Autora: Naomi

título original: A One Night Without a Stars

Tradutora: Tina-chan

Revisoras: Illy-chan Himura Wakai e Cris Kanaschiro.

Gênero: Yaoi, Romance.

Censura: Nenhuma.

Casal: 2+1

Advertências: Um pouco de Angústia, Suspense, Mistério e Assombração em geral.

Retratações: Os personagens de Gundan Wing e todos os relatos depois da colonização não me pertencem, mas aos seus criadores (Bandai, Sunrise, Sotsu Agency & TV Asahi). Eu estou simplesmente me divertindo um pouco com eles, sem nenhum propósito lucrativo.

Nota da Tradutora – Tina-chan

Eu dedico todo o esforço e incentivo para esta tradução a uma pessoa muito especial...

Eu dedico esta tradução a Você, minha querida amiga Illyana, por todo apoio que recebi!!!! Linda, agradeço, de coração, toda a gentileza que recebi de você para que este trabalho saísse... Portanto, este trabalho é tão meu, quanto seu, espero que te agrade... E a todas as pessoas que leram e me apoiaram um beijo especial para vocês que deixaram reviews tão gentis...

Um agradecimento especial mais uma vez as minhas revisoras que estão me ajudando muito, especialmente com as trapalhadas que faço quando vou tentar editar um capitulo. As pessoas que haviam me deixado reviews eu peço desculpas eu não as deletei intencionalmente foi um acidente... Eu sinto muito mesmo. pois, aquelas reviews eram um tesouro para mim que ficarão guardados no meu coração... Muito obrigado mesmo beijos e divirtam-se...

Quero me desculpar pela demora em editar mas estou com um pequeno problema de saúde que me impede de digitar mas farei o possível e não vou desistir... Obrigada pela paciência e pelo carinho...

Há! E não menos importante:

Agradeço também, à Naomi pela autorização, e incentivo para o trabalho – bem como a paciência em responder minhas dúvidas...

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capítulo 03

As suaves luzes do sol filtravam através das cortinas, iluminando o quarto de Duo com raios de luz alaranjados. Partículas de pó dançavam preguiçosamente pelo ar como que movidas por uma força desconhecida. Deitado em uma grande cama bem no meio do quarto, estava Duo. Sua trança estava esparramada descuidadamente sobre seu travesseiro, pequenos fios de cabelo esticados em todas as direções. Ele estava deitado de lado, olhando para a janela, enquanto densas nuvens arrastavam-se lentamente pelo céu.

Ele havia dormido pouco aquela noite, velando o sono de Heero até o amanhecer. Tentara manter a febre baixa, gentilmente lavando a face do garoto, tentando diminuir o desconforto. A respiração de Heero parecia estar calma naquela noite e o garoto havia dormido profundamente todas as horas de escuridão. Quando o sol surgiu por trás das montanhas gramadas, Duo silenciosamente deixara o quarto, não querendo estar lá quando os outros pilotos acordassem, prontos para repreendê-lo.

Ele se jogara cansadamente sobre a cama, mas só conseguira dormir cerca de três horas, então. Pesadelos infestaram seu sono, memórias de um passado difícil, cheio de dor e doenças. Ele não se lembrava de muita coisa de seu sonho, mas isto o acordou e o fez meditar sobre sua infelicidade. E então ele se mexeu em sua cama, curvando-se em uma posição fetal, observando a visão do lado de fora da janela com olhos entorpecidos.

Heero parecia muito mal, na noite passada. Ele podia jurar que o garoto japonês mal o reconhecera. O olhar em seus olhos... Era tão confuso... Como se não tivesse certeza de onde ele estava. E o acesso de tosse... Ficava cada vez pior. Era um milagre Heero ainda estar respirando, de qualquer maneira. Dois dias com aquela doença... Solo mal vivera dois dias com aquela enfermidade... Mas Heero... Ele estava se agüentando. Ele era tão forte... Talvez... Apenas talvez...Talvez houvesse uma chance? Podia ele atrever-se a ter esperanças?

Duo suspirou, fechando os olhos tristemente. Não. Esperança era algo ruim. Ela fazia você se sentir ainda pior, quando ela era esmagada. Ele havia tido esperanças de que Solo sobrevivesse. Ele havia tido a esperança de que, uma vez que lhe desse o antídoto, ele ficaria bem. Porém, ele não estava bem. Ele estava morto.

Chorando silenciosamente, Duo ergueu as duas mãos para secar as lágrimas que escorriam. "Meninos não choram..." Murmurou para si mesmo, sentindo-se mal por derramar lágrimas. "Eles não choram...".

Então, ele prometeu a si mesmo que, quando Heero morresse, ele não choraria.

Meninos não choram.

Por ninguém e nem por Heero.

Lamentando-se outra vez, Duo virou-se em sua cama, enterrando seu rosto no travesseiro. "Heero... Eu não quero chorar... Então... Então, por favor... Eu não quero chorar...".

Tap. Tap. Tap...

Heero olhou de sua cama, com olhos azuis enevoados pela febre. Ele forçou-se a erguer-se sobre um cotovelo, tentando ter uma visão melhor do quarto.

Tap... Tap... Tap...

Novamente, o som suave veio até seus ouvidos, e a respiração de Heero se acelerou, ansiosa. Ele sentiu o corpo tremer sob o esforço de manter-se levantado e então caiu de volta na cama.

Tap. . . Tap. . . Tap. . .

Suspirando e amaldiçoando sua curiosidade, Heero se ergueu um pouco mais, sentando na cama e encostando-se pesadamente contra sua pequena montanha de travesseiros. Arquejante, ele levantou uma mão para secar seu rosto suado, piscando algumas vezes, ajustando sua visão. Lentamente se virou para olhar o canto do quarto e ficou surpreso ao ver que aquela bola se fora.

Ele havia imaginado aquilo também? Fora uma outra alucinação? Ou alguém teria a levado embora? Teria sido Quatre?

Tap! Tap! Tap!

Ele virou a cabeça para o lado, observando a porta outra vez. Seus olhos azuis-cobalto arregalaram-se em uma leve surpresa enquanto via a bola rosa pular uma vez e então parar na passagem de seu quarto. Depois disto, ela simplesmente ficou parada.

