Comprando um Namorado

A linha vermelha do dedo mindinho.


Eu estava completamente ferrado!

E apaixonado também.

Só não sabia em que momento exato tinha acontecido. Se foi antes ou depois de ganhar aquelas meias nojentas e fedidas. Mas acho que não importava tanto assim aquela altura. E como não iria achar respostas naqueles livros da biblioteca resolvi dar uma volta.

Sinceramente, não me surpreendi quando vi a maldita bruxa que tinha jogado a maldição em mim, sentada, próxima ao lago do castelo, uma das mãos esticadas mexendo com suavidade a água.

Eu estava mesmo ferrado. Confirmei assim que vi os olhos atipicamente carmins dela desviarem na minha direção.

Como eu detestava aquele sorriso cínico.


Draco se aproximou do lago sem hesitação, os lábios crispados, os punhos fechados com força. Era tudo culpa daquela maldita bruxa! Ele havia sido praticamente deserdado, tinha virado elfo, sido motivos de piadas e tudo era culpa dela.

Ela alargou o sorriso, tirando a mão da água e levantando-se. Era alta e tinha o corpo esguio, as feições do rosto finas e orientais, os cabelos negros caindo em cascatas pelas costas.

- Ara, Ara... Vejo que seu encantamento quebrou, jovem Malfoy – murmurou, com um sotaque estranho, sorrindo.

Quase não conteve o sorriso aliviado ao ouvir aquilo, mas manteve os lábios crispados, pensando nas palavras para usar com cuidado, fitando com atenção a bruxa.

- Hm, acho que sim – respondeu, se sentido estúpido por não conseguir formular nada além daquilo.

Tinha ansiado voltar a encontrar a bruxa só para poder dizer o quanto tinha virado sua vida do avesso e lançar alguma maldição dolorosa que a fizesse nunca mais ter vontade de fazer uma brincadeira de mau gosto como aquela. Mas agora que estava diante dela, não conseguia pensar em nada, nem mesmo erguer a varinha.

Ela riu, os olhos vermelhos sangue e oblíquos presos aos de Draco e ele teve a impressão de que ela conseguia ler sua mente. E mesmo assim ele sustentou o olhar, até que a expressão dela se suavizou, como se estivesse satisfeita com algo.

- Você deveria me agradecer, huh? Ao invés de me olhar desse jeito – inquiriu em um falso tom magoado.

- Agradecer por eu ter virado a droga de um elfo? – perguntou ríspido e ela voltou a rir de forma enigmática, os olhos estreitando.

- Agradecer por ter encontrado o amor. Por ter encontrado alguém com quem possa ter e partilhar lembranças especiais. E ao fato de ter se apaixonado antes de ser 'abandonado' por sua dona. – Draco revirou os olhos, tentando ignorar a sensação quente no peito ao lembrar que esse alguém era a ruiva. – Mas, você tem muito o quê aprender ainda, jovem Malfoy.

Ele deu um passo para trás, temeroso ao ouvir a última frase.

- Você não vai me lançar mais nenhuma maldição, vai?

A bruxa negou com um leve aceno, voltando a se sentar na beira do lago.

- O resto eu espero que você aprenda sozinho, minha missão já está cumprida.

O loiro deu de ombros, virando as costas para ela, verdadeiramente aliviado em confirmar que não era mais um elfo ao mesmo tempo em que a sensação de uma pedra enorme e gelada se instalando em seu estômago o incomodava. Ele sabia que os verdadeiros problemas começavam agora.

A aparentemente jovem bruxa continuou lá, sentada a beira do lago, brincando com água enquanto observava o sonserino se afastar. Um riso travesso nos lábios por saber que ele havia deixado de ser elfo muito antes do que imaginava e que o fio vermelho que ligava o dedo mindinho dele ao da pequena Weasley já estava ali desde o nascimento.¹

- Afinal não há coincidências no mundo. Tudo que acontece é inevitável ² – ela sussurrou, o sorriso ainda ali antes de voltar completamente a atenção ao lago.


Ginny tinha vasculhado toda a biblioteca atrás do loiro e nem sinal dele, já estava até desistindo e resolvendo voltar para os dormitórios, decidida a nem se dar ao trabalho de descer para o jantar aquela noite, quando o viu entrando no saguão do castelo.

Sorriu, torcendo as mãos nervosamente na barra da saia, mas logo escondeu o sorriso quando os olhos azuis-acizentados cruzaram com os seus. E era engraçado como a boca dela chegava a formigar por estar segurando o sorriso.

Draco se aproximou, as feições sérias e com um ar de preocupação, uma das mãos passando nervosamente pelos cabelos platinados. Ele não sabia como começar e estava cogitando a possibilidade de fugir, já que descobriu que estava apaixonado a poucas horas, então talvez ainda desse tempo de afogar aquele sentimento.

Mas ao olhar mais uma vez a ruiva ele sabia que estava completamente perdido.

