Capítulo 3: História de Vida

Jornalista Sophia: E há poucos minutos uma bomba explodiu na rua 23 de Maio. Morreram algumas pessoas que estavam num banco e algumas pessoas que passavam na rua. Aparentemente, segundo algumas pessoas, uma rapariga de cabelos negros esteve a avisá-los para saíram daquela rua rapidamente e pouco depois a bomba explodiu. Terá sido esta rapariga a pessoa que colocou a bomba? Mas então porque salvou estas pessoas? Voltaremos com mais pormenores dentro de alguns minutos.

Mãe do Rick: Oh meu Deus. E nós éramos para ter passado lá. Podíamos ter sido atingidos pela explosão.

Rick: Aquela rapariga sabia o que ia acontecer. Talvez fosse mesmo cúmplice. Mas para que é foram pôr uma bomba na rua 23 de Maio?

Algum tempo depois, a resposta foi dada no telejornal. Aparentemente, uns bandidos tinham feito explodir o cofre do banco que existia naquela rua. Mas não tinham muita experiência com bombas, a bomba foi muito potente e criou uma explosão muito maior, o que matou os bandidos, bem como algumas das pessoas que estavam no banco e outras na rua.

Rick: Amanhã tenho de falar com os outros sobre isto. - disse ele, pensativo. - Será que aquela rapariga é boa ou má? Mas como é que ela sabia que nós íamos passar naquela rua?

Mãe do Rick: Não faço ideia.

A noite chegou rapidamente. Quando o pai da Laura chegou a casa, encontrou a Laura à sua espera.

Laura: Olá pai. O Gabriel chegou para ver a mãe. - anunciou ela.

O pai abanou a cabeça.

Pai da Laura: Estou a ver. Já se foi embora?

Laura: Não. Vai ficar para jantar.

Pai da Laura: Para jantar? Mas...

Laura: Nada de mas, pai. A mãe fez questão. Vamos. E sê bondoso e calmo, se fazes favor. Não cries confusão à frente da mãe. Ela não precisa de mais stress na vida dela. - disse ela, de modo rígido.

Eles entraram na sala de jantar. O Gabriel, que estava sentado à mesa com a sua mãe, levantou-se.

Gabriel: Olá... pai.

Pai da Laura: Gabriel. Olá.

Eles aproximaram-se e apertaram as mãos.

Laura: Bom, vamos comer. Eu fiz o jantar. É massa à bolonhesa. É uma coisa simples, mas foi o que consegui fazer. - disse ela, indo buscar a comida à cozinha.

O pai da Laura virou-se para o Gabriel.

Pai da Laura: Então, o que tens feito? Alguma coisa de produtivo ou és um doidivanas?

Mãe da Laura: Querido, não digas isso! O Gabriel é muito ajuizado.

Pai da Laura: Vê-se. Há anos que não lhe púnhamos a vista em cima.

Gabriel: Você disse para eu nunca mais regressar a esta casa. - disse ele, carrancudo.

Nesse momento a Laura entrou com uma travessa com a massa.

Laura: Aqui está. - disse ela, pousando a travessa na mesa.

Pai da Laura: Eu só te disse para não voltares aqui porque tu me decepcionaste muito!

Gabriel: Pois, para sua informação, o pai também me decepcionou muito a mim!

Pai da Laura: Eu? Eu fui um óptimo pai!

Gabriel: Um óptimo pai teria aceitado o filho como ele era!

Os dois olharam-se ferozmente.

Mãe da Laura: Parem com isso, por favor.

Pai da Laura: A culpa é do teu filho! Nunca devia ter voltado.

Laura: Pai! Não digas isso. - disse ela, indignada. - Já está na altura de vocês fazerem as pazes. Vocês davam-se tão bem. Como é que deixaram as coisas chegar a este ponto?

Gabriel: Sabes como o pai é. É orgulhoso. Não aceita que eu sou diferente.

Pai da Laura: E porque é que hei-de aceitar? Porque é que não podes ser igual aos outros rapazes?

Gabriel: Eu não tenho culpa. Não escolhi ser assim.

A Laura sentou-se à mesa.

Laura: Pai, és tão egoísta. - disse ela. - Ele é teu filho, bolas! Já passámos por tanta coisa! Já fomos atacados por monstros, corremos risco de vida! E tu, alguma vez telefonaste ao Gabriel para saber se ele estava bem? Ainda agora há pouco, o mundo ficou cheio de monstros. Preocupaste-te em saber se ele estava bem? Eu telefonei-lhe, mas tu não. Não sentes nem um pingo de vergonha? Deixaste de gostar do Gabriel de vez?