Confuso, Heero empenhou-se em levantar, porém seus membros não estavam cooperando. Suspirando pesadamente, ele caiu de volta sobre os travesseiros e apenas fitou a bola, cansado.

Os enevoados olhos azul cobalto piscaram lentamente, enquanto um par de pezinhos vieram e pararam ao lado da bola. Delgados tornozelos, numa meia calça rosa vestida ao redor das perninhas roliças, sapatos brancos e polidos, que brilhavam sob os suaves raios de sol.

Heero piscou novamente, engolindo seco quando a garotinha abaixou-se e pegou a bola dela. Seguiu-a com seu olhar fixo e enevoado, enquanto ela lentamente se levantava, sorrindo para ele.

Ele ofegou em resposta e viu a garota rir para ele. Porém, nenhum som saiu de sua boca. Heero franziu as sobrancelhas, imaginando por quê sua alucinação não viera com som. Aquilo seria realmente chato, ele refletiu.

Ainda rindo, a criança inclinou a cabeça de lado em divertimento, examinando o garoto japonês sobre a cama. Heero apenas fixou o olhar nela, incapaz de olhar para longe daqueles enormes e assombrosos olhos de avelã.

No fim, a garota levantou a bola com as mãos, sorrindo para Heero.

Ele cautelosamente recuou quando ela jogou-a para ele. Agindo por reflexo, seus braços voaram e pegaram a bola. Ele olhou fixamente para baixo, chocado e surpreso por poder pegar uma coisa que sua imaginação havia conjurado. Simplesmente baixou o olhar pasmado para a bola em suas mãos, examinando-a de todas as direções, como se fosse um alienígena que ele nunca tivera visto antes.

Decidindo que aquilo era mesmo uma bola sólida e real, o que ele estava segurando, Heero olhou novamente para a garota.

Ela ainda estava parada na passagem da porta, estudando-o com seus grandes olhos de avelã. Um sorriso estava brincando sobre suas pálidas feições e ela lentamente levantou as mãos para cima, gesticulando para Heero jogar a bola para ela.

Perplexo, Heero baixou o olhar para a bola em suas mãos, então olhou de volta para a garota e então para a bola. Ele mandou um olhar interrogativo para ela, levantando a bola em questão. Ninguém NUNCA quisera jogar bola com ele...

Sorrindo ternamente para ele, a garota gesticulou para a bola novamente.

Suspirando, Heero desistiu de tentar entender tudo aquilo, e levantou a bola no ar.

Ele jogou a bola, os olhos azul-cobalto seguindo-a enquanto ela voava através do quarto, descendo na direção da garotinha.

E passando direto através dela.

Seus olhos arregalaram-se surpresos enquanto ele observava a bola passar através da garotinha, que estava pulando no ar com as mãos para cima, tentando desesperadamente pegar a bola.

Entretanto a esfera rosa manteve-se voando para fora do quarto.

Até bater na cabeça de Trowa.

O piloto do Heavyarms deu uma parada rápida no meio do corredor, bem em frente à porta de Heero.

Heero olhou-o com os olhos arregalados, enquanto o piloto de olhos verdes piscou algumas vezes e então lentamente inclinou a cabeça para baixo, olhando para o chão. Ele piscou outra vez quando viu a bola e então lentamente, curvou-se para baixo e pegou-a. Levantou-se vagarosamente em toda a sua estatura, olhando para a bola rosa, confuso. Então, voltou seu olhar para Heero.

O adolescente japonês estava sentado em sua cama, os olhos azuis examinando a reação de Trowa. Ele manteve-se num estóico silêncio enquanto o outro piloto olhava para a bola outra vez, piscando confuso. Por uns longos minutos, os dois olharam fixamente um para o outro, com rostos indecifráveis.

Eventualmente, Trowa acenou com a cabeça, curvando-se outra vez e cuidadosamente rolando a bola para dentro do quarto.

Heero viu com olhos estarrecidos quando o pequeno objeto rolou direto pela passagem da porta e direto pelo corpo da garota outra vez. Ele levantou a cabeça para observar a reação de Trowa, mas o outro piloto acenou novamente e caminhou a diante.

Confuso, Heero deixou seu olhar cair fixamente na pequena bola.

A garotinha ria silenciosamente.

Trowa entrou silenciosamente na cozinha, indo na direção da geladeira para pegar uma bebida. A cozinha estava inundada com os puros e brancos raios solares, fazendo o lugar de aparência escura brilhar mais que o habitual. Sentado na mesa da cozinha, estava Quatre, com um maço de papéis, pastas e relatórios espalhados por toda a mesa. Ele estava ocupado lendo sem parar um dos relatórios, completamente atento.

O assoalho de madeira rangeu sob os pés de Trowa, enquanto ele andava e Quatre levantou seu olhar.

"Oh! Oi Trowa!" O árabe saldou-o, olhando para ele com um sorriso. "Você dormiu bem?"

Trowa acenou, então se curvou para olhar dentro do refrigerador, de cima a baixo.

"Como foi seu turno, esta noite?"

"Nenhuma ocorrência perceptível."

"Foi muito gentil de sua parte cobrir o turno de Duo". Quatre comentou, olhando para o amigo enquanto ele bebia.

Trowa encolheu os ombros. "Alguém tinha que fazê-lo". Ele olhou para fora da janela brevemente e sentou-se ao lado de Quatre. "É o Wufei lá fora?"

"Sim." O loiro consentiu. "Eu irei trocar com ele daqui a duas horas."

Trowa acenou, compreendendo. Olhou por cima de seu ombro para a porta da cozinha e então se virou, voltando para o outro garoto. "E Duo?"

Quatre suspirou, baixando sua cabeça pesarosamente. "Ele ainda não desceu."

Trowa não respondeu e Quatre suspirou tranqüilamente. Retornou a ler seus relatórios.

"O que você está lendo?" Trowa perguntou depois de um longo silêncio.

"Oh, apenas as instruções da missão. Eu percebi que ainda não havia passado os olhos por tudo isto, ainda". Ele explicou timidamente, virando uma página e começando a ler outra. "Existem alguns fatos interessantes sobre esta casa".

