CAPÍTULO 4 – CHÁ COM HAGRID

A viagem de volta para Hogwarts seguia lenta. O Nôitebus sacudia e desviava de casas, postes de luz, cabines telefônicas e prédios espalhados por toda a Londres, mas Harry não parecia se importar com isso. Ele ouvira Rony se aproximar e lhe perguntar se estava tudo realmente bem, viu-o de relance se afastando e ouviu os cochichos mal contidos e apressados do amigo para a namorada e a irmã, quando este se juntou a elas em uma poltrona tripla a um canto do ônibus, informando-lhes que estava tudo bem e que o que Harry mais precisava no momento era descansar e ficar sozinho, o olhar vidrado de Hermione transbordando preocupação.

Ele despedira-se do Sr. e da Sra. Weasley da forma mais rápida possível na Toca. O Sr. e a Sra. Diggory receberam um leve aceno de cabeça em forma de despedida e Harry não se preocupou no quanto isso pareceria estranho e mal educado. A verdade é que havia poucas coisas, assuntos seletos, com que ele se preocupava genuinamente nas últimas horas.

Sua cabeça afundara em um estupor profundo que o impedia de qualquer forma de interação com o mundo. Ele não conseguia e muito menos desejava explicar os motivos a Rony e Hermione pelo qual estava tão distante e aéreo desde o almoço de natal. Maldito natal. Se houvesse alguma forma de apagar aqueles dias de sua mente ele os apagaria tão insana e bruscamente como um borrão mal vindo em um pedaço de pergaminho.

I can't believe what is in front of me
The water's rising up to my knees
And I can't figure out
How the hell I wound up here

Respirou lentamente mais uma vez. A cabeça encostada na almofada roxo berrante que combinava com a confortável poltrona também revestida de couro roxo. Seus olhos acompanhavam as repentinas mudanças de paisagem pela larga janela de vidro cristalizado do ônibus, logo atrás da poltrona. A chuva fina que caia parecia acalmá-lo, fazendo a caridade de derrubar todas as lágrimas que ele tanto queria, mas não podia expurgar.

"Não era uma questão de tentativas" ele repetia para si mesmo. Não havia possibilidades para tentativas, era absolutamente inquestionável. Ele já havia se sentido atraído por outros garotos, ele não negaria isso, não era novidade de forma nenhuma, mas a situação com Cedrico era totalmente inusitada. Houve pensamentos de aproximação, vontades inexplicadas, surtos e dúvidas, mas Harry nunca havia pensado em realmente chegar em tal situação. Ele não sabia como lidar com um beijo e muito menos o desenrolar dos eventos. Era tudo muito errado além de complicado. Era claro para ele agora que o acontecimento na Toca pareceu quadruplicar a seriedade e principalmente a insanidade de seus pensamentos em relação a qualquer tipo de aproximação com garotos. Agora não eram apenas pensamentos, eram mais que isso. Eram como marretes que martelavam seu cérebro involuntariamente, não o deixando nunca desligar-se de seus males e agonias.

As malas dos meninos foram postas para fora do bagageiro assim que o Nôitebus, aos trancos, deslizou pela plataforma de Hogsmead. A neve fina que caíra todo o natal já cessara, mas seus vestígios ainda podiam ser encontrados por toda a estação. As montanhas ao redor eram uma mistura de verde escuro, preto e branco opala, a chuva fina que caia desde o final da noite do dia vinte e cinco não era suficiente para dissolver os pesados blocos de neve que jaziam por todos os locais planos da paisagem.

O castelo ainda parecia magnífico mesmo ao lado de fora, coberto de neve e luzes que mesmo à claridade do dia refulgiam intensamente. O interior fora decorado com o habitual: pinheiros espalhados pelo Salão Principal, neve encantada por todos os cantos, azevinho, mais luzes refulgentes e armaduras enfeitadas por todo os corredores.

Harry, Rony, Hermione e Gina, carregando suas bagagens, dirigiram-se ao Salão Comunal da Grifinória, após cruzarem os portões altos ladeados por javalis alados e as portas de carvalho do Saguão de Entrada, todos muito calados e aparentando cansaço da viagem no ônibus bruxo.

