Comprando um Namorado

E o conto de fadas termina.


Por um momento cheguei a pensar que as feições dele haviam congelado. Draco estava paralisado e olhava chocado para as meias em suas mãos, enquanto eu sentia algo molhado escorrer pela minha bochecha, encontrando abrigo em meus lábios. Eu nem conseguia distinguir o motivo de estar chorando: se era por saber que não passaria mais os dias ao lado dele, por saber que agora ele nunca mais deixaria de ser um elfo ou se era porque eu não teria mais o meu quase escravo sexual loiro e de olhos claros... Okay, talvez essa última parte não devesse estar passando pela minha cabeça naquele momento, mas foi inevitável.

E quando ele ergueu os olhos na minha direção, com um sorriso triste e o olhar um pouco perdido eu já sabia por que estava chorando daquele jeito.

Eu o havia perdido.


Ela percebeu pela enésima vez os olhos de Draco pousarem em si, mas ainda não tinha coragem de encará-lo. Estavam ambos sentados no meio fio da calçada – não sem antes alguns resmungos deles por se sentarem em um local como aquele – como se tentassem resolver aquele novo problema. As meias sujas e fedorentas estavam largadas no chão aos pés do loiro e essa era a única coisa em que os olhos de Ginny estavam fixos.

- Mas de onde diabos isso foi aparecer?! – ela exclamou pela terceira vez e Draco respondeu dando de ombros como das duas primeiras vezes.

Ele já sabia que não era um cara de sorte mesmo. E nem estava tão surpreso assim pelo que tinha acontecido.

Ou talvez estivesse e não quisesse admitir que achou mesmo que aqueles bons (e confusos) momentos ao lado da ruiva poderiam se prolongar um pouco mais.

Quem sabe até durante um longo, longo tempo...

- Você não vai dizer nada? Reclamar? Explodir algo? Reagir? – ela perguntou baixo, achando que qualquer uma daquelas atitudes era melhor do que a apatia dele.

- Você vai continuar a não me olhar? – a voz dele era tão baixa e estranhamente dolorosa que por um instante ela se sentiu sufocar.

Não era para ser daquele jeito, não era para haver envolvimento naqueles dias estranhos entre eles. E o pior talvez nem fosse o fato dele ter deixado de ser um elfo.

Foi ter se dado conta que havia se apaixonado a partir do momento que aquelas meias surgiram nas mãos de Draco. E agora aquilo não importava mais. Eles só precisam de alguns minutos juntos para poder digerir todos os acontecimentos, todos os momentos, antes de se darem as costas e fingirem que nada daquilo havia acontecido.

Ginny se aproximou um pouco mais dele, a lateral das pernas se tocando e sem pensar duas vezes entrelaçou seus dedos nos do loiro, acariciando suavemente. E ele sabia que aquilo era como uma despedida, ainda que custasse a admitir que não queria que terminasse.

E Quando ela levantou o rosto para finalmente olhá-lo e sorriu suavemente como nunca fazia, ele se deu conta que aquilo tudo era uma grande ironia na sua vida.

- Não é como se fosse de fato o fim... – Ginny começou suavemente, um pouco temerosa com o que estava falando. – E daí se você ainda é um elfo? Eu não sou uma dona tão ruim assim.

- Mas garotas não namoram elfos – ele disse a encarando e achando divertido o misto de choque, surpresa e felicidade que transpassou rapidamente a íris dos olhos castanhos.

- Você me pediria em namoro se não fosse um elfo?

- Você não seria uma namorada tão ruim assim. – ele brincou, mas não conseguiu disfarçar o tom melancólico em sua voz. – Mas eu não posso te pedir em namoro já que estou fadado a ser um elfo pro resto da vida.

- Talvez se eu te beijasse você deixasse de ser um elfo... Ah, esquece... – ela sorriu tristemente, soltando as mãos da dele. – Isso só funcionaria se você fosse um sapo.

-...? – Draco olhou se entender, mas ela apenas balançou a cabeça como se dissesse que não era nada demais.

- Você quer doces?

Ele balançou a cabeça negando, mas aproximou o rosto, fazendo como que ela intuísse o que aconteceria e fechasse os olhos por reflexo. Mas os lábios dele apenas roçaram com delicadeza em sua bochecha e ele se afastou levantando.

- Bom, acho que agora está na hora de ir pedir um emprego na cozinha do castelo – disse sem realmente se levar a sério, apenas querendo ser suave em dizer que ela não era mais dona dele. E até ele se surpreendeu por estar fazendo algo assim

E contos de fadas não duravam para sempre.