Todos olharam para o pai da Laura.

Pai da Laura: Não sabes o que estás a dizer. Eu... o teu irmão é meu filho... é diferente... e eu não gosto das escolhas dele, mas não quer dizer que tenha deixado de gostar dele. - disse ele, tossindo.

Gabriel: Não é o que parece. Nunca mais quis saber de mim!

Pai da Laura: Pois, aí é que te enganas! Penso em ti todos os dias. E cheguei a telefonar-te algumas vezes... mas quando atendias eu desligava. Não tinha coragem para falar contigo.

Todos ficaram silenciosos por uns segundos.

Gabriel: Isso é mesmo verdade?

Pai da Laura: Claro que é. Não preciso de estar aqui a mentir.

Laura: Pai, se gostas do Gabriel, se te preocupas com ele, têm de fazer as pazes!

Mãe da Laura: Por favor. Eu preciso mesmo que sejamos uma família unida.

Pai da Laura: Mas querida, é difícil...

Mãe da Laura: Difícil? Sabes lá o que é difícil! Tu estás contra o nosso filho! Quando ele assumiu o que realmente era, viraste-te contra ele. Eu quis apoiá-lo, mas por causa de ti, ele saiu de casa. Nestes anos, nunca o vi. Estive sempre preocupada. Todos os dias eu pensava nele, em como estaria. Telefonei-lhe várias vezes, mas não era o suficiente. Queria falar contigo sobre o nosso filho, mas cada vez que puxava o assunto tu ficavas zangado. Tenho andado infeliz. Muito infeliz. E agora tenho um cancro. Não sei se vou viver ou morrer. Mas não tenho o direito de ter a família unida? Não tenho?!

Pai da Laura: Querida, eu não sabia que estavas infeliz...

Mãe da Laura: Estou! E muito! Quero a minha família de volta! Éramos tão felizes...

A mãe da Laura começou a chorar.

Laura: Mãe...

Pai da Laura: Querida, perdoa-me por ter sido tão egoísta. Não sabia que te estava a magoar.

Laura: Pai, tu estás a magoar a família toda. - disse ela, asperamente.

O pai da Laura suspirou.

Pai da Laura: Eu fui educado de maneira muito rígida, com bases morais também muito rígidas... e quando o Gabriel nos disse que era homossexual, não queria acreditar. E não podia aceitar! Ninguém da minha parte da família aprovaria. E não aprovaram mesmo. Só nos voltaram a falar quando o Gabriel saiu de casa.

Mãe da Laura: E a tua família, que nem sequer nos visita, nem um telefonema nos faz, é mais importante que o teu filho?

O pai da Laura e do Gabriel hesitou, mas depois suspirou.

Pai da Laura: Tens razão... Gabriel, desculpa-me filho. Desculpa o teu pai. Fui muito estúpido.

Gabriel: Pai... bom, na realidade foste mesmo muito estúpido. Mas eu estou disposto a perdoar-te.

Os dois ficaram a olhar um para o outro, sem saber o que dizer.

Laura: Oh, por favor, abracem-se lá de uma vez!

E os dois abraçaram-se.

Pai da Laura: Filho, eu vou compensar-se por tudo, prometo. - disse ele, com lágrimas nos olhos. - Porque é que não voltas a viver connosco, aqui em casa?

Gabriel: Não pai, não quero.

Pai da Laura: Mas eu pensei...

Gabriel: Eu perdoo-o, a sério que sim, mas já tenho a minha vida encaminhada noutra cidade. E é por lá que quero ficar, mas prometo que vos venho visitar.

Mãe da Laura: Querido, tens de vir mesmo. Temos tido muitas saudades tuas.

Pai da Laura: Pronto, Gabriel, se não voltas aqui para casa, em que é que te posso ajudar, filho?

Gabriel: Além de aceitar o que eu sou, pode começar a telefonar-me e não desligar quando eu atender. - disse ele, sorrindo.

Pai da Laura: Está prometido... hum e já agora... tu... bem, estás a namorar?

Gabriel: De momento, não.

O pai da Laura respirou de alívio.

Pai da Laura: Ainda bem. Filho, eu estou a começar a aceitar as coisas, mas nas calmas. Se aparecesses aqui com um namorado já, acho que me dava uma coisa má.

Os quatro riram-se.

Laura: Bom, vamos conversando enquanto comemos. A comida está a ficar fria.

Enquanto comiam, foram falando de tudo. O Gabriel foi-lhes contando o que tinha feito e a família foi-lhe relatando tudo o que tinha acontecido nos últimos tempos, inclusive que a Laura era uma guerreira. A reconciliação estava a resultar. As coisas não seriam as mesmas por algum tempo. Ainda havia feridas para sarar. Mas o tempo cura tudo e acabariam por superar tudo, juntos.