Que o que sentia não seria sufocado por medo ou simples desejo.

Suspirou ao constatar esse pensamento, vendo-a fitá-lo, arqueando uma sobrancelha e parecendo meio incerta das próprias atitudes. E foi com surpresa que ele viu seu pulso ser envolvido por uma das mãos dela, sendo arrastado pelo castelo até pararem em frente a uma das salas no térreo.

Ginny entrou, puxando-o para dentro e fechando a porta, encostando-se ali como se assim pudesse impedir alguém de entrar. Draco se aproximou mais, uma das mãos indo até a bochecha dela, acariciando-a com o polegar e não contendo o sorriso no canto dos lábios ao sentir o suave perfume que parecia emanar das mechas ruivas.

Ele roçou os lábios contra os dela, vendo o momento exato em que ela fechava os olhos e deixava um suspiro baixo escapar, as respirações se misturando. E quando os lábios de Draco tocaram os seus de forma carinhosa, a língua pedindo passagem em um beijo quase necessitado ela já tinha a resposta que queria.

Draco não era mais um elfo. Mas era seu de alguma forma. Assim como ela era dele.

Seus braços circularam o pescoço dele, trazendo-o para mais perto, colando os corpos enquanto as mãos dele puxavam-na pela cintura como se fosse possível aumentar o contato. Ela acabou sorrindo entre o beijo, partindo os lábios e escondendo o rosto no pescoço dele, se aninhando ali, enquanto sentia os dedos dele afundarem em suas mechas de cabelo.

- Então... Você deixou de ser um elfo? – a voz saiu abafada, sua respiração fazendo ele se arrepiar suavemente na nuca.

- Exatamente – respondeu baixo, continuando os carinhos nos cabelos dela.

- Isso significa que você se apaixonou? – sussurrou tão baixo que Draco só pode ouvir por estarem perto daquele jeito.

Ele roçou o nariz próximo a mechas de cabelo dela, fechando os olhos e agradecendo internamente por ela não poder ver o rubor em sua face ao mesmo tempo em que respondia em um tom igualmente baixo.

- Me apaixonei.

- E o que você vai fazer agora? – Ginny roçou os lábios no pescoço dele, sentindo os braços ao redor da sua cintura apertarem suavemente.

- Não há muito o quê fazer... Eu poderia tentar me desapaixonar, mas acho que isso daria muito trabalho.

Ginny ergueu o rosto, fitando-o indignada, mas perdendo qualquer fio de xingamento ao ver os olhos dele presos aos seus de forma tão calorosa e reconfortante.

- Eu só espero sobreviver aos seus irmãos, mas, ao menos eu não vou ter que enfrentar a fúria dos meus pais – murmurou, tentando ser atipicamente otimista e vendo a ruiva franzir as testa em sinal de preocupação.

Tinha se esquecido que ao virar elfo Draco tinha sido abandonado pela família. E apesar de não gostar nem um pouco da família Malfoy, eles eram os pais de Draco e o loiro devia estar extremamente sentido com aquele fato.

- Draco... – começou meio hesitante, acariciando com a ponta dos dedos inconscientemente a nuca dele. – Talvez você devesse tentar falar com eles, você não é mais elfo.

Ele negou com a cabeça, mas antes que abrisse a boca para falar algo, uma coruja completamente negra entrou pela janela e pousou imponente na mesa mais próxima ao loiro, largando ali uma carta.

Draco nem precisou olhar o brasão que lacrava a carta para saber que era dos seus pais. A coruja negra de Lucius, nem sequer piou antes de levantar vôo e partir sem esperar uma resposta do loiro.

Ginny virou o rosto, vendo a carta jogada ao lado e esticou um dos braços para pegá-la, mas esta foi rapidamente tomada de sua por um Draco parecendo meio temeroso.

Ele se afastou, sentando em cima de uma escrivaninha, abrindo a carta com demasiado cuidado como se temesse que algum bicho-papão ou algo pior saísse dali. Ginny se aproximou dele, observando seus gestos, encostando-se na escrivaninha enquanto o sonserino lia.

Assim que abriu, imediatamente ele reconheceu a letra caprichada e rebuscada que só podia ser da sua mãe, já que Lucius ainda estava em Azkaban. E não pôde deixar de sorrir meio nostálgico ao ler a primeira linha.

"Querido, Draco.

Eu e seu pai já sabemos que você se libertou da maldição e ficamos muito felizes com a notícia. Sei que você ainda deve estar magoado pela forma como o tratamos depois que você foi amaldiçoado, mas agora que está tudo bem você já pode voltar para casa. Não pense que deixamos de amá-lo porque você virou um... bem, você sabe. Mas precisamos fazer isso para você poder se libertar da maldição. Se não o renegássemos você teria que servir sua própria família e assim não poderia achar alguém para libertá-lo. Claro que seu pai está extremamente desolado por saber que a responsável por sua libertação é uma Weasley, mas eu estou imensamente aliviada por saber que você vai poder voltar.