Trowa levantou uma sobrancelha. "Interessantes? Como assim?".

Quatre examinou algumas sentenças a mais e então levantou o olhar para o amigo. "Bem, nós fomos enviados aqui para espionar a base, porque existe uma suspeita de que a OZ esteja treinando, hmm, bem, colocando diretamente... psicopatas, como soldados".

Trowa assentiu. "Sei". Ele confirmou, observando a janela outra vez. "Nós temos que confirmar estas suspeitas, e se forem verdadeiras, devemos destruir a base".

"Sim, eu sei". O loiro murmurou com um suspiro silencioso. "Isto foi o que eles nos contaram. O que eles não nos contaram, eu descobri hoje".

Trowa ergueu uma sobrancelha inquiridora e Quatre suspirou novamente. "Parece que houve alguns casos graves de assassinato nesta região. Nas fazendas ao redor da base, incluindo esta casa".

"OZ?" Trowa perguntou, já sabendo a resposta.

Quatre assentiu tristemente. "Eles estavam usando civis como alvos para praticar".

Algo obscuro lampejou nos olhos verdes de Trowa, mas a não ser aquilo, ele não respondeu.

"Havia uma família vivendo aqui alguns anos atrás, e eles foram brutalmente assassinados".

"Quem foi assassinado?" Uma nova voz veio por trás, e ambos os pilotos olharam para ver Duo, parado na porta da cozinha, bocejando.

"Os antigos residentes desta casa". Trowa respondeu calmamente, observando Duo enquanto ele caminhava para dentro da cozinha, esticando seus braços.

"Oh claro." O rapaz de trança falou sarcasticamente, caminhando até a geladeira. "Então o que nós devemos esperar? Ruídos de correntes, lençóis brancos voando...?".

Quatre riu. "Nada deste tipo, eu temo. Todos eles foram enterrados bem longe daqui".

"Oh pobreza!" Duo comentou secamente, pegando uma garrafa de água e indo sentar-se ao lado de seus amigos. "Então fantasmas não se interessam em atravessar centenas de milhas só para assombrar o antigo lar deles?".

Quatre riu novamente. "Eu não acho que eles se importam. Mas eu não saberia dizer; eu não acredito em fantasmas".

"Ah, qual é! Quase TODO MUNDO acredita em fantasmas!" Duo exclamou. "É como a lei da natureza de alguma coisa. Você já teve medo de alguma assombração ou coisa parecida, certo, Trowa?" Ele voltou o olhar para o outro piloto, procurando por apoio.

"Eu não acredito em fantasmas, Duo". Trowa informou-o tranqüilamente. "Ao menos, não neste tipo de fantasma a que você está se referindo". Ele suspirou, olhando Duo diretamente nos olhos. "Todo mundo tem um fantasma, todos nós temos coisas que nos assombram. Mortos, ou não."

Duo suspirou, lançando seu olhar para baixo. "Sim, eu sei..." Murmurou, olhando entorpecido para sua bebida. "Todo mundo tem um fantasma..." O meu tem cabelos loiros, feições pálidas e olhos verde-dourados com a luz deles há muito perdida...

Tap! BANG! Tap! BANG! Tap! BANG!Tap!

Sentado em sua cama, Heero suspirou e pegou a bola. Ele estava encostado, sustentado por uma montanha de travesseiros, encarando a parede oposta. Estava ocupando a si mesmo jogando a bola na parede, vendo-a pular de volta para si, e então jogava a bola novamente.

O quarto estava vazio e quieto, exceto o barulho vindo da bola de borracha batendo na parede e voando de volta para as mãos de Heero, que esperavam-na. A garota se fora há muito tempo, deixando a bola dela para trás. Heero refletiu de que aquilo era um sinal de que a febre cedera um pouco. Ele realmente sentia-se um pouco melhor agora, quase refrescado. Embora ele ainda se sentisse doente e fraco, era capaz de se sentar e brincar com aquela estúpida bola rosa.

Tap! BANG! Tap! BANG! Tap!

Heero deixou sua mente vagar enquanto tediosamente jogava a bola na parede, a visão vagueando quando ele parou de prestar muita atenção no jogo.

Tap! BANG! Tap! BAN

Heero olhava para a palma de suas mãos, enquanto esperava que a bola pulasse de volta para ele. Mas isto não aconteceu. Frustrado, Heero olhou para cima e ofegou.

A garotinha estava parada em frente à sua cama, segurando a bola em suas mãozinhas.

Heero engoliu em seco e levantou-se um pouco, ainda encarando a garota.

A criança sorriu ternamente para ele, levantando a bola e olhando-o em dúvida.

Heero assentiu lentamente, o corpo ainda entorpecido pelo choque. Ele observou-a numa leve surpresa, enquanto a garota jogava a bola para ele, e levantou suas mãos para pegá-la.

A garota riu silenciosamente, sem fazer nenhum som natural e então saltou no ar alegremente, batendo as mãos.

Heero não pode evitar de sorrir debilmente, com a alegria dela e então lentamente levantou a bola, em um olhar questionador. A garota sorriu e assentiu, ansiosa que ele jogasse a bola para ela. Respirando profundamente, Heero fez exatamente aquilo, com apreensão e esperança, enquanto a bola voava pelo quarto.

A bola aterrissou no chão atrás da garota.

Suspirando, ele pareceu triste, abaixando a cabeça. Olhando para cima através da franja desordenada, ele pode ver a garota fazer um bico amuado, baixando o olhar para a bola com olhos tristes e saudosos.

"Me perdoe..." Ele sussurrou fracamente, olhando para a expressão desamparada, dela. Ele não podia entender por quê ela não conseguia pegar a bola. Sua ilusão podia obviamente SEGURAR a bola e então JOGÁ-LA para ele, porém, isto não funcionava quando no sentido inverso. Por que aquilo? Por que a sua ilusão era tão estranha?

A garota apenas suspirou e então encolheu os ombros, impotente. Ela sorriu um pouco triste para ele, e vagarosamente caminhou para a cama.

O corpo de Heero ficou tenso, contraindo-se enquanto a pequena criança caminhava para o lado de sua cama, olhando para ele com aqueles enormes olhos cor de avelã. Eles eram tão inocentes e puros... Tanto quanto... Tanto quanto ela... Aquela garota...