Embora os aposentos continuassem decorados com todos os enfeites de sempre, o clima natalino no castelo parecia de leve esvaído, englobando-os em um clima típico de fim de festa. Os alunos que chegavam de suas viagens pareciam acolher-se ao clima do castelo, desfazendo as malas, comentando suas novidades e mostrando seus presentes uns aos outros.

Harry não desfez as malas. Subiu as escadas em caracol até o dormitório sem trocar nenhuma palavra com quem quer que fosse, livrou-se dos tênis, das meias e se jogou na cama. Aparentemente, o efeito de alegria instantânea que Hogwarts sempre lhe causava na ocasião de reaproximação do castelo após um período longe não seria suficiente para tirar as sufocantes lembranças do natal de sua cabeça.


Suspeitava que sua vida a partir de agora se tornaria esse estupor maçante, achando todas as suas eventuais idéias não bem estruturadas o suficiente para mudar a situação.

Everything seemed okay when I started out the other day
Then the rain came pouring down
And now I'm drowning in my fears
And as I watch the setting sun
I wonder if I'm the only one

A manhã de domingo passara incrivelmente rápida. Rony e Hermione desapareceram pelos jardins cobertos de neve enquanto ele permanecera deitado em seu quarto. Nem mesmo seu comportamento apático durante todo o dia anterior no almoço de natal parecera despertar realmente a atenção de seus amigos para si e isso, surpreendentemente, começou a afetar seu humor. Deixou a sala comunal raivoso, pensando pela milésima vez naqueles meses que se Rony ou Hermione não parecia precisar dele, ele também não demonstraria precisar dos dois.

A tristeza que abafava como uma cortina de aço seus pensamentos ganhou um certo tom rabugento quando desceu paro o Salão Principal no horário do almoço. Estava irritadiço e reclamava de tudo, das menores coisas possíveis, mas não se importava com isso. Seria chato e rabugento se seus amigos agora viviam a excluí-lo.

Cause everybody tries to put some love on the line
And everybody feels a broken heart sometimes
And even when I'm scared I have to try to fly
Sometimes I fall
but I've seen it done before
I got to step outside these walls

Almoçou sozinho na mesa da Grifinória. Na verdade, mal tocara o prato, tinha esperanças de encontrar Rony ou Hermione no Salão e despejar uma tigela pesada de mingau em suas cabeças. Deixou a mesa ainda mais rabugento e rumou para os jardins, queixando-se da falta de silêncio no Salão Principal.

Um sol fraco estampava o céu claro, mas o ar era levemente frio. A grama estava coberta por uma grossa camada de neve, assim como as estufas e como as árvores na Floresta Proibida. Pensou em rumar direto para o lago semicongelado onde poderia sentar-se e ficar só, mesmo já não querendo ficar tão só assim, quando deparou-se com o enorme bolo confeitado de glacê que tornara-se a cabana de Hagrid após o período de tempo ruim no natal. Fazia tempo que não visitava o amigo.

Desceu o jardim, a capa ajeitada no corpo, as mãos enluvadas no bolso.

I've got no master plan to help me out
Or make me stand up for
All the things that I really want
You had me to afraid to ask
And as I look ahead of me
Cry and pray for sanity

Subiu os estreitos degraus de pedra que conduziam à larga porta de madeira na cabana do guarda caças. Ele precisava de qualquer forma tentar distrair-se. Precisava a qualquer custo tirar da cabeça o beijo de Cedrico e o motivo daquilo ter-se tornado tão único, tão... obsessivo. Bateu de leve na porta.

- Harry? Que surpresa! Não sabia que já tinha chegado das férias! Entre, entre!

O ar hospitaleiro de Hagrid fora sempre surpreendente. Ele era o tipo de pessoa que sempre mostrava-se disposta a abrir um grande sorriso quando qualquer amigo precisasse. Dessa vez não surpreendeu-se com toda a simpatia, apenas agradeceu aos céus por ter um amigo como Hagrid, dono daquele sorriso contagiante.

- Cheguei hoje cedo pela manhã - ele disse, sorrindo de volta – bom natal?

- Ah sim, sim! Muito bom natal! Recebeu os diabinhos de pimenta? – ele perguntou enquanto fechava a porta e Harry já se acomodava a grande poltrona de trapos à beira da janela.