Gabriel: Ainda nem acredito. Uma guerreira?

Laura: É verdade. Eu depois mostro-te.

Gabriel: Bom, vou andando.

Pai da Laura: Andando? Para onde?

Gabriel: Ora pai, para o hotel onde estou hospedado.

Pai da Laura: Hotel? Qual quê! Vais mas é buscar as tuas coisas e ficas aqui em casa. Afinal, esta é a tua casa. Podes ficar sempre aqui quando nos vieres visitar.

O Gabriel sorriu.

Gabriel: Obrigado.

A mãe da Laura sorriu.

Mãe da Laura: Que alivio. Finalmente, está tudo bem entre eles.

Laura: Sim, finalmente.

Do lado de fora da casa, a Diana estava a espreitar por uma janela. Sorriu.

Diana (pensando): Perfeito! Fizeram as pazes. E o Rick e a mãe dele não foram afectados pela explosão. Está tudo a encaminhar-se.

No dia seguinte, o Rick reuniu os outros e contou-lhes tudo sobre a Diana e a explosão.

Helena: Ena, então escaparam por pouco.

Rick: Escapámos, porque a tal Diana nos avisou e a minha mãe quis seguir o conselho dela.

Sara: Mas realmente, é estranho... ela até podia ser cúmplice dos bandidos, mas como é que sabia que vocês iam passar lá?

Peter: Realmente, é inexplicável.

Laura: Bom, mas eu também encontrei essa tal Diana... ou pelo menos, pela descrição e pelo nome, parece ser a mesma pessoa.

Marina: Explica lá melhor essa história.

Laura: Bom, ela apareceu e disse-me que sabia do estado da minha mãe, por ela estar doente. E sabia da briga do meu pai com o meu irmão e disse que para eles fazerem as pazes eu tinha de intervir também.

Leon: E eles fizeram as pazes?

A Laura sorriu.

Laura: Fizeram. Ontem à noite. Estou super feliz com isso. - disse ela. - Agora só falta mesmo a minha mãe ficar boa...

Sara: Ela vai ficar bem, acredita que sim.

Laura: Eu espero mesmo que sim.

Por essa altura, bateram à porta da casa da Laura. O Gabriel foi abrir. A Diana estava à porta.

Diana: Olá. Eu vinha ver a dona Lídia Terence.

Gabriel: Ela é a minha mãe. Mas agora está a descansar.

Diana: Peço desculpa se vim em má altura, mas é muito urgente.

Gabriel: Desculpe, mas não sei se sabe, mas ela tem um cancro. Anda a fazer quimioterapia e precisa de descansar.

Diana: Eu sei isso tudo. E posso ajudá-la.

O Gabriel pareceu surpreso.

Gabriel: Ajudá-la? Como?

Diana: Desculpe, não lhe posso contar. Mas por favor, deixe-me falar com ela. Não se vai arrepender.

O Gabriel olhou para a Diana, pensativo. Tinha a sensação de já ter visto a Diana em algum lado.

Gabriel: Bom... pode entrar, mas só uns minutos. Ela tem mesmo de descansar.

O Gabriel levou a Diana ao quarto da mãe da Laura.

Mãe da Laura: Olá. Eu conheço-a?

Diana: Não. Mas temos muito que conversar. É importante. - disse ela, sorrindo. - Hum, podemos conversar a sós?

O Gabriel lançou um olhar nervoso à mãe, mas ela acenou afirmativamente e ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

Diana: Bom, eu tenho muitas coisas para lhe contar. Mas tem de manter segredo.

Quando a Laura chegou a casa, a Diana ia a sair.

Laura: Huh? O que é que tu estás a fazer na minha casa?

Diana: Eu já estava de saída. - disse ela, apressando o passo.

Laura: Ei! Volta aqui!

Diana: Desculpa Laura, falamos noutra altura. Adeus. - disse ela, começando a correr.

Laura: Mas que raio...

A Laura entrou em casa e perguntou ao Gabriel como é que a Diana tinha entrado. Ele explicou-lhe tudo.

Gabriel: E depois ela e a mãe ficaram imenso tempo fechadas no quarto a conversar.

Laura: Sobre o quê?

Gabriel: Não faço ideia.

A Laura subiu até ao quarto da mãe.

Mãe da Laura: Desculpa filha, mas não te posso dizer.

Laura: Mãe! Estás a guardar segredos de mim? Sou tua filha!