Subitamente, o sorriso da garota diminuiu, como se ela pudesse sentir sua tristeza. Ela estendeu uma mãozinha para confortá-lo, porém ele não podia sentir seu toque. Apenas baixou o olhar, estarrecido, para aonde a mãozinha estava tocando em sua mão, mas ele não conseguia sentir nada. Apenas um pequeno formigamento, entretanto muito fraco, que desapareceu rapidamente. Levantando a cabeça lentamente, ele tornou a olhar para a garotinha.

Ela estava levando a mão para trás do vestido branco, tirando alguma coisa de lá. Ele viu, com olhos arregalados, quando ela deu-lhe um delicado item.

Uma flor.

Uma simples flor branca.

Heero forçou-se a respirar numa respiração instável, sua mão tremia enquanto a estendia para pegar a flor. Lentamente e hesitante, ele tocou a flor, olhando para ela como se fosse o próprio Deus, que ele estivesse tocando. Um de seus dedos fez contato com a delicada flor e ele recuou surpreso, por aquilo ser real.

Os atordoados olhos azuis lançaram-se sobre a face da garotinha e viu que ela estava sorrindo. Ele olhou de volta para a flor e gentilmente, retirou-a da mão dela. Trouxe-a devagar para a frente de seu rosto, olhando para ela com os olhos azuis arregalados e a boca levemente aberta, em choque.

Outra vez a garota riu, e ele olhou para cima quando captou o movimento dela com o canto dos olhos. Ela saltou para a cadeira branca do outro lado do quarto, paralela a sua cama. Ela exibiu-lhe um largo sorriso antes de finalmente sentar-se com as pernas penduradas na cadeira, balançando lado a lado. Seus olhos de avelã estavam dançando com uma nova luz suave, levemente sorrindo.

De alguma maneira, Heero conseguiu sorrir de volta, um sorriso pequeno e hesitante; que fez o sorriso da garotinha crescer. Ele baixou o olhar para a flor em suas mãos, chocado demais para tentar processar o que exatamente acontecera.

E então, Wufei entrou no quarto.

"Yuy, eu trouxe o almoço. Você vai querer?" O piloto chinês chamou enquanto entrava no quarto, carregando uma pequena bandeja com uma tigela de sopa.

Heero seguiu-o com seus olhos, enquanto ele caminhava até a cama, colocando a bandeja cuidadosamente em uma pequena mesa perto da cadeira onde a garotinha estava sentada. Ele tinha certeza de que o piloto tinha alguma coisa para dizer sobre a presença da garota no quarto, mas ele não disse nada. Isto o confundiu. Se a garota podia segurar a flor – uma flor real – e uma bola, então ela devia ser real. Ou pelo menos, não uma invenção de sua imaginação. Ou talvez a flor fosse uma ilusão também?

Totalmente mudo com a sua pequena flor, Heero suspirou e cuidadosamente levantou o olhar. E deu a flor para Wufei.

Wufei, que simplesmente estava pegando a tigela de sopa fumegante, levantou o olhar para Heero e piscou. Ele olhou para a flor que o outro estava segurando e piscou novamente. Levantou o olhar para Heero, muito confuso; Heero Yuy estava lhe dando... Uma flor?! Mas que diabos?!

Limpando a garganta, Wufei tossiu nervosamente, e então olhou para Heero com um franzido no rosto.

Agora se sentindo muito tolo, Heero deixou sua mão cair e olhou a diante.

Wufei suspirou e balançou a cabeça, murmurando alguma coisa, baixinho. Ele entregou a sopa para Heero.

"Eu apenas queria ter certeza de que ela estava aqui." Heero resmungou numa voz rouca, pegando a sopa de Wufei, porém ele estava envergonhado demais para olhar para o outro piloto.

Wufei parou por um momento antes de entregar a colher a Heero. "É claro que estava, Yuy, você a estava segurando".

Heero suspirou e assentiu fracamente. Poucas horas atrás, aquilo faria sentido perfeitamente. Mas agora, aquilo era uma droga de uma confusão.

Suspirando novamente, Heero pegou a colher de Wufei e mergulhou-a na sopa; seu olhar fixo sobre a garota o tempo todo. Ela ainda estava sentada na cadeira, rindo silenciosamente para si mesma. Heero virou-se de volta para Wufei, porém o piloto do Shenlong parecia não notar a presença da menina.

"Cuidado!" exclamou Wufei, quando ele viu que Heero tinha derrubado um pouco de sopa sobre a cama, enquanto levava a colher para sua boca, mas sem ver o que estava fazendo.

Heero recuou um pouco, surpreso com a sua bagunça. "Me desculpe". Disse roucamente, e enviou um outro olhar rápido para a garota. Ela estava gargalhando agora, apontando para ele e rolando de costas na cadeira. Heero fez uma careta e então a encarou.

"Você precisa de ajuda?" Wufei perguntou para Heero, preocupado.

"Não". Heero respondeu sem olhar para ele.

O adolescente japonês tornou a fitar a sopa, pegando a colher novamente. Suspirando profundamente, ele começou a tomá-la. Wufei manteve-se próximo a ele para ter certeza de que ele comeria sem derramar a sopa outra vez. De tempos em tempos, Heero levantava o olhar para Wufei, enquanto comia. Ele apertou o punho ao redor da flor que estava segurando, querendo ter certeza de que ela realmente estava lá. Ele examinou as feições de Wufei e franziu as sobrancelhas. Lançou um olhar rápido para a garota e aprofundou uma carranca.

A garotinha estava bem ali... Porque ele não podia vê-la?

Aquela noite, Quatre caminhou silenciosamente para o quarto de Heero, vendo Duo olhar para ele, de onde subia as escadas. Ignorando o olhar indiferente do rapaz por hora, Quatre adentrou o quarto.

Uma leve tempestade de verão entrava no quarto pela janela, enchendo-o com o aroma da primavera e a vinda do temporal. Ela brincava com a fina cortina, sacudindo-a para cima e para baixo, o crepúsculo escuro que vinha de fora tremulava enquanto as cortinas chacoalhavam.

