CAPÍTULO 2 – CHOCOLATE QUENTE E SNAP EXPLOSIVO

Harry sentiu-se pesado na cama. Virou-se de um lado para o outro desconfortável sem conseguir abrir os olhos. Alguma coisa o sufocava e o impedia de acordar. Havia algo em seus braços que o impossibilitavam de levantar-se, suas pernas pesavam como chumbo e sua cabeça girava a mil, totalmente desperta. Consciente de tudo ao seu redor, tentou relaxar deitando-se de bruços.

Não era a primeira vez que aquela sensação o possuía na cama. Era exatamente como se seu corpo ainda não estivesse completamente pronto para acompanhar sua alma já desperta, afogando-o em uma sensação profunda e fria de agonia.

Podia ouvir perfeitamente os ruídos no quintal. Ouvia uma cigarra cantar longe embora a neve que caira toda a semana ainda insistia em cair, quase sentia os flocos de neve deslizando pelas janelas e cobrindo as árvores nos morros que cercavam a Toca. Estas farfalhavam dissimuladamente, como se conscientes ao dar à noite um toque mais sombrio.

Quando percebeu que finalmente conseguia levantar os braços e apóia-los na cama para levantar-se, se sentou de uma vez. Espantou-se com a escuridão que o engolia. Automaticamente levou a seu campo de visão o relógio que carregava consigo em seu pulso esquerdo e apertando o pequeno botão lateral luminoso constatou ser três horas da manhã.

Voltou a deitar, apoiando a cabeça no travesseiro e com medo de dormir novamente, puxou as cobertas devagar para mais próximo do corpo, encolhendo-se.

Talvez fosse o fato de que fora dormir muito cedo, mas a questão era quer Harry se sentia mal deitado na cama. Checou o relógio mais uma vez esperando que a visão real do horário fizesse seu corpo desistir de sentir-se tão acordado e voltasse a se enrolar no cobertor. Apoiou as costas na cama, os braços abertos com as mãos relaxadas entre a cabeça e o travesseiro. Levantou as pernas apoiando ambos os pés na cama quente, de modo que seus joelhos, assim como seus olhos, apontavam para o teto baixo do quarto. As cobertas lhe cobriam apenas o tórax, deixando os braços e as pernas para fora.

Pensou em Edwiges e se perguntou onde a coruja estaria agora com aquela fina neve que insistia em cair.

Estava prestes a se levantar quando ouviu um leve ruído de metal e viu a maçaneta entrar em movimento vagarosamente. Afundou a cabeça no travesseiro dando as costas para a porta e fechando os olhos com as pernas sobrepostas uma na outra. Por um momento pensou em virar e encarar a pessoa que entrava em seu quarto as três da manhã, mas pensou que seria prudente continuar deitado ali, passando-se por inconsciente, já que não queria a companhia de ninguém. Pensou na hipótese de ser Rony ou Hermione e lembrou-se quase sem querer do fato de não se recordar de nenhum dos dois no jantar. Se fosse realmente um dos dois muito melhor não seria. Não queria a companhia de ninguém e isso incluía precisamente Rony e Hermione.

Ouviu passos leves se afastando em direção a porta, constatando não ter ouvido os passos da pessoa quando aproximou-se da cama. Seria seguro dar uma espiada agora? A pessoa provavelmente também se encontrava de costas deixando o quarto.

Virou o pescoço lentamente levantando-o, seu corpo acompanhando o movimento, um olho ainda fechado e...

- Cedrico! - exclamou.

Por um momento pensou ter acordado a Toca inteira.

- Shhhh! Harry!

Livrou-se das cobertas e sentou na cama, as pernas cruzadas na posição de índio.

Cedrico fechou a porta. Retrocedeu até a cama.

- Desculpe! Eu... estava sem sono Harry. Não conseguia dormir. Pensei que talvez... você estivesse acordado.

- Estava acordado - respondeu Harry.

- Também não conseguiu dormir?

- Não muito - concordou com um sorriso.

Percebeu que o quarto de repente pareceu menor. O teto parecia despencar alguns centímetros, dando-lhe a impressão de que estavam em uma pequena caverna estreita e abafada.

Estava prestes a perguntar se o outro gostaria de fazer algo, conversar ou qualquer outra coisa, quando um vulto branco cruzou a primeira janela do quarto, desaparecendo alguns segundos e reaparecendo logo na segunda janela. Leves batidas confirmaram que Edwiges acabara de chegar.

