Capítulo Treze: A volta

- Grávida?! – Hyuuga Hiashi parou incrédulo, olhando fixamente para sua filha, esperando que fosse algum tipo de piada. Mas não era. Hinata havia realmente engravidado de seu namorado, numa única noite de prazeres, que nem sequer desconfiava ter acontecido. Para ele, sua filha ainda era sua garotinha pequena. Sua garotinha virgem – Bem... Não há nada que se possa fazer. Estou ficando velho...

- Como assim, Hiashi-san? – indagou Tenten.

- Já vou ser avô... – sentia-se mal com o fato de estar ficando velho, mas algo dentro de si dizia para não temer o neto que estava por vir. Começou a alegrar-se com a perspectiva de mais um membro em sua família. Entretanto algo passou por sua mente: E se o Uchiha se recusasse a assumir a paternidade? Contraiu novamente o rosto, pensativo.

- Papai... Não se preocupe... Esse filho terá um pai – disse Hinata sorridente. Ela sabia que Sasuke assumiria o filho, os dois se amavam demais para deixar que essa gravidez surpresa os separasse. E sem contar que não seria um estorvo em sua vida, pelo contrário, era uma benção.

Resolveram então fazer uma pequena comemoração quando Sasuke voltar. E falando nele, já estava na hora de voltar. Havia mandado uma última mensagem para Hinata dizendo que estaria lá até o fim do dia. Era o dia de sua volta, e preparava seu equipamento para voltar, quando ouviu batidas na porta seguidas de um chamado "Uchiha Sasuke! Saia daí e nos enfrente!". Era um chamado para o combate. Escolheram o cara errado para mexer, principalmente no momento em que se preparava para voltar para casa.

Saiu da casa, pronto para qualquer oponente. Eram cinco: um homem baixo, um gorducho, um rapaz loiro, uma criança e uma mulher. Ao que parecia, sua posição tinha sido descoberta, assim como sua função. Encarou os cinco por um breve momento, antes de desviar do primeiro ataque. Lutaria com os cinco ao mesmo tempo, mas sabia que tinha plena capacidade de vencer.

Voltando a Konoha, os dois Hyuuga (Hiashi nunca fazia tarefas domésticas) e Tenten preparavam um jantar especial. Sabiam que naquela noite um novo papai ia jantar com eles. A alegria estava estampada na jovem, que seria mãe. Tinha um pequeno ser se formando dentro dela, e esse ser era seria a prova viva do amor entre ela e Sasuke. Cantarolava enquanto começava a cozinhar, tão feliz que Hanabi e Neji chegaram a estranhar. Nunca tinham visto a herdeira Hyuuga tão contente e desinibida antes. Ele a mudara muito, e agora agradeciam por isso.

O dia passou rápido na mansão Hyuuga, mal sabiam eles que naquele momento Sasuke lutava desesperadamente para voltar para casa. Dos cinco, apenas a mulher e o rapaz loiro sobreviviam até aquele ponto da batalha. O Uchiha estava praticamente ileso, apenas com um pequeno corte no rosto. Desviou de dois golpes da mulher, chutando-a no estômago logo em seguida. Ela estava fora de combate, dada a dor provocada pelo ataque direto. Era agora ele e o loiro, no mano a mano. Entretanto, nenhum dos dois atacava.

Sasuke aguardava pacientemente que seu inimigo o atacasse, para poder armar um contra-ataque e finalizar aquela luta de uma vez por todas. Mas ao invés de ataca-lo, o rapaz a sua frente desfez a pose de combate, com uma aparência derrotada. Não entendeu o gesto, mas permaneceu alerta, para o caso de ser um truque.

- Tudo bem, nós desistimos – disse o jovem loiro – Se apenas um de vocês é capaz de criar esse estrago, nem imagino o que aconteceria se invadíssemos sua vila – recolheu os corpos, e sumiu sem deixar rastros. Sasuke ficara exausto com a batalha árdua que travara. Eles eram bem mais fortes do que aparentavam, mas assim mesmo não eram o suficiente para machuca-lo de verdade.

Olhou para o céu, xingando logo em seguida. Viu uma tempestade se aproximando. Seria inútil aquilo tudo se não pudesse chegar a tempo, como tinha prometido a sua amada. Correu para dentro, pegando seu equipamento rapidamente e partindo logo em seguida. Tinha que pegar um barco, era o único jeito de chegar em Konoha a tempo.

Hinata olhava para o céu, esperançosa. Via ao longe as nuvens escuras se formando, lá no fim do horizonte que traria seu amor de volta. Imaginava se ele ficaria surpreso, alegre ou pasmo com a notícia. Por dentro a garota explodia de felicidade, mas ao mesmo tempo a ansiedade corroia seu peito, conforme as horas passavam e nada dele.