Ginny estava largada em uma poltrona qualquer no salão comunal, pensativa e com a cara de poucos amigos. Achava-se uma estúpida por ter se apaixonado pelo seu ex-elfo e mais estúpida ainda por não ter o impedido de ir embora. Afinal o que importava se ele era elfo ou não? Certo, que pelo visto aquela maldição nunca seria quebrada, mas não conseguia achar que fosse realmente um empecilho para ficarem juntos.

Decidida a resolver de vez essa história e fazer o loiro enxergar que ela não ligava em namorar um elfo, levantou-se seguindo em direção a saída da sala, mas parou subitamente ao ver seu irmão e Harry surgirem pelo quadro da mulher gorda com o familiar par de meias sujas e fedorentas.

Estreitou os olhos ao compreender o que havia acontecido e o porquê daquelas malditas meias terem surgido do nada. Com a varinha já em punho andou até os dois, o rosto absurdamente vermelho de raiva e lembrando muito a própria mãe quando estava preste a dar uma bronca nos gêmeos.

- Você viu a cara dele? – Ron perguntou em meio a um riso debochado para o melhor amigo. – A idéia da meia fantasma foi a melhor coisa que eu já pensei!

- Não sei, Rony... Ginny não pareceu gostar muito e...

- Besteira, Harry, Ginny não sabe o que é melhor para ela – interrompeu, ainda rindo, uma das mãos segurando a barriga.

- Não sei o que é melhor para mim, Ronald!? – a ruiva esbravejou com a varinha apontada ameaçadoramente para o rosto do irmão.

- Gi-Ginny! – Weasley praticamente engasgou com a própria saliva ao ver o rosto enfurecido da irmã.

- Então foram vocês dois que armaram tudo aquilo? Que fizeram o Malfoy deixar de ser o meu elfo?

- Por que você está reclamando? – Rony perguntou querendo ganhar tempo. – Nós te ajudamos a se livrar dele. Você deveria agradecer.

- Antes você devia ter me perguntado se eu queria me livrar dele, seu imbecil! – berrou fazendo a ponta da varinha faiscar.

- Calma, Ginny... – Harry pediu, visivelmente nervoso. - Nós deveríamos sim ter perguntado, mas você parecia chateada com a situação então achamos que não tinha necessidade. E agora que Malfoy não é mais seu elfo...

- Cala a boca, Harry! – ordenou, quase em um sussurro exasperado. – Vocês não tinham esse direito! E eu só não estuporo os dois porque não quero receber uma detenção nesse exato momento, mas dá próxima vez que um dos se meterem na minha vida pode ter certeza que eu vou ter todo o prazer de arrebentar seus rostos.

- Ginny, você não está indo atrás dele, está?

- Não é da sua conta, Ronald – respondeu com fingida calma e saindo pelo retrato da mulher gorda. – Ah, e... Vou mandar a mamãe uma carta dizendo sobre as revistas que você esconde debaixo da cama – acrescentou com um cínico sorriso. – Você vai ouvir horrores essas férias.

E foi com prazer que ela viu Ron fazer sua inconfundível careta em choque antes do retrato fechar.

Virou-se de costas, descendo as escadas e tentando imaginar onde o loiro deveria ter se metido. Talvez ele tivesse realmente ido para a cozinha do castelo ou então estivesse se auto-leiloando para uma nova dona. Suspirou resignada ao pensar nessa possibilidade, inconscientemente se apressando.

Andou por todos os lugares do castelo em que o loiro poderia estar, incluindo as masmorras, o quarto dele de monitor chefe, a sala de poções, o banheiro da murta que geme e até mesmo a cozinha onde ouviu de um Dobby preocupado que Malfoy não estivera ali.

Cansada de procurá-lo e achando melhor esperar a hora do jantar, que já estava próxima, para ver se ele aparecia no Salão Principal, sentou-se nos primeiros degraus da escada do saguão. Minutos depois surgia Hermione ao que parecia vindo da biblioteca e parecendo absorta nos próprios pensamentos.

Quase nem viu a ruiva ali, só a notando quando já estava perto das escadas. De imediato percebeu que a garota parecia tão desanimada com algo e logo lembrou-se do plano que Ron havia tido para fazer Malfoy deixar de ser elfo dela.

- Ginny? – chamou suavemente e sentou-se ao lado dela.

- Ah, oi... – virou o rosto para o lado, fitando a outra garota e tentou sorrir.

- Está tudo bem?

- Pra falar a verdade não.

- Por acaso isso tem haver com Malfoy?

