Comprando um Namorado

A realização de um desejo.

E o conto de fadas se inicia.


Eu ergui os olhos fitando quase bobamente Draco dormir.

Éramos oficialmente um casal agora e constatar aquilo me deixava absurdamente feliz.

Talvez eu finalmente tenha encontrado a pessoa certa.

E no final o meu conto de fadas tenha sido realizado.

Um desejo atendido.


Entreabriu os olhos, piscando diversas vezes tentando assim fazer com que sua vista não ficasse mais embaçada devido ao sono. Seus braços instintivamente apertaram suavemente o corpo em cima do seu e ele pode vislumbrar a farta cabeleira ruiva em cima do seu peito.

Sorriu, afundando os dedos nas mechas de cabelo enquanto ela se remexia, esfregando o nariz em seu peito.

E ele ainda estranhava o quanto aquele quadro parecia perfeito aos seus olhos.

- Bom dia... – murmurou, a voz saindo rouca e ainda sonolenta.

- Bom dia, Draco – Ginny respondeu abafado, seus lábios roçando na pele dele.

- Eu sei que você me adora usar como travesseiro, mas eu já estou meio dolorido – ele resmungou, o tom acabando por escapar meio divertido e ela riu erguendo o rosto, fitando-o.

- Sinto informar, mas servir como meu travesseiro é uma das suas funções.

- Sério? – perguntou com ironia e arqueando uma sobrancelha.

- Uhum! Uma das mais importantes eu diria – respondeu, sentando-se e ajeitando a fina blusa que vestia enquanto ele resmungava algo inteligível. – Eu acho bom você levantar e se arrumar logo, já estamos atrasados para o café da manhã e você sabe a confusão que pode dar se perceberem isso.

- Precisamos mesmo ir? – o loiro fez uma careta, sentando-se também e afastando os lençóis. – Pensei que você preferisse fugir.

- Ah, claro... E sermos cassados pelos meus irmãos e a sua mãe... – Ginny levantou, não contendo o sarcasmo na voz. – Eu acho até que eles já se conformaram, Draco, eles sabem que não podem impedir isso.

- Sinceramente, eu acho que ninguém vai aceitar o fato de estarmos juntos um dia. Eles podem até fingir que aceitam, mas você sabe que seus pais sempre vão desejar que você estivesse com Potter.

- Eles superam isso – disse com simplicidade, enquanto procurava suas vestes espalhadas pelo chão.

Havia se passado apenas algumas semanas desde que Draco tinha deixado de ser elfo e o ano letivo chegava ao fim. E em contradição ao que ele previra até o momento a situação não parecia tão complicada assim ao assumir que ele e Ginny estavam juntos.

Claro que sua mãe não gostou nem um pouco da idéia, mas se conformou dizendo que não havia nada que pudesse fazer mesmo. Draco desconfiava que houvesse dedo nessa história da bruxa que tinha lançado a maldição e que sua mãe a conhecia. Já seu pai não estava realmente em condições de dizer algo já que ainda se encontrava em Azkaban.

Quanto aos Weasley, ele sabia que os pais de Ginny eram honestos demais para tentarem algo contra o relacionamento dos dois e que provavelmente iriam apenas ficar de olho quanto as suas intenções em relação a caçula da família.

Certo, suas intenções não eram das mais inocentes, mas eles podiam ficar tranqüilos já que o que Draco mais desejava era fazer Ginny feliz, ainda que estranhasse essa necessidade.

O único que o preocupava um pouco era Ronald Weasley. Havia ficado verdadeiramente traumatizado após o acontecimento com as meias, mas Ginny garantira que o irmão não tentaria mais nada e que ela já tinha se assegurado daquilo.

O loiro desconhecia completamente os meios que ela usara para garantir que ele não tentaria mais nada e quase, muito remotamente, teve vontade de sentir pena do Weasley. Mas ele ainda era Draco Malfoy e o que quer que Ginny tenha feito ou dito ao irmão ele merecera.

Não demorou muito para que ambos terminassem de se arrumar e saíssem do quarto de monitor chefe prontos para irem ao salão principal. Mas ao invés de irem juntos, Ginny tomou o caminho contrário, indo pegar um atalho e fingir que saia do dormitório da grifinória, evitando assim qualquer confusão.

E tudo ocorreu como acontecia quase todos os anos, o discurso de despedida e o anunciamento de qual casa tinha ganhado.

Draco pode ver a ruiva de onde estava e já podia antecipar o quanto seria difícil estar longe dela daqui a dois meses quando ela voltasse para Hogwarts, mas ele já tinha prometido que a visitaria quando houvesse os passeios a Hogsmeade com a condição de que ela comprasse alguns doces.

Um tempo depois tinha terminado seu café, sendo um dos primeiros a sair do ambiente mesmo que tivesse chegado um pouco atrasado. Então resolveu ir logo para o lago onde havia marcado com a ruiva para se encontrarem antes de irem para as carruagens e partirem no trem.

E enquanto esperava lembrou-se de como tudo agora parecia fazer um pouco mais de sentido, desde o fato de ter virado um elfo e ter sido comprado pela ruiva.

No final das contas tudo era exclusivamente culpa dela. Afinal, por um acaso do destino Ginny conhecia a bruxa da maldição.

Descobrira isso dias depois de terem começado namorar oficialmente, quando ela comentou com ele que tinha conhecido uma bruxa muito exótica que dizia realizar desejos em troca de um pagamento de igual valor ao desejo. E antes mesmo que ela terminasse de descrever a bruxa ele já sabia de quem se tratava.