Heero estava deitado em sua cama, os lençóis jogados de lado, expondo somente partes do short de Heero, colados ao corpo. Sua camiseta estava jogada de lado no, chão. Quatre não se lembrava de tê-lo visto tirá-la, mas refletiu que Heero a tinha tirado por si mesmo. A leve brisa passava sobre seu torso suado, acariciando o peito de Heero, que subia e descia lentamente, a cada respiração.

Suspirando profundamente, Quatre andou até a pequena cama, dirigindo-se ao criado mudo. Ele mergulhou a mão dentro da tigela de água, suspirando quando achou que a água estava morna e não havia sobrado muito. Ele pegou alguns vidros de remédio e um pequeno copo para manuseá-los. Colocou um pouco de xarope para tosse em um copo minúsculo, certificando-se em por a quantidade certa. Abriu alguns frascos de pílulas e colocou-as habilmente uma próxima a outra e então, sentou na cama de Heero.

Ele ficou um tempo apenas olhando para as feições pálidas de Heero, calmas e relaxadas em seu sono.

Depois de um tempo, Quatre estendeu uma mão, e gentilmente, cutucou Heero para despertá-lo.

Tossindo fracamente, o jovem japonês abriu os olhos, piscando algumas vezes antes de olhar para Quatre. O loiro sorriu ternamente, ajudando Heero a se levantar um pouco, afofando alguns travesseiros para que ele se encostasse sobre eles.

"Hora do remédio". Ele sussurrou, entregando para Heero o pequeno copo de xarope.

Heero pegou o copo dele, suspirando lentamente, seus olhos azuis olhando pelo quarto. Estava escuro e um pouco quente, mas a não ser Quatre e ele, o quarto estava vazio. Suspirando outra vez, ele engoliu o remédio silenciosamente, pensando que aquilo pouco faria por ele. Ele tinha certeza de que Quatre sabia daquilo também, mas ainda assim, o loiro insistia em dar-lhe pelo menos mais quatro pílulas e dois copos de água.

Depois de tomar o remédio, Heero jogou-se pra trás em suas cobertas, gemendo baixinho e fechando os olhos cansados. Mesmo os fracos raios solares estavam ferindo seus olhos. Ele sentia-se mal, quente, pegajoso e suado. Seu corpo ainda doía, porém o respirar estava um pouco mais fácil.

"Heero, você precisa de alguma coisa?" Quatre perguntou calmamente, empurrando um pouco da franja ensopada de cima dos olhos fechados de Heero. "Você está com fome? Acha que pode comer alguma coisa?"

Respirando fundo, Heero de alguma maneira negou com a cabeça suavemente. Enquanto o silêncio caia entre eles, Heero lentamente abriu os olhos e virou a cabeça para a porta. Ela estava aberta novamente, e ele podia ver o cintilar suave das velas vindo do corredor. Seus olhos arregalaram-se brevemente quando ele viu Duo andando pelo corredor, passando pela sua porta e colocando uma pequena vela no chão, enquanto segurava uma outra na mão.

Notando que estava sendo observado, o adolescente de trança lentamente parou onde estava, colocando a vela e voltou seu olhar para Heero.

O cobalto encontrou o violeta, e Heero não pode evitar; abriu a boca quando viu os olhos de Duo. Nunca, em todo o tempo que conhecia o baka, havia visto aqueles olhos parecerem tão... Sérios. Quase assombrados. Silenciosos. Sem a linguagem galanteadora. Talvez fossem as sombras dançando em sua face, ou talvez fosse a visão embaçada de Heero, mas apesar disso, Heero podia encontrar apenas uma palavra para a aparência do rosto de Duo: Sombria. O rosto de Duo parecia triste e agourento. E, por alguma razão, Heero achou que era a coisa MAIS perturbadora que ele já tinha visto. Isto o fazia doer por dentro, vendo a aparência triste de Duo nos olhos habitualmente vivos.

Ele não podia suportar muito mais aquilo, então virou seu olhar para frente e fechou os olhos.

Duo suspirou, pesaroso e olhou para frente também.

Foi então que Quatre percebeu que Duo estava parado na passagem da porta e seus olhos arregalaram-se brevemente. "Duo, você não deveria estar aqui." Ele murmurou, sério.

"Eu sei". Duo falou amargamente, respirando fundo e se endireitando. "Eu já estou saindo".

Na cama, Heero tossiu.

"Desculpe, Duo". Quatre disse com pesar, seus olhos brilhando com tristeza. "Mas não podemos arriscar".

Heero tossiu novamente, mais alto desta vez. A tosse foi seguida por um baixo gemido de dor.

O olhar de Duo rapidamente estava sobre ele, suas sobrancelhas aproximando-se em preocupação. "Heero? Você está bem?".

Tossindo, Heero assentiu levemente, levando uma mão ao peito e colocando-a sobre o coração.

"Heero?" Quatre perguntou preocupado, baixando o olhar para seu amigo. Seus olhos se arregalaram quando viu que o outro estava tendo dificuldades para respirar, engolindo grandes quantidades de ar, com os olhos arregalados, olhando entorpecido para o teto.

"Oh Deus! Heero!" Quatre exclamou pulando da cama, aflito. Esforçou-se para levantar o corpo de Heero, tentando limpar suas vias aéreas, mas o corpo suado do japonês mantinha-se escorregando de seu aperto.

Vendo aquilo, Duo precipitou-se para dentro do quarto.

"Duo... Não! Fique onde está!" Quatre comandou, ainda esforçando-se para ajudar Heero.

"Mas..." Duo começou, olhando desesperadamente para Heero.

"Sem 'mas'! Apenas fique lá fora, Duo. Eu posso cuidar disto". Quatre assegurou-o.

Ainda buscando por ar, Heero olhou na direção de Duo, percebendo o garoto baixar os ombros tristemente e olhando para ele com um brilho estranho no olhar.

"Onii-San?" Sussurrou subitamente uma nova voz, e os olhos de Heero arregalaram-se, surpresos. Ainda ofegando e se esforçando para respirar, Heero virou a cabeça, encarando o outro lado do quarto.