Ginny nem se deu ao trabalho de esconder aquilo, tudo mundo já andava especulando mesmo que ela e Malfoy tinham um caso e aquela altura nada daquilo importava mesmo.

- É... Ele deixou de ser meu elfo – murmurou contrariada, quase fazendo um bico manhoso ao lembrar do fato.

- Ah... – Hermione não conteve o ar de alívio e empolgação. – Mas isso é bom, não é? Quer dizer, mesmo ele sendo um Malfoy eu não acho que seja certo ele ser um elfo, além do mais deveria ser um saco pra você...

- Hermione – Ginny a interrompeu visivelmente irritada. – Ele não deixou de ser um elfo. Ele deixou de ser o meu elfo.

A garota mais velha contraiu os lábios, mordendo-os internamente ao escutar aquilo.

- Tudo bem que Malfoy merecia um castigo e tudo mais, mas transformá-lo em um elfo e fazê-lo de escravo... francamente, viu?

Ginny negou com a cabeça ao notar que a amiga não percebia o porquê dela estar daquele jeito, mas sorriu quando algo estalou em sua mente.

- Mione! – exclamou em um tom animado. – É realmente muito injusto isso que fizeram com o Malfoy... Você bem que podia me ajudar a tirá-lo dessa.

- Mas você não disse que não é mais a dona dele? – perguntou, um pouco confusa, acabando por arquear a sobrancelha ao ver a ruiva subitamente animada. E como não era boba nem nada já imaginava o porquê dela estar tão mal com aquilo. – Não vai me dizer que você se apaixonou por ele?

- Anh? N-não, Mione... eu só não acho justo e...

- É você se apaixonou e deve estar se roendo de preocupação em imaginar ele com uma nova dona. Não, porque o Ron com certeza já deve ter espalhado para meio mundo que Malfoy não é mais seu elfo.

Ginny a fitou quase chocada, sem saber o que dizer, enquanto sua mente projetava a imagem de varias garotas se jogando e reivindicando o loiro sonserino.

- Ai, droga!

- Ginny, talvez seja melhor assim pra você. O Malfoy...

- Mione, não me venha com aquela velha história de famílias rivais e que Malfoy é malvado, que deve estar me usando para algum plano maléfico e todo aquele blá, blá, blá que já estão todos cansados de saber – resmungou, visivelmente cansada só de pensar em tudo aquilo e levando uma mão até têmpora. – Por mais surreal e errado que isso possa parecer, eu gosto do Malfoy e acho que ele sente o mesmo.

Hermione a encarou sem saber o que dizer e tentada a concorda com Ron de que a irmã deveria estar sobre algum feitiço. Afinal estavam falando de Malfoy.

- Ginny, eu ainda acho que...

- Sinceramente – a ruiva a olhou decidida. – Desculpa Mione, mas eu não estou interessada em saber o que você ou qualquer outra pessoa acha, porque eu sei bem o que vocês vão dizer. E sei que você não me ajudaria porque não concorda com isso e acha que eu estou errada, mas como presidente do F.AL.E você tem obrigação de me ajudar! – olhou sorridente para a garota ao lado dela, se perguntando mentalmente de onde tinha desenterrado aquilo.

- Na verdade eu não tenho que te ajudar se o motivo for esse – respondeu meio incerta se deveria contar aquilo e já antevendo as reclamações de Ron.

- Você vai jogar foras os seus princípios...

- Tudo depende na verdade se você vai querer que eu te ajude depois de souber uma coisa – dessa vez foi a mais velha que interrompeu, coçando o pescoço com um dos dedos em um gesto meio nervoso.

- O que foi dessa vez? – Ginny perguntou, já impaciente com aquilo tudo.

- Eu andei pesquisando sobre o que tinha acontecido com Malfoy assim que soube que você o havia comprado como elfo – nem se surpreendeu ao ouvir aquilo já que se tratava de Hermione e a incentivou a continuar falando. – Então, é uma maldição que transforma pessoas que prometeram não...

- Essa parte eu já sei. Ele só se livra da maldição caso se apaixone.

- E era exatamente ai que eu queria chegar, Ginny... – murmurou, meio receosa ao ver que a ruiva não tinha se dado conta daquilo. – Se ele ainda é elfo significa que ele não sente o que você sente. Significa que ele não está apaixonado por você.

A Weasley mais nova quase se estapeou mentalmente ao ouvir aquilo. Só que naquele momento ela estava muito ocupada se xingando em pensamento. Como não havia chegado àquela conclusão? Estava tão absorta e encantada com o momento que partilhara com o loiro – mesmo que fosse algo nostálgico – que nem se deu conta de que se ele continuava sendo um elfo era porque não sentia nada por ela. Nada mesmo.