Mãe da Laura: Eu sei, querida. Mas prometi guardar segredo. Desculpa.

A Laura cruzou os braços.

Laura: Isto não me cheira nada bem.

Mãe da Laura: Vai correr tudo bem. - disse ela, sorrindo. - Olha, tenho este medicamento para tomar.

A mãe da Laura mostrou um pequeno frasco azul.

Laura: Mas não é nenhum dos medicamentos que o médico te receitou.

Mãe da Laura: Foi a Diana que o trouxe.

Laura: O quê? Não podes tomar medicamentos que uma estranha te trouxe.

Mãe da Laura: Laura, confia na tua mãe.

A Laura abanou a cabeça. Havia ali algo estranho e a sua mãe não lhe queria contar o que era. Na semana seguinte, a mãe da Laura e a Laura foram ao médico mostrar umas análises e exames que a mãe da Laura tinha feito. O médico abriu a boca de espanto.

Médico: Impossível!

Laura: O que foi, doutor?

Médico: Pelas análises e pelos exames... é... impossível!

Laura: Doutor, diga-nos o que é. O cancro ficou pior?

Médico: Não. Nada disso. É o contrário. Desapareceu! Desapareceu! É como se nunca tivesse existido. Nem há traços nenhuns do cancro…

Laura: O quê? Mas isso não é normal, pois não?

Médico: É como se fosse um milagre!

A mãe da Laura sorriu.

Mãe da Laura: Às vezes aparecem pequenos milagres nas nossas vidas.

A Laura olhou para a mãe.

Laura (pensando): A Diana... e aquele medicamento... mas como é possível? Não entendo.

O médico mandou fazer mais exames, mas não havia dúvida, o cancro tinha desaparecido. A mãe da Laura estava curada.

Laura: Mãe, diz-me, isto tem a ver com a tal Diana, não tem?

A mãe da Laura sorriu-lhe.

Mãe da Laura: Tem. Foi aquele medicamento que ela me deu que me curou.

Laura: Mas é impossível! Não existem medicamentos que curem o cancro!

Mãe da Laura: Mas a Diana é especial. Ela tem maneiras de obter coisas que nós não temos.

Laura: Mãe, tens me de contar o que ela te disse!

Mãe da Laura: Não posso, querida. É segredo.

Quando a Laura contou aos outros que o cancro da sua mãe tinha desaparecido, eles nem queriam acreditar.

Rick: A sério? Mas isso é maravilhoso, Laura!

Dean: Pois é. A tua mãe está finalmente curada!

Laura: Mas há mais. Ela curou-se por causa de um medicamento que a tal Diana lhe deu. - explicou ela.

Sara: Mas não há medicamentos para curar o cancro!

Laura: Isso foi o que eu disse à minha mãe. Mas supostamente, a tal Diana é especial. Ela conversou com a minha mãe, mas a minha mãe não me diz sobre o quê.

Anne: Que estranho... porque terá a tal Diana ajudado a tua mãe? Será que já a conhecia?

Laura: Não faço ideia...

Josh: Bom, temos de estar atentos à tal Diana. Não sabemos se ela é boa ou má. Até pode ser um inimigo disfarçado. Pode ter algum plano escondido.

Quando a Marina regressou a casa, ouviu uma gritaria e entrou. A sua mãe, Madalena, estava a discutir com a avó da Marina, Malvina.

Mãe da Marina: Mãe, vá-se embora! Não a quero aqui em casa!

Malvina: Mas que mal criada! Eu sou tua mãe!

Mãe da Marina: E só agora é que se lembrou? Rua!

A Marina entrou na sala nesse momento.

Marina: Mas o que se passa aqui?

A avó virou-se para ela.

Malvina: Oh, a minha querida netinha. Estás tão crescida. - disse ela, indo abraçar a Marina.

Marina: Pois, não nos víamos há algum tempo.

Mãe da Marina: Nem fazia mal nenhum. Agora, mãe, vá-se embora.

Malvina: Marina, estás a ver? A tua mãe está a expulsar-me daqui de casa.

Marina: Mãe, por favor, não podes fazer isto à avó.

Mãe da Marina: Posso e faço! A casa é minha, eu é que sei.

Marina: Desculpa mãe, mas eu não te deixo fazer isto. O que se passa? Tu não costumas ser assim.

Mãe da Marina: Tenho os meus motivos. Agora, rua!

E logo depois, a avó da Marina estava fora de casa.

Mãe da Marina: Nem lhe devia ter aberto a porta. Abri e entrou logo sem a convidar.

Marina: Mãe, mas o que é que se passa? Porque é que não gostas da avó?