Espero vê-lo em casa em breve.

Com todo meu amor,

Mamãe."

Draco terminou de ler a carta e só então notou que Ginny havia subido na mesa com os joelhos atrás dele e fazia o mesmo que ele, lendo por cima do seu ombro. Dobrou a carta rapidamente, guardando-a no bolso e lançando um olhar irritado para ela que simplesmente mostrou a língua e se ajeitou sentando ao lado dele, com as pernas balançando para fora da mesa.

- Não sabia que a sua mãe era tão... carinhosa.

- Você não sabe de muita coisa – disse, tentando reorganizar os pensamentos em sua cabeça. Podia voltar para casa, sinal de que não seria mais deserdado e que seus pais o aceitariam de volta sem nenhum problema.

- Bom, seu pais são bruxos das trevas e expulsaram você de casa só porque virou um elfo...

- Se você leu a carta soube que era necessário. E meus pais me amam, Weasley, tanto quantos os seus devem amar você e aquela penca de filhos – respondeu com convicção, saindo de cima da mesa e passando a mão pelos cabelos em um gesto irritadiço.

Ginny esticou os dois braços, segurando os ombros dele e tentando trazê-lo para perto sabendo que havia tocado em um ponto sensível. Draco deixou-se ser puxado, meio relutante, sentindo os braços da menina ao redor de si e o queixo dela apoiado em seu ombro.

- Desculpe, Draco... Vamos esquecer isso, certo?

Ele concordou silenciosamente, sem conter o sorriso nos lábios quando ela apoiou a testa em seu ombro e beijou um ponto em suas costas por cima do tecido da camisa.

Ele sabia que nada seria muito fácil dali em diante. Mesmo que tivesse se libertado da maldição seus pais não aceitariam aquele namoro e isso não era segredo para ninguém. Os pais de Ginny provavelmente teriam a mesma opinião e ele se perguntava como podia ter se deixado envolver em um relacionamento com sérios problemas futuramente, mas estranhamente aquilo não o incomodava tanto assim. Talvez fosse mais difícil do que ser um elfo, mas ele preferia assim, tendo controle dos seus atos e ciente do que sentia.

Virou-se, ficando de frente para a ruiva, mergulhando nos enormes olhos castanhos e afundando os dedos nas mechas de cabelo dela. Ginny sorria, puxando-o para mais perto e deixando-o entre suas pernas, massageando a nuca dele, fazendo com que o loiro fechasse os olhos brevemente com o carinho e resmungasse de forma manhosa, parecendo um bichano mal-humorado.

- Weasley...

- Ginny - ela corrigiu, rindo e intensificando o carinho, vendo ele pender a cabeça um pouco para a frente molemente.

- Ter me apaixonando por você deve ser a coisa mais estúpida que eu já fiz – ele murmurou, fitando-a de forma carinhosa e ela alargou o sorriso com a declaração nem um pouco romântica.

E ele sorriu também, sabendo que a sensação quente e acolhedora que sentia no peito fazia valer a pena toda aquela estupidez.


Eu ainda não consigo entender como tudo chegou a aquele ponto.

Não sei por que razão eu resolvi comprar Draco naquela loja. Eu podia dizer que tinha sido um jeito de me divertir e me vingar por todas as vezes que ele me humilhou ou falou mal da minha família. Ou até mesmo dizer que o achava absurdamente lindo e que por aquela pechincha eu seria muito estúpida em não comprá-lo.

Mas eu sabia que não tinha sido nada daquilo que havia me feito comprar e torná-lo meu elfo. Foi algo inexplicável. Era como se o anjo do bem ou o anjo do mau (eu não posso ter precisão de qual dos dois) sussurrasse em meu ouvido que eu deveria fazer aquilo. Então eu não resisti.

E acho que aquele foi o meu maior acerto.

Com uma ajudinha do destino e de mais qualquer outra força que eu desconheço.


¹ Ou seja, a linha vermelha do destino. Eu acho que é uma lenda, não tenho tanta certeza assim, mas é mais ou menos isso: Há uma linha vermelha no dedo mindinho de cada pessoa e a ponta dela está ligada ao mindinho de uma segunda pessoa, que seria sua alma gêmea. Eu li em um manga oneshot que se chamava Koyubi wa amaku (que por sinal é BL/Yaoi). É uma estória bem bobinha, mas fofa.

² Alguém percebeu que a bruxa que amaldiçoou o Draco é a cara da Yuuko de xXxHOLiC? E essa última frase que ela fala é o que a Yuuko diz no primeiro episódio de HOLiC. Pois bem, é a Yuuko.


N.A: E estamos chegando ao fim! O último capítulo não tarda, semana que vem eu volto. E eu não resisti em meter a Yuuko na estória XD Isso que dá escrever após rever a primeira temporada de xXxHOLiC. Mas, bem, a fic é nonsense...