E controlando mais uma vez a vontade estúpida de chorar, tentou criar coragem para se levantar, pronta pra se afogar no travesseiro da maneira mais dramática possível.

- Eu sinto muito, Ginny...

- Tudo bem. Não ia dar certo mesmo – tentou sorrir, percebendo logo depois que não era uma boa idéia já que seus olhos começavam a arder. – Eu que estava sendo idiota mais uma vez.

Hermione se aproximou mais dela, abraçando-a e tentou de todas as formas controlar a língua para não falar o que estava pensando, mas era pedir demais dela mesma.

- Gi... como você sabe que ele não deixou de ser um elfo?

A ruiva ergueu o rosto para poder olhá-la com lágrimas se formando no canto dos olhos.

- Ele não disse que tinha deixado de ser.

- E tem como ele saber?

- Eu não sei – respondeu, confusa. – Acho que sim, não muda nada fisicamente, mas ele deve sentir algo. Algum estalo de que deixou de ser elfo ou sei lá o quê.

- Será? Acho que só o que muda é que ele deixa de ter um elo com o dono, mas se ele já sentia algo então de certo modo ele não perde o elo. Claro que passa a ser outro tipo de elo, mas acredito que para alguém tão tapado quanto Malfoy, que nunca deve ter se apaixonado, não deve fazer a mínima idéia de como seja, huh? – e ela sentiu vontade de morder a própria língua ao se dar conta de que poderia estar dando esperanças a ruiva.

Ginny parou para pensar, relembrando cena por cena do momento que tinha tido mais cedo com o sonserino em Hogsmeade. E ela podia sentir, chegava a ser palpável que naquele momento, mesmo após ter entregado a meia ao até então elfo, ainda havia um ligação entre eles. E aquilo com toda certeza não tinha nada haver com uma relação mestre e elfo.

Mas claro que Draco não se daria conta daquilo, já que vivia em constante negação quando se tratava de sentimentos relacionados a paixão. Mas não se podia negar que por mais que o loiro relutasse havia uma cumplicidade entre eles e uma sensação de conforto que você só sentia ao estar ao lado da pessoa certa.

Levantou-se, praticamente sem sinal de lágrimas e um sorriso travesso nos lábios. Hermione não precisou perguntar nada e sabendo que a ruiva estava decidida a revirar o castelo inteiro atrás do loiro resolveu encurtar aquela história. Fosse o que Merlim quisesse. Se Malfoy magoasse a ruiva, ela mesma se encarregaria de lançar uma maldição terrível nele.

- Na biblioteca, Ginny.

Ginny a olhou em um misto de euforia e surpresa.

- Como você sabe?

- Acabei de vir de lá. Ele praguejava tanto sobre algo que chamou atenção de todos que estavam por lá.

- 'Brigada, Mione – agradeceu sorrindo para então pular os poucos degraus e ir o mais rápido possível para a biblioteca.

Tinha algo muito importante para dizer a um certo loiro. E enfiaria aquilo na cabeça dele de qualquer forma!


Pela décima quarta vez em menos de sete minutos eu tentava ler a mesma linha daquele livro de maldição. Porque de uma coisa eu tinha certeza: havia algo de muito errado comigo. E a coisa mais lógica que eu podia pensar era que a maldição havia se agravado de algum modo.

Porque batimentos cardíacos acelerados não podiam significar o que eu estava pensado que era.

E o frio estranho na barriga, e nem por isso desagradável, que eu já tinha lido em algum livro estúpido de romance da Pansy em um dia de tédio, também não podia significar o que eu estava pensando.

Ou melhor: do que eu não queria pensar.

Assim como o fato de não conseguir ler aquela maldita linha porque a ruiva não me saia da cabeça.

E o mais absurdo de tudo era estar desejando que fosse sim aquilo que eu não queria pensar.

Porque eu queria estar apaixonado por ela, mesmo que não parecesse certo, mesmo que tivesse prometido que aquilo nunca aconteceria comigo.

E aquela vontade já não tinha mais nada haver com o fato de querer deixar de ser elfo.

Bom, eu não era mais um mesmo. Disso eu já tinha certeza.


N.A: Desculpem os vários meses sem atualizar, mas os dois próximos capítulos são os últimos e já estão prontos, então semana que vem eu atualizo de novo, certo?

E eu não lembro se respondi as reviews de vocês (desculpem por isso), minha cabeça anda uma bagunça, mas foram elas que me fizeram criar vergonha na cara e atualizar.

Obrigada a todos!