Cruzando o quarto, Harry foi até uma das janelas e abriu-a dando passagem a coruja. Edwiges sobrevoou o aposento, sacudindo as penas pousou mansamente em sua gaiola. Piou baixinho exigindo a atenção de seu dono. Harry logo pôs-se a acariciar seu peito, dando-lhe um sorriso paternal.

- É linda - disse Cedrico, os olhos na coruja.

- É sim.

Edwiges de repente pareceu vangloriar-se, como se entendesse que estava sendo elogiada e admirada. Sacudiu mais uma vez as penas úmidas.

Os olhos de Harry se perderam momentaneamente. Suas mãos pararam de acariciar a coruja.

- Hum... quer fazer algo? Sair daqui? – perguntou.

- Snap explosivo? – sugeriu Cedrico incerto, um sorriso torto no rosto.

Harry sorriu concordando com um aceno de cabeça.

A Toca estava completamente imersa em escuridão. As janelas tremeluziam com a força do vento, todas completamente embaçadas e geladas com o contato da neve. Harry percebia agora mais alguns enfeites natalinos espalhados pela sala escura. Tapetes temáticos vermelho sangue cobriam quase todo o chão, enquanto o mesmo cheiro agradável do primeiro dia ainda rondava por toda a casa.

Desceram as escadas com cuidado, apertando os olhos para enxergarem melhor a sala escura. Logo cruzaram o hall e sentaram-se no sofá no centro, próximo a uma pequena mesinha de mogno. Harry desejou ter posto um agasalho, já que a sala não era tão bem aquecida como os quartos.

- O baralho! – lembrou Cedrico – esta no meu quarto, volto já.

- Não, eu posso pegar. Aproveito e visto alguma coisa mais quente.

- Certo. Quer chocolate quente?

Harry concordou dando de ombros. Levantou-se e rumou para a escada, os olhos estreitando-se novamente em total escuridão.

Quando voltou a sala, vestindo um grosso suéter de lã mostarda e carregando o baralho de snap nas mãos, Harry esperava encontrar Cedrico na cozinha, preparando o chocolate. Esquecia-se de que o garoto já era permitido usar magia no cotidiano. Esquecia-se de que ele já era maior de idade e podia conjurar quase qualquer tipo de coisa ou busca-la com um simples feitiço convocatório.

Cedrico ainda tinha aquele ar de garoto estudante, monitor em Hogwarts, embora já tivesse seus dezenove anos de idade. Suas piadas, brincadeiras e idéias malucas (onde já se vira uma partida de cartas com um vampiro privado de sangue há uns bons longos anos?) o faziam parecer um adolescente mimado e ativo, mas ao mesmo tempo, seus conselhos, olhares e alguma coisa em sua fala o faziam transbordar sabedoria. Era uma contradição ou mistura válida e Harry apreciava isso em um amigo.

Cedrico estava na sala, sentado no sofá com os pés confortavelmente apoiados na mesinha. Agora havia uma pequena luminária na mesa, que Harry, obviamente, supôs ser obra do garoto.

- As coisas aqui são tão diferentes - suspirou Cedrico. Tinha um leve sorriso no rosto e parecia impressionado.

- Diferentes? - indagou Harry, sentando-se no outro canto do sofá enquanto já embaralhava um punhado de cartas - Como diferentes?

- Papai e mamãe não são muito de comemorar o natal em casa. Ou estão sempre muito ocupados ou sempre muito cansados para qualquer tipo de coisa - disse - Aqui as coisas são incrivelmente diferentes! A Sra. Weasley é tão enérgica e cheia de idéias.

- Realmente - riu-se Harry - No que diz respeito a comemorações os Weasley são magníficos!

Cedrico bebeu um gole de seu chocolate.

- Sabe Harry - começou, passando para o outro uma caneca fumegante como a sua – não me leve a mal, é interessante como fazemos um juízo precipitado de alguém, mas sempre achei que você fosse um pouco arrogante e se achasse um tanto especial pela cicatriz, sabe? Não que não seja – ele arregalou os olhos e sorriu sem graça - é claro que ela te torna único mas...

- É, eu compreendo - interrompeu Harry ansioso - ás vezes fica difícil não acreditar no que as pessoas comentam. Ainda mais quando se tem O Profeta publicando todos os passos que você da ou alarmando cada experiência particular da sua vida.

Harry suspirou parecendo cansado. Será que seria sempre daquele jeito? As pessoas simplesmente ignorariam o fato de ser ou não verdade e acreditariam em qualquer noticia sensacionalista a respeito dele?