"Você pode me ouvir?!" Uma suave voz infantil chamou, e Heero aspirou profundamente e então a tosse voltou. Seus olhos azuis arregalaram-se o máximo possível quando ele a viu. Parada no canto do quarto com a bola dela nas mãos, e seus grandes olhos cor de avelã fixos nele, brilhando na escuridão.

"Ah... ARGH!!" Ele engasgou, estendendo a mão trêmula, como se chamasse por ela.

"Heero, acalme-se! Apenas relaxe, tente respirar!" Quatre implorou, segurando sua mão e gentilmente levando-a de volta para a cama.

Heero engasgou e deu um outro grunhido em protesto, erguendo a mão novamente.

"Heero, por favor! Tente se acalmar!". A voz de Quatre soou em seus ouvidos novamente, mas ele a ignorou, olhando para a garota o tempo todo, seus olhos implorando para que ela falasse novamente.

Entretanto a garota manteve silêncio, olhando para ele com aparente desinteresse em seus olhos.

"Assim, Heero... continue respirando profundamente...".

Ele podia sentir a mão de Quatre sobre ele, batendo em suas costas, elevando a parte superior de seu corpo, tentando ajudá-lo a respirar. Eventualmente, o acesso de tosse cessou, e Heero caiu de costas na cama, exausto. Ele apenas deitou-se lá, sem ar, sem tirar seus olhos de cima da garota, ainda esperando que ela falasse.

"Heero, está tudo bem?" A voz suave de Quatre alcançou novamente seu ouvido, mas ele a ignorou. Buscou sua respiração quando viu a garota abrir a boca, e esperou, aflito, que ela falasse novamente.

Porém nenhum som veio da boca dela.

Heero jogou-se de volta sobre as cobertas, suspirando profundamente. A menininha abaixou o olhar triste, com um pequeno bico em seus lábios.

"Heero?" A voz de Duo veio da porta e Heero forçou-se a olhar para ele. "Você está bem?"

Ele parecia tão... Preocupado. Sua voz cheia de medo. E aquele brilho fatídico que ainda estava em seus olhos, cintilando sob a luz suave da vela do corredor.

Heero tentou imaginar o que aquele olhar significava, mas então começou outro acesso de tosse e ele teve que se concentrar em manter a respiração estável. Ele sentia seus pulmões queimando e seu rosto tornar-se quente, toda vermelha e cheia de grandes gotas de suor. Pode sentir as mãos de Quatre sobre ele, tentando ajudar, acalmar, qualquer coisa.

Finalmente a tosse diminuiu e Heero afundou-se nos cobertores.

O quarto estava silencioso novamente e tudo o que se podia ouvir era a respiração difícil de Heero, enquanto ele continuava respirando rapidamente, em busca de ar.

"Heero?" Quatre começou, sentando-se na cama outra vez. "Está tudo bem agora?".

Esforçando-se para manter os olhos abertos, Heero lentamente voltou o olhar para Quatre. Lançou um rápido olhar para a garotinha e então se voltou para Quatre. Lambeu os lábios rachados de sede e respirando profundamente, falou: "... Eu não posso ouvi-la...".

Confuso pela declaração de Heero, Quatre estendeu a mão e posou a palma fria em sua testa. Estremecendo com o contato, Quatre rapidamente retirou a sua mão, baixando o olhar preocupado para o amigo. "Você está queimando". Ele olhou para Duo, que estava parado na passagem da porta, parecendo tão pálido quanto a neve, no topo de uma montanha. "Duo, vá encher a banheira para ele. Ponha água fria, mas não muito. Eu acho que ele pode estar delirando".

Sem uma única palavra, Duo assentiu e correu até o banheiro.

Quatre suspirou e se voltou para olhar Heero. Os olhos do rapaz estavam fechados novamente, aparentemente dormindo com uma mão sobre o peito, que subia e descia lentamente.

No canto do quarto, grandes olhos cor de avelã brilhavam preocupados.

O pé de Duo batia nervosamente no chão do banheiro enquanto olhava a banheira encher-se lentamente com água. Ele abaixou-se, mergulhando a sua mão na água diversas vezes, checando a temperatura. Ele colocou algumas velas no cômodo, fazendo os azulejos brancos da parede brilharem com uma cor laranja escuro. As sombras dançavam por todos os cantos e somente o som da água corrente podia ser ouvido, ecoando pelo pequeno cômodo.

Depois que a banheira estava cheia pela metade, Duo saiu correndo do cômodo, se dirigindo para onde ele havia acabado de sair. Escorregou ao parar na porta de Heero, e com uma mão sobre o batente, ele espiou quarto adentro.

Pôde ver Quatre se esforçando para ajudar Heero a sair de sua cama. O rapaz japonês estava fraco demais para manter-se em pé sozinho, e ele se inclinava pesadamente sobre os ombros de Quatre. Infelizmente, o corpo pequeno mal podia suportar o peso, enquanto o piloto do Wing inclinava-se pesadamente sobre sua forma pequena, uma mão flácida sobre seus ombros. Ele tinha que segurar aquela mão para firmar o corpo deslizante de Heero, e ele colocou sua outra mão ao redor da cintura esbelta do garoto. Ao mesmo tempo, Heero tentava manter-se em pé: estava ofegando, tossindo de tempos em tempos.

"Vamos, Heero". Quatre grunhiu ao esforço, levantando o peso de Heero, porque o adolescente continuava escorregando para baixo, as pernas incapazes de suportá-lo por muito tempo. "Nós estamos apenas indo para o banheiro, não é longe".

Descobrindo-se consciente, Heero forçou seus olhos a manterem-se abertos, as vítreas piscinas de cobalto entorpecidas para frente.

"Vamos...". Quatre tomou fôlego, e deu um passo à frente. Ele esperou Heero dar um passo trêmulo também e então deu outro.

"Quatre, isto é ridículo." A voz de Duo veio da porta. "Nesta velocidade, vocês chegarão lá só no ano que vem!"

"Você mantenha uma distância segura, Duo". Quatre avisou ofegante, se esforçando para evitar que o corpo de Heero caísse no chão. "Você não quer ficar doente, quer?".

Duo virou os olhos. "Como se isso realmente importasse!" Ele grunhiu e então se lançou para dentro do quarto.

"Duo!". Quatre exclamou, ríspido. "Nós tínhamos concordado em...".

