estendeu um braço e a apanhou. Era leve e parecia antiga, com entalhes bonitos e bem-feitos em sua superfície prateada.
"Está quebrada. Me desculpa", ele disse, meio sem jeito, quando a devolveu à dona.
"Hm."
Ela ainda parecia desconfiada, e um mistério completo. Ele se sentia simplesmente tão feliz que precisava fazer alguma coisa.
Tudo em volta parecia novo e fresco, definitivo. O cheiro de vegetação seca queimando lá fora - a bala explosiva devia ter atingido um alvo. O som da noite, quebrado pelo de uma viatura se aproximando pela estrada. O ato de erguer a porta do chão e apoiá-la contra o batente. Apenas porque ele achava que devia. O mesmo motivo que o levou a sentar no chão, de pernas cruzadas, de frente pra ela.
"Sério, você não faz idéia. Estou te devendo várias. Você me salvou. Estive próximo de ficar preso pra sempre a ela."
Ela fez uma pequena careta de desagrado, e percorreu demoradamente o rosto dele com os olhos. Estudando-o, ele podia sentir. A seriedade dela um oposto perfeito à exuberância que ele sentia tomando conta de si. Ele ouviu sons humanos do lado de fora e o crepitar do fogo diminuindo.
"Deixa isso pra lá", ela disse, dando de ombros.
Ah, ele não ia. Mas não ia, mesmo. Ela podia nem fazer idéia do que ele havia escapado, talvez ninguém pudesse - a não ser alguém que houvesse, contra todas as apostas, escapado daquela maldita prisão. Mas escapar não era uma alternativa, nunca era. Acontecia, e você se entregava alegremente. Ela morria, e você morria junto. Ele franziu a testa, pensando porque havia sido diferente com ele. Não foi difícil concluir. Ouviu os passos do lado de fora se afastando e o silêncio da noite voltando a cair sobre a fileira de chalés.
"Eu sou Jacob", ele se apresentou, e acrescentou um pouco depois, "Black", porque o sobrenome e tudo o que ele carregava consigo era importante outra vez em sua vida. Merecia destaque. "Você?"
Ela hesitou um pouco antes de responder, 'Violet', as sobrancelhas fechadas sobre os olhos azuis. Ele mostrou os dentes, feliz.
"Violet, você...", então parou.
Foi meio patético. Ele sentiu como se a expressão de felicidade em seu rosto simplesmente derretessse. Como uma máscara de cera. Substituída por uma do mais puro pânico.
Estúpido.
Estúpido, estúpido, burro, idiota, cego.
Jacob gemeu.
Era tarde demais. Os passos deles já estavam do lado de fora. Ele mal teve tempo de correr até a porta antes que ela se abrisse. Ele olhou para trás uma ou duas vezes, dividido outra vez. Então, segurou a porta com as duas mãos, colocou-a de lado e bloqueou a passagem com o corpo alto e musculoso, e disse:
"Bella. Hm, é. Acho que encontrei ela, mas... Ah, oi, Edward. Acho que a gente devia conversar um pouco antes de qualquer coisa."
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ui.
O.o
awn. MUITO obrigada pelos reviews (e, lisa, thanks pela dica. vou reescrever ASAP). sorry pela demora, mas vocês já sabem: ainda sem internet. vou fazer o possível pra não demorar com o próximo. cuidem-se, e bom restinho de domingo.