Lembrou que talvez ele ainda não soubesse que ela estava novamente na mansão Hyuuga, e achou muito provável inclusive. Deveria recebe-lo em sua casa, e depois leva-lo até onde tinha preparado tudo para contá-lo sobre sua gravidez. Pensava naqueles olhos negros a encarando apaixonadamente, do jeito que fazia antes de partir. Aquela missão com certeza seria bem sucedida, mas atrasou um pouco sua vida com ele. Tinha noção de que era necessário para Konoha, mas por que ele afinal? Entretanto não adiantava mais reclamar. Sasuke estava voltando para ela.

Chamou Neji e Tenten, e os três foram para a casa do Uchiha, enquanto Hanabi fazia os retoques finais. Hinata arrumou-se exatamente do jeito que tinha feito no dia em que se beijaram pela primeira vez. O mesmo vestido branco, justo no busto, largo da cintura para baixo, indo até alguns dedos acima do joelho. Estava linda para ele. Neji babara ao reparar no visual de sua prima, mas isso só até Tenten aparecer, mais linda do que já era normalmente. Os dois estavam realmente apaixonados afinal.

Sasuke chegara ao pequeno cais de onde saíam todas as embarcações que se dirigiam para o País do Fogo. Entretanto, todos ali estavam parados, os barqueiros fora de seus barcos, decidiram parar por aquele dia, dada a intensidade da tempestade que estava para cair. Foi até a bancada onde alugava um barqueiro para leva-lo até a fronteira, do outro lado do Mar das Ondas. Já tinha passado por muita coisa naquele dia para ser parado por um fenômeno aleatório da natureza.

- Preciso de um barqueiro – disse Sasuke ao atendente – O mais rápido possível!

- Filho... Não ta vendo o pé d'água que vai cair? Você ta maluco? – respondeu o atendente em total tom de descaso. O Uchiha apenas tirou o resto do dinheiro que tinha levado para a viagem, o que era uma quantia considerável. Deixou em cima do balcão e correu até o cais. A chuva começara a cair quando o jovem cortou a corda do barco e saiu sozinho a navegar.

As nuvens pesadas, cinzentas, pareciam querer engolir o mar. A chuva gélida caía sobre o corpo de Sasuke. Ele navegava atento para qualquer tipo de anormalidade causada por aquele fenômeno inoportuno. Escutara relâmpagos, raios caiam por todo lado. Sentiu que poderia não chegar vivo ao outro lado, mas agora era tarde demais. Não se permitia quebrar uma promessa feita para sua amada.

A água escura do Mar das Ondas começava a ondular, cada vez mais com a forte ventania que soprava. Nada mais era improvável. Talvez o melhor de Konoha fosse derrubado pela força da Mãe Natureza. Não. Ele não se deixaria vencer por uma chuvinha. O problema é que não era uma chuvinha qualquer. Era a pior tempestade já documentada naquela região. E tempestades eram comuns ali. Sua situação era grave.

Um raio caiu ao lado de seu barco, um golpe de sorte, julgara ele. Olhou para o lugar onde o raio caiu. Foi o tempo suficiente para uma gigantesca onda engolir a embarcação, levando Sasuke para baixo d'água. Nadou até a superfície, se agarrando em um dos pedaços quebrados do barco atingido. Usando como prancha, foi batendo suas pernas já exaustas, na esperança de alcançar logo a praia onde marcaria que estava chegando perto de sua vila de origem.

Nunca soube exatamente por quanto tempo nadara, mas em meio àquela tempestade, foi uma grande sorte ter saído vivo daquela loucura. Loucura. Era exatamente o que caracterizava o amor que sentia por Hinata. Fora louco o suficiente para encarar a Grande Mãe Natureza e sair vitorioso. Estava vivo. Chegara à praia, já no fim de suas forças. Anoitecia. A tempestade cedera, dando lugar a um céu nublado e cinzento. A chuva cessara, os raios acabaram junto com os sons dos relâmpagos. Não ventava mais. Alcançou a areia, tirou sua mochila que carregara desde que seu barco quebrou. Levantou-se após rastejar até terra firme, e desmaiou.

Estava anoitecendo, e nenhum sinal do jovem que a deixava tão ansiosa por sua volta. A preocupação dava lugar a euforia dentro de seu peito. Onde seu amor estaria? Por que demorava tanto? O que a impedia de vê-lo mais cedo? As dúvidas começavam a povoar a mente de jovem de cabelos negro-azulados e olhos perolados. Andava de um lado para o outro, ansiosa por notícias de Sasuke. Tenten e Neji já estavam se incomodando com a inquietude de Hinata.

- Hinata-sama, sente-se – disse Neji – Não vai adiantar nada você ficar de um lado para o outro desse jeito.

- Eu não consigo mais esperar, Neji-niisan – respondeu Hinata, impaciente – Preciso vê-lo, urgentemente.