Ignorando o discurso de Quatre, Duo andou até os dois e rapidamente tirou os pés de Heero do chão, carregando o rapaz doente em seus braços.

Desorientado, Heero piscou algumas vezes, tentando forçar sua mente enevoada a funcionar para entender por quê ele não podia mais sentir o chão sob seus pés. Ele tossiu e gemeu, cansado, incapaz de clarear sua mente confusa o suficiente obter algumas respostas. Ele apenas deixou seus músculos doloridos relaxarem e mergulhou no suave abraço, descansando sua cabeça contra aquilo que pensava ser um travesseiro.

"Duo você vai ser infectado!" Quatre protestou, quando Duo virou-se para a porta, ajeitando o corpo flácido de Heero em seus braços para segurar melhor o garoto inconsciente. Começou a andar para fora do quarto.

"Duo!". Quatre exclamava atrás dele, com a voz cheia de preocupação. "DUO!".

"Não se preocupe, Q-Man. Eu seguro a respiração!". Duo rosnou, caminhando até o banheiro. Atrás de si, ele pode ouvir Quatre suspirar forçosamente, mas ele podia dizer que o loiro o seguia, apesar disto.

Voltando a atenção para o adolescente em seus braços, Duo ficou surpreso ao saber o quão leve Heero era. Claro que ele tinha um corpo esbelto, mas Duo jamais pensara que aquele garoto poderia ser tão leve. Seu corpo pequeno ajustava-se perfeitamente em seus braços.

Ele se apressou até o banheiro, sentindo o calor irradiado do corpo de Heero; seu suor também subindo sobre suas roupas.

Uma vez dentro do banheiro, ele se ajoelhou em frente à banheira, com Heero ainda em seus braços. Baixou o olhar para o garoto inconsciente e respirou fundo. "Isto vai ficar um pouquinho frio". Ele falou calmamente, e então, gentil e cuidadosamente, baixou Heero dentro da água fria.

"Ahhhh...!!" O garoto clamou fracamente, se retraindo com o contato desagradável. "N-nan desu ka¹...?" .

"Shhh... Isto irá fazer você se sentir melhor". Duo acalmou-o, enquanto pegava um pouco de água com a mão em concha, lavando o rosto fervente de Heero.

O garoto japonês gemeu baixinho, tremendo sob a água fria. "Iiya... Na-No... Sair... ²".

"Shhh... Só mais um pouquinho". Duo prometeu suavemente, afastando um pouco a franja de cima dos olhos de Heero. Ele estava segurando a cabeça de Heero para cima com uma mão, para ter certeza de que ele não afundaria sob a água fria, enquanto usava a outra mão para lavar os traços pálidos de Heero.

Por um longo tempo, o banheiro ficou em silêncio, a não ser o suave crepitar das chamas e o som da água pingando. Duo lavava Heero cuidadosamente enquanto a suave luz das velas cintilava suavemente sobre sua pele molhada, refletindo as gotas de água. O rosto de Heero era um jogo de sombras, sua pele dourada parecia rica e mais exótica sob a cintilante luz escura. Ele mantinha-se engolindo a respiração profunda, gemendo baixinho, quando as mãos de Duo viajavam cuidadosamente sobre sua pele fervente, lavando-o gentilmente.

"F-Fr-Fri... Frio..." Heero murmurou subitamente, com os dentes batendo e tremendo violentamente.

"Eu sei Heero. Eu sei". Duo sussurrou baixinho, olhando para ele com aflição nos olhos violetas.

"Duo". A voz de Quatre veio de trás de onde o jovem estava parado, olhando os dois atentamente. "Não é muito bom deixá-lo aí por muito tempo".

"Eu sei, Quatre". Duo sussurrou, colocando um pouco mais de água na sua mão em concha e derramando-a lentamente sobre a fronte ardente de Heero. "Mas ele ainda está muito quente. Eu só quero deixá-lo esfriar um pouco mais."

"Tudo bem". Quatre sussurrou, olhando-os impotente. "Eu só vou... Eu vou arrumar a cama dele". Finalmente murmurou, deixando o aposento. Antes de sair, ele voltou-se para os dois, olhando preocupado para Duo. "Apenas... Apenas tome cuidado para que ele não desmaie por causa do frio".

"Eu tomarei.". Duo respondeu sem deixar de olhar para Heero.

Quatre assentiu lentamente e deixou o banheiro.

Submerso na banheira, Heero continuava tremendo, esforçando-se para manter os olhos abertos enquanto ele olhava para o garoto que o estava banhando.

Duo forçou-se a sorrir por Heero, usando a mão que estava segurando a cabeça de Heero para acariciar os cabelos espessos e úmidos.

Heero piscou algumas vezes, parecendo confuso. "D-Duo?".

"Sim, Heero?". Duo respondeu lentamente, notando a crescente confusão naqueles olhos azul cobalto.

Heero também não respondeu, fechando lentamente as suas pálpebras.

"Não! Heero! Fique acordado!". Duo chamou, quando sentiu que o corpo de Heero amolecer em seu braço. "Você tem que ficar acordado, Heero. Fique acordado".

Aqueles olhos azuis vidrados se abriram novamente e o garoto levantou o olhar para ele. "Na... Ni...?". Ele disse rouco, olhando ao redor confuso.

Duo suspirou e gentilmente acariciou a bochecha de Heero. "Ei, cara, você tem que se manter acordado, tudo bem?". Ele falou calma e lentamente, o suficiente para o amigo entender. "Sem dormir".

Heero piscou algumas vezes mais, apenas encarando-o por algum tempo e finalmente concordou.

Duo sorriu ligeiramente. "Bom garoto". Ele franziu as sobrancelhas quando sentiu o rapaz tentar se levantar, os olhos azuis olhando ao redor do aposento como se procurasse por alguma coisa. Ele gentilmente empurrou Heero de volta para a água.

"Só mais um pouco, Heero. Eu prometo".

Suspirando profundamente, Heero deixou-se afundar no abraço de Duo. Ele fechou os olhos e respirou fundo. "Ela não está aqui...".

Franzindo a testa, Duo olhou sobre seu ombro e voltou-se para Heero. "Quem não está aqui?".