Mãe da Marina: Querida, tu não conheces a tua avó. Ela não é o que parece.

Marina: Ok, até pode não ser. Mas eu não sei como ela é, porque tu não me contas. Mas eu quero ouvir.

As duas foram sentar-se no sofá da sala.

Mãe da Marina: Já que queres saber, vou contar-te. A tua avó nunca foi uma grande mãe. Aliás, nem sei se se pode chamar mãe a uma pessoa como ela. Claro, deu-me vida, mas pouco mais. Quando eu era pequena, eu e as tuas tias passávamos muitas necessidades. Sabes, só não morremos à fome porque havia vizinhos que nos ajudavam e davam comida.

Marina: Não sabia... nunca me tinhas contado...

Mãe da Marina: Pois é. Isto era quando eu era pequena. O meu pai, o teu avô, deixou-nos com a tua avó e fugiu com outra mulher. Nunca mais ouvimos falar dele. A tua avó não tinha jeito nenhum para ser mãe. Não queria trabalhar, não nos sabia criar, não nos alimentava e bebia muito. Andava quase sempre bêbada.

Marina: O que horror, mãe...

Mãe da Marina: Mas felizmente, eu tinha uma tia, a tia Maria, que nos vinha ajudar quando podia. Mas obviamente que ela tinha a vida dela. Fomos inscritas na escola, eu e as minhas irmãs, graças a essa tia. Mas era uma vergonha. Às vezes a tua avó ia à escola, bêbada e fazia escândalos. Chegou a bater nalgumas crianças e a discutir com os professores. Naquela altura não havia assistentes sociais que nos viessem buscar. Mais valia estarmos num orfanato.

A mãe da Marina suspirou.

Mãe da Marina: E depois a tua avó começou a bater-nos. Era horrível. E ela proibiu a minha tia de nos ir visitar e tratar de nós. Foram anos muito maus. Mas houve coisas piores. A minha irmã mais nova, a tua tia Margarida, tinha só nove anos. Apareceu um casal que não podia ter filhos e a tua avó tentou vender a tua tia, em troca de dinheiro, para a tua avó comprar vinho.

Marina: Mas isso é desumano, mãe!

Mãe da Marina: Mas eu não deixei. Peguei nas tuas tias e fugimos. Fugimos para casa da nossa tia Maria. A tua avó ficou furiosa, claro. Mas aí já a minha tia estava a tomar conta de nós. Fez queixa da tua avó e conseguiu ficar com a nossa guarda. A tua avó apareceu várias vezes para nos tentar levar com ela. E até nos chegou a bater. Por fim, eu fiz dezoito anos. A minha tia, coitada, acabou por falecer. E eu, com medo que a tua avó tentasse ficar com as outras filhas, tratei da papelada e fiquei com a guarda delas até elas atingirem a maioridade.

Marina: Não sabia disto, mãe. Tu é que tiveste de cuidar das tuas irmãs.

Mãe da Marina: Pois foi, mas não me importo. Mas agora percebes porque é que não gosto da tua avó?

Marina: Claro, agora percebo. Passaste por tanta coisa, mãe.

Mãe da Marina: Pois foi. Isso fez com que eu amadurecesse mais depressa. Por isso é que sou um bocadinho bruta. Enfim, esta é a minha história. Quando a tua avó viu que as filhas estavam independentes e com a vida em andamento, começou a tentar aproximar-se de nós.

Marina: Mas porquê? Está arrependida?

Mãe da Marina: Não. Claro que não. Mas ela vive mal. Ela quer é dinheiro. Mas eu não lho vou dar! Nem pensar! Não entra mais na minha casa.

Marina: Compreendo.

Mãe da Marina: E tu, afasta-te da tua avó. Ela é má pessoa. Vai tentar dar-te a volta.

Marina: Está bem.

Mas no fundo, a Marina não estava disposta a deixar as coisas assim. Afinal a sua avó tinha feito a sua mãe sofrer muito. A Marina queria saber o porquê. Porque é que a sua avó tinha agido daquela maneira durante toda a sua vida? A Marina queria descobrir e o melhor era, em segredo, ir procurar a avó e perguntar-lhe directamente.

Neste capítulo, muita coisa aconteceu. O Gabriel fez as pazes com o seu pai, a mãe da Laura curou-se graças ao medicamento que a Diana lhe deu, a avó da Marina apareceu e a mãe da Marina contou à filha a sua história de vida.

Afinal, como será que a Diana tinha um medicamento que cura o cancro? E a avó da Marina, que explicação terá ela para tudo o que fez de mal na vida? No próximo capítulo, mais coisas irão acontecer. Até lá!