- Hinata-san, calma. Pode acabar passando mal – disse Tenten. Dito e feito. Na hora em que a namorada de Neji terminara de falar, Hinata já tinha corrido para o banheiro vomitar.

Sasuke jazia desmaiado na praia. A exaustão o levara ao estado de inconsciência. Entretanto não tinha um sono apagado. Estava tendo um sonho um tanto perturbador.

Estava tudo branco ao seu redor. Ele não sabia onde se encontrava no momento. Só se lembrava de chegar àquela praia e depois parar ali. Repentinamente Hinata aparecia bem diante de seus olhos. Tentou abraça-la, mas ela fugia. Tinha lágrimas aos olhos. Ele a perseguiu até uma ponte que surgia do meio do nada. Neji apareceu. Ino também. Começou a sentir dores fortes na cabeça. Passou a mão onde sentia mais dor e viu sangue. Olhou para os três procurando uma explicação. Hinata nada dizia. Neji suava frio. Encarou Ino. Ela disse: "Eu a matei". Repentinamente, um jovem de cabelos negro-azulados e olhos negros como os dele puxava sua camisa, dizendo: "Papai, me salve!".

Acordou assustado. Suava frio. Limpou-se de toda a areia que grudara em seu corpo. Olhou para o céu. A noite já ia alta. Xingou alto, não havia ninguém por perto. Saiu num pique muito veloz. Sabia que tinha decepcionado Hinata, mas agora tinha um estranho pressentimento. Esse sonho queria dizer alguma coisa. Ino dizendo que tinha a matado. Matado quem? Não... Não poderia ser... Apressou o passo.

Enquanto Sasuke estava desmaiado na praia, Hinata chorava sentada no sofá. Cansara de esperar. A tristeza invadia o peito saudoso da jovem Hyuuga. O casal que ali estava nada poderia fazer para ajuda-la. Hinata, num impulso, saiu correndo dali. Precisava pensar. Se acalmar, mas sozinha. A mera presença de alguém já a lembrava dele. Correu sem um destino aparente. Inconscientemente, foi fazendo o caminho de sua casa, parando na ponte que ficava no meio do caminho. Passava sobre um rio raso, com pedras no fundo.

Havia um terceiro cenário ainda não narrado nesse dia. Ino se torturava, tentando imaginar uma forma de pegar Hinata desprevenida. Pôs uma roupa mais adequada para sair. Pretendia caminhar até que alguma idéia surgisse. Rua após rua, nada surgia além do ódio que sentia por Hinata e a loucura que tinha por Sasuke. Virou uma esquina, notou que estava na rua da casa de Sasuke. Foi passando lentamente. Ao se aproximar da porta que arrombara certa vez, percebeu que havia um casal aguardando algo ali. Eram Neji e Tenten. As idéias de repente começaram a fluir. Se eles dois estavam ali, tinha uma chance de Hinata não estar. E se não estivesse, estaria indo para casa. Correu.

Neji e Tenten observaram Ino mudar seu ritmo de passo subitamente e sem um pingo de discrição. Tenten nunca gostou da garota loira, mas agora tinha outros motivos para ter pensamentos ruins. Hinata não estava em casa, se Ino tivesse percebido isso, seria um grande problema. Encarou Neji por alguns instantes.

- Ne-chan... Acho melhor você ver o que a louca da Ino vai fazer agora – disse Tenten.

- Como assim, Tenten? – Neji não compreendera algo sutil na atitude de Ino.

- Se ela saiu correndo assim, é porque ela percebeu que a Hinata não ta aqui! Ela vai tentar mata-la novamente! – isso assustou Neji, mas o fez pensar... Fazia sentido. Saiu correndo, deixando Tenten para trás.

Ino corria muito rápido, na esperança de pegar Hinata no meio do caminho. "É agora que eu vou me desfazer desse estorvo", continuou correndo até alcançar a ponte. Lá estava ela, chorando a saudade para fora de si. Vagarosamente, a garota loira foi se aproximando, evitando o máximo possível fazer qualquer ruído. No que diz respeito às suas habilidades, Ino não deixava a desejar. Conseguira chegar perto o suficiente para atacar. E a empurrou. Hinata caiu, ainda desnorteada sobre o que acontecera, dando de cabeça nas pedras do rio. A água que antes era cristalina tornava-se rubra conforme o sangue saía da ferida aberta.

Minutos depois, Neji passava pela ponte, encontrando Ino gargalhando. Aquele era o sinal de que chegara tarde demais. Mas talvez houvesse esperança. Aproximou-se da loira, agarrando-a pela gola da camisa. A ergueu no ar, seu tom era ameaçador, mas ela não sentiu medo. Estava mesmo louca.

- Cadê ela? – perguntou Neji – Vou perguntar isso uma vez só!