- Sim, obrigado! – Harry sorriu – e o kit selvagem para jardinagem?

- Ah Harry! Aquilo com certeza foi uma fortuna! E aqueles sacos de fertilizante de brinde! Oh, obrigado Harry!

Harry sorriu balançando a cabeça. Esquadrinhou com um olhar natural a cabana como era de costume fazer. Percebeu um grande embrulho azul bebê na cama peluda de Hagrid. Quem presenteara Hagrid com algo embrulhado em papel tão excêntrico e chamativo não era devidamente da conta de Harry, mas talvez seu olhar indagador e inconsciente na ocasião não refletia exatamente o que o garoto pensava. Levou alguns segundos até Harry perceber que estava de olhos fixos na coisa brilhante e excessivamente enfeitada azul bebê.

- Presente de uma amiga – disse Hagrid explicativo por fim.

- Hum, então o natal foi realmente bom – ele sorriu cabisbaixo.

- Não diga besteiras Harry! Sabe, às vezes me espanto com a grandiosidade desse lugar! Tantos alunos diferentes, vidas diferentes e nós aqui, sempre tão enraizados em nossas rotinas!

- Como é?

- A verdade é que pensei que passaria um natal monótono, sozinho como sempre – disse Hagrid acomodando-se a mesa próxima - Claro que sempre tenho a companhia de Dumbledore e alguns dos outros professores e já me acostumei com a idéia de Olimpia nunca ter muito tempo para mim dirigindo aquela escola francesa dela, mas a questão é que tive um natal bem interessante.

Harry encolheu-se. Nunca havia pensado que o natal poderia significar um período melancólico para Hagrid. Pareceu esquecer por uns momentos a agonia no peito que crescia quando pensava em Cedrico, ou quando já nem mesmo pensava, para sensibilizar-se e se encher de culpa.

'Cause everybody tries to put some love on the line
And everybody feels a broken heart sometimes
And even when I'm scared I have to try to fly
Sometimes I fall
but I've seen it done before
I got to step outside these walls

- Então? O que aconteceu de tão interessante? – perguntou novamente tentando sorrir.

- Nada de muito peculiar – Hagrid respondeu alegre – creio que não conheça a Srta. Lovegood do quinto ano! Corvinal!

- De lua? Quero dizer... sim! A Luna!

- Harry! Não acho que seja de bom senso que fique apelidando alunos que mal conhece e que...

- Hey! Eu a conheço! E realmente não quero ofende-la com o apelido, eu... só... força do hábito, entende?

- Receio que sim. Mas o importante é que a menina Luna não passou as férias de natal com o pai como planejado e simplesmente nos tornamos bons amigos! O presente é dela. Belo embrulho, não acha? Ah Harry – ele suspirava, os olhos brilhantes como besouros polidos – um bom partido, hein? – acotovelou Harry – bonita, inteligente, com a cabeça no lugar... não se encontra uma garota assim por aí tão fácil nos dias de hoje meu amigo.

Harry sorriu. Achou no mínimo bizarro a repentina amizade de Lovegood e Hagrid e o fato do amigo parecer tão encantado com as qualidades da garota a ponto de querer empurra-la a ele. Fora isso, achou interessante e proveitoso Luna encontrar alguém para conversar e se distrair. Ela sempre parecera tão sozinha. Mesmo de volta na época da Armada de Dumbledore.

- Então passou o natal em companhia da Lovegood?

- Sim, sim! – ele suspirou levantando-se. Rumou para um fogão à lenha a um canto da cabana, retirou um enorme bule de aço da boca – chá Harry?

Harry concordou com um aceno da cabeça.

- Não tenho andado muito bem com Olímpia e Luna tem me dado uns conselhos Harry.

O garoto excitou. Então ele não era o único que andava precisando de conselhos nos últimos dias. Era engraçado agora perceber o quanto Hagrid estava certo a respeito de estarem tão enraizados em suas rotinas e não perceberem as rotinas de outros logo ao seu lado. Rony e Hermione por exemplo. Após o inicio do namoro pareciam ter esquecido completamente da existência de Harry. Era exagero pensar dessa forma. Não esqueceram da existência, mas pareciam claramente esquecidos de todos os momentos juntos que haviam passado. Os ruins, complicados e mesmo os momentos de felicidade.