- Na hora que ela me disse que podia realizar qualquer desejo meu eu não acreditei. Mas mesmo assim eu disse a ela que a única coisa que eu desejava era encontrar a pessoa certa para mim.¹

- Que coisa mais piegas, Ginny – riu debochadamente e ela revirou os olhos.

- Deixe-me continuar, sim? Ela era bem bonita e parecia estar falando sério. Pra falar a verdade ela me assustou quando disse que podia realizar um desejo meu, já que apesar da seriedade os olhos dela eram meios... cínicos. Como se estivesse com vontade de aprontar uma travessura.

O loiro a fitou com os olhos arregalados.

- E qual a cor dos olhos dela?

- Vermelho escuro – respondeu, sem notar que ele havia ficado mais pálido do que já era. – Então ela disse que realizaria meu desejo sem problema algum. E o engraçado é que dois depois eu estava naquela loja comprando você. E coincidentemente no dia que você deixou de ser elfo eu a encontrei em um dos corredores do colégio, acho que ela estava indo para a sala do diretor. Eu até achei que ela não fosse me reconhecer, mas ela me viu e disse sorrindo: 'Estou feliz que seu desejo tenha se realizado. '

Ginny sorriu ao terminar de falar, afastando a franja da testa dele carinhosamente.

- E acho que se realizou mesmo – sussurrou, dando um selinho nos lábios dele.

Só então, Draco tentou se pronunciar, os lábios crispados sem saber se ficava ou não irritado com a ruiva. Mas ao ver o sorriso dela, se contentou em ignorar a idéia que se formava em sua cabeça e perguntou:

- E o que foi o pagamento?

A ruiva sorriu de forma travessa.

Mas ele nunca recebeu a resposta para aquela pergunta.

- Draco! – Ginny chamou já sentada ao lado dele. – Em que mundo você está? Eu estou te chamando há séculos – reclamou.

- Hm, só estava lembrando de algo – respondeu vagamente, se perguntando como nem sequer havia notado ela se aproximar.

- Lembrando de quê? – Perguntou, encostando-se em uma das árvores e puxando-o para perto.

Draco sentou de costas para ela, se encaixando entre suas pernas, apoiando as costas no corpo da ruiva, seu rosto na altura do pescoço dela.

- De quando você me contou sobre aquela bruxa.

- E o que tem isso?

- Eu estava pensando... Acho que foi a mesma bruxa que me lançou a maldição – Ginny afundou os dedos nas mechas de cabelo dele, acariciando-as.

- Ela não me parecia ser esse tipo de bruxa que sai lançando maldições em qualquer um – disse de forma divertida.

Draco deu de ombros, sua cabeça ainda encaixando as peças daquele jogo.

Mas de uma coisa ele já sabia: de que ele e a ruiva estavam ligados e aquela bruxa só tinha facilitado as coisas de algum modo.

- Você mesma disse que ela tinha um ar de quem queria aprontar.

Ginny passou os braços em volta dele, acariciando a barriga do loiro, escondendo o rosto no pescoço dele e cerrando os olhos.

- Acho que agora isso não importa muito, não é?

Ele assentiu, concordando, se aninhando melhor contra o corpo dela, a cabeça pendendo um pouco para o lado.

- É, agora o mal já está feito.

Ginny mordeu o pescoço do sonserino de leve em represália ao escutá-lo, apertando os braços em volta dele.

- Você ainda pode se livrar de mim.

- Isso não está em meus planos – sorriu, entreabrindo os olhos e virando o rosto para poder olhá-la. – Apesar de você não ter deixado clara suas intenções comigo.

- Como assim intenções claras? – perguntou, confusa em meio ao riso baixo que deixava escapar.

- Você sequer me pediu em namoro, tem gente que acha que eu ainda sou seu elfo.

Ginny riu, beijando o rosto dele e roçando o nariz em sua bochecha.

Tinha que ser do jeito certo agora.

- Então, você quer ser meu namorado?

E o sorriso que ele deu já era resposta o bastante.

- Foi pra isso que você me comprou naquela loja, certo?


Por mais que tudo aquilo me parecesse absurdo demais eu não consegui ficar chateado em nenhum momento desde que percebi que Ginny era quem tinha causado a minha maldição.

Afinal existe livre arbítrio e ninguém podia chegar e me amaldiçoar só por eu dizer que não me apaixonaria.

E era por livre arbítrio que eu tinha escolhido ficar com ela, ainda que tivéssemos um longo caminho a percorrer para que os outros também aceitassem isso.

Mas era recompensador quando eu podia abraçá-la, com a sensação que de algum modo eu pertencia a ela.

Assim como ela pertencia a mim.

FIM


¹Alguém mais lembrou da Chi de Chobist?


N.A: Mais uma que termina. E acho que vocês não fazem idéia do quanto eu fiquei triste por ter terminado CN. Essa fic era um filhotinho que eu cuidei com todo o carinho, sabe? Um filhotinho que só ganhou vida graças a Lou. Você sabe que essa fic é um presente só seu, não é? Porque ela só deixou de ser uma one-shot e ganhou vida desse jeito por sua causa, Lou. Então acho que eu tenho muito a agradecer!

Mas também há outras pessoas especiais que eu preciso agradecer, por me ajudarem de algum modo com palavras de incentivo ou puxando minha orelha: Cah (que betou a fic), Rafinha M. ChunLi, Princesa Chi e a Angelina Michelle por ter feito duas capas lindas.

E claro a todo mundo que comentou e que leu, obrigada a todos!