- Haha... Lá embaixo, covarde! Sua priminha agora vai dormir o sono dos justos! Ou melhor, dos injustos, porque o Sasuke-kun sempre foi meu! – e tornou a gargalhar novamente.

Neji correu até o parapeito da ponte, encontrando o corpo de Hinata estatelado no fundo do rio. A queda não era alta, mas as pedras provavelmente acertaram sua cabeça, a deixando inconsciente e abrindo uma ferida profunda. A mancha de sangue era grande, tinha tido uma perda considerável. Pegou-a no colo, e saiu correndo, pulando de telhado em telhado rumo ao hospital.

Sasuke finalmente chegava a Konoha. Passou pelos guardas do portão sem nem dizer nada. Corria desesperado, temendo que algo tivesse acontecido. Seguia muito velozmente até passar pela ponte. Viu uma silhueta feminina parada ali, no meio da passagem. Imaginou que fosse Hinata, mas não era. Ino estava ali, parada, sorridente. Correu e tentou abraça-lo, mas ele foi rápido o suficiente pra desviar, segurando-a pelo pescoço.

- Onde... Ta... A... Hinata?! – indagou Sasuke, quase gritando.

- Sas... – ela não estava conseguindo respirar, dado o aperto que o Uchiha dava em seu pescoço. Ele afrouxou a mão, de modo que ela pudesse falar. Botou-a novamente no chão, aguardando que ela respondesse – Sasuke-kun! – disse após pegar ar suficiente – Vamos! Não temos tempo! Agora que eu tirei aquela menininha do caminho, podemos ficar juntos a noite toda!

- Como assim, tirou a Hinata do caminho?! – o ódio subia as veias do jovem – RESPONDA! – ativou seus olhos mortíferos.

- Ela tava ali, implorando que a matassem... HAHA... Eu apenas dei a ela uma mãozinha atirando ela dali. Aquele idiota do Neji ainda a levou pro hospital mas duvido... – ela não pôde terminar. O tapa mais forte que uma pessoa já recebeu pareceria um tapinha nas costas de um amigo comparados ao verdadeiro golpe, pois aquilo não se poderia chamar de tapa, que Ino recebeu. Foi tão forte que a atirou dois metros para o lado.

- Eu deveria te matar aqui mesmo... Mas, não vou. Viver sem ter aquilo que quer é tortura o suficiente. Saiba que NUNCA eu vou deixar a Hinata, e mesmo que deixasse, NUNCA você teria alguma chance. Agora eu vou indo, pois tenho que prezar por quem é importante para mim, ao contrário de você, sua escória!

Sasuke saiu correndo, sentindo o desespero subir cada vez mais até seus olhos, onde extravasou por meio de lágrimas preocupadas. Ino ficou ali, sentada no chão, sentindo o rosto latejar. A marca da mão de Sasuke não era a única que ficara nela. Marcara também sua alma. Estava ferida no orgulho. Descera até o fundo do poço. Não tinha mais razão para viver. Ia se matar. Levantou-se, chorando, e foi até o parapeito da ponte. Subiu, mas quando ia deixar seu corpo cair, sentiu seu braço ser segurado.

- O que pensa que ta fazendo? – disse um garoto ruivo.

- Me deixe, eu quero morrer! – respondeu Ino, chorando.

- Calma, vamos, eu posso te ajudar – e, a muito custo, o ruivo convenceu a loira a não acabar com sua própria vida. Seu nome era Sabaku no Gaara, vinha da Vila da Areia. Por sorte ele nunca conseguira dormir muito bem, então resolvera dar um passeio. Foi quando viu Ino tentando se matar.

Neji chegara ao hospital muito rapidamente. Pediu socorro, e logo foi atendido. Colocaram Hinata numa maca, e a levaram para ser tratada. Perdera muito sangue, e precisavam fechar o ferimento profundo. Alguns minutos transcorreram até que um médico veio correndo até o Hyuuga. Parecia conturbado, e preocupado.

- Senhor, qual o tipo sangüíneo dela? – indagou o médico

- É... AB positivo... por que? – Neji pressentiu algo ruim vindo.

- Droga... então estava tudo certo... Temos um problema. Não temos mais AB positivo no estoque e ela precisa de uma transfusão imediata... Conhece alguém que tenha esse fator RH? – perguntou o médico. Neji não sabia o que fazer. Sua prima ia morrer, e ele permitira isso. Sentiu uma lágrima quente escorrer de seu olho esquerdo, quando ouviu uma voz familiar:

- Eu sou AB positivo! – os dois olharam para a entrada do hospital. Lá estava o garoto de cabelos negros, e olhos escuros como a noite. Estava sujo, exausto, e machucado. Mas conseguira chegar a tempo de salva-la, com sorte.

- Então vamos preparar a transfusão, imediatamente! – disse o cirurgião.