- É claro que há uns dois anos, no Tribruxo, quando praticamente fomos obrigados a ter um certo contato – Cedrico continuou – percebi que a coisa toda não era assim. Vi que você na pior das hipóteses não era um completo filhinho de papai como eu pensava – ele permitiu-se mais um sorriso sem graça - mas isso não me impediu de equivocadamente considerar toda aquela ajuda com os dragões ou depois no labirinto um pouco forçada, entende? Você realmente me surpreendeu naquele maldito labirinto e principalmente depois com o Vol... Você-Sabe-Quêm. Só de pensar que se não fosse por você eu estaria morto agora – ele suspirou. Havia um sorriso em seu rosto e seus olhos tentavam capturar os de Harry, que estavam grudados na caneca de chocolate quente.

- É difícil, não é? - perguntou Cedrico, o sorriso inquieto ainda nos lábios.

- Como?

- Deve ser difícil! – ele continuou - Ser sempre noticia, não ter privacidade, ver sua vida distorcida em todos os jornais e revistas e encarar o fato de que milhões de pessoas o conhecem sendo que realmente não o conhecem.

Harry sorriu impressionado. Satisfeito, finalmente levou os lábios à caneca, concordando com um leve aceno da cabeça. Cedrico o olhava fixamente.

- É um preço a se pagar – disse Harry após o chocolate.

Esquentou-se com mais um gole. O chocolate quente, afinal, fora uma ótima idéia.

As cartas logo foram distribuídas e a partida começou. Falhavam às vezes em relação ao controle do volume de suas vozes. De repente, entre uma jogada e outra, um se alarmava, gesticulando e aumentando consideravelmente o tom, o que era rapidamente reprimido aos sussurros pelo outro.

Em meia hora, Cedrico conjurara mais outras duas canecas de chocolate quente, enquanto a terceira partida começava. Dois grossos cobertores foram também conjurados pelo rapaz. Agora sim estava realmente maravilhoso. Harry sorria sem motivos no jogo. Cedrico acabara com ele nas duas partidas anteriores.

Gargalhavam em silêncio quando um dos dois tentava de alguma forma realizar uma jogada completamente não adequada para o momento, tentando contornar as regras do jogo.

- Não, não, não Cedrico! – riu-se Harry – não vai me pegar de novo! Essa carta não pode entrar ai.

- Ora, e por qual motivo não poderia? – ele rolou os olhos.

Tiveram que recomeçar a terceira partida por duas vezes, tamanha era a bagunça com as cartas na mesa. Mais duas canecas conjuradas.

Cedrico estava de olho no jogo, uma expressão compenetrada e risonha enquanto analisava as cartas na mesa e nas mãos do outro.

- Hey! - gargalhou, virando-se derrepente para Harry - Três cartas na mão?

- O que quer dizer? - perguntou Harry tentando soar surpreso, devolvendo a caneca à mesa.

- Não tente ser engraçado meu amigo! - ele sorria, torcendo o rosto em uma fingida expressão de reprovação - a sua última carta era um Az, não é mesmo? Agora você tem um rei e um valete! Você é terrível! Nem mesmo roubar no snap consegue!

- Não! - gargalhou Harry, fechando o leque de cartas nas mãos.

Cedrico riu balançando a cabeça. Aproximou-se a fim de analisar as duas cartas extras que Harry possivelmente incluíra escondido em seu jogo.

- Vamos Harry, deixe-me ver essa sujeira.

Harry sorriu desajeitado. Fitou o garoto. Analisou os cabelos castanhos e lisos espalharem-se em um corte moderno que combinava perfeitamente com seu rosto simétrico enquanto Cedrico se aproximava. Os olhos eram tão cinzas que o assustava. Tinham alguma coisa capaz de transmitir juventude e liberdade. A boca, viva e chamativa, delineava-se por inteiro naturalmente... Harry surpreendeu-se mais uma vez naquele dia em seu transe inconsciente, em seus profundos e delirantes pensamentos. Fazia dias que aquele rosto o capturava. Sabia que realmente estava delirando, mas não podia deixar aquele delírio para trás. NÃO AGORA! Não agora que estava tão próximo, não agora que podia sentir a respiração de Cedrico aumentando junto a sua, não agora que seus olhos estavam tão bem refletidos nos profundos olhos cinza claro de Cedrico. Aqueles benditos olhos, olhos tão claros e expressivos quanto os seus, olhos que surpreendiam e que em um leve piscar, desapareciam... Agora só havia a boca, viva e chamativa, prestes a delinear-se a de Harry.