Hermione parecia a mais afetada. Rony uma vez ou outra se juntava a Harry, tentava de certo modo começar uma conversa ou até mesmo uma partida de xadrez bruxo como nos tempos em que Hermione parecia muito desagradável para qualquer tipo de aproximação. Hermione agia de modo surpreendente. Não parecia a mesma. Harry sabia perfeitamente que toda as discussões e puxões de orelha que tivera com Rony era resultado de sentimentos retraídos, mas nunca cogitou a hipótese de ser completamente esquecido pela amiga quando esta finalmente se encontra-se atraída por Rony.

Eles ainda conversavam cordialmente, tomavam café na mesma mesa, assistiam juntos a mesmas aulas, mas era imensamente perturbador e doloroso ver como a garota parecia ter olhos somente para Rony. Ela não se importava com as atitudes grosseiras de seu namorado como sempre se importara com as mesmas quando Rony era apenas um amigo. Era como se Hermione estivesse agora fascinada por tudo o que Rony representava. Fosse isso algo ruim ou bom. Harry era apenas um amigo importuno e muito desinteressante.

Estava vidrado com os olhos na larga xícara que Hagrid lhe oferecia.

- Mas meus problemas com Olímpia não são interessantes, deixemo-los de lado. E o seu natal? Bom tempo com os Weasley?

Harry bebeu um demorado gole da xícara de chá. Os olhos fixos no chão.

- Férias... interessantes – ele respondeu carrancudo.

- Ora Harry! Todos nós sabíamos que iria acontecer algum dia não é mesmo?

- Como? – Harry engasgou com o chá

- Os dois! Estava na cara!

- Ah – gaguejou Harry – Hagrid...

- Rony e Hermione! Quero dizer, você melhor que ninguém sabe que os dois...

- Ah sim. Eles.

- É questão de tempo Harry. Sei que eles não devem encontrar muito tempo para você agora, não é mesmo? Mas essa empolgação toda é coisa momentânea meu amigo.

- É, deve ser – respondeu apático.

Esperava sinceramente que a vontade mista de abraçar Cedrico e logo depois lhe acertar um soco na cara fosse passageira também, mas é claro, Hagrid não poderia saber disso.

Uma coruja parda adentrou a cabana cortando o silencio momentâneo. Hagrid arregalou os olhos e levantou-se de uma das cadeiras de madeira que rodeavam a grande mesa no centro.

- Luna – respondeu – desmarcando o compromisso de hoje à tarde. Mas que pena! Você sabe Harry, o pai dela é dono do Pasquim?

- Sim, sei. Ele me ajudou no quinto ano publicando uma entrevista minha, não se lembra?

- Ah sim! Claro! Estão me fazendo um convite. Luna diz que sempre o acompanha e estão me convidando para visitar a redação hoje à tarde. Não, não, não! Não é para mim menina Luna! Alem do mais não posso abandonar a floresta hoje, os testrálios estão em época de cria, talvez... – ele sorriu para Harry – você possa ir no meu lugar Harry? Se quiser...

- Eu?

- Sim! Você! Aproveite o fim das férias e vá se distrair um pouco! Tirar esse assunto da cabeça, compreende?

- Hagrid, eu não..., é melhor... – começou Harry relutante.

Mas Hagrid parecia decidido a ajudar o amigo a tirar Rony e Hermione da cabeça e uma conversa com Luna parecia em sua opinião a coisa mais sensata a se fazer.

- Anda muito sozinho Harry e Luna é uma excelente companhia! Você vai gostar! Hoje à tarde, ás quatro! Vou mandar uma coruja de volta avisando a sua ida no meu lugar, okay? – ele perguntou com uma piscadela.

Harry suspirou pensativo. Luna ao menos parecia ter tempo para os amigos. Desde que não precisassem conversar sobre narguilés e os mistérios do ministério estaria tudo bem.

These walls can't be my haven
These walls can't keep me safe here
Now I guess I got to let them down

N.A. : A música é These Walls do Teddy Geiger.