Mas o garoto não respondeu, os olhos azuis observando tranqüilamente enquanto Duo o banhava.

Depois de se certificar de que o corpo dele havia esfriado para uma temperatura normal, Duo pegou o jovem japonês em seus braços e saiu do banheiro. Heero estava derivando entrando e saindo de sua consciência, segurando fracamente a camisa de Duo, o olhar vidrado apenas capaz de registrar o que via ao redor dele. Quando eles entraram no quarto de Heero, Duo pode sentir o corpo tenso de Heero e o rapaz japonês segurar sua camisa com mais força.

"Está tudo bem, Heero". Ele sussurrou, baixando o olhar para Heero com tranqüilidade. "O quarto é seguro, não se preocupe". Ele pode ver os olhos de Heero observando o quarto com atenção, procurando, mas depois de algum tempo ele apenas relaxou no abraço de Duo, descansando sua cabeça no ombro do garoto de trança.

"Eu irei apenas pegar um cobertor novo". A voz de Quatre alcançou-os suave através do quarto escuro e sua pequena imagem podia ser vista parada ao lado da cama iluminada por uma simples vela.

Duo assentiu e andou até a cama. Ele gentilmente colocou Heero sobre a pequena cama, percebendo que o garoto ainda estava tremendo. Ele vestia apenas um par de shorts, mas eles estavam completamente ensopados.

"Vamos tirar estas roupas molhadas..." Ele murmurou com um suspiro. Cruzou com Quatre, que estava procurando no quarto a mochila de Heero, largada em algum lugar no chão.

Na cama, Heero ainda estava olhando ao redor, seus olhos procurando sob a escura luz alaranjada do quarto. Seus olhos arregalaram-se quando pararam nela, sentada na pequena cadeira branca, olhando-o com seus enormes olhos de avelã. Ele engoliu, lentamente levantando seu corpo trêmulo.

"Diga alguma coisa". Ele pediu para ela, ofegando com o pequeno esforço.

A menina apenas encolheu os ombros e balançou a cabeça impotente.

"Por favor". Heero pediu novamente, sussurrando com a voz rouca e áspera.

"Huh? Você disse alguma coisa Heero?". Duo perguntou, voltando-se para a cama e segurando uma nova muda de roupas para Heero. Ele fez uma careta quando viu que Heero estava olhando para o outro lado, jamais o encarando. O corpo dele ainda estava tremendo com calafrios, batendo os dentes e a água pingando dos cabelos e do torso.

"Vamos, nós vamos vestir você em alguma coisa quente". Duo encorajou-o suavemente, sentando-se na cama sobre os seus joelhos e encarando Heero. Ele cutucou o japonês gentilmente, tentando ganhar sua atenção. "Heero? Vamos, apenas vista isto. Você está tremendo".

Lentamente Heero virou seu olhar atordoado para o outro garoto, ainda totalmente alerta para a presença da garota. Ela estava olhando para ele com seus olhos cor de avelã, curiosos. "V-Ve-Ves-Vestir?". Heero gaguejou entre o bater de dentes.

"Sim, vamos lá, eu vou ajudá-lo". Duo garantiu, dando-lhe um par de shorts cinza de algodão.

Heero engoliu, enviando um olhar nervoso para a garotinha. Voltando a face para Duo outra vez, balançando a cabeça. "N-nã-não!".

Duo virou os olhos. "Nah! Heero, vamos!" Ele pediu um pouco aborrecido. "Não vá me dizer que sua timidez decidiu crescer de repente".

A garotinha riu e Heero corou furiosamente. Engolindo em seco, ele olhou furioso para a pequena. "Agora não".

Duo rosnou. "Chk! Heero, eu posso te assegurar de que você não tem NADA que eu não tenha visto antes!". Ele exclamou e pulou da cama. "Tire estas roupas molhadas!".

Heero virou a cabeça para frente teimosamente, e então se jogou na cama.

"Heero". Duo tentou novamente, mostrando o aborrecimento em sua voz.

"Ela vai ver".

"Hã?!" Duo piscou, mais do que um pouco confuso. Olhando para a esquerda e a direita e então de volta para a cama. "Quem vai ver?". Enviando outro olhar sobre o ombro e depois observou Heero olhar para a cadeira com um sorriso nervoso. Ele revirou os olhos e voltou-se para o garoto na cama. "Heero, não há ninguém aqui".

Balançando a cabeça, Heero fechou os olhos e olhou para frente. "Não... Ela está lá... Ela vai me ver..."

Duo enviou um novo olhar ao redor do quarto, mas obteve o mesmo resultado. Agora preocupado, virou-se para Heero. "Não há ninguém aqui, Heero." Ele falou lentamente, sentando-se ao lado do outro rapaz. Notou que ele ainda estava tremendo e pingando água de seu torso exposto.

"Não... Ela está lá... Olhando... Ela está sempre olhando... Diga para ela sair..." O garoto murmurou, balançando a cabeça levemente. Ele abriu os olhos suplicantes para Duo. "Por favor... Diga para ela parar de olhar...".

"Heero". Duo começou a ficar um pouco desesperado. Ele alcançou a mão de Heero, sentindo-a quente, apesar do banho frio. "Heero, somente nós dois estamos aqui".

"Não..." O garoto protestou, tossindo fracamente. "Diga para ela...".

Suspirando pesadamente, Duo apertou a mão de Heero e a sua outra mão, ergueu-se, cuidadosamente afastando um pouco a franja suada dos olhos de Heero. "Tudo bem, Heero. Eu direi a ela". Ele sussurrou, observando dolorosamente enquanto o rapaz afundava na inconsciência. "Eu direi a ela". Ele repetiu suavemente, levantando-se. Lançando um último olhar incerto pelo quarto, Duo suspirou e então se virou para Heero. Ele rapidamente despiu-o e vestiu o corpo trêmulo do garoto com roupas secas e quentes.

Se ele pudesse, teria visto que sobre a pequena cadeira branca havia uma bola rosa abandonada... e que sua dona agora, se fora.

Notas da Tradutora – Tina-chan:

¹ "Nan desuka?" "O que há de errado?"

² "Iiya... Na-no...Out..." "Não... Na-Não...Sair..."